quinta-feira, julho 28, 2022

Arquivos do Futebol Português (27)...

A equipa do Casa Pia que em 20/21 venceu 
o Campeonato de Lisboa, a Taça da AFL, 
e a Taça 27 de Julho
O recém-fundado Casa Pia Atlético Clube não podia pedir melhor estreia oficial do que aquela que teve na temporada de 1920/21. Com uma equipa de respeito, formada por antigos alunos da instituição que dava nome ao clube, entre eles muitos ex-benfiquistas, como por exemplo, António Pinho, José Maria Gralha, Silvestre Rosmaninho, ou Cândido de Oliveira, mas também com o ex-sportinguista Alberto Loureiro, os casapianos venceram o Campeonato de Lisboa dessa época sem derrotas. A invencibilidade do jovem clube estendeu-se, ademais, à segunda prova lisboeta, a Taça da Associação de Futebol de Lisboa (AFL), facto que faz do Casa Pia a única equipa da capital que até hoje venceu as duas competições de forma invicta. É verdade, nem Benfica, nem Sporting, nem Belenenses, os outros três grandes de Lisboa, o conseguiram fazer.

O Campeonato de Lisboa de 1920/21 foi disputado pela primeira vez por oito clubes, que divididos em duas séries de quatro discutiram a 1.ª fase da prova. Os gansos, como são conhecidos os casapianos, ficariam alojados na Série 1, juntamente com o Belenenses, o Vitória de Setúbal, e o Clube Internacional de Football (CIF). Abra-se aqui um parênteses para explicar a alcunha que caracteriza até hoje o Casa Pia, os gansos. Tudo porque num desfile do início do século XX dos alunos da instituição casapiana em frente ao Mosteiro dos Jerónimos, alguém atirou ao ar a seguinte frase: "Oh, p’ra eles, todos elegantes! Parecem uns gansos!", e assim a alcunha ficou para toda a vida.

Mas voltando ao Regional lisboeta, a 1.ª fase da competição foi um passeio para os casapianos, que em seis encontros somaram quatro vitórias e cederam apenas dois empates, terminando a série no primeiro lugar com 10 pontos, qualificando-se desta forma para a fase seguinte, que iria juntar o segundo colocado da Série 1, o Belenenses, e os dois primeiros posicionados da Série 2, o Sporting, e o Benfica.

Nesta fase decisiva os gansos começaram por defrontar o Benfica, um jogo que suscitava uma enorme expectativa, já que muitos dos elementos do Casa Pia eram antigos jogadores dos encarnados, esperando-se alguma picardia derivada da traição dos agora craques casapianos. Tal não aconteceu, o jogo decorreu de forma cordial, e o Casa Pia venceu por 2-1. Na 2.ª jornada, a turma capitaneada por Cândido de Oliveira obteve novo triunfo, desta feita sobre o Belenenses, e na derradeira ronda goleou o Sporting por 5-2, garantindo desde logo a presença na final do campeonato. O adversário seriam os leões, que ficaram em segundo lugar nesta fase. Final que foi disputada a duas mãos, dois encontros equilibrados, conforme rezam as crónicas de então. No primeiro duelo, os casapianos praticamente selaram a vitória no campeonato, após um concludente triunfo por 4-1, com dois tentos de Cândido de Oliveira, um de Alberto Nunes, e outro de Alberto Loureiro. Na segunda mão houve empate a uma bola, o que confirmou o Casa Pia como o novo campeão de Lisboa... e com apenas 10 meses de vida! Foi obra!

Cândido 
de Oliveira
A dobradinha, isto é, a vitória na Taça da AFL, surgiu com uma vitória na final sobre o Belenenses, por 3-2, isto depois de bater na 1.ª eliminatória o Sporting por 4-1, e o Carcavelinhos nas meias-finais por 3-1. Mas não foram só as grandes potências do futebol lisboeta a sofrer às mãos dos surpreendentes gansos, já que também o eterno campeão do Norte, o FC Porto, foi vergado pelo Casa Pia, por 2-0, na Taça 27 de Julho, prova esta que correspondeu a um ensaio para o Campeonato de Portugal que se iria iniciar na época seguinte. Porventura, esta foi a melhor época da hoje história centenária dos casapianos, que em finais de 1920 se tornaram na primeira equipa lusa a visitar a capital francesa, Paris, para a disputa de um torneio de Natal, tendo ali defrontado conjuntos de renome, casos do Cercle Athlétic de Paris, do Cercle Athlétic de Vitry, dos suíços do FC Cantonal, e do FC Espanya de Barcelona. Em outubro de 1921 o Casa Pia visitou Sevilha, com o objetivo de apadrinhar o campo dos sevilhanos. Factos que enalteciam ainda mais o prestígio que os gansos tinham já conquistado com poucos meses de existência. Para a história do Casa Pia, e do próprio futebol luso, aqui ficam os nomes dos heróis que defenderam o mando sagrado casapiano na temporada de 20/21 e que conquistaram tudo o que havia para ganhar em termos oficiais: Clemente Guerra, António Pinho, Alberto Nunes, José Gomes dos Santos, Cândido de Oliveira, Gouveia, Álvaro Gralha, António Lopes, Silvestre Rosmaninho, José Almeida, Alberto Loureiro, José Maria Gralha, Ângelo de Araújo, e Lopes Loureiro. Cândido de Oliveira  e Silvestre Rosmaninho foram os melhores marcadores da equipa nesta temporada, com sete tentos cada um deles.  

quarta-feira, julho 27, 2022

Arquivos do Futebol Português (26)...

A primeira equipa de futebol do Casa Pia Atlético Clube

Mais de 80 anos depois - 82 para sermos mais precisos - o Casa Pia Atlético Clube  está prestes a voltar a pisar o mais alto patamar do futebol português, a I Liga. Facto que não acontecia desde 1938/39, altura em que o emblema lisboeta teve a sua primeira - e única até à entrada da temporada desportiva de 2022/23 - aparição na divisão maior do nosso futebol. Este histórico emblema da capital teve um parto difícil, vendo a luz do dia somente a 3 de julho de 1920. Difícil porque só à terceira tentativa os casapianos cimentaram a ambição de fundar um clube que deriva de uma instituição, a Casa Pia de Lisboa, que desde finais do século XIX se envolveu nas lides futebolísticas. A este propósito, será de evocar o dia 22 de janeiro de 1898,altura em que a equipa da Real Casa Pia de Lisboa derrotou os até então invencíveis ingleses do Carcavellos Club, sendo que quatro anos antes um grupo de antigos alunos da instituição casapiana formara ali a primeira equipa de futebol escolar. Estes são dois exemplos que atestam que o futebol português teve raízes nesta instituição muito antes do Casa Pia Atlético Clube ser fundado. 

O combinado do Casa Pia que em 38/39 disputou
pela primeira vez a 1.ª Divisão Nacional

E a primeira tentativa para fundar a associação desportiva surgiu em 1903, quando quatro antigos alunos da Casa Pia de Lisboa, nomeadamente, João Inácio Silva, António da Luz Lopes, José Rebelo Barão e Carlos Alberto Saraiva, fundaram a Associação do Bem, que um ano mais tarde seria a principal força para que na Farmácia Franco, em Belém, se fundasse o Sport Lisboa, o futuro e atual Benfica. A segunda tentativa de fundar uma associação desportiva casapiana acontece em 1910, através do Grupo Sportivo Luz Soriano, que pouco durou, pois um antigo aluno da Casa Pia de Lisboa, Cosme Damião, desviou grande parte dos jogadores deste grupo para o seu Sport Lisboa e Benfica. E como diz o velho chavão: "à terceira foi de vez". Em 1920 um novo grupo de antigos alunos da instituição funda o Casa Pia Atlético Clube. Desse grupo faziam partes nomes sonantes, casos do jornalista desportivo Ricardo Ornelas, o historiador David Ferreira, Mário da Silva Marques, que seria o primeiro nadador olímpico português, e Cândido de Oliveira, último nome este que encabeçou esta ambição e que dispensa apresentações. Mestre Cândido, como ficaria eternizado na história do nosso desporto, era então um dos mais virtuosos futebolistas do Benfica, sendo o capitão de equipa que na temporada de 1919/20 embalou o clube encarnado para a conquista do título de campeão de Lisboa. No final dessa temporada Cândido de Oliveira decidiu abandonar o Benfica, aliciando outros jogadores deste emblema a fazer o mesmo e a juntar-se a si para fundar o Casa Pia Atlético Clube. Aliciamento que só não teve cem por cento de eficácia porque nomes como Cosme Damião, Ribeiro dos Reis, e Vítor Gonçalves se mantiveram fiéis ao manto sagrado encarnado. Todos os outros, mais de duas dezenas de jogadores de quatro categorias distintas, desertaram junto com Mestre Cândido, que havia iniciado a sua ligação ao futebol na Real Casa Pia de Lisboa. Desde os 9 anos de idade, altura em que ficou órfão, que ele havia sido instituído na Casa Pia de Lisboa, tendo ali sido educado para a vida e... para o desporto. Era caso para dizer: "o bom filho a casa torna".  

O primeiro jogo oficial do recém fundado clube acontece a 3 de outubro de 1920, no Campo da Palhavã, tendo o Casa Pia, capitaneado por Cândido de Oliveira, batido o Benfica por 2-1, conquistando o primeiro troféu futebolístico da sua história, o Bronze Herculano dos Santos, que visava homenagear o capitão do Benfica.

A primeira seleção nacional que em 1921 jogou em Espanha com
o equipamento do... Casa Pia

Desde a sua fundação que o Casa Pia Atlético Clube tem tido um papel de destaque na história (longínqua) do futebol português. O capítulo mais relevante terá, porventura, acontecido em 1921, ano marcante na vida do nosso futebol, já que a 18 de dezembro a seleção nacional de Portugal faz a sua estreia ante a poderosa Espanha, em Madrid. Dessa equipa faziam parte quatro jogadores do Casa Pia, nomeadamente, Cândido de Oliveira, que capitaneou a nossa seleção nesse histórico desafio; José Gralha, António Pinho, e António Augusto, sendo que o secretário geral da União Portuguesa de Futebol, Raul Nunes, também estava ligado aos casapianos. Combinado luso que disputou o jogo com o equipamento do Casa Pia! É verdade, a nossa seleção vestiu de preto, as cores do Casa Pia, vincando ainda mais desta forma a ligação do emblema de Pina Manique à história do futebol luso. 

terça-feira, julho 26, 2022

Arquivos do Futebol Português (25)...

Uma das primeira equipas do Belenenses

23 de setembro de 1919 é uma data história para o desporto português. Não só para o futebol, mas para todo o nosso desporto de uma forma geral. Foi nesse dia, ou melhor nessa noite de verão, que o sonho daquele que foi considerado como o primeiro grande futebolista português se tornou em realidade, e dessa realidade nasceu um dos emblemas mais ilustres do nosso desporto: o Clube de Futebol "Os Belenenses".

Como já foi referido, estávamos no verão, estávamos num período de ressaca da I Guerra Mundial, e para os lados de Belém um grupo de futebolistas oriundos daquelas paragens, e que defendiam as cores de outros emblemas lisboetas, sonharam em fundar um clube do seu bairro, do seu berço, um clube de Belém. Entre esses futebolistas encontrava-se Artur José Pereira, o tal astro do então futebol luso, o nosso primeiro grande artista da bola, dizem muitos historiadores. Ele que nasceu ali, em Belém, e que enquanto futebolista brilhou ao serviço do União Belenense, na temporada de 1907/08, do Benfica entre as épocas de 1908/09 a 1913/14 (vencendo 3 campeonatos de Lisboa), e do Sporting, entre as temporadas de 1914/15 a 1918/19 (vencendo 2 campeonatos de Lisboa e 3 Taças de Honra). Foi num banco do jardim da Praça Afonso de Albuquerque que o sonho foi tornado em realidade, tendo Artur José Pereira, então com 30 anos de idade, juntamente com o seu irmão Francisco Pereira, aos quais se juntaram nomes como Carlos Sobral, Henrique Costa, Júlio Teixeira, Joaquim Dias, Júlio Teixeira Gomes, e Manuel Veloso, idealizado o tal clube com raízes em Belém. Até que em 23 de setembro de 1919 dá-se a fundação do clube, que com o passar dos anos, das décadas, se tornou num dos (4) grandes de Portugal, conquistado títulos e prestígio a nível nacional e internacional. As primeiras coroas de glória surgiram nas décadas de 20 e 30, quando os azuis - como ficaram conhecidos devido às suas cores - venceram por três vezes o Campeonato de Lisboa (1925/26, 1928/29 e 1931/1932) e o Campeonato de Portugal (1927, 1929 e 1933). Em 1946 o clube alcança aquele que é porventura o seu maior título, o Campeonato Nacional da 1.ª Divisão. O Belenenses tem ainda uma boa tradição na Taça de Portugal, troféu que conquistou em três ocasiões, nas temporadas de 1941/42, 1959/60 e 1988/89. Mas isto só no futebol, porque se alargarmos o leque para outras modalidades a palmarés do clube é abismal.

O primeiro jogo da história do (futebol do) Belenenses acontece a 9 de novembro de 1919, no Campo Grande, frente ao Vitória de Setúbal. Na foto que podemos ver acima está uma das primeiras equipas do clube, podendo ver-se, da esquerda para a direita, os seguintes nomes: Joaquim Rio, Carlos Sobral, Francisco Pereira, Aníbal dos Santos, Manoel Veloso, Mário Duarte, Arnaldo Cruz, Alberto Rio, Edmundo Campos, Romualdo Bogalho e Artur José Pereira. Este último jogador representou o clube que ajudou a fundar de 1919 a 1922.    

A equipa do Sporting, campeão de Lisboa em 1918/19

A época de 1918/19 fica ainda marcada, no que diz respeito ao futebol da capital, por um braço de ferro entre os dois outros grandes da capital, Benfica e Sporting, pela conquista do título regional. Este Campeonato de Lisboa foi um dos mais disputados de sempre, segundo reza a história, facto que pela primeira vez obrigou a que fosse realizada uma finalíssima para se encontrar o campeão. A prova foi discutida por cinco clubes, a saber, o Sporting, o Benfica, o CIF, o Império, e o Vitória de Setúbal, último emblema este que fazia a sua estreia nas 1.ª categorias ao nível do regional lisboeta. A competição foi disputada taco a taco entre os dois rivais - que cada vez mais o eram - Benfica e Sporting, embora na primeira volta a que juntar a esta dupla o Vitória sadino, que em época de estreia não perdeu um único encontro na primeira etapa do campeonato. O setubalenses perderam gás na segunda volta, deixando o caminho aberto para que benfiquistas e sportinguistas lutassem entre si sem qualquer oposição. Os dois clubes terminaram o campeonato empatados pontualmente, tendo a Associação de Futebol de Lisboa decidido desempatar a contenda com uma finalíssima, a qual acontecia pela primeira vez na história. A 14 de julho de 1919 teve lugar a primeira mão dessa finalíssima, disputada em casa dos encarnados, tendo o Sporting vencido por 1-0, com golo de Alfredo Perdigão, tendo a curiosa particularidade de neste encontro os leões terem alinhado durante 45 minutos com 10 elementos, pois Artur José Pereira atrasou-se e só jogou a etapa complementar! A segunda mão jogou-se no dia 20, do mesmo mês, sendo que o Spoting venceu novamente, deste feita por 2–1, num encontro marcado pela violência e com três expulsões, dizendo-nos a história que este jogo terminou com agressões por parte dos adeptos do Benfica a jogadores e dirigentes do Sporting após uma invasão de campo. Os leões eram assim campeões de Lisboa pela segunda vez na sua história, e Artur José Pereira despedia-se da melhor forma do emblema verde-e-branco, pois dali partira para fundar o Belenenses. Para a eternidade ficam os nomes dos sportinguistas campeões: Francisco Quintela, Carlos Fernando Silva, Amadeu Cruz, Jorge Vieira, João Francisco, Boaventura da Silva, Artur José Pereira, Joaquim Caetano, Torres Pereira, Francisco Stromp, Jaime Gonçalves, Jusa, Alfredo Perdigão, Alberto Loureiro, Marcelino Pereira, Alberto Rio, e John Armour.

segunda-feira, julho 25, 2022

Jogos Memoráveis (4)... Portimonense - Partizan (Taça UEFA de 1985/86)

Há quem diga que o Algarve é não só a estância balnear de Portugal, mas também da Europa. Com o seu clima quente, as suas praias paradisíacas e a farta animação noturna, esta região tem sido o destino de férias para cidadãos de vários países europeus ao longo de décadas. Deste modo, será uma minoria, por certo, a percentagem de europeus que não conhece esta região do sul do nosso país pelas características naturais que apresenta. Porém, em termos de futebol só na segunda metade dos anos 80 do século passado é que o Algarve se deu a conhecer à Europa. Apresentação que aconteceu na temporada de 1985/86, altura em que um dos filhos futebolísticos mais ilustres da região fez a sua estreia - e única até à data - na alta roda do futebol continental, isto é, nas competições europeias. Emblema esse que dá pelo nome de Portimonense Sport Clube, e que fruto do brilhante 5.º lugar conquistado na época anterior, no Campeonato Nacional da 1.ª Divisão, assegurou o passaporte para a Taça UEFA. Feito alcançado por um treinador algarvio, o que eleva ainda mais os níveis históricos do facto, um homem que é hoje em dia um dos técnicos mais titulados a nível internacional do nosso futebol. O seu nome? Manuel José. Foi ele o maestro de uma orquestra afinada e talentosa que na altura tinha nomes como o experiente defesa-central Simões - que tinha passado com sucesso pelo FC Porto -, o médio Vítor Oliveira - formado no Leixões e que no final desta temporada pendurou as chuteiras -, o promissor avançado Rui Águas, ou o também dianteiro belga Serge Cadorin - quiçá o nome mais sonante daquele Portimonense, pelos muitos golos que marcou durante a sua estadia no Algarve.

No entanto, não seria Manuel José a apresentar o emblema de Portimão à Velha Europa do futebol, uma tarefa que ficou nas mãos de Vítor Oliveira, que como já foi referido encerrou a sua carreira de atleta no Algarve e foi um dos obreiros que em campo garantiu a presença da Taça UEFA de 85/86. Vítor Oliveira que dava assim em Portimão início a uma brilhante carreira de treinador, tendo passado nos 34 anos seguintes por diversos clubes do nosso futebol, alcançando na maior parte deles subidas de divisão, de tal maneira que ainda hoje é conhecido como o "Rei das Subidas". Figura esta que desapareceu do nosso convívio muito recentemente, em 2020, e que deixou, naturalmente, saudades a todos aqueles que consigo trabalharam e conviveram.

Mas voltamos à temporada de 85/86, onde o Portimonense fez alguns reajustes ao seu plantel não só com o intuito de repetir a boa prestação interna da época transata, mas de igual modo para fazer boa figura na estreia internacional. Entre as novas caras encontravam-se o médio brasileiro Nivaldo, vindo do Benfica, e o avançado Pita, que haveria de ficar com o seu nome gravado na história do Portimonense no âmbito desta entrada na Europa do futebol.

O histórico "onze" do Portimonense que bateu o Partizan de Belgrado

O apadrinhamento europeu dos algarvios foi feito por um emblema muito experiente nestas andanças, por um gigante do futebol do leste europeu, o Partizan de Belgrado. Se a inexperiência já de si era um fator que à partida condicionava os homens de Portimão, o facto de terem pela frente um dos maiores clubes da então Jugoslávia tornava esta numa missão praticamente impossível, o que se viria a confirmar no final da eliminatória. Mas o nosso foco é no jogo da primeira mão, em Portimão, cujo estádio se engalanou para o batismo europeu do seu clube. E quando aludimos ao termo engalanou queremos dizer que não era só a atmosfera quente - não só pelo calor típico algarvio, mas sobretudo pela massa adepta presente - que envolveu esse histórico encontro realizado a 18 de setembro de 1985, mas também porque nesse dia, ou melhor, nessa noite, era inaugurada a iluminação elétrica do estádio, que tinha custado a módica quantia de 35.000 contos. Quiçá todos estes condimentos ajudaram o Portimonense a alcançar uma vitória histórica, por 1-0, um resultado que assustou o Partizan, segundo a crónica de A Bola. Pela pena de uma magistral dupla de jornalistas, os Serpa, Homero (o pai) e Vítor (o filho), escreveu-se que na noite morna de Portimão o clube local, sem traquejo internacional, fez a sua estreia europeia ante um experiente Partizan, uma equipa com largo prestígio na Europa, e que talvez tivesse sido esta a razão pela qual a turma algarvia entrou em campo com uma certa inibição. Facto que com o passar do tempo se eclipsou, e o Portimonense começou a mostrar o desejo de dar boa conta do recado. Os portugueses foram para Vítor Serpa uma equipa «combativa, determinada, mas que não teve dúvidas nunca quanto à diferença da qualidade técnica que a separava do adversário. De tal modo assim foi que o Portimonense apenas conseguia equilibrar as operações, ou até, eventualmente, sobrepor-se ao seu adversário, quando adregava imprimir maior velocidade ao jogo, tirando assim partido da rapidez de execução de alguns dos seus jogadores. E sabe-se por um certo saber de experiência feito, o quanto de uma forma geral desagrada às equipas de leste jogar de pressa», assim descrevia o jornalista um jogo que terminou com uma «vitória saborosa na jornada que assinala a estreia - facto que só por si merece ser devidamente assinalado», mas que era um resultado que não garantia um passo decisivo para passar a eliminatória. E como estava certo o jornalista da Travessa da Queimada.

Já o seu pai escrevia que foi num ambiente «misto de euforia e de dúvidas - até porque na sua opinião os algarvios ainda não haviam encontrado naquela época o entrosamento necessário - que a equipa de Vítor Oliveira entrou no relvado do seu estádio, pela primeira vez iluminado, para defrontar, em desafio oficial, uma equipa estrangeira: Partizan de Belgrado, uma turma habituadíssima às competições internacionais; portanto, com muito mais experiência do que o Portimonense que só agora inaugurou esta nova via num percurso que está a fazer, desde a Segunda Divisão, em constante progresso».

Lance do jogo do Algarve
E prosseguindo a sua análise ao jogo, Homero Serpa dizia que «devemos começar por dizer que Partizan começou, logo de início, por transmitir a ideia de que iria realizar um jogo calmo, sem grandes sobressaltos, no intuito de  preparar a decisão da eliminatória para a segunda mão, em Belgrado. O 0-0 seria um bom resultado, o 1-1, excelente, e, por aí adiante . Mas a derrota sofrida, embora por margem escassa, não será assim tão bom, pese o facto de o Portimonense não se encontrar, presentemente, na sua melhor forma. Longe disso, obrigando a que permaneça a dúvida quanto à sua capacidade de resistência para o segundo e decisivo "round". Mas, o futebol é, como uma caixinha de surpresas, e, até pode suceder que a simpática equipa algarvia prossiga em prova. No entanto, e pelo que se conhece do futebol jugoslavo, a tarefa não vai ser nada fácil, bastando, para tanto, recordar os exemplos de outras equipas de maiores pergaminhos no futebol europeu que "morreram" às mãos do Partizan, que continua uma das grandes formações europeias, com um futebol bem entremeado, onde a técnica e a velocidade combinam quase perfeitamente. Mas, aconteça o que acontecer, na segunda mão, o que mais importa agora é que o Portimonense venceu este seu primeiro teste ao nível de provas da UEFA, o que, só por si, chega para elevar a equipa algarvia a uma posição muito simpática no cotejo internacional». E assim foi.

Mais a fundo, Homero Serpa dizia que as equipas jogaram este desafio do Algarve um pouco no escuro, com algum receio uma da outra, tendo sido, no entanto, dos de Portimão os dois primeiros sinais de algum perigo, sendo que na visão do jornalista o primeiro lance é uma clara grande penalidade cometida por Nikodijevic sobre Freire, que o árbitro belga Alphonse Constantin ignorou. Acrescentaria que os primeiros dez minutos da partida foram de domínio algarvio, uma equipa que nas suas palavras «se esqueceu da categoria do adversário que tinha pela frente».

Nivaldo prepara-se para mais um ataque
à baliza do Partizan 
Encostado às cordas, o técnico do Partizan abdica de um defesa e dá ordem ao seu lateral direito para subir no terreno, uma mudança que atordoou os pupilos de Vítor Oliveira, que com mais um homem pela frente no meio campo contrário. Um «embaraço» que «naturalmente, acabaria por ser bem aproveitado pelos jugoslavos que começam, tecnicamente, a mandar na partida. As sua jogadas, no entanto, nunca foram demasiado perigosas. Via-se que detinham o comando, mas pouco apoquentavam o guarda-redes português, que tinha à sua frente dez companheiros humildes e uma defesa que, quando era preciso aliviava de qualquer maneira, mesmo de forma arcaica. (...) O Portimonense não fazia flores, e não se envergonhava de ser humilde. Soube, antes do mais, ser realista, actuando com a frieza necessária. O tempo ia correndo e, aquilo que a princípio mais se temia, continuava por não suceder. As balizas da turma portuguesa permaneciam invioláveis. A seu favor, os jugoslavos apenas podiam contabilizar dois, lances que, muito no condicional, poderiam ter ocasionado dois golos». Isto na primeira parte. O reatamento não poderia ter começado melhor para os portugueses, já que aos 47 minutos surge o ponto alto deste encontro, o golo! O tento da autoria do cabo-verdiano Pita, um golaço que levantou o estádio e que foi desenhado da seguinte maneira: «Cadorin foi rápido a fazer um lançamento no lado direito, já perto da bandeirola de canto, Freire centrou também rapidamente e Pita, entrando fulgurantemente de cabeça, atirou à baliza. A bola, antes de entrar, tabelou no poste direito, sem hipóteses para o guarda-redes».

Pita, um jogador que Homero Serpa considerava o melhor ponta-de-lança do futebol português a atuar de cabeça! O Partizan ficou perplexo com este golo, em contraposto com os adeptos algarvios, que entusiasmados por este festejo empolgaram ainda mais o seu conjunto. «Toda a equipa sobe de rendimento (...) Os jugoslavos perturbam-se. O Portimonense, galvanizado, arranca para uma exibição memorável, com um futebol de nível internacional. Sem grande técnica, mas, veloz, e com o aproveitamento milimétrico de todo o terreno. Agora, a equipa portuguesa torna se num bico-de-obra para o seu adversário», lia-se na reportagem de A Bola.

Vítor Oliveira passou de jogador
a treinador dos algarvios
Foi uma meia hora empolgante do Portimonense, que atirou ao tapete o experiente Partizan, que apesar de nos últimos 15 minutos alargar a sua frente da ataque não levou perigo para os pupilos de Vítor Oliveira. «Esta equipa do Partizan não nos pareceu muito rápida. Acreditamos, no entanto, que não terá mostrado frente aos portugueses o muito de que é capaz de progredir neste aspecto. E, meus amigos, se conseguir combinar a velocidade com a excelente técnica de que é detentora; vai ser, não tenhamos dúvidas, um osso muito duro de roer em Belgrado», escrevia o jornalista de A Bola numa antevisão daquilo o que seria o inferno na Jugoslávia, onde os portugueses viriam a cair por expressivos 4-0, dizendo adeus à UEFA.

Mas ninguém tira aos algarvios o prazer de ter assustado os poderosos jugoslavos e de se terem estreado nas competições europeias com uma surpreendente, mas justa, vitória. Surpresa era pois o estado de alma que reinava no balneário do Partizan no final do encontro, a começar pelo treinador Nenad Bjekovic. «Os portugueses estiveram muito bem e confesso que me surpreenderam. Estava à espera que jogassem em passes curtos e a trocarem a bola e apareceu-me um estilo de jogo totalmente, ao contrário. O Portimonense surgiu a jogar em passes longos e a actuar muito bem de cabeça. (...) No meu entender, os portugueses sobressaíram pelo seu jogo colectivo, se bem que tenha de distinguir a exibição de Nivaldo, muito boa, um elemento que faz jogar a equipa e demonstra bastante experiência», disse o técnico jugoslavo que fez ainda uma antevisão do encontro da segunda mão, opinando que este seria decisivo, e que a sua equipa tinha boas hipóteses de seguir em frente.

Cadorin, uma das principais
figuras dos algarvios
Uma das estrelas do Partizan era então Ljubomir Radanovic, defesa que representou a Jugoslávia no Europeu de 1984, e nos Jogos Olímpicos do mesmo ano, que opinaria que «o Portimonense mostrou-se mais lutador, pelo que mereceu ganhar. O Partizan não mostrou em Portimão o seu verdadeiro valor, mas irá faze-lo em Belgrado, dentro de duas semanas. O Portimonense, apesar de boa equipa não chegará para superar esta eliminatória», como estava certo o capitão da equipa Balcã. Curiosidade é que também o árbitro do encontro foi ouvido pelos jornalistas de A Bola, tecendo uma opinião sobre o jogo! Coisa impensável nos dias de hoje. Alphonse Constantin disse então que este havia sido um encontro interessante de arbitrar, «com os portugueses, muito bons tecnicamente, a desfrutarem de grandes hipóteses para ultrapassar a eliminatória. É verdade que os portugueses demonstraram uma falta de maturidade competitiva, mas estou convencido que a irão adquirir, pois dispõem de muitos jogadores novos e muito futuro na sua combinação». E o penalti reclamado pelo Portimonense na primeira parte, o que tinha o senhor Constantin a dizer em sua defesa? «O Portimonense reclamou, de facto, grande penalidade, mas o jogador atirou-se voluntariamente para o chão sem ninguém lhe ter tocado. Aliás, esse jogador procedeu de forma muito inteligente. Pois levantou-se e não me disse uma palavra».

Na cabine de Portimonense reinava a alegria, mas ao mesmo tempo um sentimento de que o resultado era curto para a viagem à Jugoslávia quinze dias depois. Vítor Oliveira estava satisfeito com a exibição da sua equipa e com o resultado, «embora reconheça que se tivéssemos marcado mais um ou dois golos seria mais justo para a minha equipa. (...) Apesar de escasso (o resultado), vamos tentar passar a eliminatória, a fim de prestigiar a cidade de Portimão e o nome de Portugal», disse então o técnico.

Também o experiente defesa Simões era de opinião que o score era curto em relação à exibição dos de Portimão,  endereçando ainda uma palavra ao público afeto à sua equipa: «não quero deixar de enaltecer o apoio entusiástico que o público de Portimão nos dispensou e bom seria que assim se mantivesse durante as jornadas do campeonato. Esse calor humano à nossa volta só engrandece a equipa».

Para a história do Portimonense e do futebol português aqui fica a ficha deste jogo:

Estádio do Portimonense. Árbitro: Alphonse Constantin (Bélgica)

Portimonense: Vital; Dinis, Balacó, Simões, Teixeirinha, Freire, Carvalho, Nivaldo, Luís Reina, Pita e Cadorin. Substituições: Nivaldo por João Reina, Freire por Barão, aos 40 e 44 minutos respetivamente. Treinador: Vítor Oliveira.

Partizan: Omeovic; Radovic, Vermezovic, Capljic, Rojevic, Zivkovic, Stevanovic, Radanovic, Nikodijevic, Varga e Vucievic. Substituições: Varga por Djukic, Stevanovic por Diermai, aos 21 e 27 minutos, respetivamente. Treinador: Nenad Bjekovic.

Golo: Pita, aos 47 minutos.

ENTREVISTA COM JOÃO REINA

«DIGNIFICÁMOS O FUTEBOL PORTUGUÊS E PRINCIPALMENTE O FUTEBOL ALGARVIO»

Algarvio de gema (nasceu em Olhão), João Reina era uma das figuras do plantel do Portimonense que viveu na pele a aventura europeia de 85/86. Ele participou no célebre jogo com o Partizan, entrando para o lugar de Nivaldo. Chegou a Portimão precisamente na histórica temporada em que o emblema algarvio alcançou o 5.º lugar que deu acesso à Taça UEFA, e nesta entrevista ao Museu Virtual do Futebol o antigo defesa recordou não só a épica vitória ante o conjunto oriundo da ex-Jugoslávia, como também falou dos timoneiros (Vítor Oliveira e Manuel José) que conduziram a nau algarvia naqueles anos dourados, bem como o significado que este triunfo teve para toda a região do Algarve.

João Reina com 
a camisola do Portimonense
Museu Virtual do Futebol (MVF): O João Reina cumpria na altura a segunda época em Portimão, sendo um dos obreiros desta qualificação para a Taça UEFA. Como explica esta rápida ascensão à Europa do futebol de um clube que só se tinha estreado na 1.ª Divisão em 1979?

João Reina (JR): O Portimonense já vinha fazendo boas épocas na 1.ª Divisão Nacional, e com a entrada de vários jogadores e do treinador  Manuel José, que tinha um grande conhecimento do futebol português, a pré época correu muito bem e começámos nos lugares acima do meio da tabela. Depois, fomos cimentando a nossa posição, conseguido a qualificação (europeia) com muito mérito.

MVF: Recorda-se como é que Portimão, e o Algarve em geral, viveram esta qualificação para uma competição europeia?

JR: Sendo o primeiro clube algarvio a conseguir esse feito Portimão e o Algarve estavam naturalmente ansiosos à espera desses jogos (europeus).

MVF: E quando no sorteio uefeiro vos colocou pela frente o Partizan, um clube poderoso, oriundo de uma escola de futebol muito forte, o que vos passou pela cabeça nessa altura?

JR: Toda a gente conhecia o Partizan, que na altura era uma das boas equipas da Europa. Mas nós tínhamos o sonho de fazer uma boa prova.

MVF: O que vos disse Vítor Oliveira nos dias que antecederam este jogo, como é que ele trabalhou a vossa mente no sentido de ultrapassar este obstáculo?

JR: O mister Vítor Oliveira sempre se mostrou tranquilo, sempre a motivar-nos não só nestes jogos (europeus), como também para os do campeonato. Mas sempre acreditando que poderíamos seguir em frente nesta eliminatória.

MVF: Por falar em Vítor Oliveira, o João Reina partilhou o balneário com ele nos anos de Portimonense, quer enquanto colega de equipa, quer na qualidade de pupilo. O que lhe diz Vítor Oliveira ainda hoje, o que se lembra dele?

JR: Como colega foi um orgulho fazer parte da equipa dele. Sempre foi amigo do seu amigo, e como seu pupilo (mais tarde) dele sempre foi um treinador a pensar em prol da equipa, sem olhar a nomes, fazendo  jogar quem estava seu melhor momento de forma. Com ele aprendi muito de futebol, e já na altura o Portimonense jogava com três centrais e dois alas e eu fui um dos que fui adaptado à posição de ala, onde penso que me saí bem. O Vítor Oliveira é uma pessoa que nunca vou esquecer.

MVF: Não podemos esquecer que esta qualificação europeia foi obra de outro nome consagrado da tática em Portugal, Manuel José...

JR: Foi o mister Manuel José que me levou para o Portimonense, tendo ele conseguido o feito de nos apurarmos para uma competição da UEFA. Foi dos bons treinadores que tive ao longo da minha carreira, e dele guardo boas recordações, tal como do mister Vítor Oliveira.

MVF: Veio o dia do jogo, ou melhor, a noite, porque se estreava a iluminação artificial, e o que sentiu quando a bola começou a rolar no ambiente quente - no duplo sentido - algarvio. Como foram os primeiros minutos de jogo, estavam nervosos, acreditavam que podiam ganhar, em suma como estava a equipa?

JR: Naturalmente estávamos todos nervosos, mas com o decorrer dos minutos fomos acreditando que poderíamos fazer um bom resultado. Acho até que o 1-0 foi pouco pelo que produzimos, principalmente na 2.ª parte. Tínhamos um excelente grupo. com alguns jogadores mais experiente que encaravam o jogo de outra forma.

MVF: Rezam as crónicas que na segunda parte o Portimonense soltou-se mais, dominou o jogo, e veio o golaço de Pita. O que se lembra destes momentos da etapa complementar, do golo, e de que vos disse Vítor Oliveira ao intervalo e que mudou a atitude dos jogadores de Portimão (?)

JR: O Portimonense, como já disse, fez uma grande 2.ª parte, tendo o golo do Pita reposto alguma verdade no marcador. O Vítor Oliveira só nos fez acreditar que poderíamos sair com uma vitória nesse jogo.

MVF: Esta é uma pergunta clássica, mas impõe-se: qual foi o segredo para vencer o Partizan naquela noite?

JR: O segredo foi acreditarmos no grupo que tínhamos, e que fazendo um jogo sem erros poderíamos ganhar. E foi o que aconteceu.

MVF: Tem ideia do que significou esta vitória para o clube e em particular para a região do Algarve, que até então internacionalmente era só conhecida pelo sol e pelas belas praias?

JR: Para o clube foi o encarar o campeonato com mais tranquilidade, sabendo que os nossos adversários iriam olhar pata nós de outra forma, respeitando-nos mais. Para a região foi o dar a saber que no Algarve também existia futebol.

MVF: E depois, o que aconteceu em Belgrado para justificar a pesada derrota e a consequente eliminação da Taça UEFA?

JR: Em Belgrado sofremos logo nos primeiros minutos um golo, e contra estas equipas quando se sofre cedo dificilmente se consegue contrariar a sua maior experiência, como era o caso do Partizan. Mas penso que dignificámos o futebol português e principalmente o futebol algarvio.

sexta-feira, julho 08, 2022

Cidades do Futebol (6)... Birmingham: Muito mais do que a terra natal dos Peaky Blinders

Birmingham
Terras há por esse Mundo fora que são hoje famosas por terem servido de berço a criminosos, quadrilhas, ou patifes da pior espécie e que graças ao seu ofício, digamos assim, também eles se tornaram célebres. Mas nenhuma é tão requintada - no que concerne a bandidagem - como Birmingham, graças aos seus... Peaky Blinders. Pelo menos no que à ficção diz respeito, já que na mundialmente aclamada série da Netflix este afamado gangue nascido naquela cidade prima por um estilo e personalidade muito... cool, não se sabendo se os verdadeiros Peaky Blinders eram tão refinados.

Mas perguntar-se-á o ilustre visitante o que tem a ver o célebre gangue com futebol? Alguma coisa terá, mas já lá vamos. Birmingham não é só a terra natal desta organização criminosa, é também o berço de dois emblemas que contribuíram, e muito, para a história do futebol inglês, mais concretamente para a criação de uma liga (campeonato). Na verdade, foi nesta que é a segunda maior urbe de Inglaterra que surgiu a ideia de fundar o mais antigo campeonato de futebol do Mundo, o inglês. Mas não só por isto estes dois símbolos, rivais, e a cidade que os viu nascer merecem um lugar de destaque no Grande Atlas do Futebol Planetário, já que os jogos entre si constituem-se como um dos dérbis mais antigos do Planeta da Bola. É verdade, o dérbi de Birmingham é dos que se joga há mais anos em todo o globo, sendo que o Second City Derby, como ficaram conhecidos os confrontos entre os dois filhos de Birmingham, é considerado o dérbi mais escaldante de Inglaterra!

O dérbi mais escaldante de Inglaterra joga-se em Birmingham

A equipa do Villa que conquistou o primeiro
troféu do clube: a Birmingham Senior Cup
Birmingham pode não ter o mediatismo global - em termos de futebol - de cidades como Londres, Manchester, ou Liverpool, mas tem o dérbi com maior rivalidade de todo o reino de Sua Majestade! Essa é que é essa! Os protagonistas deste duelo são o Aston Villa e o Birmingham City. Nasceram ambos numa época em que o futebol em Inglaterra vivia ainda de uma forma muito desorganizada, isto é, não havia muitos clubes organizados, a Taça de Inglaterra era ainda um bebé e era a única competição em que os poucos emblemas existentes mediam forças. Em suma, era tudo muito novo, e nesse sentido se pode considerar os dois filhos de Birmingham como dos mais antigos - e pioneiros - do futebol em Inglaterra. O primeiro a ver a luz do dia foi o Aston Villa, em 1874, diz-se que no dia 21 de novembro, diz-se, mas sem certezas, já que não há registos escritos desse facto baseado apenas na memória que vai ficando esbatida com o avançar dos anos. Porém, reza a história que numa noite invernal quatro rapazes ligados à equipa de críquete da Capela Wesleyana reuniram-se de forma casual debaixo de um candeeiro a gás na Heathfield Road, falando entre si sobre qual seria a solução para se manterem em atividade (desportiva) nos meses de inverno. E assim nasceu a ideia de fundar um clube alusivo ao novo jogo da Football Association (FA) que dava os primeiros passos no país. Jack Hughes, Frederick Mathews, Walter Price e William Scattergood, foram os quatro rapazes que fundaram então o Aston Villa Football Club. Pouco tempo depois já tinham jogadores suficientes para colocar a sua ideia em prática, pese embora na região não tivessem qualquer oponente, já que, como já o referimos, o football era um jogo muito desorganizado em grande parte de Inglaterra. Talvez por isso só em março do ano seguinte o Villa, como se tornou popularmente conhecido com o passar dos anos, tenha realizado o seu primeiro encontro - de que há memória. E foi contra uma equipa de rugby (!), mais concretamente o Aston Brook St.Mary's, que aceitou defrontar o Villa com uma condição muito peculiar, isto é, que numa das partes o match fosse disputada sob as regras do rugby e fosse usada uma bola oval, e noutra fossem aplicadas as regras do futebol e fosse usada uma bola redonda. E assim se levou por diante este jogo que terminou com a vitória do Aston Villa por 1-0, com o golo a ser apontado por um dos fundadores do clube, Jack Hughes. Reza a história que a bola de futebol usada neste encontro terá custado a módica quantia de 1 Xelim e 6 Pence. Uma pequena fortuna para quem estava a começar. De referir, como curiosidade, que o nome Villa advém da Capela Wesleyan Villa Cross, à qual estava ligado o clube de críquete dos quatro fundadores do Aston Villa.

Aqui começam a entrar os Peaky Blinders!

Os verdadeiros Peaky Blinders
Foi precisamente neste ano de 1875 que nasce na zona de Small Heath, um bairro situado no sudeste de Birmingham, um outro clube, este ligado à igreja, e formado por um grupo de jogadores de críquete da Igreja da Santíssima Trindade, em Bordesley Green. Em homenagem a esta zona habitada pelas classes operárias da cidade, o clube seria batizado de Small Heath Alliance. Em 1943 seria rebatizado de Birmingham City Football Club, tal e qual como o conhecemos hoje. Bom, mas é aqui que entra o célebre gangue dos Peaky Blinders, nascido nos finais do século XIX numa época em que Birmingham estava mergulhada na pobreza devido à revolução industrial, tal como noutras cidades do Reino Unido. O grupo durou até ao final dos anos 30 do século XX, e foi constituído por jovens desempregados, por órfãos, por simples marginais, que se afirmaram socialmente e politicamente através de roubos, contrabando, raptos, apostas ilegais, e manipulações de corridas de cavalos. O grupo liderado por Thomas Gilbert tinha as suas raízes precisamente em Small Heath, mas com o poder que foi conquistado à custa de outros grupos de crimes organizados locais rapidamente se expandiu a outra zonas da região, tornando-se numa espécie de ídolos, ou referência, para outros gangues que foram surgindo na cidade. Small Heath era pois uma zona de extrema pobreza e controlada pelo Peaky Blinders, não se sabendo se o gangue estava diretamente ligado ao clube ali criado. Sabia-se sim que faziam apostas ilegais, de futebol inclusive, e que nos anos seguintes essas apostas contemplavam os jogos em que entravam tanto o Villa como os Blues - como é conhecido o Birmingham City, devido às cores do seu equipamento, predominantemente azul -, e como tal é bem provável que tenham exercido o seu poder (ameaçador) sobre os clubes da cidade para falsear resultados. Talvez. Não se sabe qual o clube concreto que apoiavam, se o Aston Villa, se o Small Heath Alliance, embora na série ficcionada da BBC, e que se encontra na Netflix, há uma referência ao Birmingham City, quando a certa altura no pub frequentado pela família Shelby - que lidera os Peaky Blinders - é dito pela personagem que interpreta o empregado Harry à personagem Grace que os rapazes estão a caminho de Saint Andrews para rezar, ao que Grace pergunta qual o motivo dessa oração, sendo que o barman responde que Saint Andrews é um campo de futebol e que os Blues vão jogar. Os Blues são claramente o Small Heath Alliance, Saint Andrews a casa do Birmingham City desde 1906, e os rapazes são os jogadores e adeptos desta equipa, que na série frequentavam o Garrison, o pub dos Peaky Blinders.
Já no século XXI o Birmingham City aproveitou
a popularidade da série da Netflix para 
associar a si a imagem dos Peaky Blinders
A este propósito, e aproveitando a popularidade planetária da série da Netflix baseada num gangue real, nunca será por demais recordar o facto de o Birmingham City ter respondido afirmativamente, já neste ano de 2022, a um desafio da BBC, após o lançamento da sexta e última temporada da série Peaky Blinders. Ou seja, nas redes sociais da série, surgiu um comunicado endereçado ao Birmingham City que dizia o seguinte: «Temos orgulho do lugar de onde vocês vieram, orgulho de terem crescido nas ruas de paralelepípedos de Small Heath, assim como os Peaky Blinders. Então, é hora de vestir esse orgulho como uma medalha de honra. Neste sábado, vocês devem voltar às suas raízes e tornar-se o Small Heath Alliance uma vez mais. Por ordem dos Peaky Blinders», "Ordem" essa que foi aceite pelos Blues, que no encontro do Championship ante o Huddersfield Town se apresentaram em campo como Small Heath Alliance, sendo que a equipa entrou no relvado ao som da música "Red Right Hand", de Nick Cave, e que é a banda sonora da série Peaky Blinders, além de que os funcionários do clube e alguns adeptos usaram as boinas celebrizadas pelos membros do célebre gangue. Muitos fãs do clube ainda hoje se referem aos Peaky Blinders reais como adeptos do Birmingham City e nunca do Aston Villa, desde logo pelas origens dos Blues, contribuindo assim ainda mais para a acesa rivalidade entre ambos os clubes.

Rivalidade que no campo de batalha, isto é, no retângulo de jogo, aconteceu pela primeira vez em 1879, no reduto do então denominado Small Heath Alliance, em Muntz Street, e que terminou com o resultado de 1-0 para os da casa, sendo que no rescaldo desse primeiro duelo os jogadores do Villa se queixaram dos muitos buracos do terreno de jogo. Só oito mais tarde os dois vizinhos e rivais se voltariam a encontrar, mas desta vez numa partida de caráter oficial, contrariamente à anterior, numa meia-final da FA Cup (Taça de Inglaterra), tendo o Aston Villa vencido por 4-0.

O Villa cresceu mais forte e vitorioso que o seu vizinho

George Ramsey, o responsável pelo
período dourado do Aston Villa
Por esta altura, já fazia parte da equipa do Villa aquele que foi considerado uma das primeiras lendas do clube, George Ramsey. Este escocês, nascido em Glasgow, em 1855, chegou a Birmingham pouco depois da fundação do clube, mais concretamente no inverno de 1876. Ingressou no clube quase por acaso, já que ao assistir a um treino pediu para participar no mesmo, ao que os jogadores do Villa um tanto ao quanto desconfiados lá acederam. Desconfianças que prontamente ficaram dissipadas, já que Ramsey, que no seu país havia tido uma passagem enquanto juvenil pelo Glasgow Rovers, de pronto colocou no campo toda a sua qualidade. Fintas diabólicas, técnica de passe soberba, uma robustez física impressionante, e um conhecimento aprofundado do jogo deixaram os jogadores do Aston Villa de boca aberta perante aquele jovem escocês. Tanto assim foi, que não só o convidaram de pronto a juntar-se ao clube, como lhe deram a honra de se tornar capitão da equipa! Ramsey tornou-se desde logo na estrela principal do emblema, na atração principal dos adeptos que enchiam o Perry Barr - um dos primeiros estádios do Villa - sendo um dos principais responsáveis pela conquista do primeiro título deste clube, a Birmingham Senior Cup, em 1880. Ele implementou um estilo de jogo na equipa, o qual ajudou à conquista de muitos outros títulos, de âmbito nacional, e que fizeram do Villa uma das maiores potências do futebol inglês durante o século XIX. Além de jogador ele foi também dirigente do clube, sendo um dos intermediários que esteve nas negociações para a aquisição dos terrenos, na zona de Aston, onde está hoje em dia implementado o Villa Park, atual estádio dos Villians. Foi de igual modo responsável pela contratação de jogadores para o clube, salientando-se aqui a vinda de Archie Hunter, outro atleta escocês e que cujo o percurso no Villa faz dele ainda hoje uma lenda. Hunter era o capitão de equipa quando o Aston Villa ergueu a sua primeira FA Cup, em 1894. Voltando a Geroge Ramsey, assim que pendurou as chuteiras ele passou para o comando da equipa, na condição de treinador, tendo o clube alcançado sob a sua batuta a maior parte dos seus títulos. Isto é, o campeonato nacional das épocas de 1893/94, 1895/96, 1896/97, 1898/99, 1999/00, e de 1909/10; bem como as FA Cup's das temporadas de 1886/87, 1894/95, 1896/97, 1904/05, 1912/13, e de 1919/20. Em termos números, dos 30 títulos (27 nacionais e 3 internacionais) que o Aston Villa conquistou ao longo dos seus quase 150 anos de história, 18 tiveram a mão de George Ramsey. A sua ligação ao clube durou 59 anos, e ainda hoje o seu legado é visto como a Era Dourada do Aston Villa, já que conquistou 6 dos 7 campeonatos nacionais que o clube ostenta no seu palmarés, e 6 das 7 FA Cup's que tem nas suas vitrinas. É obra. Ramsey faleceu no País de Gales a 7 de outubro de 1935.

Dirigente do Aston Villa idealiza os alicerces da Premier League...

Estátua de William McGregor
no exterior do Villa Park
Nas últimas décadas do século XIX estava também ligado ao clube outro nome histórico, não só deste, como do próprio futebol inglês: William McGregor. Este lendário dirigente do Villa, idealizou o projeto de criar uma liga nacional, isto é, um campeonato nacional, já que até então a única competição existente era a FA Cup. McGregor idealizou a Football League, a atual Premier League, tendo o Aston Villa sido um dos 12 clubes que na temporada de 1888/89 deu o pontapé de saída no campeonato mais antigo do Mundo em termos de clubes.  A rivalidade entre os Villians e os Blues de Birmingham também ao nível de projetos desportivos se fez sentir. Se o Villa, ou neste caso o seu histórico dirigente William McGregor, o Birmingham City - na altura ainda denominado de Small Heath Alliance - procurou criar uma liga concorrente, a Football Alliance. Mas sem sucesso, já que a Football League foi aquela que vingou.

Aqui se percebe também o poderio que o Aston Villa tem na cidade, tornando-se com o passar das décadas no clube mais popular de Birmingham, diríamos a anos luz do rival City. Muito também por causa do pomposo palmarés que o Villa ostenta, em contraponto com o seu vizinho, que em 147 anos de vida só ganhou uma Taça da Liga, conquistada em 1963, à custa do... Aston Villa. Pois é, a final, na altura jogada a duas mãos, foi conquistada ante os eternos rivais, um título que pelo facto de ter sido conquistado contra quem foi valerá, para os adeptos Blues, por todos os 30 que foram arrecadados pelo Villa.

 ... Mas foi o City o primeiro clube de Inglaterra a chegar a uma final europeia

A equipa do Birmingham City que atingiu a final da TCcF de 1960 
perfilada em Camp Nou

Foi precisamente a década de 60 do século passado que pode ser considerado a Era mais importante do City, não só pelo único troféu oficial - e de pompa - vencido, mas porque foi igualmente nestes anos que atingiu duas finais de competições europeias, nesta caso a extinta Taça das Cidades com Feira (TCcF). Na verdade, o City foi o primeiro clube inglês a jogar um competição europeia, em 1955, e o primeiro a jogar uma final continental, em 1960, isto se não considerarmos a seleção de Londres, que atingiu a final da mesma competição europeia dois anos antes, um clube. Em 60 e 61 o Birmingham City jogou duas finais consecutivas da TCcF, na primeira foi derrotado pelo Barcelona, e na segunda pela Roma. O período dourado do City pode ser atribuído a Gil Merrick, que como futebolista representou sempre os Blues, entre 1938 e 1960, tendo a partir daqui até 1964 assumido a pasta de treinador, levando o emblema do seu coração a duas finais europeias e a uma da Taça da Liga, que venceu, como já vimos.

A FA Cup foi roubada! Terão sido os Peaky Blinders?

A turma do Aston Villa que venceu 
a FA Cup de 1895
Mas voltemos à ligação dos Peaky Blinders com o futebol. E nesse sentido viajemos até 1895, ano dourado para as cores do Aston Villa, que vencia a segunda FA Cup da sua história. Birmingham rejubilou com esta conquista do seu (então já) filho mais pródigo. Como forma de mostrar o troféu à sua cidade, o clube acedeu expô-lo numa loja de sapatos no centro a cidade, a pedido do proprietário da mesma. Porém, na noite de 11 de setembro de 1895 a taça foi roubada! O troféu mais cobiçado do país em termos desportivos desapareceu sem deixar qualquer vestígio. A Fooball Association (federação inglesa de futebol), a quem o troféu pertencia, multou o Villa em 25 libras, responsabilizando assim o clube pelo sucedido. O caso permanece até hoje como um mistério, um roubo cujos autores nunca foram descobertos, pese embora muitos apontem o dedo a um certo grupo de crime organizado como os autores do mesmo. Quem são eles? Esses mesmos, os Peaky Blinders. Este roubo aconteceu numa época em que este gangue era bastante ativo no que concerne a grandes roubos na cidade, e daí muita gente ainda hoje acreditar que foram eles os autores deste célebre furto. Como grandes dominadores do crime organizado na cidade não lhes teria sido nada difícil roubar o troféu exposto na vitrina de uma loja que aparentemente não oferecia grandes condições de segurança, pois não podemos esquecer que estávamos em pleno século XIX. A FA Cup conquistada pelo Aston Villa estava nessa loja após um pedido do proprietário, William Shillcock, como já referimos, ele que era visto em Birmingham como um dos mais acérrimos adeptos do Villa. Era esta figura que fornecia as botas (ou chuteiras) com que os jogadores do clube entravam em campo. Mas voltando ao roubo, a polícia da época não conseguiu descortinar o caso, nunca conseguindo intercetar nem o troféu, nem os autores do furto. Este caso constitui-se como um mistério ainda hoje, um mistério que já ganhou contornos de lenda, na verdade.
Thomas Gilbert, o líder dos verdadeiros
Peaky Blinders
Um caso tão lendário que nas décadas seguintes foram muitos os que tentaram assumir as culpas do roubo em busca de notoriedade. Um desses pseudo-autores do crime foi Harry Burge, que 60 anos depois do furto contou a um jornal que ele e mais dois amigos haviam sido os autores do sequestro da taça, dizendo que posteriormente haviam derretido a prata do troféu com a finalidade de fabricar moedas falsas. Esta confissão. contudo, nunca foi levada muito em conta, já que Burge era na altura um velho e miserável presidiário, doente, e que desta forma procurava alguma clemência para sair da prisão onde se encontrava. Mas além disso, o seu depoimento não bateu certo com a realidade, ou seja, Burge contou uma história diferente da que aconteceu. Por exemplo, a sua história não coincidiu com o facto verídico de que os ladrões fizeram um buraco no telhado para entrar na loja. Nesse sentido a sua história é descartada, até que sensivelmente um século após este roubo, uma mulher, de nome Violet Stait, revelou que o seu sogro participou no famoso roubo, pois havia confessado isto ao filho, marido de Violet, pouco antes de morrer. O nome deste individuo era John "Stosher" Stait, famoso criminoso de Birmingham e membro dos... Peaky Blinders. A história terá passado entre gerações da família Stait, sendo que uma das bisnetas de "Stosher" manteve a mesma versão aquando da antecâmara da estreia da série alusiva ao famoso gangue. Estaremos perante a realidade ou a ficção tal como os Peaky Blinders da Netflix? O mistério prevalece até hoje.

Taça dos Campeões Europeus chega a Birmingham pela mão do Villa

Contra todas as previsões, o Villa 
conquistou a Europa em 1982
Foi já referido que o auge do Aston Villa aconteceu no século XIX, período em que o clube conquistou alguns dos títulos mais importantes da sua história, nomeadamente 5 dos seus 7 campeonatos nacionais, e três das suas sete FA Cup's. Dizemos alguns porque no século XX o Villa trouxe para Birmingham o troféu mais pomposo da história do futebol da cidade, a Taça dos Campeões Europeus (TCE). É verdade, o Aston Villa é um dos cinco clubes ingleses que até aos dias de hoje venceu a mais importante competição de clubes a nível planetário, a par do Manchester United, do Liverpool, do Nottingham Forest e do Chelsea. Este facto aconteceu na temporada de 1981/82, um ano após o Villa ter surpreendido a Velha Albion ao vencer a liga inglesa 71 anos depois do último título de campeão nacional. À frente dessa equipa estava o técnico Ron Saunders. Apesar de serem os campeões de Inglaterra, e deste país dominar a seu bel prazer a prova maior da UEFA (entre 1978 e 1981 a Taça dos Campeões morou sempre em Inglaterra), eram poucos aqueles que na Europa acreditavam que o emblema de Birmingham pudesse seguir o exemplo do Liverpool e do Nottingham Forest, os dois clubes que haviam conquistado o troféu nos anos anteriores. Até porque em termos de experiência europeia o Villa só tinha marcado presença em duas edições da Taça UEFA e sem grande sucesso, além de que não tinha jogadores famosos, era uma equipa mediana, e a prova disso é que andou nessa histórica temporada a lutar pela manutenção até bem perto do final. A juntar ao pouco favoritismo a vencer a orelhuda o facto ainda de Ron Saunders se ter demitido em fevereiro por divergências com a administração do clube devido a causas contratuais. No seu lugar ficou o adjunto Tony Barton. O que é certo é que passo a passo o Aston Villa chegou à final da TCE, nesse ano disputada em Roterdão, tendo pela frente o colosso Bayern de Munique. Até chegar à grande final, Barton mantendo-se fiel ao estilo de jogo implementado pelo seu antecessor e mestre, superou com classe a primeira barreira europeia: o poderoso campeão da então União Soviética, o Dínamo de Kiev. Equipa esta que caiu nos quartos-de-final, depois de um nulo na atual capital da Ucrânia e de um triunfo por 2-0 em Villa Park. O derradeiro obstáculo antes da final dava pelo nome de Anderlecht, tão só um dos melhores e mais temidos conjuntos do futebol europeu de então. Um simples golo de Morley, no encontro da primeira mão em solo britânico, garantiu o histórico passaporte para a final de Roterdão, já que um nulo em Bruxelas, na segunda mão (jogo marcado por violentos confrontos entre adeptos das duas equipas), assim o ditou. 

Peter White celebra o golo da final
de Roterdão. O Villa era campeão da Europa!
Mesmo depois desta epopeia o Aston Villa chegava a Roterdão como mero figurante de uma festa que se antevia destinada ao Bayern de Munique, que tinha uma equipa de luxo, com nomes como Klaus Augenthaler, Paul Breitner, Dieter Hoeness, ou Karl-Heinz Rummenigge. Por sua vez, o Villa tinha no avançado Peter White a sua única e grande estrela, sendo os restantes jogadores pouco conhecidos no plano internacional. E se o Villa não era favorito no papel, pior ficou quando nos minutos iniciais da partida viu o seu guarda-redes, Jimmy Rimmer, abandonar o terreno por lesão, tendo sido substituído pelo inexperiente Nigel Spink, de apenas 17 anos, que se viria a revelar fundamental no êxito da sua equipa graças a uma série de defesas magistrais. Porém, ficaria provado que a inexperiência era tudo menos um obstáculo para que o Villa pudesse alcançar o sucesso. Quanto ao encontro de Roterdão, o Bayern até foi mais ofensivo, massacrou em vários momentos da partida, criou as melhores oportunidades de golo, mas já no segundo tempo (ao minuto 67) o goleador Peter Withe passou à condição de imortal ao apontar o único golo daquela tarde/noite, um remate coroado de êxito que deu origem à página mais brilhante da centenária história do Aston Villa.

As catedrais da bola da cidade

Villa Park

Villa Park é a grande catedral do futebol de Birmingham. Esta é a casa do Aston Villa desde 1897, após passagens pela Wilson Road, Aston Park, Lower Aston Grounds Meadow, Wellington Road, e Perry Barr, os recintos por onde o clube deambulou nos seus primeiros anos de vida. Villa Park é por isso um dos estádios mais antigos de Inglaterra e do Mundo, e está situado no norte da cidade. Ao longo da sua centenária história viveu grandes momentos, como por exemplo, o facto de ter acolhido três jogos do Campeonato do Mundo de 1966 - nomeadamente o Argentina - Espanha, o Argentina - República Federal da Alemanha, e o Espanha - República Federal da Alemanha -, de ser palco de quatro desafios que fizeram parte do Campeonato da Europa de 1996 - o Países Baixos - Escócia, o Suíça - Países Baixos, o Escócia - Suíça, e o República Checa - Portugal, o tal do chapéu de Karel Poborsky a Vítor Baía. Além disso, recebeu a final da última edição da Taça dos Vencedores das Taças, em 1999, vencida pela Lazio ao Maiorca. É ademais o recinto que acolheu mais jogos referentes às meias-finais da FA Cup até hoje, 55 para sermos mais precisos.

Um ângulo de Saint Andrews

Mais modesto, é o Saint Andrews, o estádio do Birmingham City, com capacidade para cerca de 30.000 espectadores - ao passo que o Villa Park tem capacidade para cerca de 42.600 - e que fica localizado no bairro de Bordesley, tendo sido erguido em 1906, com a missão de substituir o estádio de Muntz Street, onde o Small Heath Alliance viveu os seus primeiros 31 anos de vida. Apesar de nunca ter recebido nenhum jogo de uma grande competição internacional, contrariamente ao vizinho Villa Park, o Saint Andrews tem a particularidade de ter sido uma "vítima" da 2.ª Grande Guerra Mundial, já que foi alvo de bombardeamentos e parcialmente destruído, tendo sido alvo de melhoramentos, ou reconstrução, só a partir do início dos anos 90.

Um dérbi de Birmingham nos anos 80

Em suma, estas são as casas de dois filhos de Birmingham, muito próximos em termos de idades, mas muito distantes em termos de palmarés, de massa adepta e de ambição, pois se normalmente o Villa joga pelos lugares cimeiros da Premier League, o City atua no segundo escalão do futebol inglês tentando alcançar o topo, e quando lá chega a sua luta é única e exclusivamente para não sair de lá.