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domingo, outubro 11, 2026

Os Reis da antiga 2.ª Divisão Nacional: Anos 40

1940: Farense conquista título frente ao Boavista em final manchada por confrontos violentos

Os Leões de Faro em 1940
Os primeiros anos de vida da 2.ª Divisão assumiram-se como uma verdadeira luta entre o norte e o sul pelo título de campeão. Mais do que o título entrava em campo a honra regional. Talvez por isso as finais do segundo escalão causavam verdadeiros fenómenos de mobilização popular dentro do país. Numa época em que viajar pelo país era difícil e dispendioso, organizavam-se "comboios especiais" e caravanas de camionetas carregadas de adeptos que atravessavam Portugal para apoiar as suas cores, transformando as bancadas num campo de batalha regional. Cenário este que se verificou na final da temporada de 39/40, em que a rivalidade da vizinhança porta com porta foi posta de lado em prol da defesa de uma cidade, neste caso a cidade do Porto. Tudo porque quer o FC Porto, quer o Boavista desceram, em simultâneo, à capital para lutarem pelo trono do futebol nacional da referida época. De forma mais precisa, os portistas pelo título de campeão nacional da 1.ª divisão e os boavisteiros pelo cetro nacional da 2.ª Divisão. Nesse sentido, os dois vizinhos da Cidade Invicta deram as mãos e organizaram um grande comboio especial conjunto para os seus adeptos se deslocarem até Lisboa para assistirem aos respetivos encontros: o FC Porto diante do Benfica (nas Amoreiras) e o Boavista ante o Farense (na Tapadinha). Os dois clubes portuenses haveriam de registar os mesmos resultados no rescaldo desta viagem decisiva à capital: 3-2. Porém, foi um score com sabores distintos: os azuis e brancos sagraram-se campeões nacionais, ao passo que os axadrezados deixaram fugir o título secundário para os Leões de Faro. Farense que para chegar à final havia vencido na 1.ª fase da competição a Série Algarve, com 9 pontos, eliminando na 2.ª fase os conjuntos do Luso de Beja (4-0) e do Casa Pia (também por 4-0). A grande estrela dos algarvios era, quiçá, o seu treinador, o lendário Joseph Szabo.


Nessa temporada de 39/40, o mestre da tática magiar orientou o Sporting, clube pelo qual conquistou o Campeonato de Lisboa, mas já no final da época aceitou o repto dos algarvios para orientar os Leões de Faro durante algumas semanas. Uma pequena incursão que haveria de ter contornos vitoriosos, já que na Tapadinha o Farense levou a melhor sobre o Boavista e conquistou o título da 2.ª Divisão. A final de 1940 foi envolta em polémica, muito por culpa do reputado (?) árbitro Carlos Canuto, que nas palavras do jornalista do Diário de Lisboa (DL) que assistiu ao encontro teve uma atuação «detestável». O juiz deixou passar em claro faltas muito feias: «choques de brutalidade, pontapés selvagens, agressões puras. O árbitro limitou-se a dar conselhos, a contemporizar.
Julinho, com as cores 
do Boavista
Fê-lo, nalgumas ocasiões, empurrando os jogadores, o que é contra as regras», descreveu o DL. Se já estava muito quente, o ambiente escaldou a meio da 2.ª parte, quando Laguna (do Boavista) e Gomes (do Farense) foram expulsos, uma decisão que provocou o caos total em campo. Quanto ao pouco futebol que se viu na Tapadinha, o Farense dispôs das melhores ocasiões para marcar nos minutos iniciais e numa delas Nunes abre o ativo. Quiçá contagiado pelo ambiente de cortar à faca que se fazia sentir dentro das quatro linhas, o guardião boavisteiro Pesqueira falha a interceção a um cruzamento vindo da direita do ataque farense para permitir que Nunes, de cabeça, bisasse. Já na 2.ª parte, o mesmo Pesqueira tem uma saída precipitada que seria aproveitada por Palmeira para elevar o marcador para 3-0. De nada valeriam os golos de Pina e Julinho – que depois de uma passagem pelo Académico do Porto haveria de ser estrela no Benfica durante 10 anos – para os nortenhos, já que o Farense segurou a vitória e dessa forma colocou as mãos no título. O Boavista ainda chegou a protestar o jogo, mas em vão, pois, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) confirmaria o Farense campeão. E campeões nessa tarde de 19 de maio de 1940 foram os seguintes jogadores: Ascensão, Domingos, Castela, Américo, Marti, Gomes, Catarino, Gralho, Palmeiro, Vilanova e Nunes. A grande festa aconteceu em Faro, no mês de julho, onde a comitiva farense foi recebida no Cine-Teatro Farense e das mãos do presidente do Comité Olímpico Português, José Pontes, recebeu a Taça "O Século".

1941: Olhanense alcança tricampeonato e abre caminho para uma Era Dourada na 1.ª Divisão

O Olhanense alcançou em 1941 o terceiro
título nacional da 2.ª Divisão
A década de 40 é por muitos rotulada de “dourada” quando se olha para a história do Olhanense. O clube algarvio disputa de forma ininterrupta até 50/51 a 1.ª Divisão Nacional com classificações dignas de registo, além de que vê vários futebolistas seus serem chamados às seleções nacionais, casos de Cabrita, Grazina e Salvador. E para chegar ao patamar mais alto do futebol luso o Olhanense saboreou pela terceira vez na sua história o sucesso no escalão secundário. Estávamos na temporada de 1940/41, quando os de Olhão atingem a final da 2.ª Divisão após terem vencido na 1.ª fase da competição a Série Algarve e posteriormente terem eliminado, na fase seguinte, o Juventude de Évora (4-0) e o Seixal (2-1). Treinados pelo húngaro Desiderio Hertzka, os olhanenses viajaram até Lisboa, onde a 22 de junho de 1941 mediram forças com o Leça. O cenário para este duelo foi o mítico Campo das Salésias, que nos 5 minutos iniciais presenciou um maior atrevimento dos leceiros. Depois disto, o Olhanense recompôs-se e com um futebol mais preciso passou à ofensiva. A partir da meia hora de jogo o equilíbrio passava a ser nota dominante e por esta altura o denominador comum era a boa exibição que os dois guarda-redes iam fazendo face às investidas contrárias. Contudo, na reta final da 1.ª parte o nó do equilíbrio é desatado pelos matosinhenses, que criam inúmeras ocasiões para marcar, mas sem sucesso. Faltavam os golos àquele que era então um bom jogo de futebol. E eles apareceram nos segundos 45 minutos e em dose farta para gáudio do numeroso público que acorreu às Salésias. Contra a corrente do jogo surgiu o golo leceiro: após uma fuga pelo flanco direito, Godinho bateu José Abraão. O tento não desarmou os algarvios, pelo contrário. Os remates em direção à baliza do leceiro Alfredo Dias “Jaguaré” sucediam-se, mas só aos 70 minutos o Olhanense marcou: Acácio António remata para uma defesa incompleta do guardião do Leça e na recarga Santos faz o empate. Embalado pelo golo, dois minutos volvidos o Olhanense chega à vantagem por intermédio de Joaquim Gomes. E aos 78 minutos João Baptista amplia a vantagem algarvia para 3-1. Só a partir daqui o Leça esboçou uma reação, dando trabalho ao keeper algarvio. Mas seria contra a corrente do jogo, que a cinco minutos dos 90 o Olhanense colocou um ponto final nas aspirações leceiras ao fazer o 4-1 final, por intermédio de Santos. Em jeito de balanço da final, o DL escrevia que «a vitória da equipa do sul teve incontestável merecimento e plena justificação. Com efeito, os seus jogadores evidenciaram melhor sentido de jogo, trabalhando a bola com mais arte que o seu adversário. No entanto, foi boa a réplica dos leceiros». José Abraão, José Ramos, César Murta, José Joaquim, Grazina, Calé, Jerónimo Lima, Santos, Acácio António, João Baptista e Joaquim Gomes foram os onze heróis que nas Salésias deram ao Olhanense o seu terceiro título de campeão da 2.ª Divisão.

1942: Nascido para vencer, o Estoril Praia sagra-se campeão nacional aos dois anos de idade

Estorilistas e leixonenses medem forças na final
Com apenas três anos de vida o Estoril Praia conquistou o primeiro de quatro títulos nacionais da 2.ª Divisão que reluzem nas suas vitrinas. Com apenas três anos o clube em si, pois a secção de futebol do emblema da Linha só seria criada em 1940 e desde logo com resultados – e títulos – dignos de registo. É caso para dizer que foi chegar, ver e vencer, assim se pode olhar para a estreia dos estorilistas no campeonato da 2.ª Divisão Nacional em 41/42. Integrado numa das 15 séries/grupos que figuraram na 1.ª fase da competição, o Estoril começou por levar a melhor sobre as reservas do Sporting, do Belenenses, do Carcavelinhos, e equipas principais do Casa Pia e do Futebol Benfica, avançando assim para a fase a eliminar da prova. Aí, deixaram pelo caminho o União de Tomar (5-0), o Vitória de Setúbal (3-0) e a equipa de reservas do Benfica – sim, a partir desta temporada algumas equipas de reservas de clubes da 1.ª Divisão competiram no segundo escalão. No seu grupo, o Estoril tinha alguns nomes de peso, desde logo o possante avançado jugoslavo Franjo Petrak, que antes de rumar para Cascais apontou 76 golos em duas temporadas ao serviço do FC Porto. O último obstáculo dos canarinhos para chegar ao título foi o Leixões, clube que se deslocou a Lisboa para no dia 7 de junho de 1942 tentar levar o caneco para o norte. As Salésias voltaram a ser o palco escolhido pela FPF para a disputa de um título que teve dois atos. Isto é, duas finais. Na primeira delas, o DL relatou que «ao fim de 120 minutos de jogo ardorosamente disputado, nenhum dos contendores se podia orgulhar de ter conquistado o almejado título, pois cada um deles contava com quatro bolas no seu ativo». É verdade, o muito e fervoroso público presente nas bancadas teve o privilégio de assistir a uma chuva de oito golos – quatro para cada lado – que obrigou à disputa de uma finalíssima apenas dois dias depois (!), onde a equipa da Linha venceu por 3-1.

1943: Com seis golos de Cardoso Pereira, Barreirense vence a final e garante o primeiro título da divisão onde é rei absoluto

Em 1943 nascia o rei da 2.ª Divisão: 
o Barreirense
Olhando para a história da 2.ª Divisão há um clube que se destaca no que ao palmarés diz respeito: o Barreirense. Com sete títulos no seu currículo, o clube da Margem Sul deu início a este legado de vitórias na temporada de 42/43, em que foi dado o primeiro passo de uma caminhada mítica que eternizou os alvi-rubros como os verdadeiros reis da prova. Após vencer uma das 20 (!) séries da 1.ª fase da competição, o Barreirense começou por deixar pelo caminho na fase a eliminar o campeão em título Estoril (3-2 e 1-1), seguindo-se o Atlético (4-0), o Vitória de Setúbal (3-2) e o Lusitano de Vila Real de Santo António (7-2), alcançando assim a final onde a 23 de maio de 1943 mediu forças com a Sanjoanense. Lisboa foi mais uma vez a cidade escolhida para uma final onde o Barreirense esmagou o seu oponente por 6-1. O DL escrevia que o jogo «tem descrição fácil e quase se limita à história dos golos. Não foi uma final de emoção nem o público se esgatanhou para conhecer o vencedor». A Sanjoanense foi descrita como uma equipa algo ingénua e que não esteve à altura do seu adversário, mas que ainda assim deu indícios de no futuro poder atingir posições superiores no futebol português. Mas mesmo com essa ingenuidade, os rapazes de São João da Madeira entraram com vontade de contrariar a supremacia dos sulistas. Em vão o fizeram, pois Cardoso Pereira cedo tratou de mostrar que o Barreirense queria levar para casa a taça ao apontar um magnífico golo. De nada valeu o empate da Sanjoanense logo a seguir, já que a equipa do centro do país pouco ou nada fazia para sacudir a pressão barreirense. Ainda assim, o intervalo chegou com o empate no marcador. Na segunda parte os golos deram expressão à supremacia barreirense, clube cujo domínio nestes segundos 45 minutos foi ainda mais intenso. «A Sanjoanense mesmo sem se render completamente foi sempre menos “team” e, portanto, impotente para evitar o pesado resultado que ao fim se verificou, mas lutou com ânimo, e deu nota simpatiquíssima de desportivismo que não é vulgar nos tempos que vão correndo», analisava o jornalista do DL que assistiu ao jogo.
Cardoso Pereira
No entanto, um homem houve que chamou a si todo o protagonismo desta final: Cardoso Pereira. O avançado do Barreirense viveu, quiçá, o seu momento de glória numa carreira trilhada entre o Barreiro e Setúbal – defendeu as cores do Vitória ao longo de sete temporadas – ao apontar os seis golos do Barreirense nesta final! Seis que podiam ter sido oito, não fosse o árbitro Abel Ferreira ter invalidado dois tentos do avançado por alegado fora de jogo. Manuel Batista, Pascoal, Ricardo, João Limas, Moreira, Gervásio, Raimundo, Arsénio, Maximino, Guedes e Cardoso Pereira foram os heróis barreirenses deste primeiro título secundário. De referir que deste grupo de campeões, um houve que não muito tempo depois se destacou com as cores do Benfica, Arsénio Duarte, o seu nome. Jogador talentoso com dotes de goleador, Arsénio brilhou ao serviço do Benfica ao longo de 12 épocas (43-55). Chegou a Lisboa ainda jovem, com apenas 17 anos, mas logo o rapazinho franzino, mas extremamente veloz, deu nas vistas, sendo que em 224 jogos pelos encarnados apontou 152 golos.

1944: Estorilistas bi-campeões numa época quase perfeita

Além do título da 2.ª Divisão, o Estoril
chegou à final da Taça de Portugal
O ainda muito jovem Estoril Praia teve uma temporada (43/44) quase perfeita. Ou melhor, podemos dizer que foi perfeita, pois não é todos os dias que uma equipa então a militar na 2.ª Divisão chega à final da Taça de Portugal, como aconteceu aos estorilistas na citada época. No Jamor, o poderio do Benfica falou mais alto: vitória por 8-0. Mas esta derrota na Prova Rainha do futebol luso não tirou o brilho da caminhada dos canarinhos nesse ano. Pelo contrário, só acrescentou valor, e foi como que um prémio à conquista do título nacional da 2.ª Divisão. Pela frente os rapazes da Linha tiveram o Vila Real, emblema que no Lumiar – palco da final – entrou forte e determinado, mas foi o Estoril que na segunda parte conseguiu ascendente sobre o adversário e conseguiu vencer por 3-2 e assim sagrar-se pela segunda vez na história campeão nacional da 2.ª Divisão.

1945: Como o Atlético honrou o legado do “progenitor” Carcavelinhos

O "filho" (Atlético) honrou o legado 
do "pai" (Carcavelinhos) 
O Atlético Clube de Portugal nasceu a 18 de setembro de 1942 através da fusão entre o Carcavelinhos Football Club e o União Foot-Ball Lisboa, ambos clubes da zona de Alcântara, em Lisboa. Ao herdar a identidade destes dois clubes, sobretudo do Carcavelinhos, laureado emblema lisboeta dos anos 20 e 30, o Atlético manteve-se profundamente ligado ao bairro de Alcântara, assumindo-se desde cedo como um histórico do futebol português. E cedo porque em 44/45 o emblema da Tapadinha – que já era a casa histórica do Carcavelinhos – saboreou pela primeira a conquista de um título nacional sob a nova designação. Dizer que o campeonato nacional da 2.ª Divisão atraía por esta alturas largas dezenas de participantes, que numa fórmula algo confusa começam por disputar numa 1.ª fase mini-campeonatos provinciais, com apuramentos posteriores por eliminatórias até à final. O Estádio do Lumiar voltou a acolher a final do escalão secundário, desta feita protagonizada pelo jovem Atlético e pela CUF do Barreiro. A 1.ª parte pertenceu ao clube de Alcântara, que com uma postura atacante esclarecida e uma linha média que sabia ocupar com arte o seu lugar, chegou ao intervalo a vencer com todo o mérito por 2-0. Na revista Stadium, Tavares da Silva escrevia que «na verdade o Atlético mostrou-se superior logo no primeiro pontapé e isso tirou-nos a emoção a que nos achávamos com direito. Mas ninguém tem culpa de que o desafio tenha decorrido desta forma. Em tudo o Atlético foi superior: na coesão da defesa, na compenetração e inteligência da linha medular, na arte e no comando da célula avançada». Marques e Catinana foram os autores dos tentos dos lisboetas. Na segunda parte a CUF apareceu em campo mais espevitada e acima de tudo mais ameaçadora. Neste ponto, destaque para Arnaldo Carneiro, que em três ocasiões obrigou o guardião Paiva a arregaçar as mangas para trabalhar. «A CUF, conjunto de jogadores experientes e homens que não passam hoje de promessas não pôde resistir nem suportar a melhor organização do Atlético. Lutou, reagiu, defendeu-se e atacou, por vezes, mas dando sempre a sensação de team com muitas deficiências…», assim analisava Tavares da Silva a equipa do Barreiro. Refira-se em nota de rodapé que no “team” cufista que esteve nesta final se encontravam dois jovens talentos que anos mais tarde iriam fazer parte do mais famoso quinteto do futebol português: Os Cinco Violinos. Eram eles José Travassos (tinha 19 anos) e Vasques (então com 18 anos). O resultado da final de 1945 não se alterou e o Atlético dava assim seguimento à glória conquistada pelo seu “progenitor” Carcavelinhos nas décadas de 20 e de 30. Paiva, Carlos Baptista, Ventura, José Lopes, Gregório, José Lopes, Micael, Rosário, Catinana, Armindo e Marques foram os heróis de Alcântara naquela tarde de 1 de abril de 1945.

1946: Soberano nos anos 40, o Estoril dominou a 2.ª Divisão numa época em que o figurino voltou a mudar

No espaço de quatro anos o Estoril 
venceu o título em três ocasiões
A FPF promoveu uma verdadeira revolução no figurino da 2.ª Divisão a partir da temporada de 45/46. Eram cada vez mais os clubes participantes, de norte a sul do país. A 1.ª fase manteve-se igual a edições anteriores, ou seja, os clubes eram distribuídos por áreas geográficas, competindo numa espécie de mini-campeonatos, sendo que os vencedores se apuravam para a fase a eliminar, a tal 2.ª fase. Tudo igual neste aspeto. A novidade é que os quatro vencedores dos quartos-de-final ao invés de competirem entre num sistema de meias-finais e final, enfrentaram um mini-campeonato a duas voltas, sendo o campeão a equipa que tivesse somado mais pontos. E aqui o Estoril pela terceira vez no curto espaço de quatro anos (!) sagra-se campeão nacional. Os rapazes da Linha começaram por vencer a Série 9 da 1ª fase, com 19 pontos, sendo que na fase a eliminar afastaram o Casa Pia (4-1) e o Onze Unidos (3-1). Na 3.ª fase, o tal mini-campeonato final, superaram a concorrência do Famalicão, União de Coimbra e do Portimonense. A caminhada rumo ao título teve início em Famalicão, onde o Estoril não foi além de um empate a uma bola diante dos locais. A equipa de Cascais abriu o ativo logo aos 3 minutos, por intermédio de Raul Silva que de recarga bateu o guarda-redes da casa. Álvaro Pereira, na sequência de um canto apontado por Sampaio, restabeleceu uma igualdade que o Estoril segurou até final muito graças à brilhante atuação do seu guarda-redes Valongo. Seguiu-se o jogo na Amoreira diante do União de Coimbra, que levou para casa uma derrota por 4-1 – os golos do Estoril foram apontados por Silva, Lourenço, Mota e Eloi. Na 3.ª jornada os estorilistas receberam e dominaram em toda a linha o Portimonense ao longo da 1.ª parte, domínio esse que foi expresso em quatro golos – Lourenço apontou três deles, sendo que o outro foi da autoria de Vieira. Na segunda metade o Estoril continuou a carregar e obteve mais três tentos que selaram o resultado num expressivo 7-2 a seu favor. Na ronda seguinte foi a vez do Famalicão ser despachado por 4-1, numa partida em que os canarinhos foram dominadores na 1.ª parte, alcançando neste período três golos por intermédio de Silva (2) e Lourenço. A segunda metade foi mais equilibrada e acima de tudo mais bem disputada, tendo os nortenhos ainda reduzido a diferença por intermédio de Pereira, aos 60 minutos, mas cinco minutos volvidos Silva completa o hattrick e acaba com as esperanças famalicenses. Em Coimbra aconteceu uma nova vitória, esta mais curta, por 2-1, mas o suficiente para garantir matematicamente o título de campeão da 2.ª Divisão. No Campo da Arregaça, o Estoril entrou melhor, apresentando uma técnica mais apurada que o União. Porém, seriam os locais que pregavam mais sustos a Valongo, o guardião da Linha, mas ainda assim o marcador não funcionou antes do intervalo. Os golos só surgiram na 2.ª parte, o primeiro aos 56 minutos e para o Estoril, por intermédio de Mota. Tento que animou os sulistas, que à passagem dos 75 minutos ampliam a vantagem pelo pé de Lourenço. O União não deitou a toalha ao chão e pouco depois reduz por meio de Velha, um esforço insuficiente para evitar a derrota. O Estoril carimbava assim o seu terceiro nacional secundário, de nada valendo o único percalço desta caminhada, o qual aconteceu em Portimão, onde foi derrotado por 4-3. O DL escrevia que o Portimonense exerceu «maior domínio durante todo o jogo», e que assim justificou o triunfo. Vieira (em duas ocasiões) e Mota marcaram os tentos estorilistas. No somatório dos seis jogos da poule de apuramento de campeão o Estoril somou 9 pontos.

1947: O título do SC Braga marcado por acusações de suborno

O Sporting de Braga campeão 
Na temporada de 1946/47 e após oito anos de andanças pelo sul do país eis que o troféu de campeão nacional da 2.ª Divisão volta a viajar para o norte. Mais precisamente para Braga, através do Sporting local, que inicia a Série 4 da 1.ª fase da competição de forma demolidora e logo com um recorde: uma vitória por 14-0 sobre o Infesta, com sete dos golos a serem apontados por Nelo, ou Nelito Barros, como este popular avançado nascido em Fafe era conhecido no Minho. O grande rival dos bracarenses nesta 1.ª fase foi o Académico do Porto, que ao ser derrotado (3-6) pelos minhotos na penúltima jornada desta fase entrega o 1.º lugar da série aos arsenalistas, que não desperdiçaram a oferta e na última jornada ao baterem o Candal por 2-0 asseguraram o título de campeão de série, avançando assim para a fase a eliminar. Aqui, começou por eliminar o Fafe (2-0), ao que se seguiu o Vila Real (4-3) e assim estava o Braga qualificado para a 3.ª e decisiva fase de apuramento de campeão. Os bracarenses entraram na fase final em falso, ao serem derrotados (0-1) pela Oliveirense. Porém, até final da primeira volta corrigiram este mau arranque com duas vitórias sobre o Lusitano de Vila Real de Santo António e sobre o Onze Unidos (do Montijo), respetivamente por 2-0 e 5-1. Com esta performance o Braga ocupava a par da Oliveirense o 1.º lugar da poule ao fim de três jornadas e ficou isolado quando obteve na ronda inaugural da segunda volta uma concludente vitória (2-0) sobre o conjunto de Oliveira de Azeméis. Porém, o título não foi confirmado na jornada seguinte, tudo porque no Algarve o Lusitano venceu os arsenalistas por 1-0 e ficou tudo adiado para a derradeira ronda. E aqui assistiu-se a um alegado triste jogo de bastidores que envergonhou o futebol luso. Lançou-se a suspeita de que o Braga havia aliciado com dinheiro quatro jogadores do Onze Unidos para que estes facilitassem o triunfo dos nortenhos, que mantinham a liderança da poule ex-aequeo com a Oliveirense, beneficiando do goal-average para ser campeão em caso de igualdade pontual no final do campeonato.
Em Braga houve festa rija na receção 
aos campeões da 2.ª Divisão de 1947
Desta forma a FPF suspendeu o jogo do Montijo para averiguar esta alegada proposta de suborno do dirigente bracarense José Antunes Guimarães. O organismo federativo colocou o dirigente frente a frente com os quatro jogadores do Onze Unidos para ver quem falava a verdade. O presidente do Sporting de Braga negou qualquer tipo de tentativa de suborno, ao passo que os quatro atletas do emblema do Montijo contradiziam-se, sendo que o guarda-redes Braço Forte dizia ter-se reunido com o dirigente do Braga, ao passo que os restantes afirmavam nunca se terem encontrado com José Antunes Guimarães. Após analisados os factos/depoimentos, a FPF não conseguiu reunir indícios concretos de que tinha havido tentativa de suborno, pelo que decide ilibar o Braga, que desta forma estava “livre” para disputar o jogo decisivo do campeonato. O jogo do Montijo foi disputado sob um clima de suspeição, como seria de esperar, mas nada que impedisse o Braga de somar uma nova vitória (2-0), com golos de Mário e Cassiano Brandão, e assim festejar o primeiro título nacional da sua história. A equipa foi recebida em euforia na Cidade dos Arcebispos, e o título foi amplamente festejado um pouco por todo o Minho, como comprova o facto de o Ateneu Comercial de Famalicão ter hasteado no seu edifício a bandeira do Sporting de Braga e de dirigentes do Vitória de Guimarães se terem deslocado à capital do Minho para participar na sessão solene de homenagem aos campeões nacionais da 2.ª Divisão.

1948 e 1949: Covilhã e Académica levam pela primeira vez o título para o centro do país em dois anos seguidos

Em 47/48 a FPF impôs novas mudanças ao figurino da prova ao eliminar os jogos por eliminatória, passe a redundância. Ou seja, existiu uma 1.ª fase constituída por quatro séries de oito clubes cada uma delas, sendo que os dois primeiros classificados de cada uma delas avançavam para uma 2.ª fase que foi constituída por duas séries (uma no norte e outra no sul), cujos dois primeiros classificados avançavam para a 3.ª e última fase. Confuso, no mínimo, mas assim era o futebol português de então sob o ponto de vista organizativo/logístico. Vencedor da Série B da 1.ª fase – com 26 pontos – e do Grupo Norte da 2.ª fase – com 8 pontos – o Sporting da Covilhã ganhou o direito de disputar a poule de apuramento de campeão com o Barreirense, a CUF e o Famalicão. Janos Szabo, acumulava as funções treinador-jogador nos Leões da Serra, que chegaram ao título pela diferença entre golos marcados e sofridos, ou seja, terminaram com os mesmos pontos (8) que o Barreirense, mas levaram a melhor no goal-average.

A Briosa rainha da Segunda em 1949
Este foi o primeiro de dois títulos consecutivos da 2.ª Divisão que viajaram para o centro do país, já que na temporada seguinte foi a vez da Académica festejar aquele que por aquela altura era o seu segundo cetro mais pomposo a seguir à Taça de Portugal arrecadada pelos estudantes em 1939. Após vencer a Série B da 1.ª fase, a Briosa levou a melhor sobre Oliveirense, Académico de Viseu e Famalicão no Grupo Norte da 2.ª fase, garantindo assim o passaporte para a final da 2.ª Divisão. É verdade, voltávamos a ter uma final para decidir o campeão, mas assim o foi não pelos melhores motivos. Ou seja, após a 5.ª jornada da poule final – que além da Académica tinha ainda o Famalicão, o Portimonense e o Oriental – os estudantes e os lisboetas ocupavam o primeiro lugar, com 6 pontos, sendo que na última e decisiva jornada os de Coimbra deveriam deslocar-se ao terreno dos orientalistas. Acontece que mais uma vez a vergonha voltou a bater à porta do futebol luso, já que ao que parece os jogadores do Famalicão haviam sido subornados para perder o jogo com o Oriental na 5.ª jornada, derrota essa que se consumou: 2-1. O então Ministro da Educação, Pires de Lima, decide suspender famalicenses e orientalistas da competição, dando ainda ordem para que fossem anulados todos os jogos até ali disputados da poule da 3.ª fase e que o campeão nacional fosse encontrado após a realização de um jogo único entre a Académica e o Portimonense. Assim foi.


Lisboa e o Estádio do Lumiar foram o cenário escolhido para acolher esta final de última hora, sendo que à capital desceu – no dia 5 de junho de 1949 – uma gigantesca macha negra para apoiar a Briosa. Disso deu nota o DL: «A imagem mais sedutora da final do Nacional da 2.ª Divisão foi-nos fornecida não pelos jogadores, mas sim pelos componentes da unida e irrequieta falange de apoio da Académica. O público de Lisboa não arredou pé, com as atenções presas nesse curioso espetáculo suplementar de uma longa reunião futebolística que não havia primado pela qualidade. Constituiu uma alegre e colorida mancha no declinar de uma tarde sufocante, imprópria para a prática do futebol. Representou uma extraordinária manifestação de fé e amor clubista». Olhando para o que se passou dentro das quatro linhas, cedo a Briosa se adiantou no marcador na sequência de um golo de Pacheco Nobre, quando estavam decorridos apenas dois minutos. Apesar de dominado em todos os capítulos do jogo, o Portimonense ainda conseguiu chegar à igualdade aos 18 minutos, mas a Académica, que nas palavras do DL «adotou sempre toada franca de ataque», chegaria de novo à vantagem, já na segunda metade, por intermédio do jogador-treinador Alberto Gomes.
Euforia nas ruas de Coimbra na receção
aos campeões nacionais 
Foi uma vitória – 2-1 – inquestionável «da equipa que revelou superioridade em todos os aspetos e tudo fez para se tornar digna dela (dessa vitória», assim analisou o DL, que descreveu o finalista vencido como uma equipa que correu e batalhou muito, mas «jogou pouquíssimo». Dizer que em 48/49 a Académica teve uma curta passagem pela 2.ª Divisão, onde havia caído na temporada transata, regressando assim ao escalão maior com o título de campeão nacional secundário no bolso. No final do encontro, a festa entre o relvado e as bancadas foi uma só, como relatou A Bola, ao descrever que o relvado do Lumiar foi rapidamente invadido por uma nuvem de estudantes com as suas capas negras a esvoaçar ao vento. As festividades continuaram no dia seguinte, quando a equipa chegou a Coimbra, onde a euforia foi ainda maior. Os campeões nacionais foram recebidos no Largo da Portagem por uma multidão em delírio, seguindo-se depois um cortejo pelas ruas da cidade – repletas de povo – até à sede da Associação Académica onde os campeões foram homenageados por entre salvas de foguetes.  

segunda-feira, março 18, 2024

Histórias do Futebol em Portugal (48)… O último ato do Académico do Porto nos palcos da “Primeira” (Parte V)

A turma da Académica de Coimbra que disputou
a 1.ª Divisão Nacional em 1941/42


Chegamos ao último capítulo desta memória sobre a derradeira e longínqua – já lá vão 82 anos – aparição do histórico Académico do Porto na 1.ª Divisão Nacional. E começamos esta derradeira viagem pela vitória dos academistas do Porto ante os academistas de Coimbra, no Estádio do Lima. “Bola cá, bola lá”, assim se afigura o encontro nos primeiros minutos, com ambas as defesas em alerta permanente. E mais uma vez, o relvado do Lima é abençoado – ou não – pela chuva que caí à hora do encontro na cidade do Porto. «As duas equipas e o árbitro (o lisboeta João Vaz) heroicamente se aguentam no terreno» escreve o jornalista ao serviço do Norte Desportivo. A chuva faz com que a partida não desperte grande entusiasmo, visto que não é possível praticar-se um futebol vistoso, dadas as condições do relvado do Lima. Os de Coimbra são os que mais tentam remar contra a maré, com tentativas de avanços no terreno, mas são os academistas que nas vezes em que se aventuram na área contrária mais perigo lá têm semeado. A Académica tem razões de queixa do árbitro lisboeta, já que em duas ocasiões reclama penalty, por derrube a Gomes e a Armando, com o juiz a mandar seguir.  As más condições do terreno fazem com que o portuense Marques abandone temporariamente o relvado, aparentemente com queixas físicas. Até que aos 33 minutos o encontro conhece o primeiro grande sinal de interesse, o golo da Académica de Coimbra. «Nini, de longe, ensaia um pontapé que sai com violência e que Santiago não pôde deter». Quase de seguida o Académico espreita o empate, não fosse o guardião Acácio fazer uma estirada espetacular. Até que na entrada para os últimos cinco minutos da primeira parte, os portuenses chegam à igualdade. «Raul, lançado pela esquerda, serviu excelentemente Julinho, e quando Acácio se lhe lançava aos pés, aquele fez-lhe passar a bola sobre o corpo, para o fundo da rede». 



O golo espicaçou os anfitriões, que apenas dois minutos volvidos ampliaram a vantagem. O lance começa em Álvaro Pereira, que executa um centro para a cabeça de Marques – que, entretanto, já havia voltado ao campo –, que desvia o esférico para Raul, que também de cabeça faz o segundo para o Académico. E assim termina a primeira metade. No recomeço os estudantes de Coimbra surgem mais velozes e lançados ao ataque. «Parece que os visitantes vão dar tudo por tudo para modificar a feição do encontro. Aparecem jogadas, agora mais claras, por parte dos visitantes». E numa delas Lemos tem uma fuga pelo centro do terreno, e de seguida cruza para a cabeça de Armando fazer o segundo tento da Briosa para espanto de Santiago. Este golo despertou os portuenses, que passaram a ter mais domínio no encontro, «obrigando os visitantes a ceder cantos em série». E como diz o ditado “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, eis que Raul Castro fez o 3-2 final à passagem da hora de jogo, garantindo assim o triunfo dos alvi-negros, que nesta partida alinharam com: Santiago, António Jorge, Rafael, Manau, Marques, Eliseu, Álvaro Pereira, Gamboa, Julinho, Raul Castro e Raul.


Nova viagem de má memória ao sul de Portugal

Nesta sua derradeira aparição no Nacional da 1.ª Divisão não se pode dizer, muito longe disso, que as viagens ao sul do país tenham sido felizes para as hostes do Académico do Porto. Além dos 35 golos sofridos só na capital, os academistas encaixaram mais 13 (!) noutras deslocações a sul do Tejo. Isto é, aos cinco sofridos em Olhão na 8.ª jornada, averbaram mais oito na deslocação ao Barreiro. Caso para dizer que os ares do sul fizeram mal aos portuenses. No Campo do Rossio, «o Barreirense impôs uma toada rápida e de passes curtos que desconcertaram o adversário», escrevia o correspondente do Norte Desportivo. O jornalista retratava ainda que no primeiro quarto de hora, a equipa da “margem sul” «delineou avançadas vistosas a que os seus dianteiros deram boa conclusão». Por seu turno, o Académico alternou entre o bom e o mau, sendo que neste último capítulo o ataque esteve «muito irregular». Este encontro marcou ainda o regresso de Levy de Sousa à baliza academista, ele que apesar dos oito golos encaixados teve lances de bom desempenho, e talvez por isso no final da temporada tivesse rumado precisamente ao Barreirense. 8-1 a favor do conjunto do Barreiro num encontro em que o Académico apresentou o seguinte “onze”: Levy de Sousa, António Jorge, Rafael, António Silva, Marques, Eliseu, Larsen, Campos, Raul Castro, Julinho (que apontou o tento solitário dos portuenses) e Raul.


A vitória mais dilatada do Académico na 1.ª Divisão

E à 19.ª jornada o Académico do Porto tirou a barriga de misérias. E fê-lo à custa do Olhanense, que veio ao Lima “levar” nove! 9-0 foi o score daquela que foi a vitória mais robusta do combinado portuense nesta temporada. Aliás, este é o resultado mais dilatado alcançado pelos academistas nas suas cinco participações na 1.ª Divisão, estabelecendo, como tal, um recorde que perdura até hoje. A história deste encontro é simples de ser contada, e resume-se ao festival de golos do Académico, festival esse que começou mal a bola rolou pela primeira vez. Logo ao primeiro minuto Julinho marcou o primeiro na sequência de uma ação individual. Os alvi-negros dominavam os algarvios, e aos cinco minutos Raul Castro amplia a vantagem com um remate colocado. «O Olhanense parece sentir o piso relvado. A inconsistência das suas jogadas não lhes permite a realização de grandes feitos, pelo que o Académico se torna senhor da iniciativa e domínio», dizia o jornalista de serviço neste encontro, no sentido de explicar a apatia dos algarvios. Porém, a pouco e pouco os visitantes sacodem um pouco a pressão dos locais, embora sem conseguir criar perigo na baliza de Santiago. 

O Olhanense foi a vítima maior do Académico
na passagem dos portuenses pela 1.ª Divisão


O jogo perde alguma da sua beleza, dado os excessos de tentativas sem sucesso de jogadas individuais de parte a parte. Mas sobre o intervalo uma jogada individual de Julinho – que desta vez contrariou a tendência do individualismo de baixa qualidade – resultou numa grande penalidade, que Raul Castro converteu com êxito. 3-0, o resultado na saída para o descanso. No reatamento o Olhanense ainda dá um ar de sua graça, mas rapidamente o Académico esfria o ânimo algarvio e volta a assumir o controlo da partida. Aos 51 minutos Gamboa aponta o quarto tento dos academistas, que apenas três minutos volvidos veem Larsen fazer o 5-0. «Os algarvios acusam a ascendência do grupo local», e permitem que o mesmo Larsen dois minutos depois faça um novo golo. A avalanche dos portuenses não se ficaria por aqui, e Larsen, que teve uma tarde endiabrada, à passagem da hora de jogo, faz o 7-0. Aos 65 minutos foi a vez de Julinho voltar a fazer o gosto ao pé após uma série de dribles sobre os adversários, e a 10 minutos do fim este mesmo jogador, mesmo sendo carregado em falta, consegue faz o 9-0 com que foi selado o marcador. Inolvidável este jogo e o consequente resultado na história do futebol do Académico do Porto.

Os portuenses alinharam com: Santiago, António Jorge, Rafael, Manau, Eliseu, Marques, Álvaro Pereira, Gamboa, Julinho, Raul Castro e Neca.


Regresso às derrotas no meio da ventania de Leça da Palmeira

A festa duraria pouco, já que na semana seguinte uma curta viagem até Leça da Palmeira seria concluída por um desaire de 2-0 ante o conjunto local. O jornalista do Norte Desportivo, José Parreira, relata que os leceiros iniciam a partida a jogar contra o vento e que o duelo se desenrola com uma certa velocidade. As primeiras oportunidades de golo pertencem ao Leça, «que apesar de jogar contra o vento tem sido mais equipa». Por seu turno, o Académico só a partir da meia hora esboça uma reação, que não dura muito tempo. Na segunda metade, os leceiros, desta feita com o vento a seu favor, comandam abertamente a partida. «O Académico só esporadicamente aparece sobre a meia defesa dos locais. O goal custa a aparecer, as situações de perigo desenham-se continuamente junto dos postes de Levy (de Sousa), mas os dianteiros do Leça, umas vezes por falta de sorte, outras por pelos efeitos caprichosos que o vento imprime ao esférico, não encontram a finalidade desejada». Até que aos 65 minutos acontece uma “embrulhada” na área academista, e «Rocha, por entre um cacho de jogadores, atira a um canto, sem possibilidades para Levy (de Sousa)», abrindo assim o marcador. O Leça não abranda o ritmo, continua a dominar, e já sobre o final, Mendes tem um potente remate que o guardião academista não segurou e na recarga, oportuno, Lúcio fez o 2-0 final de um encontro onde o Académico alinhou com: Levy de Sousa, António Jorge, Rafael, Eliseu, Manau, Marques, Larsen, Gamboa, Julinho, Raul Castro e Carvalho.


Ânimos exaltados no duelo com os vizinhos da Invicta

Na penúltima ronda do campeonato e a precisar de pontuar para ainda ter esperanças de ficar na 1.ª Divisão, o Académico fez uma curtíssima viagem até ao Campo da Constituição, casa do vizinho FC Porto. Portistas que há muito já estavam afastados da luta pelo título de campeão, que estava já praticamente entregue ao Benfica. Sem nada a perder o FC Porto lança-se ao ataque, e logo nos minutos iniciais António Santos envia o esférico para o fundo das redes de Santiago, embora o árbitro invalide o golo por alegado fora de jogo do avançado da casa. Este foi o primeiro sinal de aviso do que iria acontecer logo aos 3 minutos, altura em que António Jorge carrega Correia Dias dentro de área. Desta feita, o árbitro Correia da Costa não tem dúvidas e assinala grande penalidade, a qual seria convertida precisamente por Correia Dias. «Os azuis e brancos usufruem maior quinhão de domínio, obrigando a defesa academista a um trabalho apurado», escreve o jornalista José Parreira. Com uma técnica mais apurada e maior pendor ofensivo, os portistas ameaçam continuamente a baliza de Santiago. Porém, aos 21 minutos o Académico tem uma oportunidade soberana para chegar à igualdade, quando numa das raras incursões à baliza de Béla Andrasik, o defesa Sárria mete mão à bola, com o juiz a apontar para a marca de castigo máximo. 

Correia Dias tenta furar a defesa academista


Na conversão, Raul Castro permite a defesa ao guarda-redes húngaro do FC Porto. Logo de seguida, Carlos Pratas envia uma bola ao poste, e já sob o intervalo este mesmo jogador faz o 2-0 a para os locais, resultado com que as equipas saem para o descanso. O jogo é retomado praticamente com o terceiro golo dos portistas, altura em que no meio de um aglomerado de jogadores na área de Santiago, Pratas é mais rápido a esticar a perna e rematar a bola para o fundo das malhas. O lance gera alguma confusão entre jogadores das duas equipas. António Santos e Eliseu agridem-se mutuamente, com o árbitro a expulsar o jogador do Académico e a deixar o portista em campo! Decisão incompreensível. Eliseu reclama da decisão, e o juiz é obrigado a chamar a polícia para retirar o atleta alvi-negro do terreno. Depois disto, Correia da Costa perde o controlo da partida, e acumula asneiras atrás de asneiras até final. Até que aos 21 minutos da etapa regulamentar Larsen foge aos adversários pelo flanco esquerdo, e aproveitando um dos raros deslizes de Andrasik faz o tento de honra do Académico, ainda assim insuficiente para evitar a derrota. Na Constituição, os academistas alinharam com: Santiago, António Jorge, Rafael, Manau, Eliseu, Marques, Raul Castro, Larsen, Gamboa, Julinho e Raul.


Despedida inglória do palco da “Primeira”

E eis que chegávamos à 22.ª e última jornada do Nacional da 1.ª Divisão de 41/42. Jornada decisiva para as duas equipas que mediam forças no Estádio do Lima, Académico e Carcavelinhos. O conjunto da capital tinha somente mais um ponto que os portuenses, sendo que a ambos só a vitória interessava para poderem continuar a sonhar com a permanência, visto que à mesma hora também o Olhanense lutava pelo mesmo objetivo. O encontro nem parecia de decisões, já que as bancadas do Lima se apresentavam despidas de público. Até ao minuto 10 o perigo rondou com mais insistência a baliza lisboeta, sendo que nas palavras do jornalista Bolero «o balanço ao quarto de hora dá vantagem territorial aos portuenses. Vinca-se a opinião que os academistas jogam melhor. Conduzem os seus ataques com mais método. O Carcavelinhos só a espaços elabora jogadas vistosas». Contudo, aos 20 minutos, contra a corrente do jogo os lisboetas marcam. Um cruzamento de Marques é bem aproveitado por Bernardo, que de cabeça bateu Santiago. O golo animou os rapazes de Alcântara, que passam a ter uma certa vantagem sobre o adversário. No entanto, até final do primeiro tempo o Académico recupera o comando da partida, atua mais próximo da área contrária, mas os seus avançados revelam pouca perícia na conclusão dos lances. A defesa também está nervosa, e Rafael quase oferece o segundo golo aos de Lisboa. Na segunda metade o encontro não muda de feição. «Joga-se mal de parte a parte e o entusiasmo pela luta também é escasso. A bola anda cá e lá em esquemas improvisados. Joga-se como calha e como a bola quer. O jogo quase não tem história», conta Bolero. A partir dos 55 minutos o Académico procura o golo com mais vontade, e o Carcavelinhos defende a sua magra vantagem com “unhas e dentes”. A partida caminha para o final, até que um balde de água fria cai sobre os lisboetas a três minutos dos 90, altura em que Larsen faz o empate. O resultado (1-1) não agrada a ninguém, já que ambas as equipas descem de divisão. O Académico despedia-se assim do principal palco do futebol português. Os portuenses encerraram o campeonato no 10.º lugar, com 13 pontos somados. Neste derradeiro encontro na “primeira” os academistas alinharam com: Santiago, Rafael, António Jorge, Manau, Américo, Gamboa, Raul, Marques, Larsen, Raul Castro e Julinho.

sexta-feira, março 15, 2024

Histórias do Futebol em Portugal (47)… O último ato do Académico do Porto nos palcos da “Primeira” (Parte IV)

A equipa do Benfica que se sagrou-se campeã nacional em 41/42,
época em que por duas vezes aplicou a chapa 4 ao Académico

12 de abril de 1942, dia de chuva na cidade do Porto, mas nada que impedisse o Estádio do Lima de registar uma boa casa na receção ao então líder do Campeonato Nacional da 1.ª Divisão, o Benfica. Facto curioso, o de os encarnados serem treinados pelo húngaro János Biri, que enquanto futebolista (foi guarda-redes) tinha passado pelo Académico do Porto, precisamente na época de estreia do campeonato nacional do escalão maior. Mas neste encontro com o Benfica a contar para a jornada 13 da época de 41/22, o Académico apresenta-se em campo sem um dos seus habituais titulares, o defesa António Jorge, um algarvio de gema que figura no top 10 dos jogadores com mais jogos realizados pelos academistas no escalão maior. Depois de os minutos iniciais serem de estudo mútuo, sem que a emoção empolgasse as bancadas do Lima, eis que «o Académico denota boa convicção no sentido de dar à pugna o máximo rendimento», escrevia o jornalista Domingos Castro. O Benfica respondeu de forma positiva à postura dos portuenses, e com uma «série de regulares combinações invade o terreno do Académico com mais insistência». E no seguimento dessas tentativas eis que Alfredo Valadas efetua um forte remate do lado esquerdo do seu ataque, com a bola ainda a raspar em Rafael e a aninhar-se no fundo das redes de Levy de Sousa. O golo trouxe mais alma aos benfiquistas, que assumiram o controlo da partida, e apenas um minuto volvido, em mais uma jogada de ataque bem conduzida, Nelo Barros aponta o segundo golo da tarde para os visitantes. «Os alvi-negros não acusam a desvantagem. Nota-se, no entanto, que mercê da vantagem do vento o Benfica insiste com mais frequência e Levy (de Sousa) é chamado várias vezes a intervir», analisava o jornalista do Norte Desportivo que esteve de serviço neste jogo. 



A partida continuava a ser disputada debaixo de chuva torrencial, e com o relvado do Lima alagado, ambas as equipas têm dificuldade em explanar o seu futebol. Ainda assim, o Benfica continua por cima dos acontecimentos, e só aos 35 minutos o guardião encarnado, Martins, é chamado a intervir com mais afinco. A partir daqui o Académico acreditou que podia fazer mais, e esse mais foi mesmo o golo, e Marques consegue-o na reta final da primeira parte. Com o relvado empapado o futebol joga-se de forma mais individual, e numa dessas jogadas a solo, Francisco Rodrigues tem uma investida pelo flanco direito, endossa depois a bola para Nelo Barros, que com um potente remate que leva a bola a bater na barrar e a dirigir-se depois para o fundo das redes. 3-1 para o Benfica na saída para o descanso. A chuva cai cada vez com mais intensidade no Porto, encharcando ainda mais o terreno de jogo. O Académico começa melhor. Álvaro Pereira dá o primeiro sinal de aviso no reatamento, com o esférico a sair ao lado. Depois disto o Benfica volta a invadir o meio campo contrário, tecnicamente os seus jogadores são mais evoluídos, e acima de tudo adaptam-se melhor às condições do tapete verde. E mercê da superioridade patenteada, eis que aos 65 minutos os benfiquistas chegam ao quarto golo. A jogada é feita entre Francisco Albino e Joaquim Teixeira, com este último, bem colocado em frente à baliza, a não dar hipóteses a Levy de Sousa. O jogo perde a partir daqui algum interesse, com o Benfica a gerir calmamente a folgada vantagem. Porém, em jogada de transição, Marques aproveita uma jogada confusa na área de Martins para estabelecer o resultado final 2-4 a favor dos lisboetas, que iriam chegar ao final desta maratona que é o campeonato nacional com o título de campeões no bolso.

Nesta partida o Académico jogou com: Levy de Sousa, Eliseu, Rafael, Manau, Guimarães, Gamboa, Raul Castro, Larsen, Julinho, Marques e Álvaro Pereira.


Pesadelo em Lisboa (parte III)

Aquela que seria a quinta e última viagem do Académico a Lisboa no âmbito desta edição do campeonato nacional, ficou saldada pela goelada mais pesada que a turma orientada por Albertino Andrade sofreu nesta época. 11-2 ante o Sporting. No Estádio do Lumiar pouco público, não só porque o adversário era pouco convidativo, mas de igual modo porque o Sporting de Joseph Szabo estava longe de encantar os seus adeptos. E na realidade o jogo teve pouco interesse, como contou o correspondente do Norte Desportivo na capital. «O Sporting venceu sem grandes dificuldades, e para tal não necessitou de se empregar a fundo. A sua defesa não teve muito que fazer, porque a linha de médios conseguiu tomar ascendente sobre o ataque contrário. A linha dianteira dos leões gisou alguns belos esquemas de jogo, atuando com um equilíbrio notável», analisou o jornalista destacado para este encontro.

Às mãos deste Sporting, o Académico sofreu a derrota
mas pesada da época: 11-2


Por sua vez, do lado do Académico só a defesa e o guarda-redes mereceram alguns elogios, sobretudo Levy de Sousa, que fez magníficas defesas. A linha de meio campo e o ataque academista «raramente tiveram jogadas capazes de permitir fácil seguimento». O Sporting foi inequivocamente superior, a prova disso é que ao intervalo a vantagem dos lisboetas era de 5-1. Na segunda metade o marcador foi dilatado… e de que maneira! Mais seis golos para os leões, sendo que ao décimo o azar bateu à porta do Académico. Levy de Sousa teve de sair do campo, por motivo de lesão, e numa altura em que ainda não havia substituições, Julinho foi para a baliza, ainda a tempo de a dois minutos do fim sofrer o 11.º golo do Sporting. E podiam ter sido mais, não fosse a defesa do Académico ter tido «o papel de mais relevo com algumas intervenções magníficas que obrigaram o Sporting a inutilizar algumas jogadas que aparentemente dariam pontos (golos)», elucidou o jornalista.

Com estes 11 golos sofridos, o Académico elevou para 35 o número de tentos encaixados na capital! Julinho e Raul Castro apontaram os tentos de honra dos academistas no jogo do Lumiar, sendo que os portuenses alinharam com: Levy de Sousa, António Jorge, Rafael, Manau, Guimarães, Eliseu, Larsen, Raul Castro, Julinho, Marques e Gamboa.


A vingança (ante o Unidos de Lisboa) serviu-se com três golos

Na 15.ª jornada o Académico obteve a sua quarta vitória na temporada, um triunfo que teve um certo sabor a vingança pelo que se tinha passado na primeira volta do campeonato. A turma portuense bateu no Lima, por 3-2, o Unidos de Lisboa, equipa esta que tinha derrotado os academistas por 10-1 em Lisboa. Foi mais uma partida disputada debaixo de chuva, que nas palavras do jornalista do Norte Desportivo, Joaquim de Castro, contribuiu para a má qualidade do futebol praticado. «Joga-se sem plano, definido à mercê do que o jogo dá», retratou o jornalista. O Unidos começa a registar um maior domínio territorial, com o Académico a ripostar, sendo que as suas incursões à área lisboeta eram sempre perigosas. «Numa delas Julinho passa em profundidade a Álvaro Pereira, que marca aos 16 minutos, imparavelmente, o primeiro goal do Académico. Este ponto parece despertar um pouco o ânimo do grupo academista que consegue usufrui um certo domínio», retratou Joaquim de Castro. Os portuenses acercam-se cada vez com mais perigo da baliza de Eduardo Santos, desperdiçando clamorosamente algumas oportunidades, como seria o caso de Marques após passe “açucarado” de Julinho. E como quem não marca sofre, o Unidos de Lisboa acaba por chegar à igualdade à passagem da meia hora. Arnaldo Carneiro desmarca Tanganho, que perante a indecisão da defesa local bateu Santiago, guarda-redes que substituiu neste encontro o habitual titular, Levy de Sousa. 

Álvaro Pereira


O jogo mudou de feição, isto, é o Unidos passou a dominar, ao passo que o Académico entregou-se em demasia aos trabalhos defensivos, permitindo aos lisboetas criarem várias ocasiões para ampliar o marcador. Não foi de estranhar que ainda antes do descanso, na marcação de um canto, «depois de uma embrulhada junto às redes de Santiago», Arnaldo Carneiro fizesse o 2-1 para os visitantes. Na segunda metade, e com o relvado do Lima alagado, o Académico surge com outra atitude, mais mandão, uma postura que seria premiada com a reviravolta no marcador. «O Unidos começa a sofrer um domínio dos academistas», até que num ataque pelo lado esquerdo, «Álvaro Pereira endossa a bola a Julinho, este parece perder a excelente oportunidade de passe, mas insiste e marca o segundo aos seis minutos», assim relatou o jornalista do Norte Desportivo. Arnaldo Carneiro ainda introduziu a bola na baliza de Santiago, mas o golo foi de pronto invalidado por nítido fora de jogo do avançado lisboeta. E eis que na sequência da marcação de um pontapé de canto Álvaro Pereira faz o golo da vitória (3-2) academista. E sobre este último futebolista, há que voltar a referir que a par de Levy de Sousa foi o único homem que esteve nas cinco participações do Académico do Porto na 1.ª Divisão Nacional. Mais do que isso, Álvaro Pereira é o jogador com mais jogos disputados pelos academistas na elite do futebol luso, 58 encontros para sermos mais precisos.

Diante do Unidos de Lisboa os portuenses alinharam com: Santiago, Rafael, António Jorge, Eliseu, Américo, Guimarães, Raul Castro, Gamboa, Larsen, Julinho e Álvaro Pereira.


Derrota tangencial no Campo do Benlhevai (Guimarães)

Na 16.ª jornada a equipa treinada por Albertino Andrade viajou até ao berço da nação, a Guimarães, para defrontar o Vitória local. Partida onde na primeira meia hora os academistas se mostraram «mais ao ataque, dando ensejo a que a extrema defesa dos vimaranenses brilhe em algumas intervenções decididas», escreveu o correspondente do Norte Desportivo encarregue de contar as incidências do encontro. Até que no último quarto de hora da primeira metade os locais ganharam ascendente, obrigado Santiago a intervir com redobrada atenção e perícia em duas ocasiões. 

Campo do Benlhevai (Guimarães)


Mas seria o Académico a abrir o marcador, por intermédio de Larsen, aos 26 minutos, na sequência de um canto apontado por Raul Castro. Pouco depois da meia hora Alexandre empata após um bom passe de Arlindo. Oito minutos volvidos o autor do primeiro tento dos vimaranenses bisou, depois de receber a bola dos pés de Ferraz. Na segunda metade, de nada valeu aos portuenses a pontaria afinada de Larsen, autor de mais dois tentos, já que Ferraz e Miguel asseguraram a vitória… do Vitória no Campo do Benlhevai por 4-3.

O Académico do Porto alinhou com: Santiago, António Jorge, Rafael, Manau, Eliseu, Marques, Raul Castro, Julinho, Larsen, Álvaro Pereira e Raul.

(continua)

quinta-feira, março 14, 2024

Histórias do Futebol em Portugal (46)… O último ato do Académico do Porto nos palcos da “Primeira” (Parte III)


Estreante nestas andanças de 1.ª Divisão Nacional era o Leça, clube modesto que nesta primeira aparição entre os “Grandes” se fazia representar na sua esmagadora maioria por jogadores da terra, todos amadores, e sem experiência no mais alto patamar do futebol luso. Leça que se deslocou ao Estádio do Lima na 9.ª jornada para disputar um «jogo de vizinhos» como lhe chamou o jornalista Bolero, do Norte Desportivo. Perante reduzida assistência a partida teve um início tímido, sendo que nos primeiros cinco minutos há apenas a registar uma oportunidade de golo perdida do academista Álvaro Pereira. Apesar de ser disputado a grande velocidade, o encontro não apresenta um padrão tático definido, o que o torna um pouco desinteressante. «Ambas as equipas jogam à base da energia, com uma ou outra jogada onde se vislumbra o desejo de conjunto (…) Uma e outra defesa, continuamente em ação, batalham ardorosamente. Se os setores dianteiro e médio têm trabalho sucessivo, o mesmo sucede com as extremas defesas, sempre na liça. Tem motivos de certo agrado esta partida entre leceiros e académicos», assim retratava Bolero.

A equipa do Leça que disputou a 1.ª Divisão em 41/42

À passagem da meia hora de jogo o Académico toma conta dos acontecimentos, perante um Leça que começa a dar sinais de alguma fraqueza à medida que se aproxima o intervalo. Levy de Sousa, guarda-redes do Académico do Porto, é um mero espectador, em contraste com Jaguaré – não o excêntrico guardião brasileiro que jogou no Académico anos antes, mas sim Alfredo Dias, conhecido pelo Jaguaré do Leça – que tem trabalhos redobrados. A avalanche academista produziu resultados antes do descanso, com Marques e Larsen a darem expressão ao marcador. A toada de jogo manteve-se na segunda metade, e quando estavam decorridos 62 minutos Raul Castro desfere um remate a cerca de 30 metros da baliza de Jaguaré, guardião que é traído pela trajetória da bola e não evita desta forma o terceiro tento dos portuenses. Tecnicamente o Académico era superior ao seu adversário, e o marcador seria fechado por Larsen a 15 minutos do fim, na sequência de um canto apontado por Machado. 4-0, vitória de um Académico que alinhou da seguinte forma: Levy de Sousa, António Jorge, Rafael, Manau, Guimarães, Eliseu, Larsen, Raul Castro, Marques, Julinho e Álvaro Pereira.


O derby da Invicta pende para o lado azul-e-branco

E na 10.ª ronda houve aquele que foi o primeiro dérbi da Cidade Invicta no patamar mais alto do futebol em Portugal. Académico e FC Porto mediram forças no Lima. O jornalista Lopes Gaya conta que os portistas entraram em campo a pressionar os academistas, mostrando assim «certas tendências para abrir o ativo, porque aparecem com mais frequência no ataque. Levy (de Sousa) é chamado duas vezes a intervir, e fá-lo com certa felicidade a dois remates, um de Pinga e outro de António Santos». Após este começo mais afoito dos azuis e brancos o jogo entra numa toada de maior equilíbrio, com o Académico a espreitar com mais frequência o ataque, pese embora com a defesa portista sempre atenta. Até que à chegada da meia hora de jogo o FC Porto aplica dois rudes golpes ao Académico. O mesmo é dizer dois golos apontados quase de rajada. O primeiro por intermédio do possante avançado Correia Dias, aos 24 minutos, e o segundo dois minutos volvidos por Carlos Nunes. A equipa comandada pelo técnico Mihaly Siska saiu para o intervalo em vantagem, descanso esse que lhe parece ter feito mal, a julgar por uma entrada na segunda metade algo relaxada. Aproveitou o Académico que logo aos 10 minutos reduz a desvantagem. «Larsen lança um bom centro sobre a esquerda, a bola vai para Julinho que marca (passa) para Álvaro Pereira que fuzila rápido as redes de Béla (Andrasik)». A bola vai ao centro do terreno e… novo golo para o Académico. Julinho recebe a bola de um companheiro seu, e sem marcação corre em direção à baliza portista, rematando sem hipóteses para o fundo das redes. Estava feito o empate para delírio da claque do Académico, que «aplaude com entusiasmo a sua equipa». Do outro lado os adeptos do FC Porto também puxam pelo seu conjunto, e «estabelece-se um curioso duelo de claques. Um orfeão ruidoso a dar ambiente de espectativa ao encontro», descreveu Lopes Gaya. O FC Porto parece despertar da entrada sonolenta, e aos 65 minutos o árbitro Vieira da Costa assinala um livre perigoso para a baliza de Levy de Sousa. Na cobrança, António Baptista envia com habilidade a bola para o fundo da baliza academista, colocando novamente a sua equipa em vantagem. Aos 42 minutos, os portistas acabam com as esperanças dos seus vizinhos em pontuar. «Pratas desce e é carregado com certa violência. Pinga marca o castigo direto com um pontapé bem colocado e fixa o resultado em 4-2». No derby da Invicta o Académico alinhou com: Levy de Sousa, Rafael, António Jorge, Guimarães, Eliseu, Raul Castro, Larsen, Gamboa, Julinho, Marques e Álvaro Pereira.

Lance do dérbi da Cidade Invicta, entre Académico e FC Porto

Na derradeira jornada da primeira volta do campeonato o Académico voltou a não ser feliz na deslocação a Lisboa. Desta feita seria o Carcavelinhos a aplicar a chapa 6 aos portuenses. Sobre encontro não conseguimos encontrar o relato escrito das incidências do mesmo.

Treinador do Académico não atira a toalha ao chão

Conseguimos sim descobrir uma pequena entrevista concedida ao Norte Desportivo pelo treinador do Académico do Porto nesta temporada, Albertino Ferreira de Andrade, a sua graça. Nesta troca de palavras com aquele jornal portuense, o técnico fazia um balanço da primeira volta do campeonato, começando por opinar que tinha gostado de ver a equipa do Sporting em ação, e que em seu entender o FC Porto parecia querer regressar à boa forma do passado. 

O treinador do Académico:
Albertino Andrade

E sobre a sua equipa, Albertino Andrade não atirava a toalha ao chão, pelo contrário. «O orientador técnico do Académico parece, no entanto, não possuir fibra para o desânimo. (…) Sente na entrega à preparação física dos seus pupilos o melhor dos seus esforços. Percebe nos jogadores de futebol imensas deficiências, que procura corrigir, assim como determinados defeitos de formação». E mais adiante, ao falar dos resultados averbados até então, diz mesmo: «Pouca sorte, muito pouca sorte, é o que tem havido».


Nova viagem para esquecer à capital

O Início da segunda volta do campeonato marca uma nova viagem do emblema do Porto à capital, agora para defrontar o Belenenses, no mítico Estádio das Salésias. Os lisboetas vinham de uma vitória animadora no Campo da Constituição diante do FC Porto, na ronda anterior, e talvez por isso a massa adepta belenense fosse em grande número ver a sua equipa. Por seu turno, o Académico neste jogo «não foi melhor nem pior que noutras deslocações. A equipa, habilidosa por intermédio de alguns elementos, não tem fundo de resistência. No jogo de hoje transpareceu mais uma vez essa ideia. Em lampejos, o grupo consegue organizar algumas jogadas interessantes, mas com a sua linha de médios se divorcia muitas vezes do ataque, a equipa vive partida ao meio quase sempre», assim analisou a turma portuense o correspondente do Norte Desportivo na capital. O Belenenses entrou praticamente a ganhar, quando aos dois minutos Eliseu corta a bola com a mão dentro da área, com o árbitro setubalense Trindade a assinalar de pronto o castigo máximo. Na conversão, Feliciano marcou o primeiro tento dos azuis. O Belenenses teve quase sempre o ascendente do encontro, sendo que os campeões do Porto apenas se mostraram mais audazes no segundo quarto de hora da primeira parte. «De resto, a vontade mais forte foi a do Belenenses». Porém, contra a maré azul os academistas empatam a partida à passagem do minuto 19, por intermédio de Larsen. Empate que seria sol de pouca dura, já que três minutos passados António Jorge derruba Gilberto dentro da área e o árbitro não volta a ter dúvidas em assinalar nova grande penalidade a favor dos de Belém. Feliciano volta a não dar hipóteses de defesa a Levy de Sousa. E ainda antes do intervalo os locais ampliaram a vantagem, por intermédio de Artur Quaresma. «No segundo período, inicialmente, ainda o Académico se manteve com certa galhardia, mas depois o encontro entrou num período de certa monotonia dada a superioridade dos visitados», escrevia o Norte Desportivo. E seria dessa forma que Gilberto faria o quarto tento dos lisboetas, que praticamente sentenciou a partida, de nada valendo o facto de Larsen, aos 64 minutos, ter reduzido para 4-2, que seria, assim, o resultado final de um jogo onde o Académico alinhou com: Levy de Sousa, António Jorge, Rafael, Manau, Eliseu, Raul Castro, Larsen, Gamboa, Julinho, Marques e Álvaro Pereira.

(continua)