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segunda-feira, janeiro 07, 2013

Histórias do Futebol em Portugal (10)... Em memória de Velez Carneiro

Depois de duas temporadas consecutivas a morar no sul do país o título mais importante do futebol português dos anos 20 e 30 do século XX voltou ao norte, na época de 1924/25. E fê-lo pela mão do emblema mais titulado desta região, o Futebol Clube do Porto, que desta forma enriquecia as suas vitrinas com a sua segunda coroa de campeão de Portugal. Tratou-se de uma conquista muito especial, deveras emotiva, já que na cabeça - e sobretudo no coração - dos jogadores portistas estava gravado o nome de um querido e valoroso companheiro de luta, morto dias antes do início da caminhada triunfal naquela que era já a competição mais popular do futebol lusitano. Velez Carneiro, talentoso atleta do FC Porto que viu a morte bater demasiado cedo à sua porta, na sequência de um ajuste de contas fatal ante um marido atraiçoado...Tragédia ocorrida a 18 de maio desse longínquo ano de 1925, quase duas semanas antes da realização (31 de maio) da 1ª ronda de uma prova alargada a 11 associações de futebol, nomeadamente Porto, Lisboa, Viana do Castelo, Braga, Coimbra, Portalegre, Funchal, Algarve, Aveiro, Santarém, e Beja, estas três últimas a fazerem a sua estreia nestas andanças.

No entanto, e em cima do tiro de partida para a corrida ao título os representantes das associações de Santarém e Beja, respetivamente Leões de Santarém e Luso Beja, desistiram da competição, facto que possibilitou ao campeão de Lisboa, o Sporting, avançar imediatamente para as meias-finais, ficando isento das duas primeiras eliminatórias! 
Os restantes campeões regionais - à exceção de FC Porto e Marítimo - entraram então em campo no dia 31, sendo que no Campo do Raio, em Braga, o Sporting local era surpreendido pelos vizinhos minhotos do Vianense por 1-2, com os heróis de Viana do Castelo a darem pelos nomes de Lobo (fez o 0-1), e Gomes (apontou o 1-2).

Em Aveiro, no Campo de S. Domingos, o campeão do distrito, o Sporting de Espinho, sentia algumas dificuldades para derrotar os vice-campeões de Portugal da temporada de 22/23, a Académica de Coimbra. Os estudantes adiantaram-se no marcador por intermédio de Juvenal, tendo a primeira reação dos tigres da Costa Verde surgido dos pés de Simplício, que de grande penalidade repôs a igualdade. O tento da vitória espinhense foi apontado por António Rodrigues.

Massacre foi aquilo que os campeões em título, o Olhanense, fizeram ao Alentejo Football Clube, o campeão regional de Portalegre. No Campo da Padinha, em Olhão, os pupilos de Júlio Costa esmagaram por completo o combinado alentejano por 11-2!!! Destaque para José Gralho, autor de 6 dos 11 tentos dos algarvios.

Futuro campeão entra em ação

A prova conheceu o seu segundo capítulo no dia 7 de junho, com a realização da 2ª eliminatória. No Campo do Covelo, no Porto, a equipa local batia-se com o Vianense para discutir o acesso às meias finais. Portistas que se apresentavam com um novo treinador, o húngaro Akos Tezler, uma aposta pessoal do presidente azul e branco da altura, Domingos Almeida Soares, para substituir o francês Adolphe Cassaigne, o homem que, recorde-se, havia conduzido os rapazes da Invicta ao título de campeão de Portugal três anos antes.

Diga-se que a contratação do treinador húngaro foi bastante controversa, já que o seu ordenado de 1000 escudos por mês era para muitos dirigentes e adeptos uma autêntica heresia (!), pois convém não esquecer que o profissionalismo no futebol era algo de absurdo naquele tempo. Pois bem, o que é certo é que esta se revelaria uma aposta ganha do presidente portista, como mais à frente iremos ver.

E o primeiro obstáculo ultrapassado foi pois o Vianense, que no Covelo perdeu por 1-4, tendo os golos do FC Porto sido apontados por Balbino da Silva e Flávio Laranjeira, com dois golos cada um na sua conta pessoal. 
Em Lisboa, no Campo Grande, o Olhanense deu mais uma prova do seu valor, da genialidade dos seus jogadores, ao vencer o Marítimo por 4-2, com Gralho a apontar mais dois golos, ele que haveria de ser o rei dos goleadores desta edição do Campeonato de Portugal, com 8 remates certeiros.

Meia final polémica

Olhanense que haveria de ser afastado da prova na ronda seguinte, isto é, nas meias-finais, pelo Sporting. Um afastamento inglório, e deveras polémico. No Campo Grande o árbitro Mário Simões, da Associação de Futebol do Funchal, foi a figura do encontro, ao levar o leão ao colo até à final! Quiçá querendo fazer justiça pela eliminação dos seus conterrâneos do Marítimo aos pés dos talentosos jogadores de Olhão Mário Simões inventou uma grande penalidade inexistente a favor do Sporting em cima do minuto 90! Na conversão o treinador-jogador Filipe dos Santos fez o único golo da partida, um golo que ficaria eternamente conhecido como o... "golo sombra". No final do jogo os sportinguistas saíram do campo debaixo de uma chuva de... assobios, tendo posteriormente o capitão leonino, Jorge Vieira, vindo a público pedir desculpas ao Olhanense pelo... erro do árbitro! Outros tempos, tempos em que futebol era tratado com cavalheirismo.

Nesse mesmo dia 21 de junho, e de novo no Covelo (recinto do vizinho Salgueiros), o FC Porto repetia, ante o Espinho, o resultado aplicado ao Vianense na eliminatória anterior, ou seja, 4-1, com Flávio Laranjeira a fazer de novo o gosto ao pé em duas ocasiões, gesto imitado pelo seu companheiro de equipa Norman Hall.
O FC Porto de Tezler era uma equipa que praticava um futebol-espetáculo, algo que começava a encantar os adeptos dos dragões, os quais pareciam cada vez mais esquecerem-se do ordenado milionário que o técnico húngaro auferia na Invicta.

Repetição da final de 1922... com igual desfecho

Assim sendo FC Porto e Sporting voltavam a encontrar-se na final do campeonato, depois de terem medido forças pela primeira vez em 1922, na edição estreia da competição. Mas a disputa do ceptro nacional de 1925 começou muito antes dos jogadores entrarem em campo. Ambos os clubes gladiaram-se pelo local da final, sendo que os lisboetas queriam que o jogo decisivo fosse jogado ou em Santarém, ou em Coimbra, ao que os portistas responderam que só jogariam em Viana do Castelo! Por decisão da União Portuguesa de Futebol (UPF) venceram os azuis e brancos, isto quando faltavam apenas seis dias para o pontapé de saída do grande jogo!

Mas muito ainda havia para fazer, até porque o Campo de Monserrate não reunia as condições necessárias para acolher um duelo daquela importância. Foi então que numa ação relâmpago se fizeram obras de melhoramento do recinto, desde bancadas, passando por tribunas centrais, e até camarotes (!), tudo pelo astronómico valor - para aqueles dias - de 12 contos de réis!
Tudo pronto no dia da final (28 de junho), sendo que dos 5000 lugares disponíveis em Monserrate 3000 eram preenchidos pelos adeptos do FC Porto. Da Cidade Invicta viajaram dezenas de automóveis, e a CP disponibilizou dois comboios especiais que partiram da Estação de S. Bento (no Porto) apinhados de entusiastas portistas. De Lisboa não viajaram mais do que centena e meia de adeptos em auxílio dos leões. Como se não bastasse as opiniões distintas em relação ao local da final, FC Porto e Sporting também discordaram em relação à nomeação do árbitro. Não querendo mais confusões a UPF decidiu nomear um juiz... galego, de seu nome Rafael Nuñez.

E foi pois num autêntico caldeirão azul e branco que se desenrolou o encontro, que teve na equipa nortenha a mais determinada em chegar ao triunfo. Com Velez Carneiro no pensamento os portistas queriam ganhar e dedicar assim o título de campeão ao recém desaparecido companheiro, e nesse sentido partiram com tudo para cima dos lisboetas desde o apito inicial do galego Nuñez. Sem espanto chegariam pois à vantagem aos 14 minutos por intermédio do capitão Hall após uma boa jogada de combinação com João Nunes. Do lado dos portistas destaque igualmente para a exibição do seu guarda-redes, o também húngaro Mihaly Siska, que numa época em que o profissionalismo era proibido chegava ao Porto para desempenhar a função de... mecânico dentista numa empresa de vinhos! Mais uma mentira piedosa do presidente do clube Domingos Almeida Soares, quando confrontado pelos seus pares de Direção dos rumores de que Siska - oriundo do Vasas de Budapeste - vinha para o clube ganhar um ordenado milionário. Soares retorquiu que não, que viera para Portugal para ser mecânico dentista, e que o clube não iria pagar um tostão àquele que mais tarde viria a ser considerado o primeiro grande guarda-redes do futebol português.

Voltando ao jogo da final para dizer que o Sporting ainda reagiu na etapa complementar. Aos 50 minutos Jaime Gonçalves empatou a contenda, mas a tarde era azul e branca. Nove minutos depois Rafael Nuñez assinalou grande penalidade contra os lisboetas, por uma alegada mão na bola de Martinho de Oliveira. Os leões protestaram ferozmente, mas de nada lhes valeu tal manifestação, pois Coelho Costa atirou o esférico para o fundo das redes de Cipriano Nunes. Estava feito o resultado final, 2-1, e tal como em 1922 o FC Porto vencia o Sporting e sagrava-se campeão de Portugal.
Festa rija estalou de imediato em Viana do Castelo, prolongando-se nas horas seguintes ao Porto, enquanto que em Lisboa reinava a... revolta.

O consagrado jornalista Ricardo Ornelas, do jornal Sport de Lisboa, escrevia o seguinte: «A vitória portuense foi merecida porque o FC Porto jogou efetivamente melhor que o representante de Lisboa e porque, a par dessa superioridade técnica, lutou pela vitória com entusiasmo e com alma, e demonstrou, a cada momento da partida, perfeita compenetração do encargo que lhe cabia pela representação da sua cidade. O Sporting, pelo contrário, jogou sem convicção. Saiu do campo vencido por factos que devia desprezar ou esquecer. Inferiorizou-se, deixando-se dominar por factores que lhe deviam dar coragem e ânimo. Preocupou-se com o público, potuense na maioria; influenciou-se com a alma dos adversários e desmoralizou-se com os erros do árbitro...», juiz galego cujo desempenho Ornelas descreveu como «simplesmente bárbaro», numa alusão clara à grande penalidade que originou o golo da vitória portista, castigo máximo que para os leões não teve razão de existir.

Como prémio de vitória os jogadores do FC Porto receberam máquinas Gillete de ouro, oferecidas pela empresa lisboeta (!) João Machado da Conceição e Companhia Lda, representantes da mundialmente afamada fábrica Gillete de Nova Iorque.

A figura: Velez Carneiro

Não jogou um único minuto durante a caminhada triunfal no Campeonato de Portugal de 24/25, é certo, mas foi tão campeão quanto os seus companheiros. Velez Carneiro foi impedido de conquistar o seu segundo título de campeão de Portugal por um marido atraiçoado, que na noite de 18 de maio de 1925 matou o valoroso atleta com um tiro na cabeça.

Velez Carneiro nasceu em 1898, e começou o seu percurso futebolístico ao serviço do Sporting de Espinho, clube pelo qual se fez a sua estreia diante do... FC Porto, o seu futuro clube. Ingressou no emblema portuense em 1920, fazendo parte do conjunto que obteve a primeira vitória da história (3-2) sobre o Benfica. Médio ofensivo de gabadas qualidades técnico-táticas Velez Carneiro atingiu o ponto alto ao serviço dos dragões em 1922, altura em que ajudou a equipa a vencer o primeiro Campeonato de Portugal da história. E quando se preparava para arrecadar o seu segundo ceptro nacional foi... morto a tiro. Naquela trágica noite de 18 de maio o jovem jogador de 27 anos conversava com alguns amigos junto a uma das portas do Café Chave d' Ouro. Dele se abeirou posteriormente um individuo com cara de poucos amigos, que ao ouvido lhe disse qualquer coisa que mais ninguém terá escutado.

Velez avisou os amigos que voltava dali a nada, e partiu pelos Congregados abaixo junto do tal sujeito. Os poucos que testemunharam tal crime terão visto dois homens a discutir vivamente debaixo de um lampião na Travessa dos Congregados, ao que se seguiram alguns empurrões, socos, pontapés, e por fim um tiro, uma bala que atingiu mortalmente - na cabeça - o talentoso futebolista. O assassino era Carmindo Ferreira Duarte, escriturário na empresa Minho e Douro, e ao que parece um marido traído pelos dotes extra futebolísticos de Velez!

O funeral do futebolista (ocorrido no dia 22 de maio) foi imponente, ou não fosse ele um dos ídolos do clube. O Jornal de Notícias desse dia escrevia: «Muito antes da hora marcada para a saída do féretro já o Campo de Jogos da Constituição regurgitava de pessoas. Depois de dar a volta ao campo, o féretro, conduzido pelos jogadores do team de que o finado fazia parte, foi colocado ao centro do campo, mantendo-se o público em silêncio durante cinco minutos, que foram observados religiosamente. Findo este recolhimento que impressionou, a Direcção do F. C. Porto procedeu à colocação da bandeira do seu clube sobre o féretro. O capitão da equipa, Hall, conduzia sobre uma almofada de cetim preto as medalhas oferecidas ao falecido jogador.»

Resultados

1ª Eliminatória

Sp. Braga - Vianense: 1-2

Sp. Espinho - Académica: 2-1

Olhanense - Alentejo FC: 11-2

2ª Eliminatória

FC Porto - Vianense: 4-1

Olhanense - Marítimo: 4-2

Meias-finais

FC Porto - Sp. Espinho: 4-1

Sporting - Olhanense: 1-0

Final

FC Porto - Sporting: 2-1

Data: 28 de junho de 1925

Estádio: Campo de Monserrate, em Viana do Castelo

Árbitro: Rafael Nuñez (Galiza)

FC Porto: Miguel Siska; Júlio Cardoso, Pedro Temudo; Humberto, Coelho da Costa, Floreano Pereira; Augusto Freire, Balbino da Silva, Flávio Laranjeira, Norman Hall, e João Nunes. Treinador: Akos Tezler

Sporting: Cipriano Nunes; Joaquim Ferreira, Jorge Vieira; José Leandro, Filipe dos Santos, Martinho de Oliveira; Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Henrique Portela, João Francisco, e Emílio Ramos. Treinador: Filipe dos Santos

Golos: 1-0 (Hall, aos 14m), 1-1 (Jaime Gonçalves, aos 50m); 2-1 (Coelho da Costa, aos 59m)

Legenda das fotografias:
1-Equipa do FC Porto vencedora do Campeonato de Portugal de 24/25
2-Balbino da Silva, autor de dois golos ante o Vianense na 2ª eliminatória
3-Lance do polémico jogo Sporting - Olhanense
4-Outro lance, desta feita da grande final
5-Velez Carneiro

sexta-feira, novembro 23, 2012

Histórias do Futebol em Portugal (9)... David vence Golias

A lendária expressão David contra Golias pairou sobre a 3ª edição do Campeonato de Portugal, disputado na temporada de 1923/24. E tal como na mitológica lenda o pequeno David venceu o gigante Golias, nascendo aqui uma tradição que teria muitos outros capítulos tanto no Campeonato de Portugal como na prova que lhe viria a suceder, a Taça de Portugal, onde as vitórias dos pequenos sobre os grandes clubes eram - e continua a ser - rotuladas de um triunfo de David contra Golias.
E o primeiro David do futebol lusitano veio do Algarve, mais precisamente da cidade de Olhão, o berço do popular Olhanense, que nessa longínqua primavera de 24 alcançou o maior feito dos seus 100 anos de vida - festejados precisamente neste ano de 2012 -, o título de campeão de Portugal.
Na edição de 1923/24 do Campeonato de Portugal ficou bem patente a descentralização do futebol português, isto é, mais associações - Porto e Lisboa eram as associações de maior peso - envolveram-se na luta pela conquista do ceptro futebolístico de maior prestígio do país. Entre as associações que faziam a sua estreia estavam as de Santarém, Portalegre, e Viana do Castelo, cujos campeões regionais, respetivamente, Sporting de Tomar, União Portalegrense, e Vianense, se juntavam aos campeões do Porto (FC Porto), Lisboa (Vitória de Setúbal), Coimbra (Académica), Algarve (Olhanense), Funchal (Marítimo), e Braga (Sporting de Braga). Favorito a alcançar a glória? Talvez o FC Porto, poderoso emblema nortenho, recheado de algumas das maiores vedetas do futebol lusitano da época, casos de Tavares Bastos, Norman Hall, Velez Carneiro, Alexandre Cal, entre outros, que dois anos antes haviam ajudado o clube da Cidade Invicta a inaugurar a lista de campeões da jovem competição nacional.
E os portistas confirmariam logo na 1ª eliminatória o teórico favoritismo que sobre si recaía. No tarde de 18 de maio de 1924 o Campo da Constituição, no Porto, encheu-se para presenciar a vitória curta mas justa dos azuis e brancos sobre os estudantes da Académica de Coimbra, por 3-2. Noram Hall e Floreano Ferreira - este último por duas ocasiões - foram os heróis dessa tarde, ao apontar os golos da equipa do norte, que não ganhou para o susto a meio do duelo, altura em que um auto golo de José Mota colocou os academistas a vencer por 2-1. Contudo, o talento dos portistas acabaria por vir ao cima nos instantes finais.
Mais a norte, em Viana do Castelo, houve dérbi minhoto, entre o Vianense e o Braga. Gama seria a grande figura da tarde, já que da sua autoria seriam os dois únicos golos de um encontro que seria ganho pelos vianenses.
O resultado mais desnivelado desta eliminatória inicial seria protagonizado entre duas equipas estreantes. O Sporting de Tomar esmagava em Portalegre o União local por 9-0!
E no derradeiro duelo desta ronda inicial assistiu-se ao início da caminhada triunfal do campeão do Algarve, o Olhanense, neste Campeonato de Portugal de 1923/24. Reunindo um naipe de talentosos jogadores, onde se destacava - claramente - o centro campista Raul Tamanqueiro, os jogadores de Olhão venceram no seu Campo da Padinha o Vitória de Setúbal, o surpreendente campeão de Lisboa - deixando pelo caminho os gigantes do futebol lisboeta Sporting, Benfica e Belenenses -, por 1-0, graças a um tento do capitão Júlio Costa.

Lisboa rendida a Olhão

De forma estranha a União Portuguesa de Futebol decidiu que o embate das meias finais entre Olhanense e Sporting de Tomar haveria de ser disputado em Lisboa, e não na localidade de origem das duas equipas em questão! Tal decisão parece não ter afetado os rapazes de Olhão, que numa autêntica tarde de glória despachariam os seus homólogos de Tomar por expressivos 6-0 (!), deixando rendido ao seu futebol o muito público lisboeta que se deslocou ao Campo Grande para assistir à partida. Belo e Gralho, com três golos cada um na sua conta pessoal, foram os responsáveis da robusta vitória algarvia.
E em Viana do Castelo o FC Porto não ganhou - novamente - para o susto. José Barbosa fez explodir de alegria o Campo de Monserrate, quando colocou o Sport Clube Vianense em vantagem num jogo arbitrado pelo mestre Cândido de Oliveira, que na altura representava, enquanto jogador as cores do Casa Pia. Augusto Freire, verdadeiramente endiabrado, tratou de remar contra a maré, e por duas ocasiões bateu o guardião local Ramiro Pinto, dando assim a volta a um marcador que ficaria selado com o último golo portista, da autoria do luso-inglês Norman Hall.

Marítimo impotente para travar avalanche olhanense

Por caprichos do sorteio o Futebol Clube do Porto apurou-se automaticamente para a final do campeonato após o suado triunfo de Viana do Castelo, sendo que a outra vaga iria ser disputada numa espécie de play-off entre o Olhanense e o campeão da Madeira, o Marítimo, que ficara isento da 1ª eliminatória e da meia final.
Novamente no Campo Grande de Lisboa os campeões da Associação de Futebol do Algarve deram uma nova lição de futebol, de bem jogar, claro está. A sua equipa homogénea e coesa voltou a encantar a multidão, que começava a ficar rendida ao futebol tecnicamente requintado da estrela maior olhanense, Raul Tamanqueiro. Gralho, em duas ocasiões, Belo, Cassiano, e Falcate foram os marcadores dos tentos dos algarvios, que avançavam assim para a grande final, a qual iria ter novamente lugar no anfiteatro do Campo Grande, fazendo com que desta forma a capital portuguesa recebesse pela primeira vez a decisão de um Campeonato de Portugal.

Olhanense confirma favoritismo no encontro final

E eis que chegavámos à célebre tarde de 8 de junho de 1924. O dia da grande final. Uma partida que teve a particularidade de ser presenciada pelo chefe de Estado, o mesmo é dizer o Presidente da República, na época Teixeira Gomes, um algarvio nascido em Portimão amante do desporto - na sua juventude chegou a ser atleta - que "inaugurava" então uma prática que viria a ser comum nas grandes finais do futebol português dos anos e décadas seguintes: a presença da mais alta individualidade da nação no jogo final.
Com as bancadas do Campo Grande bem compostas não foi de admirar que a esmagadora maioria dos adeptos (lisboetas) tomasse partido das cores algarvias, não só pelo encantador futebol que o emblema de Olhão havia praticado ao longo da caminhada até à final, mas sobretudo porque do outro lado estava o rival - para os clubes da capital - do norte, o todo poderoso FC Porto. Portistas que apesar de todo o seu poderio nem eram considerados favoritos a vencer esta final! Como já dissemos, o futebol olhanense maravilhou os críticos da modalidade, que a julgar pelo que haviam visto não tinham dúvidas de que na teoria a balança (da vitória) pendia para os futebolistas algarvios. Teoria que conformaria a prática, pese embora este tenha sido um triunfo de David sobre Golias, pois não podemos sequer comparar a dimensão - e consequente palmarés - que separava os dois clubes.
Arbitrada por Germano de Vasconcelos, de Braga, a final começou da melhor maneira para o "onze" algarvio, que por intermédio de Delfino Graça - outros dos virtuosos jogadores orientados pelo jogador/treinador Júlio Costa - inauguraria o marcador. Emoção e bom futebol de parte a parte foram ingredientes verificados desde o apito incial, e ao quarto de hora os portistas chegariam à igualdade por um dos seus grandes artistas da época, Norman Hall.
Nem dois minutos volvidos e o árbitro bracarense assinalava grande penalidade a favor do FC Porto, a qual seria convertida em golo por Tavares Bastos.
Contudo, estavamos ainda muito longe do términus do encontro, e muita água ainda havia de rolar debaixo da ponte, ou melhor, a magia dos jogadores de Olhão ainda estava por aparecer. Colocada em campo essa magia havia de dar frutos ainda antes do intervalo quando Raul Tamanqueiro converte uma grande penalidade e coloca novamente tudo em pé de igualdade. Este seria o único golo apontado por Tamanqueiro durante esta campanha vitoriosa, um tento que premiava a fenomenal performance ao longo de toda a prova da estrela de Olhão, que para não variar foi o melhor jogador em campo na final do Campo Grande.
E após o intervalo só deu Olhanense. A superioridade dos algarvios foi por demais evidente, controlando de fio a pavio o encontro. Com naturalidade surgiu o 3-2 (da autoria de Gralho, que desta forma se tornava no melhor marcador da equipa, com seis golos), e o 4-2 (por intermédio de Belo). E mais poderiam ter sido, não fosse a excelente exibição do guarda redes portista Borges Avelar.
Após o apito final de Germano de Vasconcelos a festa estalou, do relvado às bancadas a alegria era imensa, o Olhanense acabava de se sagrar campeão de Portugal, David tinha vencido Golias.
Depois do encontro o Presidente da República mandou chamar ao seu camarote todos os jogadores e os árbitros, a todos apertando a mão, ao mesmo tempo que os felicitava, em especial ao astro Raul Tamanqueiro, a quem dirigiu palavras particulares de felicitação.

A figura: Raul Tamanqueiro

Ele foi um dos primeiros génios do então jovem futebol lusitano. Virtuoso médio, com uma genialidade criativa e uma rapidez fora do comum (dizem que era capaz de fintar a própria sombra) ele foi a figura principal do título olhanense de 1924. Raul Soares Figueiredo, o seu nome de batismo, Tamanqueiro (a alcunha que derivava do facto do seu pai trabalhar o ofício de sapateiro) se imortalizou nos campos de futebol que pisou.
Nasceu em 22 de janeiro de 1903, em Lisboa, no bairro de Campo de Ourique. No entanto, seria em terras setubalenses que daria os primeiros pontapés na bola, chamando de imediato à atenção de diversas figuras ligadas ao futebol daquela época. Uma dessas figuras foi Cândido Ventura, mítico presidente do Olhanense, que não sossegou enquanto não levou aquela "pérola" para o seu clube. Fez a estreia pelo emblema de Olhão a 16 de agosto de 1922, diante do Lusitano de Vila Real de Santo António, num encontro a contar para a Taça Nossa Senhora dos Mártires, em Castro Marim. Diz quem o viu jogar que era um jogador versátil e bastante ágil, e que mesmo sendo de estatura baixa era um excelente cabeceador.
Num tempo em que o futebol não era profissional, pelo menos oficialmente, pois muitos dos jogadores da época recebiam, às escondidas, claro está, ordenados para defender as cores "desde" ou "daquele" clube, Raul Tamanqueiro ganhava a vida como vendedor de peixe nas ruas de Olhão. No Olhanense esteve durante quatro temporadas, e além do Campeonato de Portugal de 1924 venceu ainda dois campeonatos regionais do Algarve, em 23/24, e 25/26.
A sua inolvidável performance no Campeonato de Portugal de 1924 fizeram-no chegar à seleção nacional no ano seguinte, tendo vestido pela primeira vez a camisola das quinas a 17 de maio desse ano, num jogo realizado em Lisboa ante a Espanha (derrota por 0-2).
A sua condição de grande artista da bola em meados dos anos 20 fizeram o Benfica assegurar no verão desse ano de 1925 a sua contratação. Em Lisboa, Tamanqueiro esteve três temporadas, recebendo secretamente dinheiro para jogar, ao mesmo tempo em que era... taxista. E seria no final da terceira temporada - 1927/28 - ao serviço do clube lisboeta que Raul Tamanqueiro iria viver um dos momentos mais importantes e marcantes da sua carreira. O selecionador nacional da altura, o mestre Cândido de Oliveira, chamou-o para representar Portugal no torneio mais importante do Mundo da época, os Jogos Olímpicos. Em Amesterdão, ao lado de lendas como Pepe, Jorge Vieira, Carlos Alves, Vítor Silva, Valdemar Mota, ou António Roquete, seria um dos responsáveis pela magnífica campanha lusitana, que terminou de forma inglória nos quartos de final aos pés do Egito.
Tamanqueiro vestiu por 17 ocasiões a camisola da seleção portuguesa, fazendo-o pela última vez a 23 de fevereiro no Porto, numa vitória (2-0) diante da França.
As saudades do Algarve fizeram-no nesse memorável ano de 1928 voltar para o Olhanense, clube onde jogaria até 1933. Pelo meio ainda deu um salto a Espanha, a Huelva mais precisamente, onde atuou como jogador/treinador do Recreativo. Pendurou as chuteiras em 1933/34, época em que se mudou para o Porto, onde viria a representar o Académico. Depois disso ainda foi treinador de Braga, e de União de Coimbra.
Morreu prematuramente aos 38 anos, de doença incurável, dizem.
O seu filho, Raul Figueiredo, seguiu-lhe as pisadas, chegando a internacional quando defendia as cores do Belenenses, facto que fez com que estes dois homens fossem os primeiros pai e filho a representar a seleção nacional de futebol.

Nomes e números do Campeonato de Portugal de 1923/24:

1ª eliminatória

Vianense - Braga: 2-0

FC Porto - Académica: 3-2

União Portalegrense - Sporting de Tomar: 0-9

Olhanense - Vitória Setúbal: 1-0

Meias finais

Olhanense - Sporting de Tomar: 6-0

Vianense - FC Porto: 1-3

Play-off de apuramento para a final

Olhanense - Marítimo: 5-1

Final

Olhanense - FC Porto: 4-2

Data: 8 de junho de 1924

Estádio: Campo Grande, em Lisboa

Árbitro: Germano de Vasconcelos (Braga)

Olhanense: Carlos Martins; Américo Martins e Falcate; Fausto Peres, Raul Tamanqueiro e Francisco Montenegro; Cassiano, Belo, José Gralho, Delfino Graça e Júlio Costa. Treinador: Júlio Costa

FC Porto: Borges Avelar; Álvaro Coelho e Tavares Bastos; Coelho da Costa, Velez Carneiro e Floreano Pereira; Alexandre Cal, Augusto Freire, Norman Hall, Augusto Ferreira “Simplício” e João Nunes. Treinador: Akos Tezler

Golos: 1-0 (Delfino Graça, aos 3m), 1-1 (Hall, aos 15m), 1-2 (Tavares Bastos, aos 17m), 2-2 (Tamanqueiro, aos 40m), 3-2 (Gralho, aos 67m), 4-2 (Belo, aos 85m)

Legenda das fotografias:
1-Equipa do Olhanense, campeã de Portugal em 1924
2-José Belo em ação, um dos artistas de Olhão
3-Tamanqueiro a cabecear o esférico
4-Noram Hall, um dos grandes jogadores do FC Porto da década de 20
5-A estrela Raul Tamanqueiro
6-A equipa do Sporting de Tomar, que alcançou o resultado mais expressivo da época de 1923/24

segunda-feira, março 05, 2012

Histórias do Futebol em Portugal (4): O primeiro Campeonato de Portugal

É opinião partilhada por muitos dos estudiosos do fenómeno futebolístico do nosso burgo que os anos 20 do século passado trouxeram a maturidade ao então jovem futebol português. Com a expansão da mancha clubística um pouco por todo o país a modalidade começou a acorrentar a si contornos de maior competitividade e interesse com a disputa das primeiras competições ao nível de clubes. Longe pareciam já estar os tempos dos primeiros ensaios que procuravam decifrar os mistérios daquele jogo trazido de Inglaterra na década de 80 do século XIX por Guilherme Pinto Basto, com o povo mais do que familiarizado com a modalidade a mostrar-se nos inícios do século seguinte completamente rendido a ela!
Os duelos entre clubes vizinhos sucediam-se em catadupa, e em volta deles alastrava a fervorosa massa adepta que com o seu entusiasmo conferia uma vida singular às primeiras catedrais – o mesmo é dizer estádios – da bola então construídas.
O mapa futebolístico português começava pois a ser desenhado com maior vivacidade, pese embora com traços de cariz regional. Foram pois regionais os primeiros confrontos a “doer”, os primeiros títulos, as primeiras histórias...
A temporada de 1906/07 assinala o arranque do 1º Campeonato de Lisboa no qual participaram o popular CIF (Clube Internacional de Futebol) fundado pela família Pinto Basto, o Sport Lisboa, o Lisbon Cricket Club e o Carcavelos Club, cabendo a este último emblema a honra de inaugurar a lista de campeões regionais da capital do país.
Estava assim dado o pontapé de saída nas competições regionais, que com o passar dos anos se iam multiplicando por outras regiões nacionais. Com a popularidade dessas mesmas competições surgiu nos anos 20 como que um apelo à criação de uma prova de maior dimensão, um torneio capaz de transpor a fronteira da regionalização, por assim dizer, de colocar frente a frente os pesos pesados locais num certame de âmbito... nacional.
O título de rei da região era já pequeno demais, sabia a pouco, os clubes, os jogadores e sobretudo os adeptos queriam mais, queriam ser os melhores do país. A Associação de Futebol de Lisboa toma mesmo a iniciativa de desafiar a sua congénere do Porto para um “match” entre Benfica e FC Porto, um repto que no entanto seria recusado por estes últimos, muito por culpa do diferendo que opôs sulistas e nortenhos aquando da escolha dos jogadores para integrar a primeira seleção nacional que enfrentou a Espanha em 1921, episódio esse aliás já aqui recordado no Museu Virtual do Futebol . Estava dado contudo o impulso para a criação de uma prova de cariz nacional, capaz de colocar em confronto os melhores clubes e os melhores atletas de cada região.

O nascimento do Campeonato de Portugal

E eis que na época de 1921/22 nasceu aquela que é considerada como a primeira competição de essência nacional: o Campeonato de Portugal. Vencê-lo significava ostentar a coroa de rei de Portugal no futebol. Não foi contudo um parto fácil, já que por aquelas alturas o futebol era desenvolvido de uma forma mais oficial e séria apenas nas associações de futebol de Lisboa e do Porto, e a espaços no Funchal e no Algarve, já que no resto do país a organização do futebol não era mais do que uma miragem. A União Portuguesa de Futebol (UPF) – antecessora da atual Federação Portuguesa de Futebol – sentiu pois algumas dificuldades em colocar em prática a sua ideia, dificuldades essas que no entanto não se afigurariam como entrave para a realização do primeiro CAMPEONATO DE PORTUGAL. Um campeonato integrado apenas pelos campeões regionais das duas associações que levavam mais a sério, por assim dizer, o fenómeno futebolístico em termos de competições organizadas, Lisboa e Porto, já que as associações do Funchal e do Algarve alegariam dificuldades económicas para explicar a não adesão à prova.
A representar as duas principais urbes de Portugal estiveram dois ilustres senhores do futebol lusitano, Sporting e o FC Porto. Ficou assente que o título nacional seria disputado em duas mãos, uma na capital outra na Cidade Invicta, cabendo a esta última as honras de receber o primeiro encontro.
No dia 4 de junho de 1922 o Porto vestiu-se de azul e branco na esperança de ver o seu clube ser o campeão de Portugal e acima de tudo levar a melhor sobre a “rival” Lisboa.
O relógio marcava 16h15 de uma tarde cinzenta salpicada com pingos de chuva. O público nortenho dava largas ao seu entusiasmo e paixão pelo emblema da cidade nas repletas bancadas do Campo da Constituição à espera de uma batalha – muitos encaravam-na dessa forma, ou não estivessem frente a frente os cavaleiros do Porto e de Lisboa – que deveria ter começado às 15h00, não fosse o atraso de um dos melhores jogadores portistas de então, João Nunes, que aproveitara aquele célebre domingo para dar um salto à... romaria do Senhor de Matosinhos. Pequeno atraso que não esmoreceu os intervenientes do encontro que sob a arbitragem de um inglês (Merick Barley) seria ganho pela equipa da casa por 2-1. Portistas que até estiveram a perder, na sequência de um golo de Emílio Ramos, aos 9 minutos, conseguindo no entanto dar a volta ao marcador graças a um “bis” de Tavares Bastos, primeiro aos 25 minutos e o segundo quase em cima do apito final, ao minuto 86.
De pronto foram lançados foguetes pelos eufóricos adeptos portuenses, sim portuenses e não portistas, porque esta foi uma vitória de toda a Cidade do Porto sobre a capital Lisboa, mais parecendo um S. João antecipado.
Sobre a histórica tarde o célebre Ribeiro dos Reis escreveria que: «o jogo decorreu em ambiente apaixonadíssimo, de que os lisboetas, no regresso, se queixaram amargamente». Pudera! Mas nada estava ainda perdido para os campeões de Lisboa.
No domingo seguinte (11 de junho) deu-se a segunda parte da batalha, desta feita em terras alfacinhas, mais precisamente no Campo Grande que em resposta ao cenário edificado uma semana antes no Porto se apresentou cheio como um ovo. Só que desta feita num ambiente 100 por cento hostil para os nortenhos. Outra coisa não seria de esperar, já que era agora a vez do Sporting jogar diante das suas gentes.
Para este jogo a UPF escolheu um árbitro espanhol (!), Montero de seu nome. Empolgados pelo seu público os leões vingaram a derrota na Constituição ao vencer por 2-0 com golos de Henrique Portela e Torres Pereira.

O “tira teimas” pendeu para o FC Porto

Com a contenda empatada a UPF viu-se forçada a agendar um terceiro e decisivo encontro
para uma semana mais tarde (18 de junho). Foi então sorteado o local do “tira teimas”, tendo a sorte ficado posteriormente do lado do FC Porto já que o palco da finalíssima foi o Campo do Bessa, situado no... Porto. Mas nem o facto de ter de viajar novamente até ao terreno do rival parece ter incomodado as gentes de Lisboa, e muito em particular a imprensa da capital, a qual a julgar pelo que viu no Campo Grande não tinha dúvida em rotular o Sporting como o principal candidato à vitória. «Vaticinamos nova vitória para o Sporting, pois o FC Porto é, inegavelmente, inferior», titulava o jornal desportivo “Os Sports”. Como estavam enganados.
Na véspera deste decisivo encontro Portugal escrevia uma das páginas mais belas da sua história com a conclusão da primeira travessia aérea entre Portugal e o Brasil protagonizada pela “dupla” composta por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. No Porto, como em todo o país, certamente, estalaram foguetes para comemorar tal façanha, com o povo a sair em grande número para as ruas dando assim um colorido mais intenso à festa. Quem parece não ter achado muita graça à onda de festividades foi o Sporting, cujos jogadores se queixam não ter pregado o olho durante a noite devido aos ruidosos festejos. Propositadamente ou não esses festejos teriam contornos mais intensos junto ao hotel onde estava instalada a comitiva sportinguista. Casualidade ou não? O lisboeta “Os Sports” achava que não.
Dia de jogo e o Campo do Bessa a arrebentar pelas costuras... com os entusiastas adeptos do FC Porto, naturalmente. Ambiente quente que ainda ficou mais escaldante ao minuto 51 quando Balbino fez o primeiro golo da tarde para os portistas. Vantagem que não foi ampliada cinco minutos mais tarde devido ao preciosismo do árbitro Neves Eugénio, que por sinal era um dos notáveis jogadores/dirigentes do... Académico do Porto. O juiz manda repetir uma grande penalidade que Artur Augusto converte inicialmente em golo com a justificação de que não havia dado ordem para a sua marcação. Na repetição o mesmo Artur Augusto envia violentamente a bola à trave!
Talvez empolgado pela falha do rival o Sporting aventura-se no ataque e aos 70 minutos Emílio Ramos repõe a igualdade no marcador.
O relógio não parava e no final dos 90 minutos o marcador indicava uma igualdade a uma bola. Parecia maldição, mas ainda não havia campeão! Veio o prolongamento e o FC Porto voltou a adiantar-se no marcador à passagem do minuto 100, desta feita por João Nunes, o tal que no primeiro jogo havia chegado atrasado por ter dado um salto à romaria do Senhor de Matosinhos. Um pouco tardio ou não parece que o efeito da ida do jogador à festa do milagroso santo parecia dar agora os seus frutos! O Sporting esmoreceu e dois minutos depois o capitão dos portistas João de Brito deu a machadada final no jogo ao apontar o 3-1 final.
Quando Neves Eugénio apitou pela última vez a loucura foi total. O campo mais parecia uma bomba a explodir de alegria, o FC Porto sagrava-se CAMPEÃO DE PORTUGAL, o primeiro CAMPEÃO DE PORTUGAL. A festa prolongou-se pela madrugada dentro na Cidade Invicta. Para a eternidade ficavam os nomes de Lino Moreira (guarda-redes), Júlio Cradoso, Artur Augusto, José Mota, Velez Carneiro, Floreano Pereira, João de Brito, Balbino Silva, Alexandre Cal, Tavares Bastos, João Nunes, e Adolphe Cassaigne (treinador).

Nomes e números da final:

FC PORTO – SPORTING, 2-1
4-6-1922, Porto (Campo da Constituição)
Árbitro: Merick Barley (Inglês)
Marcadores: 0-1 Ramos (9), 1-1 Bastos (25), 2-1 Bastos (86)
FC Porto: Lino Moreira; Júlio Cardoso e Artur Augusto; José Mota, Velez Carneiro e Floreano Pereira; João Brito cap, Balbino Silva, Tavares Bastos, João Nunes e Alexandre Cal. Treinador: Adolphe Cassaigne
Sporting: Amadeu Cruz; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; João Francisco, José Filipe e Henrique Portela; Torres Pereira, Francisco Marques, Francisco Stromp (cap), Emílio Ramos e José Leandro. Treinador: Charles Bell

SPORTING – FC PORTO, 2-0
11-6-1922, Lisboa (Campo Grande)
Árbitro: Montero (espanhol)
Marcadores: 1-0 Portela, 2-0 Pereira
Sporting: Amadeu Cruz; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; João Francisco, José Filipe e Henrique Portela; Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Francisco Stromp cap, Emílio Ramos e José Leandro. Treinador: Charles Bell
FC Porto: Lino Moreira; Júlio Cardoso e Artur Augusto; José Mota, Velez Carneiro e Floreano Pereira; João Brito cap, Balbino Silva, Tavares Bastos, João Nunes e Alexandre Cal. Treinador: Adolphe Cassaigne

FC PORTO – SPORTING, 3-1 (após prolongamento)
18-6-1922, Porto (Campo do Bessa )
Árbitro: Neves Eugénio (Académico do Porto)
Marcadores: 1-0 Balbino (51), 1-1 Ramos (70), 2-1 Nunes (100), 3-1 Brito (102)
FC Porto: Lino Moreira; Júlio Cardoso e Artur Augusto; José Mota, Velez Carneiro e Floreano Pereira; João Brito cap, Balbino Silva, Alexandre Cal, Tavares Bastos e João Nunes. Treinador: Adolphe Cassaigne
Sporting: Amadeu Cruz; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; João Francisco, Filipe dos Santos e Henrique Portela; Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Francisco Stromp cap, Emílio Ramos e José Leandro. Treinador: Charles Bell

Legenda das fotografias:
1-A equipa do FC Porto que venceu o primeiro Campeonato de Portugal
2-Tavares Bastos, autor dos dois golos do jogo da 1ª mão e um dos melhores jogadores portistas da época
3-A fachada principal do reduto dos Dragões, o Campo da Constituição...
4-...e uma vista aérea do Campo Grande (Lisboa)
5-A equipa do Sporting que vendeu cara a derrota na primeira prova de âmbito nacional organizada em Portugal