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sexta-feira, maio 28, 2021

Arquivos do Futebol Português (15)...

O primeiro troféu internacional conquistado por um clube português

Clube Internacional de Futebol, popularmente designado por CIF, tornou-se em 1907 na primeira equipa portuguesa a atuar fora de portas, facto ocorrido em janeiro desse ano, quando os lisboetas se deslocaram ao reduto do Madrid FC (futuro Real Madrid). O CIF, reforçado com alguns craques ingleses do Carcavellos Club, venceu este jogo por 2-0, tendo este feito sido muito celebrado pelos jornais da época. Não demorou mais de dois anos a que o clube dos Pinto Basto voltasse a receber um convite de nuestros hermanos para voltar ao país vizinho para um novo match, desta feita em Badajoz. Pela frente os portugueses tiveram o Sport Club Bacense, com a particularidade de em jogo estar a disputa de um troféu oferecido pelo município de Badajoz. Com as suas camisolas de listas verticais pretas e brancas, o Internacional era um clube que tinha nascido prestigiado, já que tinha sido fundado pela reunião de vontades de alguns dos mais destacados pioneiros do futebol em Portugal, com destaque para a família Pinto Basto. 
Com um misto de jogadores portugueses e ingleses, o CIF era um emblema elitista e, a par dos ingleses do Carcavellos Club, tinha um prestígio inatacável. 
Rezam as poucas crónicas existentes sobre este encontro que 4000 pessoas terão assistido ao duelo entre espanhóis e portugueses, e que o CIF terá apresentado no retângulo de jogo os seguintes jogadores: Gastão Pinto Basto, Merik Barley, Sidney Mascarenhas, João Figueiredo, Augusto Sabbo, Eduardo Luiz Pinto Basto, Luís Kruss Gomes, Carlos Sobral, Vieira da Silva, A. Barreto e Cecil Barley. 
Quanto ao jogo consta que os portugueses estiveram sempre por cima, foram sempre superiores, impressionando a assistência com a sua técnica e complacência física. O resultado do jogo cifrou-se em 3-0 a favor dos lusos, graças a golos de Vieira da Silva, Luís Kruss Gomes e Augusto Sabbo, sendo que este último foi considerado como o homem do jogo, graças à sua apetência para organizador e condutor de jogo. 
Augusto Sabbo
Augusto Sabbo nasceu em Lisboa a 27 de março de 1887 e tinha ascendência germano-húngara. Estudou na Alemanha, onde chegou a praticar futebol de forma oficial, tendo ainda passado algum tempo na Áustria e na Hungria, locais onde colheu muitos ensinamentos sobre o jogo. Na Alemanha estudou engenharia, sendo que no regresso a Portugal foi um dos responsáveis pela montagem da rede de tração elétrica em Coimbra, entre outras obras. No futebol, os tempos eram ainda muitos verdes em Portugal, praticava-se um estilo de jogo algo rudimentar ainda, e Sabbo viria a tornar-se uma espécie de joia rara no Planeta da Bola luso, já que possuía conhecimentos profundos do jogo e ademais era um visionário. Em Portugal, Sabbo iniciou-se no CIF como jogador, ali deu nas vistas, mas seria já como treinador nos anos 20 que ficaria imortalizado como um dos grandes nomes do nosso futebol. Dirigiu o futebol do Sporting em 1922/23 (quando os leões conquistaram o seu primeiro campeonato de Portugal), sendo que sensivelmente um ano antes, em 1921, foi escolhido para ser o cargo de primeiro seleccionador nacional. Porém, os jogadores não gostaram da dureza dos seus métodos e ele acabou por não orientar nenhum jogo da seleção. Em 1926 tornando-se no primeiro treinador remunerado ao serviço do Sporting, clube onde aplicou toda a sua sabedoria. Em 1923, Sabbo editou em Lisboa um minucioso manual de 75 páginas, intitulado Football (Técnica e Didáctica de Jogo), sobre todos os aspectos importantes do futebol. Para além de jogador e treinador disso foi árbitro e fez ainda parte das primeiras equipas de râguebi do Sporting. Faleceu a 30 de outubro de 1971.

quarta-feira, maio 22, 2013

Histórias do Futebol em Portugal (13)... Nau de Belém chega à terra prometida

Depois de em 1926 ter estado muito perto de lá atracar, a nau de Belém alcançou um ano mais tarde a terra prometida do futebol português. Fundado precisamente oito anos antes (1919) por Artur José Pereira o Belenenses conquistava em 1927 o primeiro grande título de uma história que nas décadas seguintes haveria de ter (outros) inúmeros momentos de glória, os quais haveriam de fazer deste um dos mais populares e laureados emblemas de Portugal. Clube de Futebol "Os Belenenses" que levou então para casa o título de campeão de Portugal num ano (1927) em que aquela que já era a mais importante e querida competição lusitana conheceu profundas remodelações. O certame foi avolumado, isto é, alargado a mais clubes que não os campeões regionais. Inspirados no sucesso da FA Cup inglesa um trio de ilustres figuras do futebol (e do jornalismo desportivo) português daquele tempo, nomeadamente Ribeiro dos Reis, Ricardo Ornelas, e Cândido de Oliveira, propuseram então que mais clubes pudessem competir no Campeonato de Portugal, constituindo para isso uma comissão que traçou o novo regulamento da prova. Regulamento esse que propunha a edificação de um Torneio de Classificação a anteceder o campeonato, torneio esse dividido em 14 grupos espalhados um pouco por todo o país, sendo que os vencedores desses grupos iriam juntar-se a 15 clubes isentos - isenção que era concedida em face da classificação obtida por esses clubes no seio das respetivas associações distritais - e com lugar desde logo garantido na 6ª edição do Campeonato de Portugal. Nestes moldes um dado estava desde logo garantido: a prova nacional iria ter mais jogos, mais cidades envolvidas, e desde logo mais emoção. E assim foi.
A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) - que assim passou a chamar-se desde 28 de maio de 1926, deixando para trás a designação de União Portuguesa de Futebol - deu luz verde à ideia dos três jornalistas/dirigentes desportivos e o campeonato arrancou a 6 de março de 1927.
Porém, falar do certame ganho pelo Belenenses obriga também a evocar a palavra polémica. Mais uma vez assistiu-se a uma dura batalha da guerra norte-sul... como iremos recordar lá mais para a frente desta viagem ao passado.

Sob a arbitragem de José Simões, os lisboetas do Império - estreantes na competição, fruto de terem sido um dos 14 vencedores dos grupos do Torneio de Classificação - esmagaram diante do seu público os alentejanos do Luso Beja, por 4-0. Este encontro foi disputado no Campo da Palhavã, recinto que neste mesmo dia assistiu a uma segunda partida da 1ª eliminatória do Campeonato de Portugal de 1927, entre o estreante Barreirense e o campeão de Portugal de 1924, o Olhanense. Barreirenses que foram uma das grandes surpresas do certame, ao apresentarem um futebol alegre e vistoso ministrado por um mestre da tática que havia feito furor num passado recente nos então retângulos lusos de terra batida. Augusto Sabbo, engenheiro luso-alemão profundo entendido dos meandros do belo jogo que em 1923 havia conduzido o Sporting à vitória final do Campeonato de Portugal, mas que problemas financeiros leoninos desviaram em meados de 1926 para o Barreiro, onde reunindo um grupo de operários construiu uma das mais belas equipas da história do emblema da margem sul do Tejo.

Voltando ao duelo entre Barreirense e Olhanense o que se assistiu na Palhavã foi um verdadeiro espetáculo de futebol ofensivo, de parte a parte, com os pupilos de Sabbo a levarem a melhor por 9-4! No plano individual deste hino de ataque às balizas destaque para o olhanense José Belo - um dos artistas do título nacional de 24 - que à sua conta apontou os quatro tentos da sua equipa, e para os operários do Barreiro José Correia, e João Pireza, respetivamente autores de quatro e três dos nove tentos barreirenses.
Mais a norte, em Viana do Castelo, o Campo de Monserrate chorou ao ver os portuenses do Progresso saírem da Princesa do Lima com um magro triunfo de 1-0 no bolso sobre o combinado local, o experiente - nestas andanças - Vianense.
Em Braga, no Campo do Raio, dois estreantes mediram forças, o Boavista e o Clube Galitos (de Aveiro). Fizeram a festa os portuenses graças a um triunfo por três golos sem resposta, com José Rodrigues Chelas a vestir o fato de herói após apontar dois tentos.
Outro histórico emblema da cidade do Porto participou pela primeira vez na mais popular competição nacional, de seu nome Sport Comércio e Salgueiros. A jogar em casa (Campo do Covelo) os salgueiristas golearam o representante da Associação de Vila Real, o Sport Clube Vila Real, por 4-0. Arbitrado pelo guarda-redes do Boavista (!), Manuel Sousa, conhecido no planeta da bola por Casoto, o Salgueiros entrou praticamente a vencer no encontro, quando à passagem do minuto três Fontes deu colorido ao marcador. Na segunda parte brilhou a grande altura Reis, autor dos restantes três golos da tarde (aos 55, 60, e 90m).
No Campo da Quinta Agrícola, em Coimbra, a Briosa - popular alcunha pela qual é conhecida a Académica coimbrã - despachou o Sporting de Espinho por 3-1, com a particularidade de dois dos três tentos academistas terem sido apontados por Albano Paulo, o homem que em 1939 iria conduzir - na condição de treinador - a Académica à vitória na edição de estreia da prova sucessora deste Campeonato de Portugal, a Taça de Portugal.

Pior sorte teve a outra equipa de Coimbra, o União, que em Lisboa saiu da prova vergado a uma pesada derrota aos pés do Casa Pia, por 5-0, tendo Gustavo Teixeira apontado quatro golos! E no Porto o popular Leixões também dava os primeiros passos no Campeonato de Portugal. No (campo do) Covelo os matosinhenses enfrentavam o Sporting de Braga, um habitual combatente nestas frentes, conjunto que levaria para a capital minhota um saboroso triunfo por 3-0, construido durante a etapa inicial, com golos de Cruz (aos cinco minutos) e Gumercindo (aos 20 e aos 42m). E por falar nas cidades de Braga e do Porto dois outros combinados oriundos destas urbes mediram forças entre si nesta ronda inicial. FC Porto e Estrela de Braga, assim se chamavam, tendo os portistas vencido com naturalidade os bracarenses por 11-0! Naturalidade porque a diferença - a diversos níveis - entre ambos os conjuntos era abismal.

No entanto a goleada mais dilatada desta 1ª eliminatória foi alcançada por outra das equipas sensação da prova, o Vitória de Setúbal, o surpreendente campeão regional de Lisboa (!) deste ano de 1927. No Campo dos Arcos (em Setúbal) os sadinos afastaram o Despertar Sport Clube de Beja por expressivos 12-0 (!), sim, uma dúzia de golos, cinco deles apontados por uma das estrelas do combinado orientado pelo inglês Arthur John, de sua graça Octávio Cambalacho.
E em Portalegre entrava em campo um leão financeiramente... moribundo. O gigante Sporting Clube de Portugal passava por uma crise financeira aguda, que - entre outros aspetos - levou à saída do treinador campeão Augusto Sabbo rumo ao Barreirense. A razão desta surpreendente dispensa alude ao elevado ordenado que Sabbo usufruia em Lisboa, 12 contos, que segundo a Direção leonina era incompatível com as finanças de um clube cujo orçamento era de 29 contos. Mesmo debilitado financeiramente o leão - agora treinado pelo seu carismático capitão Jorge Vieira - era ainda aguerrido no plano desportivo, conforme explica o resultado de 7-1 a seu favor sobre o SC Portalegre.
No derradeiro encontro desta eliminatória o futuro campeão entrou em campo. E fê-lo em Santarém, diante dos Leões locais, que por sua vez não tiveram armas para contrariar a superioridade da equipa-maravilha criada por Artur José Pereira, o fundador do clube e agora seu treinador, e onde pontificavam lendas como Eduardo Azevedo, César Matos, Augusto Silva, e um tal de Pepe. No Campo de São Lázaro um festival de futebol de ataque originou um triunfo merecido dos rapazes de Belém, por 9-1. Estava dado o primeiro passo de uma caminhada que iria ser triunfal.

Estreia do Benfica

Concluída a 1ª eliminatória a prova rumou aos oitavos-de-final, que tiveram a sua entrada em cena a 3 de abril. Dia em que entrou em ação o popular Benfica, um dos clubes mais afamados da capital, que fazia a sua estreia na competição. Treinados pelo lendário Ribeiro dos Reis - homem dos 7 ofícios dentro do futebol - os benfiquistas reuniram um bom grupo para atacar o campeonato, e levar o troféu de campeão para o... Montepio Geral! É verdade. Não tendo ainda um espaço para guardar os troféus conquistados os benfiquistas guardavam as suas relíquias no banco Montepio Geral! Outros tempos. No que concerne a nomes sonantes o Benfica de 1927 tinha vários, desde Mário Carvalho, passando por Ralph Bailão, até Raul Tamanqueiro, a grande estrela do Olhanense campeão de Portugal em 1924. No Campo do Raio, em Braga, o Benfica de Tamanqueiro e companhia sofreu a bom sofrer para vencer o Sporting local por 4-3, com os tentos benfiquistas a pertencerem a Pereira Nunes, António Gonçalves, Vítor Hugo, e José Simões.

E foi precisamente nos oitavos-de-final que a polémica vistou o Campeonato de Portugal, envolvendo, curiosamente, dois clubes da cidade do Porto. O primeiro caso aconteceu no Covelo, onde o Salgueiros bateu com a porta após graves erros do árbitro Ramon Folch (de Viana do Castelo) no encontro diante do Vitória de Setúbal. O duelo terminou com o triunfo sadino por 2-0 - golos de Octávio Cambalacho e Soares - mas iria ser mandado repetir após ter-se concluído que o árbitro prejudicou seriamente os salgueiristas. Estes, em forma de protesto, decidiram não comparecer no segundo encontro, pelo que a FPF não teve outro remédio senão atribuir a passagem de eliminatória ao Vitória. A guerra norte-sul, que havia despoletado logo na primeira edição da prova, conhecia aqui mais uma ardente batalha, com os nortenhos a queixarem-se de descriminação em relação aos sulistas.
Mas os combates entre o norte e o sul não se resumiram ao Salgueiros - Vitória de Setúbal. Muito longe disso. A grande polémica do campeonato envolveu o FC Porto e o Belenenses, equipas que se defrontaram no Campo da Palhavã nesta eliminatória, um jogo que para muitos era digno de uma final antecipada. Arbitrado pelo juíz da Associação de Futebol de Beja Doroteo Flecha Rodrigues, o jogo começou de feição aos portistas, que sem se deixarem impressionar pelo ambiente - mais uma vez - hostil que encontraram na capital rapidamente chegaram ao 2-0, com golos de Acácio Mesquita e de um tal de Fridolf Resberg. Último jogador este de nacionalidade norueguesa, e que viera para Portugal para abraçar a carreira de diplomata no Consulado da Noruega no Porto. Reza a lenda que Resberg certo dia passou pelo Campo da Constituição, apresentou-se ao treinador Akos Teszler e pediu para treinar com o clube. Pedido aceite Resberg convenceu os responsáveis azuis-e-brancos, que rapidamente o colocaram na frente de ataque da sua equipa principal, onde fez furor durante algum tempo, até ser chamado de volta para a sua longínqua e gélida Noruega.


Mas voltando aos (tristes) acontecimentos da Palhavã o diabólico Pepe pôs a cabeça em água aos defesas portistas, ao fazer dois golos. Um deles deu mesmo o triunfo ao Belenenses (3-2), uma vitória muito protestada pelos portistas que se queixaram da atuação tendenciosa do árbitro alentejano. Triunfo belenense que só foi alcançado no prolongamento depois de um 2-2 no final do tempo regulamentar. Tento do empate dos rapazes de Belém que surgiu em cima do minuto 90... em claro fora de jogo. Assim evocaram os responsáveis do FC Porto. O árbitro fez vista grossa e surgiu a necessidade de mais 30 minutos de batalha. Não satisfeito com esta pequena ajuda - na voz dos portistas - o árbitro decidiu aplicar o mesmo critério no golo da vitória lisboeta, apontado por Pepe... mais uma vez em nítido fora de jogo. Doroteo Flecha Rodrigues admitiu no final da partida ter errado a favor dos azuis de Belém no que diz respeito a este último tento!
Porém, em resposta às críticas do Porto as gentes de Lisboa - com FPF à cabeça - acusaram o clube nortenho de não cumprir os regulamentos, já que se havia apresentado em campo com três atletas estrangeiros (Mihaly Siska, Norman Hall, e Fridolf Resberg) quando a lei dizia que apenas podiam ser utilizados dois.

Os portistas não calaram a sua revolta e logo após a eliminação tornavam pública carta feroz, a qual dizia o seguinte: «Este campeonato serviu apenas para demonstrar as competências tacanhas a quem o futebol português está entregue. Segundo o seu regulamento nenhum grupo pode alinhar com mais de dois jogadores estrangeiros, mas como entendêssemos que o senhor Norman Hall é moralmente um jogador português, fizemos por intermédio da nossa associação uma exposição à FPF, citando que Norman Hall há 15 anos vem disputando pelo nosso clube os campeonatos do norte e tem sido incluído no grupo representativo da cidade desde 1918, isto é, muito antes da formação da FPF, acrescendo ainda a circunstância de residir em Portugal desde a idade de oito anos. Esta exposição, apreciada e discutida numa reunião do Comité Executivo do Campeonato de Portugal, teve resolução favorável, sendo qualificado o referido senhor Norman Hall como jogador português. Depois de termos jogado e vencido o Estrela de Braga, fomos indicados adversários do Belenenses, para os oitavos-de-final, a realizar em Lisboa. Alinhámos com Norman Hall e depois de uma exibição superior ao nosso adversário e em que o resultado deveria ser de dois golos a um, a nosso favor, o árbitro. senhor Flecha, de Beja, conseguiu, no final do tempo regulamentar, um empate a 2-2. Jogada a meia hora do desempate, fomos mais uma vez prejudicados com uma bola "off-side", que deu o resultado de 3-2 a favor do Belenenses. A arbitragem deste desafio levou-nos a um protesto junto da FPF, protesto que foi acompanhado de 500 escudos e sobre o qual a mesma federação até hoje nenhuma resposta deu, parecendo-nos que nenhuma resolução tomou, visto reconhecer que teria de anular o jogo, em face das declarações do árbitro, que involuntariamente nos tinha tirado uma vitória bem justa». 
Da FPF veio resposta a dizer simplesmente que o FC Porto não havia cumprido a lei ao alinhar com três estrangeiros. Sobre os 500 escudos nem uma palavra!!! E ponto final.

Alguns quarteirões mais à frente, isto é, no Campo Grande, o Sporting Clube de Portugal, do jogador/treinador Jorge Vieira, humilhava a Académica de Coimbra por 9-1, com destaque para os cinco golos de Filipe dos Santos. Mais a norte, no Porto, o Barreirense de Augusto Sabbo continuava a sua caminhada triunfal, sendo que desta feita a vítima deu pelo nome de Boavista Futebol Clube, clube este que no seu reduto - Campo do Bessa - perdeu por 0-2.
A 24 de abril disputou-se no Campo Grande o derradeiro desafio destes oitavos-de-final, o qual colocou frente a frente o Carcavelinhos ao Casa Pia, tendo vencido os primeiros por 3-1. Isento desta eliminatória ficou o detentor do título de campeão de Portugal e crónico campeão da Madeira, o Clube Sport Marítimo.

Campeões em título provam do próprio veneno


E por falar em Marítimo quis o destino que a defesa do título tivesse início com uma reedição da final do ano anterior, ante o Belenenses, que recorde-se, havia sido derrotado pelos madeirenses no Campo do Ameal por 0-2. Este reencontro foi digamos que uma vingança dos pupilos de Artur José Pereira, que diante do seu público, que lotou por completo o Campo do Lumiar, esmagou os campeões da Madeira e de Portugal por claros 8-1! Deram cor à goleada azul Silva Marques (3 golos), Pepe (2), Alfredo Ramos (2), e Augusto Silva. Este jogo fez ainda com que o Marítimo provasse do próprio veneno dado ao FC Porto um ano antes, quando nas meias-finais humilhou os portistas por 7-1. Desta feita foram os madeirenses a saborear uma amarga e pesada derrota!
Nas Amoreiras o Vitória de Setúbal ultrapassava mais um duro obstáculo rumo à final que iria alcançar muito justamente. O Sporting foi um osso duro de roer, mas Octávio Cambalacho, mais uma vez, fez estoirar a festa à beira do (rio) Sado graças a um único golo que derrotou os aparentemente falidos mas aguerridos leões.
Quanto ao eterno rival do Sporting, o Benfica, beneficiou de uma tarde verdadeiramente inspirada do seu avançado Jorge Tavares, autor de três dos cinco golos com que os pupilos de Ribeiro dos Reis afastaram os operários do Carcavelinhos. Por último, o Barreirense, que afastou o Império por 3-1.


Nova polémica nas meias-finais!

Como não há duas sem três polémica voltou a gritar-se a viva voz nas meias-finais do campeonato, disputadas no dia 15 de maio. Ambos os jogos realizaram-se no Campo do Lumiar, em Lisboa, sendo que no primeiro confronto o Vitória de Setubal garantiu o passaporte para a final num encontro que só durou 44 minutos! Aníbal José fez o único golo do jogo a favor dos sadinos, que na voz do treinador barreirense, Augusto Sabbo, usaram e abusaram das entradas duras. Comportamento violento a juntar ao aparente golo irregular dos setubalenses ao cair do pano sobre a primeira parte que fez com que Sabbo ao minuto 44 ordenasse que os seus pupilos abandonassem o terreno de jogo em sinal de protesto, pelo que o árbitro lisboeta Ilídio Nogueira não teve outra hipótese senão dar por terminada a partida nomear os sadinos como os primeiros finalistas do campeonato. Horas mais tarde foi a vez do Belenenses assegurar a presença no jogo mais desejado do ano. No entanto, para o conseguir os pupilos de Artur José Pereira tiveram de sofrer a bom sofrer para eliminar um combativo Benfica. Com uma igualdade a zero golos no final dos 90 minutos o árbitro Silvestre Rosmaninho viu-se na necessidade de indicar mais 30 minutos de prolongamento, sendo que aqui, os azuis de Belém levariam a melhor, com golos de Silva Marques (minuto 102) e Pepe (minuto 115). 

Belenenses é o novo rei do futebol português em véspera de Santo António!


E foi precisamente no Lumiar que praticamente um mês depois foi disputada a grande final. Jogo decisivo que foi realizado a 12 de junho, a véspera da mais importante festa popular da capital portuguesa, Santo António, a quem - por certo - ambos os intervenientes terão solicitado ajuda divina na entrada para o retângulo de jogo. Tarde ventosa brindava a capital em dia de festa, e seria precisamente o vento um aliado - e um inimigo também - para os dois conjuntos envolvidos na final. Durante o primeiro tempo foi o Vitória de Setúbal a beneficiar da ajuda do vento, embora sem tirar proveito desse fator. Com um futebol apoiado, de passes curtos e desmarcações rápidas, os sadinos foram uma dor de cabeça para o guarda-redes belenense Francisco Assis na etapa inicial. João Santos foi o principal protagonista dos assaltos à baliza azul, desperdiçando de forma incrível - dizem as crónicas da época - um golo feito aos 27 minutos. E como quem não marca por norma sofre o Belenenses - agora jogando com o vento a seu favor - dominou por completo a segunda parte, domínio esse traduzido em golos. O primeiro surgiu por Augusto Silva, aos 63 minutos, a aproveitar da melhor maneira um cruzamento de César Matos, sendo que a machadada final foi dada na entrada para os derradeiros cinco minutos da contenda, graças a um bis de Silva Marques (aos 86 e aos 89 minutos).
O futebol cintilante do Belenenses era assim premiado com o ambicionado título de campeão de Portugal. Era caso para dizer que essa noite de Santo António iria ser duplamente festejada pelos apaixonados adeptos belenenses que na tarde de 12 de junho de 1927 lotaram por completo o Lumiar.

A figura: Pepe


Se tivessemos de escolher os 10 melhores futebolistas portugueses da primeira metade do século XX o seu nome inevitavelmente estaria lá. José Manuel Soares, eternizado no planeta da bola como Pepe, foi a grande figura do Campeonato de Portugal de 1927. A sua genialidade criativa e técnica ficaram bem patentes na caminhada triunfal do Belenenses. Sobre ele já traçámos noutras viagens ao passado longas linhas, e a sua memória repousa na vitrina das lendas deste Museu Virtual do Futebol. Aproveitando a vitória do Clube de Futebol "Os Belenenses" na principal prova portuguesa repescamos para este texto algumas das linhas biográficas por nós desenhadas aquando dessa visita a um menino que morreu cedo demais!
Ele foi um dos primeiros génios do futebol português como consequência natural da sua veia artística com a bola. Cedo se tornou num ídolo para a massa adepta lusitana que ia tendo o primeiro contacto com o belo jogo. Com dribles diabolicamente desconcertantes, com passes magistrais, ou com golos inimagináveis ele ganhou por direito próprio um lugar no Olimpo dos Deuses do futebol. A 30 de janeiro de 1908 no seio de uma família pobre de Belém (Lisboa) nasce aquele que viria a ser um dos maiores ídolos do futebol português na década de 20 do século passado.

A infância de José Manuel Soares foi pois de profunda miséria, sendo que a única alegria dos meninos daquele tempo era única e simplesmente a bola de futebol. E foi a jogar futebol na rua com uma bola de trapos que Pepe – alcunha que surgiu numa época em que a sua condição no desporto rei era já a de um talento confirmado – descobriu a sua vocação. Como tal ainda com tenra idade ingressa no clube da sua zona, o Belenenses, o emblema gravado no seu coração, sendo que com apenas 15 anos (!) é inscrito no Campeonato de Lisboa.
Não demoraria muito a sua ascensão até à equipa principal, a qual se daria um ano depois (1926) num confronto ante o Benfica no Campo das Amoreiras, duelo que terminaria 5-4 a favor do Belenenses, tendo Pepe apontado o golo do triunfo do seu clube. A sua exímia técnica aliada à sua velocidade estonteante e ao seu poderoso remate patenteados dali em diante fizeram com que fosse aclamado como o rei do futebol português.

De um dia para o outro Pepe tornou-se na alegria do povo. Em Belém, a zona onde continuava a residir numa pobre casa situada na Rua do Embaixador, não havia um único dia em que o seu nome fosse pronunciado com entusismo e vaidade. Mesmo sendo por aquela altura o habitante mais famoso de Belém o menino Pepe continuava humilde e... pobre, sim, porque o futebol não passava de uma brincadeira. Para ajudar a sua família foi trabalhar ainda moço para uma oficina de torneiro, para mais tarde passar a laborar no Centro de Aviação Naval. De aspecto franzino o menino que todos os dias levava para o emprego um triste caldo para retemperar forças fazia magia nos campos de futebol em cada fim-de-semana com as cores do seu Belenenses. Carregou os azuis de Lisboa às costas nas conquistas dos campeonatos de Portugal de 1927 e 1929, bem como noutros tantos campeonatos de Lisboa. Entre 1928 e 1931 sagra-se naturalmente o melhor marcador do campeonato lisboeta, sendo que na temporada de 30/31 estabelece um recorde de 36 golos apontados em 14 encontros disputados! Para a história, nessa mesma época, faz 10 dos 12 golos com que o Belenenses bate o Bom Sucesso.



Ele foi um dos notáveis que integrou o selecionado português na primeira grande aparição deste numa competição à escala mundial: os Jogos Olímpicos. 1928 é o ano que assinala esse feito, ano em que Portugal fica às portas de uma medalha nas Olímpiadas de Amesterdão.
Mas nem só o Belenenses tirou partido do génio de Pepe, a própria seleção nacional também lhe fica a dever muitas vitórias e momentos inolvidáveis. Por 12 ocasiões ele vestiu a camisola das quinas, tendo com ela apontado sete golos.

Consagrado a nível nacional e internacional a estrela de Pepe deixou de brilhar cedo, cedo demais, diria mesmo. Num dia como tantos outros o astro de Belém carrega na fria manhã de 24 de outubro de 1931 o almoço preparado por sua mãe. Almoço é maneira de dizer, pois no bolso levava somente uma triste sande de chouriço que tinha sobrado do jantar da véspera. Chegada a pausa para o repasto Pepe leva o alimento à boca e horas depois é dado como morto no Hospital da Marinha, local para onde foi transportado assim que começou a sentir violentas dores abdominais e a ter hemorragias. Morreria às 10h30 da manhã, com apenas 23 anos... e um futuro – com toda a certeza – risonho ficou por percorrer.

As causas da morte muita tinta fizeram correr nos dias seguintes. Houve quem tivesse apontado ao assassinato... por invejosos do seu valor e popularidade. O envenenamento contudo não ficou senão a dever-se a um lapso – fatal – de sua mãe, a qual em vez de colocar bicarbonato de sódio na refeição colocou potassa, substância que iria destruir por completo o estômago do atleta. Mãe e irmãs de Pepe que também haviam ingerido igual refeição, no entanto conseguiram escapar com vida, aparentemente por terem ingerido uma menor quantidade.
Pepe morreu e o país chorou dias a fio. O seu funeral foi uma prova colossal do carinho que o povo tinha por ele... 30.000 pessoas prestare-lhe uma última homenagem.

Nomes e números do Campeonato de Portugal de 1927

1ª eliminatória

Império - Luso Beja: 4-0

Vianense - Progresso: 0-1

Barreirense - Olhanense: 9-4

Boavista - Galitos: 3-0

Salgueiros - Vila Real: 4-0

Vitória de Setúbal - Despertar: 12-0

Académica - Sp. Espinho: 3-1

SC Portalegre - Sporting: 1-7

Leixões - Braga: 0-3

Casa Pia - União de Coimbra: 5-0

Leões de Santarém - Belenenses: 1-9

Estrela de Braga - FC Porto: 0-11

Oitavos-de-final

Império - Progresso: 7-0

Boavista - Barreirense: 0-2

Salgueiros - Vitória de Setúbal: 0-2

Sporting - Académica: 9-1

Braga - Benfica: 3-4

Carcavelinhos - Casa Pia: 3-1

Belenenses - FC Porto: 3-2

Quartos-de-final

Barreirense - Império: 3-1

Vitória de Setúbal - Sporting: 1-0

Benfica - Carcavelinhos: 5-0

Belenenses - Marítimo: 8-1

Meias-finais

Vitória de Setúbal - Barreirense: 1-0

Belenenses - Benfica: 2-0

Final

Belenenses - Vitória de Setúbal: 3-0

Data: 12 de junho de 1927

Estádio: Campo do Lumiar, em Lisboa

Árbitro: João dos Santos Júnior (lLisboa)

Belenenses: Assis, Eduardo Azevedo, Júlio Marques, Joaquim Almeida, Augusto Silva, César Matos, Fernando António, Alfredo Ramos, Silva Marques, Pepe, e José Luís. Treinador: Artur José Pereira

Vitória de Setúbal: Artur Augusto, Francisco Silva, Isidoro Rufino, Augusto José, Aníbal José, Matias Carlos, Eduardo Augusto, João dos Santos, Octávio Cambalacho, Armando Martins, e Nazaré. Treinador: Arthur John

Golos: 1-0 (Augusto Silva, aos 63m), 2-0 (Silva Marques, aos 86m), 3-0 (Silva Marques, aos 89m)

Legenda das fotografias:
1-Belenenses, o campeão de Portugal em 1927
2-Lance do jogo entre Barreirense e Olhanense
3-João Pireza, uma das estrelas do Barreiro
4-Sporting de Braga
5-Octávio Cambalacho, o goleador do Vitória de Setúbal em 1927
6-Equipa do Benfica, que fez a estreia no Campeonato de Portugal
7-O norueguês do FC Porto, Fridolf Resberg
8-Pepe tenta bater o guarda-redes portista Siska
9-Norman Hall, o seu nome haveria de causar polémica neste campeonato
10-O treinador Augusto Sabbo
11-Fase do jogo entre Vitória de Setúbal e Sporting
12-Artur José Pereira
13-Primeira página do Eco dos Sports a noticiar o triunfo belenense na final
14-Pepe, a estrela de Belém...
15-...em ação...
16... e levado em ombros pela multidão

terça-feira, abril 02, 2013

Histórias do Futebol em Portugal (12)... Nascimento da A.F. Lisboa coincide com o único título conquistado pelo primeiro grande clube português

Trazido pela mão dos irmãos Pinto Basto em finais do século XIX o futebol em Portugal iniciou a sua curva ascendente no que a popularidade diz respeito nos inícios dos 100 anos que se seguiram, altura em que surgiram os primeiros duelos acesos entre os clubes que iam florescendo a uma velocidade estonteante, duelos que começavam a despoletar nos corações do povo lusitano a paixão por aquele belo jogo nascido em Inglaterra. O primeiro grande centro futebolístico português foi Lisboa, cidade que em finais do século XIX e princípios do século XX viu nascer uma série de clubes que ajudaram a enraizar o jogo na cultura lusitana. Nasceram as primeiras rivalidades clubísticas, os primeiros disputadíssimos torneios, e naturalmente as primeiras lendas dos retângulos de jogo. Contudo, e talvez porque fosse algo novo, a organização foi digamos que o calcanhar de aquiles do jovem futebol português. Nos anos iniciais as regras muitas vezes não eram respeitadas, causando o caos entre clubes, jogadores, e adeptos. Foi preciso esperar até 1910 para que finalmente o futebol fosse estruturado dos pés à cabeça, tendo para isso muito contribuido o nascimento da Associação de Futebol de Lisboa (AFL), a primeira associação do país, e para muitos a primeira entidade reguladora a sério do fenómeno futebolístico luso.
Na viagem de hoje ao passado vamos então recordar as incidências do primeiro Campeonato (regional) de Lisboa organizado pela AFL, e recordar o seu primeiro campeão oficial, aquele que na época era o clube mais bem estruturado do ainda criança futebol nacional.

Como já vimos as competições inter-clubes começaram a surgir um pouco por todos os quatro cantos da capital portuguesa nos inícios do século passado. Esta atividade não era mais do que o resultado dos elevados índices de popularidade que o futebol grangeava na urbe lisboeta. A imprensa começava a dar destaque aos jogos que se desenrolavam aqui e acolá, e com naturalidade surgiram pois os primeiros campeonatos regionais. Em meados de 1906 os principais emblemas lisboetas da época reúnem-se com a intenção de criar um organismo que orientasse e coordenasse uma grande competição. Dessa reunião nasce a Liga Football Association (LFA), o organismo (presidido por Joaquim Costa e secretariado por um tal de José de Alvalade, esse mesmo, o mentor do Sporting Clube de Portugal) que tutela o primeiro campeonato de Lisboa, cujo pontapé de saída foi dado na temporada de 1906/07. Grande dominador do futebol daqueles dias o Carcavelos Club - composto exclusivamente por jogadores ingleses a laborar no Cabo Submarino - conquistou o título, levando a melhor sobre o Benfica, o Lisbon Cricket, e o Clube Internacional de Futebol, popularmente conhecido como CIF.
A arte futebolística dos ingleses do Carcavelos seria vincada nas duas edições seguintes, com a obtenção de mais dois ceptros regionais, sendo que na temporada de 1907/08 o Campeonato de Lisboa passa a ser organizado por uma nova entidade, a Liga Portuguesa de Futebol (LPF), a sucessora da LFA. Januário Barreto, médico de profissão, árbitro, jogador, e ilustre dirigente desportivo - exerceu entre outros cargos o de presidente do Sport Lisboa - foi o primeiro presidente do recém-nascido organismo. Mas a vida da LPF seria curta.

Ainda antes do Benfica colocar em 1909/10 um ponto final no reinado de três anos consecutivos dos ingleses do Carcavelos Club na competição, mosquistos por cordas começaram a surgir em catadupa no seio do futebol lisboeta. Com as rivalidades entre clubes ao rubro, as águas agitavam-se entre adeptos, jogadores e dirigentes. A indisciplina reinava nas relações entre clubes, causadas por queixas contra árbitros, ou decisões da LPF. Os regulamentos raramente eram cumpridos. Os jogadores mudavam de camisola quando bem lhes apetecesse, os clubes desistiam a meio das provas, além de que a segurança não existia numa época em que as rivalidades levavam os adeptos a ultrapassar a fronteira que separa os bons costumes da selvajaria. Tudo isto, ao que se juntou a morte de Januário Barreto, levou a que em 1910 a LPF fechasse portas. O futebol vivia em tumulto, tal como aliás o próprio país, que se encontrava em transição do regimo monárquico para o da república. Tumulto cujo ponto final foi colocado a 23 de setembro desse longínquio 1910, dia em que nasce a Associação de Futebol de Lisboa, a entidade que haveria de dinamizar o futebol associativo em Portugal dali em diante.
AFL que tomou de imediato conta do Campeonato de Lisboa, tendo logo em 1910/11 chamado a si a organização do certame, que iria contar com a participação de sete clubes, nomedamente o CIF, o Benfica, o Sporting, o Campo de Ourique, o Império, o Lisboa Football Club, e o União Belenense. Notava-se a ausência de alguns clubes históricos dos primeiros anos de futebol em Portugal, desde logo os ingleses do Carcavelos Club, que preferiam agora competir apenas em jogos particulares (!), enquanto que emblemas como o Lisbon Cricket e o Gilman desapareciam, tendo os seus valorosos atletas rumado para outras paragens. O CIF, por exemplo, reforçou-se com alguns atletas do Lisbon Cricket, ao passo que o Império recebeu quase toda a equipa (!) do Gilman. A AFL organizou o primeiro Campeonato (oficial) de Lisboa em três categorias: primeiras, segundas, e terceiras, sendo que as duas últimas se equiparavam a uma espécie de campeonatos de reservas.

O primeiro "regional" lisboeta teve início a 13 de novembro de 1910, tendo logo na ronda inaugural surgido uma enorme supresa. O campeão da época anterior, o Benfica, foi derrotado em casa pelo União Belenense, por 2-3 (!), o único desaire dos encarnados liderados pelo seu dirigente/treinador/jogador (!!!) Cosme Damião, mas que haveria de ser decisivo nas contas finais. Outro grande candidato ao título que iria tropeçar lá mais para a frente do campeonato era o Sporting, o clube aristocrata da sociedade lisboeta, o clube abastado financeiramente, que tinha nas suas fileiras alguns dos melhores jogadores lusos de então.
Os irmãos Stromp (Francisco e António) eram duas das principais estrelas leoninas, aos quais se juntavam os irmãos Catatau (António Rosa Rodrigues, e Cândido Rosa Rodrigues), responsáveis pela primeira grande traição do futebol lusitano no início do século passado.

Figuras de destaque dos primórdios do Benfica, António Rosa Rodrigues e Cândido Rosa Rodrigues desertaram do clube no final da temporada de 1906/07, rumo ao grande rival Sporting, que os aliciou com... banhos quentes e toalhas lavadas no final de cada jogo/treino (!), mordomias que o então pobre Benfica não possuia. Grande figura daquele Sporting era também Francisco dos Santos, o primeiro emigrante de sucesso do futebol português, a quem o Museu Virtual do Futebol já dedicou longas linhas numa outra visita ao passado. Só para relembrar os mais esquecidos Francisco dos Santos revelou-se como um cerebral médio-ofensivo no Casa Pia, em finais do século XIX, tendo posteriormente respresentado o Sport Lisboa - antecessor do Sport Lisboa e Benfica - antes de rumar ao estrangeiro para estudar... Belas Artes. Primeiro em Paris e depois em Roma, sendo que na Cidade Eterna para fazer face às enormes dificuldades financeiras vivenciadas arranjou emprego como... jogador de futebol. E em boa hora o fez, pois tornou-se de imediato numa referência do jovem calcio transalpino ao serviço da Lázio. No emblema da capital italiana destacou-se então, não sendo de admirar que a braçadeira de capitão lhe fosse entregue logo na primeira época! Foi um dos artistas do primeiro dérbi romano, entre Lázio e Roma, tendo o ilustre (jornal) Gazzetta dello Sport sublinhado que nesse jogo histórico estiveram em evidência dois jogadores... «o jovem Saraceni e o veterano Dos Santos, que com os seus 55 quilos foi, impressionante, dos melhores em campo...». De regresso a Portugal (em 1908) assinou pelo Sporting, ali terminando a sua brilhante carreira de futebolista, antes de se dedicar em exclusivo à atividade de escultor que o haveria de eternizar na História de Portugal.

Mas as estrelas só por si não ganham jogos, e o Sporting encontrou muitas dificuldades ao longo da sua caminhada no primeiro "regional" oficial de Lisboa. Dificuldades criadas sobretudo pelos seus dois maiores rivais, o Benfica, com quem perdeu na 6ª jornada por 5-1, e o CIF, que derrotaria os leões nos dois confrontos realizados, o primeiro (na 5ª jornada) por 1-0, e o segundo na 11ª ronda, por 2-0. Os desaires averbados nas 5ª e 6ª jornadas - diante dos seus principais rivais - ditaram praticamente o afastamento dos sportinguistas da luta pelo título, a qual foi quase de forma exclusiva protagonizada pelo CIF e pelo Benfica. Os duelos entre CIF e Benfica - cuja maior estrela era Cosme Damião - neste campeonato terminaram empatados, um a zero golos (na 2ª jornada), e outro a uma bola (na ronda número oito), pese embora a meta tenha sido cortada em primeiro lugar pelos primeiros, com um total de 22 pontos, contra os 20 dos encarnados.

Desta forma o CIF era assim coroado como o primeiro campeão oficial da AFL. Na última jornada do campeonato um facto caricato ocorreu no embate entre Benfica e Sporting, ocorrido no recinto do Lisboa Football Club, o Campo dos Castelos. A tarde futebolística teve início com uma partida das segundas categorias, cujo vencedor foi o Benfica, por 1-0. O público afeto ao Sporting não terá gostado da exibição do árbitro do encontro, queixando-se sobretudo do golo benfiquista, que segundo os leões teria sido apontado em fora de jogo. O ambiente estava incendiado, e mais ficou quando as primeiras categorias subiram ao retângulo de jogo. O Sporting abriu o marcador, mas logo depois o Benfica restabelece a igualdade em mais um lance... irregular, nas vozes leoninas. Estas sublinham uma carga evidente do marcador do golo benfiquista sobre o guarda-redes da casa, Gastão Pinto Basto. O árbitro do encontro, que por sinal era primo do guardião leonino, e que dava pelo nome de Eduardo Luís Pinto Basto, validou o tento, e a multidão em fúria invadiu o terreno de jogo. As cenas que se seguiram foram o que se pode chamar de um intenso combate de boxe (!) entre benfiquistas e sportinguistas. A AFL homologou a igualdade a uma bola, mas a Comissão de Árbitros não concordou, tendo então sido marcado um novo jogo entre ambas as equipas para 18 de julho de 1911, partida essa à qual o Sporting não compareceu, alegando num comunicado que «os benfiquistas não eram dignos de pisar as suas instalações»!

Bom, mas voltando ao campeão, ao CIF, o clube terminou a temporada de 1910/11 com um total de 10 vitórias alcançadas e apenas dois empates consentidos (ante o Benfica, como já vimos), tendo entre o seu grupo de notáveis jogadores destacado-se nomes como Eduardo Luis Pinto Basto, Merik Barley, W. Sissener, Augusto Sabbo, ou Luis Kruss Gomes. CIF que foi digamos que o primeiro grande clube de futebol em Portugal, sobretudo sob o ponto de vista estrutural, servindo de exemplo para muitos outros clubes que iriam nascer nos anos seguintes. Ligado diretamente aos introdutores do futebol em Portugal, os Pinto Basto, o CIF alcançou assim o único título oficial da sua hoje centenária vida, coincidindo com o nascimento de uma AFL que seria a semente para o crescimento do futebol português no plano organizativo. O exemplo organizativo da AFL deu origem a que mais tarde outras associações de futebol nascessem noutras regiões de Portugal que começavam também elas a ver os seus grupos futebolísticos darem os primeiros pontapés na bola de forma mais séria.

A figura: Eduardo Luís Pinto Basto

Oriundo da família responsável pela introdução do futebol em Portugal Eduardo Luís Pinto Basto foi para muitos a grande figura do primeiro campeonato oficial da AFL. Filho do pai do futebol português, Guilherme Pinto Basto, o homem que em 1884 trouxe de Inglaterra a primeira bola, e que em 1888 organizou o primeiro jogo - facto já mencionado pelo Museu Virtual do Futebol - Eduardo Luís Pinto Basto herdou do seu progenitor a paixão pelo desporto, e pelo futebol muito em particular. Além de jogador, foi árbitro, e dirigente, tendo sido um dos rostos da fundação do CIF. À semelhança do seu pai estudou em Inglaterra, onde teve contato com o belo jogo, e chegado a Portugal colocaria em prática esses conhecimentos, contribuindo e muito para o crescimento do futebol luso. O seu pai, Guilherme Pinto Basto, deu-nos a conhecer o jogo em finais do século XIX, ao passo que Eduardo ajudou a cimentá-lo nos inícios do século XX não só com a organização de jogos e torneios, mas também ao nível da própria estruturação deste fenómeno. Como jogador destingiu-se sobretudo na baliza, tal como o seu pai - mais um ponto em comum entre ambos -, tendo sido um dos primeiros grandes keepers lusos, brilhando com as cores do seu CIF, clube que ajudou a fundar juntamente com nomes sonantes da época como Carlos Villar, ou Joaquim Costa. CIF que foi o primeiro clube português a jogar além-fronteiras, facto ocorrido em 1907, quando os lisboetas foram à capital espanhola bater o Madrid FC - antecessor do Real Madrid - por 2-0. Eduardo Luís Pinto Basto estava na baliza. E na baliza estaria também em 1911 aquando da primeira visita de um clube estrangeiro a Portugal, no caso os franceses do Stade Bordelais, que enfrentaram em Lisboa além do CIF de Pinto Basto, o Benfica e uma seleção da AFL, que na baliza tinha... Eduardo Luíz Pinto Basto. AFL onde esta figura se distinguiu, quer como dirigente, quer como árbitro, tendo sido um dos juízes mais conceituados da época.
Nasceu a 6 de junho de 1886, precisamente dois anos antes do seu pai ter organizado o tal primeiro jogo de futebol em Portugal, nos terrenos da Parada, em Cascais. Faleceu em 1955.  

Números finais do primeiro Campeonato (oficial) de Lisboa 

1-CIF: 22 pontos
2-Benfica: 20 pontos
3-Sporting: 14 pontos
4-Campo de Ourique: 10 pontos
5-Império: 8 pontos
6-União Belenense: 6 pontos
7-Lisboa FC: 4 pontos

Resultados mais dilatados

Benfica - Lisboa FC: 15-0
Sporting - Lisboa FC: 14-0
CIF - Lisboa FC: 12-3
Campo de Ourique - CIF: 0-11

Legenda das fotografias:
1-Clube Internacional de Futebol, o popular CIF, o primeiro campeão da Associação de Futebol de Lisboa (AFL)
2-O notável dirigente desportivo Januário Barreto
3-Um dos primeiros escudos da AFL
4-Cosme Damião, a estrela do Benfica
5-Os irmãos Catatau
6-Jogo entre CIF e Sporting
7-Cosme Damião em ação contra o Império
8-Equipa do Benfica, vice campeã regional de 1911
9-Eduardo Luís Pinto Basto
10-Francisco dos Santos, uma das estrelas do primeiro campeonato da AFL

sexta-feira, outubro 12, 2012

Histórias do Futebol em Portugal (8)... O primeiro rugido do leão!

O sucesso angariado pela 1ª edição do Campeonato de Portugal (21/22) fez com que na temporada seguinte o certame fosse desejado por mais associações regionais, as quais pretendiam ver os seus respetivos campeões lutar pela coroa de rei do futebol português. E em 1922/23 foram 6 as associações inscritas no Campeonato de Portugal dessa temporada, nomeadamente as do Porto, Lisboa, Braga, Coimbra, Funchal, e Algarve. Recorde-se que na edição de estreia da competição apenas Lisboa e Porto aceitaram o desafio da União Portuguesa de Futebol (UPF) para dar o pontapé de saída no Campeonato de Portugal, o qual viria a ser arrecadado pelo FC Porto... à custa de um Sporting que em 22/23 viria a conhecer o seu primeiro momento de glória nesta prova. Mas já lá vamos.
Contrariamente ao sucedido em 21/22, em que apenas foi disputada a final entre os campeões regionais de Lisboa e Porto, respetivamente, Sporting e FC Porto, o Campeonato de Portugal de 22/23 conheceu pela primeira vez na sua então curta história de vida algumas eliminatórias antes do desafio final, devido, claro está, ao aumento do número de participantes. Coincidências ou não o que é certo é que os dois finalistas da temporada anterior, e principais favoritos à conquista do ceptro, foram poupados às eliminatórias iniciais!
Sporting de Braga e Académica de Coimbra, respetivamente os campeões das associações de Braga e de Coimbra, mediram forças no Campo do Bessa, no Porto, a 3 de junho de 1923, em jogo alusivo à 1ª eliminatória, tendo os estudantes levado a melhor sobre os seus oponentes, conforme comprova o resultado de 2-1 a seu favor.
Triunfo que permitiu à Académica subir mais um degrau na competição, enquanto que os bracarenses diziam adeus ao sonho de vencer o título. Na ronda seguinte os campeões de Coimbra enfrentaram os campeões do Algarve, o Lusitano de Vila Real de Santo António, um duelo que iria definir o quarto e último semi-finalista da competição, fase onde por isenção já estavam classificados FC Porto, Marítimo, e Sporting. E novamente pela margem mínima - desta feita por 3-2 - os academistas voltariam a fazer mais uma vez a festa, desta vez no Campo Grande, em Lisboa, já que por decisão da UPF todas as eliminatórias da 2ª edição do Campeonato de Portugal - incluindo a final - seriam discutidas num único jogo, realizado em campo neutro. E chegavamos assim às meias-finais, já com os peso pesados do futebol lusitano em ação.

Casapiano Cândido de Oliveira torna-se leão na final antecipada

Fase essa onde os caprichos do sorteio ditaram um confronto entre os dois finalistas da temporada anterior, FC Porto e Sporting, duelo que desde logo seria rotulado como a final antecipada da competição. Coimbra seria então o palco escolhido para acolher o desafio marcado para o dia 17 de junho desse longínquo ano de 1923. As equipas foram recebidas em ambiente de festa, ou não estivessem numa localidade que vivia - e vive - permanentemente numa atmosfera festiva, graças aos rituais estudantis que dão um colorido diferente à bela cidade beijada pelo (rio) Mondego.
Sob os comandos técnicos do engenheiro luso-alemão Augusto Sabbo o Sporting chegava a esta meia final empolgado com a recente vitória obtida no Campeonato Regional de Lisboa sobre o Casa Pia, por 2-0. Pintada em tons de verde e azul Coimbra foi invadida por largas centenas de adeptos das duas equipas, que lotavam as ruas e cafés da cidade nas horas que antecederam o esperado duelo. Leões que para esta meia final receberam o apoio de alguém que naquela época era já uma pessoa muito especial no futebol português, nada mais nada menos do que Cândido de Oliveira, um dos grandes - senão mesmo o principal - impulsionadores da modalidade em solo lusitano, e que na altura desempenhava as funções de capitão do Casa Pia, o emblema derrotado pelo Sporting na final do Campeonato de Lisboa. Cândido de Oliveira demonstrou não só todo o seu apoio aos vizinhos lisboetas rumo à conquista do Campeonato de Portugal de 1923, como também se disponibilizou para servir de massagista aos jogadores leoninos na meia final diante do campeão da Associação de Futebol do Porto. Solidariedade de vizinhos, por certo! Massajados por Cândido os sportinguistas entraram no Campo dos Bentos dispostos a vingar a derrota da época anterior, e cedo deram mostras disso, na sequência de inúmeras incursões à baliza do portista Lino Moreira. Encostados às cordas os jogadores do FC Porto pouco mais faziam do que ver o seu adversário interpretar de forma magistral o jogo, acabando o minuto 23 por trazer justiça ao que vinha acontecendo no campo de batalha, altura em que João Francisco colocou os leões na frente. Na 2ª parte houve mais do mesmo, o Sporting continuou a dominar o inofensivo rival do norte, e coroando uma exibição soberba o capitão leonino, Francisco Stromp, marcou por duas vezes (aos minutos 56 e 72) e selou o resultado final em 3-0. Score expressivo que até poderia ter sido maior, segundo rezam as crónicas da época, uma vez que o árbitro do encontro, o inglês Rudolf Todd, poupou os portistas de uma humilhação bem maior, ao invalidar dois golos limpos aos sportinguistas por alegados fora de jogo, e perdoando duas grandes penalidades aos campeões da Invicta, sendo que numa delas chamou mesmo o capitão azul e branco, Alexandre Call, aconselhando-o a dizer aos seus companheiros que não cometessem... mais grandes penalidades. Ribeiro dos Reis, outro nome grande do futebol português, que esteve presente no encontro de Coimbra na qualidade de representante da UPF, confessou que ouviu posteriormente o árbitro dizer que perdoou duas grandes penalidades nítidas contra o FC Porto, castigos esses que não havia assinalado porque... era mais bonito ganhar assim!
Na outra meia final a Académica continuava a sua marcha triunfal na prova, e de novo em Lisboa, nesta ocasião no Campo da Palhavã, derrotou o Marítimo por 2-1, graças a dois remates vitoriosos de José Afonso e José Neto.

Viagem caricata termina com o título de campeão em dia de S. João

Sporting e Académica, os guerreiros que iriam lutar entre si pelo título de campeão de Portugal, cuja grande final seria agendada para Faro, localidade situada bem no sul do país... e de difícil alcance! Eram evidentes as lacunas ao nível das vias de comunicação que Portugal possuía por aqueles dias, e chegar desde os grandes centros urbanos situados no litoral até locais como Faro era o "cabo dos trabalhos", uma verdadeira aventura, como comprovam as viagens efetuadas pelas comitivas da Académica e do Sporting. A deslocação dos leões demorou 12 horas!!! Uma eternidade, de facto. Em crónica da época Júlio de Araújo conta os detalhes da caricata e longa viagem do Sporting desde Lisboa até Faro. «No barreiro tomamos a zorra (comboio) do Algarve, que se permite o luxo de carruagens de 1ª classe, sem luz e com insectos vários, cuja presença nos esperta de quando em vez para não esmorecer a cavaqueira. A União (Portuguesa de Futebol), numa possível boa intenção, marcou lugares à razão de 1$80, marcação que um amável revisor informou não ter importância de maior, quando outros sem terem pago os tais 1$80 se apossam dos lugares. A nossa carruagem foi finalmente invadida pelos malteses (adeptos), que de armas, bagagens, cestos e cestinhos sem instalaram tão comodamente, que receámos a morte por asfixia, cheiro a próximo e a queijos quem um deles transportava num cesto». Aventuras e desventuras vividas ao longo de 12 horas, como já foi dito, acabando - por fim - a comitiva leonina por chegar a Faro ao som de morteiros e foguetes - era dia de S. João - com 4 horas de atraso. A comitiva da Académica viveu situação idêntica, acabando por chegar à capital do Algarve quando faltavam apenas 6 horas para o início da grande final. Isto porque era dia de S. João, e foliões como eram, os jogadores estudantes da Académica aproveitavam as longas paragens do comboio nas estações para dar um pézinho de dança nos bailes que "aqui e ali" se desenrolavam! Folia academista que se resumiu apenas aos bailaricos, pois no campo de batalha, isto é, no retângulo de jogo, quem dançou e fez a festa foram os jogadores do Sporting. Sob a arbitragem do farense Eduardo Vieira os sportinguistas venceram com relativa facilidade uma Académica que mesmo tendo dado uma boa réplica não teve armas suficientes para contrariar a supremacia da equipa lisboeta, a qual com 25 minutos de jogo vencia já por 2-0. O primeiro tento surgiu aos 12 minutos, por intermédio do capitão Francisco Stromp, num pontapé forte após passe de Carlos Fernandes. Isto, depois do guarda redes academista, João Ferreira, ter efetuado um bom naipe de espantosas defesas que evitaram que o marcador tivesse sido inaugurado mais cedo. Seis minutos volvidos, na conversão de uma grande penalidade, Joaquim Ferreira faria o 2-0 com que se atingiu o intervalo. Antes da saída para o descanso os leões viram o azar bater-lhes à porta, quando à passagem da meia hora Francisco Stromp abandonou forçosamente o recinto de jogo devido a uma lesão. Na segunda etapa o encontro arrefeceu, poucas ocasiões dignas de sublinhado foram registadas, sendo a exceção o terceiro golo do Sporting, da autoria de Carlos Fernandes, quando estavam decorridos 53 minutos, e de novo na sequência de uma grande penalidade. 3-0, resultado final de uma partida dominada por completo por um enorme Sporting, que até podia ter saído de Faro com uma vitória mais gorda, não fosse a tarde de desatino de Jaime Gonçalves, que desperdiçaria uma série de golos... feitos. Mas pouco interessava, o Sporting havia vencido, e desta forma conquistado o seu primeiro título de campeão de Portugal, o primeiro título nacional conquistado pelos leões, que até então registavam no seu palmarés 4 títulos de campeões regionais de Lisboa.
Naturalmente que depois do jogo houve festa. O jantar juntaria as comitivas das dois clubes finalistas, num espírito de salutar convívio e camaradagem. Os leões ofereceriam uma taça de champanhe aos atletas vencidos, e na resposta o capitão da Académica, Ribeiro da Costa, faria um brinde aos novos campeões de Portugal, felicitando-os pelo triunfo, lembrando depois que o seu clube não se dedicava única e exclusivamente à prática do desporto, apontando a leitura e a adoração ao Deus Baco eram as prioridades dos estudantes de Coimbra! Francisco Stromp agradeceu e em seguida abriu uma sessão de desgarrada que se iria prolongar pela noite dentro.

A figura: Jorge Vieira

É profundamente discutível opinar sobre quem terá sido a grande figura do primeiro título nacional obtido pelo Sporting. Os leões possuíam no seu grupo atletas de notável qualidade, casos do guarda-redes Cipriano dos Santos, Joaquim Ferreira, Portela, João Francisco, Jorge Vieira, ou o lendário capitão Francisco Stromp, jogadores que formavam um grupo muito forte e coeso, como se verificou no trajeto vitorioso leonino neste Campeonato de Portugal de 22/23. O grupo foi mesmo a chave do sucesso, podemos dizer. Mas dentro deste grupo existia quanto a nós um homem que se impunha não só pela sua habilidade na condução do esférico mas sobretudo pelo carisma, e pela forma com que cedo se implantou na equipa principal do Sporting. Falamos de Jorge Vieira, o defesa esquerdo daquele célebre grupo, uma figura nascida em Lisboa nos finais do século XIX (1898) e que aos 16 anos era já titular absoluto da primeira equipa dos leões! O amor pelo Sporting teve início bem cedo, quando aos 9 anos de idade, e pela mão do seu irmão, se deslocou a pé desde Dafundo (zona de Lisboa onde vivia) até ao Campo da Quinta Nova para assistir a um pomposo Sporting - Sport Lisboa (um dos clubes que mais tarde daria origem ao Sport Lisboa e Benfica).
Em 1911 Jorge Vieira vestiu pela primeira vez a camisola do seu amado clube, num encontro de terceiras categorias. O estalar da I Guerra Mundial abriu-lhe as portas da primeira equipa, quando foi chamado a substituir o titular do lugar de defesa esquerdo, o inglês Sander, um engenheiro de telecomunicações que foi forçado a abandonar o Sporting para integrar o exercito do seu país no citado conflito bélico. Com apenas 16 anos Jorge Vieira agarrou o lugar, não mais o largando nos 17 anos seguintes! Fez a sua estreia na primeira equipa a 28 de março de 1915, e logo com uma prova de fogo pela frente, já que nesse dia o Sporting enfrentava o Benfica para a decisão final do Campeonato de Lisboa desse ano. 3-1, vitória dos leões, e Jorge Vieira sentia pela primeira vez o gosto de um título conquistado ao serviço do clube do seu coração. Colecionaria mais 6 títulos de campeão regional de Lisboa (em 18/19, 21/22, 22/23, 24/25, 27/28, e 30/31), além do ceptro de campeão de Portugal em 22/23. Fez cerca de 200 jogos com a camisola listada de verde e branco, terminando a sua carreira em 1932.
Mas não só no Sporting a estrela de Jorge Vieira brilhou. A seleção nacional de Portugal também usufruiu do talento do jogador. Ele foi um dos históricos atletas que participou no primeiro jogo internacional da seleção portuguesa, facto (já evocado pelo Museu Virtual do Futebol noutras viagens ao passado) ocorrido a 18 de dezembro de 1921, em Madrid, diante da Espanha, tendo integrado também a equipa nacional que diante da Itália, a 28 de junho de 1925, obteve a primeira vitória para as cores lusitanas, episódio este também já aqui por nós foi recordado. O ponto alto da carreira internacional da carreira de Jorge Vieira aconteceu em 1928, ano em que defendeu as cores de Portugal no torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de Amesterdão, na época a prova futebolística mais importante do planeta ao nível de seleções nacionais.
O conhecimento de Jorge Vieira sobre o jogo era tão vasto que até árbitro de futebol ele foi! E neste campo também a nível internacional ele viveu momentos importantes, como o ocorrido, por exemplo, em outubro de 1921, quando a União Espanhola de Futebol solicita à sua congénere portuguesa a nomeação de um árbitro para dirigir um escaldante Espanha - Bélgica, uma reedição do confronto decorrido um ano antes nos Jogos Olímpicos de Antuérpia, onde os belgas haviam alcançado o título de campeões olímpicos. A UPF aconselhou Jorge Vieira, o qual de pronto aceitou o convite, tendo posteriormente realizado uma exibição condizente com o grau de exigência deste duelo, o mesmo é dizer, que esteve impecável, e a prova disso é que no final do jogo realizado em Bilbao espanhóis e belgas enalteceram a atuação do português, que desta forma se tornava no primeiro árbitro luso internacional. Jorge Vieira viria a falecer a 6 de agosto de 1986.

Nomes e números do Campeonato de Portugal de 1922/23:

1ª eliminatória

Académica - Braga: 2-1

2ª eliminatória

Académica - Lusitano VRSA: 3-2

Meias-finais

Sporting - FC Porto: 3-0

Académica - Marítimo: 2-1

Final

Sporting - Académica: 3-0

24-6-1923, Faro (Santo Estádio)
Árbitro: Eduardo Vieira (Faro)
Marcadores: 1-0 Stromp (12m), 2-0 Ferreira (18m g.p.), 3-0 Ferreira (53m g.p.)
Sporting – Cipriano Nunes; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; José Leandro, Filipe dos Santos e Henrique Portela; Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Francisco Stromp cap, João Francisco e Carlos Fernandes. Treinador: Augusto Sabbo
Académica – João Ferreira; Júlio Ribeiro Costa cap e Francisco Prudêncio; Joaquim Miguel, Teófilo Esquível e António Galante; Guedes Pinto, Armando Batalha, Augusto Paes, Gil Vicente e José Neto.

Legenda das fotografias:
1-A equipa do Sporting que venceu o primeiro título nacional: Em baixo: Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Francisco Stromp, João Francisco Maia, e Carlos Fernandes. No meio: José Leandro, Filipe dos Santos e Henrique Portela. Em cima: Joaquim Ferreira, Cipriano dos Santos e Jorge Vieira
2-Cândido de Oliveira, o grande mestre o futebol português, na altura capitão do Casa Pia, e que na meia final diante do FC Porto desempenhou funções de... massagista do Sporting.
3-O lendário capitão leonino Francisco Stromp
4-Jorge Vieira, um dos maiores símbolos da história do Sporting...
5-... que em outubro de 1921 arbitrou um Espanha - Bélgica, tornando-se assim no primeiro árbitro português internacional