O futebol e o crime deram as mãos muito antes dos escândalos mediáticos do século XXI quando nomes sonantes como Robinho, Dani Alves, Ronaldinho Gaúcho, ou Freddy Rincón viram em determinado período das suas vidas o sol “nascer aos quadradinhos” em virtude de atos criminosos cometidos. Há sensivelmente 100 anos atrás um caso pioneiro chocou a opinião pública europeia e só a fama obtida nos relvados salvou o criminoso de uma pena pesada. Corria o ano de 1928, quando Pierre Mony, um antigo defesa-esquerdo da seleção francesa, no seguimento de uma crise de ciúmes, assassinou a tiro o seu melhor amigo. Mas vamos por partes. Mony era um dos meninos queridos do futebol francês dos anos 20. Uma Era onde imperava o amadorismo, mas ainda assim capaz de popularizar nomes como Paul Nicolas – tido como o melhor futebolista gaulês da referida década –, ou Jean Boyer. Juntamente com estes dois craques, Mony integrou a seleção francesa que em 1920 participou nos Jogos Olímpicos de Antuérpia. Nascido em Paris, em 1896, Mony desenvolveu toda a sua carreira no norte de França, mais concretamente na cidade costeira de Boulogne-sur-Mer, onde representou em dois períodos distintos – entre 1918-1921 e 1925-1928 – o US Boulogne e o OSC Boulogne – entre 1923 e 1924, tendo sido, pois, nesta região que alcançou o estatuto de lenda. E foi precisamente numa altura em que já estaria afastado das lides futebolísticas que o nome de Pierre Mony voltou a ecoar pelos quatro cantos do território francês, e tudo devido a uma crise de ciúmes. A antiga estrela dos relvados vivia uma vida aparentemente pacata na cidade onde alcançou a fama, localidade onde geria um restaurante do qual era proprietário. Na noite de 15 de maio de 1928 e após dar por encerrado mais um dia de trabalho no seu restaurante, Mony fez o que habitualmente fazia: ir beber um copo com os amigos ao Popes Bar. Mas naquela noite a sua ida àquele espaço noturno tinha um outro propósito. Entrado no bar, sentou-se ao balcão junto dos seus amigos, onde entre os quais se encontrava o antigo campeão de ciclismo Jean Delpierre. Bebidas e brindes sucederam-se em catadupa até à 1H00, altura em que o bar fechou e Mony juntamente com Delpierre e outro amigo comum, de nome Maurice Dagbert, decidiram separar-se do resto do grupo e ir continuar a farra para outro lado da cidade. Diz a história que os três homens se deslocaram no carro de Delpierre até ao Hotel de La Paix com a intenção de ali continuarem a noite de copos. Porém, o hotel estava fechado, ao que os três amigos decidiram sentar-se na entrada da unidade hoteleira dando aso a uma animada cavaqueira. Nada fazia prever que a determinada altura da borga Pierre Mony tirasse do bolso uma pistola e apontando-a para Delpierre tivesse disparado quatro tiros sobre este. Enquanto Mony desatou dali a fugir, Delpierre ainda conseguiu rastejar com a ajuda de Dagbert até ao café mais próximo no sentido de pedir ajuda. Posteriormente foi transportado para o hospital local, onde seria operado sem sucesso, já que viria a falecer no dia seguinte. Por sua vez, Mony fugiu para o porto de Boulogne-sur-Mer, onde terá atirado ao mar a arma do crime, dirigindo-se depois para casa de um outro amigo a quem pediu para o levar até Calais, a casa dos seus sogros, onde se encontravam a sua mulher, Paule, e a sua filha. Ali chegado, despediu- se da filha com um beijo e foi embora, regressando a Boulogne-sur-Mer para se entregar na esquadra de polícia local onde confessou o crime. No decorrer do interrogatório policial, Mony explicou que suspeitava que Delpierre e a sua esposa tinham um caso amoroso, suspeitas que subiram de tom após uma viagem que os dois haviam feito a Nice, sendo que no regresso Paule terá pedido o divórcio a Mony. Profundamente abalado com este pedido por parte da sua esposa, Pierre Mony terá então planeado matar aquele que era um dos seus melhores amigos. Ato consumado, e Mony foi acusado pelas autoridades por assassinato premeditado, tendo sido detido por tal. O julgamento só viria a ter lugar cerca de cinco meses volvidos o crime, em Arras, cujo tribunal foi pequeno demais para albergar populares e jornalistas – que vieram de vários pontos de França – que ali se deslocaram para assistir a este julgamento mediático. Mony chegou ao tribunal visivelmente abatido e com uma expressão de quem estaria à espera da condenação. As primeiras palavras de Mony perante o juiz foram no sentido de se lamentar por ter cometido tal ato de loucura levado pelo ciúme. Uma das testemunhas que o tribunal ouviu foi a própria Paule, que perante o juiz negou ter tido qualquer afaire com Delpierre. No seu depoimento, Paule referiu ter a sua reputação manchada, retratando o seu marido como um homem imoral e preguiçoso, explicando que seguiu viagem para Nice com Delpierre após Mony a ter incitado a seguir a própria vida dela ao passo que ele seguia a sua. Porém, e após ter ouvido outras testemunhas que conheciam a vida do casal, o juiz terá chegado à conclusão de que Mony não seria nenhum santo no que aos deveres matrimoniais dizia respeito, já que a popularidade granjeada nos retângulos de futebol abriu-lhe as portas dos corações de muitas madames por aquelas bandas! Por outras palavras, cometeu por diversas ocasiões o pecado da infidelidade. Porém, a sua fama de futebolista acabou por pesar mais alto ao fim das 14 horas que durou este julgamento, sendo que quando pronunciado a deliberar a sua decisão sobre este caso o júri decidiu não culpar Mony pelo assassinato de Delpierre. Como se estivesse numa qualquer bancada de um estádio, o público presente na sala de tribunal rapidamente se levantou para ovacionar o absolvido Pierre Mony, que assim foi posto em liberdade até ao resto da sua vida.
domingo, outubro 04, 2026
quinta-feira, setembro 24, 2026
Jogos Memoráveis (13)... Leixões - La Chaux-de-Fonds (Taça das Taças 1961/62)
No ano de 1961 e no espaço de apenas três meses o Leixões escreveu duas das mais brilhantes páginas da sua hoje centenária história. A primeira aconteceu a 9 de julho do referido ano, dia em que na tribuna do Estádio das Antas o emblema de Matosinhos ergueu para surpresa de todos a Taça de Portugal às expensas do FC Porto. Uma conquista que abriu as portas da Europa do futebol à Armada do Mar, que na temporada seguinte (61/62) competiu na 2.ª edição da Taças dos Vencedores das Taças. E também na estreia na alta roda internacional os leixonenses escreveram uma página histórica que até hoje não mais foi igualada por nenhum outro clube português nas provas da UEFA. E é precisamente sobre este capítulo que hoje iremos recordar.
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| Osvaldo Silva |
sexta-feira, setembro 11, 2026
Histórias do Futebol em Portugal (52)... Boavista: o pioneiro do profissionalismo em Portugal e a estreia do mítico xadrez nas camisolas
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| Uma das primeiras equipas do Boavista após a implementação do xadrez como manto sagrado |
O doloroso presente que o Boavista vive não tem força suficiente para ofuscar o seu passado de glória. Ao longo de mais de um século de vida, o emblema portuense escreveu centenas de páginas relevantes no desporto português. E esta evidência leva-nos hoje até 1933, ano em que o clube do Bessa não só se reinventou sob o ponto de vista indumentário, como de igual modo teve um papel preponderante para acabar com o profissionalismo encapotado que vigorava em Portugal. E tudo isto pela mão de uma figura incontornável do clube do Bessa e do próprio desporto nacional: Artur d’ Oliveira Valença. Nascido em fevereiro de 1897, este tripeiro de gema (viria a falecer em 1978) foi uma figura incontornável da primeira metade do século XX não só no desporto como da sociedade portuense dessa altura. Foi um homem multifacetado ao desempenhar diversos cargos ao longo da sua vida, fazendo-o sempre com um sentido de inovação que deixou marca. Era um apaixonado pelo desporto de uma forma geral, embora o boxe tenha sido o seu primeiro grande amor. Talvez porque na sua juventude viveu alguns anos em França, onde a modalidade tinha força e prestígio. Regressado a Portugal nos anos 10, não só funda o Boxing Clube de Portugal como lança e orienta as primeiras estrelas da modalidade, casos de Tavares Crespo e Santa Camarão. Como empreendedor multifacetado que era, Oliveira Valença tinha de igual modo uma paixão pela escrita, e pelos jornais em particular, sendo que nos anos 20 criou o Sporting, o primeiro jornal desportivo bissemanário portuense. Este jornal serviria – sempre pela mão do seu fundador – de embrião para a fundação de outros organismos/clubes de diversas modalidades, cados da Federação Portuguesa de Boxe, da Federação Portuguesa de Remo, da Liga Portuguesa de Clubes de Natação, do Moto Club de Portugal, da Liga Portuguesa de Atletismo, entre outros. Oliveira Valença organizaria diversas competições desportivas no país ligadas a estas e a outras modalidades. Claro que o futebol tinha também um espaço reservado no seu coração. O futebol e muito em particular o seu Boavista Futebol Clube, ao qual esteve igualmente ligado enquanto presidente. E foi nesta condição que no regresso à Invicta após uma das suas idas a França trouxe a ideia de implementar as camisolas axadrezadas no clube do Bessa. As famosas camisolas axadrezadas que tornaram o Boavista popular em todos os cantos do país e noutros cantos do planeta.
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| O peculiar equipamento e símbolo do Boavista antes do xadrez |
Até aí, o emblema portuense apresentava uma indumentária um pouco fora do comum para aqueles dias, isto é, usava uma camisola às riscas verticais em azul, vermelho e branco! Mas não só o traje foi completamente reformado por influência de Oliveira Valença. O próprio emblema do clube foi alterado para o qual conhecemos hoje em dia: um retângulo formado por 13 quadrados pretos e 12 quadrados brancos exibidos em forma de xadrez. Oliveira Valença não só apenas alterou para sempre a estética do Boavista. Ele conduziu de igual modo o clube numa luta acérrima que procurou colocar um ponto final no profissionalismo encapotado que vigorava no futebol português nos anos 20. Nessa altura já havia jogadores profissionais em Portugal, pese embora fossem remunerados secretamente e/ou escondidos em empregos de fachada, pois na verdade passavam o tempo todo a treinar e a jogar. Já na época os clubes mais endinheirados pagavam a muitos jogadores prémios de jogo de forma totalmente clandestina, e como tal longe dos olhares da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e das associações de futebol distrital, organismos que proibiam o profissionalismo. Mas Oliveira Valença foi um dos rostos principais dessa luta para acabar com o amadorismo de fachada que existia em Portugal, ele e o seu Boavista. E esse murro na mesa aconteceu oficialmente em 1933, precisamente o ano em que o clube do Bessa estreou a sua hoje mítica camisola axadrezada. O fim do profissionalismo encapotado vinha, aliás, sendo discutido aberta e frontalmente por algumas personalidades do panorama desportivo luso, casos de Cândido de Oliveira e do próprio Oliveira Valença.
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| A transição de símbolos do clube |
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| Oliveira Valença |
quinta-feira, setembro 03, 2026
Histórias do Planeta da Bola (36)... Irmãos de sangue, destinos distintos no caminho da glória
Ser filho da mesma mãe e do mesmo pai não significa que dois (ou mais) irmãos possam ter as mesmas apetências para desempenhar uma qualquer atividade com arte e engenho. Isso acontece também no futebol, onde o talento com a bola não se repercutiu entre irmãos biológicos. Isto abre-nos a porta para recordar quatro lendas do futebol planetário cujos irmãos de sangue não conseguiram atingir o estrelato.
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| Zoca e Pelé no Santos |
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| Franz e Walter num amigável nos anos 70 entre o Bayern e o TSV 1860 |
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| Johan (o terceiro na fila de baixo) e o seu irmão Henny (segundo na fila de cima) atuaram juntos na formação do Ajax |
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| Hugo, Lalo e Diego num jogo especial que juntou os três irmãos Maradona |
sexta-feira, agosto 28, 2026
Flashes Biográficos (19)... Dulce Rosalina
DULCE ROSALINA (Brasil): Não é só dentro das quatro linhas que o futebol tem os seus encantos. Fora delas, o mesmo será dizer nas bancadas, ele ganha alma e paixão genuína através dos adeptos que transformam os estádios em verdadeiros palcos de emoção. A envolvência das bancadas dita o ritmo do jogo e cria uma atmosfera única. Vem isto a propósito da nossa estrela de hoje, que não só fez história ao imprimir um novo estilo de apoio nas bancadas, como e acima de tudo derrubou a barreira do preconceito em relação à presença e liderança feminina num espaço onde predominava – e ainda predomina maioritariamente – o sexo masculino. A nossa revolucionária é Dulce Rosalina, a carioca que há 70 ANOS ATRÁS se tornou na primeira mulher a líder uma claque – ou torcida – no Brasil… e no resto do Mundo. Nascida no Rio de Janeiro, em 1935, Dulce era filha de um imigrante português fanático pelo Vasco da Gama. Estabelecido no Bairro da Saúde, zona portuária que contava com uma massiva comunidade portuguesa com fortes ligações ao emblema da Cruz Maltina, o pai de Dulce foi a maior influência para que desde muito cedo a menina também ela se tornasse numa fervorosa adepta dos vascaínos. Mas não foi só a paixão pelo Vasco que este estivador de profissão transmitiu à sua filha. A defesa dos direitos humanos foi um dos ensinamentos que este homem sempre procurou transmitir à sua descendente, sobretudo no que concerne à abolição do preconceito racial. Ora, sendo o Vasco da Gama um dos clubes pioneiros no que diz respeito à integração de jogadores negros e operários nas suas equipas, deu-se aqui o casamento perfeito entre Dulce e o Gigante da Colina. Foi neste ambiente que Dulce Rosalina cresceu, até que aos 22 anos o seu nome entra na história do desporto. Estávamos em 1956, ano em que esta carioca assume a presidência da Torcida Organizada do Vasco, isto é, a maior claque da época do emblema de São Januário. Estava derrubada desta forma a barreira do preconceito em relação à mulher não só como adepta do futebol, como em relação à mulher no papel de líder de algo relacionado com esta modalidade, neste caso de uma claque organizada. Dulce Rosalina revolucionaria de imediato também o modo de apoio a um clube, ao trazer para os jogos confetis – ou papel picado – e tambores que até então só se viam e utilizavam em escolas de samba. Dulce rapidamente se tornou numa referência dentro do próprio clube, tendo o privilégio de conviver de perto e com frequência com alguns dos ídolos de então do Vasco, casos de Bellini ou Vavá. A sua popularidade seria reconhecida a nível nacional em 1960, quando a Revista do Esporte a distingue com o prémio de Melhor Torcedor do Brasil. Ela comandou a principal torcida do Vasco da Gama em vários estádios do Brasil, já que fazia questão de acompanhar o clube para onde quer que fosse. Esta acérrima paixão também lhe causou alguns momentos de sofrimento, como aquele que aconteceu em 1968, quando numa deslocação a São Paulo o autocarro em que a claque seguia teve um acidente, causando alguns ferimentos àquela que era já conhecida como a Primeira Dama do Vasco da Gama. Em 1977 ela desvincula-se da Torcida Organizada do Vasco, alegando divergências políticas com os dirigentes da época do clube. Porém, este divórcio esteve longe de significar o fim da sua relação com o clube o seu coração, já que logo depois fundou uma nova claque, a Renovascão. Foi casada com o jogador de futebol Norival Ponce de León e reza a história que sempre que o seu esposo jogava contra o Vasco, a Dona Dulce avisava-o de que ele tinha duas opções: perder o jogo ou não voltar para casa. Com o avançar da idade e o aparecimento dos problemas de saúde, Dulce Rosalina foi-se afastando dos estádios de futebol. Viria a falecer em 2004. Em jeito de homenagem, a Prefeitura – Câmara Municipal – do Rio de Janeiro atribuiu o seu nome a uma rua da cidade próxima ao Estádio de São Januário.
terça-feira, agosto 25, 2026
Copa América (10)... Chile 1926
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| A seleção uruguaia que em 1926 recuperou o título de campeão das américas |
Em 1926 o então denominado Campeonato Sul-Americano de Futebol dava as boas vindas ao seu sexto integrante da história, a Bolívia. Foi no Chile, mais precisamente na capital Santiago, que La Verde – que na altura até vestia de branco – deu há um século atrás a esta parte o pontapé de saída da sua história no Planeta da Bola. Facto ocorrido a 17 de outubro de 1926, quando no Campos de Sports de Ñuñoa, a Bolívia entrou em campo pela primeira vez, na abertura da 10.ª edição da maior competição de seleções do continente americano. Mas puxemos a fita atrás, mais concretamente até ao dia 18 de agosto desse ano, altura em que a Federação Boliviana de Futebol – que havia sido fundada apenas um ano antes – decide aceitar o convite da sua congénere chilena para integrar o lote de seleções do 10.º Campeonato Sul-Americano. Estávamos a dois meses do início da competição, e os dirigentes bolivianos nem sequer tinham ainda uma seleção nacional montada, mas mesmo assim arriscaram participar com o argumento da visão de integrar o país no Mundo do futebol.
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| Job De La Cerda |
Foi de pronto nomeada uma comissão técnica, a qual foi liderada por Job de la Cerda, um dos pioneiros do futebol boliviano que começou a sua carreira de futebolista e mais tarde de dirigente na Argentina, para onde se havia mudado com apenas 10 anos de idade. Assim que chegou ao comando da seleção boliviana, Cerda realizou um torneio nacional com equipas das várias regiões do país no sentido de escolher os melhores que iria levar ao Chile. No rescaldo deste torneio de captação, digamos, foram selecionados 17 jogadores originários dos estados/províncias de La Paz, Oruro, Sucre, Potosí, Cochabamba e Uyuni. Escolhidos os jogadores, a seleção reuniu-se a 13 de setembro em Cochabamba, cidade que tinha um clima mais aproximado do que se verificava em Santiago do Chile, até que a 1 de outubro a delegação da Bolívia inicia a viagem de comboio até Antofagasta, onde iria pernoitar antes de apanhar o barco para Valparaíso e dali novamente de comboio até Santiago. Foram três esgotantes dias de viagem para a estreante seleção, que assim que chegou à capital chilena recebeu inúmeras manifestações de carinho, quer por parte das autoridades do Chile, quer da própria imprensa local. Sem tempo para treinar ou para se ambientar ao clima da capital chilena, os bolivianos entraram em campo diante da seleção anfitriã no dia 12 de outubro de 1926, uma data histórica, já que este foi o PRIMEIRO JOGO DE SEMPRE do combinado nacional da Bolívia. No Campos de Sports de Ñuñoa – onde anos mais tarde seria edificado o atual Estádio Nacional de Santiago – La Verde seria goleada por 7-1, um resultado que mostrava a clara inexperiência do futebol boliviano nestas andanças internacionais. Ainda assim, a equipa mostrou coragem e algum atrevimento ofensivo, como atestam as crónicas de então, facto que mereceu aplausos do público chileno. Do lado da La Roja sul americana um homem sobressaiu não só neste encontro como no resto do campeonato: David Arellano. O avançado do recém-criado Colo Colo – clube fundado um ano antes – foi autor de quatro golos neste match de estreia, ele que haveria de ficar famoso mundialmente – sim, mundialmente – por alegadamente ter sido o inventor da chilena, a designação que na América do Sul se dá ao pontapé de bicicleta. E dizemos alegadamente porque ainda hoje há uma disputa entre brasileiros e chilenos sobre quem terá sido o criador deste famoso gesto técnico, se Arellano ou Leônidas da Silva. Os chilenos dizem que foi o primeiro, enquanto que os brasileiros juram a pés juntos que o foi o seu Diamante Negro.
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| Chile - Bolívia |
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| Chile - Uruguai |
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| Seleção chilena saúda o seu público no Campos de Sports de Ñuñoa |
Numa competição que continuava a ser disputada em forma de campeonato, em que o campeão seria a seleção que somasse mais pontos, a Argentina amealha mais uma vitória no encontro diante do Paraguai na sequência de uma goleada de 8-0, com destaque para o poker de Gabino Sosa. Diga-se de passagem, que na altura este foi o campeonato sul-americano que mais golos iria produzir: 55. Uma média de 5,5 golos nos 10 encontros realizados. Um dos jogos com menos golos foi precisamente o escaldante duelo entre argentinos e uruguaios, o grande clássico de então na América do Sul. 15.000 espectadores lotaram o Campos de Sports de Ñuñoa e presenciaram um jogo onde o Uruguai provou o porquê de ser a melhor seleção do planeta, vencendo por 2-0. No jogo seguinte Hector Scarone fez história não só na competição da CONMEBOL como da própria seleção uruguaia. Ao apontar cinco dos seis golos sem resposta com que o Uruguai bateu a Bolívia, Scarone tornou-se no primeiro jogador da competição a alcançar esta marca. Esta manita confere ainda a Scarone até aos dias de hoje o recorde de único jogador com maior número de golos num só jogo pela seleção uruguaia.
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| A entrada em campo da Argentina |
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| Arellano |
O Chile acabou este torneio no segundo lugar ex-áqueo com os argentinos após esmagar o Paraguai por 5-1, com destaque para os três golos da estrela David Arellano, um futebolista nascido em Santiago, em 1902, e que revolucionou o futebol no país no começo do século XX. Fundador, capitão e primeiro ídolo do Colo Colo, ele teria um final trágico um ano após a realização deste Campeonato Sul-Americano. Em 1927 a Federação de Futebol do Chile escolheu o Colo Colo para representar o país numa série de jogos particulares na Península Ibérica. Diz a história, que foi Arellano que no âmbito dessa digressão apresentou à Europa a famosa chilena, ou pontapé de bicicleta. Seria este gesto técnico em parte o responsável pela morte de David Arellano a 3 de maio daquele ano de 1927. Em Valladolid, o Colo Colo defrontou nessa tarde o Real Unión e ao tentar executar uma das suas famosas chilenas, Arellano caiu ao mesmo tempo que o seu marcador direto nesse lance, o espanhol Hornia, o qual caiu em simultâneo com o joelho em cima do peito do avançado chileno. A pancada provocou um abscesso intra-abdominal, levando à morte de um jogador que estava no auge da sua carreira. Voltando à Copa América de 26 para dizer que Arellano foi o melhor marcador do torneio, com sete remates certeiros. Esta edição do torneio marcou ainda o início da longa travessia da ausência do Brasil da competição. Conflitos entre várias federações estaduais, sobretudo entre as do Rio de Janeiro e de São Paulo, deram origem a que os brasileiros não só não marcassem presença nesta edição como nos restantes torneios da década de 20 e boa parte da década de 30. O Brasil só voltaria a disputar um Campeonato Sul Americano em 1937.
Nomes e números:
12 de outubro de 1926
Chile – Bolívia: 7-1
(Arellano, 15’, 41’, 80’, 84’; Ramirez, 10’; Subiabre, 14’, Moreno, 47’)
(Aguilar,
62’)
16 de
outubro de 1926
Argentina
– Bolívia: 5-0
(Cherro,
9’ e 19’; Sosa, 31’; Delgado, 43’; De Miguel, 74’)
17 de
outubro de 1926
Uruguai –
Chile: 3-1
(Borjas,
22’; Castro, 32’; Scarone, 55’)
(Subiabre,
65’)
20 de outubro
de 1926
Argentina
– Paraguai: 8-0
(Sosa, 11’,
32’, 59’, 87’; Delgado, 40’, 42’; Cherro, 16’; De Miguel, 52’)
23 de
outubro de 1926
Paraguai –
Bolívia: 6-1
(Ceferino
Ramirez, 68’, 72’, 88’; Julio Ramirez, 76’; López, 57’, 81’)
(Soto, 15’)
24 de
outubro de 1926
Uruguai –
Argentina: 2-0
(Borjas,
22’; Castro, 73’)
28 de
outubro de 1926
Uruguai –
Bolívia: 6-0
(Scarone,
9’, 12’, 28’, 39’, 81’; Romano, 67’)
31 de
outubro de 1926
Chile –
Argentina: 1-1
(Saavedra,
25’)
(Tarasconi,
42’)
1 de
novembro de 1926
Uruguai –
Paraguai: 6-1
(Castro,
16’, 23’, 32’, 72’; Saldombide, 47’, 82’)
(Fretes,
41’)
3 de
novembro de 1926
Chile –
Paraguai: 5-1
(Arellano,
21’, 64’, 71’; Ramirez, 42’, 82’)
(Peña, 40’)
Classificação:
1.º
Uruguai: 8 pts.
2.º
Argentina: 5 pts.
3.º
Chile: 5 pts.
4.º
Paraguai: 2 pts.
5.º
Bolívia: 0 pts.
sexta-feira, agosto 21, 2026
Museus REAIS do Futebol - Sala de Troféus Edmur (Vitória Sport Clube)
A Sala de Troféus Edmur é o espaço museológico oficial do Vitória Sport Clube, localizada no interior do Estádio D. Afonso Henriques, em Guimarães, tendo sido oficialmente inaugurada em finais de 2007. Assim foi batizada em homenagem a uma das maiores lendas da história do emblema minhoto: Edmur Pinto Ribeiro. Ele foi um lendário avançado brasileiro que jogou no Vitória entre as décadas de 50 e 60. Edmur tornou-se uma figura imortal da história do clube por ser o primeiro jogador do Vitória a vencer a prestigiada Bola de Prata. Ademais, ele foi de igual modo o primeiro jogador estrangeiro a vencer o afamado troféu que premeia o melhor marcador do principal campeonato português. É Edmur que nos dá as boas vindas no início desta viagem para história vitoriana, como podemos ver nas duas fotografias de cima.






















































