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quinta-feira, março 14, 2024

Histórias do Futebol em Portugal (46)… O último ato do Académico do Porto nos palcos da “Primeira” (Parte III)


Estreante nestas andanças de 1.ª Divisão Nacional era o Leça, clube modesto que nesta primeira aparição entre os “Grandes” se fazia representar na sua esmagadora maioria por jogadores da terra, todos amadores, e sem experiência no mais alto patamar do futebol luso. Leça que se deslocou ao Estádio do Lima na 9.ª jornada para disputar um «jogo de vizinhos» como lhe chamou o jornalista Bolero, do Norte Desportivo. Perante reduzida assistência a partida teve um início tímido, sendo que nos primeiros cinco minutos há apenas a registar uma oportunidade de golo perdida do academista Álvaro Pereira. Apesar de ser disputado a grande velocidade, o encontro não apresenta um padrão tático definido, o que o torna um pouco desinteressante. «Ambas as equipas jogam à base da energia, com uma ou outra jogada onde se vislumbra o desejo de conjunto (…) Uma e outra defesa, continuamente em ação, batalham ardorosamente. Se os setores dianteiro e médio têm trabalho sucessivo, o mesmo sucede com as extremas defesas, sempre na liça. Tem motivos de certo agrado esta partida entre leceiros e académicos», assim retratava Bolero.

A equipa do Leça que disputou a 1.ª Divisão em 41/42

À passagem da meia hora de jogo o Académico toma conta dos acontecimentos, perante um Leça que começa a dar sinais de alguma fraqueza à medida que se aproxima o intervalo. Levy de Sousa, guarda-redes do Académico do Porto, é um mero espectador, em contraste com Jaguaré – não o excêntrico guardião brasileiro que jogou no Académico anos antes, mas sim Alfredo Dias, conhecido pelo Jaguaré do Leça – que tem trabalhos redobrados. A avalanche academista produziu resultados antes do descanso, com Marques e Larsen a darem expressão ao marcador. A toada de jogo manteve-se na segunda metade, e quando estavam decorridos 62 minutos Raul Castro desfere um remate a cerca de 30 metros da baliza de Jaguaré, guardião que é traído pela trajetória da bola e não evita desta forma o terceiro tento dos portuenses. Tecnicamente o Académico era superior ao seu adversário, e o marcador seria fechado por Larsen a 15 minutos do fim, na sequência de um canto apontado por Machado. 4-0, vitória de um Académico que alinhou da seguinte forma: Levy de Sousa, António Jorge, Rafael, Manau, Guimarães, Eliseu, Larsen, Raul Castro, Marques, Julinho e Álvaro Pereira.


O derby da Invicta pende para o lado azul-e-branco

E na 10.ª ronda houve aquele que foi o primeiro dérbi da Cidade Invicta no patamar mais alto do futebol em Portugal. Académico e FC Porto mediram forças no Lima. O jornalista Lopes Gaya conta que os portistas entraram em campo a pressionar os academistas, mostrando assim «certas tendências para abrir o ativo, porque aparecem com mais frequência no ataque. Levy (de Sousa) é chamado duas vezes a intervir, e fá-lo com certa felicidade a dois remates, um de Pinga e outro de António Santos». Após este começo mais afoito dos azuis e brancos o jogo entra numa toada de maior equilíbrio, com o Académico a espreitar com mais frequência o ataque, pese embora com a defesa portista sempre atenta. Até que à chegada da meia hora de jogo o FC Porto aplica dois rudes golpes ao Académico. O mesmo é dizer dois golos apontados quase de rajada. O primeiro por intermédio do possante avançado Correia Dias, aos 24 minutos, e o segundo dois minutos volvidos por Carlos Nunes. A equipa comandada pelo técnico Mihaly Siska saiu para o intervalo em vantagem, descanso esse que lhe parece ter feito mal, a julgar por uma entrada na segunda metade algo relaxada. Aproveitou o Académico que logo aos 10 minutos reduz a desvantagem. «Larsen lança um bom centro sobre a esquerda, a bola vai para Julinho que marca (passa) para Álvaro Pereira que fuzila rápido as redes de Béla (Andrasik)». A bola vai ao centro do terreno e… novo golo para o Académico. Julinho recebe a bola de um companheiro seu, e sem marcação corre em direção à baliza portista, rematando sem hipóteses para o fundo das redes. Estava feito o empate para delírio da claque do Académico, que «aplaude com entusiasmo a sua equipa». Do outro lado os adeptos do FC Porto também puxam pelo seu conjunto, e «estabelece-se um curioso duelo de claques. Um orfeão ruidoso a dar ambiente de espectativa ao encontro», descreveu Lopes Gaya. O FC Porto parece despertar da entrada sonolenta, e aos 65 minutos o árbitro Vieira da Costa assinala um livre perigoso para a baliza de Levy de Sousa. Na cobrança, António Baptista envia com habilidade a bola para o fundo da baliza academista, colocando novamente a sua equipa em vantagem. Aos 42 minutos, os portistas acabam com as esperanças dos seus vizinhos em pontuar. «Pratas desce e é carregado com certa violência. Pinga marca o castigo direto com um pontapé bem colocado e fixa o resultado em 4-2». No derby da Invicta o Académico alinhou com: Levy de Sousa, Rafael, António Jorge, Guimarães, Eliseu, Raul Castro, Larsen, Gamboa, Julinho, Marques e Álvaro Pereira.

Lance do dérbi da Cidade Invicta, entre Académico e FC Porto

Na derradeira jornada da primeira volta do campeonato o Académico voltou a não ser feliz na deslocação a Lisboa. Desta feita seria o Carcavelinhos a aplicar a chapa 6 aos portuenses. Sobre encontro não conseguimos encontrar o relato escrito das incidências do mesmo.

Treinador do Académico não atira a toalha ao chão

Conseguimos sim descobrir uma pequena entrevista concedida ao Norte Desportivo pelo treinador do Académico do Porto nesta temporada, Albertino Ferreira de Andrade, a sua graça. Nesta troca de palavras com aquele jornal portuense, o técnico fazia um balanço da primeira volta do campeonato, começando por opinar que tinha gostado de ver a equipa do Sporting em ação, e que em seu entender o FC Porto parecia querer regressar à boa forma do passado. 

O treinador do Académico:
Albertino Andrade

E sobre a sua equipa, Albertino Andrade não atirava a toalha ao chão, pelo contrário. «O orientador técnico do Académico parece, no entanto, não possuir fibra para o desânimo. (…) Sente na entrega à preparação física dos seus pupilos o melhor dos seus esforços. Percebe nos jogadores de futebol imensas deficiências, que procura corrigir, assim como determinados defeitos de formação». E mais adiante, ao falar dos resultados averbados até então, diz mesmo: «Pouca sorte, muito pouca sorte, é o que tem havido».


Nova viagem para esquecer à capital

O Início da segunda volta do campeonato marca uma nova viagem do emblema do Porto à capital, agora para defrontar o Belenenses, no mítico Estádio das Salésias. Os lisboetas vinham de uma vitória animadora no Campo da Constituição diante do FC Porto, na ronda anterior, e talvez por isso a massa adepta belenense fosse em grande número ver a sua equipa. Por seu turno, o Académico neste jogo «não foi melhor nem pior que noutras deslocações. A equipa, habilidosa por intermédio de alguns elementos, não tem fundo de resistência. No jogo de hoje transpareceu mais uma vez essa ideia. Em lampejos, o grupo consegue organizar algumas jogadas interessantes, mas com a sua linha de médios se divorcia muitas vezes do ataque, a equipa vive partida ao meio quase sempre», assim analisou a turma portuense o correspondente do Norte Desportivo na capital. O Belenenses entrou praticamente a ganhar, quando aos dois minutos Eliseu corta a bola com a mão dentro da área, com o árbitro setubalense Trindade a assinalar de pronto o castigo máximo. Na conversão, Feliciano marcou o primeiro tento dos azuis. O Belenenses teve quase sempre o ascendente do encontro, sendo que os campeões do Porto apenas se mostraram mais audazes no segundo quarto de hora da primeira parte. «De resto, a vontade mais forte foi a do Belenenses». Porém, contra a maré azul os academistas empatam a partida à passagem do minuto 19, por intermédio de Larsen. Empate que seria sol de pouca dura, já que três minutos passados António Jorge derruba Gilberto dentro da área e o árbitro não volta a ter dúvidas em assinalar nova grande penalidade a favor dos de Belém. Feliciano volta a não dar hipóteses de defesa a Levy de Sousa. E ainda antes do intervalo os locais ampliaram a vantagem, por intermédio de Artur Quaresma. «No segundo período, inicialmente, ainda o Académico se manteve com certa galhardia, mas depois o encontro entrou num período de certa monotonia dada a superioridade dos visitados», escrevia o Norte Desportivo. E seria dessa forma que Gilberto faria o quarto tento dos lisboetas, que praticamente sentenciou a partida, de nada valendo o facto de Larsen, aos 64 minutos, ter reduzido para 4-2, que seria, assim, o resultado final de um jogo onde o Académico alinhou com: Levy de Sousa, António Jorge, Rafael, Manau, Eliseu, Raul Castro, Larsen, Gamboa, Julinho, Marques e Álvaro Pereira.

(continua)

quarta-feira, janeiro 23, 2013

Histórias do Futebol em Portugal (11)... Bailinho da Madeira

Surpresa foi - indiscutivelmente - a palavra de ordem da 5ª edição do Campeonato de Portugal, ocorrida em 1926, na sequência do glorioso trajeto percorrido pelo Marítimo, o crónico campeão da Associação de Futebol da Madeira que mais do que vencer o título foi o responsável por uma das maiores humilhações da história do gigante FC Porto! Mas já lá iremos.
Esta edição fica ainda vincada pela acesa - e crescente - rivalidade entre as cidades do Porto e de Lisboa, rivalidade essa nem sempre bonita de se ver em espetáculos desportivos...
Campeonato de Portugal de 1926 que teve mais uma estreia em termos de aderentes, digamos assim, mais concretamente a Associação de Futebol de Vila Real, que se fez representar pelo seu campeão, o Sport Clube Vila Real. Equipa esta cuja sorte nada quis consigo, já que na 1ª eliminatória o azar bateu à porta dos vilarealenses ao colocar-lhes no caminho nada mais nada menos do que o campeão de Portugal em título, o poderoso FC Porto. No Campo do Covelo, a 5 de maio desse ano, os portistas esmagaram os transmontanos por 10-0 (!), sendo de destacar a veia goleadora do capitão de equipa Norman Hall, autor de oito tentos! Balbino da Silva encarregou-se de apontar os outros dois.
Nesse mesmo dia, mas em Lisboa, mediram forças no Campo Grande (recinto do Sporting) os campeões das associações de futebol de Aveiro e de Coimbra, respetivamente o Sporting de Espinho e o União de Coimbra, o vencedor surpresa do regional da cidade dos estudantes. Foi um duelo intenso e de vencedor incerto até bem perto do fim, onde os espinhenses estiveram grande parte do tempo em desvantagem no marcador, acabando, no entanto, já perto do fim, por dar a volta e vencer por 4-3.
Quanto ao Sporting de Braga o destino voltou a colocar-lhe no caminho o seu carrasco das duas edições anteriores, ou seja, o Vianense. Campeões de Viana do Castelo que em 1924 e 1925 haviam - curiosamente - então afastado os bracarenses na 1ª ronda da prova, só que há terceira veio a vingança dos homens da Cidade dos Arcebispos.Um golo solitário de Chelas selou a tal vingança bracarense sobre os vizinhos da Princesa do Lima, que desta forma superavam pela primeira vez a barreira da ronda inaugural.

Em Lisboa, e novamente no Campo Grande, assistiu-se a um dérbi alentejano, entre os campeões das associações de Portalegre e de Beja, respetivamente o Estrela e o Luso. Com arbitragem do lisboeta Ilídio Nogueira foi mais forte o conjunto do Baixo Alentejo, que graças a dois golos de Fausto e Martins avançava para os quartos-de-final.
Por último, entrou em campo o Belenenses, que poucas semanas havia angariado o direito de participar no Campeonato de Portugal em virtude da conquista do seu primeiro título de campeão da Associação de Futebol de Lisboa. Orientados tecnicamente pelo fundador do clube da Cruz de Cristo, Artur José Pereira, os jogadores belenenses não sentiram grandes dificuldades para afastar os Leões de Santarém, conforme traduz a expressiva vitória por 7-2, com destaque para os bis (dois golos) das grandes estrelas dos lisboetas daquela altura, Pepe e Rodolfo Faroleiro.

Belenenses que nos quartos-de-final, disputados no dia 16 de maio, voltou a mostrar o porquê de ter vencido com mérito o dificil Campeonato de Lisboa, onde superrou duros obstáculos, como por exemplo Sporting e Benfica! Não é para todos. Mas voltando ao Campeonato de Portugal, os azuis de Belém aplicaram uma nova goleada, desta feita ao Sporting de Espinho, que saiu do Campo Grande vergado a uma derrota de 1-4.
Mais a norte, no Porto, o crónico campeão local despachava o Sporting de Braga por 3-0, com golos de Balbino da Silva (dois) e Hall, o inglês que haveria de se sagrar o melhor marcador desta edição da prova. E por falar em campeões crónicos, em Setúbal (no Campo dos Arcos) entrou em campo o campeão do Algarve, o Olhanense - isento da 1ª eliminatória -, que iria golear por 5-0 o Luso Beja.

Marítimo humilha o FC Porto!

E chegavámos assim às meias-finais. Eliminatória esta onde de acordo com os regulamentos da União Portuguesa de Futebol (UPF) estava já o campeão da Madeira, o Marítimo, que tal como nas edições anteriores havia escapado às primeiras eliminatórias. Estranha foi a decisão do organismo que tutelava o futebol português em fazer com que o campeão da Associação de Futebol do Porto disputasse a sua meia final em Lisboa, e o campeão da associação da capital lutasse pelo acesso à final em terrenos portuenses! Sem se compreender esta caricata decisão da UPF o FC Porto lá teve de viajar para Lisboa para enfrentar o Marítimo... num ambiente para lá de hostil. No Campo Grande os portistas lutaram contra dois adversários, o conjunto oriundo da Madeira, e o público, afeto aos clubes da capital, que não se cansou de apupar e insultar os jogadores azuis-e-brancos ao longo da partida. Era visível o ódio de estimação que começava a crescer entre os adeptos dos clubes das duas maiores cidades do país, sendo que na memória dos lisboetas estava ainda bem fresca a final do Campeonato de Portugal de 1925, entre o FC Porto e o Sporting, último clube este que segundo a imprensa lisboeta - claro está - saíra prejudicado pela atuação do árbitro galego Rafael Nuñez.
Mas voltando ao duelo do Campo Grande - que estava cheio como um ovo - o que se assistiu ao longo de 90 minutos foi um autêntico vendaval madeirense! Quiçá afetados pela hostilidade do público local os portistas viveram uma tarde de pesadelo, um dos piores momentos da sua história, há que dizê-lo. Foram esmagados - a palavra mais simpática que encontramos para descrever os acontecimentos vividos naquela tarde - pelos madeirenses por 7-1! Sim, sete, e mais poderiam ter sido caso o melhor elementos dos desnorteados portistas não tivesse sido o seu lendário guarda-redes Mihaly Siska. Este resultado impensável causou delírio entre o público da capital, que festejou a vitória do Marítimo como se esta tivesse sido alcançada por um dos seus clubes de eleição.

A imprensa lisboeta também não perdeu - mais uma vez - a oportunidade de empolar este histórico acontecimento desportivo, ou melhor, a celébre tragédia portista. O Ecos do Sport - que deu grande destaque à partida - escrevia: «Esta é a verdade: Siska não foi batido só pelo ataque do Marítimo, mas, sobretudo, pela sua própria defesa. Siska foi o único no grupo do Porto que jogou. Ele teve, na realidade, um trabalho extenuante, porque os avançados da Madeira atiraram ao goal (baliza) quase quando e como quiseram. Assim desajudado qualquer guarda-redes sucumbia. A arbitragem de Ilídio Nogueira (de Lisboa) foi, quanto a nós, muito acertada, não se perturbando ante as ruidosas manifestações do público que, a todo o transe, queria fouls (faltas) contra o Porto».
Na cidade do Porto o resultado foi recebido com choque entre os adeptos do emblema azul-e-branco. Com a vergonha - diante de tamanha derrota - dezenas de sócios portistas rasgaram os seus cartões de associados, calcaram emblemas, queimaram bandeiras, e não pouparam críticas aos seus jogadores, dirigentes, e claro, ao treinador. O elo mais fraco acabou mesmo por ser o húngaro Akos Tezler, que um ano antes havia conduzido os portistas ao título de campeão de Portugal, acabando por ser despedido pouco depois desta trágica eliminatória, ao que parece por ter pedido um... aumento de ordenado após ter sido humilhado pelos rapazes da Madeira!
O rescaldo do jogo ante o Marítimo prolongou-se por mais alguns dias mais, tendo o presidente da Direção do clube da Invicta, Domingos Almeida Soares, saido a terreiro para não só lamentar tamanha derrota mas sobretudo para criticar a hostilidade com que o seu clube foi recebido em Lisboa, lamentando profundamente «a antipatia formidável que o sul mantém pelo norte».

Fundado no ano (1910) da implantação da República o Marítimo construía assim o momento mais sublime da sua ainda curta história de vida. Um momento presenciado por um jovem rapaz de 14 anos, que à socapa havia viajado incógnito no paquete Lima, o barco que transportou os madeirenses até ao continente. Vasco Nunes, o nome deste aventureiro de palmo e meio, que posteriormente contou à imprensa a sua recambulesca história. «Comprei um quilo de bolachas e uma garrafa de groga numa venda onde a minha mãe tem confiança, agarrei nos embrulhos e na trouxa, deitei a correr para o cais, meti-me numa lancha e fui para bordo, onde me escondi debaixo de um beliche. Já o barco tinha levantado ferro, senti-me agarrado pela grenha e pus-me a chorar. Era um criado, um malandro, que me bateu e levou ao comandante. Já o barco ia nas laturas de Porto Santo. Depois levaram-me para 3ª classe, onde os rapazes do Marítimo, sabendo do meu caso, me iam levar de comer. Quando chguei a Lisboa é que foi o diabo. Queríam entregar-me à polícia marítima e chegaram a meter-me no porão, onde tive medo de umas vacas muito grandes que lá estavam. Quem me salvou foi o José Ramos e o Domingos, o capitão do Marítimo. Foram ao comandante e pediram a minha liberdade, dizendo que se responsabilizavam por mim...». De pronto Vasco tornou-se na mascote da equipa, acompanhado de perto a caminhada gloriosa dos verde-rubros no campeonato, em cuja final encontraram os rapazes de Belém, que na meia-final haviam derrotado o Olhanense por uns curtos 2-1.

Final só durou 60 minutos!

A comitiva madeirense teve de fazer um esforço financeiro para permanecer no continente por mais duas semanas (!) até ao jogo da final. Jogo decisivo que a UPF agendou para o Porto, mais precisamente para o Campo do Ameal, propriedade do Progresso. Decisão que fez estalar o verniz entre jogadores e dirigentes belenenses. Cientes da intensa rivalidade entre Lisboa e Porto os homens da Cruz de Cristo receavam ser... mal recebidos na Invicta, e como tal protestaram o palco da final. A UPF fez ouvidos moucos e os belenenses lá foram contrariados para o Porto onde - tal como haviam previsto - foram recebidos com uma cruel hostilidade pelo público portuense. Adeptos estes que, esquecendo a humilhação que o Marítimo havia aplicado ao FC Porto semanas antes, tomaram partido do conjunto da Madeira do príncipio ao fim do jogo ocorrido a 6 de junho.
Os jogadores de Belém entraram no Ameal debaixo de um coro ruidoso de assobios e apupos, ambiente que desde logo os enervou, e condicionaria em grande parte do encontro. O portuense José Guimarães foi o árbitro de um jogo que até começou equilibrado, com luta intensa a meio campo. Com o avançar do relógio, e com os gritos de incentivo ao Marítimo como som de fundo, a partida foi endurecendo, o que favorecia os rapazes da ilha da Madeira, mais resistentes do ponto de vista físico. Madeirenses que aos 35 minutos dispuseram de uma oportunidade sublime para chegar à vantagem, na sequência de uma grande penalidade assinalada a castigar uma falta belenense. Oportunidade que seria desperdiçada, e o encontro lá continuou com o nulo no marcador até ao intervalo. Na etapa complementar o Belenenses entrou melhor, mas seria o Marítimo a chegar ao golo à passagem do minuto 55 por intermédio de José Fernandes, na cobrança de um livre direto.

Cinco minutos volvidos Ramos faria o 2-0, e o Campo do Ameal explodiu de alegria, ao mesmo tempo em que os jogadores lisboetas eram provocados e ridicularizados pelo público ali presente. Belenenses que protestaram vincadamente o segundo golo insular, alegando irregularidades. Augusto Silva, um dos melhores jogadores dos azuis, terá mesmo puxado o braço do árbitro, pedindo-lhe satisfações, ao que este sem mais demora deu ordem de expulsão ao belenense. Augusto Silva recusou-se a sair do campo, e a desordem instalou-se no Ameal. O público continuava a insultar os lisboetas, agora mais do que nunca, e só a intervenção pronta da polícia a cavalo terá evitado males maiores. Augusto Silva continuava a recusar sair do campo, e assim sendo, o árbitro, após consultar os dirigentes da UPF ali presentes, decidiu por encerrar o jogo, e consequentemente atribuir o título de campeão ao Marítimo.
A festa estalou de pronto. Era como se os madeirenses estivessem a jogar em casa! Os lisboetas não calaram a sua revolta, e no dia seguinte a imprensa da capital saia mais uma vez em defesa dos seus: «Caído o verniz da compustura, os facciosos portuenses deram largas ao seu despeito e ao seu rancor a Lisboa, os jogadores do Belenenses tiveram de passar por entre alas de público que os cobriu de vaias, dirigindo-lhes  os insultos mais soazes. Estiveram iminentes vários conflitos...», assim escrevia Ribeiro dos Reis no Sport de Lisboa.
No dia 10 de junho, a comitiva do Marítimo chega finalmente a casa. A ilha da Madeira parou por completo nesse dia para receber de forma apoteótica os seus heróis.

A figura: Norman Hall

O FC Porto pode até ter saído humilhado deste Campeonato de Portugal, mas o seu lendário capitão de equipa da época, Normal Hall, foi a figura da competição. Nasceu em Inglaterra, em finais do século XIX (12 de outubro de 1897), tendo aos oito anos de idade vindo com os seus pais para Portugal, onde iniciaria, tempos mais tarde, a sua brilhante carreira de futebolista no clube do seu coração, o FC Porto. Avançado habilidoso e eficaz Hall cedo se tornou num ídolo da fervorosa massa adepta do clube nortenho.
Em finais de 1919 passou a integrar a equipa principal do clube, sendo que para além de um notável jogador era um verdadeiro cavalheiro. Um gentleman, um exemplo de fair-play, sempre amável com os seus companheiros e cordeal com os adversários. Esta tornar-se-ia na sua imagem de marca. A sua estreia com a camisola do Porto foi histórica. Aconteceu a 4 de abril de 1920, em Lisboa, diante do Benfica, um jogo que os portistas venceram por 3-2, sendo esta a primeira vitória azul-e-branca alcançada no reduto do inimigo do sul.
Era um goleador nato, e a prova disso foram os seus 10 golos apontados neste Campeonato de Portugal de 1926, sendo oito deles no jogo diante do Vila Real. Foi capitão do FC Porto durante várias épocas, e no seu palmarés constam 12 títulos de campeão regional e um de campeão de Portugal (24/25). Despediu-se dos campos de futebol no início da década de 30, e dele ficou a memória de um grande desportista, de um homem honesto, um cavalheiro, portador de uma paixão desmedida pelo seu FC Porto.

Nomes e números do Campeonato de Portugal de 1925/26

1ª eliminatória

Sporting de Espinho - União de Coimbra: 4-3

FC Porto - Vila Real: 10-0

Braga - Vianense: 1-0

Luso Beja - Estrela de Portalegre: 2-0

Belenenses - Leões de Santarém: 7-2

Quartos-de-final

Belenenses - Sporting de Espinho: 4-1

FC Porto - Braga: 3-0

Olhanense - Luso Beja: 5-0

Meias-finais

Marítimo - FC Porto: 7-1

Belenenses - Olhanense: 2-1

Final

Marítimo - Belenenses: 2-0 (final dada por terminada aos 60 minutos)

Data: 6 de junho de 1926

Estádio: Campo do Ameal, no Porto

Árbitro: José Guimarães (do Porto)

Marítimo: Ângelo Ortega Fernandes; António Sousa e José Correia; Domingos Vasconcelos cap, Francisco Lopes e José de Sousa; José Ramos, António Alves, António Teixeira “Camarão”, Manuel Ramos e José Fernandes.Treinador: Ekker

Belenenses: Francisco Assis; Eduardo Azevedo e Júlio Marques; José Almeida, Augusto Silva cap e César Matos; Fernando António, Rodolfo Faroleiro, Silva Marques, José Manuel Soares “Pepe” e Alfredo Ramos. Treinador: Artur José Pereira

 Golos: 1-0 (Fernandes, aos 55m), 2-0 (Ramos, aos 60m)


Legenda das fotografias:
1-Equipa do Marítimo campeã de Portugal
2-Belenenses
3-Lance do jogo entre Marítimo e FC Porto
4-Página do jornal Ecos dos Sports, noticiando a tarde negra dos portistas
5-A capa do citado jornal, ilustrando o quinto golo madeirense
6-Lance do primeiro golo madeirense
7-Lance do segundo tento dos campeões de Portugal de 1926
8-Norman Hall
9-A festa madeirense aquando da chegada do Marítimo à ilha

segunda-feira, janeiro 07, 2013

Histórias do Futebol em Portugal (10)... Em memória de Velez Carneiro

Depois de duas temporadas consecutivas a morar no sul do país o título mais importante do futebol português dos anos 20 e 30 do século XX voltou ao norte, na época de 1924/25. E fê-lo pela mão do emblema mais titulado desta região, o Futebol Clube do Porto, que desta forma enriquecia as suas vitrinas com a sua segunda coroa de campeão de Portugal. Tratou-se de uma conquista muito especial, deveras emotiva, já que na cabeça - e sobretudo no coração - dos jogadores portistas estava gravado o nome de um querido e valoroso companheiro de luta, morto dias antes do início da caminhada triunfal naquela que era já a competição mais popular do futebol lusitano. Velez Carneiro, talentoso atleta do FC Porto que viu a morte bater demasiado cedo à sua porta, na sequência de um ajuste de contas fatal ante um marido atraiçoado...Tragédia ocorrida a 18 de maio desse longínquo ano de 1925, quase duas semanas antes da realização (31 de maio) da 1ª ronda de uma prova alargada a 11 associações de futebol, nomeadamente Porto, Lisboa, Viana do Castelo, Braga, Coimbra, Portalegre, Funchal, Algarve, Aveiro, Santarém, e Beja, estas três últimas a fazerem a sua estreia nestas andanças.

No entanto, e em cima do tiro de partida para a corrida ao título os representantes das associações de Santarém e Beja, respetivamente Leões de Santarém e Luso Beja, desistiram da competição, facto que possibilitou ao campeão de Lisboa, o Sporting, avançar imediatamente para as meias-finais, ficando isento das duas primeiras eliminatórias! 
Os restantes campeões regionais - à exceção de FC Porto e Marítimo - entraram então em campo no dia 31, sendo que no Campo do Raio, em Braga, o Sporting local era surpreendido pelos vizinhos minhotos do Vianense por 1-2, com os heróis de Viana do Castelo a darem pelos nomes de Lobo (fez o 0-1), e Gomes (apontou o 1-2).

Em Aveiro, no Campo de S. Domingos, o campeão do distrito, o Sporting de Espinho, sentia algumas dificuldades para derrotar os vice-campeões de Portugal da temporada de 22/23, a Académica de Coimbra. Os estudantes adiantaram-se no marcador por intermédio de Juvenal, tendo a primeira reação dos tigres da Costa Verde surgido dos pés de Simplício, que de grande penalidade repôs a igualdade. O tento da vitória espinhense foi apontado por António Rodrigues.

Massacre foi aquilo que os campeões em título, o Olhanense, fizeram ao Alentejo Football Clube, o campeão regional de Portalegre. No Campo da Padinha, em Olhão, os pupilos de Júlio Costa esmagaram por completo o combinado alentejano por 11-2!!! Destaque para José Gralho, autor de 6 dos 11 tentos dos algarvios.

Futuro campeão entra em ação

A prova conheceu o seu segundo capítulo no dia 7 de junho, com a realização da 2ª eliminatória. No Campo do Covelo, no Porto, a equipa local batia-se com o Vianense para discutir o acesso às meias finais. Portistas que se apresentavam com um novo treinador, o húngaro Akos Tezler, uma aposta pessoal do presidente azul e branco da altura, Domingos Almeida Soares, para substituir o francês Adolphe Cassaigne, o homem que, recorde-se, havia conduzido os rapazes da Invicta ao título de campeão de Portugal três anos antes.

Diga-se que a contratação do treinador húngaro foi bastante controversa, já que o seu ordenado de 1000 escudos por mês era para muitos dirigentes e adeptos uma autêntica heresia (!), pois convém não esquecer que o profissionalismo no futebol era algo de absurdo naquele tempo. Pois bem, o que é certo é que esta se revelaria uma aposta ganha do presidente portista, como mais à frente iremos ver.

E o primeiro obstáculo ultrapassado foi pois o Vianense, que no Covelo perdeu por 1-4, tendo os golos do FC Porto sido apontados por Balbino da Silva e Flávio Laranjeira, com dois golos cada um na sua conta pessoal. 
Em Lisboa, no Campo Grande, o Olhanense deu mais uma prova do seu valor, da genialidade dos seus jogadores, ao vencer o Marítimo por 4-2, com Gralho a apontar mais dois golos, ele que haveria de ser o rei dos goleadores desta edição do Campeonato de Portugal, com 8 remates certeiros.

Meia final polémica

Olhanense que haveria de ser afastado da prova na ronda seguinte, isto é, nas meias-finais, pelo Sporting. Um afastamento inglório, e deveras polémico. No Campo Grande o árbitro Mário Simões, da Associação de Futebol do Funchal, foi a figura do encontro, ao levar o leão ao colo até à final! Quiçá querendo fazer justiça pela eliminação dos seus conterrâneos do Marítimo aos pés dos talentosos jogadores de Olhão Mário Simões inventou uma grande penalidade inexistente a favor do Sporting em cima do minuto 90! Na conversão o treinador-jogador Filipe dos Santos fez o único golo da partida, um golo que ficaria eternamente conhecido como o... "golo sombra". No final do jogo os sportinguistas saíram do campo debaixo de uma chuva de... assobios, tendo posteriormente o capitão leonino, Jorge Vieira, vindo a público pedir desculpas ao Olhanense pelo... erro do árbitro! Outros tempos, tempos em que futebol era tratado com cavalheirismo.

Nesse mesmo dia 21 de junho, e de novo no Covelo (recinto do vizinho Salgueiros), o FC Porto repetia, ante o Espinho, o resultado aplicado ao Vianense na eliminatória anterior, ou seja, 4-1, com Flávio Laranjeira a fazer de novo o gosto ao pé em duas ocasiões, gesto imitado pelo seu companheiro de equipa Norman Hall.
O FC Porto de Tezler era uma equipa que praticava um futebol-espetáculo, algo que começava a encantar os adeptos dos dragões, os quais pareciam cada vez mais esquecerem-se do ordenado milionário que o técnico húngaro auferia na Invicta.

Repetição da final de 1922... com igual desfecho

Assim sendo FC Porto e Sporting voltavam a encontrar-se na final do campeonato, depois de terem medido forças pela primeira vez em 1922, na edição estreia da competição. Mas a disputa do ceptro nacional de 1925 começou muito antes dos jogadores entrarem em campo. Ambos os clubes gladiaram-se pelo local da final, sendo que os lisboetas queriam que o jogo decisivo fosse jogado ou em Santarém, ou em Coimbra, ao que os portistas responderam que só jogariam em Viana do Castelo! Por decisão da União Portuguesa de Futebol (UPF) venceram os azuis e brancos, isto quando faltavam apenas seis dias para o pontapé de saída do grande jogo!

Mas muito ainda havia para fazer, até porque o Campo de Monserrate não reunia as condições necessárias para acolher um duelo daquela importância. Foi então que numa ação relâmpago se fizeram obras de melhoramento do recinto, desde bancadas, passando por tribunas centrais, e até camarotes (!), tudo pelo astronómico valor - para aqueles dias - de 12 contos de réis!
Tudo pronto no dia da final (28 de junho), sendo que dos 5000 lugares disponíveis em Monserrate 3000 eram preenchidos pelos adeptos do FC Porto. Da Cidade Invicta viajaram dezenas de automóveis, e a CP disponibilizou dois comboios especiais que partiram da Estação de S. Bento (no Porto) apinhados de entusiastas portistas. De Lisboa não viajaram mais do que centena e meia de adeptos em auxílio dos leões. Como se não bastasse as opiniões distintas em relação ao local da final, FC Porto e Sporting também discordaram em relação à nomeação do árbitro. Não querendo mais confusões a UPF decidiu nomear um juiz... galego, de seu nome Rafael Nuñez.

E foi pois num autêntico caldeirão azul e branco que se desenrolou o encontro, que teve na equipa nortenha a mais determinada em chegar ao triunfo. Com Velez Carneiro no pensamento os portistas queriam ganhar e dedicar assim o título de campeão ao recém desaparecido companheiro, e nesse sentido partiram com tudo para cima dos lisboetas desde o apito inicial do galego Nuñez. Sem espanto chegariam pois à vantagem aos 14 minutos por intermédio do capitão Hall após uma boa jogada de combinação com João Nunes. Do lado dos portistas destaque igualmente para a exibição do seu guarda-redes, o também húngaro Mihaly Siska, que numa época em que o profissionalismo era proibido chegava ao Porto para desempenhar a função de... mecânico dentista numa empresa de vinhos! Mais uma mentira piedosa do presidente do clube Domingos Almeida Soares, quando confrontado pelos seus pares de Direção dos rumores de que Siska - oriundo do Vasas de Budapeste - vinha para o clube ganhar um ordenado milionário. Soares retorquiu que não, que viera para Portugal para ser mecânico dentista, e que o clube não iria pagar um tostão àquele que mais tarde viria a ser considerado o primeiro grande guarda-redes do futebol português.

Voltando ao jogo da final para dizer que o Sporting ainda reagiu na etapa complementar. Aos 50 minutos Jaime Gonçalves empatou a contenda, mas a tarde era azul e branca. Nove minutos depois Rafael Nuñez assinalou grande penalidade contra os lisboetas, por uma alegada mão na bola de Martinho de Oliveira. Os leões protestaram ferozmente, mas de nada lhes valeu tal manifestação, pois Coelho Costa atirou o esférico para o fundo das redes de Cipriano Nunes. Estava feito o resultado final, 2-1, e tal como em 1922 o FC Porto vencia o Sporting e sagrava-se campeão de Portugal.
Festa rija estalou de imediato em Viana do Castelo, prolongando-se nas horas seguintes ao Porto, enquanto que em Lisboa reinava a... revolta.

O consagrado jornalista Ricardo Ornelas, do jornal Sport de Lisboa, escrevia o seguinte: «A vitória portuense foi merecida porque o FC Porto jogou efetivamente melhor que o representante de Lisboa e porque, a par dessa superioridade técnica, lutou pela vitória com entusiasmo e com alma, e demonstrou, a cada momento da partida, perfeita compenetração do encargo que lhe cabia pela representação da sua cidade. O Sporting, pelo contrário, jogou sem convicção. Saiu do campo vencido por factos que devia desprezar ou esquecer. Inferiorizou-se, deixando-se dominar por factores que lhe deviam dar coragem e ânimo. Preocupou-se com o público, potuense na maioria; influenciou-se com a alma dos adversários e desmoralizou-se com os erros do árbitro...», juiz galego cujo desempenho Ornelas descreveu como «simplesmente bárbaro», numa alusão clara à grande penalidade que originou o golo da vitória portista, castigo máximo que para os leões não teve razão de existir.

Como prémio de vitória os jogadores do FC Porto receberam máquinas Gillete de ouro, oferecidas pela empresa lisboeta (!) João Machado da Conceição e Companhia Lda, representantes da mundialmente afamada fábrica Gillete de Nova Iorque.

A figura: Velez Carneiro

Não jogou um único minuto durante a caminhada triunfal no Campeonato de Portugal de 24/25, é certo, mas foi tão campeão quanto os seus companheiros. Velez Carneiro foi impedido de conquistar o seu segundo título de campeão de Portugal por um marido atraiçoado, que na noite de 18 de maio de 1925 matou o valoroso atleta com um tiro na cabeça.

Velez Carneiro nasceu em 1898, e começou o seu percurso futebolístico ao serviço do Sporting de Espinho, clube pelo qual se fez a sua estreia diante do... FC Porto, o seu futuro clube. Ingressou no emblema portuense em 1920, fazendo parte do conjunto que obteve a primeira vitória da história (3-2) sobre o Benfica. Médio ofensivo de gabadas qualidades técnico-táticas Velez Carneiro atingiu o ponto alto ao serviço dos dragões em 1922, altura em que ajudou a equipa a vencer o primeiro Campeonato de Portugal da história. E quando se preparava para arrecadar o seu segundo ceptro nacional foi... morto a tiro. Naquela trágica noite de 18 de maio o jovem jogador de 27 anos conversava com alguns amigos junto a uma das portas do Café Chave d' Ouro. Dele se abeirou posteriormente um individuo com cara de poucos amigos, que ao ouvido lhe disse qualquer coisa que mais ninguém terá escutado.

Velez avisou os amigos que voltava dali a nada, e partiu pelos Congregados abaixo junto do tal sujeito. Os poucos que testemunharam tal crime terão visto dois homens a discutir vivamente debaixo de um lampião na Travessa dos Congregados, ao que se seguiram alguns empurrões, socos, pontapés, e por fim um tiro, uma bala que atingiu mortalmente - na cabeça - o talentoso futebolista. O assassino era Carmindo Ferreira Duarte, escriturário na empresa Minho e Douro, e ao que parece um marido traído pelos dotes extra futebolísticos de Velez!

O funeral do futebolista (ocorrido no dia 22 de maio) foi imponente, ou não fosse ele um dos ídolos do clube. O Jornal de Notícias desse dia escrevia: «Muito antes da hora marcada para a saída do féretro já o Campo de Jogos da Constituição regurgitava de pessoas. Depois de dar a volta ao campo, o féretro, conduzido pelos jogadores do team de que o finado fazia parte, foi colocado ao centro do campo, mantendo-se o público em silêncio durante cinco minutos, que foram observados religiosamente. Findo este recolhimento que impressionou, a Direcção do F. C. Porto procedeu à colocação da bandeira do seu clube sobre o féretro. O capitão da equipa, Hall, conduzia sobre uma almofada de cetim preto as medalhas oferecidas ao falecido jogador.»

Resultados

1ª Eliminatória

Sp. Braga - Vianense: 1-2

Sp. Espinho - Académica: 2-1

Olhanense - Alentejo FC: 11-2

2ª Eliminatória

FC Porto - Vianense: 4-1

Olhanense - Marítimo: 4-2

Meias-finais

FC Porto - Sp. Espinho: 4-1

Sporting - Olhanense: 1-0

Final

FC Porto - Sporting: 2-1

Data: 28 de junho de 1925

Estádio: Campo de Monserrate, em Viana do Castelo

Árbitro: Rafael Nuñez (Galiza)

FC Porto: Miguel Siska; Júlio Cardoso, Pedro Temudo; Humberto, Coelho da Costa, Floreano Pereira; Augusto Freire, Balbino da Silva, Flávio Laranjeira, Norman Hall, e João Nunes. Treinador: Akos Tezler

Sporting: Cipriano Nunes; Joaquim Ferreira, Jorge Vieira; José Leandro, Filipe dos Santos, Martinho de Oliveira; Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Henrique Portela, João Francisco, e Emílio Ramos. Treinador: Filipe dos Santos

Golos: 1-0 (Hall, aos 14m), 1-1 (Jaime Gonçalves, aos 50m); 2-1 (Coelho da Costa, aos 59m)

Legenda das fotografias:
1-Equipa do FC Porto vencedora do Campeonato de Portugal de 24/25
2-Balbino da Silva, autor de dois golos ante o Vianense na 2ª eliminatória
3-Lance do polémico jogo Sporting - Olhanense
4-Outro lance, desta feita da grande final
5-Velez Carneiro

quinta-feira, maio 10, 2012

Grandes Mestres da Táctica (7)... Joseph Szabo

Na primeira metade do século XX a Hungria revelou-se perante o Mundo como um autêntico viveiro de geniais intérpretes do belo jogo. E quando falamos em intérpretes não nos referimos apenas aos lendários atletas magiares que escreveram algumas das páginas mais belas da "Grande Enciclopédia do Futebol Mundial", mas também aos grandes mestres da tática que contribuíram para a própria evolução do jogo. Um desses exemplos é Joseph Szabo, um nome que se encontra gravado a "letras de ouro" na História do futebol português! Mas já lá vamos.
Como qualquer outra história esta também tem um início, o qual se dá a 11 de maio de 1896, numa pequena aldeia piscatória húngara de nome Gonyo. Nesse dia nasce Joseph Szabo. Cedo as bucólicas imagens do Danúbio desaparecem do horizonte do jovem Joseph, que com apenas 4 anos de idade se muda para a ruidosa Gyor, cidade industrial de grandes dimensões para onde os seus progenitores se mudaram em busca de melhor fortuna. Habitante dos bairros pobres de operários as brincadeiras do menino Joseph limitavam-se quase exclusivamente ao... futebol. E tal como tantos outros da sua sua idade rendeu-se de imediato aos seus encantos. A vida dura fez com que aos 14 anos fosse trabalhar como torneio mecânico, profissão que não fez desaparecer a paixão que desenvolvia pelo jogo da bola. Paixão e talento, há que dizê-lo, pois se assim não fosse o clube local, o Gyor, não o tinha convidado para integrar a sua equipa principal. Convite aceite Szabo deu desde logo nas vistas como um habilidoso médio centro, facto que aos 20 anos de idade lhe valeria outro convite, este bem mais pomposo, vindo do Ferencvaros, um dos maiores clubes magiares. Para convencer Szabo a fazer as malas rumo a Budapeste os dirigentes do Ferencvaros ofereceram-lhe emprego numa fábrica de munições, pois nunca é demais relembrar que estamos a falar de uma época em que o futebol era totalmente amador! Joseph Szabo mais uma vez decidiu arriscar. Foi, e pouco depois era chamado à seleção da Hungria, pela qual atuaria em 12 ocasiões ao longo da sua carreira de futebolista.

Paixão recípocra entre Szabo e Portugal

Mas o ponto de viragem da sua vida deu-se em 1926, altura em que o Szombately solicita ao Ferencvaros o empréstimo da sua estrela Szabo para uma digressão a Portugal. Cedência aceite o jovem jogador embarca com o seu novo clube para terras lusas onde participa em diversos encontros de caráter particular. E chegado à Madeira... ali ficaria por um bom punhado de anos. E assim foi porque ao seu talento o Nacional não ficaria indiferente, tendo feito uma proposta a Szabo para ficar no Funchal a jogar pelo clube alvi-negro. Como condição para ficar o jovem húngaro queria apenas que lhe pagassem duas passagens da Hungria para Portugal... para si e para a sua futura esposa, com quem iria contrair matrimónio dali a pouco tempo. Condição aceite pelos nacionalistas Szabo muda-se de armas e bagagens para a Madeira e ali continuou a desenvolver a sua arte nos 4 anos que se seguiram. Um ano depois troca de camisola, passando a vestir a do emblema mais popular da ilha, o Marítimo. Uma "senhora equipa" de futebol tinha o conjunto verde rubro na época, onde para além de Szabo pontificava um jovem que viria a ser considerado como um dos melhores jogadores portugueses de todos os tempos: Pinga.
O talento dos madeirenses rapidamente chegou ao continente, que recebia ecos de que na ilha existia uma verdadeira mina de craques! O FC Porto, através do seu lendário guarda-redes Mihaly Siska, também ele húngaro de nascimento, lançou o "canto da sereia" a Szabo. Depois de alguns meses de impasse eis que em meados de 1930 Joseph Szabo desembarca na Cidade Invicta com a tarefa de jogar e... treinar o FC Porto. Mas não vem sozinho, consigo trás um diamante ainda por lapidar chamado Pinga. E não seria preciso esperar muito tempo para Szabo brilhar de azul e branco vestido, já que logo na sua primeira época ao serviço do clube vence o Campeonato Regional. Prova que voltaria a vencer na temporada seguinte, juntando a este título outro mais pomposo, o de Campeão de Portugal. Os feitos de Joseph Szabo começavam desta forma a ser conhecidos um pouco por todo o país, e ao Porto chegam ecos de que um clube de Lisboa se estaria a preparar para lançar o isco a Szabo. Sabendo disto os dirigentes portistas logo trataram de guardar a sua jóia, tendo pedido inclusive à Polícia para que impedisse o húngaro de sair da cidade fosse em que circunstância fosse!
E lá ficaria, permanentemente vigiado supomos nós, até 1937, tendo conquistado mais 4 Campeonatos Regionais, um Campeonato de Portugal, e um Campeonato Nacional da 1ª Divisão, em 1934/35, curiosamente a primeira edição do campeonato maior do futebol lusitano.
Joseph Szabo desempenhava por esta altura só funções de treinador. Dava mostras de ser um grande condutor de homens, um mestre da tática, porém com um temperamento terrível! E mais terrível ficou depois de uma viagem até Londres, onde realizaria nesse ano de 1935 um estágio com aquela que era considerada a melhor equipa do Mundo da época, o Arsenal, treinado pelo lendário técnico Herbert Chapman. A viagem à capital inglesa havia sido um presente oferecido pelos dirigentes do clube nortenho a Szabo na sequência da conquista do Campeonato Nacional, presente que viria a revolucionar por completo a mentalidade do jovem treinador.
De regresso ao Porto Szabo levou a cabo uma autêntica revolução nos métodos de trabalho. Aplicou uma verdadeira ditadura militar no seu balneário, onde a disciplina era a palavra de ordem. Logo no primeiro dia de trabalho da nova época ordenou que os seus pupilos fizessem uma corrida de 7 km desde a Constituição até à Circunvalação... pelo menos três vezes por semana! De Londres trouxera entretanto outras severas regras, como por exemplo, aquela em que cada jogador que chegasse um minuto atraso ao treino pagaria uma multa de 10 por cento do seu ordenado! A paciência dos jogadores e dirigentes portistas foi-se apagando à medida em que Szabo se tornava cada vez mais agreste e exigente com todos. Até que em 1937, no rescaldo da conquista do Campeonato de Portugal desse ano, os dirigentes portistas perdem de vez a paciência e demitem Szabo.
Não ficaria sem emprego durante muito tempo, sendo Braga o seu destino seguinte. E até à capital do Minho levou consigo o feroz caráter disciplinador que o tinha tramado no FC Porto, e desde o primeiro minuto de trabalho colocaria em cima da mesa uma série de regras/exigências que pretendia ver cumpridas. A mais curiosa foi talvez o facto de querer que o Sporting de Braga passasse a usar um equipamento igual ao do Arsenal de Londres, isto é, camisola vermelha com mangas brancas, calção branco e meia vermelha. Exigência, ou capricho, aceite pelos responsáveis minhotos, e que curiosamente se mantém até aos dias de hoje! Em Braga continuou a mostrar dotes de grande condutor de homens e mais uma vez a sua fama chegou ao sul do país, mais concretamente à capital Lisboa, que pela mão do Sporting não perdeu tempo a encenar mais uma tentativa de "pescar a truta" húngara.

O casamento com o Sporting

Contrariamente ao ocorrido algumas épocas antes desta feita o Sporting conseguiu mesmo que Szabo aceitasse treinar a sua equipa principal, uma efeméride ocorrida em 1937. E chegado a Lisboa e ao Sporting Joseph Szabo revolucionou por completo não só o futebol do clube como o próprio futebol português. "Doente" pelo trabalho físico, feroz disciplinador, estudioso da tática, não demorou muito a que o sucesso lhe voltasse a bater à porta. No Sporting  iniciou um reinado ainda hoje insuperável, sendo o treinador que mais épocas consecutivas esteve à frente do clube (8), e aquele que mais títulos venceu (13).
Da sua mente nasceu o lendário quinteto "5 Violinos", ele que descobriu o talento ímpar de dois desses famosos "violinistas", nomeadamente Jesus Correia e Fernando Peyroteo. Aplicou na perfeição no nosso leões o famoso sistema tático WM. Severo, por vezes demais, com os seus jogadores Szabo teve em 1940/41 aquela que poderemos caracterizar como a sua grande época de leão ao peito, altura em que venceu tudo o que havia para vencer: Taça de Portugal, Campeonato Nacional da 1ª Divisão, e o Campeonato Regional de Lisboa. Nesta sua primeira passagem pelo comando do Sporting venceu 2 campeonatos nacionais da 1ª Divisão, um Campeonato de Portugal, 5 campeonatos regionais de Lisboa, e uma Taça do Império.
Mas tal como acontecera no FC Porto Szabo também colecionava alguns inimigos dentro do Sporting. A sua língua afiada, dizem alguns que provocatória e insultuosa por vezes, ditou a sua saída do clube de Alvalade em 1945. Rumou de novo a Braga, onde apenas esteve uma temporada. Arrependidos da decisão tomada uma década antes os dirigentes do FC Porto vão em sua perseguição e convencem-no em 1945/46 a regressar à Invicta. Ali esteve duas épocas, mas sem o sucesso da sua primeira passagem por aquelas paragens. Nos anos que se seguiram andou pelo Algarve (orientou Portimonense e Olhanense) e regressou a Lisboa para liderar Atlético e Oriental.
Em 1953/54 dá o "sim" aquele que era já publicamente o clube do seu coração, o Sporting, para na qualidade de treinador de campo vencer o campeonato e a Taça de Portugal dessa temporada. Ficou um ano mais e fez de novo as malas rumo a outras paragens. Caldas, de novo Braga, Leixões, Torreense, Barreirense, e Vila Real foram alguns dos emblemas que testemunharam a mestria de Szabo. A última chamada do Sporting aconteceu em 1964/65, onde desempenhou funções de treinador de campo ao lado de Armando Ferreira e de Anselmo Fernandez.
Em 1966 orienta um grupo de homens pela última vez na sua vida, facto ocorrido em Angola, cuja seleção nacional foi treinada por um homem que nesta altura era já mais português do que húngaro. Dai por esta altura ser já conhecido como José Szabo. Para a eternidade ficam os seus revolucionários métodos de trabalhar o futebol, a sua extrema dedicação ao trabalho físico - da sua autoria é a frase «no futebol o sucesso faz-se com 10 por cento de génio e 90 por cento de transpiração» -, a sua feroz personalidade disciplinadora - falhar um golo dentro da área dava direito a uma multa de 10 por cento do ordenado -, controlador absoluto de tudo o que fosse relativo aos seus atletas - vivia obcecado pelos "desempenhos" sexuais dos seus pupilos, proibindo-os mesmo de ter relações antes dos jogos, já que tal era prejudicial à atuação destes no relvado - e a sua peculiar forma de "arranhar" a língua portuguesa, forma essa que não poucas vezes lhe valeram inúmeros dissabores.
Sportinguista era o seu coração, não sendo de estranhar que na hora da morte escolhesse o lar de jogadores do clube de Alvalade para morrer. Facto ocorrido a 17 de março de 1973.

Legenda das fotografias:
1-Joseph Szabo
2-A equipa do FC Porto orientada por Szabo que em 34/35 venceu a 1ª edição do Campeonato Nacional da 1ª Divisão
3-O Sporting que em 40/41 venceu a "tripla": Campeonato Nacional, Taça de Portugal, e Campeonato de Lisboa

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Memórias lusitanas (4)...

Campeonato Nacional da 1ª Divisão, Época 1937/38

CAMPEÃO NACIONAL: SPORT LISBOA E BENFICA

CLASSIFICAÇÃO GERAL:


CLUBES-JOGOS-VITÓRIAS-EMPATES-DERROTAS-GM-GS-PONTOS

1º Benfica---------14---10----3---1---34---16---23

2º FC Porto----------14---11----1---2---43---22---23

3º Sporting-----------14---10----2---2---67---23---22

4º Carcavelinhos-----14---5---1---8---18---36---11

5º Belenenses--------14---5---0----9---29---28---10

6º Académica---------14---5---0---9---23---37---10

7º Barreirense---------14---2---4---8---18---34---8

8º Acd. Porto---------14---2---1---11---15---51---5

OS RESULTADOS DO CAMPEÃO:

FC PORTO: 2-2 / 3-1

SPORTING: 2-2 / 3-2

CARCAVELINHOS: 4-1 / 3-2

BELENENSES: 1-2 / 2-1

ACADÉMICA: 2-1 / 3-1

BARREIRENSE: 2-1 / 0-0

ACD. PORTO: 4-0 / 3-0

OS NOMES DOS CAMPEÕES NACIONAIS:

Albino, Gaspar, Amaro, Espírito Santo, Xavier, Alfredo Valadas, Gustavo, Baptista, Rogério, Vieira, Domingos Lopes, Feliciano Barbosa, Francisco Costa, Cardoso, Luiz Rodrigues e Rosa. Treinador: Lipo Hertzka

Conjunto do Benfica que arrecadou o primeiro tri-campeonato da história do futebol português

Plantéis das equipas que disputaram a 1ª Divisão


FC Porto – Guarda-redes: Rosado e Soares dos Reis. 
Defesas: Fernando Sacadura, Vianinha e Jerónimo Faria. 
Médios: Valdemar Mota, António Baptista, Pocas, Francisco Ferreira e Carlos Pereira. 
Avançados: Ângelo Silva, Lopes Carneiro, Carlos Nunes, Gomes da Costa, Francisco Reboredo, Costuras, Pinga e António Santos. 
Treinador: Mihaly Siska.



Sporting – Guarda-redes: João Azevedo e António Martins. 
Defesas: Joaquim Serrano, João Jurado e Mário Galvão. 
Médios: Manuel da Silva, Serra e Moura, Belarmino, Aníbal Paciência, Rui de Araújo e Manuel Marques. 
Avançados: Heitor Nogueira, Joel Valido, Pedro Pireza, Manuel Soeiro, João Custódio, João Cruz, Francisco Lopes, Fernando Peyroteo, Daniel Silva, Adolfo Mourão e Abrantes Mendes. 
Treinador: Joseph Szabo.

 

Carcavelinhos – Guarda-redes: Carlos Madueño. 
Defesas: Barão, Manuel dos Anjos, Vergilésio Bernardo e Artur Baeta. 
Médios: António Esteves, Manuel Rita, José Lopes, Vitoriano Vieira e Francisco França. 
Avançados: Isidoro, António Farinha, Vasques, Bastos, João Gomes, Joaquim Oliveira e Silva, Franklim , Joaquim Quirino, Tomás Rodrigues e Carlos Pratas. Treinador: desconhecido. 


Belenenses – Guarda-redes: Artur Dyson, Hélder Moura e Fernando de Sousa.
Defesas: Martinho, Alberto de Jesus, Francisco Gatinho e José Simões. Médios: Canal, Jaime Viegas, Palhinhas, Rodrigues Alves, Mariano Amaro, Varela Marques e Francisco Gomes. 
Avançados: José Luís, Bernardo Soares, Perfeito Rodrigues, Rafael Correia, Artur Quaresma, Rui Carneiro e Joaquim Preto. 
Treinadores: Cândido de Oliveira e Augusto Silva.




Académica – Guarda-redes: Tibério Antunes. 
Defesas: Cristóvão Lima, Abreu, José Maria Antunes, João Teixeira e César Machado. 
Médios: Vítor de Sousa, Viriato Nunes, Octaviano Oliveira, Nini, Manuel da Costa, Alexandre Portugal, Bernardo Pimenta e Carlos da Silva. 
Avançados: Arnaldo Carneiro, Peseta, Alberto Gomes, Mário Cunha e Rui Cunha. 
Treinadores: Guedes Pinto e Estevão Puskas. 

Barreirense – Guarda-redes: Veríssimo Mendonça e Francisco Câmara. 
Defesas: Casimiro Tavares, Leonel Alves, Raul Pascoal e Francisco Elói. 
Médios: Júlio Dias, Raul Jorge, José Marques, Monteiro, Alexandre Almeida, João Limas, Francisco Baptista, Alfredo Curtinhal, Carvalhinho e Francisco Moreira. 
Avançados: José Rodrigues, Norte, Januário Palma, Raul Jorge, Malaquias, João Piçarra, Maximino Campos, Raimundo Câmara, Joaquim Januário e Armando Ferreira. 
Treinador: Desiderio Herczka.
 

Académico do Porto – Guarda-redes: Romão, Alcibíades Silva e Levy de Sousa. Defesas: Matos da Silva, Albertino Alves, Carlos Alves e Ricardo. 
Médios: Arlindo, Nicolau, Guimarães, Hermes Bastos, Amadeu Castelo, Arménio, Mário Mendes e Álvaro Pacheco. 
Avançados: Pinto da Cunha, Américo Rodrigues, Lopes da Silva, Carlos Mesquita, Raul Castro e Álvaro Pereira. 
Treinador: János Biri.





 Clássicos do Futebol Português
(Jogos entre os Três Grandes - FC Porto, Benfica, e Sporting - no Campeonato Nacional da 1ª Divisão da época de 1937/38)

 Espírito Santo foi autor de um dos três golos com que o Benfica bateu o rival Sporting nas Amoreiras

2ª Jornada

Benfica - Sporting: 3-2
Data: 23 de janeiro de 1938
Campo das Amoreiras (Lisboa)
Árbitro: Abel Ferreira (Lisboa)

Benfica: Amaro, Vieira, Gustavo, Raul Baptista, Albino, Gaspar Pinto, Cardoso, Rogério, Espírito Santo, Xavier, e Valadas. Treinador: Lipo Hertzka

Sporting: Martins, Jurado, Galvão, Rui Araújo, Paciência, Manuel Marques, Mourão, Soeiro, Peyroteo, Pireza, e Cruz. Treinador: Joseph Szabo

Golos: 0-1 (Peyroteo, aos 6m), 1-1 (Rogério, aos 28m), 2-1 (Rogério, aos 41m), 3-1 (Espírito Santo, aos 64m), 3-2 (Peyroteo, aos 70m)


 Mihaly Siska, para muitos o primeiro grande guarda-redes do futebol português, defendendo com brio a baliza do seu FC Porto, que depois de pendurar as chuteiras abraçou uma carreira de treinador de sucesso no clube azul e branco. Na 3ª jornada do campeonato de 1937/38 ele estreou-se num dérbi com um triunfo sobre o Sporting.

3ª Jornada

FC Porto - Sporting: 2-1
Data: 6 de fevereiro de 1938
Estádio do Lima (Porto)
Árbitro: Manuel de Oliveira (Coimbra)

FC Porto: Soares dos Reis, Vianinha, Sacadura, Anjos, Carlos Pereira, Francisco Ferreira, António Santos,Gomes da Costa, Costuras, Pinga, e Reboredo. Treinador: Mihaly Siska

Sporting: Azevedo, Jurado, Galvão, Rui Araújo, Paciência, Manuel Marques, Mourão, Soeiro, Peyroteo, Heitor, e Cruz. Treinador: Joseph Szabo

Golos: 1-0 (António Santos, aos 33m), 2-0 (Pinga, aos 40m), 2-1 (Heitor, aos 77m)


Benfiquistas festejam mais um golo perante o desespero do guarda-redes portista Soares dos Reis

5ª Jornada

Benfica - FC Porto: 3-1
Data: 20 de fevereiro de 1938
Campo das Amoreiras (Lisboa)
Árbitro: Cunha Pinto (Setúbal)

Benfica: Amaro, Vieira, Gustavo, Raul Baptista, Albino, Gaspar Pinto, Domingos Lopes, Rogério, Espírito Santo, Xavier, e Valadas. Treinador: Lipo Hertzka

FC Porto: Soares dos Reis, Vianinha, Sacadura, Anjos, Carlos Pereira, Francisco Ferreira, António Santos, Gomes da Costa, Costuras, Pinga, e Carlos Nunes. Treinador: Mihaly Siska

Golos: 0-1 (Costuras, aos 40m), 1-1 (Rogério, aos 47m), 2-1 (Espírito Santo, aos 70m), 3-1 (Valadas, aos 72m)


Leões de Szabo gritam golo ante o velho rival lisboeta

9ª Jornada

Sporting - Benfica: 2-2
Data: 20 de março de 1938
Campo do Lumiar (Lisboa)
Árbitro: Abel Ferreira (Lisboa)

Sporting: Azevedo, Jurado, Galvão, Rui Araújo, Paciência, Manuel Marques, Mourão, Heitor, Peyroteo, Daniel, e Cruz. Treinador: Joseph Szabo

Benfica: Amaro, Vieira, Francisco Costa, Raul Baptista, Albino, Gaspar Pinto, Domingos Lopes, Rogério, Espírito Santo, Xavier, e Valadas. Treinador: Lipo Hertzka

Golos: 1-0 (Peyroteo, aos 15m), 1-1 (Domingos Lopes, aos 20m), 1-2 (Xavier, aos 68m), 2-2 (Peyroteo, aos 79m)

 
10ª Jornada

Sporting - FC Porto: 6-1
Data: 27 de março de 1938
Campo do Lumiar (Lisboa)
Árbitro: Henrique Rosa (Évora)

Sporting: Azevedo, Jurado, Galvão, Rui Araújo, Paciência, Manuel Marques, Mourão, Soeiro, Peyroteo, Pireza, e Cruz. Treinador: Joseph Szabo

FC Porto: Soares dos Reis, Vianinha, Sacadura, Anjos, Carlos Pereira, Francisco Ferreira, António Santos, Gomes da Costa, Reboredo, Pinga, e Ângelo. Treinador: Mihaly Siska

Golos: 1-0 (Peyroteo, aos 30m), 2-0 (Cruz, aos 31m), 3-0 (Peyroteo, aos 57m), 4-0 (Cruz, aos 80m), 4-1 (Ângelo, aos 81m), 5-1 (Mourão, aos 84m), 6-1 (Peyroteo, aos 87m)


12ª Jornada

FC Porto - Benfica: 2-2
Data: 10 de abril de 1938
Estádio do Lima (Porto)
Árbitro desconhecido

FC Porto: Soares dos Reis, Vianinha, Sacadura, Anjos, Carlos Pereira, Francisco Ferreira, Lopes Carneiro, Reboredo, Costuras, Pinga, e Ângelo. Treinador: Mihaly Siska

Benfica: Amaro, Vieira, Gustavo, Raul Baptista, Albino, Gaspar Pinto, Domingos Lopes, Rogério, Espírito Santo, Xavier, e Valadas. Treinador: Lipo Hertzka

Golos: 1-0 (Costuras, aos 22m), 1-1 (Rogério, aos 46m), 2-1 (Ângelo, aos 52m), 2-2 (Valadas, aos 64m)

Melhor marcador do Campeonato Nacional da 1ª Divisão de 1937/38:
Peyroteo (Sporting): 34 golos

CAMPEÃO NACIONAL DA 2ª DIVISÃO: LEIXÕES 

CLASSIFICAÇÃO GERAL SÉRIE 1:

CLUBES-JOGOS-VITÓRIAS-EMPATES-DERROTAS-GM-GS-PONTOS

1º Boavista---6---5---0---1---20---6---10

2º Salgueiros---6---4---0---2---15---8---8

3º V. Guimarães---6---3---0---3---15---14---6

4º Valenciano---6---0---0---6---3---25---0

CLASSIFICAÇÃO GERAL SÉRIE 2:

CLUBES-JOGOS-VITÓRIAS-EMPATES-DERROTAS-GM-GS-PONTOS

1º Leixões---6---5---1---0---23---4---11

2º Sp. Espinho---6---3---1---2---12---13---7

3º Leça---6---1---2---3---9---13---4

4º Braga---6---1---0---5---11---25---2

CLASSIFICAÇÃO GERAL SÉRIE 3:

CLUBES-JOGOS-VITÓRIAS-EMPATES-DERROTAS-GM-GS-PONTOS

1º Vila Real---2---2---0---0---12---1---4

2º Mirandela---2---0---0---2---1---12---0

CLASSIFICAÇÃO GERAL SÉRIE 4:

CLUBES-JOGOS-VITÓRIAS-EMPATES-DERROTAS-GM-GS-PONTOS

1º Sanjoanense---6---5---1---0---27---5---11

2º Beira-Mar---6---3---2---1---26---12---8

3º SL Viseu---6---1---1---4---7---19---3

4º Lus. Vildemoinhos---6---1---0---5---6---30---2

CLASSIFICAÇÃO GERAL SÉRIE 5:

CLUBES-JOGOS-VITÓRIAS-EMPATES-DERROTAS-GM-GS-PONTOS

1º Marinhense---6---5---0---1---27---9---10

2º Torreense---6---3---2---1---11---12---8

3º Naval 1º Maio---6---1---1---4---12---15---3

4º Conimbricense---6---1---1---6---16---3

CLASSIFICAÇÃO GERAL SÉRIE 6:

CLUBES-JOGOS-VITÓRIAS-EMPATES-DERROTAS-GM-GS-PONTOS

1º Marvilense---6---4---1---1---11---5---9

2º Acd. Santarém---6---2---2---2---15---9---6

3º Matrena---6---2---1---3---8---16---5

4ºVilafranquense---6---2---0---4---9---13---4

CLASSIFICAÇÃO GERAL SÉRIE 7:

CLUBES-JOGOS-VITÓRIAS-EMPATES-DERROTAS-GM-GS-PONTOS

1º U. Lisboa---6---2---3---0---16---16---7

2º Seixal---6---2---2---2---17---16---6

3º Casa Pia---6---2---1---3---15---18---5

4º Luso---6---2---0---3---6---13---4

CLASSIFICAÇÃO GERAL SÉRIE 8:

CLUBES-JOGOS-VITÓRIAS-EMPATES-DERROTAS-GM-GS-PONTOS

1º Sp. Covilhã---6---5---0---1---25---5---10

2º Estrela de Portalegre---6---5---0---1---26---9---10

3º Portalegrense---6---1---0---5---17---26---2

4º SL Castelo Branco---6---1---0---5---9---37---2

CLASSIFICAÇÃO GERAL SÉRIE 9:

CLUBES-JOGOS-VITÓRIAS-EMPATES-DERROTAS-GM-GS-PONTOS

1º V. Setúbal---5---5---0---0---20---3---10

2º Lusitânia Reguengos---4---1---2---1---7---7---4

3º Juv. Évora---6---1---1---4---7---14---3

4º SL Beja---5---1---1---3---6---16---3

CLASSIFICAÇÃO GERAL SÉRIE 10:

CLUBES-JOGOS-VITÓRIAS-EMPATES-DERROTAS-GM-GS-PONTOS

1º Olhanense---6---3---2---1---11---6---8

2º Portimonense---6---4---0---2---14---13---8

3º Farense---6---3---1---2---10---5---7

4º Luso Beja---6---0---1---5---5---16---1

APURAMENTO DO CAMPEÃO

1ª Eliminatória

U. Lisboa - Sp. Covilhã: 9-0

Leixões - Vila Real: 5-0

Quartos-de-final

Olhanense - V. Setúbal: 0-1

U. Lisboa - Marvilense: 6-2

Marinhense - Sanjoanense*

Leixões - Boavista: 5-0

*Sanjoanense desistiu

Meias-finais

Leixões - Marinhense: 4-1

U. Lisboa - V. Setúbal: 2-1

Final

Leixões - U. Lisboa: 2-1