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segunda-feira, novembro 09, 2015

Arquivos do Futebol Português (4)

O team de Lisboa que em 1894 conquistou o primeiro troféu da história do futebol português
A popularização do futebol em Portugal levou a que a modalidade ultrapassasse em 1894 pela primeira vez as fronteiras regionais. A 29 de outubro de 1893 o jornal Diário Ilustrado publica uma carta do presidente do Football Club do Porto, António Nicolau d' Almeida, endereçada ao presidente do Football Club Lisbonense, Guilherme Pinto Basto, onde na qual o team do Porto convidava o team lisboeta para um duelo futebolístico a realizar a 2 de novembro desse ano. A missiva rezava assim: «Desejando solenizar a definitiva instalação do Football Club do Porto resolvemos organizar um match quarta-feira próxima 2 de novembro, no qual tomasse parte um eleven do team do clube a que V.Exa. tão dignamente preside. Não temos, é certo, em virtude da pouca prática e nenhum training dos nossos jogadores um eleven de primeira ordem, capaz de fazer frente ao do Club Lisbonense. Como, no entanto, o nosso convite não representa um repto lançado pelos nossos jogadores aos jogadores de Lisboa, mas tão somente o vivo desejo de estreitar relações de franca camaradagem, esperamos que V.Exas. nos revelarão a nossa justificada imperícia. Cumpro, pois, na qualidade de presidente do Football Club do Porto, o honroso dever de convidar por intermédio de V. Exas. os valentes e adestrados jogadores do Club Lisbonense a tomarem parte no referido match. Na esperança de sermos honrados com a anuência do nosso pedido, aguardamos o favor de uma resposta rápida para nosso governo. Deus guarde V.Exas. Excelentíssimo Sr. Presidente do Football Club Lisbonense».
A carta de António Nicolau d'Almeida a Guilherme Pinto Basto
O repto é aceite, pese embora por motivo de impossibilidade de organizar de forma tão célere a equipa e a viagem para o norte os de Lisboa fazem com o match fosse jogado somente a 2 de março do ano seguinte! Na ânsia de fazer deste um encontro adornado com pompa e circunstância, Guilherme Pinto Basto convence o rei D. Carlos a patrocinar o evento. O monarca, um acérrimo apaixonado pelo desporto, aceita de pronto, e mais do que isso disponibiliza-se para oferecer um troféu ao vencedor do match, exigindo somente que esta partida fosse incluída no programa das comemorações do Centenário Henriquino, em homenagem ao Infante D. Henrique, e que pelo menos seis jogadores de cada equipa teriam de ser portugueses, embora esta última exigência não terá sido seguida à risca, conforme iria atestar a constituição das equipas. O famoso encontro seria batizado pela imprensa da época de Cup d'el Rei, tendo os dois combinados sido integrados por elementos pertencentes a outros grupos de football das duas principais urbes lusitanas, facto que de pronto fez deste um confronto entre... Lisboa e Porto, o primeiro embate entre as duas cidades que com o passar das décadas viria a dar aso a uma acesa rivalidade.
O Campo do Inglês (na zona do Campo Alegre) era propriedade de um dos grupos mais populares da Cidade Invicta daquele tempo, o Oporto Cricket Club, emblema que cedeu alguns dos seus melhores jogadores ao team representativo do Porto, aos quais se juntariam alguns elementos do Football Club do Porto. Quanto ao team de Lisboa esse era capitaneado por Guilherme Pinto Basto, e reza a história que a viagem entre a capital e o Porto terá sido feita durante a madrugada que antecedeu o jogo e cuja duração chegou às 14 horas! Após o desembarque na Estação de Campanhã os lisboetas partiram de imediato para a zona do Campo Alegre onde de Sua Majestade o rei e restante família real... nem sinal! Mesmo sem a presença dos ilustres convidados o pontapé de saída foi dado quando passavam 15 minutos das três da tarde, tendo o encontro sido arbitrado por Eduardo Pinto Basto. Os jornais da época ressalvaram o facto de o terreno de jogo não ser dos melhores para a prática do futebol, referindo que a zona das balizas descaiam bastante, além de que os postes não se encontrariam à distância regulamentada! Quanto à família real essa chegou bastante atrasada ao espetáculo, quando passavam já 15 minutos das quatro da tarde, sendo que a pedido de Sua Majestade a Rainha D. Amélia os 22 players tiveram de fazer um esforço suplementar em prolongar a partida por mais 10 minutos para que os ilustres espectadores pudessem apreciar, devidamente, o espetáculo que terminou com a vitória da equipa mais experiente nestas andanças, isto é, a turma de Lisboa, por 1-0.
A bonita Cup d'el Rei, o primeiro troféu futebolístico instituído em Portugal, tendo sido disputado pelos grupos de Lisboa e Porto, em 1894
Os relatos do célebre encontro dizem que o golo dos lisboetas foi marcado já com a presença de suas majestades, embora o seu autor fosse por completo desconhecido! Rezam ainda as crónicas que o match teve na verdade dois golos, tendo o primeiro ocorrido quando faltavam 14 minutos para o intervalo, mas o facto de a bola ter batido no braço de um defensor da equipa nortenha antes de se encaminhar para o fundo da baliza levou a que o juiz Eduardo Pinto Basto anulasse o lance com a justificação de que o esférico havia sido jogado com a mão. Ainda segundo os relatos da época para a vitória do team de Lisboa - cujo golo foi marcado no segundo tempo - muito contribuíram as esplêndidas exibições dos irmãos Vilar, Carlos e Afonso, do inglês Rankin e ainda de Paiva Raposo. Para os portuenses sobraram alguns elogios, tidos como um team de primeira ordem, sendo que no plano individual se destacou as exibições do experiente escocês MacGeock, de Arthur Dagge e de MacMillen, facto que levou o jornal Sport - um dos primeiros periódicos portugueses dedicados ao desporto - referir que «se o grupo de Lisboa que, para o ano de 1895, tiver de defender a taça, não se treinar e não tiver muito cuidado na escolha dos jogadores que dele devem fazer parte, decerto bem difícil lhe será poder vencer o match, pois que, à equipa que vimos jogar pelo Porto, a única coisa que lhe notámos foi a falta de treinos, que, no que, estamos certos, não descurarão de futuro, a fim de poderem ganhar a taça, para o ano».
A notícia deste jogo teve eco além fronteiras, tendo os jornais ingleses publicado uma breve nota sobre o acontecimento ocorrido no Campo Alegre. Quanto ao troféu, o capitão e guarda-redes da equipa de Lisboa, Guilherme Pinto Basto, recebeu-o no final do encontro das mãos do rei D. Carlos, monarca que havia mandado executar esta peça banhada em prata na Casa Leitão & Irmão, joalheiros da Casa Real.  
Para a eternidade ficam as lines desse histórico embate: Porto - Hugh Ponsonly (c), MacGeock, A. Nugent, Guimarães, Arthur Dagge, MacMillen, Albert Kendall, Adolfo Ramos, MacKenie, Ray e Alfredo Kendall. Lisboa - Guilherme Pinto Basto (c), Keating, Locke, Barley, Artur Raposo, Rankin, Afonso Vilar, Pittuck, Thomson, Palmers e Carlos Vilar.
1893 e 1894 são anos repletos de matchs, não só nas duas principais urbes do país como noutras regiões de um Portugal que começava a abraçar nos seus quatro cantos o jovem football. Os jornais dão conta de desafios em Coimbra, Faro, Portalegre e Madeira, embora continue a ser na capital que a bola rola com mais frequência. O emblema com mais encontros disputados é o Football Club Lisbonense, que a par dos ingleses do Carcavelos Club é tido como o emblema mais forte do império. Há, aliás, em 1893 um duelo curioso entre estes dois clubes, disputado a 2 de fevereiro, no Campo das Salésias, e segundo as crónicas de então o Carcavelos, integrado por jogadores de outros teams lisboetas, como o Braço de Prata e o Club de Lisboa, derrotou por 1-0 o até então invencível Lisbonense, onde pontificavam três jogadores de origem negra - os primeiros negros do futebol português, segundo se sabe - Pascoal, Alfredo Silva e Valentim Machado.

Vídeo: Reportagem do Canal História sobre o primeiro troféu disputado em Portugal
 

sexta-feira, novembro 06, 2015

Arquivos do Futebol Português (1)

O grupo de 23 aristocratas que em outubro de 1888 deu
o pontapé de saída na história do futebol em Portugal
Oficialmente o pontapé de saída da história do futebol português é dado em outubro de 1888. O palco daquele que é hoje um momento histórico é Cascais, mais concretamente os terrenos da Parada, onde um grupo de 23 aristocratas da sociedade lisboeta da época, sendo que entre estes figuravam os irmãos Pinto Basto, os grandes responsáveis pela introdução do belo jogo em território português. Foram eles que em meados de 1886 trouxeram da pátria do futebol moderno - Inglaterra - a primeira bola de futebol, mágico objeto que seria guardado religiosamente para que anos mais tarde fosse então utilizado no já referido ensaio de Cascais. Faça-se, no entanto, aqui um parêntese para dizer que há quem defenda a teoria de que a primeira vez que a bola rolou em Portugal foi na Madeira. A efeméride é atribuída Harry Hilton, um jovem oriundo de uma família aristocrata inglesa radicada naquela ilha do Atlântico que em 1875 terá reunido um grupo de amigos para na Camacha dar uso ao seu mais recente brinquedo trazido da sua Inglaterra: uma bola de futebol. Pouco mais se sabe sobre a “brincadeira” do jovem Harry… Contudo, historiadores fizeram crer que este momento não passou senão de um instante lúdico de Harry Hilton e seus amigos, onde o esférico foi – sem regras – maltratado na sequência dos milhares de pontapés que recebeu. Efetivamente a primeira vez em que o jogo se desenrolou de forma organizada e “futebolisticamente civilizada”, o mesmo é dizer com as regras do jogo devidamente aplicadas e cumpridas, foi em 1888, pelo tal de grupo de 23 aristocratas veraneantes. Entre eles destacou-se Guilherme Pinto Basto, os mais velho dos irmãos Pinto Basto, que dizem os historiadores ser dele a ideia de realizar o tal ensaio nos terrenos da Parada.

Guilherme Pinto Basto
Guilherme nasceu a 1 de fevereiro de 1864, na freguesia de Santa Catarina, em Lisboa, e cedo descobriu o fascínio pelo desporto. Um encanto que teve o seu primeiro capítulo oficial, por assim dizer, aos 14 anos, altura em que vai para Inglaterra com o intuito de completar os seus estudos. Em “terras de Sua Majestade” frequentou o Colégio de Downside, onde já estudavam os seus irmãos Eduardo e Frederico Pinto Basto. Ai trava conhecimento com o belo jogo que desabrochava em terras britânicas. Em 1884 regressa a Portugal para trabalhar na casa comercial Pinto Basto & Companhia, gerida pela sua família. E aqui durante anos residiu uma dúvida: seria Guilherme que nesse seu regresso à pátria trouxe na bagagem a primeira bola de futebol? «Não, foram os meus irmãos, Eduardo e Frederico, quando regressaram do colégio em Inglaterra, em 1886», disse o aristocrata numa entrevista ocorrida anos mais tarde, desvendando desta forma o mistério. Mas terá sido ele que em 1888, com os conhecimentos sobre as leis e técnicas do jogo adquiridos na Velha Albion, rapidamente contagiou os seus amigos mais próximos com o vício pelo jogo do pontapé na bola, e que edificaria então no final do verão de 1888 o primeiro grande momento coletivo do futebol em Portugal, o primeiro ensaio da modalidade que com o passar dos anos se haveria de tornar rainha na quase totalidade do planeta.Sobre este desafio dizem os poucos relatos existentes que os irmãos Pinto Basto e restantes amigos passaram a manhã a retirar pedras do campo dos tais terrenos da Parada com o intuito de colocarem a bola a rolar. Para a história ficam pois o nome dos 23 pioneiros: Guilherme Pinto Basto, Eduardo Pinto Basto, Frederico Pinto Basto, Aires de Ornelas, Hugo O´ Neill, António Avillez, João Bregaro, Augusto Moller, Jorge Figueira, Carlos Pinto Basto, Luís Trigoso, Manuel Salema, Eduardo Romero, Pedro Sabugal, Francisco Alte, Salvador Asseca (visconde), Francisco Avillez, Salvador França, Francisco Figueira, Simão de Souza Coutinho, Vasco Sabugosa (conde de S. Lourenço) e o Visconde de Castello.Novo. O resultado final deste primeiro ensaio é por completo desconhecido. Sabe-se sim que os primórdios do futebol em Portugal foram aristocratas, o jogo começou a ser interpretado pelas classes elitistas, por membros da mais fina flor da sociedade. O futebol em Portugal nascia em berço de ouro!
O grupo português que em 1889 defrontou os ingleses do Cabo Submarino de Carcavelos
O sucesso do ensaio de Cascais fez com que quatro meses depois (22 de janeiro de 1889) se organizasse um desafio mais a sério, digamos assim, num clima diferente do verificado nos terrenos da Parada entre um grupo de ricos e ilustres amigos que procuravam acima de tudo divertir-se. Desta feita Guilherme Pinto Basto escalou uma equipa de Lisboa - composta unicamente por portugueses - para defrontar um grupo de ingleses que por aquela altura se encontravam em serviço no Cabo Submarino, explorado por uma empresa inglesa e situado em Carcavelos. O cenário do match foi Lisboa, no local onde anos mais tarde seria edificado o Campo Pequeno. O resultado foi favorável aos portugueses - não se sabendo por quantos -, ficando no entanto para a história o facto de que o team português, no qual Guilherme Pinto Basto atuou como guarda-redes (embora naquela época não houvessem posições ou táticas fixas, podendo hoje jogar como guarda-redes e amanhã como avançado) ter lutado com bravura, portando-se os seus integrantes como autênticos sportsmens.
A este encontro entre os fidalgos portugueses e os operários ingleses ocorre um vasto número de personagens possuídas por ávida curiosidade em presenciar o ato bárbaro de pontapear uma bola protagonizado por 22 homens. Eternizados ficaram pois os seus nomes, sendo que pelos portugueses se apresentaram em campo: Guilherme Pinto Basto (sabe-se na qualidade de guarda redes), João Saldanha Pinto Basto, João Bregaro, Eduardo Romero, Eduardo Pinto Basto, Afonso Vilar, D. Simão de Sousa Coutinho (Borba), Duarte Pinto Basto, Frederico Pinto Basto, Fernando Pinto Basto, Augusto Moller e Henrique Vilar. 12 nomes do lado lusitano, presumindo-se que um deles tivesse sido suplente. Pela armada britânica entraram em campo: J. Frazer, J. Mason, C. Anderson. Wray. R. W. Watson, Rawstron, Govan, Briggs, F. Palmer, C. Cox e um outro jogador não identificado.
A equipa inglesa composta por operários do Cabo Submarino
que em 1889 jogou nos terrenos do atual Campo Pequeno
Pormenor curioso foram os equipamentos. Caricatos, na verdade! Trajes para todos os gostos e feitios. Houve quem levasse fatos de banhos às riscas (!) outros com indumentária de presidiários calçando sapatos no lugar de botas, e quase todos eles ostentando um peculiar barrete a fazer lembrar um vendedor de gelados deambulando pelas praias! Táticas de jogo não parece que tenham existido, até porque o único objetivo era pontapear a bola para a frente na tentativa de a introduzir no goal adversário. Na plateia senhoras da alta sociedade com vestes de gala olhavam com chocada admiração as correrias bárbaras dos gentelmens lusitanos e dos trabalhadores britânicos. Pormenores mais detalhados da contenda são desconhecidos, apenas se sabe que os corajosos portugueses venceram, embora não se sabe por quantos nem quem foram os autores dos goals.
Desse histórico momento daquela tarde ventosa há no entanto uma relíquia ainda hoje guardada. Uma deliciosa e – muito – peculiar crónica publicada no “Jornal do Comércio” de 23 de janeiro de 1889. De autor desconhecido este é tido como o primeiro texto escrito em Portugal retratando os acontecimentos de um match de football, o qual foi ilustrado por uma não menos peculiar ilustração que também aqui hoje recordamos. Sem mais demoras aqui fica o “retrato escrito” daquele momento cujo título é senão mais do que uma curiosa combinação de palavras das emoções ali vividas:
 «O “Match” no Campo Pequeno – A mulher peluda no Jardim Zoológico

Uma quantidade enorme de pessoas foi hoje ao Campo Pequeno assistir ao desafio, entre ingleses e portugueses, de futebol. Grande número de carruagens com elegantes senhoras, entre as quais se destacavam mademoiselle Ida Blanc, governando galhardamente, ao lado de sua mãe, uma soberba parelha de cavalos pretos. O resultado do jogo foi muito lisongeiro para os nossos compatriotas que conseguiram ganhar. Não faltaram os trambolhões e os rebolões do próprio jogo, mostrando todos os fortes mancebos, que nele tomaram parte, quão exímios são no “manejo” do pontapé, como disse uma elegante que, por casualidade, ficou ao pé de nós. Quase toda a gente, findo o futebol, foi passear ao Jardim Zoológico, onde se exibia a persa Mirra, a mulher peluda».

Uma crónica pituresca de um acontecimento que nas décadas seguintes do novo século que se aproximava haveria de se tornar num ritual comum das tardes domingueiras para as gentes da brava nação lusitana.

terça-feira, abril 02, 2013

Histórias do Futebol em Portugal (12)... Nascimento da A.F. Lisboa coincide com o único título conquistado pelo primeiro grande clube português

Trazido pela mão dos irmãos Pinto Basto em finais do século XIX o futebol em Portugal iniciou a sua curva ascendente no que a popularidade diz respeito nos inícios dos 100 anos que se seguiram, altura em que surgiram os primeiros duelos acesos entre os clubes que iam florescendo a uma velocidade estonteante, duelos que começavam a despoletar nos corações do povo lusitano a paixão por aquele belo jogo nascido em Inglaterra. O primeiro grande centro futebolístico português foi Lisboa, cidade que em finais do século XIX e princípios do século XX viu nascer uma série de clubes que ajudaram a enraizar o jogo na cultura lusitana. Nasceram as primeiras rivalidades clubísticas, os primeiros disputadíssimos torneios, e naturalmente as primeiras lendas dos retângulos de jogo. Contudo, e talvez porque fosse algo novo, a organização foi digamos que o calcanhar de aquiles do jovem futebol português. Nos anos iniciais as regras muitas vezes não eram respeitadas, causando o caos entre clubes, jogadores, e adeptos. Foi preciso esperar até 1910 para que finalmente o futebol fosse estruturado dos pés à cabeça, tendo para isso muito contribuido o nascimento da Associação de Futebol de Lisboa (AFL), a primeira associação do país, e para muitos a primeira entidade reguladora a sério do fenómeno futebolístico luso.
Na viagem de hoje ao passado vamos então recordar as incidências do primeiro Campeonato (regional) de Lisboa organizado pela AFL, e recordar o seu primeiro campeão oficial, aquele que na época era o clube mais bem estruturado do ainda criança futebol nacional.

Como já vimos as competições inter-clubes começaram a surgir um pouco por todos os quatro cantos da capital portuguesa nos inícios do século passado. Esta atividade não era mais do que o resultado dos elevados índices de popularidade que o futebol grangeava na urbe lisboeta. A imprensa começava a dar destaque aos jogos que se desenrolavam aqui e acolá, e com naturalidade surgiram pois os primeiros campeonatos regionais. Em meados de 1906 os principais emblemas lisboetas da época reúnem-se com a intenção de criar um organismo que orientasse e coordenasse uma grande competição. Dessa reunião nasce a Liga Football Association (LFA), o organismo (presidido por Joaquim Costa e secretariado por um tal de José de Alvalade, esse mesmo, o mentor do Sporting Clube de Portugal) que tutela o primeiro campeonato de Lisboa, cujo pontapé de saída foi dado na temporada de 1906/07. Grande dominador do futebol daqueles dias o Carcavelos Club - composto exclusivamente por jogadores ingleses a laborar no Cabo Submarino - conquistou o título, levando a melhor sobre o Benfica, o Lisbon Cricket, e o Clube Internacional de Futebol, popularmente conhecido como CIF.
A arte futebolística dos ingleses do Carcavelos seria vincada nas duas edições seguintes, com a obtenção de mais dois ceptros regionais, sendo que na temporada de 1907/08 o Campeonato de Lisboa passa a ser organizado por uma nova entidade, a Liga Portuguesa de Futebol (LPF), a sucessora da LFA. Januário Barreto, médico de profissão, árbitro, jogador, e ilustre dirigente desportivo - exerceu entre outros cargos o de presidente do Sport Lisboa - foi o primeiro presidente do recém-nascido organismo. Mas a vida da LPF seria curta.

Ainda antes do Benfica colocar em 1909/10 um ponto final no reinado de três anos consecutivos dos ingleses do Carcavelos Club na competição, mosquistos por cordas começaram a surgir em catadupa no seio do futebol lisboeta. Com as rivalidades entre clubes ao rubro, as águas agitavam-se entre adeptos, jogadores e dirigentes. A indisciplina reinava nas relações entre clubes, causadas por queixas contra árbitros, ou decisões da LPF. Os regulamentos raramente eram cumpridos. Os jogadores mudavam de camisola quando bem lhes apetecesse, os clubes desistiam a meio das provas, além de que a segurança não existia numa época em que as rivalidades levavam os adeptos a ultrapassar a fronteira que separa os bons costumes da selvajaria. Tudo isto, ao que se juntou a morte de Januário Barreto, levou a que em 1910 a LPF fechasse portas. O futebol vivia em tumulto, tal como aliás o próprio país, que se encontrava em transição do regimo monárquico para o da república. Tumulto cujo ponto final foi colocado a 23 de setembro desse longínquio 1910, dia em que nasce a Associação de Futebol de Lisboa, a entidade que haveria de dinamizar o futebol associativo em Portugal dali em diante.
AFL que tomou de imediato conta do Campeonato de Lisboa, tendo logo em 1910/11 chamado a si a organização do certame, que iria contar com a participação de sete clubes, nomedamente o CIF, o Benfica, o Sporting, o Campo de Ourique, o Império, o Lisboa Football Club, e o União Belenense. Notava-se a ausência de alguns clubes históricos dos primeiros anos de futebol em Portugal, desde logo os ingleses do Carcavelos Club, que preferiam agora competir apenas em jogos particulares (!), enquanto que emblemas como o Lisbon Cricket e o Gilman desapareciam, tendo os seus valorosos atletas rumado para outras paragens. O CIF, por exemplo, reforçou-se com alguns atletas do Lisbon Cricket, ao passo que o Império recebeu quase toda a equipa (!) do Gilman. A AFL organizou o primeiro Campeonato (oficial) de Lisboa em três categorias: primeiras, segundas, e terceiras, sendo que as duas últimas se equiparavam a uma espécie de campeonatos de reservas.

O primeiro "regional" lisboeta teve início a 13 de novembro de 1910, tendo logo na ronda inaugural surgido uma enorme supresa. O campeão da época anterior, o Benfica, foi derrotado em casa pelo União Belenense, por 2-3 (!), o único desaire dos encarnados liderados pelo seu dirigente/treinador/jogador (!!!) Cosme Damião, mas que haveria de ser decisivo nas contas finais. Outro grande candidato ao título que iria tropeçar lá mais para a frente do campeonato era o Sporting, o clube aristocrata da sociedade lisboeta, o clube abastado financeiramente, que tinha nas suas fileiras alguns dos melhores jogadores lusos de então.
Os irmãos Stromp (Francisco e António) eram duas das principais estrelas leoninas, aos quais se juntavam os irmãos Catatau (António Rosa Rodrigues, e Cândido Rosa Rodrigues), responsáveis pela primeira grande traição do futebol lusitano no início do século passado.

Figuras de destaque dos primórdios do Benfica, António Rosa Rodrigues e Cândido Rosa Rodrigues desertaram do clube no final da temporada de 1906/07, rumo ao grande rival Sporting, que os aliciou com... banhos quentes e toalhas lavadas no final de cada jogo/treino (!), mordomias que o então pobre Benfica não possuia. Grande figura daquele Sporting era também Francisco dos Santos, o primeiro emigrante de sucesso do futebol português, a quem o Museu Virtual do Futebol já dedicou longas linhas numa outra visita ao passado. Só para relembrar os mais esquecidos Francisco dos Santos revelou-se como um cerebral médio-ofensivo no Casa Pia, em finais do século XIX, tendo posteriormente respresentado o Sport Lisboa - antecessor do Sport Lisboa e Benfica - antes de rumar ao estrangeiro para estudar... Belas Artes. Primeiro em Paris e depois em Roma, sendo que na Cidade Eterna para fazer face às enormes dificuldades financeiras vivenciadas arranjou emprego como... jogador de futebol. E em boa hora o fez, pois tornou-se de imediato numa referência do jovem calcio transalpino ao serviço da Lázio. No emblema da capital italiana destacou-se então, não sendo de admirar que a braçadeira de capitão lhe fosse entregue logo na primeira época! Foi um dos artistas do primeiro dérbi romano, entre Lázio e Roma, tendo o ilustre (jornal) Gazzetta dello Sport sublinhado que nesse jogo histórico estiveram em evidência dois jogadores... «o jovem Saraceni e o veterano Dos Santos, que com os seus 55 quilos foi, impressionante, dos melhores em campo...». De regresso a Portugal (em 1908) assinou pelo Sporting, ali terminando a sua brilhante carreira de futebolista, antes de se dedicar em exclusivo à atividade de escultor que o haveria de eternizar na História de Portugal.

Mas as estrelas só por si não ganham jogos, e o Sporting encontrou muitas dificuldades ao longo da sua caminhada no primeiro "regional" oficial de Lisboa. Dificuldades criadas sobretudo pelos seus dois maiores rivais, o Benfica, com quem perdeu na 6ª jornada por 5-1, e o CIF, que derrotaria os leões nos dois confrontos realizados, o primeiro (na 5ª jornada) por 1-0, e o segundo na 11ª ronda, por 2-0. Os desaires averbados nas 5ª e 6ª jornadas - diante dos seus principais rivais - ditaram praticamente o afastamento dos sportinguistas da luta pelo título, a qual foi quase de forma exclusiva protagonizada pelo CIF e pelo Benfica. Os duelos entre CIF e Benfica - cuja maior estrela era Cosme Damião - neste campeonato terminaram empatados, um a zero golos (na 2ª jornada), e outro a uma bola (na ronda número oito), pese embora a meta tenha sido cortada em primeiro lugar pelos primeiros, com um total de 22 pontos, contra os 20 dos encarnados.

Desta forma o CIF era assim coroado como o primeiro campeão oficial da AFL. Na última jornada do campeonato um facto caricato ocorreu no embate entre Benfica e Sporting, ocorrido no recinto do Lisboa Football Club, o Campo dos Castelos. A tarde futebolística teve início com uma partida das segundas categorias, cujo vencedor foi o Benfica, por 1-0. O público afeto ao Sporting não terá gostado da exibição do árbitro do encontro, queixando-se sobretudo do golo benfiquista, que segundo os leões teria sido apontado em fora de jogo. O ambiente estava incendiado, e mais ficou quando as primeiras categorias subiram ao retângulo de jogo. O Sporting abriu o marcador, mas logo depois o Benfica restabelece a igualdade em mais um lance... irregular, nas vozes leoninas. Estas sublinham uma carga evidente do marcador do golo benfiquista sobre o guarda-redes da casa, Gastão Pinto Basto. O árbitro do encontro, que por sinal era primo do guardião leonino, e que dava pelo nome de Eduardo Luís Pinto Basto, validou o tento, e a multidão em fúria invadiu o terreno de jogo. As cenas que se seguiram foram o que se pode chamar de um intenso combate de boxe (!) entre benfiquistas e sportinguistas. A AFL homologou a igualdade a uma bola, mas a Comissão de Árbitros não concordou, tendo então sido marcado um novo jogo entre ambas as equipas para 18 de julho de 1911, partida essa à qual o Sporting não compareceu, alegando num comunicado que «os benfiquistas não eram dignos de pisar as suas instalações»!

Bom, mas voltando ao campeão, ao CIF, o clube terminou a temporada de 1910/11 com um total de 10 vitórias alcançadas e apenas dois empates consentidos (ante o Benfica, como já vimos), tendo entre o seu grupo de notáveis jogadores destacado-se nomes como Eduardo Luis Pinto Basto, Merik Barley, W. Sissener, Augusto Sabbo, ou Luis Kruss Gomes. CIF que foi digamos que o primeiro grande clube de futebol em Portugal, sobretudo sob o ponto de vista estrutural, servindo de exemplo para muitos outros clubes que iriam nascer nos anos seguintes. Ligado diretamente aos introdutores do futebol em Portugal, os Pinto Basto, o CIF alcançou assim o único título oficial da sua hoje centenária vida, coincidindo com o nascimento de uma AFL que seria a semente para o crescimento do futebol português no plano organizativo. O exemplo organizativo da AFL deu origem a que mais tarde outras associações de futebol nascessem noutras regiões de Portugal que começavam também elas a ver os seus grupos futebolísticos darem os primeiros pontapés na bola de forma mais séria.

A figura: Eduardo Luís Pinto Basto

Oriundo da família responsável pela introdução do futebol em Portugal Eduardo Luís Pinto Basto foi para muitos a grande figura do primeiro campeonato oficial da AFL. Filho do pai do futebol português, Guilherme Pinto Basto, o homem que em 1884 trouxe de Inglaterra a primeira bola, e que em 1888 organizou o primeiro jogo - facto já mencionado pelo Museu Virtual do Futebol - Eduardo Luís Pinto Basto herdou do seu progenitor a paixão pelo desporto, e pelo futebol muito em particular. Além de jogador, foi árbitro, e dirigente, tendo sido um dos rostos da fundação do CIF. À semelhança do seu pai estudou em Inglaterra, onde teve contato com o belo jogo, e chegado a Portugal colocaria em prática esses conhecimentos, contribuindo e muito para o crescimento do futebol luso. O seu pai, Guilherme Pinto Basto, deu-nos a conhecer o jogo em finais do século XIX, ao passo que Eduardo ajudou a cimentá-lo nos inícios do século XX não só com a organização de jogos e torneios, mas também ao nível da própria estruturação deste fenómeno. Como jogador destingiu-se sobretudo na baliza, tal como o seu pai - mais um ponto em comum entre ambos -, tendo sido um dos primeiros grandes keepers lusos, brilhando com as cores do seu CIF, clube que ajudou a fundar juntamente com nomes sonantes da época como Carlos Villar, ou Joaquim Costa. CIF que foi o primeiro clube português a jogar além-fronteiras, facto ocorrido em 1907, quando os lisboetas foram à capital espanhola bater o Madrid FC - antecessor do Real Madrid - por 2-0. Eduardo Luís Pinto Basto estava na baliza. E na baliza estaria também em 1911 aquando da primeira visita de um clube estrangeiro a Portugal, no caso os franceses do Stade Bordelais, que enfrentaram em Lisboa além do CIF de Pinto Basto, o Benfica e uma seleção da AFL, que na baliza tinha... Eduardo Luíz Pinto Basto. AFL onde esta figura se distinguiu, quer como dirigente, quer como árbitro, tendo sido um dos juízes mais conceituados da época.
Nasceu a 6 de junho de 1886, precisamente dois anos antes do seu pai ter organizado o tal primeiro jogo de futebol em Portugal, nos terrenos da Parada, em Cascais. Faleceu em 1955.  

Números finais do primeiro Campeonato (oficial) de Lisboa 

1-CIF: 22 pontos
2-Benfica: 20 pontos
3-Sporting: 14 pontos
4-Campo de Ourique: 10 pontos
5-Império: 8 pontos
6-União Belenense: 6 pontos
7-Lisboa FC: 4 pontos

Resultados mais dilatados

Benfica - Lisboa FC: 15-0
Sporting - Lisboa FC: 14-0
CIF - Lisboa FC: 12-3
Campo de Ourique - CIF: 0-11

Legenda das fotografias:
1-Clube Internacional de Futebol, o popular CIF, o primeiro campeão da Associação de Futebol de Lisboa (AFL)
2-O notável dirigente desportivo Januário Barreto
3-Um dos primeiros escudos da AFL
4-Cosme Damião, a estrela do Benfica
5-Os irmãos Catatau
6-Jogo entre CIF e Sporting
7-Cosme Damião em ação contra o Império
8-Equipa do Benfica, vice campeã regional de 1911
9-Eduardo Luís Pinto Basto
10-Francisco dos Santos, uma das estrelas do primeiro campeonato da AFL

sábado, dezembro 22, 2012

Efemérides do Futebol (23)...

A derradeira partida de futebol a que D. Carlos assistiu

É sabido que D. Carlos, o penúltimo rei de Portugal, era um profundo entusiasta do desporto, não só como espectador, mas também como praticante. Nesta última vertente foi um exímio praticante de tiro, de ténis, de esgrima, e de natação. Paixão profunda tinha igualmente o monarca pelo futebol, devendo-se a si parte da dinamização do belo jogo em terras lusitanas, em finais do século XIX, altura em que pela mão de Guilherme Pinto Basto - amigo pessoal do rei - a modalidade surgiu em Portugal. D. Carlos apadrinhou o primeiro grande troféu disputado em terras portuguesas, facto já aqui aliás evocado, o qual ocorreu em 1894, tendo sido disputado pelos combinados do Porto e de Lisboa. Dali para a frente era comum ver o rei na plateia sempre que ocorria um jogo de futebol. A última vez que presenciou um match foi a 7 de dezembro de 1907, no Campo da Cruz Quebrada, protagonizado pelas equipas do Lisbon Cricket e do CIF. Esta foi aliás a sua derradeira aparição num evento desportivo, já que poucos meses depois era assassinado no Terreiro do Paço (em Lisboa).

segunda-feira, março 05, 2012

Histórias do Futebol em Portugal (4): O primeiro Campeonato de Portugal

É opinião partilhada por muitos dos estudiosos do fenómeno futebolístico do nosso burgo que os anos 20 do século passado trouxeram a maturidade ao então jovem futebol português. Com a expansão da mancha clubística um pouco por todo o país a modalidade começou a acorrentar a si contornos de maior competitividade e interesse com a disputa das primeiras competições ao nível de clubes. Longe pareciam já estar os tempos dos primeiros ensaios que procuravam decifrar os mistérios daquele jogo trazido de Inglaterra na década de 80 do século XIX por Guilherme Pinto Basto, com o povo mais do que familiarizado com a modalidade a mostrar-se nos inícios do século seguinte completamente rendido a ela!
Os duelos entre clubes vizinhos sucediam-se em catadupa, e em volta deles alastrava a fervorosa massa adepta que com o seu entusiasmo conferia uma vida singular às primeiras catedrais – o mesmo é dizer estádios – da bola então construídas.
O mapa futebolístico português começava pois a ser desenhado com maior vivacidade, pese embora com traços de cariz regional. Foram pois regionais os primeiros confrontos a “doer”, os primeiros títulos, as primeiras histórias...
A temporada de 1906/07 assinala o arranque do 1º Campeonato de Lisboa no qual participaram o popular CIF (Clube Internacional de Futebol) fundado pela família Pinto Basto, o Sport Lisboa, o Lisbon Cricket Club e o Carcavelos Club, cabendo a este último emblema a honra de inaugurar a lista de campeões regionais da capital do país.
Estava assim dado o pontapé de saída nas competições regionais, que com o passar dos anos se iam multiplicando por outras regiões nacionais. Com a popularidade dessas mesmas competições surgiu nos anos 20 como que um apelo à criação de uma prova de maior dimensão, um torneio capaz de transpor a fronteira da regionalização, por assim dizer, de colocar frente a frente os pesos pesados locais num certame de âmbito... nacional.
O título de rei da região era já pequeno demais, sabia a pouco, os clubes, os jogadores e sobretudo os adeptos queriam mais, queriam ser os melhores do país. A Associação de Futebol de Lisboa toma mesmo a iniciativa de desafiar a sua congénere do Porto para um “match” entre Benfica e FC Porto, um repto que no entanto seria recusado por estes últimos, muito por culpa do diferendo que opôs sulistas e nortenhos aquando da escolha dos jogadores para integrar a primeira seleção nacional que enfrentou a Espanha em 1921, episódio esse aliás já aqui recordado no Museu Virtual do Futebol . Estava dado contudo o impulso para a criação de uma prova de cariz nacional, capaz de colocar em confronto os melhores clubes e os melhores atletas de cada região.

O nascimento do Campeonato de Portugal

E eis que na época de 1921/22 nasceu aquela que é considerada como a primeira competição de essência nacional: o Campeonato de Portugal. Vencê-lo significava ostentar a coroa de rei de Portugal no futebol. Não foi contudo um parto fácil, já que por aquelas alturas o futebol era desenvolvido de uma forma mais oficial e séria apenas nas associações de futebol de Lisboa e do Porto, e a espaços no Funchal e no Algarve, já que no resto do país a organização do futebol não era mais do que uma miragem. A União Portuguesa de Futebol (UPF) – antecessora da atual Federação Portuguesa de Futebol – sentiu pois algumas dificuldades em colocar em prática a sua ideia, dificuldades essas que no entanto não se afigurariam como entrave para a realização do primeiro CAMPEONATO DE PORTUGAL. Um campeonato integrado apenas pelos campeões regionais das duas associações que levavam mais a sério, por assim dizer, o fenómeno futebolístico em termos de competições organizadas, Lisboa e Porto, já que as associações do Funchal e do Algarve alegariam dificuldades económicas para explicar a não adesão à prova.
A representar as duas principais urbes de Portugal estiveram dois ilustres senhores do futebol lusitano, Sporting e o FC Porto. Ficou assente que o título nacional seria disputado em duas mãos, uma na capital outra na Cidade Invicta, cabendo a esta última as honras de receber o primeiro encontro.
No dia 4 de junho de 1922 o Porto vestiu-se de azul e branco na esperança de ver o seu clube ser o campeão de Portugal e acima de tudo levar a melhor sobre a “rival” Lisboa.
O relógio marcava 16h15 de uma tarde cinzenta salpicada com pingos de chuva. O público nortenho dava largas ao seu entusiasmo e paixão pelo emblema da cidade nas repletas bancadas do Campo da Constituição à espera de uma batalha – muitos encaravam-na dessa forma, ou não estivessem frente a frente os cavaleiros do Porto e de Lisboa – que deveria ter começado às 15h00, não fosse o atraso de um dos melhores jogadores portistas de então, João Nunes, que aproveitara aquele célebre domingo para dar um salto à... romaria do Senhor de Matosinhos. Pequeno atraso que não esmoreceu os intervenientes do encontro que sob a arbitragem de um inglês (Merick Barley) seria ganho pela equipa da casa por 2-1. Portistas que até estiveram a perder, na sequência de um golo de Emílio Ramos, aos 9 minutos, conseguindo no entanto dar a volta ao marcador graças a um “bis” de Tavares Bastos, primeiro aos 25 minutos e o segundo quase em cima do apito final, ao minuto 86.
De pronto foram lançados foguetes pelos eufóricos adeptos portuenses, sim portuenses e não portistas, porque esta foi uma vitória de toda a Cidade do Porto sobre a capital Lisboa, mais parecendo um S. João antecipado.
Sobre a histórica tarde o célebre Ribeiro dos Reis escreveria que: «o jogo decorreu em ambiente apaixonadíssimo, de que os lisboetas, no regresso, se queixaram amargamente». Pudera! Mas nada estava ainda perdido para os campeões de Lisboa.
No domingo seguinte (11 de junho) deu-se a segunda parte da batalha, desta feita em terras alfacinhas, mais precisamente no Campo Grande que em resposta ao cenário edificado uma semana antes no Porto se apresentou cheio como um ovo. Só que desta feita num ambiente 100 por cento hostil para os nortenhos. Outra coisa não seria de esperar, já que era agora a vez do Sporting jogar diante das suas gentes.
Para este jogo a UPF escolheu um árbitro espanhol (!), Montero de seu nome. Empolgados pelo seu público os leões vingaram a derrota na Constituição ao vencer por 2-0 com golos de Henrique Portela e Torres Pereira.

O “tira teimas” pendeu para o FC Porto

Com a contenda empatada a UPF viu-se forçada a agendar um terceiro e decisivo encontro
para uma semana mais tarde (18 de junho). Foi então sorteado o local do “tira teimas”, tendo a sorte ficado posteriormente do lado do FC Porto já que o palco da finalíssima foi o Campo do Bessa, situado no... Porto. Mas nem o facto de ter de viajar novamente até ao terreno do rival parece ter incomodado as gentes de Lisboa, e muito em particular a imprensa da capital, a qual a julgar pelo que viu no Campo Grande não tinha dúvida em rotular o Sporting como o principal candidato à vitória. «Vaticinamos nova vitória para o Sporting, pois o FC Porto é, inegavelmente, inferior», titulava o jornal desportivo “Os Sports”. Como estavam enganados.
Na véspera deste decisivo encontro Portugal escrevia uma das páginas mais belas da sua história com a conclusão da primeira travessia aérea entre Portugal e o Brasil protagonizada pela “dupla” composta por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. No Porto, como em todo o país, certamente, estalaram foguetes para comemorar tal façanha, com o povo a sair em grande número para as ruas dando assim um colorido mais intenso à festa. Quem parece não ter achado muita graça à onda de festividades foi o Sporting, cujos jogadores se queixam não ter pregado o olho durante a noite devido aos ruidosos festejos. Propositadamente ou não esses festejos teriam contornos mais intensos junto ao hotel onde estava instalada a comitiva sportinguista. Casualidade ou não? O lisboeta “Os Sports” achava que não.
Dia de jogo e o Campo do Bessa a arrebentar pelas costuras... com os entusiastas adeptos do FC Porto, naturalmente. Ambiente quente que ainda ficou mais escaldante ao minuto 51 quando Balbino fez o primeiro golo da tarde para os portistas. Vantagem que não foi ampliada cinco minutos mais tarde devido ao preciosismo do árbitro Neves Eugénio, que por sinal era um dos notáveis jogadores/dirigentes do... Académico do Porto. O juiz manda repetir uma grande penalidade que Artur Augusto converte inicialmente em golo com a justificação de que não havia dado ordem para a sua marcação. Na repetição o mesmo Artur Augusto envia violentamente a bola à trave!
Talvez empolgado pela falha do rival o Sporting aventura-se no ataque e aos 70 minutos Emílio Ramos repõe a igualdade no marcador.
O relógio não parava e no final dos 90 minutos o marcador indicava uma igualdade a uma bola. Parecia maldição, mas ainda não havia campeão! Veio o prolongamento e o FC Porto voltou a adiantar-se no marcador à passagem do minuto 100, desta feita por João Nunes, o tal que no primeiro jogo havia chegado atrasado por ter dado um salto à romaria do Senhor de Matosinhos. Um pouco tardio ou não parece que o efeito da ida do jogador à festa do milagroso santo parecia dar agora os seus frutos! O Sporting esmoreceu e dois minutos depois o capitão dos portistas João de Brito deu a machadada final no jogo ao apontar o 3-1 final.
Quando Neves Eugénio apitou pela última vez a loucura foi total. O campo mais parecia uma bomba a explodir de alegria, o FC Porto sagrava-se CAMPEÃO DE PORTUGAL, o primeiro CAMPEÃO DE PORTUGAL. A festa prolongou-se pela madrugada dentro na Cidade Invicta. Para a eternidade ficavam os nomes de Lino Moreira (guarda-redes), Júlio Cradoso, Artur Augusto, José Mota, Velez Carneiro, Floreano Pereira, João de Brito, Balbino Silva, Alexandre Cal, Tavares Bastos, João Nunes, e Adolphe Cassaigne (treinador).

Nomes e números da final:

FC PORTO – SPORTING, 2-1
4-6-1922, Porto (Campo da Constituição)
Árbitro: Merick Barley (Inglês)
Marcadores: 0-1 Ramos (9), 1-1 Bastos (25), 2-1 Bastos (86)
FC Porto: Lino Moreira; Júlio Cardoso e Artur Augusto; José Mota, Velez Carneiro e Floreano Pereira; João Brito cap, Balbino Silva, Tavares Bastos, João Nunes e Alexandre Cal. Treinador: Adolphe Cassaigne
Sporting: Amadeu Cruz; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; João Francisco, José Filipe e Henrique Portela; Torres Pereira, Francisco Marques, Francisco Stromp (cap), Emílio Ramos e José Leandro. Treinador: Charles Bell

SPORTING – FC PORTO, 2-0
11-6-1922, Lisboa (Campo Grande)
Árbitro: Montero (espanhol)
Marcadores: 1-0 Portela, 2-0 Pereira
Sporting: Amadeu Cruz; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; João Francisco, José Filipe e Henrique Portela; Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Francisco Stromp cap, Emílio Ramos e José Leandro. Treinador: Charles Bell
FC Porto: Lino Moreira; Júlio Cardoso e Artur Augusto; José Mota, Velez Carneiro e Floreano Pereira; João Brito cap, Balbino Silva, Tavares Bastos, João Nunes e Alexandre Cal. Treinador: Adolphe Cassaigne

FC PORTO – SPORTING, 3-1 (após prolongamento)
18-6-1922, Porto (Campo do Bessa )
Árbitro: Neves Eugénio (Académico do Porto)
Marcadores: 1-0 Balbino (51), 1-1 Ramos (70), 2-1 Nunes (100), 3-1 Brito (102)
FC Porto: Lino Moreira; Júlio Cardoso e Artur Augusto; José Mota, Velez Carneiro e Floreano Pereira; João Brito cap, Balbino Silva, Alexandre Cal, Tavares Bastos e João Nunes. Treinador: Adolphe Cassaigne
Sporting: Amadeu Cruz; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; João Francisco, Filipe dos Santos e Henrique Portela; Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Francisco Stromp cap, Emílio Ramos e José Leandro. Treinador: Charles Bell

Legenda das fotografias:
1-A equipa do FC Porto que venceu o primeiro Campeonato de Portugal
2-Tavares Bastos, autor dos dois golos do jogo da 1ª mão e um dos melhores jogadores portistas da época
3-A fachada principal do reduto dos Dragões, o Campo da Constituição...
4-...e uma vista aérea do Campo Grande (Lisboa)
5-A equipa do Sporting que vendeu cara a derrota na primeira prova de âmbito nacional organizada em Portugal

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Histórias do Futebol em Portugal (3): O primeiro jogo oficial...

A mulher peluda do Jardim Zoológico figurou
no primeiro jogo oficial do futebol em Portugal


Em viagens passadas a bordo da Máquina do Tempo fomos ao encontro daquela que é tida como a primeira aparição oficial do futebol em Portugal. Um histórico momento ocorrido em 1888, em Cascais (nos terrenos da Parada), protagonizado por um grupo de veraneantes proveniente da mais fina flor da alta sociedade portuguesa daquela época, onde na qual se destacava Guilherme Pinto Basto, o grande responsável pela introdução do futebol em terras lusitanas. Sobre os acontecimentos desse célebre final de tarde de um – qualquer – domingo de outubro já aqui foram traçadas umas linhas aquando da visita feita ao ilustre pai do futebol português, Guilherme Pinto Basto, eternizado no Museu Virtual do Futebol no cantinho destinado às “estrelas cintilantes”.
Não será demais recordar que segundo o próprio Pinto Basto – anos mais tarde – aquele primeiro contacto com a bola – trazida de Inglaterra pelos seus irmãos Eduardo e Frederico – não passou senão de um “ensaio” onde 28 fidalgos travaram conhecimento com o jogo que apaixonou os irmãos Pinto Basto aquando da passagem destes por terras inglesas. Foi digamos que uma espécie de aula ministrada pelos Pinto Basto ao seu ilustre leque de amigos sobre aquilo que viria tempos mais tarde a tornar-se no ópio do povo.
E não demorou muito para que o recém-nascido futebol – em Portugal – começasse a gatinhar. Poucos meses após o “ensaio” de Cascais realizou-se aquele que é considerado o primeiro grande duelo da modalidade no nosso país, o primeiro jogo a sério, o oposto do cenário descontraido e familiar edificado por aqueles 28 aristocratas nos terrenos da Parada. Recorrendo a alguns desses 28 elitistas Guilherme Pinto Basto montou uma equipa – não se sabe se com muito ou pouco jeito para encenar o “pontapé na bola”, o primeiro nome dado pelos populares lusitanos à modalidade – que ousou enfrentar os mestres do “football” moderno, vulgo os ingleses. Súbitos de “Sua Majestade” que constituiram um “team” formado por empregados do Cabo Submarino e da Casa Graham.
Lisboa e os terrenos do seu Campo Pequeno – na altura ainda sem toiros – presenciaram na tarde de 22 de janeiro de 1889 a batalha entre os fidalgos portugueses e os operários ingleses, tendo ao local ocorrido um vasto número de personagens possuídas por ávida curiosidade em presenciar o ato bárbaro de pontapear uma bola protagonizado por 22 homens.
Eternizados ficaram pois os seus nomes, sendo que pelos portugueses se apresentaram em campo: Guilherme Pinto Basto (sabe-se na qualidade de guarda redes), João Saldanha Pinto Basto, João Bregaro, Eduardo Romero, Eduardo Pinto Basto, Afonso Vilar, D. Simão de Sousa Coutinho (Borba), Duarte Pinto Basto, Frederico Pinto Basto, Fernando Pinto Basto, Augusto Moller e Henrique Vilar. 12 nomes do lado lusitano, presumindo-se que um deles tivesse sido suplente. Pela armada britânica entraram em campo: J. Frazer, J. Mason, C. Anderson. Wray. R. W. Watson, Rawstron, Govan, Briggs, F. Palmer, C. Cox e um outro jogador não identificado.
Pormenor curioso foram os equipamentos. Caricatos, na verdade! Trajes para todos os gostos e feitios. Houve quem levasse fatos de banhos às riscas (!) outros com endumentária de presidiários calçando sapatos no lugar de botas, e quase todos eles ostentando um peculiar barrete a fazer lembrar um vendedor de gelados deambulando pelas praias!
Táticas de jogo não parece que tenham existido, até porque o único objetivo era pontapear a bola para a frente na tentativa de a introduzir no “goal” adversário. Na plateia senhoras da alta sociedade com vestes de gala olhavam com chocada admiração as correrias bárbaras dos “gentelmens” lusitanos e dos trabalhdores britânicos. Pormenores mais detalhados da contenda são desconhecidos, apenas se sabe que os corajosos portugueses venceram, embora não se sabe por quantos nem quem foram os autores dos “goals”.
Desse histórico momento daquela tarde ventosa há no entanto uma relíquia ainda hoje guardada. Uma deliciosa e – muito – peculiar crónica publicada no “Jornal do Comércio” de 23 de janeiro de 1889. De autor desconhecido este é tido como o primeiro texto escrito em Portugal retratando os acontecimentos de um “match de football”, o qual foi ilustrado por uma não menos peculiar ilustração que também aqui hoje recordamos. Sem mais demoras aqui fica o “retrato escrito” daquele momento cujo título é senão mais do que uma curiosa combinação de palavras das emoções ali vividas:

«O “Match” no Campo Pequeno – A mulher peluda no Jardim Zoológico

Uma quantidade enorme de pessoas foi hoje ao Campo Pequeno assistir ao desafio, entre ingleses e portugueses, de futebol. Grande número de carruagens com elegantes senhoras, entre as quais se destacavam mademoiselle Ida Blanc, governando galhardamente, ao lado de sua mãe, uma soberba parelha de cavalos pretos. O resultado do jogo foi muito lisongeiro para os nossos compatriotas que conseguiram ganhar. Não faltaram os trambolhões e os rebolões do próprio jogo, mostrando todos os fortes mancebos, que nele tomaram parte, quão exímios são no “manejo” do pontapé, como disse uma elegante que, por casualidade, ficou ao pé de nós. Quase toda a gente, findo o futebol, foi passear ao Jardim Zoológico, onde se exibia a persa Mirra, a mulher peluda».


Uma crónica pituresca de um acontecimento que nas décadas seguintes do novo século que se aproximava haveria de se tornar num ritual comum das tardes domingueiras para as gentes da brava nação lusitana.

Legendas das fotografias:
1-A equipa portuguesa, com o pai do futebol português, Guilherme Pinto Basto, a figurar na fila de cima, em quarto lugar, da esquerda para a direito
2-O combinado inglês
3-A pisturesca ilustração que acompanhou a peculiar crónica do "match"

quarta-feira, agosto 10, 2011

Estrelas cintilantes (27)... Guilherme Pinto Basto - O pai do futebol português

Há quem aponte o longínquo ano de 1875 como aquele em que uma bola de futebol saltou pela primeira vez em território português. A efeméride é atribuída Harry Hilton, um jovem oriundo de uma família aristocrata inglesa radicada na Madeira que nesse ano terá reunido um grupo de amigos para na Camacha dar uso ao seu mais recente brinquedo trazido da sua Inglaterra: uma bola de futebol. Pouco mais se sabe sobre a “brincadeira” do jovem Harry… Contudo, historiadores fizeram crer que este momento não passou senão de um instante lúdico de Harry Hilton e seus amigos, onde o esférico foi – sem regras – maltratado na sequência dos milhares de pontapés que recebeu.
Isto para dizer que de uma forma organizada e “futebolisticamente civilizada”, o mesmo é dizer com as regras do jogo devidamente aplicadas e cumpridas, o futebol teve o seu primeiro grande momento no nosso país em Outubro de 1888, quando em Cascais um grupo de 23 veraneantes da alta sociedade portuguesa fizeram o primeiro “ensaio” de futebol. Entre esses ilustres pioneiros do “desporto rei” em Portugal estava Guilherme Pinto Basto, o homem que na História ficou conhecido oficialmente como o introdutor do futebol em Portugal. Oriundo de uma rica e aristocrata família portuguesa, os Ferreira Pinto Basto, Guilherme nasceu a 1 de Fevereiro de 1864, na freguesia de Santa Catarina, em Lisboa, e cedo descobriu o fascínio pelo desporto. Um encanto que teve o seu primeiro capítulo oficial, por assim dizer, aos 14 anos, altura em que vai para Inglaterra com o intuito de completar os seus estudos.
Em “terras de Sua Majestade” frequenta o Colégio de Downside, onde já estudavam os seus irmãos Eduardo e Frederico Pinto Basto. Ai trava conhecimento com o “belo jogo” que desabrochava em terras britânicas. E em 1884 traz na bagagem a novidade para Portugal: uma bola de futebol. Reza a lenda que Pinto Basto guardou religiosamente a bola, exibindo-a somente perante os amigos para que estes conhecessem o mágico objecto que por aquela altura endoidecia os ingleses. Quatro anos mais tarde, os três irmãos Pinto Basto regressam mais uma vez a Portugal para gozar as férias de Verão e consigo trazem uma nova bola de futebol. Com os conhecimentos sobre as leis e técnicas do jogo adquiridos os Pinto Basto rapidamente contagiaram os seus amigos mais próximos com o vício pelo jogo do pontapé na bola. Decorria o Verão de 1888 e na Quinta de Fronteireira, em Belas, davam-se os primeiros toques naquele objecto mágico. E eis que em Outubro Guilherme Pinto Basto organiza aquele que é tido como o primeiro grande momento colectivo do futebol em Portugal, o primeiro “ensaio” da modalidade que com o passar dos anos se haveria de tornar rainha na quase totalidade do planeta.
O mítico local foi Cascais, e os seus terrenos da Parada, espaço onde ilustres personalidades da época responderam afirmativamente ao convite de Pinto Basto. 23 homens da mais alta e fina sociedade lisboeta entraram assim para a história. Nos poucos recortes da imprensa da época sabe-se muito pouco sobre os acontecimentos do célebre “ensaio”, sabendo-se apenas que os “players” passaram a manhã a retirar pedras do campo a fim de preparar a contenda. Depois desta tarde já nada seria como dantes, o futebol tinha conquistado o seu espaço no nosso país. O sucesso do “ensaio” de Cascais fez com que quatro meses depois (22 de Janeiro de 1889) se organizasse um desafio mais a sério, digamos assim, num clima diferente do verificado nos terrenos da Parada entre um grupo de ricos e ilustres amigos que procuravam acima de tudo divertir-se. Desta feita Guilherme Pinto Basto escalou uma equipa de Lisboa, composta por portugueses, para defrontar um grupo de ingleses que por aquela altura se encontravam em serviço no Cabo Submarino, explorado por uma empresa inglesa e situado em Carcavelos. O cenário do “match” foi Lisboa, no local onde anos mais tarde seria edificado o Campo Pequeno. O resultado é mais uma vez desconhecido mas nas páginas dos jornais da época fica para a história o facto de que o “team” português, no qual Guilherme Pinto Basto actuou como guarda-redes (embora naquela época não houvessem posições ou tácticas fixas, podendo hoje jogar como guarda-redes e amanhã como avançado) lutou com bravura, portando-se os seus integrantes como autênticos “sportsmens”.
Cascais havia sido o ensaio e Lisboa o arranque definitivo, o futebol estava de pedra e cal em Portugal.
Dali em diante os jogos sucederam-se em catadupa, e com eles começaram a fundar-se os primeiros clubes de futebol. Como não podia deixar os Pinto Basto mais uma vez foram pioneiros neste capítulo, fundando o Foot-Ball Club Lisbonense, para em seguida outros grupos organizados proliferarem pela capital e pouco mais tarde por outros pontos do país.


O primeiro grande “sportsmen” português

A paixão de Guilherme Pinto Basto pelo desporto era desmedida, e o seu entusiasmo e dedicação não se ficou apenas pelo futebol, muito pelo contrário. Praticou patinagem, hóquei, corridas de cavalo, ciclismo, automobilismo, vela, remo, golfe, caça, ténis, tendo inclusive participado em touradas, como bandarilheiro, a pedido da Rainha D. Amélia. Ele foi considerado o primeiro grande “sportsmen” de Portugal, o primeiro grande desportista multifacetado, e a paixão pelo desporto fez com que com a idade de 86 anos ele fosse considerado o desportista mais idoso em actividade no país! Apesar de ter praticado inúmeras modalidades foi no futebol e no ténis que mais se notabilizou. Nesta última pertenceu-lhe igualmente o mérito de a dar a conhecer ao nosso país. Guilherme Pinto Basto não foi apenas o introdutor e principal dinamizar do ténis em terras lusitanas foi também um campeão, tendo-se consagrado por nove vezes campeão nacional! Seria o primeiro presidente da Federação Portuguesa de Lawn-Tennis, em 1925. Voltando ao futebol ele faria história ao participar no primeiro grande duelo entre equipas de Lisboa e Porto, em 1894, do qual já aqui falámos em “visitas” passadas. Em breves linhas recorde-se que este duelo foi patrocinado pelo Rei D. Carlos, outro amante fervoroso do desporto, que ofereceu a primeira taça disputada num jogo de futebol no nosso país. Pinto Basto capitaneou a equipa de Lisboa que venceu a do Porto (formada na sua grande maioria por jogadores do recém fundado Football Club do Porto) por 1-0.
Os factos de ser oriundo de uma rica e aristocrata família e de ser um desportista nato valeu-lhe a amizade com o Rei D. Carlos, tendo privado de perto com o monarca por diversas vezes, tanto em festas como em eventos desportivos.
Em 1938 assinalou-se com pompa e circunstância no Estádio das Salésias o 50º aniversário da introdução oficial do futebol em Portugal. Presentes estiveram algumas das lendas que marcaram presença nos terrenos da Parada em Outubro de 1888, entre outros Guilherme Pinto Basto. Passados 50 anos daquele mítico dia o pioneiro do futebol lusitano diria que aquele jogo era «uma brincadeira, jogava-se apenas entre pessoas que mantinham uma relação de amizade e de cortesia. Tínhamos todos condições e educação aproximadas. Não havia propriamente luta. O futebol era um divertimento próprio da idade. Não se falava nem se sonhava em futebol de campeonato, e menos ainda, de profissionalismo. Era tudo diferente…».
Divertimento, puro e simples, era assim que Pinto Basto encarava o desporto. Fora dele foi um empresário de sucesso, trabalhando com afinco na empresa da família, a E. Pinto Basto & Cª Lda, e foi sócio gerente da fábrica de porcelanas da Vista Alegre, fundada pelo seu visavó, José Ferreira Pinto Basto. Foi ainda distinguido como Comendador da Ordem de Cristo em Portugal, Cavaleiro da Legião de Honra de França, e Comendador da Real Ordem do Danebor da Dinamarca. Faleceu em Lisboa a 26 de Julho de 1957.

Legenda das fotografias:
1- Guilherme Pinto Basto
2- O grupo imortal de 28 homens que em Cascais efectuou o primeiro "ensaio" de futebol em Portugal. Guilherme Pinto Basto é o terceiro na fila de cima a contar da direita para a esquerda.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Histórias do Futebol em Portugal (1): O dia em que o rei foi à bola!

O primeiro troféu disputado em Portugal

Recordamos hoje na vitrina das “estórias futebolísticas” da bola lusitana um dos primeiros grandes momentos da vida do então jovem futebol em Portugal: o duelo entre as selecções do Porto e de Lisboa. Um facto histórico ocorrido a 2 de Março de 1894, no Porto, mais concretamente no desaparecido Campo Inglês (zona do Campo Alegre), que reuniu uma selecção de Lisboa composta por jogadores do Club Lisbonense, do Carcavelos Club e do Braço de Prata, e um combinado do Porto composto por atletas do Oporto Cricket Club. A partida foi organizada por Guilherme Pinto Basto, um profundo entusiasta do “belo jogo”, e a quem o futebol português muito deve, já que entre outros factos foi ele quem trouxe de Inglaterra (país onde estudava) para Portugal a primeira bola de futebol, objecto que desde logo suscitou um enorme interesse naqueles que com ele primeiramente tiveram contacto.
E pela primeira vez na história o vencedor levava para casa um troféu, neste caso a Taça D. Carlos I, uma oferta do citado monarca. Família real que, aliás, se encontrava no meio da assistência do célebre encontro, sendo que um dos episódios curiosos do mesmo relata que os jogadores tiveram de fazer um esforço suplementar em jogar um prolongamento pelo facto de Suas Majestades o Rei D. Carlos, e a Rainha D. Amélia (os quais se faziam acompanhar pelos príncipes D. Luís Filipe e D. Manuel) terem chegado ao evento a meio da 2ª parte. Como tal e para que os ilustres espectadores pudessem apreciar devidamente o espectáculo que ali se desenrolava foram jogados mais alguns minutos de uma contenda que seria ganha pela equipa de Lisboa, por 1-0. A taça seria entregue a Guilherme Pinto Basto.
Na fotografia que ilustra este texto pode ser vista a selecção de Lisboa que venceu este histórico encontro, a qual posa com a bonita taça que se assumiu como uma das peças de maior valor histórico do futebol lusitano.

Vídeo: Reportagem do Canal História sobre o primeiro troféu disputado em Portugal