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quinta-feira, maio 21, 2026

Jogos Memoráveis (12)... Estrela da Amadora - Neuchâtel Xamax (Taça das Taças 1990/91)


Nenhum outro clube na história do futebol português conseguiu alcançar a Europa após tão curta estadia na 1.ª Divisão Nacional como o Estrela da Amadora na transição da década de 80 para a de 90. O Estrelinha, como é carinhosamente tratado o emblema tricolor pelas gentes da Amadora, chegou pela primeira vez à elite do futebol luso na temporada de 88/89 e somente duas temporadas mais tarde já inscrevia o seu nome na alta roda do futebol europeu, mais precisamente na Taça das Taças. Tal ascensão meteórica se ficou a dever aquele que é provavelmente o maior feito da história do Estrela: a conquista da Taça de Portugal na época de 89/90. Facto que permitiu ao clube da Reboleira participar na época seguinte nas provas europeias. O clube amadorense vivia ainda num período de luto após o falecimento (em 1989) do homem que tornou o pequeno Estrelinha no grande Estrela da década de 90, José Gomes. Assumiu o comando dos tricolores a meio da década de 70, quando o clube estava nos campeonatos distritais de Lisboa guiando-o na década seguinte até ao topo do futebol português. Quem também já não estava no clube aquando da entrada na Europa era João Alves, o homem (treinador) que na relva sagrada do Estádio Nacional havia a 3 de junho de 1990 arquitetado o triunfo sobre o Farense (na finalíssima) na Prova Rainha do Desporto Rei lusitano. Para o substituir chegou uma lenda que havia pendurado as chuteiras não muito tempo antes e que dava os primeiros passos como treinador: Manuel Fernandes. E na sua equipa técnica figurava um jovem preparador físico de 27 anos de idade que pouco mais de uma década mais tarde haveria de se tornar num dos maiores (e titulados) técnicos da história do futebol mundial, José Mourinho de seu nome. 19 de setembro de 1990 é, pois, a primeira de muitas noites europeias que aquele que seria eternizado como o Special One iria vivenciar ao longo da sua brilhante carreira de treinador, embora naquela longínqua noite de final de verão o tenha feito na condição de técnico-adjunto de Manuel Fernandes. 

O jovem José Mourinho no banco do Estrela


O batismo europeu do Estrelinha deu-se perante uma equipa mais experiente nas andanças europeias, os helvéticos do Neuchâtel Xamax, um conjunto que que aterrava em solo nacional repleto de vários jogadores internacionais (pelos seus respetivos países) e que era orientado por um treinador que dava os primeiros passos de uma carreira de sucesso no mundo da bola, o inglês Roy Hodgson. Por tudo isto (e mais alguma coisa) os suíços eram claramente favoritos a passar a primeira ronda da Taça das Taças. Mas na prática não foi bem assim o que se passou… inicialmente no relvado do Estádio José Gomes. Contando com um forte apoio nas bancas do Estrela esqueceu que era novato nestas andanças e sem medo do categorizado Neuchâtel Xamax cedo partiu em direção à baliza do titular da seleção helvética, Marco Pascolo, com Ricky a dar o primeiro sinal de aviso. Faltou, porém, serenidade ao avançado nigeriano não só naquele como noutros lances que se seguiram para fazer estragos nas redes contrárias. De facto, e como deu conta a crónica elaborada pelo Jornal de Notícias (JN), os avançados do Estrela naquela noite, Ricky e Abel Campos, pecaram pela inoperância ofensiva, uma «pecha que se manifesta amiudamente nas equipas portuguesas», conforme recordava o JN. Apesar desta falta de habilidade ofensiva, o conjunto luso continuou a lutar para chegar ao golo, graças ao empenho dos setores intermédio e defensivo. «Miranda no meio campo, Duílio e Agatão atrás, tentavam interpretar o futebol mais conveniente para este tipo de situações. Mas nem Abel nem Ricky logravam as situações de rutura conducentes ao golo», escrevia o JN. Os suíços resistiram ao entusiasmo inicial dos portugueses, e a partir dos 15 minutos da primeira parte começaram a discutir o jogo pelo jogo. Passaram a fazer marcação aos homens do meio campo do Estrela, anulando quase sempre a ação dos jogadores mais criativos do conjunto da Reboleira. E quase sempre, porque à passagem do minuto 26 o criativo Miranda resgatou uma bola no seu meio campo, rapidamente teve a visão para a colocar no lado direito em Abel, que por sua vez corre até ao interior da área com o esférico em seu poder. «Sobre a linha de fundo, cruzou, com prontidão, para o seio da grande área, onde apareceu, bem colocado, Ricky, que se limitou a empurrar a bola para o fundo da baliza do Neuchâtel», assim descrevia o JN o lance do primeiro golo europeu da história do Estrela da Amadora. Contudo, a experiência acabou por ditar leis nos minutos que se seguiram, já que os suíços mais habituados a estas andanças de sofrer e dar a volta por cima no contexto do futebol internacional, continuaram a exibir o seu futebol bem esquematizado e a disputar o jogo com o adversário, pese embora a iniciativa até ao intervalo tivesse pertencido sempre aos portugueses. Mas ainda antes do descanso a bola esteve muito perto de voltar a entrar numa das balizas, neste caso a de Vital, que aos 42 minutos não conseguiu segurar um remate forte e raso de Perret, deixando escapar o esférico para Chassot que na recarda e com tudo para marcar rematou de forma defeituosa ao lado. Mas… seria um sério aviso para o que se viria a passar na segunda metade. «Após o intervalo assistiu-se aquilo que já era esperado, isto é, a equipa suíça surgiu com outra agressividade e o Estrela passou a conhecer algumas dificuldades junto à baliza à guarda de Vital», conforme analisou o JN


Até que numa dessas ocasiões de perigo o tento do empate surgiu. Beat Sutter, que nas palavras do diário portuense foi um “diabo à solta” na noite da Reboleira, é lançado no seu flanco esquerdo por um companheiro seu. Correu meio campo em direção à baliza estrelista e à saída de Vital rematou cruzado para restabelecer o empate quando estavam decorridos 55 minutos. Até final, o marcador não mais se iria alterar, e ao cair do pano, e pelo que haviam sido estes 90 minutos de futebol na Reboleira, poucos vaticinaram um desfecho feliz ao Estrela neste seu batismo europeu. «Bem se pode dizer que “os estrelas” de Manuel Fernandes, devido ao remate cruzado de Sutter, podem ter acabado por entregar o ouro ao bandido, já que este golo pode valer por dois e garantir a passagem do Neuchâtel Xamax à eliminatória seguinte da Taça das Taças», assim concluía o JN, que mais à frente nesta crónica, e numa apreciação ao desempenho do Estrela neste seu primeiro jogo internacional, escrevia que «o Estrela não teve uma estreia de estalo nas competições europeias, mesmo assim os homens da Reboleira mostraram que têm gente e talento para lutar até ao fim por um lugar no grande comboio europeu. Importa, isso sim que Ricky, por exemplo, não seja tão perdulário, e que também a linha defensiva tenha outra postura, e que, enfim, a sorte do jogo esteja do lado da equipa orientada por Manuel Fernandes». E a estrelinha que faltou neste primeiro jogo reacendeu-se na segunda mão, na Suíça, onde o Estrela da Amadora ao voltar a empatar a uma bola levou a decisão para as grandes penalidades, onde seria mais feliz, avançando assim para a 2.ª eliminatória da prova, onde viria a ser eliminado pelos belgas do RFC Liège. 
Voltando ainda à estreia do Estrela na alta roda do futebol europeu, um dos treinadores-adjuntos de Manuel Fernandes, no caso, Augusto Matine, falou à imprensa no final da partida, começando por dizer que este resultado não era o que a sua equipa pretendia. «Na primeira parte jogámos bem, mas na segunda, o reforço do meio campo dos adversários dificultou-nos a missão. (…) O Neuchâtel tinha a lição bem estudada e produziu o futebol que mais lhe convinha. O Estrela não quebrou, perdeu foi o meio campo devido os reforços que entraram para o Neuchâtel após o intervalo. Consentimos o empate em casa. Os golos fora contam a dobrar, como se sabe, mas penso que udo está ainda em aberto», foram estas algumas das palavras de Augusto Matine após este encontro (arbitrado pelo belga Alphonse Constantin) cuja ficha foi a seguinte:

Estrela da Amadora: Vital, Rui Neves, Duílio, Valério, Dimas, Agatão, Miranda (Pedro Xavier, 66), Baroti (Paulo Jorge, 76), Paulo Bento, Abel Campos e Ricky. Treinador: Manuel Fernandes.

Neuchâtel Xamax: Marco Pascolo, Peter Lonn, Régis Rothenbuhler, André Egli, Walter Fernandez, Philippe Perret, Martin Jeitziner, Christophe Bonvin, Didier Gigon (Francis Froidevaux, 68), Frédéric Chassot e Beat Sutter. Treinador: Roy Hodgson.

quinta-feira, novembro 13, 2025

Jogos Memoráveis (11)... AEK Atenas - Braga (Taça das Taças 1966/67)

 

O Sporting de Braga perfilado no Estádio Filadélfia
na antecâmara da estreia europeia
O Sporting Clube de Braga há muito que conquistou por mérito próprio o estatuto de (atual) “quarto grande” do futebol português. Assim o é não só pelas performances alcançadas a nível interno – com a aquisição de troféus e com boas classificações no campeonatonacional –, mas de igual modo pela sistemática presença nas competições europeias, onde os minhotos são habituais clientes. De modo que neste momento, os bracarenses são no ranking das participações nas provas da UEFA o quarto clube luso com mais presenças. Em termos mais precisos, e contando já com os encontros europeus realizados na presente temporada, os minhotos somam 201 jogos internacionais, apenas superados, claro está, pelos três grandes (Benfica, FC Porto e Sporting). E se hoje é impensável não ver o Braga disputar uma competição da UEFA, o que constituiria um fracasso para os arsenalistas, há seis décadas atrás significava um feito notável pisar o palco do futebol europeu. E pelos caminhos da história percorremos 59 anos para recordar o primeiro jogo europeu do Sporting de Braga, facto ocorrido a 28 de setembro de 1966, em Atenas. 

Estávamos no início da temporada de 66/67 e o Braga tornava-se na primeira equipa do Minho a chegar às competições europeias fruto da conquista do seu primeiro grande título nacional, a Taça de Portugal, arrecadada na época transata às custas do Vitória de Setúbal, que no Jamor caiu por 1-0 aos pés do emblema da Cidade dos Arcebispos. Pois bem, a taça garantiu o bilhete para a disputa da 7.ª edição da Taça das Taças, onde o Braga teve pela frente o AEK de Atenas. Orientados pelo antigo e fiel escudeiro – vulgo, treinador-adjunto – de BelaGuttman no Benfica, Fernando Caiado, o Braga não acusou o facto de ser caloiro nestas andanças e silenciou a capital helénica com uma vitória por 1-0. Uma exibição serena e bem delineada sob o ponto de vista técnico derrotou o futebol rude e violento do então campeão em título da Taça da Grécia, como nos deu conta o enviado especial do jornal A Bola a Atenas, Cruz dos Santos. «Contrapor-se-á, certamente, que o vencedor da Taça da Grécia não é equipa de capacidade extraordinária, pelo que o êxito do popular clube minhoto tem de ser encarado apenas dentro da relatividade das coisas. (…) A verdade, porém, é que esse mesmo sentido de relatividade das coisas que nos leva à exuberância do entusiasmo da hora que passa, já que tão verdadeiro isso é o facto de, em contrapartida, termos assistido a uma das mais impressionantes demonstrações de querer e da vontade da gente lusa, na interpretação de um estreante português na alta roda do futebol europeu», escrevia o jornalista. A vitória bracarense tem ainda mais significado se atendermos às condições adversas que os lusos enfrentaram no Estádio Filadélfia, que se transformou num verdadeiro inferno, não só devido ao futebol duro praticado pelo AEK, mas também, e sobretudo, pelo ambiente agreste provocado pelos adeptos locais, ou não estivéssemos na Grécia

Luciano

O único golo do jogo foi marcado por Luciano, à passagem do minuto 24, tento esse que é assim descrito por Cruz dos Santos: «Dos pés de Perrichon a bola foi aos pés de Balopoulos, que impressionado pela proximidade de Luciano atrasou a bola ao seu guarda-redes, que partira ao seu encontro. O toque foi desviado por Maniateas, e este ultrapassado pela bola que foi aos pés de Luciano. O bracarense evitou o seu mergulho e com o esférico já quase a escapar-se no lado direito, pela linha de cabeceira, teve a arte a serenidade para lhe dar o pontapé decisivo». O Braga não só resistia ao ímpeto inicial do adversário como conseguia colocar-se em vantagem no marcador. Defensivamente, os minhotos realizaram um jogo sólido, perante um AEK que substituiu a sua menor capacidade técnica por um futebol viril e rude. O Braga – que no onze inicial apresentou oito elementos que meses antes haviam conquistado a Taça de Portugal – percebeu isso cedo, e com calma e querer levou a “água ao seu moinho”. Diante de 40.000 pessoas – lotação esgotada – o espírito coletivo dos portugueses imperou, defendendo com estoicismo durante mais de uma hora o precioso golo de Luciano. Diante de 40.000 infernais almas gregas, e perante a atitude incorreta e violenta do AEK, cuja agressividade para lá da lei patenteada pelos seus jogadores não foi punida como devia pelo árbitro da partida, que quiçá amedrontado com o ambiente escaldante que se fazia sentir em redor do relvado perdoou em diversas ocasiões expulsões aos locais. Velocidade e rudeza eram na opinião de Cruz dos Santos os principais argumentos de uma equipa que praticou um futebol de técnica modesta e que neste campo não se podia comprar com a técnica mais evoluída do Braga. 
A comitiva bracarense que viajou para Atenas 
«As linhas mestras do seu trato com a bola estão nas passagens largas, na velocidade e no ar acutilante. Tais predicados, como normalmente acontece, andam associados a grande dureza, manifestadas em cargas impiedosas, demolidoras e no gosto pelo choque», assim descrevia o jornalista o conjunto grego. Uma dessas demonstrações de futebol violento aconteceu sobre o homem que havia sido responsável pela aventura europeia do Braga, o argentino Perrichon, ele que no Jamor, meses antes, havia feito o tento do triunfo que valeu a Taça de Portugal. Pois bem, no encontro de Atenas, a poucos minutos do fim, Perrichon e o seu companheiro de equipa Bino tentavam queimar tempo junto à bandeirola de canto através de sucessivas trocas de bola. Esta peladinha a dois foi subitamente e violentamente interrompida por um jogador grego, que pegou na bola com a mão e atirou de forma violenta à cara de Perrichon sem que o árbitro tivesse visto (?) o lance! 

Cumprimento aos portugueses antes do apito inicial em Atenas
Na análise individual que Cruz dos Santos fez aos jogadores portugueses, Perrichon foi, aliás, aquele que mostrou mais classe nesta partida. «Os bracarenses demonstraram no jogo de hoje que poderão realizar algo de interessante nas difíceis competições internacionais. No aspeto técnico chegaram a impressionais razoavelmente, disfarçando, em certos casos, a falta de experiência. Como lição bem estudada e aprendida, o 4-4-2 deu origem – funcionou com bastante perfeição – a que os dois homens do “vaivém” a meio campo, Albino e Estevão, fossem os mais sacrificados, se bem que não se possa esquecer quanto o processo obrigou Perrichon e Luciano a intensa movimentação para os lados quando a equipa defendeu, e para o meio campo quando a equipa atacou. Perrichon, o de melhor técnico no onze, e Luciano, muito mexido e habilidoso, foram aliás os elementos influentes na conquista do belo êxito. (…) Armando nas redes terá sido, porém, o mais brilhante, transmitindo confiança aos colegas da defesa, na qual se verificou uma muralha de transposição nada fácil, mercê da conjugação de esforços verdadeiramente notável». 

O guarda-redes Armando foi um dos esteios do Braga na Grécia
Naturalmente feliz com este triunfo estava o treinador Fernando Caiado, que nas cabines era, porém, cauteloso na euforia, ao dizer que «o ovo só é nosso quando estiver na mão», por outras palavras, que a eliminatória ainda não estava resolvida. «Só depois do jogo de Braga é que sabemos quem passa à fase seguinte. É preciso muito cuidado. Os gregos tecnicamente não são famosos, mas são muito fortes e rápidos. Em Braga não poderemos jogar tão fechados e o jogo é capaz de ser outro. (Neste jogo) Os nossos jogadores revelaram nervosismo e inexperiência, mas fiquei satisfeito por ter visto na equipa magnifico coletivismo», disse Caiado ao jornalista de A Bola. E em Braga uma nova vitória, desta feita por 3-2, garantiriam a passagem dos portugueses à ronda seguinte, onde seriam afastados da prova pelos húngaros do Gyori ETO. Mas para a história fica mesmo este batismo europeu do Sporting Clube de Braga num encontro arbitrado pelo húngaro Lajos Horvath, e onde os dois conjuntos alinharam da seguinte forma: AEK Atenas – Theodoros Maniateas, Aleko Sofianidis, Fotis Balopoulos, Nikos Stathopoulos, Tasos Vasiliou, Giorgos Karafeskos, Stelios Skevofilakas, Spiros Pomonis, Vasilis Mastrakoulis, Mimis Papaioannou. Treinador: Trifon Tzanetis. Braga – Armando, José Maria Azevedo, Joaquim Coimbra, José Manuel, Luciano, José Neto, Bino, Ribeiro, Mário Espingardeiro, Perrichon, Estêvão. Treinador: Fernando Caiado.

quarta-feira, abril 16, 2025

Jogos Memoráveis (10)... Southampton - Sporting (Taça UEFA 1981/82)


A primeira vez é sempre inesquecível, e então se acontecer num lugar especial ainda mais inolvidável se torna. É desta forma que podemos olhar para a vitória do Sporting em casa do Southampton na temporada de 81/82 em jogo a contar para a 1.ª mão da 2.ª eliminatória da Taça UEFA, por concludentes 4-2. E o que tem esta vitória de tão especial assim, perguntar-se-ão os visitantes do Museu. Simples, tratou-se do primeiro triunfo de uma equipa portuguesa em solo britânico a contar para as competições europeias de clubes. Em solo britânico, isto é, na terra dos inventores do futebol moderno, os mestres ingleses, há que sublinhá-lo, visto que não era qualquer equipa que ousava chegar a Inglaterra e vencer um cavaleiro dali oriundo. Mas aquela era, e é, talvez uma das equipas mais lendárias da história do Sporting, a equipa que nessa temporada venceu tudo a nível nacional através de um futebol encantador edificado por artistas de enorme qualidade em todos os setores do terreno. 


Havia, porém, uma zona do retângulo de jogo onde essa mestria se fazia notar ainda mais: o ataque. Setor este onde pontificava um dos tridentes mais cintilantes da história do futebol luso, um trio de artistas notáveis que muito contribuiu para que aquela fosse uma das melhores temporadas de sempre do Sporting. Falamos, claro, de António Oliveira, Rui Jordão e Manuel Fernandes. Pedra fundamental para que esta fosse uma das melhores épocas de sempre do Sporting foi o então seu lendário presidente, João Rocha, que após uma temporada (80/81) de insucesso desportivo começou por tomar a decisão de contratar um treinador que fizesse regressar a Alvalade a estrela das vitórias e mais do que isso, dos títulos. Depois de falhar a contratação de José Maria Pedroto e de John Mortimore, que tantas glórias haviam dado aos grandes rivais internos dos leões nos anos anteriores, respetivamente, FC Porto e Benfica, eis que a escolha recai noutro inglês, Malcolm Allison. Big Mal, como era conhecido no seu país, logo implementou um futebol de ataque no Sporting, assente na tal mestria e criatividade letal do trio Oliveira, Jordão e Manuel Fernandes, o qual era auxiliado por um meio campo operário, onde pontificavam nomes como Nogueira, Carlos Xavier, Ademar, Francisco Barão, ou Mário Jorge; uma defesa de betão, formada por figuras como Eurico, Inácio, ou Virgílio; e um guarda-redes ultra seguro, de seu nome Ferenc Mészáros. O guardião internacional húngaro foi a par de Oliveira a contratação mais sonante para aquela temporada de glória dos leões
Um "onze" do Sporting numa época (81/82) maravilhosa

E bem se pode dizer que o encantamento por aquele Sporting não só da parte dos adeptos leoninos como de todos aqueles que gostam de bom futebol, começou precisamente na noite de 21 de outubro de 1981, data em que o Southampton recebia o conjunto português. Atenção, este não era um Southampton qualquer, mas sim uma equipa recheada de talentos, sendo o maior deles aquele que provavelmente era o melhor futebolista inglês de então, Kevin Keegan. Vencedor por duas ocasiões (1978 e 1979) da Bola de Ouro, o famoso futebolista era a principal referência do Southampton, onde ingressara em 80/81 após três temporadas de sucesso ao serviço dos alemães do Hamburgo. Confiantes de que a sua estrela-mor iria abater os leões portugueses, os adeptos ingleses lotaram por completo o velhinho The Dell, mítico estádio do Southampton, mas o que viram, na realidade, foi uma exibição categórica e de autor do Sporting concluída com um histórico triunfo por 4-2. O primeiro de sempre, como já vimos, de equipas lusas em Terras de Sua Majestade a contar para as provas uefeiras. 

O Southampton onde pontificava o lendário Kevin Keegan

Abra-se aqui um parêntese, para recordar que antes deste jogo, os conjuntos portugueses haviam disputado 19 partidas europeias em solo da Velha Albion, por intermédio do Benfica, do FC Porto, do Belenenses, do Braga, do Vitória de Setúbal, do Vitória de Guimarães e do próprio Sporting, sendo que nesses 19 encontros anteriores ali disputados por estas equipas foram contabilizadas… 19 derrotas!

Mas o Sporting de Big Mal mudou esse paradigma naquela noite no relvado do The Dell. «O triunfo do Sporting frente a uma equipa onde joga o famoso Kevin Keegan, pode ser considerado uma proeza para o futebol português», assim escrevia o Diário de Lisboa na sua edição do dia seguinte a um jogo onde o Southampton cedo foi surpreendido com um futebol veloz e de ataque do Sporting, não sendo de admirar que logo aos 2 minutos Jordão, de cabeça, desse o melhor seguimento a uma jogada magistral de Oliveira, a qual foi construída pelo flanco direito do seu ataque. Aliás, ninguém esperava ver Oliveira nesse jogo a… defesa direito. A decisão de Allison deixou a todos perplexos, desde logo os seus próprios conterrâneos, e o que se passou foi que Oli – assim tratava Bil Mal o genial Oliveira – foi um verdadeiro diabo à solta no The Dell.

O majestoso tridente ofensivo dos leões: Jordão, Manuel Fernandes e Oliveira
O golo acordou os ingleses, que passaram a pressionar em zona alta os portugueses, mas a defesa leonina «susteve o ímpeto contrário e o meio campo e o ataque do Sporting trocavam a bola e lançavam perigosos contra-ataques que perturbavam a defesa inglesa», analisava o Diário de Lisboa. E seria num desses contragolpes venenosos que a sorte bafejou os portugueses e o azar bateu à porta dos britânicos. Estavam decorridos 20 minutos quando, pelo lado esquerdo, Freire rompeu com a bola pela área inglesa e pela frente encontrou Nick Holmes, que ao tentar roubar o esférico ao português traiu o seu guarda-redes e ampliou a vantagem dos visitantes. Apesar de atordoado com a postura inesperada dos portugueses, o Southampton não desistiu de atacar a baliza de Mészáros, «mas a defesa do Sporting, vigiando bem Keegan e atuando num sistema de dobras e apoios constantes (a que se associavam o meio campo e também Freire e Manuel Fernandes) foi-se opondo com êxito». Por seu turno, o Sporting continuava a dar azo a rápidos contra-ataques, e foi, uma vez mais, num desses lances que a três minutos do intervalo as bancadas do The Dell voltaram a estremecer com um novo golo lusitano. Oliveira, sempre ele, pelo flanco direito, lançou Manuel Fernandes, que ao superar a oposição da defesa local atirou para o fundo das redes de Peter Wells pela terceira vez naquela noite. Quem diria que ao intervalo o Sporting estaria a bater o Southampton em sua casa por 3-0! 

Keegan foi sempre muito bem vigiado pelos leões no The Dell
Na segunda parte houve sofrimento por parte dos leões, já que o Southampton, ferido no orgulho, apostou as fichas todas para inverter o rumo dos acontecimentos. O primeiro sinal de aviso foi dado por Mick Channon, aos 49 minutos, com um potente remate aos ferros da baliza de Mészáros. Persentindo, quiçá, o que seriam aqueles segundos 45 minutos, Malcolm Allison refresca e reforça o seu setor defensivo, tirando um homem de meio campo (Nogueira) e colocando em seu lugar um defesa (Virgílio). E quando não eram os homens do setor recuado leonino a dar conta do recado, lá estava Ferenc Mészáros a mostrar os seus dotes de guardião de craveira mundial. «Aos 56 minutos, Mészáros fez a defesa da noite: um “chapéu” de Moran apanhou-o adiantado e, quando o estádio aplaudia o golo, o guardião húngaro, em golpe de rins, desviou a bola para canto», contava a crónica do jogo escrita no Diário de Lisboa. À passagem da hora de jogo, George Lawrence reforçou o ataque inglês, e avalanche ofensiva dos anfitriões deu os seus frutos quando aos 68 minutos o central Eurico derrubou dentro de área o astro Kevin Keegan, não restando ao árbitro sueco, Erik Fredriksson, dúvidas quanto à marcação de grande penalidade a favor do Southampton. O mesmo Keegan bateu Mészáros e relançou a partida. O golo conferiu uma vitamina extra aos ingleses, que três minutos volvidos voltaram a marcar, desta feita Mick Channon, após assistência de Keegan. O Sporting passou a sofrer ainda mais a partir deste momento, com os ingleses a sufocarem ofensivamente os portugueses até final na expectativa de uma reviravolta. Valeu aos sportinguistas terem cabeça fria e muita concentração na hora em que o Southampton atacava. Até que a dois minutos dos 90 o sofrimento leonino terminou. Freire numa rápida incursão cruzou para o interior da área onde Manuel Fernandes não teve quaisquer dificuldades em fazer o 4-2 final a favor do Sporting. «A vitória do Sporting é indiscutível, sobretudo pela atuação da sua defesa, muito coesa, vibrante, corajosa e agressiva na marcação impiedosa que moveu aos jogadores contrários. O meio campo ajudou sempre que pôde e lançou o ataque em rápidos contra-ataques que desbarataram por completo a defesa inglesa, impotente face ao talento de Freire, Jordão Oliveira e Manuel Fernandes», concluiu o Diário de Lisboa. No jogo da 2.ª mão houve empate a zero bolas, o que permitiu ao Sporting avançar na prova, vindo a cair na ronda seguinte aos pés do Neuchâtel Xamax. 

Aqui fica a constituição das duas equipas nessa célebre noite europeia para o futebol português:

Southampton - Peter Wells, Chris Nicholl, Ivan Golac, Mark Whitlock (George Lawrence, 62), David Armstrong, Nick Holmes, Steve Williams, Alan Ball, Steve Moran, Mick Channon, e Kevin Keegan. Treinador: Lawrie McMenemy.

Sporting: Ferenc Mészáros, Eurico, Inácio, Zezinho (Francisco Barão, 79), Carlos Xavier, António Oliveira, Nogueira (Virgílio, 55), Ademar, Rui Jordão, Manuel Fernandes, e Freire. Treinador: Malcolm Allison.

Vídeo: Resumo da célebre partida disputada no The Dell

quinta-feira, março 20, 2025

Jogos Memoráveis (9)... Belenenses - Barcelona (Taça UEFA 1987/88)

É gooooloooo do Belenenses!

No futebol existem vitórias que são encaradas como se títulos pomposos se tratassem. Mesmo até que esses triunfos na prática não tenham levado a caminho algum, ou por outras palavras, que não tenham evitado uma eliminação de uma qualquer competição. Mas sempre que o pequeno David vence o gigante Golias é sempre uma história inolvidável e digna de ser recordada vezes sem conta. E na temporada de 1987/88 o Belenenses vestiu a pele de David após vencer no seu estádio um Golias que dava pelo nome de Barcelona, em jogo da 2.ª mão da 1.ª eliminatória da então Taça UEFA. Foi um triunfo histórico, mas que na verdade não foi suficiente para que os azuis do Restelo afastassem os catalães da prova, isto é, na Cidade Condal registou-se um resultado favorável ao Barcelona por 2-0, e em Lisboa o emblema da Cruz de Cristo venceu por 1-0. E é precisamente sobre este célebre triunfo que hoje vamos recordar, o qual resultou de um dos jogos mais épicos realizados pelo grande Belenenses nas provas europeias. Numa nota introdutória a este momento, é de realçar que esta era a terceira vez que os dois clubes se encontram numa eliminatória das competições europeias, sendo que apesar de ultrapassar sempre o Belenenses, o Barça nunca ganhou um jogo disputado no Restelo, contabilizando dois empates e uma derrota. 


Pois bem, em 87/88 o Barcelona não viveu um grande momento desportivo, muito pelo contrário. A equipa ficou num modesto 6.º lugar na LigaEspanhola, caiu nos quartos-de-final da Taça UEFA, e nem a vitória na Copa del Rey apagou uma época tão cinzenta. E isso ficou logo patente no jogo da primeira mão da eliminatória ante do Belenenses, realizado em Camp Nou, em que só um milagre deu o triunfo (2-0) aos catalães no… período de compensação. A vitória sofrida fez-se sentir entre os adeptos blaugrana, que no final se despediram da sua equipa com lenços brancos, sendo que a vítima imediata desta indignação foi o treinador inglês Terry Venables, despedido pouco depois e substituído no cargo pelo espanhol Luis Aragonés. Não era por falta e argumentos que o Barça vivia, ou viveu, naquele ano uma fase negativa, muito pelo contrário. Nomes de craveira mundial como o inglês Gary Lineker, o alemão Bernd Schuster, ou os espanhóis Andoni Zubizarreta, Víctor Muñoz, Migueli, Julio Alberto, Urbano, ou Alexanko faziam daquele Barcelona um dos conjuntos mais bem apetrechados do futebol europeu. Porém, nem sempre fartura (de craques) é sinónimo de qualidade. E qualidade era também o que não faltava a um Belenenses que viveria nesta reta final dos anos 80 um dos melhores períodos da sua história. 

Um "onze" do Belém nessa temporada de 87/88

Orientado pelo brasileiro Marinho Peres – que enquanto futebolista havia passado, curiosamente, pelo Barcelona – os azuis do Restelo fizeram uma temporada soberba, que terminou com um 3.º lugar no campeonato nacional, o que lhes valeria uma nova qualificação para a Taça UEFA da época seguinte onde voltariam a escrever história, ao eliminar o então detentor do título uefeiro, o Bayer Leverkusen. Mas isso é uma outra história. Centremos atenções no jogo de 30 de setembro de 1987, no Estádio do Restelo, que veio a provar que eliminar o Barcelona depois de uma derrota por 2-0 em Camp Nou não era afinal uma missão assim tão impossível de atingir. Não aconteceu, é certo, mas esteve muito perto de ser alcançada como iremos perceber nas próximas linhas. A exibição dos lisboetas no encontro da 1.º mão galvanizou os adeptos belenenses, que acorreram em massa ao Restelo. Quiçá esperançados numa reviravolta épica, mais otimistas ficaram quando logo aos 4 minutos viram o cerebral Schuster perder no seu meio campo uma bola para o búlgaro Mladenov, que sem perder tempo sprintou pelo flanco esquerdo do seu ataque, entrou na área e cruzou para o miolo onde apareceu Mapuata solto de marcação para fazer um golo que fez explodir de alegria as bancadas do Restelo. «Cumpriu-se o primeiro desejo de Marinho Peres: que o Belenenses marcasse cedo», assim rezava o início da crónica do encontro escrita por Jorge Caiágua no jornal oficial do emblema da Cruz de Cristo. 

O lance do golo de Mapuata

O jornalista escrevia mais adiante que o clube português se bateu com empenho e dignidade, confirmando o valor da equipa. De facto, assistiu-se a um jogo quase de sentido único, o da baliza de Zubizarreta, muito por culpa dos pupilos de Marinho Peres, que entraram no relvado impondo um ritmo veloz ao jogo, antecipando-se às jogadas de ataque dos catalães quase sempre, e quando a bola era recuperada não perdiam tempo a lançá-la para os homens da frente. Na realidade, esta partida mostrou uma vez mais que além de o Belenenses estar numa excelente forma, o seu opositor continuava a jogar mal, e no Restelo viu-se um Barça que atuou sempre sobre brasas. Para se resguardar das investidas azuis, os catalães mastigaram sempre muito o jogo no seu meio campo ao longo da primeira parte. Chiquinho Conde e Mladenov, que juntamente com Mapuata formavam o tridente ofensivo do Belenenses nessa célebre noite, não aproveitaram as abertas que o Barcelona por vezes ia dando na sua zona defensiva. Ainda no primeiro tempo, o búlgaro e o moçambicano desperdiçaram flagrantes oportunidades para desfeitear o grande Zubi. Mas não era apenas o setor atacante dos portugueses a dar nas vistas, já que a defesa, comandada pelo capitão e líder do grupo, José António, esteve sublime quer na marcação, quer na antecipação de jogadas ofensivas dos catalães. José António e Sobrinho, a dupla de centrais do Belenenses, foi um verdadeiro muro nessa noite. O próprio José António aventurou-se algumas vezes no ataque da sua equipa, e num desses lances, já perto do fim, chegou um tudo ou nada atrasado a uma recarga após defesa incompleta de Zubizarreta a um cabeceamento de Chiquinho Conde


Não foram poucas as ocasiões em que na segunda metade vimos os jogadores do Barcelona a recorreram às faltas (algumas bem duras) para travar o ímpeto belenense. «Jogou tão bem o Belenenses, foi tão grande o esforço que desenvolveu frente à equipa do clube mais poderoso do Mundo, que Marinho Peres não hesitou em mandar entrar Luís Reina e Chico Faria, acabando o desafio com todos os avançados disponíveis, sempre com o objetivo de alcançar o segundo golo. E se esse risco que o técnico brasileiro correu numa demonstração cabal da sua grande visão estratégica, foi possível, não devemos esquecer desta vez, o acerto da defensiva azul, criticada noutras ocasiões, mas que na quarta-feira atuou com eficácia», assim analisava o jornalista Jorge Caiágua a exibição coletiva do seu clube. Apesar desta exibição categórica, culminada com uma inédita e mais do que merecida vitória sobre o todo poderoso Barcelona, o Belenenses ficava pelo caminho na Taça UEFA, um desfecho algo injusto para o futebol produzido pelos azuis nos dois jogos, sobretudo no do Restelo. «Foi pena. Vencemos mas deixamos a Taça UEFA com uma certa frustração. Caímos de pé», rematou assim a crónica o jornalista do órgão de comunicação oficial do Belenenses. 

Schuster e Lineker, duas das grandes 
estrelas do Barça de 87/88

Anos mais tarde, numa entrevista à RTP em que juntamente com Jaime recordou este jogo, o defesa Sobrinho confessou que antes deste jogo se abeirou da estrela inglesa do Barça, Gary Lineker, no sentido de com este trocar de camisola no final, ao que o inglês terá respondido: “depois vemos isso”. Porém, seria o próprio Lineker que após o apito final do suíço Kurt Rothlisberger foi ter com Sobrinho a pedir para trocarem de camisola, confessando ao jogador português que nunca ninguém lhe tinha feito uma marcação tão cerrada e ao mesmo tempo disciplinada como a que o defesa central belenenses lhe fez naquela noite.

Para a eternidade, aqui fica a ficha deste célebre capítulo da história do Belenenses nas provas da UEFA.

Belenenses: Jorge Martins, Teixeira, José António, Sobrinho, Artur Fonte (Luís Reina, 54), Paulo Monteiro (Chico Faria, 69), Jaime Mercês, Juanico, Mapuata, Mladenov, e Chiquinho Conde. Treinador: Marinho Peres.

Barcelona: Zubizarreta, Gerardo Miranda, Moratalla, Migueli, Julio Alberto, Urbano, Víctor Muñoz, Bernd Schuster, Roberto Fernández, Gary Lineker, e Lobo Carrasco. Treinador: Luis Aragónes.

Vídeo do histórico golo de Mapuata diante do Barcelona:



quinta-feira, maio 16, 2024

Jogos Memoráveis (8)... Sporting - Bolonha (Taça UEFA 1990/91)

A equipa do Sporting que eliminou o Bolonha

Nos anos 80 e 90 do século passado ninguém mais reluzia no mais alto patamar competitivo e mediático do plano internacional do que o campeonato italiano. Os melhores futebolistas do Mundo, e por consequência as melhores equipas do planeta, atuavam na Serie A italiana. Nesse sentido, os emblemas italianos ditavam leis na Europa do futebol, argumento este sustentado com a conquista de 5 Taças dosCampeões Europeus, 8 Taças UEFA e 4 Taças dos Vencedores das Taças. Isto, no período compreendido entre 1980 e 1999. Perante este cenário, para qualquer clube de outro canto qualquer do Velho Continente vencer um clube italiano numa das (então) três provas uefeiras era um feito digno de ser registado e acima de tudo enaltecido.

E na temporada de 1990/91 o Sporting alcançou o feito de eliminar um conjunto italiano da então Taça UEFA, no caso o Bolonha. Esta vitória do conjunto luso abriu-lhe pela terceira vez na sua história as portas das meias-finais de uma prova europeia, igualando, pelo menos, o registo obtido nas temporadas de 1963/64 e de 1973/74, em que chegou às meias-finais da Taça das Taças. Desta forma, o afastamento dos bolonheses garantia aos sportinguistas a primeira presença nas meias-finais da Taça UEFA, hoje denominada Liga Europa. O feito tem ainda contornos de maior glória tendo em conta que os leões de Alvalade passavam por um período de vacas magras a nível interno, isto é, já não venciam o campeonatonacional e a Taça de Portugal há 9 anos, levando neste longo período de jejum para o seu museu apenas uma Supertaça Cândido de Oliveira, arrecadada em 1987. 

O conjunto italiano não viveu bons momentos em 90/91

Não era por falta de qualidade, muito pelo contrário, que os lisboetas andavam arredados dos títulos e das grandes vitórias internacionais. Neste plantel de 90/91 o Sporting tinha nomes sonantes do futebol nacional e internacional, casos de Jorge Cadete, Balakov, Fernando Gomes, Carlos Xavier, Oceano, Luisinho, Douglas, Ivkovic, ou Careca. Deste grupo faziam ainda parte jovens oriundos da Geração de Ouro do futebol português que espreitavam por uma oportunidade no onze orientado pelo brasileiro Marinho Peres, como eram os casos de Luís Figo, Emílio Peixe, Paulo Torres, Filipe, ou Amaral, todos eles campeões do Mundo de sub-20 ao serviço de Portugal.

Quis o destino que o Sporting defrontasse nos quartos-de-final da Taça UEFA de 90/91 o 8.º classificado da Serie A da época transata, o Bolonha, clube para quem 90/91 foi uma temporada negativa a todos os títulos. O conjunto da região de Emília-Romanha obteve em termos internos uma prestação paupérrima, sendo a prova disso o último lugar do campeonato desse ano, que lhe valeria a despromoção à Serie B. Tudo correu mal ao Bolonha em 90/91, pelo que uma possível salvação poderia passar por um bom desempenho na Taça UEFA, embora os próprios meios de comunicação italianos assim que o sorteio ditou o Sporting no caminho dos bolonheses logo atribuíram o favoritismo na eliminatória aos portugueses! E quando os italianos, tão nacionalistas que são, dizem isto… ! 


E a verdade é que os dois jogos da eliminatória lhes dariam razão. A passagem do Sporting começou a ser desenhada na 1.ª mão, em solo transalpino, onde se registou um empate a uma bola. E como altura os golos fora valiam por dois, os portugueses encararam a 2.ª mão ainda com maior otimismo. Mesmo tendo pela frente uma equipa oriunda do todo poderoso campeonato italiano, eram poucos os sportinguistas que não acreditavam na passagem da sua equipa, desde logo o então presidente leonino, o excêntrico Sousa Cintra, que nas vésperas do confronto da noite de 20 de março de 1991 não admitia outro resultado que não a vitória e o regresso às meias-finais de uma competição europeia 17 anos depois. Cientes de que estavam prestes a presenciar mais um grande momento da história do seu clube, 60.000 sportinguistas lotaram o Estádio de Alvalade. E será à boleia do jornal A Bola que nas próximas linhas iremos recordar este jogo memorável que terminou com a vitória leonina por 2-0. 


Numa análise global ao encontro, o jornalista Aurélio Márcio começava por escrever que a terceira meia-final europeia do Sporting «foi muito bem conseguida, numa linda noite, fazendo regressar o futebol europeu, no seu belo esplendor, ao relvado de Alvalade, qualificação feita à custa de uma equipa italiana que sendo embora modesta – penúltima classificado do campeonato de Itália – e desfalcada de cinco ou seis jogadores, entre castigados e magoados, sempre é uma equipa de Itália, representante de um país que está no top do futebol mundial». O jornalista do jornal da Travessa da Queimada escrevia mais adiante que o otimismo exagerado do Sporting e dos seus adeptos acabou por não ter razões de o ser face a um Bolonha que depois de sofrer até ao primeiro golo leonino – à passagem do minuto 19 –, reergueu-se, organizou-se e equilibrou o encontro até aos 74 minutos, altura em que passou a jogar com menos uma unidade em campo e… se entregou ao adversário.


O Sporting entrou em campo balanceado ao ataque, com dois pontas-de-lança, Jorge Cadete e Fernando Gomes, que seriam bem vigiados pela dupla defensiva composta por Rosario Biondo e Paolo Negro. «O Sporting desde o começo, viu-se diante de uma resistência que não contava e procurava demoli-la, sem o conseguir, muito embora, aqui e ali, as situações de perigo fossem aparecendo, mas sem concretização», retratava Aurélio Márcio.

Mesmo desfalcado de muitos dos seus melhores jogadores, entre eles a sua principal estrela de então, o médio húngaro Lajos Détári, o Bolonha «obrigou o Sporting a tomar cuidados que provavelmente não esperavam». Nos primeiros 15 minutos jogava-se «como no ping-pong, os portugueses a atacar, os italianos a defenderem-se e não parecia sair-se disso», dizia a reportagem de A Bola. Até que quando nada o fazia prever, face ao que o jogo mostrava até então, o Sporting marcou. «Um golo lindo de ser ver», «bonito e panorâmico», de Jorge Cadete, corria o minuto 19, e que surgiu na sequência de um cruzamento «longo da direita para a esquerda, com a bola muito por alto, o defesa Biondo ficou-se distraído, e Cadete arrancou, saltou, e com a cabeça, muito no ar, atirou-a para a baliza, fazendo-a cruzar pela frente de Valleriani, que se lançou mal e atrasado», assim foi descrito o golaço do ponta de lança português.  


O golo despertou os portugueses, que começaram a dar mais trabalho à defesa italiana, obrigando-a a correr muito mais, o que originou a abertura de algumas brechas na muralha defensiva bolonhesa. Carlos Xavier enviou ainda uma bola ao poste numa primeira parte onde o azar bateu à porta dos italianos, que aos 30 minutos já tinham esgotado as duas substituições permitidas, por motivos de lesão de De Già e de Schenardi. Para complicar ainda mais a tarefa dos transalpinos, Cadete, moralizado pelo grande golo apontado, era um verdadeiro “diabo à solta”, fazendo diversos sprints que faziam estremecer o Bolonha. Mas todo este entusiasmo leonino foi esmorecendo, e o jogo volta ao ritmo inicial. Os italianos equilibram a balança dos acontecimentos, o que in tranquiliza um Sporting que sabe que um golo do adversário empata a eliminatória e obriga a um prolongamento. O Bolonha percebe a inquietude dos portugueses e vai procurando o tento da igualdade. Porém, esta era uma noite de infortúnio da squadra do norte de Itália. A 15 minutos do final, o influente médio Pietro Mariani sai lesionado após um choque com o defesa Leal, e como a sua equipa já tinha esgotado as substituições, esta fica a jogar com menos uma unidade. Os italianos ainda resistiram durante alguns minutos a mais esta contrariedade, mas a diferença numérica acabaria por fazer mossa, e aos 80 minutos Verga derruba Filipe dentro da área, tendo o árbitro francês Joel Quiniou apontado de pronto para a marca da grande penalidade. Na conversão, Fernando Gomes, o bi-bota de ouro, faria o golo da tranquilidade leonina, o golo que carimbou a histórica passagem às meias-finais da Taça UEFA.

Após o apito final, sorrisos de euforia tomaram conta das bancadas e do relvado do Estádio de Alvalade. O jornalista de A Bola, Vítor Cândido, outro dos profissionais destacados para a cobertura deste encontro, relata que nos balneários há «bolo e champanhe. Comemorava-se a entrada dos “leões” nas meias-finais da Taça UEFA e… o 44.º aniversário do técnico vitorioso Marinho Peres». No sentido de ficar a festejar este duplo motivo, digamos, o treinador brasileiro delegou no seu adjunto, António Dominguez, a tarefa de falar aos jornalistas, que diria que o Sporting fez o jogo possível sem perder a cabeça. «O Sporting controlou o jogo durante os 90 minutos, mas não podíamos entrar em loucuras, não podíamos sair para o ataque de qualquer maneira. Isso podia sair-nos caro. O resultado foi escasso para tantas oportunidades desperdiçadas. Fizemos uma exibição normal, condizente com as nossas pretensões». Quando questionado sobre o adversário preferido para as meias-finais, o treinador-adjunto foi perentório em dizer que técnico e jogadores já tinham falado sobre isso, e… «queremos o Roma. Era bom para a receita, para projeção da nossa equipa e para… vingarmos o Benfica», tendo em conta que a equipa da capital italiana havia afastado da prova os vizinhos da Segunda Circular logo na 1.ª eliminatória.

Do lado do Bolonha havia, naturalmente, um ambiente de tristeza, «os jogadores estavam destroçados. (…) No corredor de acesso aos balneários, todos os responsáveis do clube, incluindo o presidente e muitos dirigentes, olhavam uns para os outros emudecidos», escrevia Vítor Cândido. Por sua vez, o técnico Luigi Radice, um dos três treinadores que nesta temporada negra orientou a turma italiana, diria estar «muito satisfeito com os meus rapazes pela forma como se bateram. O momento difícil que atravessamos não deu para fazer mais. Com esta “squadra” era impossível fazer melhor. Faltam-nos muitos jogadores importantes. Não podíamos ter veleidades. Ainda para mais, a infelicidade não nos deixou de perseguir neste jogo». Questionado sobre as possibilidades do futuro do Sporting na competição, o técnico italiano vaticinou dificuldades aos portugueses. «Penso que a Roma é melhor. Não será impossível, mas parece-me que será muito difícil para o Sporting superar a Roma ou o Inter. Só passou o Bolonha porque estávamos desfalcados. Fomos uma equipa sem soluções para chegar à vitória». E como estava certo Radice, pois nas meias-finais o Inter acabaria com o sonho dos portugueses em chegar à final.

No Estádio de Alvalade, sob arbitragem de Joel Quiniou, as equipas alinharam da seguinte forma: Sporting – Ivkovic, Carlos Xavier, Luisinho, Venâncio, Leal, Litos (Mário Jorge, 85), Oceano, Douglas (Careca, 82), Filipe, Gomes e Cadete. Treinador: Marinho Peres. 

Bolonha – Valleriani, Verga, Biondo, Negro, De Già (Anaclerio, 14), Traversa, Martino, Galvani, Tricella, Mariani, Wass (Turkyilmaz, 30) e Schenardi. Treinador: Luigi Radice.

Vídeo: SPORTING - BOLONHA



quarta-feira, janeiro 24, 2024

Jogos Memoráveis (7)... Salgueiros - Cannes (Taça UEFA 1991/92)


Se há clubes cujo índice de popularidade é elevado, independentemente do escalão competitivo em que se encontrem, um desses emblemas é sem margem para dúvida o Sport Comércio e Salgueiros. Nasceu no meio do povo, e foi no seio desse mesmo povo que cresceu e se tornou num dos clubes mais adorados do panorama desportivo nacional. O Salgueiros nasceu numa época em que a República em Portugal ainda dava os primeiros passos, mais concretamente no ano de 1911. No entanto, seriam precisos 80 anos exatos para que a Alma Salgueirista – um modo de estar, um sentimento, que só os verdadeiros adeptos do clube conhecem – se desse a conhecer à Europa do futebol. 

19 de setembro de 1991 é pois um dia histórico na popular coletividade portuense. Nesse dia, ou melhor, nessa noite, o velho Salgueiral fazia o seu batismo europeu no âmbito da 1.ª eliminatória da Taça UEFA da temporada de 1991/92. A qualificação europeia havia sido alcançada na época anterior na sequência da melhor classificação de sempre do clube na 1.ª Divisão Nacional, o 5.º lugar. E quis o destino que a estreia do Salgueiros nas competições europeias acontecesse diante de outro caloiro nestas andanças, os franceses do Cannes. Do lado da turma oriunda do sul de França pontificavam alguns nomes conhecidos do plano internacional, desde logo o veterano internacional francês Luis Fernández; o internacional camaronês François Omam-Biyik, que um ano antes havia dado nas vistas no Mundial de Itália; e o jugoslavo Aljosa Asanovic, que haveria de ser peça fundamental na futura seleção da Croácia. Na equipa treinada pelo também jugoslavo Boro Primorac pontificava ainda um jovem prodígio gaulês, que no futuro imediato haveria de se tornar numa das maiores lendas da história do Belo Jogo: Zinedine Zidane.

Porém, o Salgueiral também tinha as suas armas, e que armas! Craques como Nikolic, Milovac, Abílio, ou Jorge Plácido, sobressaíam na equipa liderada por Zoran Filipovic, aos quais se juntavam jogadores “operários” como Rui França, Vinha, ou Leão. A nação salgueirista mostrou nessa noite todo o seu orgulho e emoção ao ver o seu clube entrar pela primeira vez em campo para um jogo europeu, facto ocorrido no Estádio do Bessa, casa emprestada pelo vizinho Boavista, tendo em conta que o estádio do Salgueiros não possuía iluminação artificial na altura. À boleia do jornal A Bola vamos recordar este encontro histórico que terminou da melhor maneira para o clube de Paranhos, isto é, com o triunfo. Melhor batismo não poderia ter tido o Salgueiral!

Na crónica final traçada sobre o jogo, o jornalista António de Sousa escreveria que «as duas equipas estão bem uma para a outra! O desfecho da eliminatória é imprevisível, embora os franceses contem com futebolistas mais experientes e recebam os salgueiristas no seu estádio para o jogo decisivo». O jornalista explicaria esta sua visão de forma mais detalhada na crónica do encontro, referindo que apesar de as equipas se equivalerem em termos de qualidade, os franceses teriam a seu favor o facto de reunirem um conjunto de jogadores que pelo seu passado possuíam maior experiência internacional. Contudo, «não pretendemos, sequer, dizer que a formação de Vidal Pinheiro está já derrotada (…) Pelo contrário, a formação de Paranhos, possuindo uma equipa que assenta o seu futebol, sobretudo, na determinação e no empenho, aqui e ali reforçado com a experiência de um ou outro elemento, poderá perfeitamente prosseguir na prova, o que não constituiria surpresa de maior, dado o valor semelhante (pelo menos demonstrado no desafio do Bessa) ao do seu antagonista…».
Mais à frente na sua exposição jornalística, sublinharia que o triunfo por 1-0 do Salgueiros sobre o Cannes nesta 1.ª mão da eliminatória havia sido «justo e merecido, podendo até o resultado ter tido uma expressão ligeiramente mais ampla». Destacou nesse sentido que os jogadores salgueiristas se esforçaram para serem felizes nesta estreia, elegendo entre os mais esforçados Vinha, que «teve muita uva para pouca parra… e pena foi que a colheita não tivesse sido bem maior". Assim
 que a bola foi posta em movimento o nervosismo típico da estreia desapareceu nos salgueiristas, e os pupilos de Filipovic foram tomando conta das operações a partir do quarto de hora inicial. A prova disso foram as três oportunidades criadas pelos portuenses, em contraposto com os franceses, que só por uma vez chegaram com perigo à baliza de Madureira. 

No cômputo geral, António de Sousa escreveu que «não se pode dizer que o desafio tenha sido fértil em oportunidades de golo, Em situações de grande apuro. Não, não foi. Houve uma toada de ataque, mas travada à entrada dos meios-campos ou nas imediações das respetivas grandes áreas».

Numa primeira parte que terminou empatada a zero, a situação mais flagrante de golo aconteceu ao minuto 23, altura em que na sequência de um cruzamento de Álvaro Soares para o interior da área gaulesa o trio composto por Abílio, Vinha e Nikolic falhou o golo à boca da baliza! Isto numa altura em que era notório o crescimento do Salgueiros em campo, uma equipa que mostrava futebol acutilante e determinado, de acordo com a visão do jornalista de A Bola.

Ao minuto 42 o Salgueiros reclamou grande penalidade por uma eventual mão na bola de um defesa francês após uma bela jogada de combinação entre Nikolic e Jorge Plácido. Em cima da jogada o árbitro norte-irlandês Leslie Irvine mandou jogar. «Mas dois minutos depois, o Bessa irrompeu num coro de protestos pela decisão do irlandês Irvine de não validar um golo que o não foi… Expliquemos: Vinha cabeceou a bola e o guardião do Cannes agarrou-a mas caiu para dentro da baliza. A dúvida instalou-se entre os presentes: terá a bola, agarrada por Dussuyer, ultrapassado o risco? Não nos pareceu e por isso afigura-se-nos correta a decisão do árbitro e do fiscal de linha», analisou o jornalista. Só na segunda metade o marcador iria funcionar e a favor dos portugueses. Na sequência de um longo lançamento de linha lateral para o interior da área, Jorge Plácido ensaia um vistoso remate à meia volta e envia o esférico para o fundo da baliza. Estavam decorridos 50 minutos. O cenário do golo foi assim descrito por A Bola: «… O conjunto de Paranhos continuou (no início da segunda parte) no comando do prélio. E de tal modo que quatro minutos após o recomeço a Alma Salgueirista renasceu e com ela as esperanças: Jorge Plácido obtinha o golo. Aquele que viria a ser o único do encontro e na sequência de um dos excelentes e poderosos lançamentos de linha lateral de Nikolic, que fez a bola “pingar” no coração da área, motivando um subtil toque de cabeça de Vinha para trás, propiciando a intervenção vitoriosa de Jorge Plácido»

Após a festa do primeiro - e único até à data – golo europeu da turma de Paranhos, esta continuou a dominar, mas gradualmente as forças e discernimento começaram a não ser as melhores. «O Salgueiros continuou a desenvolver um futebol prático embora sem beleza (era preciso?), mas foi neste período que se tornou claro aos olhos de todos que nem a formação de Paranhos, nem o antagonista, teriam capacidade para grandes desempenhos», disse António de Sousa na sua crónica. E nesse sentido o resultado não mais sofreu alterações.

Era pois de satisfação o ambiente que pairava no balneário do Salgueiros após o apito final de Irvine. Para o treinador Zoran Filipovic tinha-se assistido a um bom jogo de futebol, «no qual deixámos uma boa imagem, perante um adversário aguerrido. Marcámos um golo, tivemos mais oportunidades para aumentar a vantagem, mas foi muito bom não termos sofrido nenhum. Agora, temos mais 90 minutos pela frente onde teremos de jogar com a mesma concentração, muita humildade e agressividade».

Radiante estava também o então presidente do Salgueiros, Carlos Abreu, que à reportagem de A Bola disse que «após um início muito tremido tomámos conta do jogo e conseguimos marcar um golo, que apareceu em boa altura. Depois foi gerir a vantagem e procurar não sofrer golos. O empate também se aceitava, o Cannes jogou bem, teve algumas oportunidades, mas penso que a vitória é o prémio para a nossa agressividade e para a forma como a equipa soube fechar-se no meio campo e na defesa».

Para o capitão Rui França o resultado estava certo. «Foi um jogo difícil, porque o Cannes tem uma grande equipa, recheada de bons jogadores, praticando um bom futebol. Contudo, através do nosso empenho, tentámos contrariar o favoritismo dos franceses e conseguimos um golo. O resultado acabou por ser escasso, mas não devemos esquecer que o adversário também dispôs de algumas oportunidades. Por tudo isto, penso que o resultado acaba por estar certo». Uma das figuras principais do jogo foi Jorge Plácido, autor do golo, ele que no final confessaria que «esforçámo-nos e batemo-nos por conseguir o melhor resultado possível. (…) A minha exibição poderia ter sido melhor, posso render mais, mas decaí fisicamente na segunda parte. Se tivesse um pouco mais de frescura, talvez pudesse ter marcado o segundo golo, o que para nós era o ideal. Em Cannes vai ser mais difícil do que aqui, já que o adversário tem uma equipa muito forte».

E foi na realidade uma viagem difícil aquela que o Salgueiros realizou até ao sul de França na 2.ª mão da eliminatória. A equipa portuguesa perdeu por 1-0 e seria afastada das provas da UEFA no desempate por grandes penalidades. O clube de Paranhos até pode ter perdido a eliminatória no campo, mas saiu desta “aventura” vitorioso, pois ver o velho Salgueiral na Europa do futebol foi um momento histórico.

No Estádio do Bessa sob arbitragem de Leslie Irvine as equipas alinharam da seguinte maneira: Salgueiros – Madureira, Paulo Duarte, Pedro Reis, Abílio, Pedrosa, Rui França, Jovica Nikolic, Stevan Milovac, Vinha, Álvaro Soares (Leão, 68), Jorge Plácido (Rui Alberto, 75). Treinador: Zoran Filipovic.
Cannes - Michel Dussuyer, Jean-Luc Sassus, Ludovic Pollet, Pierre Dréossi, Zinedine Zidane, Luis Fernández, José Bray, Franck Durix, Aljosa Asanovic, François Omam-Biyik, Robby Langers. Treinador: Boro Primorac.
Golo: Jorge Plácido (50).

ENTREVISTA:

PROFESSOR MANUEL GONÇALVES: «O ZORAN FILIPOVIC TROUXE UMA NOVA MENTALIDADE AO CLUBE»

Para recordar não só este momento ímpar na vida desportiva do Salgueiros mas também o ambiente místico de então que se vivia pelos lados de Vidal Pinheiro, nada melhor do que falar com alguém que viveu por dentro este período dourado da história do clube. Nesse sentido trocámos dois dedos de conversa com o professor Manuel Gonçalves, treinador-adjunto de Zoran Filipovic. 

Museu Virtual do Futebol (MVF): O professor Manuel Gonçalves chegou ao Salgueiros no final da década de 80 e acompanhou o clube em todo o trajeto realizado desde a 2.ª Divisão até à chegada às competições europeias. Pergunto-lhe como é que o popular Salgueiral conseguiu no espaço de duas épocas passar do segundo escalão nacional à Europa?

Manuel Gonçalves (MG): Cheguei ao Salgueiros no início da época de 1988/89 com o (treinador) Vieira Nunes. Em outubro houve chicotada psicológica. O senhor José António Linhares e o presidente Carlos Abreu falaram comigo, dizendo-me que gostavam que eu continuasse, uma vez que estavam a pensar contratar um treinador que ia treinar pela primeira vez e não tinha equipa técnica. Disseram-me, na altura, que tinham gostado do meu trabalho ao longo dos primeiros meses em que trabalhei no clube, assim como do que tinham auscultado em conversa com os capitães de equipa. Assim, entra o Zoran Filipovic para treinador principal e eu continuei como treinador-adjunto, isto com o clube a competir na Zona Norte da 2.ª Divisão Nacional.

O primeiro jogo do Zoran Filipovic como treinador principal foi em Amarante, onde o Salgueiros ganhou por 1-0. Foi um campeonato muito difícil, com muitos problemas para se assegurar a manutenção.
Recordo, aliás, um episódio que aconteceu no dia 15 de novembro de 1988, altura em que perdemos em casa com o Varzim por 3-0 e o Filipovic pediu para sair, ao que o presidente Carlos Abreu e o Chefe de Departamento de Futebol, José António Linhares, se opuseram e convocaram uma reunião com o plantel, a equipa técnica e todo o staff que envolvia o futebol do clube. Essa foi uma reunião que ainda hoje guardo como um marco do dirigismo, algo especial, e que me marcou ao longo da minha carreira com mais de 50 anos ligado ao futebol. O presidente Carlos Abreu, nessa reunião, inquiriu os jogadores que estavam há mais tempo no clube, perguntando-lhes precisamente há quantos anos ali estavam, e quantos treinadores haviam tido. Uns respondiam que estavam ali há 5 anos e que tiveram 7 treinadores, outros respondiam que estavam no clube há 8 anos e que tinham tido 10 treinadores, e por aí fora. Depois desta análise concluiu: “então a maioria tem muitos anos de clube e mudámos de treinador várias vezes. Já identifiquei o problema, o qual não está nos treinadores! Agora, não vamos mudar de treinador, e a mudar (algo) mudamos os jogadores”. Dessa forma na época de 1989/90 entre atletas promovidos dos juniores e contratações entraram no plantel do Salgueiros cerca de 16 novos jogadores. Essa temporada de 89/90 foi iniciada com um novo espírito e uma nova mentalidade. 

Filipovic e Manuel Gonçalves

MVF: … O Filipovic ficou, portanto, rompendo assim com a prática de despedir o treinador quando as coisas corriam mal. E como é que foi trabalhar com ele todos aqueles anos em Vidal Pinheiro? Como era Zoran Filipovic como treinador?

MG: O Zoran Filipovic trouxe uma nova mentalidade ao clube, novas metodologias de treino. Neste último aspeto cortou com aquilo o que na altura era a metodologia de treino, baseada nos desportos individuais, onde a dimensão física ditava leis. E mudou para as metodologias que se utilizam hoje em dia, onde os exercícios com bola e exercícios de acordo com o jogo eram a base de trabalho. O microciclo semanal (de trabalhos) passou a ser muito diferente do que até então era habitual, o que gerou alguma polémica na altura, com a folga semana, por exemplo, a ser à quinta-feira, dia habitual do chamado treino de conjunto. Lembro-me perfeitamente que à segunda-feira havia treino de recuperação para os jogadores utilizados no jogo do domingo anterior, enquanto os menos utilizados faziam treino normal; à terça-feira havia treino da parte da manhã e da parte da tarde; à quarta-feira de manhã havia treino específico, dividido em dois grupos, em que se iniciava com os jogadores de características defensivas e depois treinava-se com os de características ofensivas, ao passo que da parte da tarde treinava todo o grupo. À quinta-feira era a folga; e à sexta-feira e ao sábado havia treino da parte da manhã. Ao longo da semana de trabalho os treinos tinham a duração máxima de 90 minutos, e as metodologias utilizadas eram muito bem aceites pelos jogadores, dado que a bola estava sempre presente em todos os exercícios de treino, o que era motivante para o trabalho.

MVF: Como é que o popular Salgueiros viveu em termos emocionais essa chegada à Europa? Falo não só do clube em si, mas também daquilo o que viu nos fiéis e apaixonados adeptos deste emblema?

MG: 1991/92 foi uma época de grande afirmação do clube e que muito estimulou os seus adeptos, que viveram esse período com grande entusiasmo, e ainda hoje os adeptos mais velhos recordam isso com saudade.

Filipovic com Manuel Gonçalves ao lado numa palestra em Vidal Pinheiro

MVF: Consumada a chegada à Europa quis o sorteio que a estreia fosse diante do Cannes. Como é que o Zoran Filipovic, em conjunto com o professor Manuel Gonçalves e o Jorginho (treinadores adjuntos), preparou este jogo?

MG: O jogo com o Cannes gerou grande expectativa. Quase todos os jogadores nunca tinham participado numa prova (europeia) desta natureza. Sabíamos que o Cannes tinha grandes jogadores, onde despontava o Zidane, mas também jogadores experientes como o Fernández, o Omam-Biyik, o Asanovic, o Sassus, o Dussuyer, etc…

MVF: … E perante esse conhecimento como era o espírito do grupo antes do jogo? Nervosismo, entusiasmo, ou um misto destes dois sentimentos?

MG: O espírito do grupo era muito bom, pois vínhamos de duas épocas de sucesso, uma em que fomos campeões nacionais da 2.ª Divisão, e a seguinte em que nos apurámos para a Taça UEFA na sequência de um 5.º lugar.

MFV: Na sua visão de treinador o golo de Jorge Plácido que deu a histórica vitória fez justiça ao que se passou em campo ou o empate também se ajustava?

MG: Os dois jogos da eliminatória foram muito equilibrados. No Bessa foi com inteira justiça que o Salgueiros ganhou por 1-0. O jogo da segunda mão ficou marcado pela expulsão do Pedrosa, aos 56 minutos. No final dos 90 minutos o Cannes ganhava por 1-0, ficando a eliminatória empatada, pelo que se jogou um prolongamento de 30 minutos, sem que o resultado se alterasse. Há que referir que o Salgueiros jogou o encontro da segunda mão durante 64 minutos com 10 jogadores! Na decisão das grandes penalidades o Cannes ganhou por 4-2.

MVF: Já agora, do outro lado da barricada estava um jovem chamado Zinedine Zidane. O que é que achou dele naquela noite no Bessa? Adivinhou que ali estaria um dos futuros maiores jogadores da história do futebol ou nem por isso?

MG: Nessa altura o Zidane estava a iniciar-se, era ainda muito jovem, mas já tinha muita qualidade. As grandes estrelas do Cannes eram o Fernández e o Omam-Biyik.

MVF: Olhando para trás, mais de 30 anos depois, o que é que em seu entender significou aquela ida à UEFA por parte de um clube como o Salgueiros?

MG: Depois dos jogos com o Cannes, que foram uma experiência única para a maioria dos elementos do grupo, essa experiência acabou por trazer mais responsabilidade ao clube, pela exposição a que tinha sido submetido com a eliminatória europeia, que ainda hoje é um marco na história do Salgueiros. A ida à Europa para um clube como o Salgueiros foi de facto um ato que perdurará para sempre na história do clube, assim como na memória da massa associativa.

MVF: Para terminar, peço-lhe que classifique os 13 heróis que naquela noite de 19 de setembro no Estádio do Bessa fizeram história com a camisola do Salgueiros. À frente de cada nome diga o que pensa desse jogador, com uma palavra ou um pensamento, em suma, que caraterize individualmente esse atleta. Cá vai:

Madureira: «Um guarda-redes histórico do clube, com muitos anos de Vidal Pinheiro. Esteve ligado a um período de ouro da história do Salgueiros e que sabia transmitir a mística (do clube) ao grupo»

Paulo Duarte: «Um defesa-central prático e regular, com um grande caráter e um excelente ser humano»

Pedro Reis: «Um central que não sabia jogar mal. Eficaz. Era um pêndulo no sistema defensivo de três centrais que o clube utilizava na altura»

Pedrosa: «Lateral-esquerdo que veio da 3.ª Divisão, mas que pela sua qualidade e empenho se impôs com facilidade, acabando por seguir para o Sporting e ter feito uma boa carreira no futebol português»

Rui França: «Era o capitão e um trinco de grande eficácia. Era um operário que não parava durante os 90 minutos. Taticamente era bom, era forte nos duelos, entregava-se ao jogo sempre em alta rotação»

Milovac: «Um central top. Muito forte no jogo aéreo, e difícil de transpor nos duelos com os avançados contrários. Era um pilar do sistema de três centrais que a equipa utilizava»

Nikolic: «Era o estratega. Tinha muita classe e visão de jogo. Foi um jogador que marcou a equipa em muitos jogos pela sua liderança e qualidade técnica acima da média»

Abílio: «O trato de bola, a qualidade técnica e visão de jogo faziam com ele acrescentasse à equipa sempre algo em cada lance do jogo. Jogava com alegria, algo que transmitia aos colegas e que se refletia no rendimento da equipa»

Álvaro Soares: «Jogador pragmático, de grande eficácia, e com processos simples. Era veloz e dos seus pés saíam muitos cruzamentos que proporcionavam golos aos avançados»

Vinha: «Entrou bem no sistema de jogo da equipa. Foi muito útil nesse sistema de jogo utilizado. Com a sua enorme estatura tirava partido dos lances de bola parada»

Jorge Plácido: «Jogador experiente, rápido, e que ficará para sempre ligado à história desta eliminatória pelo golo que deu a vitória na primeira mão»

Leão: «Naquela altura estava em início de carreira, e cumpriu sempre que foi chamado. Confirmou, pela carreira que viria a fazer, a aposta que a equipa técnica fez nele»

Rui Alberto: «Um jogador eficaz. Era um ponta de lança prático, que tinha qualidade e fazia golos com alguma facilidade»

O plantel do Salgueiros que foi à Europa