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quarta-feira, abril 16, 2025

Jogos Memoráveis (10)... Southampton - Sporting (Taça UEFA 1981/82)


A primeira vez é sempre inesquecível, e então se acontecer num lugar especial ainda mais inolvidável se torna. É desta forma que podemos olhar para a vitória do Sporting em casa do Southampton na temporada de 81/82 em jogo a contar para a 1.ª mão da 2.ª eliminatória da Taça UEFA, por concludentes 4-2. E o que tem esta vitória de tão especial assim, perguntar-se-ão os visitantes do Museu. Simples, tratou-se do primeiro triunfo de uma equipa portuguesa em solo britânico a contar para as competições europeias de clubes. Em solo britânico, isto é, na terra dos inventores do futebol moderno, os mestres ingleses, há que sublinhá-lo, visto que não era qualquer equipa que ousava chegar a Inglaterra e vencer um cavaleiro dali oriundo. Mas aquela era, e é, talvez uma das equipas mais lendárias da história do Sporting, a equipa que nessa temporada venceu tudo a nível nacional através de um futebol encantador edificado por artistas de enorme qualidade em todos os setores do terreno. 


Havia, porém, uma zona do retângulo de jogo onde essa mestria se fazia notar ainda mais: o ataque. Setor este onde pontificava um dos tridentes mais cintilantes da história do futebol luso, um trio de artistas notáveis que muito contribuiu para que aquela fosse uma das melhores temporadas de sempre do Sporting. Falamos, claro, de António Oliveira, Rui Jordão e Manuel Fernandes. Pedra fundamental para que esta fosse uma das melhores épocas de sempre do Sporting foi o então seu lendário presidente, João Rocha, que após uma temporada (80/81) de insucesso desportivo começou por tomar a decisão de contratar um treinador que fizesse regressar a Alvalade a estrela das vitórias e mais do que isso, dos títulos. Depois de falhar a contratação de José Maria Pedroto e de John Mortimore, que tantas glórias haviam dado aos grandes rivais internos dos leões nos anos anteriores, respetivamente, FC Porto e Benfica, eis que a escolha recai noutro inglês, Malcolm Allison. Big Mal, como era conhecido no seu país, logo implementou um futebol de ataque no Sporting, assente na tal mestria e criatividade letal do trio Oliveira, Jordão e Manuel Fernandes, o qual era auxiliado por um meio campo operário, onde pontificavam nomes como Nogueira, Carlos Xavier, Ademar, Francisco Barão, ou Mário Jorge; uma defesa de betão, formada por figuras como Eurico, Inácio, ou Virgílio; e um guarda-redes ultra seguro, de seu nome Ferenc Mészáros. O guardião internacional húngaro foi a par de Oliveira a contratação mais sonante para aquela temporada de glória dos leões
Um "onze" do Sporting numa época (81/82) maravilhosa

E bem se pode dizer que o encantamento por aquele Sporting não só da parte dos adeptos leoninos como de todos aqueles que gostam de bom futebol, começou precisamente na noite de 21 de outubro de 1981, data em que o Southampton recebia o conjunto português. Atenção, este não era um Southampton qualquer, mas sim uma equipa recheada de talentos, sendo o maior deles aquele que provavelmente era o melhor futebolista inglês de então, Kevin Keegan. Vencedor por duas ocasiões (1978 e 1979) da Bola de Ouro, o famoso futebolista era a principal referência do Southampton, onde ingressara em 80/81 após três temporadas de sucesso ao serviço dos alemães do Hamburgo. Confiantes de que a sua estrela-mor iria abater os leões portugueses, os adeptos ingleses lotaram por completo o velhinho The Dell, mítico estádio do Southampton, mas o que viram, na realidade, foi uma exibição categórica e de autor do Sporting concluída com um histórico triunfo por 4-2. O primeiro de sempre, como já vimos, de equipas lusas em Terras de Sua Majestade a contar para as provas uefeiras. 

O Southampton onde pontificava o lendário Kevin Keegan

Abra-se aqui um parêntese, para recordar que antes deste jogo, os conjuntos portugueses haviam disputado 19 partidas europeias em solo da Velha Albion, por intermédio do Benfica, do FC Porto, do Belenenses, do Braga, do Vitória de Setúbal, do Vitória de Guimarães e do próprio Sporting, sendo que nesses 19 encontros anteriores ali disputados por estas equipas foram contabilizadas… 19 derrotas!

Mas o Sporting de Big Mal mudou esse paradigma naquela noite no relvado do The Dell. «O triunfo do Sporting frente a uma equipa onde joga o famoso Kevin Keegan, pode ser considerado uma proeza para o futebol português», assim escrevia o Diário de Lisboa na sua edição do dia seguinte a um jogo onde o Southampton cedo foi surpreendido com um futebol veloz e de ataque do Sporting, não sendo de admirar que logo aos 2 minutos Jordão, de cabeça, desse o melhor seguimento a uma jogada magistral de Oliveira, a qual foi construída pelo flanco direito do seu ataque. Aliás, ninguém esperava ver Oliveira nesse jogo a… defesa direito. A decisão de Allison deixou a todos perplexos, desde logo os seus próprios conterrâneos, e o que se passou foi que Oli – assim tratava Bil Mal o genial Oliveira – foi um verdadeiro diabo à solta no The Dell.

O majestoso tridente ofensivo dos leões: Jordão, Manuel Fernandes e Oliveira
O golo acordou os ingleses, que passaram a pressionar em zona alta os portugueses, mas a defesa leonina «susteve o ímpeto contrário e o meio campo e o ataque do Sporting trocavam a bola e lançavam perigosos contra-ataques que perturbavam a defesa inglesa», analisava o Diário de Lisboa. E seria num desses contragolpes venenosos que a sorte bafejou os portugueses e o azar bateu à porta dos britânicos. Estavam decorridos 20 minutos quando, pelo lado esquerdo, Freire rompeu com a bola pela área inglesa e pela frente encontrou Nick Holmes, que ao tentar roubar o esférico ao português traiu o seu guarda-redes e ampliou a vantagem dos visitantes. Apesar de atordoado com a postura inesperada dos portugueses, o Southampton não desistiu de atacar a baliza de Mészáros, «mas a defesa do Sporting, vigiando bem Keegan e atuando num sistema de dobras e apoios constantes (a que se associavam o meio campo e também Freire e Manuel Fernandes) foi-se opondo com êxito». Por seu turno, o Sporting continuava a dar azo a rápidos contra-ataques, e foi, uma vez mais, num desses lances que a três minutos do intervalo as bancadas do The Dell voltaram a estremecer com um novo golo lusitano. Oliveira, sempre ele, pelo flanco direito, lançou Manuel Fernandes, que ao superar a oposição da defesa local atirou para o fundo das redes de Peter Wells pela terceira vez naquela noite. Quem diria que ao intervalo o Sporting estaria a bater o Southampton em sua casa por 3-0! 

Keegan foi sempre muito bem vigiado pelos leões no The Dell
Na segunda parte houve sofrimento por parte dos leões, já que o Southampton, ferido no orgulho, apostou as fichas todas para inverter o rumo dos acontecimentos. O primeiro sinal de aviso foi dado por Mick Channon, aos 49 minutos, com um potente remate aos ferros da baliza de Mészáros. Persentindo, quiçá, o que seriam aqueles segundos 45 minutos, Malcolm Allison refresca e reforça o seu setor defensivo, tirando um homem de meio campo (Nogueira) e colocando em seu lugar um defesa (Virgílio). E quando não eram os homens do setor recuado leonino a dar conta do recado, lá estava Ferenc Mészáros a mostrar os seus dotes de guardião de craveira mundial. «Aos 56 minutos, Mészáros fez a defesa da noite: um “chapéu” de Moran apanhou-o adiantado e, quando o estádio aplaudia o golo, o guardião húngaro, em golpe de rins, desviou a bola para canto», contava a crónica do jogo escrita no Diário de Lisboa. À passagem da hora de jogo, George Lawrence reforçou o ataque inglês, e avalanche ofensiva dos anfitriões deu os seus frutos quando aos 68 minutos o central Eurico derrubou dentro de área o astro Kevin Keegan, não restando ao árbitro sueco, Erik Fredriksson, dúvidas quanto à marcação de grande penalidade a favor do Southampton. O mesmo Keegan bateu Mészáros e relançou a partida. O golo conferiu uma vitamina extra aos ingleses, que três minutos volvidos voltaram a marcar, desta feita Mick Channon, após assistência de Keegan. O Sporting passou a sofrer ainda mais a partir deste momento, com os ingleses a sufocarem ofensivamente os portugueses até final na expectativa de uma reviravolta. Valeu aos sportinguistas terem cabeça fria e muita concentração na hora em que o Southampton atacava. Até que a dois minutos dos 90 o sofrimento leonino terminou. Freire numa rápida incursão cruzou para o interior da área onde Manuel Fernandes não teve quaisquer dificuldades em fazer o 4-2 final a favor do Sporting. «A vitória do Sporting é indiscutível, sobretudo pela atuação da sua defesa, muito coesa, vibrante, corajosa e agressiva na marcação impiedosa que moveu aos jogadores contrários. O meio campo ajudou sempre que pôde e lançou o ataque em rápidos contra-ataques que desbarataram por completo a defesa inglesa, impotente face ao talento de Freire, Jordão Oliveira e Manuel Fernandes», concluiu o Diário de Lisboa. No jogo da 2.ª mão houve empate a zero bolas, o que permitiu ao Sporting avançar na prova, vindo a cair na ronda seguinte aos pés do Neuchâtel Xamax. 

Aqui fica a constituição das duas equipas nessa célebre noite europeia para o futebol português:

Southampton - Peter Wells, Chris Nicholl, Ivan Golac, Mark Whitlock (George Lawrence, 62), David Armstrong, Nick Holmes, Steve Williams, Alan Ball, Steve Moran, Mick Channon, e Kevin Keegan. Treinador: Lawrie McMenemy.

Sporting: Ferenc Mészáros, Eurico, Inácio, Zezinho (Francisco Barão, 79), Carlos Xavier, António Oliveira, Nogueira (Virgílio, 55), Ademar, Rui Jordão, Manuel Fernandes, e Freire. Treinador: Malcolm Allison.

Vídeo: Resumo da célebre partida disputada no The Dell

quinta-feira, março 20, 2025

Jogos Memoráveis (9)... Belenenses - Barcelona (Taça UEFA 1987/88)

É gooooloooo do Belenenses!

No futebol existem vitórias que são encaradas como se títulos pomposos se tratassem. Mesmo até que esses triunfos na prática não tenham levado a caminho algum, ou por outras palavras, que não tenham evitado uma eliminação de uma qualquer competição. Mas sempre que o pequeno David vence o gigante Golias é sempre uma história inolvidável e digna de ser recordada vezes sem conta. E na temporada de 1987/88 o Belenenses vestiu a pele de David após vencer no seu estádio um Golias que dava pelo nome de Barcelona, em jogo da 2.ª mão da 1.ª eliminatória da então Taça UEFA. Foi um triunfo histórico, mas que na verdade não foi suficiente para que os azuis do Restelo afastassem os catalães da prova, isto é, na Cidade Condal registou-se um resultado favorável ao Barcelona por 2-0, e em Lisboa o emblema da Cruz de Cristo venceu por 1-0. E é precisamente sobre este célebre triunfo que hoje vamos recordar, o qual resultou de um dos jogos mais épicos realizados pelo grande Belenenses nas provas europeias. Numa nota introdutória a este momento, é de realçar que esta era a terceira vez que os dois clubes se encontram numa eliminatória das competições europeias, sendo que apesar de ultrapassar sempre o Belenenses, o Barça nunca ganhou um jogo disputado no Restelo, contabilizando dois empates e uma derrota. 


Pois bem, em 87/88 o Barcelona não viveu um grande momento desportivo, muito pelo contrário. A equipa ficou num modesto 6.º lugar na LigaEspanhola, caiu nos quartos-de-final da Taça UEFA, e nem a vitória na Copa del Rey apagou uma época tão cinzenta. E isso ficou logo patente no jogo da primeira mão da eliminatória ante do Belenenses, realizado em Camp Nou, em que só um milagre deu o triunfo (2-0) aos catalães no… período de compensação. A vitória sofrida fez-se sentir entre os adeptos blaugrana, que no final se despediram da sua equipa com lenços brancos, sendo que a vítima imediata desta indignação foi o treinador inglês Terry Venables, despedido pouco depois e substituído no cargo pelo espanhol Luis Aragonés. Não era por falta e argumentos que o Barça vivia, ou viveu, naquele ano uma fase negativa, muito pelo contrário. Nomes de craveira mundial como o inglês Gary Lineker, o alemão Bernd Schuster, ou os espanhóis Andoni Zubizarreta, Víctor Muñoz, Migueli, Julio Alberto, Urbano, ou Alexanko faziam daquele Barcelona um dos conjuntos mais bem apetrechados do futebol europeu. Porém, nem sempre fartura (de craques) é sinónimo de qualidade. E qualidade era também o que não faltava a um Belenenses que viveria nesta reta final dos anos 80 um dos melhores períodos da sua história. 

Um "onze" do Belém nessa temporada de 87/88

Orientado pelo brasileiro Marinho Peres – que enquanto futebolista havia passado, curiosamente, pelo Barcelona – os azuis do Restelo fizeram uma temporada soberba, que terminou com um 3.º lugar no campeonato nacional, o que lhes valeria uma nova qualificação para a Taça UEFA da época seguinte onde voltariam a escrever história, ao eliminar o então detentor do título uefeiro, o Bayer Leverkusen. Mas isso é uma outra história. Centremos atenções no jogo de 30 de setembro de 1987, no Estádio do Restelo, que veio a provar que eliminar o Barcelona depois de uma derrota por 2-0 em Camp Nou não era afinal uma missão assim tão impossível de atingir. Não aconteceu, é certo, mas esteve muito perto de ser alcançada como iremos perceber nas próximas linhas. A exibição dos lisboetas no encontro da 1.º mão galvanizou os adeptos belenenses, que acorreram em massa ao Restelo. Quiçá esperançados numa reviravolta épica, mais otimistas ficaram quando logo aos 4 minutos viram o cerebral Schuster perder no seu meio campo uma bola para o búlgaro Mladenov, que sem perder tempo sprintou pelo flanco esquerdo do seu ataque, entrou na área e cruzou para o miolo onde apareceu Mapuata solto de marcação para fazer um golo que fez explodir de alegria as bancadas do Restelo. «Cumpriu-se o primeiro desejo de Marinho Peres: que o Belenenses marcasse cedo», assim rezava o início da crónica do encontro escrita por Jorge Caiágua no jornal oficial do emblema da Cruz de Cristo. 

O lance do golo de Mapuata

O jornalista escrevia mais adiante que o clube português se bateu com empenho e dignidade, confirmando o valor da equipa. De facto, assistiu-se a um jogo quase de sentido único, o da baliza de Zubizarreta, muito por culpa dos pupilos de Marinho Peres, que entraram no relvado impondo um ritmo veloz ao jogo, antecipando-se às jogadas de ataque dos catalães quase sempre, e quando a bola era recuperada não perdiam tempo a lançá-la para os homens da frente. Na realidade, esta partida mostrou uma vez mais que além de o Belenenses estar numa excelente forma, o seu opositor continuava a jogar mal, e no Restelo viu-se um Barça que atuou sempre sobre brasas. Para se resguardar das investidas azuis, os catalães mastigaram sempre muito o jogo no seu meio campo ao longo da primeira parte. Chiquinho Conde e Mladenov, que juntamente com Mapuata formavam o tridente ofensivo do Belenenses nessa célebre noite, não aproveitaram as abertas que o Barcelona por vezes ia dando na sua zona defensiva. Ainda no primeiro tempo, o búlgaro e o moçambicano desperdiçaram flagrantes oportunidades para desfeitear o grande Zubi. Mas não era apenas o setor atacante dos portugueses a dar nas vistas, já que a defesa, comandada pelo capitão e líder do grupo, José António, esteve sublime quer na marcação, quer na antecipação de jogadas ofensivas dos catalães. José António e Sobrinho, a dupla de centrais do Belenenses, foi um verdadeiro muro nessa noite. O próprio José António aventurou-se algumas vezes no ataque da sua equipa, e num desses lances, já perto do fim, chegou um tudo ou nada atrasado a uma recarga após defesa incompleta de Zubizarreta a um cabeceamento de Chiquinho Conde


Não foram poucas as ocasiões em que na segunda metade vimos os jogadores do Barcelona a recorreram às faltas (algumas bem duras) para travar o ímpeto belenense. «Jogou tão bem o Belenenses, foi tão grande o esforço que desenvolveu frente à equipa do clube mais poderoso do Mundo, que Marinho Peres não hesitou em mandar entrar Luís Reina e Chico Faria, acabando o desafio com todos os avançados disponíveis, sempre com o objetivo de alcançar o segundo golo. E se esse risco que o técnico brasileiro correu numa demonstração cabal da sua grande visão estratégica, foi possível, não devemos esquecer desta vez, o acerto da defensiva azul, criticada noutras ocasiões, mas que na quarta-feira atuou com eficácia», assim analisava o jornalista Jorge Caiágua a exibição coletiva do seu clube. Apesar desta exibição categórica, culminada com uma inédita e mais do que merecida vitória sobre o todo poderoso Barcelona, o Belenenses ficava pelo caminho na Taça UEFA, um desfecho algo injusto para o futebol produzido pelos azuis nos dois jogos, sobretudo no do Restelo. «Foi pena. Vencemos mas deixamos a Taça UEFA com uma certa frustração. Caímos de pé», rematou assim a crónica o jornalista do órgão de comunicação oficial do Belenenses. 

Schuster e Lineker, duas das grandes 
estrelas do Barça de 87/88

Anos mais tarde, numa entrevista à RTP em que juntamente com Jaime recordou este jogo, o defesa Sobrinho confessou que antes deste jogo se abeirou da estrela inglesa do Barça, Gary Lineker, no sentido de com este trocar de camisola no final, ao que o inglês terá respondido: “depois vemos isso”. Porém, seria o próprio Lineker que após o apito final do suíço Kurt Rothlisberger foi ter com Sobrinho a pedir para trocarem de camisola, confessando ao jogador português que nunca ninguém lhe tinha feito uma marcação tão cerrada e ao mesmo tempo disciplinada como a que o defesa central belenenses lhe fez naquela noite.

Para a eternidade, aqui fica a ficha deste célebre capítulo da história do Belenenses nas provas da UEFA.

Belenenses: Jorge Martins, Teixeira, José António, Sobrinho, Artur Fonte (Luís Reina, 54), Paulo Monteiro (Chico Faria, 69), Jaime Mercês, Juanico, Mapuata, Mladenov, e Chiquinho Conde. Treinador: Marinho Peres.

Barcelona: Zubizarreta, Gerardo Miranda, Moratalla, Migueli, Julio Alberto, Urbano, Víctor Muñoz, Bernd Schuster, Roberto Fernández, Gary Lineker, e Lobo Carrasco. Treinador: Luis Aragónes.

Vídeo do histórico golo de Mapuata diante do Barcelona:



quinta-feira, maio 16, 2024

Jogos Memoráveis (8)... Sporting - Bolonha (Taça UEFA 1990/91)

A equipa do Sporting que eliminou o Bolonha

Nos anos 80 e 90 do século passado ninguém mais reluzia no mais alto patamar competitivo e mediático do plano internacional do que o campeonato italiano. Os melhores futebolistas do Mundo, e por consequência as melhores equipas do planeta, atuavam na Serie A italiana. Nesse sentido, os emblemas italianos ditavam leis na Europa do futebol, argumento este sustentado com a conquista de 5 Taças dosCampeões Europeus, 8 Taças UEFA e 4 Taças dos Vencedores das Taças. Isto, no período compreendido entre 1980 e 1999. Perante este cenário, para qualquer clube de outro canto qualquer do Velho Continente vencer um clube italiano numa das (então) três provas uefeiras era um feito digno de ser registado e acima de tudo enaltecido.

E na temporada de 1990/91 o Sporting alcançou o feito de eliminar um conjunto italiano da então Taça UEFA, no caso o Bolonha. Esta vitória do conjunto luso abriu-lhe pela terceira vez na sua história as portas das meias-finais de uma prova europeia, igualando, pelo menos, o registo obtido nas temporadas de 1963/64 e de 1973/74, em que chegou às meias-finais da Taça das Taças. Desta forma, o afastamento dos bolonheses garantia aos sportinguistas a primeira presença nas meias-finais da Taça UEFA, hoje denominada Liga Europa. O feito tem ainda contornos de maior glória tendo em conta que os leões de Alvalade passavam por um período de vacas magras a nível interno, isto é, já não venciam o campeonatonacional e a Taça de Portugal há 9 anos, levando neste longo período de jejum para o seu museu apenas uma Supertaça Cândido de Oliveira, arrecadada em 1987. 

O conjunto italiano não viveu bons momentos em 90/91

Não era por falta de qualidade, muito pelo contrário, que os lisboetas andavam arredados dos títulos e das grandes vitórias internacionais. Neste plantel de 90/91 o Sporting tinha nomes sonantes do futebol nacional e internacional, casos de Jorge Cadete, Balakov, Fernando Gomes, Carlos Xavier, Oceano, Luisinho, Douglas, Ivkovic, ou Careca. Deste grupo faziam ainda parte jovens oriundos da Geração de Ouro do futebol português que espreitavam por uma oportunidade no onze orientado pelo brasileiro Marinho Peres, como eram os casos de Luís Figo, Emílio Peixe, Paulo Torres, Filipe, ou Amaral, todos eles campeões do Mundo de sub-20 ao serviço de Portugal.

Quis o destino que o Sporting defrontasse nos quartos-de-final da Taça UEFA de 90/91 o 8.º classificado da Serie A da época transata, o Bolonha, clube para quem 90/91 foi uma temporada negativa a todos os títulos. O conjunto da região de Emília-Romanha obteve em termos internos uma prestação paupérrima, sendo a prova disso o último lugar do campeonato desse ano, que lhe valeria a despromoção à Serie B. Tudo correu mal ao Bolonha em 90/91, pelo que uma possível salvação poderia passar por um bom desempenho na Taça UEFA, embora os próprios meios de comunicação italianos assim que o sorteio ditou o Sporting no caminho dos bolonheses logo atribuíram o favoritismo na eliminatória aos portugueses! E quando os italianos, tão nacionalistas que são, dizem isto… ! 


E a verdade é que os dois jogos da eliminatória lhes dariam razão. A passagem do Sporting começou a ser desenhada na 1.ª mão, em solo transalpino, onde se registou um empate a uma bola. E como altura os golos fora valiam por dois, os portugueses encararam a 2.ª mão ainda com maior otimismo. Mesmo tendo pela frente uma equipa oriunda do todo poderoso campeonato italiano, eram poucos os sportinguistas que não acreditavam na passagem da sua equipa, desde logo o então presidente leonino, o excêntrico Sousa Cintra, que nas vésperas do confronto da noite de 20 de março de 1991 não admitia outro resultado que não a vitória e o regresso às meias-finais de uma competição europeia 17 anos depois. Cientes de que estavam prestes a presenciar mais um grande momento da história do seu clube, 60.000 sportinguistas lotaram o Estádio de Alvalade. E será à boleia do jornal A Bola que nas próximas linhas iremos recordar este jogo memorável que terminou com a vitória leonina por 2-0. 


Numa análise global ao encontro, o jornalista Aurélio Márcio começava por escrever que a terceira meia-final europeia do Sporting «foi muito bem conseguida, numa linda noite, fazendo regressar o futebol europeu, no seu belo esplendor, ao relvado de Alvalade, qualificação feita à custa de uma equipa italiana que sendo embora modesta – penúltima classificado do campeonato de Itália – e desfalcada de cinco ou seis jogadores, entre castigados e magoados, sempre é uma equipa de Itália, representante de um país que está no top do futebol mundial». O jornalista do jornal da Travessa da Queimada escrevia mais adiante que o otimismo exagerado do Sporting e dos seus adeptos acabou por não ter razões de o ser face a um Bolonha que depois de sofrer até ao primeiro golo leonino – à passagem do minuto 19 –, reergueu-se, organizou-se e equilibrou o encontro até aos 74 minutos, altura em que passou a jogar com menos uma unidade em campo e… se entregou ao adversário.


O Sporting entrou em campo balanceado ao ataque, com dois pontas-de-lança, Jorge Cadete e Fernando Gomes, que seriam bem vigiados pela dupla defensiva composta por Rosario Biondo e Paolo Negro. «O Sporting desde o começo, viu-se diante de uma resistência que não contava e procurava demoli-la, sem o conseguir, muito embora, aqui e ali, as situações de perigo fossem aparecendo, mas sem concretização», retratava Aurélio Márcio.

Mesmo desfalcado de muitos dos seus melhores jogadores, entre eles a sua principal estrela de então, o médio húngaro Lajos Détári, o Bolonha «obrigou o Sporting a tomar cuidados que provavelmente não esperavam». Nos primeiros 15 minutos jogava-se «como no ping-pong, os portugueses a atacar, os italianos a defenderem-se e não parecia sair-se disso», dizia a reportagem de A Bola. Até que quando nada o fazia prever, face ao que o jogo mostrava até então, o Sporting marcou. «Um golo lindo de ser ver», «bonito e panorâmico», de Jorge Cadete, corria o minuto 19, e que surgiu na sequência de um cruzamento «longo da direita para a esquerda, com a bola muito por alto, o defesa Biondo ficou-se distraído, e Cadete arrancou, saltou, e com a cabeça, muito no ar, atirou-a para a baliza, fazendo-a cruzar pela frente de Valleriani, que se lançou mal e atrasado», assim foi descrito o golaço do ponta de lança português.  


O golo despertou os portugueses, que começaram a dar mais trabalho à defesa italiana, obrigando-a a correr muito mais, o que originou a abertura de algumas brechas na muralha defensiva bolonhesa. Carlos Xavier enviou ainda uma bola ao poste numa primeira parte onde o azar bateu à porta dos italianos, que aos 30 minutos já tinham esgotado as duas substituições permitidas, por motivos de lesão de De Già e de Schenardi. Para complicar ainda mais a tarefa dos transalpinos, Cadete, moralizado pelo grande golo apontado, era um verdadeiro “diabo à solta”, fazendo diversos sprints que faziam estremecer o Bolonha. Mas todo este entusiasmo leonino foi esmorecendo, e o jogo volta ao ritmo inicial. Os italianos equilibram a balança dos acontecimentos, o que in tranquiliza um Sporting que sabe que um golo do adversário empata a eliminatória e obriga a um prolongamento. O Bolonha percebe a inquietude dos portugueses e vai procurando o tento da igualdade. Porém, esta era uma noite de infortúnio da squadra do norte de Itália. A 15 minutos do final, o influente médio Pietro Mariani sai lesionado após um choque com o defesa Leal, e como a sua equipa já tinha esgotado as substituições, esta fica a jogar com menos uma unidade. Os italianos ainda resistiram durante alguns minutos a mais esta contrariedade, mas a diferença numérica acabaria por fazer mossa, e aos 80 minutos Verga derruba Filipe dentro da área, tendo o árbitro francês Joel Quiniou apontado de pronto para a marca da grande penalidade. Na conversão, Fernando Gomes, o bi-bota de ouro, faria o golo da tranquilidade leonina, o golo que carimbou a histórica passagem às meias-finais da Taça UEFA.

Após o apito final, sorrisos de euforia tomaram conta das bancadas e do relvado do Estádio de Alvalade. O jornalista de A Bola, Vítor Cândido, outro dos profissionais destacados para a cobertura deste encontro, relata que nos balneários há «bolo e champanhe. Comemorava-se a entrada dos “leões” nas meias-finais da Taça UEFA e… o 44.º aniversário do técnico vitorioso Marinho Peres». No sentido de ficar a festejar este duplo motivo, digamos, o treinador brasileiro delegou no seu adjunto, António Dominguez, a tarefa de falar aos jornalistas, que diria que o Sporting fez o jogo possível sem perder a cabeça. «O Sporting controlou o jogo durante os 90 minutos, mas não podíamos entrar em loucuras, não podíamos sair para o ataque de qualquer maneira. Isso podia sair-nos caro. O resultado foi escasso para tantas oportunidades desperdiçadas. Fizemos uma exibição normal, condizente com as nossas pretensões». Quando questionado sobre o adversário preferido para as meias-finais, o treinador-adjunto foi perentório em dizer que técnico e jogadores já tinham falado sobre isso, e… «queremos o Roma. Era bom para a receita, para projeção da nossa equipa e para… vingarmos o Benfica», tendo em conta que a equipa da capital italiana havia afastado da prova os vizinhos da Segunda Circular logo na 1.ª eliminatória.

Do lado do Bolonha havia, naturalmente, um ambiente de tristeza, «os jogadores estavam destroçados. (…) No corredor de acesso aos balneários, todos os responsáveis do clube, incluindo o presidente e muitos dirigentes, olhavam uns para os outros emudecidos», escrevia Vítor Cândido. Por sua vez, o técnico Luigi Radice, um dos três treinadores que nesta temporada negra orientou a turma italiana, diria estar «muito satisfeito com os meus rapazes pela forma como se bateram. O momento difícil que atravessamos não deu para fazer mais. Com esta “squadra” era impossível fazer melhor. Faltam-nos muitos jogadores importantes. Não podíamos ter veleidades. Ainda para mais, a infelicidade não nos deixou de perseguir neste jogo». Questionado sobre as possibilidades do futuro do Sporting na competição, o técnico italiano vaticinou dificuldades aos portugueses. «Penso que a Roma é melhor. Não será impossível, mas parece-me que será muito difícil para o Sporting superar a Roma ou o Inter. Só passou o Bolonha porque estávamos desfalcados. Fomos uma equipa sem soluções para chegar à vitória». E como estava certo Radice, pois nas meias-finais o Inter acabaria com o sonho dos portugueses em chegar à final.

No Estádio de Alvalade, sob arbitragem de Joel Quiniou, as equipas alinharam da seguinte forma: Sporting – Ivkovic, Carlos Xavier, Luisinho, Venâncio, Leal, Litos (Mário Jorge, 85), Oceano, Douglas (Careca, 82), Filipe, Gomes e Cadete. Treinador: Marinho Peres. 

Bolonha – Valleriani, Verga, Biondo, Negro, De Già (Anaclerio, 14), Traversa, Martino, Galvani, Tricella, Mariani, Wass (Turkyilmaz, 30) e Schenardi. Treinador: Luigi Radice.

Vídeo: SPORTING - BOLONHA



terça-feira, janeiro 30, 2024

Efemérides do Futebol (50)...

 

Quando Matateu iniciou da melhor maneira a caminhada portuguesa em Europeus e deixou alemães loucos e rendidos ao seu talento

 A seleção portuguesa assegurou a qualificação para o Campeonato da Europa de 2024 de forma invicta. Com a folha limpa. O mesmo será sem qualquer ponto perdido nos dez jogos realizados na fase de qualificação, o que desde logo se constituiu como um registo inédito na história do futebol luso. Vem isto a propósito da efeméride de hoje, a qual recorda o pontapé de saída da seleção portuguesa numa fase de qualificação para um Europeu. Tal facto aconteceu há (quase) 65 anos, quando os lusos defrontaram em Berlim a então República Democrática da Alemanha (RDA) na 1.ª eliminatória com vista à presença na primeira edição do Campeonato da Europa, que em 1960 teve como palco a França. No dia 21 de junho de 1959 a seleção portuguesa, orientada por José Maria Antunes, subiu ao relvado do Estádio Walter-Ulbricht para medir forças com a RDA na primeira mão da eliminatória. O ambiente hostil aos lusos rapidamente se eclipsou graças ao génio de Matateu, um dos grandes astros portugueses de então, que mais do que marcar – aos 12 minutos – o golo inaugural do jogo – e que 65 anos volvidos é visto como o primeiro golo de Portugal no âmbito da maior prova de seleções do Velho Continente – encantou os alemães orientais com o seu mágico futebol. A tal ponto que após o apito final o craque do Belenenses foi levado em ombros pelos adeptos da seleção da casa, facto que levaria Matateu a proferir a célebre observação ao jornalista Aurélio Márcio: «Vistes os russos a chamar pelo meu nome?». Esse hoje célebre jogo terminou com a vitória portuguesa por 2-0 (a primeira de sempre contra a Alemanha), sendo o outro tento da autoria de Mário Coluna. Na segunda mão da eliminatória Portugal voltou a bater os alemães, desta feita por 3-2, no Estádio das Antas, mas o sonho de estar presente na fase final do primeiro Europeu esfumou-se perante a futura vice-campeã da Europa, a Jugoslávia.

Para a história fica o “onze” português que em Berlim deu o primeiro passo nas andanças do Campeonato da Europa: Acúrcio, Virgílio, Ângelo, Fernando Mendes, Raúl Figueiredo, Vicente , Carlos Duarte, Teixeira, Matateu, Mário Coluna, Cavém.

Vídeo: O golaço de Matateu em Berlim contra a RDA nesse histórico jogo



terça-feira, janeiro 16, 2024

Lista de Campeões... Prémio "Puskas"

 


Instituído em 2009 pela FIFA, este galardão visa premiar as grandes obras de arte dos retângulos de jogo, vulgo os golos. Não os simples golos, mas os chamados golaços! O prémio é atribuído anualmente na gala da FIFA e foi batizado com uma lenda que ao longo da sua carreira também marcou golos de encher o olho, Ferenc Puskas, o seu nome. Aqui fica a lista de vencedores do Prémio "Puskas", com as respetivas obras de arte - vulgo vídeos - dos premiados.


2025: SANTIAGO MONTIEL (Argentina/Independiente)


2024: ALEJANDRO GARNACHO (Argentina/Manchester United)

2023: GUILHERME MADRUGA (Brasil/Botafogo SP)

2022: MARCIN OLEKSY (Polónia/Warta Poznan)

2021: ERIK LAMELA (Argentina/Tottenham)

2020: SON HEUNG-MIN (Coreia do Sul/Tottenham)

2019: DÁNIEL ZSÓRI (Roménia/Debreceni)

2018: MOHAMED SALAH (Egito/Liverpool)

2017: OLIVIER GIROUD (França/Arsenal)

2016: MOHD FAIZ SUBRI (Malásia/Penang FA)

2015: WENDELL LIRA (Brasil/Goianésia)

2014: JAMES RODRÍGUEZ (Colômbia/Seleção Colombiana)

2013: ZLATAN IBRAHIMOVIC (Suécia/Seleção Sueca)

2012: MIROSLAV STOCH (Eslováquia/Fenerbahce)

2011: NEYMAR (Brasil/Santos)

2010: HAMIT ALTINTOP (Turquia/Seleção Turca)

2009: CRISTIANO RONALDO (Portugal/Manchester United)

sexta-feira, outubro 20, 2023

Efemérides do Futebol (48)...

Um ângulo de Vidal Pinheiro ainda pelado

O último golo da 1.ª Divisão Nacional marcado num pelado

A presente época desportiva tem a particularidade de assinalar o 40.º aniversário da última vez que se jogou futebol num campo pelado – ou de terra batida – no escalão maior de Portugal. Este facto leva-nos mais longe ao recordar o último golo marcado num retângulo pelado no escalão maior do futebol nacional. Estávamos na temporada de 83/84 e o Campo Eng. Vidal Pinheiro, casa do popular Salgueiros, era a exceção à regra no panorama da 1.ª Divisão Nacional, isto é, era o único campo pelado dos 16 clubes que competiram nessa temporada naquele escalão. Cerca de dois anos antes a Federação Portuguesa de Futebol havia estipulado que na temporada de 84/85 todos os clubes que disputassem a 1.ª Divisão Nacional teriam de ter os seus campos relvados, caso coso contrário teriam de jogar em casa emprestada sempre que atuassem na condição de visitados. O anúncio era feito com duas épocas de antecedência, de modo a que os clubes com aspirações a pisar os palcos de primeira pudessem planear o arrelvamento dos seus campos. O Salgueiros foi pois o último clube da 1.ª Divisão a competir num pelado e fê-lo até à última, ou seja, até à derradeira jornada do Nacional de 83/84. Jornada decisiva para muitas equipas que lutavam pela permanência entre a elite do futebol luso, entre estas o próprio Salgueiros, que precisava de ganhar obrigatoriamente ao vizinho Boavista para garantir a manutenção. Octávio Machado havia iniciado a temporada ao comando dos encarnados do Norte, fazendo deste modo a sua estreia no papel de treinador principal, depois de uma época antes ter pendurado as chuteiras. O Palmelão, como é conhecido Octávio, não se aguenta até ao fim da linha, é substituído por António Jesus que dali a nada dá o lugar ao guarda-redes António Fidalgo. O antigo guardião de Benfica e Sporting é a opção de risco dos responsáveis salgueiristas para salvar a equipa da descida. De risco porque Fidalgo assumiu o cargo na condição de jogador-treinador, isto é, ele defendia pela primeira vez as redes do emblema de Vidal Pinheiro, onde só permaneceu uma época, e não possuía experiência enquanto treinador. Aliás, após esta curta e vitoriosa, como veremos adiante, experiência, Fidalgo ainda jogou durante mais duas temporadas, abraçando a profissão de treinador em exclusivo só a partir de 87/88. Desde fevereiro de 1984 no comando da equipa Fidalgo chega à derradeira jornada do Nacional da 1.ª Divisão, disputada a 13 de maio, a depender não só de si como de uma série de outras equipas para se salvar. Era preciso um milagre, mas estávamos a 13 de maio… e tudo era possível. 


O Salgueiros de 83/84

Como era seu apanágio sempre que o Salgueiros lá atuava o Campo Eng. Vidal Pinheiro estava à pinha. Repleto. O Boavista surgia em campo tranquilo, sem nada a ganhar ou a perder, já que o comboio da Europa tinha sido perdido poucas jornadas antes. Henrique Calisto era o treinador dos axadrezados que tinham em João Alves, o luvas pretas, a sua maior estrela. No banco boavisteiro estava ainda um tal de Zoran Filipovic, avançado da então Jugoslávia, e que anos mais tarde como treinador haveria de fazer furor curiosamente ali mesmo, em Vidal Pinheiro. Mas voltemos à decisiva e emotiva tarde de 13 de maio. Os adeptos salgueiristas estavam de olhos no pelado de Vidal Pinheiro e de ouvidos nas Antas, em Alvalade, em Guimarães e em Vila do Conde, locais onde jogavam adversários diretos do seu clube na fuga quer à despromoção direta quer à liguilha/play-off pela manutenção. Foi uma tarde de sofrimento mas que começou praticamente de forma eufórica com o tão desejado golo do Salgueiros. Penteado foi o seu autor. Estavam decorridos 16 minutos quando Nelito cruza para a área pelo flanco esquerdo do seu ataque onde aparece Penteado que de cabeça faz um chapéu ao jugoslavo Petar Borota. O Salgueiros aguentou até final estoicamente a magra vantagem, numa jogo que as crónicas rotularam de fraco e em diversos momentos confuso. O Salgueiros de Fidalgo deixou de lado a nota artística optando por vestir o fato macaco para jogar feio quando teve de o fazer em defesa da vitória que viria a alcançar. Após o apito final de Rosa Santos a festa tomou conta de Vidal Pinheiro, não só porque o Salgueiros tinha vencido mas por nas Antas o Estoril tinha perdido por 8-0, em Alvalade o Farense havia sido derrotado por 4-0, em Guimarães o Penafiel perdeu por 1-0, e em Vila do Conde o Águeda foi derrotado por 5-1. Conclusão, o Salgueiral tinha ganho em todos os campos e estava safo. Ia continuar na 1.ª Divisão Nacional.

 

Fidalgo, o jogador/treinador que salvou o Salgueiros
da descida é levado em ombros no final do jogo

Quanto a Penteado a história reserva-lhe assim um lugar de destaque, já que o seu golo foi o último a ser marcado num campo pelado num encontro da 1.ª Divisão. Manuel Penteado que havia precisamente chegado a Vidal Pinheiro em 83/84, vindo do FC Porto, em rota de colisão dom José Maria Pedroto, que lhe tinha prometido mais oportunidades no ataque portista e não cumpriu. Octávio em boa hora o convenceu a abandonar as Antas e a rumar a Vidal Pinheiro.   
Penteado, autor do último golo num jogo da
1.ª Divisão disputado num pelado

Para a história aqui fica a ficha do último jogo da 1.ª Divisão Nacional disputado num pelado: Campo Eng. Vidal Pinheiro, no Porto. Árbitro: Rosa Santos, de Beja, auxiliado por Francisco Lobo e Marcolino Baptista. Salgueiros: Pinto, Carlos Ribeiro, Soares I, Germano, Jorginho, Luís Pereira (Matias, 83), Silva, Carvalho, Joy, Penteado (Armando, 78) e Nelito. Treinador: António Fidalgo. Suplentes não utilizados: Soares II, João, e António Manuel. Boavista: Borota, Queiró, Adão (Figueiredo, 27), Frederico, Teixeira, Barbosa, Almeidinha, João Alves, Palhares, Coelho e Vitorino. Treinador: Henrique Calisto. Suplentes não utlizados: Matos, José Manuel, Bravo e Zoran Filipovic.

Vídeo do último golo marcado num campo pelado na 1.ª Divisão Nacional