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quinta-feira, outubro 20, 2022

Histórias do Futebol em Portugal (38)... A curta história da Taça Ribeiro dos Reis, a "inspiração" da atual Taça da Liga

António Ribeiro dos Reis
Podemos dizer que esta competição serviu de molde para a atual Taça da Liga, tendo sido organizada pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e integrado o calendário do futebol luso entre as temporadas de 1961/62 e 1970/71. A competição foi criada para as equipas de Honra e de Reservas dos clubes que participavam nas 1.ª e 2.ª divisões nacionais. Pese embora, muitos emblemas que saíam mais cedo da Taça de Portugal, quando esta última prova era desenrolada no términus do campeonato, utilizassem alguns dos seus principais craques nesta extinta prova, com a finalidade de lhes dar ritmo competitivo. E é nesse sentido que hoje vemos que jogadores como Eusébio, Coluna ou José Torres tenham no seu currículo esta prova, pois vestiram a camisola da equipa de reservas do Benfica - que aos dias de hoje seria uma espécie de Benfica B - que por três ocasiões venceu esta competição. 

Falamos da Taça Ribeiro dos Reis, que se constituiu como uma homenagem a uma figura de vulto do futebol português: António Ribeiro dos Reis (1896-1961). Este militar (tenente-coronel) de profissão foi uma espécie de homem dos 7 ofícios dentro do futebol, uma personalidade multifacetada, tendo sido um dos grandes dinamizadores das primeiras décadas de vida da modalidade no nosso país. Enquanto futebolista desenvolveu a sua carreira primeiro no Casa Pia, passando depois pela equipa do Liceu Pedro Nunes, e posteriormente pelo Benfica, cuja camisola passou a defender a partir da temporada de 1913/14 e que envergou até final da sua carreira, em 1925. Foi treinador e dirigente do clube encarnado, sendo que neste último papel desempenhou, entre outras, funções de vice-presidente da Direção, e de presidente da Assembleia Geral, tendo tido, por exemplo, um papel importante no processo de construção do antigo Estádio da Luz. Foi ainda figura de proa na criação da seleção nacional, já que esteve presente na orientação do primeiro jogo da equipa das quinas em 1921, ante a Espanha. Foi selecionador nacional entre março de 1925 e abril de 1926, regressando em março de 1934 ao comando da equipa de todos nós para a dirigir na eliminatória (perdida) com a Espanha com vista ao Mundial que nesse ano decorreu em Itália. Ribeiro dos Reis foi ainda árbitro de futebol, e um exímio mestre da escrita, vulgo jornalista. Nos jornais estreou-se em 1914 no semanário O Sport Lisboa, colaborando ainda com Os Sports. Mas a sua obra de arte, passe a expressão, mais conhecida seria a fundação do jornal A Bola, em 1945, juntamente com Cândido de Oliveira e Vicente de Melo, tendo no jornal da Travessa da Queimada exercido funções de redator principal e de diretor (entre 1951 e 1961). Foi agraciado com a Comenda da Ordem Militar de Avis, a Medalha de Mérito Desportivo, a Medalha de Mérito Internacional da Federação Portuguesa de Futebol, a Medalha de Ouro da Comissão Central de Árbitro, e a Medalha de Mérito da Associação de Futebol de Lisboa. Em 1995 foi agraciado a título póstumo com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito.

Foi pois em homenagem a esta figura incontornável do futebol português que na temporada de 1961/62 a FPF coloca em ação a Taça Ribeiro dos Reis. Um troféu que, como iremos constatar nas linhas que se seguem, viajou mais vezes para o sul do país do que para o norte, sendo que só na margem sul (do Tejo) moram cinco títulos!

Margem sul alcança a glória (parte I)

O bonito troféu
Vinte e dois clubes participaram na 1.ª edição da Taça Ribeiro dos Reis, que a julgar pelos factos não parece ter cativado as reservas dos três principais emblemas nacionais, FC Porto, Benfica e Sporting, que estiveram ausentes deste arranque. Mais de duas dezenas de equipas que foram divididas em quatro séries, tendo sido agrupadas por região, à semelhança do que já acontecia, por exemplo, com o Nacional da 3.ª Divisão. E nesta edição inaugural, dois clubes sobressaíram desde logo pelo seu trajeto invencível na 1.ª fase: na Série 1 o Vila Real, e na Série 4 o Seixal. Ambos os conjuntos terminaram esta fase sem derrotas, sendo que os seixalenses o fizeram de forma imaculada, ou seja, obtiveram quatro vitórias noutros tantos jogos realizados, ao passo que os transmontanos apenas cederam um empate nos quatro encontros realizados.

Apuravam-se para as meias finais da competição os primeiros classificados de cada uma das quatro séries, sendo que Vila Real e Seixal tiveram nesta fase a companhia de Barreirense (vencedor da Série 3) e Marinhense (que triunfou na Série 2).

Estes dois últimos clubes seriam afastados do sonho de jogar a final, disputada na noite de 27 de julho de 1962 no majestoso palco do Estádio do Restelo. Frente a frente Seixal e Vila Real, representantes de regiões distintas do país, sul e norte, respetivamente. Ambas os conjuntos competiram nessa temporada na 2.ª Divisão Nacional, tendo tido prestações distintas. Os seixalenses alcançaram tranquilamente a manutenção no segundo escalão, ao passo que os vilarealenses caíram na 3.ª Divisão Nacional. Nada que tirasse o entusiasmo aos nortenhos, que ao jornal A Bola, na antevisão da grande final, mostravam-se otimistas, conforme as palavras do então presidente da direção, António Silva. O dirigente lembrava que era com otimismo que o Bila ia a Lisboa. «Estou firmemente convencido que a nossa equipa há-de exibir-se na final à altura do acontecimento, que marca a homenagem a todos os títulos justíssima a um grande (Ribeiro dos Reis) do futebol português. Estou otimista, realmente, quanto à maneira galharda, correta e briosa como os nossos jogadores vão lutar, dominados como estão pelo anseio de causar boa impressão ao público de Lisboa e de conquistarem um bonito troféu que tem, a valorizá-lo, o nome inesquecível de Ribeiro dos Reis, um Homem e um Dirigente que viverá para sempre na nossa saudade (...) Não é uma taça qualquer — é um troféu que honrará a vitrina de qualquer clube, mesmo das que estejam habituados a conquistas muitos campeonatos», opinava o dirigente máximo do Vila Real.

Seixal, o primeiro campeão
da Taça Ribeiro dos Reis
Do outro lado tínhamos o Seixal, que vinha de uma temporada extremamente positiva, destacando-se o 5.º lugar na Zona Sul da 2.ª Divisão e o facto de na Taça de Portugal ter obrigado o primodivisionário Lusitano de Évora a trabalhos redobrados para passar aos quartos-de-final. Também na antevisão do encontro com o Vila Real, o presidente do emblema da margem sul, clube que então contava já com já quase com quatro décadas de vida, dizia ao jornalista de A Bola que «podem estar certos que a equipa do Seixal procurará dar essa enorme alegria aos seus adeptos». Egas Godinho Pereira acrescentava nessa entrevista que os níveis de confiança dos seixalenses para esta final estavam em alta, já que «depois de transpormos escolhos difíceis, como foram os jogos com as equipas algarvias e, por ultimo, com o Barreirense (então na 1.ª Divisão), seria, para nós, grande satisfação, terminarmos o torneio sem derrotas e ganharmos tão significativo e valioso troféu. Era, de facto, bonito. Aliás, se os seixalenses quiserem, a vitória será nossa. Basta o seu apoio caloroso, como no ultimo desafio. Aos nossos atletas não falta animo, valor e vontade».

Filha de Ribeiro dos Reis entrega 
a taça ao capitão do Seixal
O que é certo é que das sete edições em que os seixalenses participaram na Taça Ribeiro dos Reis esta foi a mais saborosa, já que venceram por 4-2 o Vila Real, tornando-se assim nos primeiros campeões da hoje extinta competição. Para a eternidade ficam os nomes de Nogueira, Aniceto, Quim; Cecílio, Lenine, Oñoro (que desempenhava as funções de treinador-jogador), Cambalacho, Garrido, Teodoro, Ferreira e Carvalho, precisamente o onze seixalense que alinhou na final. Angel Oñoro, jogador, treinador e capitão do Seixal, recebeu das mãos das mãos de Maria Margarida Ribeiro dos Reis, filha da ilustre figura que dava nome a esta competição, o troféu campeão.

Troféu esse que na temporada seguinte continuaria a morar na margem sul do rio Tejo, passando em 1963 para as mãos de um histórico do futebol luso: o Vitória de Setúbal.

Sadinos que a par do Benfica tornar-se-iam no emblema mais titulado desta competição, com três títulos conquistados. Em 62/63, arrecadaram o primeiro deles. Nesta segunda edição a competição teve um considerável aumento de participantes, passando de 22 para 32 emblemas, com a particularidade das equipas de reservas do Benfica e do Sporting fazerem a sua estreia. Os dois velhos rivais ficaram inseridos na Série 3, tendo os encarnados levado a melhor, ao classificarem-se em 1.º lugar, com 12 pontos, os mesmos que o Belenenses, mas com vantagem no goal-average. O mesmo cenário verificou-se na Série 4, onde Vitória Futebol Clube e Olhanense terminaram invictos a 1.ª fase da competição e com o mesmo número de pontos (12). Os sadinos, com melhor diferença entre golos marcados e sofridos avançaram para as meias-finais, onde iriam medir forças com o Benfica. Neste confronto o triunfo sorriu ao Vitória, que bateria os encarnados por 2-1 e marcava assim presença na sua primeira final da Taça Ribeiro dos Reis, onde teria como oponente o Torreense (vencedor da Série 2), que na outra meia-final havia derrotado o Varzim (vencedor da Série 1) por 4-3.

Vitória faz a sua primeira festa
nesta competição
Final que teve novamente o Restelo como palco, no dia 13 de julho de 1963. Nessa noite o Vitória derrotou os homens de Torres Vedras por 2-1, erguendo o seu primeiro troféu no âmbito desta prova. Nomes como Félix Mourinho (pai do conceituado treinador José Mourinho), Jaime Graça, José Maria, Carriço, Francisco Polido, ou Júlio Teixeira estiveram nessa histórica final, contribuindo decisivamente para a conquista da taça - com golos de Mateus, aos 32 minutos, e de Rodrigues, aos 56 minutos. Nas palavras do conceituado jornalista de A Bola, Carlos Pinhão, «O Vitória de Setúbal ganhou com todo o brilho a segunda edição da Taça Ribeiro dos Reis - que tal como a primeira, coube, assim a um clube da A.F. Setúbal, a associação que está na "moda", com os seus quatro clubes na 1.ª Divisão da próxima época: Vitória, Barreirense, CUF e Seixal (...) Este êxito do Vitória parece-nos mais significativo e mais brilhante que o triunfo seixalense de há um ano, porque, desta feita, disputaram a prova as reservas do supracitado trio, cheias de internacionais e pelo caminho que as transferências estão a tomar, o Benfica e o Sporting terão equipas de reservas bem capazes de ganhar até... o campeonato nacional da próxima época. Por tudo, o êxito setubalense ganhou extraordinário relevo, pois coube ao Vitória para chegar à final eliminar uma reserva de primeira do Benfica que por seu turno tinha eliminado o Sporting». Quanto à final com o Torreense o jornalista analisava que na mesma «a diferença de andamento entre a 1.ª e a 2.ª Divisão notou-se sempre». Da parte do conjunto que na época atuava na 2.ª Divisão «nunca houve perigo, porque o único golo torriense surgiria apenas nos últimos instantes da partida, assinalando precisamente o termo da mesma, pois Joaquim Campos (o árbitro da final) nem sequer fez bola-ao-centro», escrevia o jornalista, colocando ainda a hipótese de que se «o Torreense tem feito o golo mais cedo, é possível que nele encontrasse um estimulo poderoso para qualquer cometimento.., improvável, verdade se diga. Bem mais ocasiões perdeu o Vitória», que foi a equipa dominadora da final.

Félix Mourinho recebe a taça
No final, e numa imagem que seria habitual nas restantes edições da competição, a filha de Ribeiro dos Reis entregou a taça ao capitão sadino, que nessa noite foi Félix Mourinho. O conceituada árbitro do encontro, Joaquim Campos, mostraria à reportagem de A Bola a sua satisfação por ter dirigido a final duma prova com o nome de Ribeiro dos Reis, «um grande amigo dos árbitros, infelizmente desaparecido do número dos vivos» mostrando ainda o seu contentamento por esta final «ter decorrido num ambiente condigno e agradecendo aos jogadores e ao público a forma como lhe haviam facilitado o seu trabalho».´


 Benfica, o único grande a vencer a prova

Dos chamados 3 grandes do futebol luso, apenas o Benfica soube o que era vencer a Taça Ribeiro dos Reis. E em três ocasiões, como já referimos antes. Aliás, ainda no que concerne a estatística, os encarnados são o clube com mais presenças na prova, se compararmos com os rivais FC Porto e Sporting. Em termos mais concretos, os benfiquistas têm oito presenças, os sportinguistas quatro e os portistas com três.

O onze do Benfica que venceu a primeira das três
taças Ribeiro dos Reis arrecadadas pelo clube

Em 63/64 o Benfica enfeitou a sua sala de troféus com esta bonita taça, isto depois de um percurso quase imaculado na Série 3 da 1.ª fase, concluída com 13 pontos, fruto de seis vitórias e um empate. Nas meias-finais os encarnados despacharam o Olhanense (que venceu a Série 4) com uma vitória por 2-1, marcando encontro com o também, à época, primodivisionário Leixões (vencedor da Série 1) para o dia 12 de julho, tendo como cenário o Estádio da Tapadinha, em Lisboa. Contando na equipa com reforços de peso, onde sobressaía Santana, campeão europeu em 1961, os lisboetas venceram por 1-0, graças a um golo de Pedras, logo aos dois minutos da final. Seria outro reforço de peso nessa partida, de seu nome Ângelo, este bi-campeão da Europa pelos encarnados,  o homem que ergueu a primeira Taça Ribeiro dos Reis conquistada pelas águias.

Final entre Alhandra e Beira-Mar
Após três temporadas a morar no sul do país, eis que na 4.ª edição a taça viaja mais para norte, para Aveiro, mais concretamente. Em 64/65 dá-se a particularidade de pela primeira os 3 grandes do futebol português disputaram na mesma edição o troféu, pese embora tenham tido performances distintas. As reservas do FC Porto, emblema que fazia a estreia, venceu de forma destacada a Série 1, com sete triunfos noutros tantos jogos disputados, ao passo que Sporting e Benfica, integrados na Série 3, deixaram-se surpreender pelo Alhandra, que seria uma das sensações desta edição. A turma do Município de Vila Franca de Xira só não foi a heroína da prova porque na final foi superada pelo Beira-Mar, clube que viveu a todos os títulos uma temporada de 64/65 inolvidável. Os aveirenses subiram à 1.ª Divisão nacional, depois de terem terminado a Zona Norte da 2.ª Divisão em 1.º lugar, com 37 pontos, tendo ainda sagrado-se campeã nacional do segundo escalão na sequência de um triunfo sobre o campeão da Zona Sul, o Barreirense, por 2-1. Esta temporada memorável do Beira-Mar foi concluída em Coimbra, palco da final da Tala Ribeiro dos Reis, vencida pelos aveirenses por 3-1. A equipa tipo dos beiramarenses nessa época era a seguinte: Vítor Cabral, João da Costa, Evaristo, Marçal, Pinho, Abdul, Brandão, Horácio Garcia, Diego, Gaio, e Nartanga. Para colocar as mãos na taça o Beira-Mar afastou nas meias-finais o FC Porto, com um concludente 3-0, ao passo que o Alhandra (vencedor da Série 3) superou por 1-0 o Portimonense (vencedor da Série 4). A comandar esta equipa de Aveiro um nome que ficaria ligado a esta Taça Ribeiro dos Reis, Artur Quaresma, sendo que mais à frente já iremos ver porquê.

Penafiel, que jogou a final de 1966 e perdeu 
por 9-2 com o Benfica. O resultado mais desnivelado
numa final da Taça Ribeiro dos Reis
Foi renhida a Série 3 da Taça Ribeiro dos Reis de 65/66, época de ouro no futebol português graças àquela que seria uma brilhante presença da seleção nacional no Mundial de Inglaterra. E foi renhida porque as reservas do Benfica lutaram taco a taco com o Atlético pela presença nas meias-finais da competição, acabando ambas as equipas com o mesmo número de pontos (13), embora no goal-average os encarnados tenham levado a melhor. A norte, isto é, na Série 1, a sensação chamou-se Penafiel, emblema que participava pela primeira vez na competição. E melhor estreia não podiam ter tidos os durienses, já que além de terem vencido a sua série de forma destacada com 13 pontos, muito à frente dos primodivisionários Vitória de Guimarães, Leixões, e Braga (cuja equipa principal venceu nessa época a Taça de Portugal), lograram alcançar a grande final após triunfo nas mais finais sobre o vencedor da Série 2, o Marinhense. Porém, o conto de fadas penafidelense teria o seu términus precisamente no jogo decisivo, ganho pelo Benfica (vencedor da Série 3) por concludentes 9-2. Mesmo sem os seus melhores atletas em campo, tendo em conta que os habituais titulares estavam ao serviço da seleção no Mundial, o Benfica não deu tréguas a um Penafiel que nessa temporada tinha feito a sua estreia igualmente na 2.ª Divisão Nacional. A final disputou-se no Estádio da Tapadinha, em Lisboa, e há a particularidade nesta história de pela primeira vez a equipa do Penafiel ter andado de avião! Uma viagem que não foi de todo memorável, já que a aeronave que transportou os durienses para a capital saiu atrasada do Aeroporto de Pedras Rubras, chegando em cima da hora do jogo. Ao fim da primeira parte os benfiquistas já venciam por 4-1, com golos de Nélson, Yaúca, Serafim e Cavém, ao passo que para os nortenhos marcou Mendonça. Na etapa complementar o vendaval encarnado continuou, com Guerreiro e Pedras a bisarem nestes segundos 45 minutos e Serafim, com mais um golo, a selar aquela que foi a vitória mais folgada de uma equipa numa final da Taça Ribeiro dos Reis. Dourado ainda marcou mais um golo para os penafidelenses, que antes do apito inicial do árbitro setubalense Virgílio Batista presentearam os jogadores do Benfica com caixas de vinho da região. Nascimento, Severino, Raul, Malta da Silva, Luciano, Cavém, Nélson, Yaúca, Pedras, Guerreiro e Serafim foram os onze benfiquistas que arrecadaram o segundo troféu desta competição para o seu clube.

Artur Quaresma lava o Espinho à glória

Os Tigres da Costa Verde que venceram
a prova em 1967
Enquanto jogador fez parte da famosa equipa do Belenenses que em 45/46 venceu o título de campeã nacional da 1.ª Divisão, Artur Quaresma é um homem que na pele de treinador fica para sempre ligado a esta Taça Ribeiro dos Reis. Ele é o técnico com mais títulos na competição, dois, superando consagrados nomes como Bela Guttman, Jimmy Hagan, Fernando Vaz, ou José Maria Pedroto, que também ostentam no seu currículo esta taça. Depois de em 1965 ter conduzido o Beira-Mar à conquista do título, Quaresma mudou-se dois anos mais tarde para a bonita cidade costeira de Espinho, um pouco acima de Aveiro, onde conheceu pela primeira vez a glória na Taça Ribeiro dos Reis. Ao comando dos Tigres da Costa Verde, o mesmo será dizer do Sporting de Espinho, que nessa temporada havia terminado a Zona Norte da 2.ª Divisão num tranquilo 6.º lugar. Para vencer esta taça o Espinho triunfou com distinção na Série 2, somando 16 pontos e sem nenhuma derrota. Na meia final, disputada no Estádio do Mar, em Matosinhos, vitória sobre o vencedor da Série 1, o Salgueiros, e na grande final os espinhenses tinham um clube que estava em estado de graça pela recente conquista da Taça de Portugal dessa temporada, o Vitória de Setúbal.

Espinho recebido em festa
na Câmara Municipal da cidade
Nada que fizesse temer os nortenhos, a julgar pelas palavras do presidente da Assembleia Geral do clube sensação desta edição, Joaquim Moreira da Costa Júnior, ao jornal A Bola. Para o dirigente  «receber na nova sede a taça que tem por patrono um dos nossos sócios beneméritos; figura extraordinária do nosso futebol, nome inesquecível para todos nós», era o grande anseio dos Tigres nas vésperas da viagem para Lisboa. Nessa longa entrevista ao jornal da Travessa da Queimada, onde contou um pouco da história de 53 anos de vida do clube, este histórico dirigente do emblema da Costa Verde anunciava que em caso de vitória cada jogador do Espinho iria receber 1000 escudos, acrescidos, fosse qual fosse o resultado da final, de um jantar oferecido pela Direção aos jogadores que tão bem se haviam portado ao longo da época que estava prestes a findar. Pois é, houve direito a jantar e a prémio monetário, já que na final o Espinho bateu o Vitória sadino por 1-0, no Estádio da Tapadinha. Ainda antes da partida para Lisboa, Artur Quaresmas deixava nas páginas de A Bola o aviso de que «não há equipa que tema o Vitória». Mais à frente o timoneiro espinhense explicava que encarava o  jogo com sincero otimismo. «Sabemos que todo o favoritismo vai para o Vitória de Setúbal que, no papel, tem oito hipóteses a favor e uma contra. Mas do que ninguém, ou pouca, gente se lembra, é que essa nossa única hipótese pode mais depressa concretizar-se que as outras oito. (...) No futebol tudo é possível (...) De resto, um jogador que vai para uma final — e para se chegar a uma final sabe-se bem quantos obstáculos se têm de derrubar — está suficientemente mentalizado para encarar esse jogo sem complexos de espécie alguma, qualquer que seja o adversário. Posso dizê-lo que em relação aos nossos jogadores não há quem tema o Vitória de Setúbal». Artur Quaresma que criticava ainda o local da final, e o facto de o Sporting de Espinho ter de fazer mais de 300 quilómetros para disputar a final, enquanto que o adversário faria cerca de 25. «E toda a gente sabe que uma longa viagem representa mais que um jogo, pelo desgaste físico que isso provoca. Vamos, naturalmente inferiorizados, mas nem por isso perdemos a esperança da vitória, que, aliás, me parece estar ao nosso alcance. Se, todavia, formos derrotados, resta-nos a consolação de termos ido à final de uma prova que me merece desde a sua criação o maior respeito, por prestar homenagem à memória dum nome que foi grande no futebol português», dizia o técnico espinhense.

O que é certo é que Jardim contrariou o favoritismo do Vitória e o desgaste provocado pela longa viagem até Lisboa, marcando o único golo do encontro. Para a história do Espinho ficam os nomes de Jardim, Arnaldo, Alcobia, Massas, Bouçon, Capitão-Mor, Luciano, Ribeiro, Momade, Manuel Gomes, Daniel, Quim, Gonçalves, Amorim, Rebelo, Valdemar, Casal Ribeiro, Sousa, Dias, Acácio, e Meireles, os heróis que defenderam o manto sagrado dos Tigres da Costa Verde e que foram recebidos como... heróis no regresso a Espinho.

Margem sul alcança a glória (parte II)

Manuel Oliveira
Seria outro mestre da tática do futebol português a vencer a edição de 67/68 da Taça Ribeiros dos Reis, que a esta altura já era disputada por 40 equipas distribuídas por quatro séries. O seu nome é Manuel Oliveira, que resgatou a taça para a margem sul, fazendo-o ao serviço do mítico Barreirense. No campeonato da 1.ª Divisão o emblema do Barreiro não havia sido feliz, já que tinha descido de divisão nessa temporada, mas na Taça Ribeiro dos Reis a esperança reinava na margem sul, na boca de um treinador que tinha recuperado a alegria de trabalhar depois de uma passagem menos feliz pelo Belenenses, segundo disso então numa entrevista ao jornal A Bola na antevisão desta final. «Para mim o Barreirense na final da Taça Ribeiro dos Reis é motivo de grande satisfação. Primeiro porque no Belenenses eu nunca tinha tido, propriamente, uma alegria verdadeira, nem mesmo quando ganhava, e agora o Barreirense só me tem proporcionado grandes, enormes, alegrias», dizia o técnico que havia substituído no comando dos barreirenses Vieirinha. Manuel Oliveira surgia no Barreiro como uma lufada de ar fresco e mesmo não evitando a descida de divisão obteve bons resultados, sendo que em doze jogos, ganhou sete, empatou três  e só perdeu um contra o Benfica na Luz. «Vim para o Barreirense, por diversos motivos. Primeiro porque sou de opinião que um treinador deve estar em atividade, pelo menos onze meses por época. Depois, porque me ligam ao Barreirense laços de grande amizade, que vêm já do tempo em que era juvenil do meu atual clube. Depois, e este não é o motivo menos importante, porque achei que não devia deixar morrer o trabalho que Vieirinha realizou no Barreiro. O Barreirense desceu não por culpa do seu treinador mas sim pelo facto de o clube nunca ter podido contar com o seu atual plantel. Com estes jogadores que têm alinhado agora o Barreirense nunca teria descido de divisão», opinava Manuel Oliveira. Para chegar à final da Taça Ribeiro dos Reis o Barreirense havia vencido a Série 4 da prova, com 15 pontos, tendo na meia-final derrotado o Beira-Mar por 1-0. Agora, na grande final ir defrontar o clube das finais perdidas nesta extinta competição do futebol luso, o Leixões, que por duas vezes atingiu o jogo decisivo mas nunca levou o troféu para casa. Na baliza do Barreirense estava um jovem e promissor guarda-redes chamado Manuel Bento, que ao lado de nomes como Candeias, Redol, Bandeira, Patrício, Garrido, Mira, Testas, José Carlos, Eusébio e José João venceram os nortenhos por 2-0 e conquistaram o troféu pela única vez no seu historial.

O bonito troféu nas vitrinas do Vitória FC
Sob a batuta do lendário José Maria Pedroto o Vitória sadino alcançou o seu segundo título na história da competição na época seguinte. Por esta altura os sadinos eram não só uma potência do futebol nacional, como davam cartas no futebol internacional, ao fazer vergar vários colossos continentais nas provas da UEFA. O Vitória chegava à final depois de vencer a Série 4, com 16 pontos, e de derrotar nas meias finais o vencedor da Série 3, o Benfica, por... sorteio, depois de um empate a uma bola. E na final os setubalenses teriam pela frente o Peniche (vencedor da Série 2), que nessa temporada esteve prestes a subir à 1.ª Divisão. Ambos os conjuntos tinham chegado à final com alguma surpresa, isto nas palavras do jornalista Carlos Pinhão em A Bola: «Peniche e Setúbal não era efetivamente a final mais esperada. Cem efeito, a equipa do Benfica parecia à priori favorita no encontro com os setubalenses, mas o desfecho do desafio deu assim oportunidade à equipa de Pedroto de lutar pela tal "taçazinha" que os setubalenses costumam ganhar no final das épocas, mas que este ano, não pôde ser a de Portugal. Também o Peniche não parecia com muitas possibilidades de derrotar o Salgueiros, tendo em vista as classificações de ambos nos Nacionais da II Divisão».

Sairia vencedor, por 1-0, o onze sadino que alinhou na final com: Torres, Eduardo, José Mendes, Artur, Rangel, Octávio, Rebelo; Armando, Amâncio, Arnaldo e Mateus.  

Na época seguinte, 1969-70, o Vitória alcançou o único bis da história da Taça Ribeiro dos Reis, ou seja, a única equipa que conseguiu vencer a prova de forma consecutiva.

Nesta que seria a penúltima edição do certame deu-se uma inovação, ou seja, ao invés das habituais quatro séries, a competição foi dividida em sete séries, na sua maioria composta por seis equipas, sendo que os vencedores de cada grupo/série passariam para a fase dos quartos-de-final, instituída também pela primeira vez. E para colocar de novo as mãos na taça o Setúbal venceu a Série 7, eliminando nos quartos-de-final o Benfica, por 3-0, e na meia-final o Famalicão (que havia ficado isento nos quartos-de-final) por 1-0. E na final, de novo realizada no Estádio da Tapadinha, os sadinos que nessa temporada de 69/70 tiveram uma má prestação tanto no campeonato da 1.ª Divisão (10.º lugar) como na Taça de Portugal (foram afastados na 2.ª eliminatória) salvaram a época ao vencerem a Taça Ribeiro dos Reis depois de baterem no dia 22 de julho a Académica de Coimbra por 2-1.

A equipa do Benfica que venceu a última
edição da Taça Ribeiro dos Reis

O derradeiro ato da Taça Ribeiro dos Reis aconteceu em 1970/71 com o Benfica, vencedor da Série 5, a vencer no Estádio do Restelo o Braga por 3-1. Bracarenses (vencedores da Série 1) que deram luta aos encarnados na época treinados pelo inglês Jimmy Hagan, que havia conquistado o título de campeão nacional. Houve a necessidade de um prolongamento de 30 minutos, após uma igualdade a uma bola no tempo regulamentar. O Benfica, que nessa final foi treinador pela sua antiga glória dos relvados, José Augusto, levaria a melhor sobre os arsenalistas, que na época disputavam a 2.ª Divisão, por 3-1. No final, a taça foi entregue ao capitão José Torres, esse mesmo, o Bom Gigante, que neste encontro vestiu pela última vez a camisola encarnada, partindo depois para Setúbal onde iria continuar a sua brilhante carreira. Nomes como Humberto Coelho, Jaime Graça, Matine, Toni, ou Raul Águas defenderam as cores do Benfica neste último capítulo da história da Taça Ribeiro dos Reis.

Fontes utilizadas para a realização deste trabalho: A Bola, blog Alberto Hélder, site do Benfica, blog Memoria do Beira-Mar, blog Futebol Clube de Penafiel, Museu Municipal de Espinho, livro "Vitória - Do nascimento à Glória, blog Em Defesa do Benfica, blog Arquivos da Bola.

quarta-feira, agosto 10, 2022

Histórias do Futebol em Portugal (36)... A outrora gloriosa história de conquistas (nacionais) do hoje desertificado futebol alentejano

Apesar de há muito estar arredado dos grandes palcos do futebol nacional - o mesmo será dizer dos campeonatos profissionais - o Alentejo é detentor de uma rica e gloriosa história no que ao desporto rei português concerne. Lendários jogadores e famosas equipas fazem parte de um espólio que o futebol moderno parece esquecer, fruto de uma desertificação que esta lindíssima região portuguesa tem sido vítima nas décadas mais recentes. Desertificação dá azo a desinvestimento, e desinvestimento leva a um desaparecimento lento, mas contínuo. É um pouco este o cenário atual do futebol alentejano no que diz respeito aos primeiros três escalões nacionais, isto é, a I Liga, a II Liga, e a Liga 3, e se quisermos seguir com atenção um emblema daquela região temos de olhar para o Campeonato de Portugal, o atual quarto escalão do desporto rei luso. Mas nem sempre foi assim, já que o passado guarda a tal rica e gloriosa história que esta região escreveu na Grande Enciclopédia do futebol português pela mão - e pés e cabeças, sobretudo - de filhos nascidos em Évora, Elvas, Beja, Sines, Serpa, ou Campo Maior num passado mais recente. E são esses tesouros do futebol alentejano que hoje vamos não só recordar - ainda que ao de leve, porque eles são imensos - como de igual modo procurar preservar e divulgar junto de um público mais jovem que porventura poderá pensar que o Alentejo é só uma gigantesca planície desprovida de história futebolística! 

Um pouco de história para iniciar a... História

Lisboa (e zona envolvente) foi o berço do futebol em Portugal, nos finais do século XIX. A modalidade expandiu-se posteriormente para outras regiões do país, tendo o Alentejo visto pela primeira vez (que se saiba) uma bola no início do século XX, por intermédio de antigos alunos da Real Casa Pia de Lisboa. Registos históricos indicam que Évora foi a primeira localidade alentejana onde o futebol se jogou, por volta de 1908, havendo relatos de partidas disputadas no Largo da Porta de Machede. Nos anos seguintes os jogos multiplicaram-se na capital do Alto Alentejo, muito por ação dos alunos da Casa Pia de Évora, que tal como os seus congéneres da mesma instituição de Lisboa tiveram um papel preponderante na dinamização da modalidade em toda a região. Em 1909 é fundado em Évora o primeiro clube da cidade dedicado à prática do futebol, o Évora Sport, um emblema composto por operários que disputavam os seus encontros no Largo da Graça. O desporto foi crescendo, novos grupos foram surgindo, e em 1917 é fundada a Liga Eborense de Football, tendo como filiados o Lusitano, o Ateneu, e a Casa Pia de Évora. Esta entidade, quase uma década depois, viria a dar origem à atual Associação de Futebol de Évora.

Um jogo do Lusitano de Évora na 1.ª Divisão
Foi porém noutra grande cidade alentejana que em 1911 foi fundada a segunda associação de futebol mais antiga do país. Em Portalegre, a 29 de outubro do referido ano é criada a Associação de Futebol de Portalegre (AFP), a segunda mais antiga de Portugal - a seguir à Associação de Futebol de Lisboa -, tendo este organismo sido um três fundadores da Federação Portuguesa de Futebol. Na génese da AFP estiveram o Grupo de Bombeiros Voluntários de Portalegre, o Grupo de Bombeiros Voluntários Robinson, o Sport Clube Portalegrense e o Sport Clube Esperancense, entidades que ajudaram a dinamizar o futebol por todo o distrito. Mas houve um homem que pelo seu conhecimento - e talento - do jogo teve um papel fundamental na cimentação da modalidade na região. Leopoldo Mocho, o seu nome. Nascido em 1889, em Arronches, uma vila raiana do distrito de Portalegre, o primeiro ídolo futebolístico desta região cedo viajou para Lisboa no sentido de estudar na Real Casa Pia. Ali terá travado conhecimento com o Belo Jogo, e com muitos dos homens que em 1904 fundaram o Sport Lisboa - futuro Sport Lisboa e Benfica. Mocho seria um dos primeiros jogadores do clube encarnado, ao lado de Cosme Damião, Félix Bermudes, Manuel Goularde, entre outros. No início da década de 10, Leopoldo Mocho regressou a Portalegre para se empregar nos CTT daquela cidade, transferindo-se mais tarde para a estação de correios da sua terra natal, tendo nesses anos desempenhado um papel fundamental na fundação da AFP. Mas não só, pois ele foi de igual modo o responsável pela fundação, também em 1911, da primeira filial do Sport Lisboa e Benfica, no caso o Sport Lisboa e Portalegre. Muitos dos grandes êxitos do futebol alentejano ao longo das décadas seguintes seriam conquistados por clubes oriundos deste distrito, como mais à frente iremos constatar. Foi neste distrito que nasceu aquela que porventura é a maior figura de todos os tempos do Alentejo em termos desportivos, não só no que ao futebol diz respeito, mas também noutras modalidades. Cândido de Oliveira, para sermos mais precisos. Ele nasceu na vila de Fronteira, a 24 de setembro de 1896, sendo que por ser órfão de pai, em junho de 1905 foi admitido na Real Casa Pia de Lisboa, onde foi aluno interno e aí se formou para a vida e para o desporto.

A casa onde nasceu Cândido de Oliveira, em Fronteira

Em 1915 o futebol chega a outra das três maiores urbes alentejanas, Beja, pese embora hajam relatos de que a modalidade terá chegado à capital do Baixo Alentejo em 1906. Foi nesta cidade que nasceu um dos primeiros grandes clubes alentejanos, o Luso Sporting Clube, fundado em 1916, e que surge da génese do Águia, o primeiro clube a ser fundado na cidade e que se extinguiu em 1918. O Luso foi um clube eclético e ativo participante nas principais provas do futebol nacional. Em 1947, juntamente com o União Sporting Clube e o Pax Júlia Atlético Clube, funde-se num só clube, criando o Clube Desportivo de Beja, atualmente o maior clube da cidade.

A estreia do Alentejo na 1.ª Divisão Nacional

O jogo de estreia do SL Elvas na 1.ª Divisão 
aconteceu em Olhão
Coube ao distrito de Portalegre a honra de na temporada de 1923/24 inscrever uma equipa sua, no caso o União Portalegrense, na então única competição de âmbito nacional, o Campeonato de Portugal. A edição inaugural da 1.ª Divisão Nacional - atual I Liga - surgiria sensivelmente uma década depois, mas seria preciso esperar até à temporada de 1945/46 para ver uma equipa alentejana no mais alto escalão do futebol luso. Tal feito seria alcançado pelo Sport Lisboa e Elvas (filial do Benfica), que apenas dois anos mais tarde se juntou ao vizinho e rival da cidade, o Sporting Clube Elvense (filial do Sporting), para fundar O Elvas Clube Alentejano de Desportos. Esta fusão tem uma história que o jornal A Bola em 9 de junho de 1955 faz eco: «A rivalidade entre as filiais dos dois poderosos clubes da capital (Lisboa) atingira, nessa altura, uma agudeza que estava muito longe de se conciliar com a beleza da ideia desportiva. A tal ponto se levou então a mórbida paixão clubista, que os encontros entre os dois antagonistas locais (de Elvas) se transformavam, por vezes, em fonte de perturbações de certo vulto. O «Jornal de Elvas», reflectindo o estado de espírito das pessoas sensatas, que as havia nos dois campos opostos, dizia pela pena do seu director, ai propósito da fusão: "A Elvas não interessa uma rivalidade que, afinal, bem vistas as coisas à luz de um critério imparcial, está tornando o desporto local numa antipática luta de cores que já não distingue amizades e na qual nem o bom senso nem a inteligência conseguem ter mão"». É nesse seguimento de apaziguamento das hostes elvenses que a 23 de setembro de 1947 é fundado O Elvas CAD, que viria a tornar-se num dos principais emblemas do Alentejo nas décadas seguintes. 

Sporting - SL Elvas, no Nacional
da 1.ª Divisão de 45/46 
Mas antes deste emblema ver a luz do dia seria um dos seus progenitores, o SL Elvas, a levar o nome da região pela primeira vez ao escalão mais alto do futebol nacional. A estreia não foi feliz, já que na primeira ronda do Nacional da 1.ª Divisão de 45/56, o clube do distrito de Portalegre foi derrotado em Olhão por 4-1 diante da equipa local. Sobre este encontro, o jornalista Tavares da Silva escrevia na revista Stadium que «os algarvios conseguiram, na primeira parte, pelo menos, um domínio quase absoluto. (...) O Elvas, de atitude passiva na primeira parte, passou para uma orientação activa. Logo no abrir do tempo, forçando a ofensiva, conquistou o empate emprestando ao encontro o interesse que provém da incerteza do resultado, e obrigando o antagonista a dar-se generosa e completamente ao jogo. Abrindo o seu futebol - o Elvas viu-se batido com mais facilidade do que antes do intervalo. Nem admira. Já os jogadores não estavam tão aglomerados em frente das redes e as reações e contra-ofensivas do Algarve, team de melhor técnica, despedidas em comunhão de esforços, encontraram o ponto vulnerável. O onze mais apurado venceu, mas o Elvas continua a mostrar-se um conjunto de fibra e de vida ardente». A primeira vitória do SL Elvas, e consequentemente de um clube alentejano, na 1.ª Divisão Nacional aconteceu na 2.ª jornada deste campeonato. O campeão de Aveiro, a Sanjoanense, foi então copiosamente goleada no Alentejo por 8-0. Tavares da Silva escreveria na Stadium que «Na segunda parte, o Elvas caiu a fundo, e falou o saber e o futebol de conjunto. Neste tempo, os elvenses evolucionaram com brilho no ataque, desmarcando-se todas as suas unidades com perfeição».

Patalino
Esta foi uma das nove vitórias que os elvenses conseguiram naquele campeonato, alcançando com mérito e reconhecimento da elite do futebol luso a manutenção, como se pode testemunhar numa entrevista da antiga lenda benfiquista Alfredo Valadas, aquando de uma visita do SL Elvas à capital. Nessa entrevista à Stadium, conduzida pelo jornalista Fernando Sá, Valadas caracterizava a estreante turma alentejana como um conjunto que na sua voz era formado por jogadores habilidosos e rijos. «Estas duas qualidades constituem o ponto de partida para se obter o bom rendimento de uma equipa - para mais se, como sucede no Elvas, o grupo é formado por jogadores novos». Valadas citava nomes como Rosário, Virgílio, Neves, Toninho, Henrique e Oliveira, como atletas em que eram depositadas as melhores esperanças para o futuro. Mas havia atletas mais experientes que davam um toque de classe a esta equipa, casos de Massano, Rebelo, e Patalino. «São dos que mais se têm evidenciado. Mos todos os componentes do grupo dão bom rendimento. Reconheço-lhes boas qualidades e registo um pormenor que ajuda sempre o trabalho do treinador e aos bons resultados de um team: boa vontade e espírito de colaboração entre todos os jogadores», dizia Alfredo Valadas.

Patalino foi provavelmente o maior jogador que o Alentejo produziu no que a futebol diz respeito. Sobre ele já dedicámos longas linhas em viagens passadas, mas nunca será por demais recordar que este talentoso avançado, que chegou a internacional, nasceu em Elvas e o amor ao clube da sua terra fê-lo recusar ao longo da sua carreira propostas tentadoras de clubes como o Bordéus, o Atlético de Madrid, ou o gigante vizinho - deste - Real Madrid. Diz quem com ele de perto privou que era um homem simples, ingénuo, até, bem diferente do rápido, fogoso, e viril jogador que assombrava as balizas adversárias. Na pacatez de Elvas ele era feliz, despindo a glória e a fama angariadas nos muitos campos de futebol por onde passeava a sua classe.

Évora conquista os primeiros títulos nacionais

A equipa do Juventude campeã 
nacional da 3.ª Divisão em 1951
O distrito de Portalegre pode ter tido o privilégio de ser a casa do primeiro clube alentejano a pisar o palco da 1.ª Divisão Nacional, de ser o berço do melhor jogador alentejano da história (Patalino), mas as primeiras conquistas, vulgo títulos, são pertença da cidade de Évora. E neste ponto a extinta e saudosa 3.ª Divisão Nacional é a praia, por assim dizer, dos clubes alentejanos, já que a esmagadora maioria dos cetros nacionais conquistados foram neste escalão.

E o primeiro deles surgiu na temporada de 1950/51 por intermédio de um dos dois filhos de Évora, no caso o Juventude. Ao vencer a 1.ª fase da Série 6 da 3.ª Divisão, os azuis e brancos da capital do Alto Alentejo qualificaram-se para a fase final, não só com o intuito de discutir a subida de divisão, como também o título de campeão. Na 2.ª e decisiva fase começaram por derrotar os algarvios do Silves (7-0 no conjunto das duas mãos), seguindo-se na meia-final o Cova da Piedade por um total de 8-5. E na grande final, disputada a 18 de março de 1951, o Juventude defrontou a Sanjoanense, tendo o encontro terminado empatado a três bolas (após prolongamento), obrigando assim a uma finalíssima, que seria realizada dois dias mais tarde em Santarém, no Campo das Pedreiras. Na primeira final os golos dos eborenses foram da autoria de João Mendonça (2) e Mana.  E no tira teimas o Juventude levou a melhor, vencendo por 1-0, golo da autoria de João Mendonça, que executou de forma superior um livre direto.

Para a história deste clube e do próprio futebol alentejano ficam nomes como António Maria, Mochila, Serra, Martins, Eduardo, Jorge Santos, Casimiro, Rogério Contreiras, Daniel, Lampreia, João Mendonça, ou Gomes.

Na temporada seguinte, e já na 2.ª Divisão, o Juventude continuava nas bocas do país pelo futebol vistoso que praticava, de tal modo que num jogo a contar para a Taça de Portugal, ante o Atlético, disputado na Tapadinha, um jornalista disse «tinham florido malmequeres na Tapadinha dada a categoria do futebol praticado pelos alentejanos». Na verdade, os experts do futebol português de então afirmaram que na época de 51/52 a equipa que melhor futebol praticou em Portugal foi o Juventude de Évora, pelo que foi denominada como equipa maravilha, a qual tinha nomes como Casimiro, o argentino Bucheli, Serra, Pinto de Almeida, Rogério Contreiras (ex-Benfica), Jorge Santos, Passos, Matos, João Mendonça, Fernando Mendonça e Chitas.

O Lusitano de Évora que em 1952
se sagrou campeão nacional da 2.ª Divisão
1951/52 é pois uma época memorável para o futebol eborense, não só pelo facto do Juventude encantar plateias com o seu futebol, mas também porque o outro filho futebolístico da cidade, o Lusitano, conquistou o título de campeão nacional da 2.ª Divisão. E pode dizer-se que esta glória dos verde-e-brancos teve um sabor muito especial, pois foi arrecadada, de certa forma, à custa do vizinho e rival Juventude. As duas equipas competiram na 1.ª fase da 2.ª Divisão, na Zona D deste escalão - na altura o segundo escalão do futebol luso era disputado em três fases.

Juventude e Lusitano disputavam taco a taco o acesso à 2.ª fase do campeonato, que lhes podia assegurar a subida à 1.ª Divisão.

No Estádio Sanches de Miranda, casa do Juventude, os dois rivais disputaram um dos mais empolgantes dérbis de Évora de que há memória. O Lusitano vencia ao intervalo os seus vizinhos por 4-1, sendo que no reatamento a tal equipa maravilha do Juventude, fez uma recuperação extraordinária, levando o resultado para uma diferença mínima. Nos instantes finais os campeões nacionais da 3.ª Divisão da temporada anterior beneficiariam de uma grande penalidade, a qual foi convertida e selaria o marcador num fantástico e inesquecível 5-5. O equilíbrio entre os dois rivais foi de tal maneira vincado que ambos chegariam ao final desta 1.ª fase em igualdade pontual na tabela classificativa, com 28 pontos. Porém, o Lusitano levou a melhor no desempate no goal-average (marcou 66 golos contra 64 do Juventude), e qualificou-se assim para a fase seguinte do campeonato, ao passo que o rival ficava pelo caminho.

O Benfica numa visita a Évora nos anos
em que o Lusitano estava na 1.ª Divisão
Na fase intermédio ao classificar-se em segundo lugar, atrás do Vitória de Setúbal e à frente de União de Montemor e da CUF, o Lusitano avançou para a 3.ª e decisiva fase da prova, onde iria lutar pela subida de divisão e pelo título de campeão. Conduzidos tecnicamente pelo argentino Anselmo Pisa os alentejanos venceram a poule, com 9 pontos, superando Vitória de Setúbal, Torreense e União de Coimbra, sagrando-se assim campeões nacionais da 2.ª Divisão e logrando chegar à 1.ª Divisão, onde fariam história. E porquê? Porque hoje o Lusitano é tão somente o clube do Alentejo com mais presenças no principal escalão do futebol português: 14 épocas consecutivas! 364 jogos disputados entre os grandes, 116 vitórias, 64 empates, e 184 derrotas, são alguns dos números dos verde-e-brancos na elite do futebol luso. Esta longa permanência entre a elite do futebol lusitano transformou este clube numa bandeira de todo o Alentejo. Jogadores como Falé, Dinis Vital, José Pedro, José Cardona, Teotónio, Mitó, Paixão, entre muitos outros levaram e honram o nome da cidade e da região por todo o país com as cores do Lusitano de Évora.

Distrito de Portalegre chama a si a glória (parte I)

O futebol alentejano vivia, na década de 50, dias de glória, e mais um exemplo disso foi a conquista do título de campeão nacional da 3.ª Divisão por um dos seus emblemas mais sonantes, O Elvas Clube Alentejano de Desportos. A equipa venceu sem espinhas, como se diz na gíria popular, a Série 7 do citado escalão na temporada de 1954/55, com oito triunfos em outros tantos jogos disputados, facto que a levou à disputa da fase final - disputada na época em sistema de eliminatórias.

O Elvas que em 1955 trouxe o primeiro título
nacional da 3.ª Divisão para o Alentejo
Nos quartos-de-final a vítima dos elvenses foi o Silves, que no conjunto das duas mãos da eliminatória foi derrotado por 5-2.  Seguiu-se o Seixal, que nas meias finais obrigou os alentejanos a um jogo de desempate, o qual seria ganho por 3-1. E na final O Elvas defrontaria o Desportivo de Chaves, no Estádio Municipal de Coimbra. Em entrevista ao jornal A Bola, de 4 de junho de 1955, o jogador/treinador Luís de Sousa dizia que «a equipa está fortemente moralizada, mas necessita de trabalhar muito na próxima competição, pois conta com elementos muito jovens, mas de real valor», Sobre a final de Coimbra ... «vai ser bem disputada, pois o Chaves deve ser adversário difícil. Está convencido de que a vitória não escapará à sua equipa, que neste momento se encontra em boa forma. Será para mim grande alegria trazer para Elvas o título de campeão da III Divisão. Isso seria um remate feliz da minha longa carreira desportiva, pois tenciono retirar-me, no final desta época, das lides futebolísticas». Questionado se queria emitir um prognóstico para a final de Coimbra, Luís de Sousa respondeu que «nunca faço prognósticos, porque não gosto de armar em bruxo. Apenas lhe posso afirmar que vamos a Coimbra dispostas a ver a bela "sultana do Mondego" e... a fazer tudo para que Elvas volte a viver horas de intenso entusiasmo». 

E assim foi. O Elvas venceu o Chaves por 2-1 e sagrou-se campeão nacional. A Bola escrevia que esta foi uma «vitória do melhor dos finalistas. O êxito do O Elvas foi nítido e claro e só não foi mais expressivo porque a linha avançada alentejana hábil e revolta fez cerimónia a visar a baliza do opositor. Em qualidade e quantidade de jogo os elvenses superaram largamente o adversário que se entregou de modo surpreendente quase sem um assomo de reacção».

Na chegada a Elvas a taça de campeão nacional andou de mão em mão em clima de natural euforia. «Logo que a caravana de O Elvas chegou às portas da cidade, às 6 horas da manhã de segunda-feira, jogadores e dirigentes foram envolvidos por uma chuva de abraços e de aplausos que pareciam não ter fim, enquanto no ar estralejavam foguetes a anunciar que os campeões já estavam de regresso», escreva o jornal da Travessa da Queimada na sequência deste título. Eurico Gama, presidente do clube e em simultâneo diretor do Jornal de Elvas, dizia à reportagem de A Bola que «sinto-me emocionado, radiante, feliz por ser na minha gerência que O Elvas conquistou pela primeira vez um titulo nacional. Lutámos com imensas dificuldades, passámos duros momentos e horas muito amargas, sobretudo, quando as deslocações eram longas e caríssimas. Graças a Deus, tudo torneámos e conseguimos, finalmente, o nosso objectivo». Nomes como Semedo (guarda-redes), Pedras, Nanque, Romão, Oliveira, Justino, Costal, Velasquez, Conceição, Balola, César, o já referido Luís de Sousa, entre outros, ficaram assim perpetuados na história deste clube e da região.

Baixo Alentejo também experimenta o sabor das vitórias nacionais

FC Serpa foi o primeiro emblema 
Baixo Alentejo a conquistar um título nacional
Dois anos mais tarde o título de campeão nacional da 3.ª Divisão fez uma viagem até ao Alentejo mais profundo. Já bem perto de terras algarvias situa-se o Município de Serpa, que na temporada de 1956/57 escreveu a página mais brilhante da sua vida desportiva ao ver o seu clube sagrar-se campeão nacional do terceiro escalão. Este foi igualmente o ponto alto da história do Futebol Clube de Serpa, coletividade que em 56/57 se classificou em 1.º lugar da Série 8 da 3.ª Divisão, garantindo assim a presença numa fase intermédia em que voltou a ocupar o lugar mais alto do pódio, superando nomes de peso do futebol alentejano de então, como O Elvas, ou o Estrela de Portalegre. Estes sucessivos êxitos permitiram ao Serpa disputar a fase final da 3.ª Divisão Nacional, juntamente com o Ateneu de Leiria, o Vila Real, e o Águia Vilafranquense. Na antevisão desta fase final, o presidente dos alentejanos, Oliveira Pombeiro, dizia à A Bola que a sua equipa  encontrava-se «bem apetrechada e fortemente moralizada, pois em toda a presente época, ainda uma só vez conheceu a derrota. Contamos com 16 jogadores de primeira categoria, cuja orientação desde meados do mês passado, está a cargo de Josef Fabian que se tem mostrado inteiramente à altura, não só pela sua competência profissional, como ainda pelo seu trato afável e que tem conquistado a maior simpatia de todos: directores, jogadores e massa associativa». Sobre as possibilidades da sua equipa para esta fase final, o líder do clube era perentório em afirmar que «embora desconhecendo o valor do adversário que nos coube para a disputa da meia final, tenho a maior confiança na minha equipa. Espero, confiado, que ela chegue, pelo menos, até à final, o que já será suficiente para ascender de divisão». Mas o FC Serpa fez bem mais do que isso. Na meia-final bateu no conjunto das duas mãos, por 6-1 o Águia Vilafranquense, qualificando-se não só para a final como também garantindo a tal promoção à 2.ª Divisão. E na grande final, disputada em Coimbra, o Serpa venceu o Vila Real por 2-0, com golos de Teixeira da Silva e Coureles, que se juntam a outros nomes como Garcia, Eduardo, Manuel Baião, Sardinha, Diamantino, Fidalgo, Picareta, Célio, Manolo, e... Patalino, esse mesmo, o maior futebolista alentejano de todos os tempos que então (com 37 anos) dava os últimos passos da sua brilhante carreira.

O Vasco da Gama de Sines tornou-se em 1980
a primeira - e única - equipa do litoral alentejano
a vencer um título nacional

Seria preciso esperar mais de duas décadas, 23 anos para sermos mais precisos, para ver de novo uma equipa do Baixo Alentejo, ou neste caso, da Costa Vicentina, celebrar um título de campeão nacional do terceiro escalão. E esse feito foi alcançado por uma terra de conquistadores, ou de um grande conquistador, de seu nome Vasco da Gama, célebre figura da História de Portugal que viu a sua terra natal, Sines, escrever o seu nome no mapa futebolístico nacional por intermédio do seu homónimo, o Vasco da Gama Atlético Clube. Em 1979/80 este emblema começou por vencer a Série F do terceiro escalão, com 50 pontos, qualificando-se para a 2.ª fase/sul, onde na qual iria novamente ascendeu ao lugar mais alto do pódio, levando a melhor sobre emblemas como o Lusitânia e o Cartaxo. Este primeiro posto permitiu ao Vasco da Gama disputar a final do campeonato, onde venceria a Sanjoanense, por 1-0, conquistando o primeiro de dois títulos de campeão nacional da 3.ª Divisão. Canastra, Belchior, Toca, Frutas, René Só, Tito, Orlando, Sargaço, e Jorge Roçadas, foram alguns dos nomes que contribuíram para este primeiro êxito do emblema vicentino. Desta geração de campeões, Roçadas foi quiçá aquele que teve maior êxito nos anos vindouros, já que de Sines viajou para paragens de "primeira", como por exemplo Setúbal, onde defendeu o emblema do Vitória na 1.ª Divisão ao longo de cinco temporadas.

O segundo título nacional deste escalão viria na temporada de 1990/91. Na 1.ª fase da competição, o Vasco da Gama venceu a Série F, com 49 pontos, seguindo-se um novo primeiro lugar na 2.ª fase da zona sul, com cinco pontos, facto que fez com que se apurasse para a final da competição. Final essa onde bateu o Lourosa por 4-2, fazendo parte deste êxito Kudeca, Caixeirinho, Canastra, René Menezes, Bezica, René Só, Fortes, João Canhoto, entre outros.

O título da 3.ª Divisão Nacional foi em 94/95
para Beja, pela mão do Desportivo 
A última conquista de um emblema do Baixo Alentejo no Campeonato Nacional da 3.ª Divisão, antes de ele ser extinto em 2013, aconteceu em 1994/95, altura em que o Desportivo de Beja se sagrou campeão. Fundado em 1947, este emblema rapidamente se impôs a nível nacional, marcando presenças sucessivas na 3.ª Divisão - entre 1966 e 1979 o Desportivo disputou, de forma consecutiva, este escalão - e pontualmente na 2.ª Divisão. Os anos 80 foram de alguma turbulência, com alternâncias entre os campeonatos nacionais e os distritais de Beja, até que o sobe e desce constante acabou com a chegada à presidência de José António Chalaça. Foi sob a sua alçada que o Desportivo viveu na década de 90 a melhor fase da sua história, sendo que um ano após a sua eleição, Chalaça leva o clube à conquista do seu único título de campeão nacional até à data, o da 3.ª Divisão. Depois de vencer a Série F, o emblema venceu a fase intermédia/zona sul, à frente de Mafra e Machico, qualificando-se para a final do campeonato, disputada em Torres Novas, onde viria a vencer Sporting de Lamego, por 1-0. Carlos Agatão, Mohammed Sbae, Guerreiro, ou Grosso são alguns dos nomes que faziam parte de um clube que nos anos seguintes sonhou com voos mais altos. Na época seguinte, o Desportivo disputou 2.ª Divisão B, tendo José António Chalaça apostado todas as fichas numa nova subida, desta feita à recém criada Divisão de Honra ao contratar o treinador Diamantino Miranda. Este sairia pouco antes do Natal, por alegados incumprimentos financeiros e divergências com o ambicioso presidente, e para o seu lugar chegou o histórico treinador Manuel de Oliveira. Esta incontornável figura do nosso futebol carimbou a subida a subida à Divisão de Honra, na altura o segundo escalão do futebol nacional, contando com isso com a ajuda de peso de jogadores como Nunes (ex-Benfica) e Morato, (ex-Sporting). Em apenas dois anos Chalaça levava o clube da 3.ª Divisão - com um título de campeão nacional no bolso - à Divisão de Honra. O presidente queria mais, queria a 1.ª Divisão, e para isso abriu os cordões à bolsa e contratou figuras experientes e sonantes do então futebol luso, como Edmundo e Hernâni, ambos ex-Benfica, e Vado, ex-jogador do Marítimo e do Braga. Para treinar a equipa chegava José Torres, o Bom Gigante, que nem 10 anos antes havia levado Portugal à fase final do Mundial de 1986. A ambição de Chalaça revelou-se demasiado grande para o clube, que caiu logo a seguir de novo na 2.ª Divisão B, deambulando entre os nacionais e os distritais até aos dias de hoje.

Distrito de Portalegre chama a si a glória (parte II)

O Portalegrense, que em 1976 venceu o
primeiro dos seus dois títulos nacionais
da 3.ª Divisão
Antes de Desportivo de Beja e Vasco da Gama trazerem para o Alentejo mais três títulos de campeão nacional da 3.ª Divisão, já o Distrito de Portalegre guardava nas suas vitrinas mais um cetro deste escalão. Facto ocorrido na temporada de 1975/76, quando um dos filhos de Portalegre, no caso o Desportivo Portalegrense, venceu o seu primeiro de dois títulos nacionais. Portalegre era naqueles anos pós 25 de Abril de 1974 uma cidade tranquila, com cerca de 12.000 habitantes, cujos corações estavam divididos pelo Club Desportivo Portalegrense e pelo Estrela de Portalegre. Numa longa reportagem publicada a 5 de junho de 1976 nas páginas de A Bola, o jornalista Vítor Serpa abordava esta rivalidade, desde logo sob o ponto de vista social, em que dizia que o Estrela era um clube de menores possibilidades, que atraia a si as classes baixas/operária da cidade, ao passo que o Desportivo, era o clube dos grandes senhores da terra, dos que não sofriam com a falta de dinheiro. Prova de que o Desportivo Portalegrense era mais abastado está o facto de na altura ter já nove atletas profissionais, aspeto relativamente novo para a realidade do terceiro escalão do futebol português nos anos 70. Sócios eram cerca de 1100, que mensalmente depositavam nos cofres do clube, 25 contos, fruto da quotização. Por estes dias o Desportivo gastava 120 contos com o futebol sénior, uma fortuna para aquele tempo. João Mourato, dirigente de então do clube, dizia que com muito trabalho da equipa diretiva, com quotas suplementares, com algumas rifas, e com a organização de alguns bailes o seu emblema lá ia conseguindo levar o barco a bom porto. O sacrifício era enorme, mas entre ter jogadores amadores, a baixo custo, e andar pelos distritais, ou ter atletas profissionais, pagos, e ter como meta a subida de divisão, os sócios do clube haviam escolhido esta segunda via, de acordo com a entrevista daquele dirigente ao jornal A Bola. Foi esta aposta que ajudou o Portalegrense a atingir a glória na temporada de 75/76. Venceram a Série C da 3.ª Divisão, com 57 pontos, os mesmos que o Odivelas, embora os alentejanos tivessem ficado no primeiro lugar pela melhor diferença entre golos marcados e sofridos. Na fase final, começaram por bater nas meias finais, disputadas a duas mãos, o Vasco da Gama de Sines, por um total de 7-5, ao passo que no dia 10 de julho de 1976 derrotaram em Tomar o União de Coimbra, por 4-0, sagrando-se campeões nacionais. Figueiredo, Gilberto, Catinana, Vitor Nozes,  Rodrigues; Nelo, Humaitá, Zinho, Arnaldo José, Orivaldo e Mulatinho, foram os heróis dessa histórica tarde e dessa inesquecível temporada.

«Os azuis, que por acaso nessa tarde alinharam de branco, entraram em campo e a verdade é que não pareciam nada intimidados, nem com o ambiente contrário, a relva desconhecida, a fama do adversário, enfim todos esses clássicos argumentos com que é costume justificar as derrotas. O encontro foi magnífico e creio que não mais se apagará da memória dos espectadores (...) Uma certa simpatia que, apesar, dos "denodados" esforços de alguns, muitos portalegrenses sentem pelo seu Desportivo foi nesse dia amplamente compensada pela proeza daquela equipa humilde, nada favorita, que deu uma autêntica lição de futebol e conquistou o mais significativo troféu da história do clube», assim escrevia o jornal Fonte Nova (de Portalegre) no rescaldo deste triunfo.

Em 1987/88 o clube de Portalegre repete o feito. Após vencer de forma isolada a Série D, com 62 pontos, qualifica-se para a 2.ª fase/zona sul onde leva a melhor sobre o Juventude de Évora e o Olivais e Moscavide. Na final, defronta o Luso, em Penafiel, tendo vencido por 1-0. Na base deste novo título de campeão nacional estiveram nomes como Carlinhos (capitão dessa equipa), Costa Almeida, Alcino, José Carlos, ou Semedo.

Campomaiorense, campeão Nacional
da Divisão de Honra na época de 96/97
A nossa viagem pela história das conquistas do futebol alentejano chega ao fim já no novo milénio, através do último clube da região a pisar não só os palcos primodivisionários do futebol lusitano, como também o primeiro - e único até à data - a atingir uma final da Taça de Portugal, o Sporting Clube Campomaiorense. Depois do Lusitano de Évora, nas décadas de 50 e 60, de O Elvas na década de 80, o emblema de Campo Maior foi o terceiro clube alentejano a participar na 1.ª Divisão, e o segundo pertencente ao Distrito de Portalegre. Fundado em 1926 só nos anos 70 é que esta coletividade se conseguiu fixar nos campeonatos nacionais, onde permaneceu - na 3.ª Divisão, mais concretamente - até finais da década seguinte. Este feito, se atendermos ao facto de falarmos de um clube com parcos recursos económicos, foi alcançado muito graças ao esforço e investimento da família Nabeiro, a dona do império dos Cafés Delta, sediado em Campo Maior. Primeiro sob a presidência do hoje comendador Rui Nabeiro, que entre 1979 e 1990 guiou os destinos do clube, e dali em diante com a gestão do seu filho, João Nabeiro, que guia o clube na fase mais brilhante da sua história. Com o apoio - dinheiro - dos Cafés Delta, o objetivo passa por colocar no espaço de cinco anos o clube ao mais alto patamar do futebol nacional, a 1.ª Divisão. Em 90/91 o emblema sobe à 2.ª Divisão B, e na temporada seguinte ascende à Divisão de Honra, sagrando-se campeão nacional deste escalão, pese embora tempos mais tarde um problema burocrático lhe tenha retirado essa conquista do palmarés. A partir 92/93 o clube estabelece alicerces na Divisão de Honra, e na temporada 94/95, sob o comando da antiga glória do Sporting, Manuel Fernandes, o Campomaiorense classifica-se em 2.º lugar da Divisão de Honra e garante a história subida à 1.ª Divisão Nacional. O Alentejo estava assim de regresso ao topo.

Na temporada seguinte a inexperiência dos homens de Campo Maior entre os grandes pagou-se cara, e o clube desceu da elite do futebol português. Mas por pouco tempo, já que com Diamantino Miranda ao leme o Campomaiorense sagra-se em 1996/97 campeão nacional da Divisão de Honra e garante uma nova subida ao escalão principal.

Figuras como Portela, Abel Silva (campeão do Mundo sub-20 em 1989 por Portugal), Jorge Ferreira, Stoilov, Stefan, Fernando Gonçalves, Jorginho, entre outros estiveram na base daquele que foi o único título de campeão nacional - validado - dos alentejanos de Campo Maior. Desde 1997/98 até 2000/01 o clube permaneceu entre os grandes do futebol nacional. O Campomaiorense contabiliza cinco presenças na 1.ª Divisão, tantas como O Elvas, o outro clube dos distrito que marcou presença no escalão maior.

Final da Taça de Portugal de 1999
Pelo meio, em 1998/99, o Campomaiorense viveu outro momento grande da sua história e do próprio futebol alentejano, ao tornar-se no primeiro clube da região a marcar presença na final da Taça de Portugal. Para chegar ao Jamor, os alentejanos deixaram pelo caminho o Braga, o Penafiel, o Alverca, o Marítimo, e o Esposende.

13 de junho de 1999 e pois um dia histórico para o Alentejo, tendo muitos alentejanos, com o apoio mais uma vez dos Cafés Delta, marcado presença em força no mítico Estádio Nacional. O adversário era o Beira-Mar, que nessa temporada até tinha descido da 1.ª para a Divisão de Honra. Na relva da catedral do futebol português os alentejanos apresentaram Paulo Sérgio, Quim Machado, Marco Almeida, Rene Rivas, Basílio, Mauro Soares, Nuno Campos, Rogério Matias, Isaías; Demétrios e Laelson, sendo que o técnico José Pereira lançou ainda em jogo Vítor Manuel e Wellington. Nomes que ficam guardados na história do futebol alentejano. E esta história não foi ainda mais bonita porque o Beira-Mar levou a taça para casa, fruto de um único golo de Ricardo Sousa.

Esta foi a última imagem de uma região cujo futebol parece hoje esquecido no tempo, mas guarda uma histórica riquíssima, que merece louvores, e mais do que isso deve permanecer na memória de todos aqueles que amam o futebol.