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segunda-feira, maio 12, 2025

Histórias do Futebol em Portugal (50)... Pontapé de saída da 1.ª Divisão Nacional portuguesa deu-se há 90 anos

Manchete de Os Sports, dando conta
do arranque dos campeonatos

20 de janeiro de 1935. 15H00, mais minuto, menos minuto, e a bola rola pela primeira vez no Campeonato Nacional da 1.ª Divisão. Neste dia dava-se o pontapé de saída do escalão maior do futebol português. Noventa primaveras cumpriram-se no início deste ano de 2025 deste momento histórico do futebol luso. Coimbra, Porto e Lisboa foram as cidades onde nesse longínquo dia se jogou a 1.ª jornada daquela que é hoje em dia a competição mais importante do calendário futebolístico português. Recorrendo às páginas do extinto Diário de Lisboa (DL), iremos recordar um pouco as incidências de cada um dos quatro desafios que preencheram a ronda inaugural de uma «inovação de que muito há a esperar para bem do “apuramento” do jogo “association” em Portugal», assim dava conta o DL na sua edição desse (hoje) histórico dia. Olhando na diagonal para os resultados dos quatros jogos podemos chegar à conclusão que as equipas de Lisboa levaram a melhor sobre as suas adversárias do Porto e de Coimbra: duas vitórias e outros tantos empates averbados. Mas olhando mais a fundo as incidências dos matchs, vemos mais do que isso. Vemos a mestria e preponderância na manobra das respetivas equipas de alguns dos grandes jogadores do futebol português das décadas de 20 e 30, casos do sportinguista Soeiro, do belenense José Reis e do benfiquista Alfredo Valadas. Eles foram, e no rescaldo de uma leitura pelas quatro crónicas dos desafios, as estrelas daquela tarde histórica de 20 de janeiro de 1935. Já veremos porquê.

Dois fantasmas futebolísticos do presente esgrimam argumentos no também (hoje) fantasmagórico Estádio do Lima

A equipa do Académico do Porto
na época de estreia da 1.ª Divisão

Iniciamos esta viagem pelo primeiro dia de vida da 1.ª Divisão Nacional – hoje denominada de Liga Portugal, acrescida do nome do patrocinador, coisa que naquele tempo nem se imaginava que viesse a acontecer! – no norte do país, no Porto, onde dois emblemas cujo futebol – enquanto modalidade – já não existe nos dias de hoje, mediram forças numa das primeiras grandes catedrais do futebol português, o Estádio do Lima. No seu esplendoroso relvado evoluíram o Académico do Porto e o União de Lisboa. Os homens da capital entraram mais decididos no encontro, dispuseram de oportunidades para abrir a contagem, até que à passagem dos 20 minutos Gerardo Maia aproveita uma confusão na área academista para fazer o primeiro da tarde no Lima. A partir daqui, assiste-se a uma luta a meio campo, com os portuenses a deterem o controlo dos acontecimentos, sendo que quatro minutos volvidos dos festejos dos unionistas um cruzamento para a área lisboeta termina no golo do empate, apontado por Jordão. Ainda antes do intervalo, o árbitro Adelino Lima (de Coimbra) anula um golo ao Académico, por fora de jogo, que na opinião do jornalista que escreveu a crónica do encontro, não existiu. Na segunda metade o jogo melhorou a nível de emoção e de técnica, conforme dá nota o escriva do DL. Assistiu-se a uma toada de parada e resposta em ambas os lados: Jordão desempatou a favor do Académico, para na resposta Armando Silva fazer o 2-2. Gerardo Maia desfez o empate, mas quase em cima dos 90 minutos Fernandes fez o resultado final (3-3) de um jogo entusiasmante que o Académico merecia vencer, nas palavras do jornalista do DL, pela classe patenteada na segunda metade.

Em dose tripla, Soeiro inicia a subida ao trono de rei dos goleadores

Manuel Soeiro

Em Coimbra, no mítico Campo de Santa Cruz, assistiu-se à primeira (de muitas) demonstração de instinto felino do goleador desta edição inaugural do campeonato. Manuel Soeiro, o seu nome. Com as bancadas a abarrotar pelas costuras, o avançado nascido no Barreiro a 17 de março de 1909 ajudou o seu Sporting a derrotar a Académica por concludentes 6-0. Nessa tarde, Soeiro faria um hattrick, que o lançaria para o título de melhor marcador do campeonato, com 14 golos. Ao longo das 14 jornadas da competição o atacante que chegou ao Sporting em 1933 vindo do Luso do Barreiro só não fez o gosto ao pé em três jornadas, sendo que este jogo inaugural em Coimbra foi mesmo o seu mais produtivo em termos de golos na caminhada dos leões na 1.ª Divisão de 34/35. Soeiro foi a grande referência atacante do Sporting até à chegada do fenómeno Peyroteo ao clube em 1937, pese embora o avançado barreirense ainda tenha dividido o protagonismo com o seu colega de posto nascido em Angola até inícios da década de 40, antes do despoletar da mais famosa linha avançada leonina, os Cinco Violinos
Mas voltemos ao Campo de Santa Cruz na tarde de 20 de janeiro de 1935, para registar que antes de Vieira da Costa (do Porto) apitar para o pontapé de saída, os jogadores dos dois clubes trocaram entre si ramos de flores! Na descrição do cronista do DL, o Sporting saiu com a bola, jogando a favor do sol, num jogo que teve um início veloz e entusiasmante, embora sem jogadas de grande precisão. As bancadas manifestam-se quando o academista Rui Cunha teve duas incursões à área leonina, as quais embora não tivessem causado calafrios a Dyson, arrancaram aplausos nas hostes estudantis. 

O team da Académica de Coimbra
em 34/35
A partida era jogada a um ritmo acelerado de parte a parte. Até que ao minuto 10, Pacheco endossa o esférico a Soeiro, que no interior da área faz um chapéu a Abreu e abre assim o marcador a favor do Sporting. Após o golo os lisboetas passam a dominar a partida, dando mais trabalho ao setor recuado dos estudantes, sendo que num desses lances o guardião Abreu fez a defesa da tarde ao travar um remate venenoso de Soeiro. E seria precisamente neste período de avalanche ofensiva leonina, que Soeiro bisou no jogo, quando estavam decorridos 43 minutos. A segunda parte quase não teve história, ou melhor, a história dos segundos 45 minutos resumem-se ao largo domínio territorial dos leões, traduzido em mais quatro golos, dois de Mourão, um de Ferdinando, e outro de Soeiro, que foi assim o grande herói da partida.

Alfredo Valadas abre o marcador nas Amoreiras e entra na História da 1.ª Divisão

Alfredo Valadas
E nas Amoreiras o Benfica recebia o Vitória de Setúbal, num jogo que ficaria na história para o seu avançado Alfredo Valadas. Ainda antes do pontapé de saída deste encontro, Virgílio Paula, dirigente da Federação Portuguesa de Futebol, leu uma mensagem que o presidente daquele organismo, Cruz Filipe, havia escrito propositadamente para aquele dia histórico do futebol em Portugal, dia em que se inauguravam os campeonatos da liga, «chamando-lhes (aos atletas) a sua atenção para o que estes campeonatos representam e pedindo a sua compostura para prestígio do football português», assim dava nota do DL. O Vitória dá o pontapé de saída de um match que é jogado com entusiasmo por ambos os conjuntos, pese embora com muitas cautelas defensivas. Até que logo ao minuto 6, e de forma algo inesperada, tendo em conta que Benfica e Vitória de Setúbal até então nada tinham arriscado no plano ofensivo, Valadas inaugura o marcador a favor dos lisboetas. «Esperança atira a bola para dentro da grande área; Torres corre, e da direita centra com boa conta; a defesa do Vitória não interceta, e Valadas, com oportunidade, marca imparavelmente». Um golo histórico. O PRIMEIRO GOLO DO CAMPEONATO NACIONAL DA 1.ª DIVISÃO. Alfredo Valadas o seu autor. Alentejano, nascido em Mértola a 13 de fevereiro de 1912, Valadas iniciou a sua carreira no Luso de Beja, transferindo-se depois para a capital onde começou por defender a camisola do… Sporting. Fê-lo somente em duas temporadas, transitando, após uma breve passagem pelo Sport Lisboa e Beja, para o Sport Lisboa e Benfica, onde obteve fama e glória ao conquistar cinco campeonatos nacionais da 1.ª Divisão, um Campeonato de Portugal e três Taças de Portugal. Após o golo, o Vitória perde alguma vivacidade, permitindo ao Benfica jogar de forma tranquila e perigosa quando se acercava da área sadina. E foi nesta toada que aos 14 minutos, Valadas cobra de forma magistral um livre que leva a bola a anichar-se no fundo das redes de Crujeira. 2-0. O Benfica dominava o encontro a seu bel prazer, e os remates à baliza visitante sucedem-se de forma constante, obrigado Crujeira e a sua dupla de centrais, composta por Álvaro Cardoso e António Vieira, a trabalhos redobrados. «A linha média de Setúbal está fazendo uma exibição medíocre, salvando-se apenas, por vezes, Aníbal José. Assim, o labor do trio central do Benfica encontra-se bastante facilitado», analisava o jornalista de serviço do DL neste jogo. 

A equipa do Benfica em 34/35
Os setubalenses dão um ar de sua graça à passagem do minuto 30, mas sem causar grandes aflições ao setor recuado dos encarnados. Só por uma ocasião no decorrer da primeira parte o guarda-redes benfiquista, Manuel Serzedelo, foi chamado a intervir, fazendo-o de forma tranquila. A segunda metade inicia-se com o Benfica de novo no ataque, destacando-se neste plano o avançado interior Luís Xavier, «que peca por tentar o “shoot” de muito longe». O Benfica continua a carregar, domina, mas não consegue encontrar abertas para alvejar as redes de Crujeira. Até que o Vitória começa a ganhar alguma confiança, e na sequência de um pontapé de canto, João Cruz (que haveria de fazer furor anos mais tarde com a camisola do Sporting) obriga Serzedelo a aplicar-se e a fazer a defesa da tarde. Valadas tenta serenar os ânimos setubalenses com um remate que não leva perigo à baliza sadina quase de seguida, mas seria através de um belo pontapé do seu companheiro de equipa Torres que o Benfica faria o 3-0 que praticamente sentenciou o encontro. E este novo golo viria a refletir-se na atitude dos benfiquistas até final, visto que abrandaram o ritmo de jogo, permitindo ao Vitória algumas incursões perigosas à área encarnada. A insistência sadina seria premiada a 5 minutos do final, altura em que João Cruz encurtou distâncias no marcador: «João Cruz conduz a bola, Serzedelo a procurar arrebatar-lha, não o conseguindo», agradecendo assim o extremo setubalense para selar o marcador. Na análise final ao jogo, o jornalista do DL escreve que o Benfica ganhou com justiça, «e poderia ter conseguido um resultado mais confortável, o que não obteve pela deficiência de remate (…) enquanto que o Vitória jogou abaixo dos seus créditos».

José Reis inspirado trava o futuro campeão nacional nas Salésias 

O poster do futuro campeão
nacional: o FC Porto 
Também em Lisboa, mas no Campo das Salésias, o Belenenses recebia o FC Porto. Os nortenhos davam neste dia o primeiro passo rumo à conquista do título nacional dessa temporada de 34/35, tornando-se assim nos primeiros campeões da 1.ª Divisão Nacional, tal como hoje a conhecemos. Mas o arranque rumo ao título não foi fácil para os portistas, já que não foram além de um empate a uma bola nesta ronda inaugural, e muito por culpa do inspirado guardião belenense, José Reis, que fez uma exibição soberba. O FC Porto joga a primeira parte a favor do vento, e a sua linha ofensiva inicia o jogo com boas jogadas concluídas com remates que são travados por Reis. Aos poucos, o Belenenses serena, e passa a jogar com mais frequência no meio campo adversário «com energia e entusiasmo». Porém, era o seu guarda-redes quem mais brilhava. «As melhores jogadas do primeiro quarto pertencem a Reis, keeper do Belenenses, que se distingue e provoca aplausos», dava nota o jornalista do DL encarregue de fazer a cobertura da partida. O Belenenses cresce no jogo, e aos 20 minutos Bernardo Soares lançou em velocidade José Luís, este aguenta a carga de Avelino, e posteriormente num remate rasteiro bate o guardião portista, Soares dos Reis, abrindo assim o marcador. Os portistas reagiram, e pouco depois no seguimento de um livre apontado por Carlos Pereira, Reis volta a fazer uma grande defesa. Por esta altura o FC Porto era mais acutilante no plano ofensivo, mas a defesa local mostrava-se à altura para travar o ímpeto nortenho. «O Porto tem melhor técnica e classe, nota-se. Mas o Belenenses opõe-lhe mais entusiasmo, técnica suficiente e ligação», assim descrevia os acontecimentos o DL. Nos derradeiros 15 minutos da etapa inicial o FC Porto assume o controlo territorial do jogo, mas não tem a pontaria afinada, com os atacantes Acácio Mesquita a Pinga muito apáticos no desempenho das suas funções. No entanto, a grande figura dos primeiros 45 minutos é José Reis, «e só a ele se deve o não haver um empate»

José Reis
A segunda parte não poderia ter começado melhor para os visitantes, que chegaram ao empate por Carlos Nunes, golo esse que foi descrito da seguinte forma pelo DL: «Logo no primeiro minuto Lopes Carneiro correu pelo seu corredor direito, centrou bem, Reis defendeu a soco carregado por Acácio; Pinga com a cabeça passou a Nunes, e este, também de cabeça, atirou às redes, e fez o primeiro goal, vistoso e merecido». A partida ganhou ainda mais ânimo depois desta entrada fulgurante dos portistas. Tão animado que João Nova se entusiasmou demasiado quase de seguida e cometeu grande penalidade após ter metido mão à bola dentro da área portista. Foi então a vez do outro Reis – o Soares – brilhar. O guarda-redes nortenho defendeu o remate rasteiro de Bernardo Soares e manteve o empate. O belenense Tomaz da Silva vê aos 52 minutos um golo invalidado, por fora de jogo. O público afeto à equipa da casa protesta, ao mesmo tempo que incentiva os seus rapazes, mas até final o FC Porto é mais equipa, domina, ao passo que o Belenenses tem apenas lances de inspiração momentânea. «Na meia hora de jogo a vantagem técnica e territorial é do Porto, embora o Belenenses reaja e procure o desempate, que não merece, até agora, com justiça», analisa o escriva do DL. O FC Porto ataca, mas depara-se sempre com a grande figura do encontro, o guardião José Reis. Este homem, nascido em Loulé em 1911, e que tem o seu nome na história como o primeiro guarda-redes do Belenenses a chegar a internacional, esteve (quase) intransponível ao longo dos 90 minutos. Na reta final do encontro, os azuis da Cruz de Cristo melhoram ligeiramente o seu futebol, colocando de quando em vez em perigo as redes portistas. Porém, o marcador não se altera mais até final, «resultado que se aceita, sem incoerência, apesar de o FC Porto ter sido mais team». E foram estes os (alguns dos) incidentes de quatro desafios que deram início a uma longa maratona de desafios do escalão maior do futebol luso. 

quinta-feira, março 14, 2024

Histórias do Futebol em Portugal (46)… O último ato do Académico do Porto nos palcos da “Primeira” (Parte III)


Estreante nestas andanças de 1.ª Divisão Nacional era o Leça, clube modesto que nesta primeira aparição entre os “Grandes” se fazia representar na sua esmagadora maioria por jogadores da terra, todos amadores, e sem experiência no mais alto patamar do futebol luso. Leça que se deslocou ao Estádio do Lima na 9.ª jornada para disputar um «jogo de vizinhos» como lhe chamou o jornalista Bolero, do Norte Desportivo. Perante reduzida assistência a partida teve um início tímido, sendo que nos primeiros cinco minutos há apenas a registar uma oportunidade de golo perdida do academista Álvaro Pereira. Apesar de ser disputado a grande velocidade, o encontro não apresenta um padrão tático definido, o que o torna um pouco desinteressante. «Ambas as equipas jogam à base da energia, com uma ou outra jogada onde se vislumbra o desejo de conjunto (…) Uma e outra defesa, continuamente em ação, batalham ardorosamente. Se os setores dianteiro e médio têm trabalho sucessivo, o mesmo sucede com as extremas defesas, sempre na liça. Tem motivos de certo agrado esta partida entre leceiros e académicos», assim retratava Bolero.

A equipa do Leça que disputou a 1.ª Divisão em 41/42

À passagem da meia hora de jogo o Académico toma conta dos acontecimentos, perante um Leça que começa a dar sinais de alguma fraqueza à medida que se aproxima o intervalo. Levy de Sousa, guarda-redes do Académico do Porto, é um mero espectador, em contraste com Jaguaré – não o excêntrico guardião brasileiro que jogou no Académico anos antes, mas sim Alfredo Dias, conhecido pelo Jaguaré do Leça – que tem trabalhos redobrados. A avalanche academista produziu resultados antes do descanso, com Marques e Larsen a darem expressão ao marcador. A toada de jogo manteve-se na segunda metade, e quando estavam decorridos 62 minutos Raul Castro desfere um remate a cerca de 30 metros da baliza de Jaguaré, guardião que é traído pela trajetória da bola e não evita desta forma o terceiro tento dos portuenses. Tecnicamente o Académico era superior ao seu adversário, e o marcador seria fechado por Larsen a 15 minutos do fim, na sequência de um canto apontado por Machado. 4-0, vitória de um Académico que alinhou da seguinte forma: Levy de Sousa, António Jorge, Rafael, Manau, Guimarães, Eliseu, Larsen, Raul Castro, Marques, Julinho e Álvaro Pereira.


O derby da Invicta pende para o lado azul-e-branco

E na 10.ª ronda houve aquele que foi o primeiro dérbi da Cidade Invicta no patamar mais alto do futebol em Portugal. Académico e FC Porto mediram forças no Lima. O jornalista Lopes Gaya conta que os portistas entraram em campo a pressionar os academistas, mostrando assim «certas tendências para abrir o ativo, porque aparecem com mais frequência no ataque. Levy (de Sousa) é chamado duas vezes a intervir, e fá-lo com certa felicidade a dois remates, um de Pinga e outro de António Santos». Após este começo mais afoito dos azuis e brancos o jogo entra numa toada de maior equilíbrio, com o Académico a espreitar com mais frequência o ataque, pese embora com a defesa portista sempre atenta. Até que à chegada da meia hora de jogo o FC Porto aplica dois rudes golpes ao Académico. O mesmo é dizer dois golos apontados quase de rajada. O primeiro por intermédio do possante avançado Correia Dias, aos 24 minutos, e o segundo dois minutos volvidos por Carlos Nunes. A equipa comandada pelo técnico Mihaly Siska saiu para o intervalo em vantagem, descanso esse que lhe parece ter feito mal, a julgar por uma entrada na segunda metade algo relaxada. Aproveitou o Académico que logo aos 10 minutos reduz a desvantagem. «Larsen lança um bom centro sobre a esquerda, a bola vai para Julinho que marca (passa) para Álvaro Pereira que fuzila rápido as redes de Béla (Andrasik)». A bola vai ao centro do terreno e… novo golo para o Académico. Julinho recebe a bola de um companheiro seu, e sem marcação corre em direção à baliza portista, rematando sem hipóteses para o fundo das redes. Estava feito o empate para delírio da claque do Académico, que «aplaude com entusiasmo a sua equipa». Do outro lado os adeptos do FC Porto também puxam pelo seu conjunto, e «estabelece-se um curioso duelo de claques. Um orfeão ruidoso a dar ambiente de espectativa ao encontro», descreveu Lopes Gaya. O FC Porto parece despertar da entrada sonolenta, e aos 65 minutos o árbitro Vieira da Costa assinala um livre perigoso para a baliza de Levy de Sousa. Na cobrança, António Baptista envia com habilidade a bola para o fundo da baliza academista, colocando novamente a sua equipa em vantagem. Aos 42 minutos, os portistas acabam com as esperanças dos seus vizinhos em pontuar. «Pratas desce e é carregado com certa violência. Pinga marca o castigo direto com um pontapé bem colocado e fixa o resultado em 4-2». No derby da Invicta o Académico alinhou com: Levy de Sousa, Rafael, António Jorge, Guimarães, Eliseu, Raul Castro, Larsen, Gamboa, Julinho, Marques e Álvaro Pereira.

Lance do dérbi da Cidade Invicta, entre Académico e FC Porto

Na derradeira jornada da primeira volta do campeonato o Académico voltou a não ser feliz na deslocação a Lisboa. Desta feita seria o Carcavelinhos a aplicar a chapa 6 aos portuenses. Sobre encontro não conseguimos encontrar o relato escrito das incidências do mesmo.

Treinador do Académico não atira a toalha ao chão

Conseguimos sim descobrir uma pequena entrevista concedida ao Norte Desportivo pelo treinador do Académico do Porto nesta temporada, Albertino Ferreira de Andrade, a sua graça. Nesta troca de palavras com aquele jornal portuense, o técnico fazia um balanço da primeira volta do campeonato, começando por opinar que tinha gostado de ver a equipa do Sporting em ação, e que em seu entender o FC Porto parecia querer regressar à boa forma do passado. 

O treinador do Académico:
Albertino Andrade

E sobre a sua equipa, Albertino Andrade não atirava a toalha ao chão, pelo contrário. «O orientador técnico do Académico parece, no entanto, não possuir fibra para o desânimo. (…) Sente na entrega à preparação física dos seus pupilos o melhor dos seus esforços. Percebe nos jogadores de futebol imensas deficiências, que procura corrigir, assim como determinados defeitos de formação». E mais adiante, ao falar dos resultados averbados até então, diz mesmo: «Pouca sorte, muito pouca sorte, é o que tem havido».


Nova viagem para esquecer à capital

O Início da segunda volta do campeonato marca uma nova viagem do emblema do Porto à capital, agora para defrontar o Belenenses, no mítico Estádio das Salésias. Os lisboetas vinham de uma vitória animadora no Campo da Constituição diante do FC Porto, na ronda anterior, e talvez por isso a massa adepta belenense fosse em grande número ver a sua equipa. Por seu turno, o Académico neste jogo «não foi melhor nem pior que noutras deslocações. A equipa, habilidosa por intermédio de alguns elementos, não tem fundo de resistência. No jogo de hoje transpareceu mais uma vez essa ideia. Em lampejos, o grupo consegue organizar algumas jogadas interessantes, mas com a sua linha de médios se divorcia muitas vezes do ataque, a equipa vive partida ao meio quase sempre», assim analisou a turma portuense o correspondente do Norte Desportivo na capital. O Belenenses entrou praticamente a ganhar, quando aos dois minutos Eliseu corta a bola com a mão dentro da área, com o árbitro setubalense Trindade a assinalar de pronto o castigo máximo. Na conversão, Feliciano marcou o primeiro tento dos azuis. O Belenenses teve quase sempre o ascendente do encontro, sendo que os campeões do Porto apenas se mostraram mais audazes no segundo quarto de hora da primeira parte. «De resto, a vontade mais forte foi a do Belenenses». Porém, contra a maré azul os academistas empatam a partida à passagem do minuto 19, por intermédio de Larsen. Empate que seria sol de pouca dura, já que três minutos passados António Jorge derruba Gilberto dentro da área e o árbitro não volta a ter dúvidas em assinalar nova grande penalidade a favor dos de Belém. Feliciano volta a não dar hipóteses de defesa a Levy de Sousa. E ainda antes do intervalo os locais ampliaram a vantagem, por intermédio de Artur Quaresma. «No segundo período, inicialmente, ainda o Académico se manteve com certa galhardia, mas depois o encontro entrou num período de certa monotonia dada a superioridade dos visitados», escrevia o Norte Desportivo. E seria dessa forma que Gilberto faria o quarto tento dos lisboetas, que praticamente sentenciou a partida, de nada valendo o facto de Larsen, aos 64 minutos, ter reduzido para 4-2, que seria, assim, o resultado final de um jogo onde o Académico alinhou com: Levy de Sousa, António Jorge, Rafael, Manau, Eliseu, Raul Castro, Larsen, Gamboa, Julinho, Marques e Álvaro Pereira.

(continua)

quarta-feira, julho 29, 2015

Histórias do Planeta da Bola (13)... A Taça Latina (parte II)

Gre-No-Li, o trio sueco que conduziu o Milan
à glória na terceira edição da Taça Latina
Depois de Espanha e Portugal terem acolhido as duas primeiras edições da Taça Latina foi a vez de Itália abrir as portas a uma competição que havia já subido ao patamar internacional da fama futebolística. Turim e Milão foram as duas cidades que sedearam um certame que na sua terceira edição contou com os campeões nacionais de Itália, Portugal, e Espanha, respetivamente o Milan, o Sporting, e o Atlético de Madrid. Os campeões de França, o Nice, não marcaram presença, tendo a nação gaulesa sido representada pelo Lille. A primeira meia-final teve lugar em Milão, a 20 de junho, tendo o Estádio de San Siro como palco de um confronto que colocou frente a frente a turma da casa, o Milan, e o Atlético de Madrid. Milanistas em cuja formação brilhava um trio de craques nórdicos, três jogadores que marcaram uma geração – uma grande geração, há que sublinhá-lo – do futebol da Suécia, o país de onde eram originários Gunnar Gren, Gunnar Nordhal, e Nils Liedholm, os três artistas em questão. A sintonia entre os três era perfeita, tendo sido traduzida em épicos momentos futebolísticos, tanto ao serviço da seleção sueca como do Milan, emblema onde o trio Gre-No-Li – como seria batizado – encantou os tiffosi ao longo de seis temporadas. E na meia-final ante o Atlético os três suecos foram peças fundamentais para a conquista de um triunfo expressivo por parte do Milan, que inaugurou o marcador à passagem do minuto 18 por intermédio de Renosto. Quatro minutos volvidos foi a vez de Nordhal dilatar o marcador. No segundo tempo os campeões de Itália, que como curiosidade neste jogo vestiram uma camisola azul, contrariando assim a tradicional maglia rossenera – camisola negra e encarnada –, chegaram ao 3-0 de novo por intermédio de Renosto, aos 53 minutos. Com o jogo praticamente ganho o Milan abrandou e permitiu a Carlsson reduzir – aos 70 minutos – e dar alguma esperança aos espanhóis. Porém, e de modo a não sofrer uma desilusão, os italianos voltaram à carga, e aos 74 minutos Renosto fez o seu terceiro golo da tarde, selando assim o marcador em 4-1 a favor da sua equipa que assim avançava para a final.

O "violino" Vasques
No dia seguinte, no Stadio Comunale de Turim, Sporting e Lille deram vida a uma partida que terminou empatada por falta de... iluminação! No final do tempo regulamentar as equipas empatavam a uma bola – o tento dos portugueses foi marcado pelo violino Vasques, aos 56 minutos – sendo que com a noite a cair sobre Turim e o facto de o estádio não ter iluminação artificial fez com que a organização agendasse uma partida de desempate para o dia seguinte. Jogo este onde a festa do golo foi uma constante. Por uma dezena de ocasiões a bola beijou as malhas das duas balizas, seis por intermédio dos franceses e quatro pelos portugueses, que assim eram afastados da final. Vasques foi mais uma vez o leão em destaque, já que três dos quatro tentos sportinguistas foram da sua autoria, sendo o outro apontado por Caldeira.
Treinado pelo inglês Randolph Galloway o Sporting chegou a Itália em cima do encontro com o Lille, facto que a juntar ao aspeto de ter de disputar com os franceses dois jogos no período de 24 horas colocou os leões fisicamente... de rastos. O cansaço físico foi pois o principal adversário do Sporting na partida de apuramento dos 3º e 4º lugares diante dos madrilenos, ocorrida em San Siro, diante de 10.000 espetadores e apitada pelo italiano Giuseppe Carpani. Travassos ainda disfarçou o desgaste leonino quando aos oito minutos bateu Dauder e abriu o marcador. Sol de pouca dura, já que cinco minutos passados Carlsson repôs a igualdade com que atingiu o intervalo. No segundo tempo os portugueses caíram de produção, facto aproveitado pelos campeões de Espanha – orientados pelo mago Helenio Herrera – para fazer dois golos na reta final da partida que lhes concederam o lugar mais baixo do pódio.

O trio de arbitragem com os capitães do Milan e do Atlético de Madrid
antes do pontapé de saída da meia-final
O mesmo San Siro foi a 24 de junho o palco da grande final da prova, uma final sem grande história, já que o emblema da casa, o Milan atropelou autenticamente um Lille que pouca ou nenhuma resistência ofereceu ao longo dos 90 minutos. Ao intervalo a vantagem (3-0) milanista pecava por escassa, dado o caudal ofensivo que os pupilos de Lajos Czeizler evidenciavam. Nordhal, aos 32 e 37 minutos, e Burino, aos 40 minutos, foram os marcadores do Milan. Na segunda metade os italianos mantiveram a toada ofensiva, quase asfixiante sobre a baliza de Pierre Angel, postura premiada com a obtenção de mais dois golos – um por intermédio de Gunnar Nordhal e outro de Annovazzi. Com o apito final do suíço Eugen Scherz chegou a natural explosão de alegria dos tiffosi que lotaram as bancadas de San Siro. O Milan vencia assim de forma inquestionável a primeira das suas duas Taças Latinas.

Nomes e números:

Foto de jornal que retrata o primeiro golo milanista diante dos madrilenos
Meias-finais

Milan (Itália) – Atlético de Madrid (Espanha): 4-1
Sporting (Portugal) – Lille (França): 1-1/4-6 (desempate)

Jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares

Atlético de Madrid (Espanha) – Sporting (Portugal): 3-1

Final

Milan (Itália) – Lille (França): 5-0

Data: 24 de junho de 1951
Estádio: San Siro, em Milão (Itália)
Árbitro: Eugen Scherz (Suíça)

Milan: Lorenzo Buffon, Arturo Silvestri, Andrea Bonomi, Carlo Annovazzi, Omero Tognon, Benigno De Grandi, Renzo Burini, Gunnar Gren, Gunnar Nordahl, Nils Liedholm, e Albano Vicariotto. Treinador: Lajos Czeizler.

Lille: Pierre Angel, Jacques Van Cappelen, Guy Poitevin, Albert Dubreucq, Marceau Somerlinck, Cor van der Hart, Erik Kuld Jensen, Bolek Tempowski, André Strappe, Jean Vincent, e Jean Lechantre. Treinador: André Cheuva.

Golos: 1-0 (Nordhal, aos 32m), 2-0 (Burini, aos 40m), 3-0 (Nordhal, aos 37m), 4-0 (Nordhal, aos 67m), 5-0 (Annovazzi, aos 70m).
A famosa squadra do Milan que triunfou na Taça Latina de 1951

1952: Visca el Barça!

Fase do jogo entre Barça e Juve
Dando seguimento ao sistema de rotatividade no que concerne ao acolhimento da Taça Latina por parte das quatro nações que integravam a competição, em 1952 foi a vez da França, e mais em concreto a deslumbrante cidade de Paris, servir de palco para receber os campeões nacionais de Itália, Portugal, Espanha, e claro, França, respetivamente, a Juventus, o Sporting, o Barcelona, e o Nice. Seria precisamente esta última equipa abrir as cerimónias, juntamente com os campeões de Portugal, no dia 25 de junho. A particularidade nesta quarta edição prendeu-se com o facto de que pela primeira vez se jogou à noite, com iluminação artificial. Assim foi pois desenrolado o duelo entre franceses e portugueses no Parque dos Príncipes, o qual teve início praticamente com o golo dos rapazes da Côte d' Azur, logo ao minuto oito, por intermédio de Carré. A iluminação parece ter encadeado os jogadores do Sporting que ao intervalo perdiam por 3-0! Na segunda parte os leões ainda reagiram, e no espaço de três minutos – entre os 62 e os 64 minutos – reduziram a desvantagem por intermédio de Veríssimo e Albano, mas logo depois Carré aplicava o golpe de morte ao fazer o 4-2 final.

O cartaz da grande final
No dia seguinte foi a vez do Barça e da Juve subirem ao relvado da catedral do futebol gaulês, para protagonizarem um encontro emotivo e cheio de golos. O Barcelona entrou ao ataque e logo ao minuto três Manchón fez o primeiro da noite, para à passagem dos 20 minutos Basora ampliar a vantagem catalã. À beira do descanso o inspirado Boniperti reduziu a desvantagem, mas no reatamento o mágico húngaro Kubala voltou a distanciar o Barça no marcador. O ataque dos campeões de Espanha estava endiabrado, e quatro minutos volvidos Basora fez o 4-1. A Vecchia Signora não baixou os braços e de novo Boniperti fez o gosto ao pé a dez minutos do apito final do francês Vincenti. Dois minutos antes do segundo tento transalpino Hansen desperdiçou uma grande penalidade a favor da Juve, ao permitir a defesa do mítico guardião Ramallets. 4-2 a favor do Barça que assim lograva atingir a sua segunda final da Taça Latina.
No encontro de atribuição dos terceiro e quarto lugares o Sporting voltou a andar à deriva no relvado do Parque dos Princípes. Com apenas 15 minutos de jogo disputados os lisboetas já perdiam por 3-0 (!) ante a Juventus – com golos de Boniperti (5m), Hansen (7m), e Vivolo (15m). Ainda antes do descanso João Martins – o tal que alguns anos mais tarde viria a apontar o primeiro golo da história das competições europeias organizadas pela UEFA – reduziu, e já na segunda parte o mesmo jogador fez de novo o gosto ao pé para selar o resultado final em 2-3. Treinados pela antiga lenda do futebol húngaro Gyorgy Sarosi – que havia brilhado em diversas edições da Taça Mitropa ao serviço do Ferencvaros – a Juve levava para casa o prémio de consolação, o terceiro lugar.

A loucura na chegada dos campeões à Catalunha
No dia 29 de junho e sob a arbitragem do português Rui dos Santos os holofotes do Parque dos Princípes centraram-se nas estrelas do Barcelona e do Nice, os dois finalistas da quarta edição da Taça Latina. Assistiu-se a uma partida equilibrada, em que o nulo teimava em não sair do marcador, um jogo em que os catalães encontraram pela frente uma equipa que contrariamente ao que havia feito a Juve na meia-final se opôs com vigor às investidas do perigoso ataque dos campeões de Espanha. Foi preciso esperar até ao minuto 79, altura em que o capitão César apontou o único golo do encontro a favor do Barça que assim arrecadava a sua segunda coroa de glória continental. Esta foi aliás uma temporada muito especial para o Barcelona, eternizada como a época das “5 Copas”. Cinco vitórias noutras tantas competições disputadas, um saldo que conferiu a imortalidade à equipa treinada pelo checoslovaco Ferdinand Daucik. À Taça Latina juntavam-se os títulos de campeão de Espanha, o de vencedor da Copa del Rey (Taça de Espanha), da Copa Eva Duarte (antecessora da atual supertaça espanhola), e da Copa Martini & Rossi (na época um torneio muito afamado em terras espanholas). Rezam as crónicas que a viagem dos catalães de Paris até Barcelona foi feita em clima de apoteose, com uma verdadeira caravana de carros e de motos a acompanhar os novos campeões da... Europa. A loucursa subiu de tom assim que a equipa chegou à Cidade Condal, onde a esperavam milhares de adeptos, orgulhosos dos seus rapazes. Com a taça nas mãos o capitão César subiu até à varanda do ayuntamiento – câmara municipal – para partilhar a doce conquista com o povo catalão.

Nomes e números:

Meias-finais

Nice (França) – Sporting (Portugal): 4-2
Barcelona (Espanha) – Juventus (Itália): 4-2

Jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares

Juventus (Itália) – Sporting (Portugal): 3-2

Final

Barcelona (Espanha) – Nice (França): 1-0

Data: 29 de junho de 1952
Estádio: Parque dos Princípes, em Paris (França)
Árbitro: Rui dos Santos (Portugal)

Barcelona: Antoni Ramallets, Cheché Martín, Gustavo Biosca, Josep Seguer, Andreu Bosch Pujol, Jaime Escudero, Estanislao Basora, César Rodríguez, Ladislao Kubala, Emilio Aldecoa, e Eduardo Manchón. Treinador: Ferdinand Daucik.

Nice: Marcel Domingo, Mohamed Firoud, Alphonse Martinez, Pancho Gonzales, Guy Poitevin, Jean Belver, Jean Courteaux, Victor Nurenberg, Désiré Carré, Antoine Bonifaci, e Abdelaziz Ben Tifour. Treinador: Numa Andoire.

Golo: 1-0 (César, aos 79m).
Foi de camisola branca (ironia do destino) que o Barcelona somou
o seu segundo triunfo na Taça Latina

1953: Triunfo do futebol champanhe

Albert Batteux assiste do banco à exibição
da sua obra de arte
França, nação aristocrata, repleta de glamour, apaixonada pelas artes, e que olhou - durante várias décadas - com indiferença, e algum desprezo, o futebol, modalidade tão popular noutros pontos do globo mas que em terras gaulesas demorou a criar raízes. Foi preciso esperar até à década de 50 para ver o futebol despertar nos franceses uma ponta de curiosidade e ao mesmo tempo de fascínio! Tudo graças a Albert Batteux, uma ilustre figura considerada como o pai do futebol francês. O homem que lançou as sementes das gerações vencedoras do futebol gaulês, de Platini a Zidane, o criador de um estilo de jogo tecnicamente elegante eternizado como... o futebol champanhe. Foi precisamente este o estilo que imperou na quinta edição da Taça Latina, que pela segunda vez decorreu em solo português, desta feita, e para além de Lisboa, também na cidade do Porto. A capital engalanou-se no dia 4 de junho de 1953 para ver o seu Sporting – campeão nacional em título – iniciar uma campanha que se sonhava ser de glória. Na verdade, toda a nação sportinguista suspirava pelo título que faltava conquistar aos leões, precisamente a prova internacional. No entanto, no Estádio Nacional as coisas não correram de feição aos pupilos de Randolph Galloway na meia-final diante do Milan, equipa que marcou presença no evento em substituição do campeão italiano de então, o Inter. A partida não começou da melhor forma para os portugueses, os quais cedo se viram privados de Joaquim Pacheco que teve de abandonar o campo por lesão. Ora, como na altura não eram permitidas substituições os lisboetas tiveram de jogar o resto do encontro com menos um jogador. Mesmo assim, Vasques, a um minuto do intervalo, inaugurou o marcador, que seria igualado aos 66 minutos por intermédio de um dos três suecos dos milanistas, neste caso Gunnar Nordhal. A jogar com mais um elemento os italianos intensificaram a pressão sobre os rapazes de Galloway e volvidos quatro minutos o mesmo Nordhal colocaria o Milan na liderança do marcador. Oito minutos depois o guardião Carlos Gomes tornou-se herói ao defender uma grande penalidade apontada por Nils Liedholm, mantendo desta forma o Sporting vivo em campo. Este lance galvanizou os portugueses, e eis que a um minuto dos 90 João Martins fez explodir de alegria as bancadas ao restabelecer a igualdade. Perante isto houve então a necessidade de um prolongamento, período este onde os locais começaram melhor, já que o endiabrado Martins voltou a festejar um golo. Porém, a quatro minutos do término do tempo extra, e quando os leões já pensavam na final, eis que Liedholm aparece em off-side para... fazer o empate. De nada valeram os protestos leoninos, que assim eram obrigados a um novo prolongamento, este mais curto, de 10 minutos. E no derradeiro minuto deste segundo tempo extra Frignani despejou um verdadeiro balde de água gelada sobre os lisboetas ao fazer o golo do triunfo milanista, o 4-3 final.

O Napoleão do futebol francês:
Raymond Kopa
Na outra meia-final, disputada no Porto, eis que surgiu o tal futebol champanhe protagonizado pelos campeões de França, o Stade Reims. Idealizado por Albert Batteux este estilo futebolístico encantou a Europa graças à sua beleza técnico-tática. No retângulo de jogo onze monsieurs davam vida ao inovador esquema de Batteux, mas um particular destacava-se dos demais, Raymond Kopa, de seu nome. O Napoleão do futebol gaulês, como ficou eternizado na história, era a grande estrela daquele pequeno clube que conquistou os franceses – e o resto do Velho Continente – na década de 50. Ele foi um dos principais responsáveis pela passagem do Reims à final da Taça Latina de 1953 após bater o Valência – representante espanhol na ausência do campeão Barcelona – por 2-1.
Valência que no jogo de atribuição dos terceiro e quartos lugares não teve garras para travar um aguerrido Sporting, que de orgulho ferido esmagou os espanhóis por 4-1, com golos de Vasques e Martins, cada um deles com dois tentos na conta pessoal.
A final, arbitrada pelo portuense Viera da Costa, foi mais um recital de bem jogar do Stade Reims. Logo aos 31 minutos Kopa abriu o marcador perante um Milan a quem nem o talentoso trio de suecos – Gunnar Gren, Gunnar Nordhal, e Nils Liedholm – valeria para evitar uma concludente derrota por 3-0. Méano, aos 53 minutos, e de novo Raymond Kopa, à passagem do minuto 75, derão expressão ao merecido triunfo do... futebol champanhe do Stade Reims.

Números e nomes:

Meias-finais

Sporting (Portugal) – Milan (Itália): 3-4
Stade Reims (França) – Valência (Espanha): 2-1

Jogo de atribuição dos terceiro e quarto lugares

Sporting (Portugal) – Valência (Espanha): 4-1

Final

Stade Reims (França) – Milan (Itália): 3-0

Data: 7 de junho de 1953
Árbitro: Vieira da Costa (Portugal)
Estádio: Nacional, em Lisboa (Portugal)

Stade Reims: Paul Sinibaldi, Simon Zimny, Roger Marche, Armand Penverne, Robert Jonquet, Raymond Cicci, Abraham Appel, Léon Glovacki, Raymond Kopa, Jean Templin, e Francis Méano: Treinador: Albert Batteux.

Milan: Lorenzo Buffon, Arturo Silvestri, Francesco Zagatti, Carlo Annovazzi, Omero Tognon, Celestino Celio, Renzo Burini, Gunnar Gren, Gunnar Nordahl, Nils Liedholm, e Amleto Frignani. Treinador: Mario Sperone.

Golos: 1-0 (Kopa, aos 31m), 2-0 (Méano, aos 53m), 3-0 (Kopa, aos 75m).
Stade Reims posa com a Taça Latina de 53

DEDICADO À MEMÓRIA DO MEU PAI...