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segunda-feira, fevereiro 07, 2022

Arquivos do Futebol Português (21)...

Equipa do Sporting que em 1915 venceu o primeiro título do clube no futebol

O primeiro rugido do leão no futebol lisboeta

1915 é o ano em que o leão rugiu pela primeira vez mais alto que os seus rivais no contexto do futebol lisboeta. É o ano em que o futebol do Sporting conquista o seu primeiro grande título, o mesmo será dizer, o Campeonato de Lisboa. E fê-lo à custa de dois dos seus grandes rivais da época, o CIF e o Benfica. E passamos a explicar o porquê desta nota. Em relação aos primeiros, os sportinguistas reforçaram o seu já valioso grupo com três importantes jogadores do clube dos Pinto Basto, nomeadamente os ingleses John Armour e Standen, e ainda o português Boaventura da Silva. Isto, porque o CIF não participou na edição de 1914/15 do campeonato lisboeta, em virtude de muitos dos seus jogadores ingleses terem sido chamados para as trincheiras da I Guerra Mundial e deixado o clube órfão.

Em relação aos segundo rivais, realça-se a grande contratação de Artur José Pereira. Contratação é uma forma de dizer, pois tal como em 1907, quando o Sporting aliciou (com melhores condições) oito jogadores do então Sport Lisboa, entre estes os célebres irmãos "Catatatu", para o seu grupo, desta feita aproveitou desentendimentos entre a direção benfiquista e alguns jogadores para voltar a pescar no Campo de Sete Rios. Além de Artur José Pereira os leões foram buscar ao rival o guarda-redes Paiva Simões e o médio Francisco Viegas.

Artur José Pereira 
com a camisola
do Benfica...
Mas Artur José Pereira era o grande reforço, já que ele era tão somente a grande estrela do futebol português daquele tempo. Historiadores apontam-no, aliás, como o primeiro grande jogador que o nosso futebol conheceu. O primeiro grande ídolo das multidões.


Ele que nasceu a 16 de novembro de 1889, em Belém, tendo começado a sua carreira no União Belenense, em 1907. O seu virtuosismo levaram-no um ano mais tarde para o Sport Lisboa, de Cosme Damião, tendo de pronto chamado a si o protagonismo daquela equipa, na condição de primoroso médio/organizador de jogo. As suas características eram avançadas para aquele tempo, tendo sido descrito anos mais tarde pelo seu amigo Cândido de Oliveira como um jogador que  «possuía qualidades em que nenhum outro jogador o igualou, a maior de todas definida pela atitude artística. Era completíssimo, perfeitamente ambidextro e com potente remate com os dois pés; jogava primorosamente de cabeça; era um driblador estupendo e tudo isto valorizado por uma combatividade e uma coragem sem limites».

... do Sporting...
Ao serviço do Sport Lisboa, mais tarde batizado de Sport Lisboa e Benfica, Artur José Pereira foi quatro vezes campeão regional, entre 1908 e 1914. Desavenças com a direção benfiquista levaram-no então em 1915 a mudar-se de "armas e bagagens" para o rival Sporting, onde continuou o seu legado de enorme jogador. Ao lado de outros ícones leoninos como Jorge Vieira, os irmãos Stromp (Francisco e António), ou José Bentes, ajuda o Sporting a tornar-se numa temida máquina de bom futebol, contribuindo para a conquista de dois campeonatos regionais e de três Taças de Honra.

... e do Belenenses
Artur José Pereira era um apaixonado por Belém, o bairro que o viu nascer para a vida e para o futebol, e talvez tenha sido essa paixão, e ao mesmo tempo o seu espírito rebelde e ousado, que em 1919 decide deixar o Sporting para fundar o Clube de Futebol "Os Belenenses", num jardim da Praça Afonso de Albuquerque, numa noite de verão (23 de setembro). Entre os outros fundadores do hoje histórico clube da Cruz de Cristo encontravam-se nomes como Francisco Pereira (irmão do craque Artur José Pereira), Carlos Sobral, Joaquim Dias, Júlio Teixeira Gomes, Manuel Veloso, Romualdo Bogalho e Henrique Costa. Artur José Pereira cumpria assim o sonho de fundar um clube de Belém... em Belém, ficando então para a eternidade a seguinte frase da sua autoria: «Somos todos de Belém, porque havemos de jogar noutros?».  Além de notável atleta (representou o clube que ajudou a fundar nesta função ao longo de três temporadas), esta figura notabilizou-se ainda como dirigente e treinador dos Belenenses, tendo lançado muitos jogadores para a ribalta do futebol português.

Como treinador conquistou as primeiras coroas de glória para os "azuis", nomeadamente três Campeonatos de Portugal e quatro Campeonatos de Lisboa, tornando este emblema numa das maiores potências do nosso futebol. Para além disto, fez dupla com o seu amigo Cândido de Oliveira nos comandos da seleção nacional. Foi também um respeitado árbitro e sócio de mérito da Associação de Futebol de Lisboa (AFL). Retirou-se do futebol em 1937 por motivos de doença, vindo a falecer vitimado por tuberculose a 6 de setembro de 1943.

Mas voltemos ao título do Sporting no regional de 14/15, para referir que os leões  contabilizaram nove vitórias e apenas uma derrota, ficando em 1.º lugar, com 18 pontos, seguidos de perto do rival Benfica, com 16. Mais atrás ficaram Império, Cruz Quebrada e Lisboa FC.

O Sporting acabou a primeira volta do campeonato regional na frente, apesar da derrota em casa do rival Benfica, por 3-0, num jogo realizado a 17 de janeiro de 1915, e onde brilhou o benfiquista Rogério Peres, autor de dois golos.

A segunda volta abriu com o resultado mais volumoso obtido pelos leões neste campeonato, o 8-0 em casa do Império.

Sporting e Benfica disputavam o título de campeão "taco a taco" e talvez por isso tenhamos chegado à 10.ª e última jornada da prova com o campeão ainda por definir. Quem vencesse o dérbi disputado no Lumiar sagrava-se campeão. E venceu o Sporting, por 3-1, com golos de António e Franscico Stromp, e ainda de John Armour. Estava assim consumado o primeiro título do futebol leonino.  

Mas não se ficaria por aqui o clube verde-e-branco no que concerne a conquistas, já que nessa temporada a AFL organizou a primeira edição da Taça de Honra, uma prova a eliminar,  sendo que à semelhança do que havia feito no campeonato, o Sporting arrebatou o troféu às custas do rival Benfica, que em casa (Campo de Sete Rio) perdeu a final com os leões por 1-3.

Para a eternidade ficam os nomes dos homens que deram a primeira "dobradinha" da história do Sporting, a qual coincidiu com os primeiros títulos obtidos no futebol: Jorge Morice (guarda-redes), Paiva Simões (guarda-redes), Carlos Fernando Silva (guarda-redes), Amadeu Cruz (defesa), Jorge Vieira (defesa), Standen (defesa), Raul Barros (médio), Sebastião Campos (médio), Boaventura da Silva (médio), Artur José Pereira (médio), Theodoro Duarte (médio), Francisco Viegas (médio), António Stromp (avançado), João Bentes (avançado) , Francisco Stromp (avançado), António Rosa Rodrigues (avançado), Guilherme Morice (avançado), Jaime Gonçalves (avançado) e John Armour (avançado).

quinta-feira, julho 22, 2021

Arquivos do Futebol Português (17)...

Edifício/sede da AFL
Em 1911 dá-se a novidade de pela primeira vez em Portugal se cobrarem ingressos para assistir aos jogos de futebol. Mas ainda antes disto a Liga Portuguesa de Futebol (LFP) desaparece, fruto dos sucessivos tumultos que assolavam o futebol lisboeta de então. A indisciplina reinava nas relações entre clubes, causadas por queixas contra árbitros, ou decisões da LPF. Os regulamentos raramente eram cumpridos. Os jogadores mudavam de camisola quando bem lhes apetecesse, os clubes desistiam a meio das provas, além de que a segurança não existia numa época em que as rivalidades levavam os adeptos a ultrapassar a fronteira que separa os bons costumes da selvajaria. Tumulto cujo ponto final foi colocado a 23 de setembro desse longínquo ano de 1910, dia em que nasce a Associação de Futebol de Lisboa (AFL), a entidade que haveria de dinamizar e remodelar o futebol associativo em Portugal dali em diante. AFL que tomou de imediato conta do Campeonato de Lisboa, tendo logo em 1910/11 chamado a si a organização do certame, que iria contar com a participação de sete clubes, nomeadamente o CIF, o Benfica, o Sporting, o Campo de Ourique, o Império, o Lisboa Football Club, e o União Belenense. Notava-se a ausência de alguns clubes históricos dos primeiros anos de futebol em Portugal, desde logo os ingleses do Carcavellos Club, que preferiam agora competir apenas em jogos particulares (!), enquanto que emblemas como o Lisbon Cricket e o Gilman desapareciam, tendo os seus valorosos atletas rumado para outras paragens. O CIF seria coroado campeão de Lisboa na temporada de 1910/11.

A equipa do FC Porto que em 1911
venceu a primeira edição da Taça Monteiro da Costa

A norte, em 1911, dá-se um terrível choque para a nação portista: morre aos 29 anos José Monteiro da Costa, nada mais nada menos do que o refundador do Football Club do Porto. Monteiro da Costa era a alma do FC Porto, tudo o que tivesse a ver com o clube chamava à sua responsabilidade, desde a constituição das equipas para os jogos até aos meros convites endereçados aos associados para assistiram aos empolgantes duelos futebolísticos. Pelo que ele representava para o clube não demorou muito a que um grupo de associados metesse mãos à obra para homenagear o reinventor do FC Porto, ao propor a instituição de um troféu, que seria denominado de Taça Monteiro da Costa, e que dali em diante iria coroar o rei do futebol nortenho. O homenageado não chegou a ver a competição em andamento, já que morreu antes do pontapé de saída. Monteiro da Costa adoece nos primeiros dias de janeiro de 1911, vindo a falecer no dia 30 desse mesmo mês com apenas 29 anos! A nação portista entra em pânico. E agora? Como é que o clube vai sobreviver sem o seu principal impulsionador, sem a sua figura central, sem a sua alma? Foram questões levantadas de imediato por associados e dirigentes do então jovem FC Porto. Temeu-se que pela segunda vez na sua história o clube fosse empurrado para uma morte prematura, medos que no entanto seriam eclipsados na Assembleia Geral de 16 de março desse ano de 1911, altura em que um punhado de seguidores do sonho de Monteiro da Costa decide continuar a aventura em memória do saudoso companheiro. E é pois nesse embalo para o futuro que se edifica a primeira edição da Taça Monteiro da Costa, ou o primeiro Campeonato do Norte, como defendem alguns historiadores desportivos. Convidados para a estreia da citada competição, cujo vencedor teria à sua espera a denominação de campeão do norte (aquém Mondego), seriam os vizinhos do Boavista e do Leixões, para além, claro, do clube anfitrião, o FC Porto, que no final acabaria por fazer a festa.

O certame abriu com um duelo entre matosinhenses e boavisteiros, a 26 de março, com os primeiros a bater sem apelo nem agrado os portuenses por 4-1. A 2 de abril entra em campo o FC Porto, cujos jogadores transportavam consigo a ambição sentimental de vencer aquele troféu tão especial. O oponente foi o Boavista. Resultado final: 3-1 para os portistas. Posteriormente, portistas e leixonenses mediriam forças no derradeiro jogo desta primeira edição da Taça Monteiro da Costa, um duelo que teve contornos de verdadeira final, pois quem vencesse seria coroado como o primeiro campeão do norte. Tal como se esperava foi um desafio muito intenso, e rezam as crónicas que o Leixões esteve várias vezes perto do golo, valendo aos portistas a magnífica exibição do seu guarda-redes, Manuel Valença. E como quem não marca sofre, o FC Porto chegaria ao golo - cujo autor se desconhece - um tento solitário que deu a primeira Taça Monteiro da Costa ao clube da Cidade Invicta, que assim se auto-proclamava o primeiro campeão nortenho do então jovem football.

Para a eternidade ficam pois os nomes dos seguintes campeões: Manuel Valença, Elísio Bessa, Vitorino Pinto, Mário Maçãs, Adelino Costa, Magalhães Bastos, José Bacelar, Camilo Moniz, Carlos Megre, João Cal, e Ivo Lemos. Jogadores treinados pelo mestre francês Adolphe Cassaigne, o homem que haveria de estar nas quatro restantes conquistas do portistas nesta prova.

A seleção nacional da AFL que em 1911 defrontou os franceses do Stade Bordelais

Também em 1991 a recém surgida AFL resolve reunir uma "seleção nacional", para enfrentar os franceses do Stade Bordelais, que a convite da associação lisboeta efetuaram três encontros em território português, um diante do CIF, outro com o Benfica, e por último ante a "seleção" da AFL. Este último desafio decorreu no dia 21 de maio, no Campo da Feiteira, em Lisboa, e a "seleção nacional", equipando de camisola azul e branca (cores da monarquia que então acabara de cair em Portugal), calção branco, e meia preta, alinhou com: Eduardo Luís Pinto Basto (CIF), Merick Barley (CIF), Henrique Costa (Benfica), William Sissener (CIF), Cosme Damião (Benfica), Artur José Pereira (Benfica), António Stromp (Sporting), Francisco Stromp (Sporting), António Rosa Rodrigues (Sporting), Carlos Sobral (CIF), e João Bentes (Sporting). Quanto ao resultado o conjunto luso esmagou o seu congénere gaulês por 5-1.

terça-feira, julho 20, 2021

Arquivos do Futebol Português (16)...

A equipa do Benfica que em 1910 venceu o seu primeiro Campeonato Regional de Lisboa

O ano de 1910 marca o fim de uma hegemonia no futebol lisboeta, marca o fim do domínio dos ingleses do Carcavellos naquele que era então o único campeonato disputado em Portugal, o Campeonato de Lisboa. E assim o foi por "culpa" do Benfica, que com a conquista do seu primeiro "regional" interrompe um ciclo vitorioso de três títulos seguidos por parte do Carcavellos. Este foi aliás um ano de ouro para os benfiquistas, que veneram ainda os títulos das segundas e terceiras categorias. O Campeonato Regional de 09/10 teve algumas peripécias dignas de registo, mais concretamente o facto de algumas equipas terem desistido a meio da "corrida", entre elas o próprio Carcavellos, que depois de derrotado pelo Benfica na 7.ª jornada da prova desistiu por uma questão de... supremacia moral! Também o CIF, repleto de ingleses, em solidariedade com os seus compatriotas sai da prova, ao passo que o Sporting segue o exemplo destes dois últimos clubes depois de discordar com a suspensão do seu guarda-redes, Augusto Freitas, que tinha agredido dois jogadores do Benfica no jogo da 9.ª jornada e que terminou com a vitória dos encarnados por 4-0. Já o Império não gostou que lhe tivessem anulado um golo diante do Benfica num jogo das terceiras categorias e também decide abandonar a competição. Naquela que foi a quarta edição do Campeonato de Lisboa só o Benfica comparece em todos os 10 jogos disputados, um facto estranho tendo em conta que o futebol lisboeta vivia uma fase de expansão. Pela primeira vez organizaram-se três campeonatos para as três categorias, tendo sido inscritos um total de dez clubes, nomeadamente o Carcavellos Club, o Sport Lisboa e Benfica, o Club Internacional de Futebol (CIF), o Sporting Club de Portugal, o Sport União Belenense, o Gilman Sporting Club, o Sport Club Império, o Football Grupo de Campo d’Ourique, o Grupo de Sport Cruz Quebrada e o Lisboa Football Club, sendo que no campeonato de 1.ª categoria inscreveram-se seis clubes: Carcavellos, Benfica, CIF, Sporting, União Belenense e Gilman. O Benfica, orientado por Cosme Damião, que além de treinador era ainda jogador e vice-presidente do clube fundado seis anos antes, somente conheceu a derrota em duas ocasiões, ante o Carcavellos na 2.ª jornada, por 0-2, e diante do CIF na 8.ª ronda, também por 0-2. Mas o grande jogo desta época foi quiçá o da vitória sobre os mestres ingleses do Carcavellos, na 7.ª jornada, por 1-0, naquela que foi a segunda vitória da história dos encarnados sobre os ingleses. Depois do triunfo obtido em 1907 o Benfica voltou a vencer os campeões em título três anos volvidos, uma vitória que aconteceu a 23 de janeiro no Campo da Feiteira perante uma multidão de 8000 espectadores. Aliás, sempre que o adversário era o Carcavellos o recinto do Benfica enchia-se de entusiastas adeptos. Nesse célebre encontro o Benfica alinhou com Alfredo Machado, Leopoldo Mocho, Henrique Costa, António Costa, Cosme Damião, Artur José Pereira, Manuel Lopes, António Meireles, Luís Vieira, Germano de Vasconcelos (autor do golo solitário nesta partida) e Josué Correia, nomes que ficam para a história do clube, pois todos eles ofereceram o primeiro título da história ao Benfica que terminou este campeonato com oito vitórias e duas derrotas.

Em 31 de julho de 1910 o clube organizou uma festa para homenagear os seus futebolistas campeões. No Restaurante Bacalhau houve almoço e a respetiva fotografia com futebolistas, dirigentes e convidados, entre eles jornalistas e com exposição dos troféus conquistados em seis anos de existência.

O misto nacional que em 1910 foi a Huelva com as cores do Sporting!

O ano de 1910 fica também marcado pela primeira saída ao estrangeiro daquela que se poderá considerar a primeira seleção nacional da história. Uma seleção nacional equipada à Sporting (!), na verdade. Foi a 27 de agosto de 1910, data que um misto de jogadores de três equipas de Lisboa, nomeadamente o Sporting, o Benfica e o Sport União Belenese, se deslocou a Espanha para jogar com o Recreativo de Huelva. Atuando com o equipamento do Sporting a seleção lisboeta, ou o Sporting reforçado com três jogadores do Benfica - entre os quais pontificava Cosme Damião - e um do Sport União Belenense - segundo muitos historiadores, venceu por 4-0 os espanhóis. A estreia desse combinado nacional resulta de um convite inicial do Recreativo daquela cidade castelhana a Eduardo Luís Pinto Basto, dirigente/atleta do Clube Internacional de Futebol (CIF). Pinto Basto sugeriu o Sporting como substituto do CIF, último clube este que por motivos desconhecidos não se mostrou disponível para viajar até Espanha, acabando o CIF e o Sporting por decidir enviar uma equipa que fosse composta por jogadores provenientes de vários clubes lisboetas. E a equipa que viajou para Huelva e bateu o Recreativo era composta por: António Bentes (Sporting), Augusto de Freitas (Sporting), Henrique Costa (Benfica), Francisco Bellas (Sport União Belenense), António Couto (Sporting), Cosme Damião (Benfica), António Rosa Rodrigues (Sporting), António Stromp (Sporting), Francisco Stromp (Sporting), e Luiz Vieira (Benfica). Reza a história que o encontro foi dominado pelos portugueses, que venceu confortavelmente com golos de Luiz Vieira, António Rosa Rodrigues e Francisco Stromp, este último autor de dois golos.

terça-feira, junho 08, 2021

Histórias do Futebol em Portugal (31)... Ainda antes dos Cinco Violinos brilharem já os Cinco Torpedos encantavam vestindo a pele do leão

Os Cinco Torpedos
Os Cinco Violinos foram com toda a certeza não só o quinteto ofensivo mais virtuoso da história do futebol português como também uma das linhas avançadas mais célebres e poderosas do futebol internacional da década de 40 do século passado.

Defendendo as cores do Sporting Clube de Portugal, Fernando Peyroteo, Vasques, Albano, Jesus Correia e José Travassos são os cinco famosos violinistas dessa memorável orquestra que entre 1946 e 1949 tornou o leão num animal impossível de domar. Porém, muitos antes deste quinteto dar nas vistas um outro núcleo de cinco jogadores brilhou com o manto sagrado do Sporting vestido. Um quinteto de despoletou nos primórdios do clube fundado por José Holtreman Roquette (Alvalade), em 1906, e que pelo seu talento escreveu uma página digna de registo na extensa e gloriosa história do emblema leonino. Ainda que pouco conhecido por parte do grande público afeto ao Belo Jogo se comparado com os Cinco Violinos, este quinteto marcou os primeiro anos de vida do Sporting numa época em que as competições futebolísticas a nível nacional eram ainda muito escassas. Sem mais demoras vamos embarcar na Máquina do Tempo para conhecer os Cinco Torpedos.

E para isso viajemos até à década de 10 dos século XX, altura em que o epicentro do futebol em Portugal estava na capital, que vivia então o fervor dos primeiros campeonatos de Lisboa, que faziam desenvolver a modalidade não só na região mas também no resto do país. O Sporting era então um jovem clube, rico, é certo, já que detinha as melhores condições do futebol lisboeta, fazendo assim jus ao objetivo do seu criador, José de Alvalade, aquando da fundação: fazer do Sporting Clube de Portugal "um grande clube tão grande como os maiores…”.

O país de então vivia a febre do futebol, cujo aumento da popularidade era um facto indesmentível, sendo que os matches atraíam a si assistências bastante consideráveis. O panorama futebolístico da capital era dominado então pelos ingleses do Carcavelos, que haviam vencido as três primeiras edições do Campeonato de Lisboa. Apesar de não lograr alcançar qualquer título até então, o Sporting era uma das equipas mais fortes e virtuosas do futebol daqueles anos, um team muito  respeitado pelos adversários, graças a um conjunto de grandes jogadores. Muitos destes atletas deram início a uma rivalidade que ainda hoje se mantém com os vizinhos do Sport Lisboa (hoje Benfica), e que teve início em 1907 quando oito jogadores dos encarnados resolvem mudar-se para o clube de José de Alvalade, o qual oferecia banhos quentes e demais privilégios aos atletas, então coisa rara no futebol. Entre esses desertores estavam os irmãos Catatau, mais precisamente Cândido Rosa Rodrigues e António Rosa Rodrigues. A estes, já no final da primeira década do século XX, junta-se no Sporting outra dupla de irmãos, os Stromp, nomeadamente Francisco Stromp e António Stromp.

As condições de excelência do Sporting atraíam como já dissemos os melhores jogadores do futebol lisboeta daquele tempo, sendo que outro dos craques de então era o virtuoso avançado João Bentes, que rapidamente se tornou num dos atletas mais importantes do clube, sendo que na passagem para a década de 10 seria eleito o capitão de equipa. Ora, estes cinco nomes que acabamos de mencionar formaram aquela que foi rotulada na altura como a linha avançada mais poderosa e virtuosa do futebol lisboeta daqueles anos, e que ficaria conhecida como os Cinco Torpedos.

Juntos, é certo, que não arrecadaram nenhum título para o Sporting, embora naquele tempo a única competição que existia fosse o Campeonato de Lisboa, mas lograram alcançar exibições fantásticas que ficaram eternizadas nos jornais da época. Atuaram juntos durante quatro temporadas, mais concretamente em 1909/19, 1910/11, 1911/12 e 1912/13. A melhor classificação obtida pelos Cinco Torpedos foi precisamente na última época em que jogaram juntos, tendo o Sporting ficado em 2.º lugar no Campeonato de Lisboa, a quatro pontos do campeão Benfica.  

O 11 da seleção de Lisboa vestindo à Sporting que foi a Huelva bater o Recreativo

Quatro dos Cinco Torpedos entraram em 1910 para a história não só do Sporting como do próprio futebol luso pelo facto de terem participado no primeiro jogo internacional daquela que pode ser considerada a primeira seleção portuguesa a atuar no estrangeiro. Foi a 27 de agosto de 1910, data que um misto de jogadores de três equipas de Lisboa, nomeadamente o Sporting, o Benfica e o Sport União Belenese, se deslocou a Espanha para jogar com o Recreativo de Huelva. Atuando com o equipamento do Sporting a seleção lisboeta, ou o Sporting reforçado com três jogadores do Benfica - entre os quais pontificava Cosme Damião - e um do Sport União Belenese - segundo muitos historiadores, venceu por 4-0 os espanhóis. Como já vimos, este misto foi integrado por quatro dos Cinco Torpedos, nomeadamente António Stromp, António Rosa Rodrigues, Francisco Stromp e João Bentes, sendo que este último foi o capitão desta equipa que fez a longa viagem desde Lisboa até Huelva de comboio, isto é, os jogadores apanharam o comboio no Barreiro, no dia 25 às 18H30 e chegaram à cidade espanhola no dia seguinte quando já passava das 20H00. Os golos foram marcados pelo benfiquista Luís Vieira e pelos torpedos António Rosa Rodrigues e Francisco Stromp, sendo que este último fez o gosto ao pé em duas ocasiões. De acordo com os jornais da época terão assistido ao encontro cerca de oito mil espectadores e a Banda Municipal de Huelva tocou os hinos português e espanhol, sendo que à noite houve um banquete de confraternização.

Quem eram os Cinco Torpedos?

João Bentes
Como já vimos os Cinco Torpedos eram constituídos por uma mão cheia de virtuosos avançados, comandados pelo capitão de equipa João Bentes. Nascido em Lisboa, Bentes integrou ainda muito jovem as equipas do Sporting, clube do qual se fez associado apenas um ano após a fundação do clube. Subiu à primeira categoria em 1910. Alinhava como extremo-esquerdo, assumindo a titularidade precisamente na temporada de 1909/10. Destacava-se por ser um atleta polivalente, diz-se que jogava em qualquer posição do terreno, exceto na de guarda-redes. Diz-se que foi ele o encarregado por Eduardo Pinto Basto, capitão do CIF, de escolher a equipa que no tal ano de 1910 foi a Huelva disputar com o Recreativo local o tal jogo internacional que acima recordarmos, isto porque o CIF, já tinha disputado um desafio em Madrid em 1907, tendo sido três anos mais tarde convidado para jogar em Huelva. No entanto, Eduardo Pinto Basto achou que o seu clube não tinha condições para isso e propôs o Sporting para ir em seu lugar. João Bentes, o capitão leonino, encarregou-se a pedido de Pinto Basto de organizar uma equipa para viajar até Espanha, tendo então convidado Cosme Damião, Luís Vieira e António Costa, todos do Benfica, e Francisco Bellas, do Sport União Belenense, para se juntarem aos jogadores do Sporting. No total, Bentes atuou durante 9 temporadas na equipa principal do Sporting, tendo sido uma das figuras destacadas nos primeiros anos de vida do clube, sendo-lhe reconhecida a mentalidade de um líder e de alguém que estava sempre disposto a tudo para triunfar. O seu momento de glória de verde-e-branco equipado terá sido na temporada de 1914/15, altura em que os leões venceram o seu primeiro Campeonato de Lisboa.

Os irmãos Catatau,
Cândido e António Rosa Rodrigues
Cândido Rosa Rodrigues, um dos irmãos Catatau que na boca dos benfiquistas foi um dos traidores que em 1907 trocou o Sport Lisboa pelo Sporting em busca de melhores condições de treino. Nasceu em Lisboa, pela uma da manhã, no primeiro andar do número 144 da rua direita de Belém, e os amigos chamava-lhe Candinho, e juntamente com os seus irmãos António, José e Jorge ficou conhecido por fazer parte dos irmãos Catatau. Em 1904 ele foi um dos 24 fundadores do Grupo Sport Lisboa onde esteve durante três temporadas. Vivendo em Belém ele era um dos principais dinamizadores no início do clube, sendo dos mais assíduos nos treinos. No verão de 1907 ele e mais sete jogadores do Sport Lisboa decidiram então rumar ao recém fundado Sporting Clube de Portugal, atraído pelas melhores condições proporcionadas pelo clube leonino. Cândido rapidamente deu nas vistas no Sporting, jogando a interior-direito. Ele entrou na história do clube leonino por ter sido o autor do primeiro golo da história dos dérbis da capital, isto é, entre sportinguistas e benfiquistas, facto ocorrido a 1 de dezembro de 1907, data em que se disputou o primeiro Derbi Eterno. Jogou no Sporting durante sete temporadas, e dos Cinco Torpedos foi o único que não conquistou qualquer título ao serviço dos leões, retirando-se do clube precisamente na época anterior à conquista do primeiro Campeonato de Lisboa. Foi ainda dirigente do Sporting quando fez parte da segunda Direcção de Caetano Pereira durante a Gerência 1912/13.

António Rosa Rodrigues, também conhecido por Neco, era outro dos irmãos Catatau que em 1907 trocou o Sport Lisboa pelo Sporting. Considerado um dos melhores avançados da sua época esteve 10 temporadas no Sporting, tendo feito parte da equipa que ganhou o primeiro Campeonato de Lisboa da história do clube. Foi um dos sete jogadores do Sporting que integraram a seleção de Lisboa que em 1910 se deslocou a Huelva para defrontar e vencer o Recreativo. Atuando como extremo-direito, na maior parte da sua carreira, viveu outros momentos de grande glamour com a camisola verde-e-branca, sendo de recordar entre muitos exemplos o facto de em 1914 ter vencido o primeiro título de âmbito mais nacional pelo Sporting, os Jogos Olímpicos Nacionais, após ter vencido na final o Império por 5-1. Atuou durante 9 temporadas no Sporting, tendo realizado mais de 60 jogos de leão ao peito.

Francisco Stromp
Verdadeiros ícones da história do Sporting foram os irmãos Stromp. Francisco nasceu no dia 21 de maio de 1892, em Lisboa, e foi um dos primeiros grandes símbolos do clube. Com apenas 16 anos estreou-se na equipa principal do Sporting, emblema cujo manto sagrado defendeu entre 1908 e 1924. Disputou mais de 100 jogos com a camisola verde-e-branca tendo sido por quatro ocasiões campeão de Lisboa (14/15, 18/19, 21/22 e 22/23). Seria aliás na temporada de 22/23 que conquistaria o seu título mais importante durante a passagem pelo clube, o Campeonato de Portugal. Capitaneou a equipa vários anos, sendo que em 1922/23, depois de Augusto Sabbo se ter demitido de treinador, coube-lhe assumir a função de timoneiro, isto é, de treinador, sendo desta forma a sua importância ainda maior na conquista da 2.ª edição do Campeonato de Portugal. Dentro de campo ocupou as posições de médio-direito e avançado-centro, destacando-se pela sua entrega. Para além do futebol, Francisco foi ainda campeão no lançamento de Disco e na estafeta dos 3x100m, tendo também praticado ténis, cricket e rugby. Desempenhou várias funções na qualidade de dirigente leonino, desde funções na Mesa da Assembleia Geral presidida pelo Visconde de Alvalade, até à passagem pelas Gerências de Queirós dos Santos e da Direção de Soares Júnior na Gerência de 1918, chegando a ocupar a vice-presidência da Direção, entre 19 de fevereiro de 1925 e 23 de fevereiro de 1926. Francisco Stromp amava o Sporting, viveu toda a vida para o clube, e a prova disso é que escolheu a data da sua morte no dia em que os leões festejavam o seu 24.º aniversário. A sífilis, doença de que padecia, seria a causa da sua morte, isto porque no dia 1 de julho de 1930 decidiu pôr termo à vida, atirando-se para a frente de um comboio na Estação de Sete-Rios. O seu nome é hoje em dia associado ao mais alto galardão atribuído pelo Sporting, os prémios Stromp, que distinguem entre outros o melhor atleta, treinador, dirigente e futebolista.

António Stromp
Francisco não era tão eclético quando o seu irmão António, um autêntico atleta multifacetado. Nascido em Lisboa em dia de Santo António (13 de junho de 1894), António contava apenas 15 anos quando em 1909 alinhou na 1.ª equipa de futebol do Sporting, ocupando a posição de extremo, preferencialmente à direita. Era dotado de estupendas qualidades físicas que aliadas à técnica fizeram dele não só um grande futebolista como também um virtuoso praticante de ténis, esgrima e cricket. Em 1913, numa viagem ao Brasil ao serviço da seleção de Lisboa, destacou-se de tal maneira que foi alvo de várias condecorações, as quais foram por ele recusadas, prova da sua humildade. Foi uma das peças preponderantes na conquista do primeiro título de campeão de Lisboa por parte do Sporting, tendo marcado um golo na vitória que conferiu o título aos leões no encontro ante o eterno rival Benfica. 

Mas seria no atletismo que a estrela de António iria brilhar mais alto. Em 1910 participou nos Jogos Olímpicos Nacionais, tendo sido um dos grandes destaques da competição ao vencer a prova de salto à vara. Um ano mais tarde venceu a prova dos 100m com um impressionante registo de 12 segundos, registando desta forma um novo recorde nacional naquela categoria. Mas 1912 seria um ano memorável para António no âmbito do atletismo. Para além de ter vencido os 100m e os 200m metros a nível nacional, foi um dos seis atletas que integrou a primeira comitiva portuguesa a marcar presença nos Jogos Olímpicos. Em Estocolmo, porém, António não fez jus às suas qualidades de velocista, não passando das eliminatórias da  prova dos 100m. No ano seguinte voltaria a triunfar nas pistas, sagrando-se campeão nacional dos 100m. Tal como seu irmão Francisco teve o infortúnio de lhe ser diagnosticada sífilis, terrível doença que o fez deixar o desporto e o levaria à morte a 6 de julho de 1921.

terça-feira, março 16, 2021

Arquivos do Futebol Português (13)...

Equipa do Carcavellos que venceu a 1.ª edição do Campeonato de Lisboa, em 1907

O sucesso do o primeiro torneio organizado em Portugal, o Bronze Viúva Alexandre Senna, em 1906, contribuiu para uma maior organização entre os clubes então existentes no sentido de criar um campeonato de futebol com o formato de todos contra todos, à semelhança do que já se fazia em Inglaterra. Em setembro de 1907 foi fundada a Liga de Football Association, presidida por Joaquim Costa. Este organismo formado por Lisbon Cricket Club, Football Cruz Negra, Clube Internacional de Football (CIF) e Sporting Clube de Portugal, decidiu organizar o seu primeiro campeonato por pontos, no formato de todos contra todos a duas voltas.

Os vencedores da prova foram os ingleses do Carcavellos Football Club. O Sport Lisboa (futuro Sport Lisboa e Benfica), o Lisbon Cricket e o CIF foram os outros clubes envolvidos neste campeonato regional, o primeiro a ser realizado no país no sistema de pontos. Nesta prova o poderio do Carcavellos no panorama do futebol lisboeta sobressaiu, já que em 6 jogos realizados a turma inglesa - formada por empregados da Telegraph Company - apenas perdeu um, ante o Sport Lisboa. Aliás, este triunfo dos portugueses sobre os mestres ingleses foi um dos factos mais relevantes desta edição inaugural do Campeonato de Lisboa, já que quebrou um recorde de nove anos de invencibilidade dos ingleses do Carcavellos. Este episódio histórico aconteceu no dia 10 de fevereiro de 1907, com os encarnados a vencerem por 2-1. Em baixo reproduzimos a crónica do encontro no jornal Os Sports:

Os ingleses não perdiam com equipas lusas desde 1898. Para a história ficam os nomes dos heróis do Sport Lisboa que nessa tarde na Quinta Nova (instalações do Cabo Submarino) acabaram com a invencibilidade dos mestres ingleses: Manuel Mora, Henrique da Costa, Emílio de Carvalho, Fortunato Levy, António do Couto, Artur dos Santos, Manuel Costa, António Rosa Rodrigues, Daniel Queiroz dos Santos, Cândido Rosa Rodrigues e David da Fonseca.
A turma do sport Lisboa que na Quinta Nova obteve a histórica vitória ante o Carcavellos

O Sport Lisboa foi mesmo o vice-campeão deste campeonato, com 6 pontos (3 vitórias e outras tantas derrotas), a quatro do Carcavellos (que somou 5 triunfos e apenas perdeu o tal encontro com o Sport Lisboa). Na 3.ª posição ficou o Lisbon Cricket, com 4 pontos e no 4.º lugar quedou-se o CIF, também com 4 pontos, tendo ambas as equipas contabilizados duas vitórias e averbado 4 derrotas. CIF que continuava a ser dos Pinto Basto e dos amigos ingleses.

O primeiro jogo internacional realizado em solo português

No final do ano de 1907, mais concretamente a 15 de dezembro, dá-se outro acontecimento histórico no então jovem futebol português. A norte, no Porto, realiza-se o primeiro encontro internacional em solo lusitano. Frente a frente as equipas do Football Club do Porto e o Real Fortuna de Vigo. As equipas evoluíram no Campo da Rainha, reduto dos portistas, liderados por José Monteiro da Costa, o refundador do clube, tendo o resultado desse encontro caído no esquecimento! Orientados pelo francês Adolphe Cassaigne os azuis e brancos alinharam com Soares, Dumont Villares, Brugmman, Romualdo Torres, Ernesto Sá, António Pinheiro, Raws, Antunes Lemos, John Jones, Catullo Gadda e Edward de Almeida.

FC Porto e Real Fortuna de Vigo posam para a fotoigrafia

O FC Porto retribuiu a cortesia dos galegos três semanas depois, visitando Vigo, naquela que seria a primeira saída internacional de uma equipa portista. tal como o jogo da Invicta o resultado é desconhecido, sabendo-se apenas que se jogou a 12 de Janeiro de 1908, sendo que o único regista desta partida pode ser encontrado no primeiro Relatório e Contas do clube: «resolvemos iniciar as excursões desportivas visitando a cidade de Vigo, indo ali aprender para depois continuarmos por Portugal, ensinando. Porém, o estado do tempo afuguentou o maior número e com grande pesar nosso, essa visita, que seria uma alegria para os nossos amigos de Vigo, que se preparavam para receber 150 visitantes, apenas se limitou a uma pequena excursão de 23 pessoas a quem os sócios do Real Fortuna Clube e Vigo Football Club dispensaram extremos carinhos e inúmeras finezas».

quarta-feira, outubro 07, 2020

Arquivos do Futebol Português (11)...

1904 fica marcado pela fundação do embrião daquele que viria a ser um dos gigantes do futebol português dali em diante. Em Belém um grupo de jovens decide fundar o Sport Lisboa, o antecessor do atual Sport Lisboa e Benfica. Os fundadores são antigos alunos da Casa Pia de Lisboa - que formavam a Associação de Bem - e do Grupo dos Catataus - igualmente denominado de Belém Football Club. Estes jovens residiam quase no todos no mesmo prédio, localizado na Rua de Belém, onde estava instalada a Farmácia Franco, espaço onde tem lugar a (hoje) famosa reunião da qual viria a resultar a formação do Sport Lisboa. Este grupo, reza a história, dispunha de talentosos artistas da bola, com evidência para os irmãos Catatau, nomeadamente José, António, Cândido e Jorge Rosa Rodrigues. Junto deles alinhavam os Monteiro's e os Carrilho's, todos vizinhos. Ainda antes da fundação oficial do Sport Lisboa, este grupo, que atuava em terrenos na zona de Belém, havia constituído um misto (entre a Associação de Bem e o Grupo dos Catatau) que defrontou o poderoso Grupo dos Pinto Basto, família responsável pela introdução do futebol em Portugal.


A Farmácia Franco foi pois o ponto de partida do clube, sendo precisamente ali que trabalhava Manuel Goularde, e que segundo muitos historiadores foi o grande responsável pela fundação de uma coletividade germinada em finais 1903 e concretizada a 28 de fevereiro de 1904.

Goularde, ao que se diz, foi o mentor da fundação, o responsável por juntar os dois grupos que dariam origem ao Sport Lisboa. Apesar de medíocre enquanto futebolista ele foi uma espécie de homem dos 7 Ofícios dentro do novo clube, pois foi ele que mandou vir as regras e catálogos de equipamentos de futebol de Inglaterra, quem organizou os primeiros jogos, quem registou os frequentadores dos primeiros treinos do recém-formado clube, quem desempenhou as funções de treinador nos primeiros anos de vida do emblema, e acima de tudo quem despendeu uma boa parte das suas economias para ajudar a que o clube sobrevivesse. Foi ademais ele que definiu que as cores do novo clube seriam o encarnado berrante e... vencedor.
Nascido no Bairro da Ajuda, em 25 de outubro de 1872, este empregado (diz-se que era contabilista) da Farmácia Franco viria a desempenhar dentro do novo clube funções de tesoureiro. Ao todo foram 24 os homens que formalizaram a criação do Sport Lisboa. Entre eles estava pois Manuel Goularde. Sobre ele, disse ao jornal A Bola em 1945 Cosme Damião, outro dos nomes que esteve na génese do Sport Lisboa: «Tu não calculas o que era a figura desse rapaz. Estou-o vendo: aparecia sempre equipado, por completo - da cabeça aos pés... Kepi preto, camisa branca, calção preto, meias de futebol e botas também de futebol. Mas o que dava mais nas vistas era uma grande faixa sobre a camisa, a tiracolo, com as três cores da bandeira francesa. Não soubemos a princípio o seu nome. Começou a aparecer talvez no terceiro treino. Não jogava. Dava apenas uns pontapés...
Era o Manuel Goularde, o empregado da Farmácia Franco.

Manuel Goularde conhecia muito bem as leis do jogo. Tomou para nós, o papel de técnico - do futebol. Passou a acamaradar francamente com os jogadores da Associação do Bem. E falavamos dele com simpatia, nos locais onde nos reuiniamos, geralmente numa farmácia do Conde Barão, também frequentada por sócios do Clube Naval, de Lisboa. Mas continuavam a gostar do futebol. Manuel Goularde foi, mais tarde, quando nos faltavam jogadores, o ponto de ligação do grupo dos «Catataus.... O Manuel Goularde pensou que nós podíamos defrontar aquele grupo se incluíssemos no «team» jogadores do grupo dos «Catataus», ao tempo designado por grupo de Futebol Lisbonense, ou título semelhante. Fizemos assim, um misto entre a Associação do Bem e o Lisbonense. Julgo que perdemos o primeiro desafio, por 0-1. Mas ganhámos o segundo por 1-0. Os dois desafios foram disputados nas Salésias, talvez em Dezembro de 1903. Houve festa rija numa cervejaria em frente da Farmácia Franco, para celebrar a vitória. E partiu da referida festa a ideia de nos reunirmos em clube. Esta ideia discutimo-la depois. Hesitámos no título. Sport Lisbonense de Lisboa. Sport Lisboa. E optámos, no fim, pela última designação. Ficaram especialmente connosco o Goularde, o Daniel de Brito e os quatro irmãos Rosa Rodrigues. Nasceu, assim, o Sport Lisboa».


terça-feira, abril 02, 2013

Histórias do Futebol em Portugal (12)... Nascimento da A.F. Lisboa coincide com o único título conquistado pelo primeiro grande clube português

Trazido pela mão dos irmãos Pinto Basto em finais do século XIX o futebol em Portugal iniciou a sua curva ascendente no que a popularidade diz respeito nos inícios dos 100 anos que se seguiram, altura em que surgiram os primeiros duelos acesos entre os clubes que iam florescendo a uma velocidade estonteante, duelos que começavam a despoletar nos corações do povo lusitano a paixão por aquele belo jogo nascido em Inglaterra. O primeiro grande centro futebolístico português foi Lisboa, cidade que em finais do século XIX e princípios do século XX viu nascer uma série de clubes que ajudaram a enraizar o jogo na cultura lusitana. Nasceram as primeiras rivalidades clubísticas, os primeiros disputadíssimos torneios, e naturalmente as primeiras lendas dos retângulos de jogo. Contudo, e talvez porque fosse algo novo, a organização foi digamos que o calcanhar de aquiles do jovem futebol português. Nos anos iniciais as regras muitas vezes não eram respeitadas, causando o caos entre clubes, jogadores, e adeptos. Foi preciso esperar até 1910 para que finalmente o futebol fosse estruturado dos pés à cabeça, tendo para isso muito contribuido o nascimento da Associação de Futebol de Lisboa (AFL), a primeira associação do país, e para muitos a primeira entidade reguladora a sério do fenómeno futebolístico luso.
Na viagem de hoje ao passado vamos então recordar as incidências do primeiro Campeonato (regional) de Lisboa organizado pela AFL, e recordar o seu primeiro campeão oficial, aquele que na época era o clube mais bem estruturado do ainda criança futebol nacional.

Como já vimos as competições inter-clubes começaram a surgir um pouco por todos os quatro cantos da capital portuguesa nos inícios do século passado. Esta atividade não era mais do que o resultado dos elevados índices de popularidade que o futebol grangeava na urbe lisboeta. A imprensa começava a dar destaque aos jogos que se desenrolavam aqui e acolá, e com naturalidade surgiram pois os primeiros campeonatos regionais. Em meados de 1906 os principais emblemas lisboetas da época reúnem-se com a intenção de criar um organismo que orientasse e coordenasse uma grande competição. Dessa reunião nasce a Liga Football Association (LFA), o organismo (presidido por Joaquim Costa e secretariado por um tal de José de Alvalade, esse mesmo, o mentor do Sporting Clube de Portugal) que tutela o primeiro campeonato de Lisboa, cujo pontapé de saída foi dado na temporada de 1906/07. Grande dominador do futebol daqueles dias o Carcavelos Club - composto exclusivamente por jogadores ingleses a laborar no Cabo Submarino - conquistou o título, levando a melhor sobre o Benfica, o Lisbon Cricket, e o Clube Internacional de Futebol, popularmente conhecido como CIF.
A arte futebolística dos ingleses do Carcavelos seria vincada nas duas edições seguintes, com a obtenção de mais dois ceptros regionais, sendo que na temporada de 1907/08 o Campeonato de Lisboa passa a ser organizado por uma nova entidade, a Liga Portuguesa de Futebol (LPF), a sucessora da LFA. Januário Barreto, médico de profissão, árbitro, jogador, e ilustre dirigente desportivo - exerceu entre outros cargos o de presidente do Sport Lisboa - foi o primeiro presidente do recém-nascido organismo. Mas a vida da LPF seria curta.

Ainda antes do Benfica colocar em 1909/10 um ponto final no reinado de três anos consecutivos dos ingleses do Carcavelos Club na competição, mosquistos por cordas começaram a surgir em catadupa no seio do futebol lisboeta. Com as rivalidades entre clubes ao rubro, as águas agitavam-se entre adeptos, jogadores e dirigentes. A indisciplina reinava nas relações entre clubes, causadas por queixas contra árbitros, ou decisões da LPF. Os regulamentos raramente eram cumpridos. Os jogadores mudavam de camisola quando bem lhes apetecesse, os clubes desistiam a meio das provas, além de que a segurança não existia numa época em que as rivalidades levavam os adeptos a ultrapassar a fronteira que separa os bons costumes da selvajaria. Tudo isto, ao que se juntou a morte de Januário Barreto, levou a que em 1910 a LPF fechasse portas. O futebol vivia em tumulto, tal como aliás o próprio país, que se encontrava em transição do regimo monárquico para o da república. Tumulto cujo ponto final foi colocado a 23 de setembro desse longínquio 1910, dia em que nasce a Associação de Futebol de Lisboa, a entidade que haveria de dinamizar o futebol associativo em Portugal dali em diante.
AFL que tomou de imediato conta do Campeonato de Lisboa, tendo logo em 1910/11 chamado a si a organização do certame, que iria contar com a participação de sete clubes, nomedamente o CIF, o Benfica, o Sporting, o Campo de Ourique, o Império, o Lisboa Football Club, e o União Belenense. Notava-se a ausência de alguns clubes históricos dos primeiros anos de futebol em Portugal, desde logo os ingleses do Carcavelos Club, que preferiam agora competir apenas em jogos particulares (!), enquanto que emblemas como o Lisbon Cricket e o Gilman desapareciam, tendo os seus valorosos atletas rumado para outras paragens. O CIF, por exemplo, reforçou-se com alguns atletas do Lisbon Cricket, ao passo que o Império recebeu quase toda a equipa (!) do Gilman. A AFL organizou o primeiro Campeonato (oficial) de Lisboa em três categorias: primeiras, segundas, e terceiras, sendo que as duas últimas se equiparavam a uma espécie de campeonatos de reservas.

O primeiro "regional" lisboeta teve início a 13 de novembro de 1910, tendo logo na ronda inaugural surgido uma enorme supresa. O campeão da época anterior, o Benfica, foi derrotado em casa pelo União Belenense, por 2-3 (!), o único desaire dos encarnados liderados pelo seu dirigente/treinador/jogador (!!!) Cosme Damião, mas que haveria de ser decisivo nas contas finais. Outro grande candidato ao título que iria tropeçar lá mais para a frente do campeonato era o Sporting, o clube aristocrata da sociedade lisboeta, o clube abastado financeiramente, que tinha nas suas fileiras alguns dos melhores jogadores lusos de então.
Os irmãos Stromp (Francisco e António) eram duas das principais estrelas leoninas, aos quais se juntavam os irmãos Catatau (António Rosa Rodrigues, e Cândido Rosa Rodrigues), responsáveis pela primeira grande traição do futebol lusitano no início do século passado.

Figuras de destaque dos primórdios do Benfica, António Rosa Rodrigues e Cândido Rosa Rodrigues desertaram do clube no final da temporada de 1906/07, rumo ao grande rival Sporting, que os aliciou com... banhos quentes e toalhas lavadas no final de cada jogo/treino (!), mordomias que o então pobre Benfica não possuia. Grande figura daquele Sporting era também Francisco dos Santos, o primeiro emigrante de sucesso do futebol português, a quem o Museu Virtual do Futebol já dedicou longas linhas numa outra visita ao passado. Só para relembrar os mais esquecidos Francisco dos Santos revelou-se como um cerebral médio-ofensivo no Casa Pia, em finais do século XIX, tendo posteriormente respresentado o Sport Lisboa - antecessor do Sport Lisboa e Benfica - antes de rumar ao estrangeiro para estudar... Belas Artes. Primeiro em Paris e depois em Roma, sendo que na Cidade Eterna para fazer face às enormes dificuldades financeiras vivenciadas arranjou emprego como... jogador de futebol. E em boa hora o fez, pois tornou-se de imediato numa referência do jovem calcio transalpino ao serviço da Lázio. No emblema da capital italiana destacou-se então, não sendo de admirar que a braçadeira de capitão lhe fosse entregue logo na primeira época! Foi um dos artistas do primeiro dérbi romano, entre Lázio e Roma, tendo o ilustre (jornal) Gazzetta dello Sport sublinhado que nesse jogo histórico estiveram em evidência dois jogadores... «o jovem Saraceni e o veterano Dos Santos, que com os seus 55 quilos foi, impressionante, dos melhores em campo...». De regresso a Portugal (em 1908) assinou pelo Sporting, ali terminando a sua brilhante carreira de futebolista, antes de se dedicar em exclusivo à atividade de escultor que o haveria de eternizar na História de Portugal.

Mas as estrelas só por si não ganham jogos, e o Sporting encontrou muitas dificuldades ao longo da sua caminhada no primeiro "regional" oficial de Lisboa. Dificuldades criadas sobretudo pelos seus dois maiores rivais, o Benfica, com quem perdeu na 6ª jornada por 5-1, e o CIF, que derrotaria os leões nos dois confrontos realizados, o primeiro (na 5ª jornada) por 1-0, e o segundo na 11ª ronda, por 2-0. Os desaires averbados nas 5ª e 6ª jornadas - diante dos seus principais rivais - ditaram praticamente o afastamento dos sportinguistas da luta pelo título, a qual foi quase de forma exclusiva protagonizada pelo CIF e pelo Benfica. Os duelos entre CIF e Benfica - cuja maior estrela era Cosme Damião - neste campeonato terminaram empatados, um a zero golos (na 2ª jornada), e outro a uma bola (na ronda número oito), pese embora a meta tenha sido cortada em primeiro lugar pelos primeiros, com um total de 22 pontos, contra os 20 dos encarnados.

Desta forma o CIF era assim coroado como o primeiro campeão oficial da AFL. Na última jornada do campeonato um facto caricato ocorreu no embate entre Benfica e Sporting, ocorrido no recinto do Lisboa Football Club, o Campo dos Castelos. A tarde futebolística teve início com uma partida das segundas categorias, cujo vencedor foi o Benfica, por 1-0. O público afeto ao Sporting não terá gostado da exibição do árbitro do encontro, queixando-se sobretudo do golo benfiquista, que segundo os leões teria sido apontado em fora de jogo. O ambiente estava incendiado, e mais ficou quando as primeiras categorias subiram ao retângulo de jogo. O Sporting abriu o marcador, mas logo depois o Benfica restabelece a igualdade em mais um lance... irregular, nas vozes leoninas. Estas sublinham uma carga evidente do marcador do golo benfiquista sobre o guarda-redes da casa, Gastão Pinto Basto. O árbitro do encontro, que por sinal era primo do guardião leonino, e que dava pelo nome de Eduardo Luís Pinto Basto, validou o tento, e a multidão em fúria invadiu o terreno de jogo. As cenas que se seguiram foram o que se pode chamar de um intenso combate de boxe (!) entre benfiquistas e sportinguistas. A AFL homologou a igualdade a uma bola, mas a Comissão de Árbitros não concordou, tendo então sido marcado um novo jogo entre ambas as equipas para 18 de julho de 1911, partida essa à qual o Sporting não compareceu, alegando num comunicado que «os benfiquistas não eram dignos de pisar as suas instalações»!

Bom, mas voltando ao campeão, ao CIF, o clube terminou a temporada de 1910/11 com um total de 10 vitórias alcançadas e apenas dois empates consentidos (ante o Benfica, como já vimos), tendo entre o seu grupo de notáveis jogadores destacado-se nomes como Eduardo Luis Pinto Basto, Merik Barley, W. Sissener, Augusto Sabbo, ou Luis Kruss Gomes. CIF que foi digamos que o primeiro grande clube de futebol em Portugal, sobretudo sob o ponto de vista estrutural, servindo de exemplo para muitos outros clubes que iriam nascer nos anos seguintes. Ligado diretamente aos introdutores do futebol em Portugal, os Pinto Basto, o CIF alcançou assim o único título oficial da sua hoje centenária vida, coincidindo com o nascimento de uma AFL que seria a semente para o crescimento do futebol português no plano organizativo. O exemplo organizativo da AFL deu origem a que mais tarde outras associações de futebol nascessem noutras regiões de Portugal que começavam também elas a ver os seus grupos futebolísticos darem os primeiros pontapés na bola de forma mais séria.

A figura: Eduardo Luís Pinto Basto

Oriundo da família responsável pela introdução do futebol em Portugal Eduardo Luís Pinto Basto foi para muitos a grande figura do primeiro campeonato oficial da AFL. Filho do pai do futebol português, Guilherme Pinto Basto, o homem que em 1884 trouxe de Inglaterra a primeira bola, e que em 1888 organizou o primeiro jogo - facto já mencionado pelo Museu Virtual do Futebol - Eduardo Luís Pinto Basto herdou do seu progenitor a paixão pelo desporto, e pelo futebol muito em particular. Além de jogador, foi árbitro, e dirigente, tendo sido um dos rostos da fundação do CIF. À semelhança do seu pai estudou em Inglaterra, onde teve contato com o belo jogo, e chegado a Portugal colocaria em prática esses conhecimentos, contribuindo e muito para o crescimento do futebol luso. O seu pai, Guilherme Pinto Basto, deu-nos a conhecer o jogo em finais do século XIX, ao passo que Eduardo ajudou a cimentá-lo nos inícios do século XX não só com a organização de jogos e torneios, mas também ao nível da própria estruturação deste fenómeno. Como jogador destingiu-se sobretudo na baliza, tal como o seu pai - mais um ponto em comum entre ambos -, tendo sido um dos primeiros grandes keepers lusos, brilhando com as cores do seu CIF, clube que ajudou a fundar juntamente com nomes sonantes da época como Carlos Villar, ou Joaquim Costa. CIF que foi o primeiro clube português a jogar além-fronteiras, facto ocorrido em 1907, quando os lisboetas foram à capital espanhola bater o Madrid FC - antecessor do Real Madrid - por 2-0. Eduardo Luís Pinto Basto estava na baliza. E na baliza estaria também em 1911 aquando da primeira visita de um clube estrangeiro a Portugal, no caso os franceses do Stade Bordelais, que enfrentaram em Lisboa além do CIF de Pinto Basto, o Benfica e uma seleção da AFL, que na baliza tinha... Eduardo Luíz Pinto Basto. AFL onde esta figura se distinguiu, quer como dirigente, quer como árbitro, tendo sido um dos juízes mais conceituados da época.
Nasceu a 6 de junho de 1886, precisamente dois anos antes do seu pai ter organizado o tal primeiro jogo de futebol em Portugal, nos terrenos da Parada, em Cascais. Faleceu em 1955.  

Números finais do primeiro Campeonato (oficial) de Lisboa 

1-CIF: 22 pontos
2-Benfica: 20 pontos
3-Sporting: 14 pontos
4-Campo de Ourique: 10 pontos
5-Império: 8 pontos
6-União Belenense: 6 pontos
7-Lisboa FC: 4 pontos

Resultados mais dilatados

Benfica - Lisboa FC: 15-0
Sporting - Lisboa FC: 14-0
CIF - Lisboa FC: 12-3
Campo de Ourique - CIF: 0-11

Legenda das fotografias:
1-Clube Internacional de Futebol, o popular CIF, o primeiro campeão da Associação de Futebol de Lisboa (AFL)
2-O notável dirigente desportivo Januário Barreto
3-Um dos primeiros escudos da AFL
4-Cosme Damião, a estrela do Benfica
5-Os irmãos Catatau
6-Jogo entre CIF e Sporting
7-Cosme Damião em ação contra o Império
8-Equipa do Benfica, vice campeã regional de 1911
9-Eduardo Luís Pinto Basto
10-Francisco dos Santos, uma das estrelas do primeiro campeonato da AFL