domingo, outubro 11, 2026

Os Reis da antiga 2.ª Divisão Nacional: Anos 40

1940: Farense conquista título frente ao Boavista em final manchada por confrontos violentos

Os Leões de Faro em 1940
Os primeiros anos de vida da 2.ª Divisão assumiram-se como uma verdadeira luta entre o norte e o sul pelo título de campeão. Mais do que o título entrava em campo a honra regional. Talvez por isso as finais do segundo escalão causavam verdadeiros fenómenos de mobilização popular dentro do país. Numa época em que viajar pelo país era difícil e dispendioso, organizavam-se "comboios especiais" e caravanas de camionetas carregadas de adeptos que atravessavam Portugal para apoiar as suas cores, transformando as bancadas num campo de batalha regional. Cenário este que se verificou na final da temporada de 39/40, em que a rivalidade da vizinhança porta com porta foi posta de lado em prol da defesa de uma cidade, neste caso a cidade do Porto. Tudo porque quer o FC Porto, quer o Boavista desceram, em simultâneo, à capital para lutarem pelo trono do futebol nacional da referida época. De forma mais precisa, os portistas pelo título de campeão nacional da 1.ª divisão e os boavisteiros pelo cetro nacional da 2.ª Divisão. Nesse sentido, os dois vizinhos da Cidade Invicta deram as mãos e organizaram um grande comboio especial conjunto para os seus adeptos se deslocarem até Lisboa para assistirem aos respetivos encontros: o FC Porto diante do Benfica (nas Amoreiras) e o Boavista ante o Farense (na Tapadinha). Os dois clubes portuenses haveriam de registar os mesmos resultados no rescaldo desta viagem decisiva à capital: 3-2. Porém, foi um score com sabores distintos: os azuis e brancos sagraram-se campeões nacionais, ao passo que os axadrezados deixaram fugir o título secundário para os Leões de Faro. Farense que para chegar à final havia vencido na 1.ª fase da competição a Série Algarve, com 9 pontos, eliminando na 2.ª fase os conjuntos do Luso de Beja (4-0) e do Casa Pia (também por 4-0). A grande estrela dos algarvios era, quiçá, o seu treinador, o lendário Joseph Szabo.


Nessa temporada de 39/40, o mestre da tática magiar orientou o Sporting, clube pelo qual conquistou o Campeonato de Lisboa, mas já no final da época aceitou o repto dos algarvios para orientar os Leões de Faro durante algumas semanas. Uma pequena incursão que haveria de ter contornos vitoriosos, já que na Tapadinha o Farense levou a melhor sobre o Boavista e conquistou o título da 2.ª Divisão. A final de 1940 foi envolta em polémica, muito por culpa do reputado (?) árbitro Carlos Canuto, que nas palavras do jornalista do Diário de Lisboa (DL) que assistiu ao encontro teve uma atuação «detestável». O juiz deixou passar em claro faltas muito feias: «choques de brutalidade, pontapés selvagens, agressões puras. O árbitro limitou-se a dar conselhos, a contemporizar.
Julinho, com as cores 
do Boavista
Fê-lo, nalgumas ocasiões, empurrando os jogadores, o que é contra as regras», descreveu o DL. Se já estava muito quente, o ambiente escaldou a meio da 2.ª parte, quando Laguna (do Boavista) e Gomes (do Farense) foram expulsos, uma decisão que provocou o caos total em campo. Quanto ao pouco futebol que se viu na Tapadinha, o Farense dispôs das melhores ocasiões para marcar nos minutos iniciais e numa delas Nunes abre o ativo. Quiçá contagiado pelo ambiente de cortar à faca que se fazia sentir dentro das quatro linhas, o guardião boavisteiro Pesqueira falha a interceção a um cruzamento vindo da direita do ataque farense para permitir que Nunes, de cabeça, bisasse. Já na 2.ª parte, o mesmo Pesqueira tem uma saída precipitada que seria aproveitada por Palmeira para elevar o marcador para 3-0. De nada valeriam os golos de Pina e Julinho – que depois de uma passagem pelo Académico do Porto haveria de ser estrela no Benfica durante 10 anos – para os nortenhos, já que o Farense segurou a vitória e dessa forma colocou as mãos no título. O Boavista ainda chegou a protestar o jogo, mas em vão, pois, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) confirmaria o Farense campeão. E campeões nessa tarde de 19 de maio de 1940 foram os seguintes jogadores: Ascensão, Domingos, Castela, Américo, Marti, Gomes, Catarino, Gralho, Palmeiro, Vilanova e Nunes. A grande festa aconteceu em Faro, no mês de julho, onde a comitiva farense foi recebida no Cine-Teatro Farense e das mãos do presidente do Comité Olímpico Português, José Pontes, recebeu a Taça "O Século".

1941: Olhanense alcança tricampeonato e abre caminho para uma Era Dourada na 1.ª Divisão

O Olhanense alcançou em 1941 o terceiro
título nacional da 2.ª Divisão
A década de 40 é por muitos rotulada de “dourada” quando se olha para a história do Olhanense. O clube algarvio disputa de forma ininterrupta até 50/51 a 1.ª Divisão Nacional com classificações dignas de registo, além de que vê vários futebolistas seus serem chamados às seleções nacionais, casos de Cabrita, Grazina e Salvador. E para chegar ao patamar mais alto do futebol luso o Olhanense saboreou pela terceira vez na sua história o sucesso no escalão secundário. Estávamos na temporada de 1940/41, quando os de Olhão atingem a final da 2.ª Divisão após terem vencido na 1.ª fase da competição a Série Algarve e posteriormente terem eliminado, na fase seguinte, o Juventude de Évora (4-0) e o Seixal (2-1). Treinados pelo húngaro Desiderio Hertzka, os olhanenses viajaram até Lisboa, onde a 22 de junho de 1941 mediram forças com o Leça. O cenário para este duelo foi o mítico Campo das Salésias, que nos 5 minutos iniciais presenciou um maior atrevimento dos leceiros. Depois disto, o Olhanense recompôs-se e com um futebol mais preciso passou à ofensiva. A partir da meia hora de jogo o equilíbrio passava a ser nota dominante e por esta altura o denominador comum era a boa exibição que os dois guarda-redes iam fazendo face às investidas contrárias. Contudo, na reta final da 1.ª parte o nó do equilíbrio é desatado pelos matosinhenses, que criam inúmeras ocasiões para marcar, mas sem sucesso. Faltavam os golos àquele que era então um bom jogo de futebol. E eles apareceram nos segundos 45 minutos e em dose farta para gáudio do numeroso público que acorreu às Salésias. Contra a corrente do jogo surgiu o golo leceiro: após uma fuga pelo flanco direito, Godinho bateu José Abraão. O tento não desarmou os algarvios, pelo contrário. Os remates em direção à baliza do leceiro Alfredo Dias “Jaguaré” sucediam-se, mas só aos 70 minutos o Olhanense marcou: Acácio António remata para uma defesa incompleta do guardião do Leça e na recarga Santos faz o empate. Embalado pelo golo, dois minutos volvidos o Olhanense chega à vantagem por intermédio de Joaquim Gomes. E aos 78 minutos João Baptista amplia a vantagem algarvia para 3-1. Só a partir daqui o Leça esboçou uma reação, dando trabalho ao keeper algarvio. Mas seria contra a corrente do jogo, que a cinco minutos dos 90 o Olhanense colocou um ponto final nas aspirações leceiras ao fazer o 4-1 final, por intermédio de Santos. Em jeito de balanço da final, o DL escrevia que «a vitória da equipa do sul teve incontestável merecimento e plena justificação. Com efeito, os seus jogadores evidenciaram melhor sentido de jogo, trabalhando a bola com mais arte que o seu adversário. No entanto, foi boa a réplica dos leceiros». José Abraão, José Ramos, César Murta, José Joaquim, Grazina, Calé, Jerónimo Lima, Santos, Acácio António, João Baptista e Joaquim Gomes foram os onze heróis que nas Salésias deram ao Olhanense o seu terceiro título de campeão da 2.ª Divisão.

1942: Nascido para vencer, o Estoril Praia sagra-se campeão nacional aos dois anos de idade

Estorilistas e leixonenses medem forças na final
Com apenas três anos de vida o Estoril Praia conquistou o primeiro de quatro títulos nacionais da 2.ª Divisão que reluzem nas suas vitrinas. Com apenas três anos o clube em si, pois a secção de futebol do emblema da Linha só seria criada em 1940 e desde logo com resultados – e títulos – dignos de registo. É caso para dizer que foi chegar, ver e vencer, assim se pode olhar para a estreia dos estorilistas no campeonato da 2.ª Divisão Nacional em 41/42. Integrado numa das 15 séries/grupos que figuraram na 1.ª fase da competição, o Estoril começou por levar a melhor sobre as reservas do Sporting, do Belenenses, do Carcavelinhos, e equipas principais do Casa Pia e do Futebol Benfica, avançando assim para a fase a eliminar da prova. Aí, deixaram pelo caminho o União de Tomar (5-0), o Vitória de Setúbal (3-0) e a equipa de reservas do Benfica – sim, a partir desta temporada algumas equipas de reservas de clubes da 1.ª Divisão competiram no segundo escalão. No seu grupo, o Estoril tinha alguns nomes de peso, desde logo o possante avançado jugoslavo Franjo Petrak, que antes de rumar para Cascais apontou 76 golos em duas temporadas ao serviço do FC Porto. O último obstáculo dos canarinhos para chegar ao título foi o Leixões, clube que se deslocou a Lisboa para no dia 7 de junho de 1942 tentar levar o caneco para o norte. As Salésias voltaram a ser o palco escolhido pela FPF para a disputa de um título que teve dois atos. Isto é, duas finais. Na primeira delas, o DL relatou que «ao fim de 120 minutos de jogo ardorosamente disputado, nenhum dos contendores se podia orgulhar de ter conquistado o almejado título, pois cada um deles contava com quatro bolas no seu ativo». É verdade, o muito e fervoroso público presente nas bancadas teve o privilégio de assistir a uma chuva de oito golos – quatro para cada lado – que obrigou à disputa de uma finalíssima apenas dois dias depois (!), onde a equipa da Linha venceu por 3-1.

1943: Com seis golos de Cardoso Pereira, Barreirense vence a final e garante o primeiro título da divisão onde é rei absoluto

Em 1943 nascia o rei da 2.ª Divisão: 
o Barreirense
Olhando para a história da 2.ª Divisão há um clube que se destaca no que ao palmarés diz respeito: o Barreirense. Com sete títulos no seu currículo, o clube da Margem Sul deu início a este legado de vitórias na temporada de 42/43, em que foi dado o primeiro passo de uma caminhada mítica que eternizou os alvi-rubros como os verdadeiros reis da prova. Após vencer uma das 20 (!) séries da 1.ª fase da competição, o Barreirense começou por deixar pelo caminho na fase a eliminar o campeão em título Estoril (3-2 e 1-1), seguindo-se o Atlético (4-0), o Vitória de Setúbal (3-2) e o Lusitano de Vila Real de Santo António (7-2), alcançando assim a final onde a 23 de maio de 1943 mediu forças com a Sanjoanense. Lisboa foi mais uma vez a cidade escolhida para uma final onde o Barreirense esmagou o seu oponente por 6-1. O DL escrevia que o jogo «tem descrição fácil e quase se limita à história dos golos. Não foi uma final de emoção nem o público se esgatanhou para conhecer o vencedor». A Sanjoanense foi descrita como uma equipa algo ingénua e que não esteve à altura do seu adversário, mas que ainda assim deu indícios de no futuro poder atingir posições superiores no futebol português. Mas mesmo com essa ingenuidade, os rapazes de São João da Madeira entraram com vontade de contrariar a supremacia dos sulistas. Em vão o fizeram, pois Cardoso Pereira cedo tratou de mostrar que o Barreirense queria levar para casa a taça ao apontar um magnífico golo. De nada valeu o empate da Sanjoanense logo a seguir, já que a equipa do centro do país pouco ou nada fazia para sacudir a pressão barreirense. Ainda assim, o intervalo chegou com o empate no marcador. Na segunda parte os golos deram expressão à supremacia barreirense, clube cujo domínio nestes segundos 45 minutos foi ainda mais intenso. «A Sanjoanense mesmo sem se render completamente foi sempre menos “team” e, portanto, impotente para evitar o pesado resultado que ao fim se verificou, mas lutou com ânimo, e deu nota simpatiquíssima de desportivismo que não é vulgar nos tempos que vão correndo», analisava o jornalista do DL que assistiu ao jogo.
Cardoso Pereira
No entanto, um homem houve que chamou a si todo o protagonismo desta final: Cardoso Pereira. O avançado do Barreirense viveu, quiçá, o seu momento de glória numa carreira trilhada entre o Barreiro e Setúbal – defendeu as cores do Vitória ao longo de sete temporadas – ao apontar os seis golos do Barreirense nesta final! Seis que podiam ter sido oito, não fosse o árbitro Abel Ferreira ter invalidado dois tentos do avançado por alegado fora de jogo. Manuel Batista, Pascoal, Ricardo, João Limas, Moreira, Gervásio, Raimundo, Arsénio, Maximino, Guedes e Cardoso Pereira foram os heróis barreirenses deste primeiro título secundário. De referir que deste grupo de campeões, um houve que não muito tempo depois se destacou com as cores do Benfica, Arsénio Duarte, o seu nome. Jogador talentoso com dotes de goleador, Arsénio brilhou ao serviço do Benfica ao longo de 12 épocas (43-55). Chegou a Lisboa ainda jovem, com apenas 17 anos, mas logo o rapazinho franzino, mas extremamente veloz, deu nas vistas, sendo que em 224 jogos pelos encarnados apontou 152 golos.

1944: Estorilistas bi-campeões numa época quase perfeita

Além do título da 2.ª Divisão, o Estoril
chegou à final da Taça de Portugal
O ainda muito jovem Estoril Praia teve uma temporada (43/44) quase perfeita. Ou melhor, podemos dizer que foi perfeita, pois não é todos os dias que uma equipa então a militar na 2.ª Divisão chega à final da Taça de Portugal, como aconteceu aos estorilistas na citada época. No Jamor, o poderio do Benfica falou mais alto: vitória por 8-0. Mas esta derrota na Prova Rainha do futebol luso não tirou o brilho da caminhada dos canarinhos nesse ano. Pelo contrário, só acrescentou valor, e foi como que um prémio à conquista do título nacional da 2.ª Divisão. Pela frente os rapazes da Linha tiveram o Vila Real, emblema que no Lumiar – palco da final – entrou forte e determinado, mas foi o Estoril que na segunda parte conseguiu ascendente sobre o adversário e conseguiu vencer por 3-2 e assim sagrar-se pela segunda vez na história campeão nacional da 2.ª Divisão.

1945: Como o Atlético honrou o legado do “progenitor” Carcavelinhos

O "filho" (Atlético) honrou o legado 
do "pai" (Carcavelinhos) 
O Atlético Clube de Portugal nasceu a 18 de setembro de 1942 através da fusão entre o Carcavelinhos Football Club e o União Foot-Ball Lisboa, ambos clubes da zona de Alcântara, em Lisboa. Ao herdar a identidade destes dois clubes, sobretudo do Carcavelinhos, laureado emblema lisboeta dos anos 20 e 30, o Atlético manteve-se profundamente ligado ao bairro de Alcântara, assumindo-se desde cedo como um histórico do futebol português. E cedo porque em 44/45 o emblema da Tapadinha – que já era a casa histórica do Carcavelinhos – saboreou pela primeira a conquista de um título nacional sob a nova designação. Dizer que o campeonato nacional da 2.ª Divisão atraía por esta alturas largas dezenas de participantes, que numa fórmula algo confusa começam por disputar numa 1.ª fase mini-campeonatos provinciais, com apuramentos posteriores por eliminatórias até à final. O Estádio do Lumiar voltou a acolher a final do escalão secundário, desta feita protagonizada pelo jovem Atlético e pela CUF do Barreiro. A 1.ª parte pertenceu ao clube de Alcântara, que com uma postura atacante esclarecida e uma linha média que sabia ocupar com arte o seu lugar, chegou ao intervalo a vencer com todo o mérito por 2-0. Na revista Stadium, Tavares da Silva escrevia que «na verdade o Atlético mostrou-se superior logo no primeiro pontapé e isso tirou-nos a emoção a que nos achávamos com direito. Mas ninguém tem culpa de que o desafio tenha decorrido desta forma. Em tudo o Atlético foi superior: na coesão da defesa, na compenetração e inteligência da linha medular, na arte e no comando da célula avançada». Marques e Catinana foram os autores dos tentos dos lisboetas. Na segunda parte a CUF apareceu em campo mais espevitada e acima de tudo mais ameaçadora. Neste ponto, destaque para Arnaldo Carneiro, que em três ocasiões obrigou o guardião Paiva a arregaçar as mangas para trabalhar. «A CUF, conjunto de jogadores experientes e homens que não passam hoje de promessas não pôde resistir nem suportar a melhor organização do Atlético. Lutou, reagiu, defendeu-se e atacou, por vezes, mas dando sempre a sensação de team com muitas deficiências…», assim analisava Tavares da Silva a equipa do Barreiro. Refira-se em nota de rodapé que no “team” cufista que esteve nesta final se encontravam dois jovens talentos que anos mais tarde iriam fazer parte do mais famoso quinteto do futebol português: Os Cinco Violinos. Eram eles José Travassos (tinha 19 anos) e Vasques (então com 18 anos). O resultado da final de 1945 não se alterou e o Atlético dava assim seguimento à glória conquistada pelo seu “progenitor” Carcavelinhos nas décadas de 20 e de 30. Paiva, Carlos Baptista, Ventura, José Lopes, Gregório, José Lopes, Micael, Rosário, Catinana, Armindo e Marques foram os heróis de Alcântara naquela tarde de 1 de abril de 1945.

1946: Soberano nos anos 40, o Estoril dominou a 2.ª Divisão numa época em que o figurino voltou a mudar

No espaço de quatro anos o Estoril 
venceu o título em três ocasiões
A FPF promoveu uma verdadeira revolução no figurino da 2.ª Divisão a partir da temporada de 45/46. Eram cada vez mais os clubes participantes, de norte a sul do país. A 1.ª fase manteve-se igual a edições anteriores, ou seja, os clubes eram distribuídos por áreas geográficas, competindo numa espécie de mini-campeonatos, sendo que os vencedores se apuravam para a fase a eliminar, a tal 2.ª fase. Tudo igual neste aspeto. A novidade é que os quatro vencedores dos quartos-de-final ao invés de competirem entre num sistema de meias-finais e final, enfrentaram um mini-campeonato a duas voltas, sendo o campeão a equipa que tivesse somado mais pontos. E aqui o Estoril pela terceira vez no curto espaço de quatro anos (!) sagra-se campeão nacional. Os rapazes da Linha começaram por vencer a Série 9 da 1ª fase, com 19 pontos, sendo que na fase a eliminar afastaram o Casa Pia (4-1) e o Onze Unidos (3-1). Na 3.ª fase, o tal mini-campeonato final, superaram a concorrência do Famalicão, União de Coimbra e do Portimonense. A caminhada rumo ao título teve início em Famalicão, onde o Estoril não foi além de um empate a uma bola diante dos locais. A equipa de Cascais abriu o ativo logo aos 3 minutos, por intermédio de Raul Silva que de recarga bateu o guarda-redes da casa. Álvaro Pereira, na sequência de um canto apontado por Sampaio, restabeleceu uma igualdade que o Estoril segurou até final muito graças à brilhante atuação do seu guarda-redes Valongo. Seguiu-se o jogo na Amoreira diante do União de Coimbra, que levou para casa uma derrota por 4-1 – os golos do Estoril foram apontados por Silva, Lourenço, Mota e Eloi. Na 3.ª jornada os estorilistas receberam e dominaram em toda a linha o Portimonense ao longo da 1.ª parte, domínio esse que foi expresso em quatro golos – Lourenço apontou três deles, sendo que o outro foi da autoria de Vieira. Na segunda metade o Estoril continuou a carregar e obteve mais três tentos que selaram o resultado num expressivo 7-2 a seu favor. Na ronda seguinte foi a vez do Famalicão ser despachado por 4-1, numa partida em que os canarinhos foram dominadores na 1.ª parte, alcançando neste período três golos por intermédio de Silva (2) e Lourenço. A segunda metade foi mais equilibrada e acima de tudo mais bem disputada, tendo os nortenhos ainda reduzido a diferença por intermédio de Pereira, aos 60 minutos, mas cinco minutos volvidos Silva completa o hattrick e acaba com as esperanças famalicenses. Em Coimbra aconteceu uma nova vitória, esta mais curta, por 2-1, mas o suficiente para garantir matematicamente o título de campeão da 2.ª Divisão. No Campo da Arregaça, o Estoril entrou melhor, apresentando uma técnica mais apurada que o União. Porém, seriam os locais que pregavam mais sustos a Valongo, o guardião da Linha, mas ainda assim o marcador não funcionou antes do intervalo. Os golos só surgiram na 2.ª parte, o primeiro aos 56 minutos e para o Estoril, por intermédio de Mota. Tento que animou os sulistas, que à passagem dos 75 minutos ampliam a vantagem pelo pé de Lourenço. O União não deitou a toalha ao chão e pouco depois reduz por meio de Velha, um esforço insuficiente para evitar a derrota. O Estoril carimbava assim o seu terceiro nacional secundário, de nada valendo o único percalço desta caminhada, o qual aconteceu em Portimão, onde foi derrotado por 4-3. O DL escrevia que o Portimonense exerceu «maior domínio durante todo o jogo», e que assim justificou o triunfo. Vieira (em duas ocasiões) e Mota marcaram os tentos estorilistas. No somatório dos seis jogos da poule de apuramento de campeão o Estoril somou 9 pontos.

1947: O título do SC Braga marcado por acusações de suborno

O Sporting de Braga campeão 
Na temporada de 1946/47 e após oito anos de andanças pelo sul do país eis que o troféu de campeão nacional da 2.ª Divisão volta a viajar para o norte. Mais precisamente para Braga, através do Sporting local, que inicia a Série 4 da 1.ª fase da competição de forma demolidora e logo com um recorde: uma vitória por 14-0 sobre o Infesta, com sete dos golos a serem apontados por Nelo, ou Nelito Barros, como este popular avançado nascido em Fafe era conhecido no Minho. O grande rival dos bracarenses nesta 1.ª fase foi o Académico do Porto, que ao ser derrotado (3-6) pelos minhotos na penúltima jornada desta fase entrega o 1.º lugar da série aos arsenalistas, que não desperdiçaram a oferta e na última jornada ao baterem o Candal por 2-0 asseguraram o título de campeão de série, avançando assim para a fase a eliminar. Aqui, começou por eliminar o Fafe (2-0), ao que se seguiu o Vila Real (4-3) e assim estava o Braga qualificado para a 3.ª e decisiva fase de apuramento de campeão. Os bracarenses entraram na fase final em falso, ao serem derrotados (0-1) pela Oliveirense. Porém, até final da primeira volta corrigiram este mau arranque com duas vitórias sobre o Lusitano de Vila Real de Santo António e sobre o Onze Unidos (do Montijo), respetivamente por 2-0 e 5-1. Com esta performance o Braga ocupava a par da Oliveirense o 1.º lugar da poule ao fim de três jornadas e ficou isolado quando obteve na ronda inaugural da segunda volta uma concludente vitória (2-0) sobre o conjunto de Oliveira de Azeméis. Porém, o título não foi confirmado na jornada seguinte, tudo porque no Algarve o Lusitano venceu os arsenalistas por 1-0 e ficou tudo adiado para a derradeira ronda. E aqui assistiu-se a um alegado triste jogo de bastidores que envergonhou o futebol luso. Lançou-se a suspeita de que o Braga havia aliciado com dinheiro quatro jogadores do Onze Unidos para que estes facilitassem o triunfo dos nortenhos, que mantinham a liderança da poule ex-aequeo com a Oliveirense, beneficiando do goal-average para ser campeão em caso de igualdade pontual no final do campeonato.
Em Braga houve festa rija na receção 
aos campeões da 2.ª Divisão de 1947
Desta forma a FPF suspendeu o jogo do Montijo para averiguar esta alegada proposta de suborno do dirigente bracarense José Antunes Guimarães. O organismo federativo colocou o dirigente frente a frente com os quatro jogadores do Onze Unidos para ver quem falava a verdade. O presidente do Sporting de Braga negou qualquer tipo de tentativa de suborno, ao passo que os quatro atletas do emblema do Montijo contradiziam-se, sendo que o guarda-redes Braço Forte dizia ter-se reunido com o dirigente do Braga, ao passo que os restantes afirmavam nunca se terem encontrado com José Antunes Guimarães. Após analisados os factos/depoimentos, a FPF não conseguiu reunir indícios concretos de que tinha havido tentativa de suborno, pelo que decide ilibar o Braga, que desta forma estava “livre” para disputar o jogo decisivo do campeonato. O jogo do Montijo foi disputado sob um clima de suspeição, como seria de esperar, mas nada que impedisse o Braga de somar uma nova vitória (2-0), com golos de Mário e Cassiano Brandão, e assim festejar o primeiro título nacional da sua história. A equipa foi recebida em euforia na Cidade dos Arcebispos, e o título foi amplamente festejado um pouco por todo o Minho, como comprova o facto de o Ateneu Comercial de Famalicão ter hasteado no seu edifício a bandeira do Sporting de Braga e de dirigentes do Vitória de Guimarães se terem deslocado à capital do Minho para participar na sessão solene de homenagem aos campeões nacionais da 2.ª Divisão.

1948 e 1949: Covilhã e Académica levam pela primeira vez o título para o centro do país em dois anos seguidos

Em 47/48 a FPF impôs novas mudanças ao figurino da prova ao eliminar os jogos por eliminatória, passe a redundância. Ou seja, existiu uma 1.ª fase constituída por quatro séries de oito clubes cada uma delas, sendo que os dois primeiros classificados de cada uma delas avançavam para uma 2.ª fase que foi constituída por duas séries (uma no norte e outra no sul), cujos dois primeiros classificados avançavam para a 3.ª e última fase. Confuso, no mínimo, mas assim era o futebol português de então sob o ponto de vista organizativo/logístico. Vencedor da Série B da 1.ª fase – com 26 pontos – e do Grupo Norte da 2.ª fase – com 8 pontos – o Sporting da Covilhã ganhou o direito de disputar a poule de apuramento de campeão com o Barreirense, a CUF e o Famalicão. Janos Szabo, acumulava as funções treinador-jogador nos Leões da Serra, que chegaram ao título pela diferença entre golos marcados e sofridos, ou seja, terminaram com os mesmos pontos (8) que o Barreirense, mas levaram a melhor no goal-average.

A Briosa rainha da Segunda em 1949
Este foi o primeiro de dois títulos consecutivos da 2.ª Divisão que viajaram para o centro do país, já que na temporada seguinte foi a vez da Académica festejar aquele que por aquela altura era o seu segundo cetro mais pomposo a seguir à Taça de Portugal arrecadada pelos estudantes em 1939. Após vencer a Série B da 1.ª fase, a Briosa levou a melhor sobre Oliveirense, Académico de Viseu e Famalicão no Grupo Norte da 2.ª fase, garantindo assim o passaporte para a final da 2.ª Divisão. É verdade, voltávamos a ter uma final para decidir o campeão, mas assim o foi não pelos melhores motivos. Ou seja, após a 5.ª jornada da poule final – que além da Académica tinha ainda o Famalicão, o Portimonense e o Oriental – os estudantes e os lisboetas ocupavam o primeiro lugar, com 6 pontos, sendo que na última e decisiva jornada os de Coimbra deveriam deslocar-se ao terreno dos orientalistas. Acontece que mais uma vez a vergonha voltou a bater à porta do futebol luso, já que ao que parece os jogadores do Famalicão haviam sido subornados para perder o jogo com o Oriental na 5.ª jornada, derrota essa que se consumou: 2-1. O então Ministro da Educação, Pires de Lima, decide suspender famalicenses e orientalistas da competição, dando ainda ordem para que fossem anulados todos os jogos até ali disputados da poule da 3.ª fase e que o campeão nacional fosse encontrado após a realização de um jogo único entre a Académica e o Portimonense. Assim foi.


Lisboa e o Estádio do Lumiar foram o cenário escolhido para acolher esta final de última hora, sendo que à capital desceu – no dia 5 de junho de 1949 – uma gigantesca macha negra para apoiar a Briosa. Disso deu nota o DL: «A imagem mais sedutora da final do Nacional da 2.ª Divisão foi-nos fornecida não pelos jogadores, mas sim pelos componentes da unida e irrequieta falange de apoio da Académica. O público de Lisboa não arredou pé, com as atenções presas nesse curioso espetáculo suplementar de uma longa reunião futebolística que não havia primado pela qualidade. Constituiu uma alegre e colorida mancha no declinar de uma tarde sufocante, imprópria para a prática do futebol. Representou uma extraordinária manifestação de fé e amor clubista». Olhando para o que se passou dentro das quatro linhas, cedo a Briosa se adiantou no marcador na sequência de um golo de Pacheco Nobre, quando estavam decorridos apenas dois minutos. Apesar de dominado em todos os capítulos do jogo, o Portimonense ainda conseguiu chegar à igualdade aos 18 minutos, mas a Académica, que nas palavras do DL «adotou sempre toada franca de ataque», chegaria de novo à vantagem, já na segunda metade, por intermédio do jogador-treinador Alberto Gomes.
Euforia nas ruas de Coimbra na receção
aos campeões nacionais 
Foi uma vitória – 2-1 – inquestionável «da equipa que revelou superioridade em todos os aspetos e tudo fez para se tornar digna dela (dessa vitória», assim analisou o DL, que descreveu o finalista vencido como uma equipa que correu e batalhou muito, mas «jogou pouquíssimo». Dizer que em 48/49 a Académica teve uma curta passagem pela 2.ª Divisão, onde havia caído na temporada transata, regressando assim ao escalão maior com o título de campeão nacional secundário no bolso. No final do encontro, a festa entre o relvado e as bancadas foi uma só, como relatou A Bola, ao descrever que o relvado do Lumiar foi rapidamente invadido por uma nuvem de estudantes com as suas capas negras a esvoaçar ao vento. As festividades continuaram no dia seguinte, quando a equipa chegou a Coimbra, onde a euforia foi ainda maior. Os campeões nacionais foram recebidos no Largo da Portagem por uma multidão em delírio, seguindo-se depois um cortejo pelas ruas da cidade – repletas de povo – até à sede da Associação Académica onde os campeões foram homenageados por entre salvas de foguetes.  

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