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quinta-feira, setembro 08, 2016

Histórias do Planeta da Bola (17)... Pro Vercelli: O berço do rei dos "capocannonieri" idealizado por um campeão olímpico de esgrima


Turim e Milão são mundialmente reconhecidos como os grandes centros do futebol italiano. As duas cidades repartem entre si a (esmagadora) maioria dos títulos nacionais e internacionais angariados pelas squadras transalpinas ao longo de mais de 100 anos de história. Porém, nem sempre as luzes da ribalta estiveram focadas nestas duas urbes do norte de Itália no que a futebol concerne. Houve um tempo - estendido ao longo de quase duas décadas - em que os olhares dos tifosi estavam cravados numa pequena localidade situada precisamente a meio caminho entre Milão e Turim. Uma localidade que mais do que revelar ao Mundo um dos primeiros gigantes do futebol italiano criou uma identidade própria que haveria de inspirar o então jovem calcio a partir rumo às conquistas que iriam ser alcançadas pelas gerações vindouras. Façamos então uma viagem até às primeiras décadas do século XX, mais concretamente até Vercelli, onde nos espera a mítica e inolvidável história della Pro. À semelhança do que aconteceu um pouco por todo o planeta o futebol (moderno) ancorou em Itália no porto de Génova, na reta final do século XIX, pela mão dos marinheiros e comerciantes ingleses que ali se deslocavam em trabalho. Naquela cidade portuária foram dados os primeiros passos do modern football nascido em Inglaterra, e foi ali que, de forma natural, acabaria por nascer em 1893 o primeiro senhor do futebol transalpino, o Genoa Cricket & Football Club. Na génese deste emblema estiveram pois cidadãos britânicos, que usavam o futebol para preencher os seus tempos livres. O Genoa 1893 - como ainda hoje é conhecido - fez uso da sua força e conhecimentos do jogo para arrecadar os primeiros títulos mais pomposos do calcio - o nome com que os italianos cedo batizaram o football, muito pelas parecenças que o jogo criado pelos ingleses tinha com o calcio fiorentino, que há muitos séculos se praticava no país da bota. Entre 1897 e 1907 o Genoa confirma o seu poderio ao conquistar seis dos seus nove títulos de campeão nacional, uma supremacia que foi ameaçada a espaços pelos também ingleses do Milan Cricket Fooball Club, a semente do Milan dos dias de hoje. Estas conquistas, quer de genoveses quer de milanistas, assentavam numa cultura muito britânica, ou seja, a filosofia de jogo interpretada por estes dois emblemas era uma fiel cópia daquela que era usada na Velha Albion, baseada no kick and rush. Itália não tinha pois uma identidade de jogo própria, algo que viria a mudar a partir de 1903 pela mão do hoje quase anónimo Pro-Vercelli.

Da ginástica ao futebol pela mão de um campeão olímpico de esgrima

Marcello Bertinetti
A Società Ginnastica Pro-Vercelli nasceu em 1892, longe de imaginar que alguma vez o recém chegado a Itália futebol pudesse catapultar a cidade para os píncaros da fama. Na génese daquele que é um dos clubes mais antigos do país da bota esteve a ginástica, como aliás, a própria designação da coletividade indicava. Domenico Luppi, um professor de ginástica, é o progenitor do clube nascido na pequena cidade - com cerca de 45.000 habitantes na atualidade - da região de Piemonte. Luppi deu vida a um clube que no seu ADN incorporava ainda a esgrima, secção que iria revelar ao Mundo alguns nomes sonantes da história da esgrima italiana, como foi o caso de Marcello Bertinetti, um cidadão nascido em Vercelli, em 1885, que atingiu a imortalidade após ter vencido duas medalhas de ouro olímpicas por equipas em 1924 (Jogos de Paris) e 1928 (Jogos de Amesterdão), isto para além de uma medalha de prata e outra de bronze - ambas na vertente coletiva - respetivamente nas Olimpíadas de Londres (1908) e Paris (1924). Bertinetti foi acima de tudo um desportista multifacetado, e para além da modalidade que o tornou célebre foi igualmente um... calciatore, traduzindo para a língua de Camões, um jogador de futebol. Desconhece-se, porém, se foi, ou não, um exímio intérprete do belo jogo, mas o que se sabe é que foi por sua influência que o futebol nasceu no seio da Pro Vercelli. Diz a história que após ter visionado in loco, em Turim, um encontro disputado pela Juventus, Marcello Bertinetti regressa à sua terra natal com a ideia de ali criar uma equipa de futebol. Nesse sentido procura os responsáveis da Società Ginnastica Pro-Vercelli para lhes apresentar a ideia, que de pronto seria aceite e oficialmente implantada em 1903, ano em que acontece a filiação do clube na Federação Italiana de Futebol. O primeiro encontro acontece a 3 de agosto desse ano no âmbito de um torneio triangular em honra de San Eusebio, o padroeiro da cidade, que juntou ainda as equipas do Forza e Costanza (de Novara) e do Audace (oriundo de Turim). A Pro saiu vencedora, dando assim o pontapé de saída rumo a duas décadas de glória.

Conquistar a Itália com a prata da casa sob uma identidade muito própria

Milano, Leone e Ara,
o trio mágico do meio campo
da Pro Vercelli
Com a entrada da Pro Vercelli no então ainda muito jovem Mundo do futebol italiano, assistiu-se à primeira grande revolução a diversos níveis no país futebolístico, digamos assim. O primeiro deles fazia alusão à então invulgar política de formação do clube. Contrariamente aos outros emblemas italianos da época, a Pro Vercelli constrói a sua equipa com base única e exclusivamente em futebolistas nascidos na cidade, em atletas da casa, identificados com a cidade e acima de tudo com o clube. A Pro Vercelli implantava assim a filosofia, passo a expressão, da formação no futebol italiano. O clube presidido pelo conceituado advogado local Luigi Bozino edifica um então inédito plano de formação que passava pela criação de equipas de base, juniores, juvenis, iniciados, etc., como hoje em dia são conhecidos, e às quais eram atraídos os rapazes da terra. Mais do que moldar futebolistas locais com vista ao sucesso futuro do clube a política de formação cria de igual modo a mística que ajudou a Pro a alcançar e a permanecer durante quase duas décadas no topo do futebol italiano. Uma mística que englobava uma combinação de amor e orgulho na defesa da camisola do clube da terra e que era incutida nos bambini (rapazes) desde o momento em que estes entravam para os escalões mais jovens. Aliado a este aspeto veio o conceito tático. Também aqui a Pro Vercelli foi pioneira na história do futebol em Itália. Como já foi referido, as grandes equipas italianas da época, nomeadamente o Genoa 1893, a Juventus e o Milan - os três clubes que até 1908 haviam vencido o título de campeão nacional - apresentavam nas suas equipas diversos jogadores ingleses, a maior parte deles chegados a Itália por motivos profissionais que nada tinham a ver com o jogo. Como bons ingleses usavam e abusavam do kick and rush, típico estilo nado e criado em Inglaterra e que assentava - ou assenta - num estilo de jogo direto e físico. Em Vercelli seria criado um estilo diferente, de certa forma mais elegante e técnico, assente na posse de bola, e que no futuro viria a contagiar não só outras equipas transalpinas como a própria squadra azzurra (seleção nacional).

Da estreia oficial à glória nacional em apenas dois anos


A equipa que venceu o primeiro dos sete scudettos da história da Pro Vercelli
Em 1906 a Pro Vercelli inicia o seu percurso oficial nos caminhos do futebol italiano. Isto é, passa a competir no segundo escalão nacional. Ali, permanece apenas um ano, alcançando a promoção ao principal escalão em 1906/07 depois de conquistar o ceptro secundário com um grupo formado exclusivamente por jogadores nascidos em Vercelli. Entre este grupo destacavam-se três futebolistas, três figuras que para os historiadores do belo jogo foram o esteio - dentro de campo - dos primeiros sucessos do clube de Piemonte. Giuseppe Milano, Pietro Leone e Guido Ara, formavam o então denominado de meio campo maravilha dos Leões de Vercelli como nos anos seguintes a mítica equipa seria conhecida em toda a Itália. Guido Ara era o capitão de equipa, e na voz de muitos historiadores é visto como o primeiro grande futebolista italiano, um tecnicista requintado que primava ainda por ser um exímio passador. Em 1907/08 a Pro faz a sua estreia no principal escalão de Itália. Uma estreia auspiciosa já que após superar a Juventus no campeonato regional de Piemonte o combinado de Vercelli é apurado para o campeonato nacional, levando a melhor sobre os campeões das regiões de Ligura (o Andrea Doria, de Génova) e da Lombardia (o Milanese). A Pro Vercelli vencia o seu primeiro scudetto (máximo título nacional). Pela primeira vez uma equipa 100 por cento de origem italiana vencia o máximo galardão do futebol italiano, e mais do que isso todos os jogadores eram filhos de Vercelli. Os seus nomes são pois eternos: Innocenti, Salvaneschi, Celoria, Ara, Milan, Leone, Romussi, Frésia, Visconti, Rampini e Bertinetti, este último o introdutor do futebol no seio da Pro Vercelli e futuro campeão olímpico de esgrima, como já referimos. A façanha seria repetida na temporada seguinte, quando depois de levar a melhor no Regional de Piemonte sobre os dois gigantes de Turim, a Juve e o Torino, a Pro derrotou na final nacional, por um total de 4-2 (numa final disputada a duas mãos), os campeões da região da Lombardia, o Milanese. Por esta altura já toda a Itália se curvava diante dos Leões de Vercelli, ou os camisas brancas, como também era conhecido o clube. Neste aspeto há um capítulo curioso que merece ser evocado. Nos primeiros anos de atividade futebolística a Pro Vercelli utilizava um equipamento em tudo idêntico à Juventus, isto é, camisola com riscas verticais pretas e brancas, calção preto e meias pretas. Porém, a lavagem constante dos equipamentos fez com as riscas pretas da camisola fossem ficando esbatidas, quase impercetíveis, pelo que os responsáveis do emblema decidem posteriormente adotar o branco como única cor da camisola. Esta história dá aso a uma outra, que refere que a seleção italiana adotou (desde 1910) o branco como cor do seu equipamento alternativo em homenagem aquela que ainda hoje é vista como a primeira grande equipa de Itália, a Pro Vercelli.

Primeiro grande escândalo do calcio impediu a Pro de chegar ao tri

Luigi Bozino,
o presidente dos grandes sucessos
Na temporada de 1909/10 a Itália assiste aquele que é considerado o primeiro escândalo do seu futebol. O primeiro de muitos, ou não fosse a Itália um país rico no que a escândalos futebolísticos diz respeito. Nessa longínqua época o campeonato italiano sofre algumas alterações de figurino, desde logo o facto de deixar de existir uma final nacional que opunha os vencedores dos regionais para passar a haver uma prova semelhante ao que acontece na atualidade, ou seja, em que as equipas jogam entre si em sistema de poule, cujo vencedor é o conjunto que soma mais pontos. Este é considerado por como o ponto de partida da atual Serie A italiana. Foram nove as equipas que integraram a competição de 09/10, tendo no final o Inter de Milão e a Pro Vercelli dividido o primeiro lugar com 25 pontos somados. Face a este empate a Federação Italiana de Futebol (Federazione Italiana Giuco Calcio) decidiu agendar um play-off entre os dois combinados, uma finalíssima que iria determinar o campeão nacional. Com diversos jogadores seus envolvidos num torneio militar em Roma, a Pro solicitou à alta instância do futebol do seu país o adiamento do play-off, ao passo que o seu adversário, o Inter, fazia pressão para que esse adiamento não acontecesse. Medo ou desrespeito por parte dos milaneses? Ou ambos? O que é certo é que a FIGC ficou do lado do Inter - há quem ainda hoje defenda que razões extra futebol estiveram na origem desta decisão federativa - e o encontro acabou por se disputar a 24 de abril de 1910, como estava inicialmente agendado. Em forma de protesto o presidente da Pro Vercelli, Luigi Bozino, decide enviar para o duelo decisivo uma equipa composta por... crianças! Nessa tarde, em Vercelli, local da partida, e diante de pouquíssimos espectadores - numa prova de que a cidade estava ao lado do seu clube neste protesto - a Pro alinha com jogadores do seu escalão mais baixo, sendo que o jogador mais velho tinha somente 15 anos! Conclusão, o Inter esmagou os Leões, ou leãozinhos, neste caso, por 10-3, e conquistou o seu primeiro título nacional. Esta atitude da Pro Vercelli valeu-lhe inicialmente um castigo severo por parte da FIGC, que decide multar e suspender o emblema de Piemonte das competições futebolísticas. A intenção é posteriormente revogada, muito por ação de Guido Ara, que recolhe uma série de assinaturas junto dos grandes clubes italianos no sentido de reverter a decisão da federação, e já com Giuseppe Milano nas funções de treinador/jogador a Pro recupera o ceptro na época seguinte ao vencer a Serie A com 27 pontos, mais cinco que o vice-campeão Milan, onde pontificava o bombardeiro belga Louis van Hege. O quarto scudetto viajou para Vercelli em 1911/12, em mais um capítulo de evidente superioridade dos Leões.

Principal fornecedor de jogadores para a Squadra Azzurra

Um jogo entre a Pro e o Genoa em 1913
1912 é ainda o ano que marca a estreia oficial da seleção italiana numa grande competição internacional, no caso o Torneio Olímpico, que na época era tão só a prova futebolística mais importante do planeta. Para as Olimpíadas que nesse ano se realizaram em Estocolmo o selecionador italiano, o então jovem (com apenas 26 anos) Vittorio Pozzo, convoca 18 jogadores, sendo que sete deles (Felice Berardo, Angelo Binaschi, Pietro Leone, Giuseppe Milano, Modesto Valle, Felice Milano e Carlo Rampini) pertencem aos quadros da Pro Vercelli, que é desta forma o emblema mais representado na Squadra Azzurra que competiu na Suécia. Em 1913 a Itália defronta (num amigável) a Bélgica com um onze em que nove jogadores são da Pro Vercelli, numa demonstração, mais uma, inequívoca do poderio do clube de Piemonte no cenário principal do calcio. A primeira parte da época dourada da Pro Vercelli é encerrada em 1912/13 com a conquista do tricampeonato, do quinto scudetto da sua jovem existência. Pouco depois estourava a I Guerra Mundial, que um pouco por toda a Europa encostaria para canto a bola de futebol. O campeonato italiano é interrompido em 1915 - após o surpreendente Casale e o Genoa 1893 terem conquistado a coroa de reis de Itália - e volta somente na temporada de 1919/20 quando a Europa lambia ainda as feridas provocadas pela Guerra. Porém, as armas não mataram a mística de Vercelli e da sua Pro, que ressurge no grande palco do calcio com uma nova geração vencedora orientada - desde o banco - pela antiga lenda Guido Ara. Jovens talentosos nascidos nas escolas da Pro que levam a melhor sobre a concorrência na temporada de 1920/21, arrecadando desta forma o sexto título nacional do clube de Piemonte. Entre estes jovens talentos encontra-se o defesa Virginio Rosetta, que em 1923 troca Vercelli por Turim, e a Pro pela Juve a troco de 50 mil liras, naquela que ainda hoje é considerada a primeira transferência (envolvendo dinheiro) do futebol italiano. Eram os primeiros sinais do profissionalismo que estava prestes a vigorar (também) em Itália. Rosetta volta a ser um dos esteios na conquista do sétimo e último scudetto pela Pro em 1921/22.

Rei dos capocannonieri nasceu em Vercelli e revelou-se ao Mundo na Pro

Silvio Piola com as cores da Pro
A 29 de setembro de 1913 já a Pro Vercelli ostentava nas suas vitrinas cinco títulos de campeão italiano. É neste dia que nasce, na pequena Vercelli, um dos cidadãos mais nobres desta cidade: Silvio Piola. Tal como tantos outros bambini Silvio desperta para o futebol no mítico clube da sua terra. O seu talento faz com que aos 16 anos seja incorporado na equipa principal da Pro! Sobre o terreno de jogo atua como avançado, e o seu faro pelo golo aliado à sua perícia técnica despertam cedo a cobiça de outros emblemas de Itália. Piola atua pela Pro Vercelli entre 1929 e 1935, envergando a camisola branca em 127 jogos, tendo apontado 51 golos. Piola detém ainda hoje uma série de recordes em Itália. Um deles reside no facto de ser o jogador mais jovem a apontar um poker (quatro golos) numa só partida, algo que aconteceu diante do Alexandria, numa altura em que este astro tinha apenas 18 anos. Já foi referido que no início dos anos 20 o profissionalismo começava a bater à porta de Itália, tendo a Pro, que apesar de desportivamente ser uma potência do país, não era de todo um clube rico, muito longe disso na verdade, sofrido na pele as consequências desse mesmo profissionalismo. A Pro era um clube que vivia da sua (rica) formação. Apenas. Assim, os clubes economicamente mais abastados, oriundos de Turim, Milão e Roma, lançavam o isco às principais pérolas dos clubes mais modestos, sob o ponto de vista económico, voltamos a repetir, como era o caso da Pro Vercelli. Rosetta foi, como já vimos, o primeiro jogador a ser transferido por uma verba monetária em Itália, sendo que Piola não demorou muito a seguir-lhe o caminho. Reza a história que a Lázio namorou o jogador vezes sem conta, e não desistiu enquanto não o levou para Roma. Perante isto, e quiçá pressentindo que sem a sua principal estrela e com o profissionalismo a tomar conta do futebol em Itália, o presidente da Pro, Luigi Bozino, disse em certa ocasião que «não vendemos Piola por nenhum dinheiro deste Mundo. Se o vendermos a Pro Vercelli vai entrar em declive». Mais do que uma promessa (aos adeptos) esta declaração seria uma espécie de premonição do que iria acontecer em 1934, ano em que a Lazio leva Piola de Vircelli para a capital do Império. Uma transferência envolta em alguma polémica, pois segundo alguns historiadores a ida de Silvio Piola para Roma resultou de uma imposição do ditador Benito Mussolini, adepto confesso dos laziale. Piola e a Pro Vercelli seguiram caminhos diferentes nos anos seguintes. O jogador iria tornar-se numa lenda do calcio, já que para além de ter sido a principal referência da Squadra Azzurra na conquista do Campeonato do Mundo de 1938 é ainda hoje o jogador com mais golos na história da Serie A: 274 golos em 537 jogos disputados no principal escalão do futebol transalpino. Quanto à Pro, foi despromovida da Serie A curiosamente na época de 1934/35, a primeira sem Piola, e nunca mais, até hoje, lá regressou. Os oitenta anos seguintes foram passados a deambular pelos escalões secundários e regionais (!) do calcio. Hoje, a Pro Vercelli milita na Serie B, onde sobrevive - quase de forma anónima - na sombra de um passado de glória hoje ignorado pela esmagadora maioria dos tifosi. Não deixa de ser no entanto curioso que ao olhar para a lista de campeões da história do calcio o nome da Pro figure atrás de Milan, Juventus, Inter e Genoa 1893, com sete títulos de campeão no seu currículo, bem à frente de algumas das atuais potências italianas, casos da Roma (3 títulos), Lazio (2), Napoli (2) ou Fiorentina (2).

segunda-feira, junho 08, 2015

Histórias do Planeta da Bola (11)... Os anos dourados (1927-1939) da Taça Mitropa - A primeira montra de estrelas do futebol europeu (parte VI)

Capitão do Ferencvaros recebe uma coroa
de flores a simbolizar o triunfo
na Mitropa Cup de 1937
E eis que chegamos ao derradeiro capítulo da era dourada da Mitropa Cup. À derradeira viagem pela história daquela que é considerada a mãe das atuais competições europeias de clubes. 1937 marca então o início desta nossa última etapa, um ano em que a Taça Mitropa voltou a expandir as suas fronteiras, desta feita até à Roménia, a sétima nação a fazer parte da história da competição idealizada por Hugo Meisl. Romenos que participaram pela primeira vez no certame continental com apenas uma equipa, o seu campeão nacional de então, no caso o Venus de Bucareste. Regresso saudado foi o da Jugoslávia, país cujos clubes haviam participado na primeira edição do certame, em 1927. Face ao regresso de jugoslavos e à estreia dos romenos a organização teve de reajustar o número de vagas da competição, sendo que as quatro nações mais poderosas – Checoslováquia, Itália, Hungria, e Áustria –, diga-mos assim, passaram a ter três representantes ao invés dos quatro habituais.
A primeira grande surpresa da 11ª edição da prova foi protagonizada pelos campeões da Suíça, o Grasshopper de Zurique, clube que afastou uma das equipas revelação da temporada transata, os checoslovacos do Prostejov. Na primeira mão, em solo helvético, vitória mínima (4-3) garantida por Alfred Bickel, um dos craques suíços que um ano mais tarde ajudou a sua seleção a derrubar a poderosa Alemanha no Campeonato do Mundo de França. Na segunda mão a estrela foi o defesa Sirio Vernati, cuja magnífica exibição ajudou os gafanhotos de Zurique a obterem uma igualdade a duas bolas que garantiu a passagem aos quartos-de-final.

Contrariamente à edição anterior os combinados suíços parecem ter levado mais a sério esta nova participação, a julgar pelas enormes dificuldades causadas a emblemas com outra estaleca. O Young Fellows esteve quase a seguir o caminho dos vizinhos do Grasshopper, obrigando outro gigante do futebol europeu de então, o First Viena, a um play-off para desempatar uma eliminatória que teve início na capital da Áustria com uma curta vitória do First por 2-1. Os helvéticos abriram de forma surpreendente o marcador, mas Gschweidl empatou na sequência de um belíssimo remate. Belo foi igualmente o tento do triunfo, da autoria do extremo Molzer, que driblou meia equipa do Young Fellows até introduzir a bola no fundo da baliza forasteira. Em Zurique o Young Fellows marcou cedo, igualando desta forma a eliminatória que seria decidida então num play-off. Encontro este que voltou a ser realizado em Zurique, e que teve em Gschweidl a chave do triunfo (2-0) dos austríacos. Este jogador apontou os dois golos da sua equipa, deslumbrou a assistência com o seu futebol, com dribles diabólicos e passes magistrais, sendo unanimemente considerado então como o man of the match. 
 
Sindelar dispara para... o fundo da baliza
Quem parece não ter tido grandes dificuldades para também seguir em frente foram os campeões em título, o Austria de Viena, que afastaram o teoricamente complicado conjunto do Bologna. Teoricamente porque na prática o campeão de Itália foi vulgarizado pela equipa de Sindelar, sobretudo na segunda mão. Em Bolonha, no primeiro encontro, a defesa superou-se ao ataque, isto é, a postura defensiva com que o Austria entrou em campo levou a melhor sobre o estilo ofensivo patenteado pelos italianos. Contudo, e apesar de mais ofensivo, o Bologna não conseguiu superar a bem escalonada defesa contrária, onde Sesta e Mock ditaram leis. E lá na frente havia... Sindelar, quem mais. Apontou um golo e deu outro a marcar, edificando assim uma importante vitória por 2-1 em território inimigo. Na segunda mão Sindi deu um festival de bem jogar. Logo ao terceiro minuto da partida disparou uma autêntica bala de canhão a mais de 30 metros que só parou no fundo das redes bolonhesas. A soberba exibição do Homem de Papel a juntar ao hattrick obtido por Walter Nausch ajudou a construir uma goleada de 5-1, que selou a passagem à ronda seguinte.
Embate de titãs aconteceu em Praga, onde o Slavia, campeão checoslovaco da época anterior, recebia o Ferencvaros. Dois pesos pesados do futebol continental que começaram por empatar a duas bolas, numa partida em que os locais atacavam e os forasteiros contra-atacavam. Na segunda mão, em Budapeste, Toldi e Sarosi foram os grandes obreiros de uma vitória por 3-1 de um Ferencvaros que exerceu do príncipio ao fim um domínio avassalador sobre o seu oponente. Domínio esse expresso em apenas três golos, e dizemos apenas três porque na baliza dos checoslovacos estava uma lenda chamada Frantisek Planicka, que evitou uma catástrofe bem maior. 
 
Um autêntico passeio foi o que o Ujpest fez nesta primeira ronda, já que o sorteio ditou que os terceiros colocados do campeonato húngaro defrontassem os caloiros do Venus de Bucareste. A capital romena acolheu o duelo da primeira mão, um jogo cheio de golos, 10 para sermos mais precisos, seis para o Ujpest e quatro para os locais, sendo de destacar a exibição individual da estrela-mor dos visitantes, Gyula Zsengeller, autor de três golos. No encontro de volta, e atuando diante do seu público, o Ujpest assumiu o controlo absoluto dos acontecimentos, tendo alcançado com toda a naturalidade um novo e avolumado triunfo, desta feita por 4-1. Quanto a Zsengeller, ele foi autor de mais um par de golos e de uma estupenda exibição. Era indiscutivelmente um dos maiores talentos do futebol húngaro de então.
Outro embate de gigantes opôs os campeões da Áustria, o Admira, aos vice-campeões da Checoslováquia, o Sparta de Praga. Na primeira mão o Admira esteve melhor, mas falhou em demasia sempre que se encontrava próximo da baliza dos checoslovacos. Um remate pleno de êxito de Stoiber foi a exceção numa floresta de oportunidades perdidas pelo conjunto da casa. A igualdade final a um golo surgiu por intermédio de um jovem talento de 18 anos, Karel Senecky, avançado de posição no campo de batalha, que não obstante a sua tenra idade assumiu nesta edição da Mitropa o estatuto de estrela principal da equipa de Praga. Isto porque Raymond Braine regressou ao seu país, enquanto que Nejedly começava a dar sinais de alguma... veterania, passando mais jogos na bancada do que em campo, por opção técnica. Na segunda mão o jovem Senecky voltou a dar nas vistas, inaugurando o marcador logo aos oito minutos. Porém, o Admira não se fez rogado por estar a atuar no inferno checoslovaco, chamando a si o controlo do encontro e chegando com naturalidade à vantagem no marcador graças aos golos de Hahnemann e Vogl. Zeman iria empatar já perto do fim, fazendo o 2-2 final, facto que obrigou a um terceiro jogo de desempate, jogo esse onde o Admira foi nitidamente melhor, sobretudo na segunda parte, período em que apontou os dois únicos golos da tarde, da autoria de Vogl e Schilling.
A equipa da Lazio de Roma que participou na edição de 1937 da Taça Mitropa
Duas equipas italianas fizeram em 1937 a sua estreia nestas andanças da Taça Mitropa, o Génova e a Lazio. Os romanos tinham no internacional italiano Silvio Piola a sua principal referência, jogador que esteve em destaque na partida da primeira mão perante os húngaros do MTK. Piola apontou aos 57 minutos, um golo precioso para os laziale no terreno do adversário, o qual não conseguiu melhor do que igualar o marcador ao minuto 70. Piola voltou a estar em vincado destaque na partida de Roma, ao apontar dois dos três golos de vantagem que a Lazio dispunha ao intervalo sobre o seu oponente. Na segunda parte os romanos relaxaram, e foi aí que brilhou outra estrela, esta do lado oposto, Cseh, assim, se chamava. O avançado do MTK de Budapeste fez a vida negra ao setor mais recuado dos italianos, sendo que por duas ocasiões bateu o guardião Blason, golos que no entanto não seriam suficientes para adiar o adeus húngaro à competição.
Quem também entrou com o pé direito na prova foi o Génova, equipa cujo futebol de cariz ofensivo causou mossa nos jugoslavos do Gradjanski de Zagreb. Neste plano há a sublinhar as exibições dos atacantes Mario Perazzolo e Luigi Scarabello, e do defesa Giuseppe Bigogno, três dos principais responsáveis pela passagem dos genoveses aos quartos-de-final.

Um dos embates mais apetecidos dos quartos-de-final opôs o Ferencvaros ao First Viena, uma eliminatória dominada pelos dois... setores recuados. O resultado da primeira mão, realizada em Budapeste, cedo foi construído, tendo o primeiro golo surgido aos nove minutos para os visitantes. Antes da meia hora o Ferencvaros recuperou e colocou-se em vantagem, graças a dois remates certeiros dos goleadores Toldi e Sarosi, que fizeram assim o resultado final de uma partida onde as duas defesas estiveram quase intransponíveis. A segunda mão desenrolou-se na mesma toada, ou seja, os avançados de ambos os lados da barricada tiveram imensas dificuldades para furar as barreiras defensivas. O momento de exceção ocorreu aos 11 minutos, altura em que Pollak fez o único golo do encontro a favor dos austríacos. Depois disso os dois conjuntos fecharam as respetivas balizas a sete chaves, sendo que para o fazer o Ferencvaros até fez recuar o seu goleador principal, Sarosi! Face a estes dois resultado impôs-se a realização de um play-off, sendo que ai os húngaros foram mais atrevidos, empurrando o First para a sua zona defensiva, um pressing que haveria de dar os seus frutos em duas ocasiões, ambas concretizadas por Toldi, que assim teve um papel fundamental na vitória e no consequente apuramento do vice-campeão da Hungria para a ronda seguinte.

Gyula Zsengeller
E se o rigor defensivo havia imperado no duelo entre Ferencvaros e First Viena, o estilo ofensivo foi nota dominante durante a primeira mão da eliminatória entre Austria de Viena e Ujpest. 5-4 a favor dos vienenses naquele que foi um jogo de verdadeiro hino ao golo, onde duas figuras se destacaram das demais: Sindelar, do lado dos austríacos, autor de um golo e de uma exibição – mais uma – divinal, e Gyula Zsengeller, cuja qualidade técnica aliada ao seu remate explosivo aproveitou as fragilidades da defesa local. Resultado final: 5-4 a favor do Austria, num jogo em que o golo e o futebol espetáculo foram uma constante. Na segunda mão os vienenses mudaram o chip, ou seja, fecharam-se na sua zona defensiva na tentativa de guardar a magra vantagem que traziam de casa, optando por explorar as situações de contra-ataque. E foi precisamente nos lances de contra-ataque que esteve a chave para um novo triunfo austríaco. E o homem do jogo foi... Sindelar, sempre ele, a comandar as operações na hora de semear o pânico na defesa contrária, fez um golo simplesmente fenomenal – um poderoso remate a 25 metros de distância que surpreendeu o guardião da casa – e esteve na origem do segundo tento – apontado por Jerusalem – que deu ao Austria uma vantagem de 2-0. O Ujpest ainda reduziu, mas era já tarde demais para evitar a eliminação.
Mais fácil, muito mais, foi o triunfo da Lazio sobre os suíços do Grasshopper. Na primeira mão, na capital italiana, um vendaval varreu com a turma helvética. Vendaval que teve um nome: Silvio Piola. Fez três golos e deu outros a marcar, contribuindo desta forma para uma expressiva vitória laziale por 6-1. Com este score a viagem a Zurique tornou-se pois um verdadeiro passeio para os homens de Jozsef Viola, o húngaro que na época treinava a Lazio. Cientes de que a eliminatória estava no papo, os romanos relaxaram, e permitiram que os suíços se despedissem do certame com um triunfo por 3-2, sendo de destacar no plano individual Alfred Bickel, uma das grandes estrelas do futebol da Suíça de então, que neste encontro apontou dois golos.
Espetáculo vergonhoso, é assim que podemos caracterizar a eliminatória entre o Admira de Viena e o Génova, uma eliminatória onde o futebol esteve ausente para dar lugar à violência. Uma verdadeira batalha campal definiu a primeira mão, em Viena, onde jogadores de ambas as equipas passaram os 90 minutos a agredirem-se perante a complacência do árbitro de um jogo que terminou empatado (2-2). Perante isto o encontro da segunda mão esteve em dúvida, já que a polícia de Génova não garantiu as mínimas condições de segurança para os intervenientes no duelo de volta. Desta forma o Comité da Mitropa decidiu não realizar o encontro, punindo os dois conjuntos com a exclusão da prova, facto que fez com que a Lazio ficasse desde logo apurada para a final, já que ficava assim sem adversário na meia-final.

Fase esta onde se realizou apenas um encontro, aquele que colocou frente a frente o Austria de Viena e o Ferencvaros. Na viagem à capital austríaca Emil Rauchmaul, treinador do Ferencvaros usou uma tática semelhante à do primeiro jogo ante o First Viena, uma tática onde fez recuar para o centro da defesa o avançado Sarosi. No duelo ante o Austria este jogador teve uma tarefa específica: travar Sindelar. Tarefa árdua e... ineficaz, já que o Mozart do Futebol fez o que quis durante os 90 minutos do seu marcador de serviço. Sindi conduziu – de novo – a sua equipa rumo a uma vitória concludente e merecida, já que durante todo o encontro os vienenses foram os únicos que de facto quiseram vencer, exibindo uma postura nitidamente ofensiva aliada a uma qualidade técnica primorosa. O resultado desta combinação foi um triunfo por 4-1.
Na segunda mão os papéis inverteram-se. Os magiares dominaram do princípio ao fim a partida, atacando vezes sem contra a baliza austríaca, mostrando bem o porquê de terem terminado o campeonato da Hungria da temporada anterior com um registo de 102 golos apontados!!! A linda da frente do Ferencvaros vulgarizou o Austria, apontando seis golos que viraram a eliminatória e deram aos húngaros o bilhete para a final.

Silvio Piola
Jogo decisivo, ou melhor, jogos decisivos – uma vez que a final era jogada em duas mãos – que foram um verdadeiro deslumbre no que a futebol e a golos diz respeito. Dois homens protagonizaram um duelo particular muito especial durante esta dupla final: Sarosi, pelo lado dos húngaros, e Piola, do lado da Lazio. Na primeira mão, em Budapeste, Gyorgy Sarosi foi o herói, apontando um hattrick na segunda metade da partida que contribuiu para um triunfo por 4-2 a favor do combiando da casa. E se o futebol ofensivo havia sido uma constante – de parte a parte – na primeira mão, o mesmo aconteceu no jogo de volta, em Roma, onde a Lazio cedo se lançou ao ataque na tentativa de agarrar o seu primeiro troféu continental. Giovanni Costa fez o o 1-0 logo aos 4 minutos, mas a festa laziale não iria durar mais do que um minuto, já que pouco depois de a bola ir ao centro Sarosi cava uma grande penalidade que o próprio iria converter em golo. O mesmo jogador, três minutos depois, silencia os 35.000 espectadores presentes no Estádio Nacional do Partido Fascista, ao apontar o 2-1. Foi então que emergiu no relvado toda a genialidade de Silvio Piola, que praticamente sozinho destruiu até final da primeira parte a turma visitante. Apontou dois golos, e foi preponderante na obtenção de um quarto golo aos 35 minutos, da autoria de Camolese. Porém, do outro lado ainda estava outro avançado de créditos firmados, Toldi, que aos 37 minutos arrefece as emoções laziales ao apontar o 3-4 com que se atingiu o intervalo que chegou em bom tempo para fazer descansar um pouco os corações dos espectadores daquele duelo eletrizante. Na segunda parte o chavão que diz que os “grandes génios do futebol também falham” acabou por vir ao de cima e ditar, de certa forma, o desfecho final desta... final. Aos 61 minutos o árbitro suíço Hans Wuthrich assinala uma grande penalidade a favor da Lazio, castigo esse que Piola... iria desperdiçar! Este lance iria afetar os romanos, que não mais se encontraram, facto aproveitado por... Sarosi, para dar a machadada final, primeiro ao oferecer um golo a Lázár, aos 71 minutos, e em cima do minuto 80 ele próprio fez um novo golo nesta final, que daria garantia assim o segundo ceptro continental ao Ferencvaros. Nove dos golos apontados pelos húngaros nos dois encontros da final seis haviam sido da autoria de Gyorgy Sarosi, que desta forma subia também ao lugar mais alto do pódio da lista dos melhores marcadores desta edição da Mitropa Cup – com um total de 12 remates certeiros.

Números e nomes:

1ª Eliminatória (1ª e 2ª mãos)

Slavia Praga (Checoslováquia) - Ferencvaros: 2-2/1-3
First Viena (Áustria) - Young Fellows (Suíça): 2-1/0-1/2-0 (desempate)
Bologna (Itália) - Austria Viena (Áustria): 1-2/1-5
Venus Bucureste (Roménia) - Ujpest (Hungria): 4-6/1-4
Admira Viena (Áustria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 1-1/2-2/2-0 (desempate)
Génova (Itália) - Gradanski (Jugoslávia): 3-1/3-0
MTK (Hungria) - Lazio (Itália): 1-1/2-3
Grasshopper (Suíça) - Prostejov (Checoslováquia): 4-3/2-2

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

Ferencvaros (Hungria) - First Viena (Áustria): 2-1/0-1/2-1 (desempate)
Austria Viena (Áustria) - Ujpest (Hungria): 5-4/2-1
Lazio (Itália) - Grasshopper (Suíça): 6-1/2-3
Admira Viena (Áustria) - Génova (Itália): 2-2/*

*Ambas as equipas foram suspensas por conduta violenta

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)

Austria Viena (Áustria) – Ferencvaros (Hungria): 4-1/1-6

*Nota: Lazio ficou automaticamente apurada para a final por não ter adversário nas meias-finais
Em 1937 a taça voltou a Budapeste pela mão do Ferencvaros

Final (1ª mão)

Ferencvaros (Hungria) – Lazio (Itália): 4-2

Data: 12 de setembro de 1937
Estádio: Ulloi ut, em Budapeste (Hungria)
Árbitro: Gustav Krist

Ferencvaros: Jószef Háda, Sándor Tátrai, Lajos Korányi, Béla Magda, Gyula Polgár, Béla Székely, Mihai Tanzer, Gyula Kiss, Gyorgy Sarosi (c), Géza Toldi, e Tibor Kemény. Treinador: Emil Rauchmaul.

Lazio: Giacomo Blason, Benedicto Zacconi, Alfredo Monza, Giuseppe Baldo, Giuseppe Viani, Luigi Milano, Umberto Busani, Libero Marchini, Silvio Piola (c), Bruno Camolese, e Giovanni Costa. Treinador: József Viola.

Golos: 1-0 (Toldi, aos 20m), 1-1 (Busani, aos 26m), 2-1 (Sarosi, aos 53m), 3-1 (Sarosi, aos 59m), 3-2 (Piola, aos 63m), 4-2 (Sarosi, aos 72m).

Final 2ª (mão)

Lazio (Itália) – Ferencvaros (Hungria): 4-5

Data: 24 de outubro de 1937
Estádio: Nazionale, em Roma (Itália)
Árbitro: Hans Wuthrich (Suíça)

Lazio: Vincenzo Provera, Benedicto Zacconi, Alfredo Monza, Giuseppe Baldo, Giuseppe Viani, Luigi Milano, Umberto Busani, Libero Marchini, Silvio Piola (c), Bruno Camolese, e Giovanni Costa. Treinador: József Viola.

Ferencvaros: Jószef Háda, Sándor Tátrai, Lajos Korányi, Béla Magda, Gyula Polgár, Gyula Lázár, Mihai Tanzer, Gyula Kiss, Gyorgy Sarosi (c), Géza Toldi, e Tibor Kemény. Treinador: Emil Rauchmaul.

Golos: 1-0 (Costa, aos 4m), 1-1 (Sarosi, aos 5m), 1-2 (Sarosi, aos 8m), 2-2 (Piola, aos 18m), 3-2 (Piola, aos 23m), 4-2 (Camolese, aos 35m), 4-3 (Toldi, aos 37m), 4-4 (Lázár, aos 71m), 4-5 (Sarosi, aos 80m)

1938 e 1939: Guerra derrota a Mitropa Cup

Pepi Bican, a estrela da Taça Mitropa de 1938
O eclodir da II Guerra Mundial era por alturas de 1938 um facto praticamente consumado. Pelo menos assim indicavam as orientações político-militares do Velho Continente. Em 12 março de 1938 dá-se o Anschluss, que significa a anexação da Áustria pela Alemanha nazi, e aqui começa de certa forma também o desmoronamento da Mitropa Cup. Com esta anexação a nação austríaca perde a sua total independência, inclusive no futebol. Deste modo a edição de 1938 da Taça Mitropa já não irá contar com a participação dos clubes austríacos, eles que tantas páginas douradas ajudaram a escrever desde 1927, ano em que a competição viu a luz do dia. A morte de Hugo Meisl (criador da Mitropa), em 1937, também foi um duro golpe na sobrevivência da prova. Foi por isso num cenário triste que se ergueu a edição de 1938, edição essa que iria consagrar pela primeira vez na história da prova o Slavia de Praga como campeão, muito devido à ação individual de um tal de Josef Bican. Pepi, como era conhecido pelos companheiros de equipa e adeptos, foi o abono de família do Slavia, apontando 10 dos 25 golos que os checoslovacos apontaram no percurso rumo à glória. Nesse percurso alguns episódios – hoje lendários – saltam à memória, como é o exemplo o jogo da primeira mão dos quartos-de-final ante o campeão italiano da temporada anterior, a Ambrosiana-Inter, que em Praga sofreu uma verdadeira humilhação, como se comprova pelo resultado de 9-0 a favor do Slavia. Neste encontro a estrela foi Pepi Bican, um cidadão austríaco naturalizado checoslovaco, autor de quatro dos nove tentos do Slavia. A final seria disputada ante os campeões da temporada transata, o Ferencvaros, clube à partida favorito a ganhar a taça pela terceira vez na sua história, ainda para mais depois de ter empatado a duas bolas no encontro da primeira mão, em Praga. Mas da teoria à prática o caminho foi longo para Sarosi e companhia, que iriam cair aos pés do novo campeão por 2-0.

Bela Gutmann
A ausência de dados mais concretos sobre as duas últimas edições da Era dourada (1927-1939) da Taça Mitropa faz-nos atalhar o caminho até 1939, ano em que a prova entra na reta final do seu período áureo. A edição de 1939 contou apenas com oito equipas, algo que já não acontecia desde 1933. A taça, essa foi entregue ao Ujpest, equipa húngara orientada por um tal de Bela Guttman, um mestre da tática que duas décadas mais tarde iria conhecer de novo a glória europeia, desta feita no âmbito das eurotaças tuteladas por uma UEFA que iria nascer em 1954, ao serviço do Benfica. Ujpest que em campo foi conduzido ao triunfo final por outro mestre, este na arte de manuesar o esférico, de seu nome Gyula Zsengeller, o qual com nove tentos apontados ao longo da prova arrecadou o título de melhor marcador. A final foi jogada por duas equipas húngaras, o Ujpest e o Ferencvaros, último clube que foi humilhado (derrota por 4-1) no seu reduto no encontro da primeira mão, com destaque para a exibição individual de Zsengeller – autor de dois golos. A igualdade a duas bolas no encontro de volta foi suficiente para o Ujpest levantar a segunda Mitropa Cup da sua história. Entretanto, em setembro de 1939 a Alemanha invade a Polónia e tem início a II Guerra Mundial, conflito bélico que iria durar até 1945. A Europa era pois um terreno muito perigoso, pese embora oito emblemas aventureiros provenientes da Roménia, Hungria, e da Jugoslávia – os clubes de Itália e da Checoslováquia não participaram – deram vida à edição de 1940, a qual não viria a ter um campeão, pois a final entre o Rapid de Bucareste e o Ferencvaros acabou por não se realizar precisamente devido ao conflito bélico que assolava o Velho Continente. Assim, a bola parou de rolar no âmbito da Taça Mitropa. Um interregno que durou até 1955, altura em que a histórica competição regressou, mas já sem a força e a mística alcançada na década de 30. Além disso, à porta estava a Taça dos Clubes Campeões Europeus, certame criado pela UEFA, e que iria agregar a si a esmagadora maioria das nações – e respetivos clubes – da Europa. Mesmo passando para um plano secundário, a Mitropa manteve-se viva até 1992, moribunda, quase ignorada, mas viva, sendo que até ao seu final não passou de um mero torneio disputado sobretudo por equipas da Série B italiana e alguns combinados da Áustria, Hungria, ou Jugoslávia, que entretanto foram perdendo fulgor na Europa do futebol.

Números e nomes (edição de 1938):

1ª Eliminatória (1ª e 2ª mãos)

Kladno (Checoslováquia) - HASK Zagreb (Jugoslávia): 3-1/2-1
Zidenice (Checoslováquia) – Ferencvaros (Hungria): 3-1/0-3
Génova (Itália) - Sparta Praga (Checoslováquia): 4-2/1-1
Beogradski (Jugoslávia) - Slavia Praga (Checoslováquia): 2-3/1-2
MTK Budapeste (Hungria) - Juventus (Itália): 3-3/1-6
Ujpest (Hungria) - Rapid Bucareste (Roménia): 4-1/0-4
Ambrosiana-Inter (Itália) - Kispesti (Hungria): 4-2/1-1
Ripensia Timisoara (Roménia) – Milan (Itália): 3-0/1-3

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

Ferencvaros (Hungria) - Ripensia Timisoara (Roménia): 5-4/4-1
Juventus (Itália) - Kladno (Checoslováquia): 4-2/2-1
Slavia Praga (Checoslováquia) – Ambrosiana-Inter (Itália): 9-0/1-3
Génova (Itália) - Rapid Bucareste (Roménia): 3-0/1-2

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)

Génova (Itália) - Slavia Praga (Checoslováquia): 4-2/0-4
Juventus (Itália) – Ferencvaros (Hungria): 3-2/0-2
1938 marca a única vitória do Slavia de Praga na Taça Mitropa

Final (1ª mão)

Slavia Praga (Checoslováquia) – Ferencvaros (Hungria): 2-2

Data: 4 de setembro de 1938
Estádio: Strahov, em Praga (Checoslováquia)
Árbitro: Henry Mee (Inglaterra)

Slavia Praga: Alexej Boksay, Antonin Cerny, Ferdinand Daucik (c), Karel Prucha, Karol Daucik, Vlastimil Kopecky, Vaclav Horak, Ladislav Simunek, Josef Bican, Vojtech Bradac, e Rudolf Vytlacil. Treinador: Jan Reichardt.

Ferencvaros: Jozsef Hada, Sandor Tátrai, Gyula Pólgar, Béla Magda, Béla Sarosi, Gyula Lazar, Mihai Tanzer, Gyula Kiss, Gyorgy Sarosi (c), Géza Toldi, e Tibor Kemény. Treinador: Gyorgy Hlavay.

Golos: 01- (Kemény, aos 30m), 1-1 (Bican, aos 36m), 2-1 (Simunek, aos 44m), 2-2 (Kiss, aos 63m)

Final (2ª mão)

Ferencvaros (Hungria) – Slavia Praga (Checoslováquia): 0-2

Data: 11 de setembro de 1938
Estádio: Ulloi ut, em Budapeste (Hungria)
Árbitro: Arthur Jewell (Inglaterra)

Ferencvaros: Jozsef Hada, Sandor Tátrai, Gyula Pólgar, Béla Magda, Béla Sarosi, Gyula Lazar, Mihai Tanzer, Gyula Kiss, Gyorgy Sarosi (c), Géza Toldi, e Tibor Kemény. Treinador: Gyorgy Hlavay.

Slavia Praga: Alexej Boksay, Antonin Cerny, Ferdinand Daucik (c), Karel Prucha, Otakar Nozir, Vlastimil Kopecky, Bedrich Vacek, Ladislav Simunek, Josef Bican, Vojtech Bradac, e Rudolf Vytlacil. Treinador: Jan Reichardt.

Golos: 0-1 (Vytlacil, aos 57m), 0-2 (Simunek, aos 71m).

Números e nomes (edição de 1939):

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

Venus Bucareste (Roménia) - Bologna (Itália): 1-0/0-5
Ferencvaros (Hungria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 2-3/2-0
Beogradski (Jugoslávia) - Slavia Praga (Checoslováquia): 3-0/1-2
Ambrosiana-Inter (Itália) – Ujpest (Hungria): 2-1/0-3

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)

Bologna (Itália) – Ferencvaros (Hungria): 3-1/1-4
Beogradski (Jugoslávia) – Ujpest (Hungria): 4-2/1-7
A vitória do Ujpest (equipa da imagem) encerrou a era dourada da Mitropa

Final (1ª mão)

Ferencvaros (Hungria) – Ujpest (Hungria): 1-4

Data: 23 de julho de 1939
Estádio: Ulloi ut, em Budapeste (Hungria)
Árbitro: Gustav Krist (Checoslováquia)

Ferencvaros: József Háda, Sándor Tátrai, Kornél Szoyka, Béla Magda, Béla Sarosi, Gyula Lázár, Mihai Tanzer, Gyula Kiss, Gyorgy Sarosi (c), Géza Toldi, e László Gyetvai. Treinador: Gyorgy Hlavay.

Ujpest: Ferenc Sziklai, Gyula Futó (c), Jeno Fekete, Antal Szalay, Gyorgy Szucs, Istvan Balogh, Sándor Ádám, Jeno Vincze, Gyula Zsengeller, Lipót Kállai, e Géza Kocsis. Treinador: Bela Guttman.

Golos: 0-1 (Zsengeller, aos 9m), 0-2 (Kocsis, aos 10m), 0-3 (Kocsis, aos 53m), 1-3 (Sarosi, aos 73m); 1-4 (Zsengeller, aos 74m).

Final (2ª mão)

Ujpest (Hungria) – Ferencvaros (Hungria): 2-2

Data: 20 de julho de 1939
Estádio: Megyeri út, em Budapeste (Hungria)
Árbitro: Generoso Dattilo (Itália)

Ujpest: Ferenc Sziklai, Gyula Futó (c), Jeno Fekete, Antal Szalay, Gyorgy Szucs, Istvan Balogh, Sándor Ádám, Jeno Vincze, Gyula Zsengeller, Lipót Kállai, e Géza Kocsis. Treinador: Bela Guttman.

Ferencvaros: József Pálinkás, Sándor Tátrai, Kornél Szoyka, Gyula Pólgar, Béla Sarosi, Gyula Lázár, Mihály Biró, Gyula Kiss, Gyorgy Sarosi (c), Istvan Kiszely, e László Gyetvai. Treinador: Gyorgy Hlavay.

Golos: 0-1 (Kiszely, aos 15m), 0-2 (Kiszely, aos 29m), 1-2 (Ádám, aos 54m), 2-2 (Balogh, aos 82m)