1940: Farense conquista título frente ao
Boavista em final manchada por confrontos violentos
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| Os Leões de Faro em 1940 |
Os
primeiros anos de vida da 2.ª Divisão assumiram-se como uma verdadeira luta
entre o norte e o sul pelo título de campeão. Mais do que o título entrava em
campo a honra regional. Talvez por isso as finais do segundo escalão causavam
verdadeiros fenómenos de mobilização popular dentro do país. Numa época em que
viajar pelo país era difícil e dispendioso, organizavam-se "comboios
especiais" e caravanas de camionetas carregadas de adeptos que
atravessavam Portugal para apoiar as suas cores, transformando as bancadas num
campo de batalha regional. Cenário este que se verificou na final da temporada
de 39/40, em que a rivalidade da vizinhança porta com porta foi posta de lado
em prol da defesa de uma cidade, neste caso a cidade do Porto. Tudo porque quer
o FC Porto, quer o Boavista desceram, em simultâneo, à capital para lutarem
pelo trono do futebol nacional da referida época. De forma mais precisa, os
portistas pelo título de campeão nacional da 1.ª divisão e os boavisteiros pelo
cetro nacional da 2.ª Divisão. Nesse sentido, os dois vizinhos da Cidade Invicta deram as mãos e
organizaram um grande comboio especial conjunto para os seus adeptos se
deslocarem até Lisboa para assistirem aos respetivos encontros: o FC Porto
diante do Benfica (nas Amoreiras) e o Boavista ante o Farense (na Tapadinha).
Os dois clubes portuenses haveriam de registar os mesmos resultados no rescaldo
desta viagem decisiva à capital: 3-2. Porém, foi um score
com sabores distintos: os azuis e brancos sagraram-se campeões nacionais, ao
passo que os axadrezados deixaram fugir o título secundário para os Leões de Faro. Farense que para chegar à
final havia vencido na 1.ª fase da competição a Série Algarve, com 9 pontos,
eliminando na 2.ª fase os conjuntos do Luso de Beja (4-0) e do Casa Pia (também
por 4-0). A grande estrela dos algarvios era, quiçá, o seu treinador, o
lendário Joseph Szabo. 
Nessa temporada de 39/40, o mestre da tática magiar orientou o Sporting, clube pelo qual
conquistou o Campeonato de Lisboa, mas já no final da época aceitou o repto dos
algarvios para orientar os Leões de
Faro durante algumas semanas. Uma pequena incursão que haveria de ter contornos
vitoriosos, já que na Tapadinha o Farense levou a melhor sobre o Boavista e
conquistou o título da 2.ª Divisão. A final de 1940 foi envolta em polémica,
muito por culpa do reputado (?) árbitro Carlos Canuto, que nas palavras do
jornalista do Diário de Lisboa (DL) que assistiu ao encontro teve uma atuação «detestável». O juiz deixou passar em
claro faltas muito feias: «choques de brutalidade, pontapés selvagens,
agressões puras. O árbitro limitou-se a dar conselhos, a contemporizar.  |
Julinho, com as cores do Boavista |
Fê-lo,
nalgumas ocasiões, empurrando os jogadores, o que é contra as regras»,
descreveu o DL. Se já estava muito quente, o ambiente escaldou a meio da 2.ª
parte, quando Laguna (do Boavista) e Gomes (do Farense) foram expulsos, uma
decisão que provocou o caos total em campo. Quanto ao pouco futebol que se viu
na Tapadinha, o Farense dispôs das melhores ocasiões para marcar nos minutos
iniciais e numa delas Nunes abre o ativo. Quiçá contagiado pelo ambiente de
cortar à faca que se fazia sentir dentro das quatro linhas, o guardião
boavisteiro Pesqueira falha a interceção a um cruzamento vindo da direita do
ataque farense para permitir que Nunes, de cabeça, bisasse. Já na 2.ª parte, o
mesmo Pesqueira tem uma saída precipitada que seria aproveitada por Palmeira
para elevar o marcador para 3-0. De nada valeriam os golos de Pina e Julinho –
que depois de uma passagem pelo Académico do Porto haveria de ser estrela no
Benfica durante 10 anos – para os nortenhos, já que o Farense segurou a vitória
e dessa forma colocou as mãos no título. O Boavista ainda chegou a protestar o
jogo, mas em vão, pois, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) confirmaria o
Farense campeão. E campeões nessa tarde de 19 de maio de 1940 foram os
seguintes jogadores: Ascensão, Domingos, Castela, Américo, Marti, Gomes,
Catarino, Gralho, Palmeiro, Vilanova e Nunes. A grande
festa aconteceu em Faro, no mês de julho, onde a comitiva farense foi recebida no
Cine-Teatro Farense e das mãos do presidente do Comité Olímpico Português, José
Pontes, recebeu a Taça "O Século".
1941: Olhanense
alcança tricampeonato e abre caminho para uma Era Dourada na 1.ª Divisão
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O Olhanense alcançou em 1941 o terceiro título nacional da 2.ª Divisão |
A década
de 40 é por muitos rotulada de “dourada” quando se olha para a história do
Olhanense. O clube algarvio disputa de forma ininterrupta até 50/51 a 1.ª
Divisão Nacional com classificações dignas de registo, além de que vê vários
futebolistas seus serem chamados às seleções nacionais, casos de Cabrita,
Grazina e Salvador. E para chegar ao patamar mais alto do futebol luso o
Olhanense saboreou pela terceira vez na sua história o sucesso no escalão
secundário. Estávamos na temporada de 1940/41, quando os de Olhão atingem a final da 2.ª Divisão
após terem vencido na 1.ª fase da competição a Série Algarve e posteriormente terem eliminado, na fase seguinte, o Juventude de Évora (4-0) e o Seixal (2-1). Treinados
pelo húngaro Desiderio Hertzka, os olhanenses viajaram até Lisboa, onde a 22 de
junho de 1941 mediram forças com o Leça. O cenário para este duelo foi o mítico
Campo das Salésias, que nos 5 minutos iniciais presenciou um maior atrevimento
dos leceiros. Depois disto, o Olhanense recompôs-se e com um futebol mais
preciso passou à ofensiva. A partir da meia hora de jogo o equilíbrio passava a
ser nota dominante e por esta altura o denominador comum era a boa exibição que
os dois guarda-redes iam fazendo face às investidas contrárias. Contudo, na
reta final da 1.ª parte o nó do equilíbrio é desatado pelos matosinhenses, que
criam inúmeras ocasiões para marcar, mas sem sucesso. Faltavam os golos àquele
que era então um bom jogo de futebol. E eles apareceram nos segundos 45 minutos
e em dose farta para gáudio do numeroso público que acorreu às Salésias. Contra a
corrente do jogo surgiu o golo leceiro: após uma fuga pelo flanco direito,
Godinho bateu José Abraão. O tento não desarmou os algarvios, pelo contrário.
Os remates em direção à baliza do leceiro Alfredo Dias “Jaguaré” sucediam-se,
mas só aos 70 minutos o Olhanense marcou: Acácio António remata para uma defesa
incompleta do guardião do Leça e na recarga Santos faz o empate. Embalado pelo
golo, dois minutos volvidos o Olhanense chega à vantagem por intermédio de Joaquim
Gomes. E aos 78 minutos João Baptista amplia a vantagem algarvia para 3-1. Só a
partir daqui o Leça esboçou uma reação, dando trabalho ao keeper algarvio. Mas seria contra a corrente do jogo, que a cinco
minutos dos 90 o Olhanense colocou um ponto final nas aspirações leceiras ao
fazer o 4-1 final, por intermédio de Santos. Em jeito de balanço da final, o DL
escrevia que «a vitória da equipa do sul
teve incontestável merecimento e plena justificação. Com efeito, os seus
jogadores evidenciaram melhor sentido de jogo, trabalhando a bola com mais arte
que o seu adversário. No entanto, foi boa a réplica dos leceiros». José
Abraão, José Ramos, César Murta, José Joaquim, Grazina, Calé, Jerónimo Lima,
Santos, Acácio António, João Baptista e Joaquim Gomes foram os onze heróis que
nas Salésias deram ao Olhanense o seu terceiro título de campeão da 2.ª
Divisão.
1942: Nascido para vencer, o Estoril Praia
sagra-se campeão nacional aos dois anos de idade
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| Estorilistas e leixonenses medem forças na final |
Com apenas
três anos de vida o Estoril Praia conquistou o primeiro de quatro títulos
nacionais da 2.ª Divisão que reluzem nas suas vitrinas. Com apenas três anos o
clube em si, pois a secção de futebol do emblema da Linha só seria criada em
1940 e desde logo com resultados – e títulos – dignos de registo. É caso para
dizer que foi chegar, ver e vencer, assim se pode olhar para a estreia dos
estorilistas no campeonato da 2.ª Divisão Nacional em 41/42. Integrado numa das 15 séries/grupos que figuraram na 1.ª fase da competição, o Estoril
começou por levar a melhor sobre as reservas do Sporting, do Belenenses, do
Carcavelinhos, e equipas principais do Casa Pia e do Futebol Benfica, avançando
assim para a fase a eliminar da prova. Aí, deixaram pelo caminho o União de
Tomar (5-0), o Vitória de Setúbal (3-0) e a equipa de reservas do Benfica –
sim, a partir desta temporada algumas equipas de reservas de clubes da 1.ª
Divisão competiram no segundo escalão. No seu grupo, o Estoril tinha alguns
nomes de peso, desde logo o possante avançado jugoslavo Franjo Petrak, que
antes de rumar para Cascais apontou 76 golos em duas temporadas ao serviço do
FC Porto. O último obstáculo dos canarinhos para chegar ao título foi o
Leixões, clube que se deslocou a Lisboa para no dia 7 de junho de 1942 tentar
levar o caneco para o norte. As Salésias voltaram a ser o palco escolhido pela
FPF para a disputa de um título que teve dois atos. Isto é, duas finais. Na
primeira delas, o DL relatou que «ao fim
de 120 minutos de jogo ardorosamente disputado, nenhum dos contendores se podia
orgulhar de ter conquistado o almejado título, pois cada um deles contava com
quatro bolas no seu ativo». É verdade, o muito e fervoroso público presente
nas bancadas teve o privilégio de assistir a uma chuva de oito golos – quatro
para cada lado – que obrigou à disputa de uma finalíssima apenas dois dias
depois (!), onde a equipa da Linha venceu por 3-1.
1943: Com seis golos de Cardoso Pereira,
Barreirense vence a final e garante o primeiro título da divisão onde é rei
absoluto
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Em 1943 nascia o rei da 2.ª Divisão: o Barreirense |
Olhando
para a história da 2.ª Divisão há um clube que se destaca no que ao palmarés
diz respeito: o Barreirense. Com sete títulos no seu currículo, o clube da
Margem Sul deu início a este legado de vitórias na temporada de 42/43, em que foi
dado o primeiro passo de uma caminhada mítica que eternizou os alvi-rubros como
os verdadeiros reis da prova. Após vencer uma das 20 (!) séries da 1.ª fase da
competição, o Barreirense começou por deixar pelo caminho na fase a eliminar o
campeão em título Estoril (3-2 e 1-1), seguindo-se o Atlético (4-0), o Vitória de Setúbal
(3-2) e o Lusitano de Vila Real de Santo António (7-2), alcançando assim a
final onde a 23 de maio de 1943 mediu forças com a Sanjoanense. Lisboa foi mais
uma vez a cidade escolhida para uma final onde o Barreirense esmagou o seu
oponente por 6-1. O DL escrevia que o jogo «tem
descrição fácil e quase se limita à história dos golos. Não foi uma final de
emoção nem o público se esgatanhou para conhecer o vencedor». A Sanjoanense
foi descrita como uma equipa algo ingénua e que não esteve à altura do seu
adversário, mas que ainda assim deu indícios de no futuro poder atingir posições
superiores no futebol português. Mas mesmo com essa ingenuidade, os rapazes de
São João da Madeira entraram com vontade de contrariar a supremacia dos
sulistas. Em vão o fizeram, pois Cardoso Pereira cedo tratou de mostrar que o
Barreirense queria levar para casa a taça ao apontar um magnífico golo. De nada
valeu o empate da Sanjoanense logo a seguir, já que a equipa do centro do país
pouco ou nada fazia para sacudir a pressão barreirense. Ainda assim, o
intervalo chegou com o empate no marcador. Na segunda parte os golos deram
expressão à supremacia barreirense, clube cujo domínio nestes segundos 45
minutos foi ainda mais intenso. «A Sanjoanense
mesmo sem se render completamente foi sempre menos “team” e, portanto,
impotente para evitar o pesado resultado que ao fim se verificou, mas lutou com
ânimo, e deu nota simpatiquíssima de desportivismo que não é vulgar nos tempos
que vão correndo», analisava o jornalista do DL que assistiu ao jogo.  |
| Cardoso Pereira |
No
entanto, um homem houve que chamou a si todo o protagonismo desta final:
Cardoso Pereira. O avançado do Barreirense viveu, quiçá, o seu momento de
glória numa carreira trilhada entre o Barreiro e Setúbal – defendeu as cores do
Vitória ao longo de sete temporadas – ao apontar os seis golos do Barreirense
nesta final! Seis que podiam ter sido oito, não fosse o árbitro Abel Ferreira
ter invalidado dois tentos do avançado por alegado fora de jogo. Manuel
Batista, Pascoal, Ricardo, João Limas, Moreira, Gervásio, Raimundo, Arsénio,
Maximino, Guedes e Cardoso Pereira foram os heróis barreirenses deste primeiro
título secundário. De referir que deste grupo de campeões, um houve que não
muito tempo depois se destacou com as cores do Benfica, Arsénio Duarte, o seu
nome. Jogador talentoso com dotes de goleador, Arsénio brilhou ao serviço do
Benfica ao longo de 12 épocas (43-55). Chegou a Lisboa ainda jovem, com apenas
17 anos, mas logo o rapazinho franzino, mas extremamente veloz, deu nas vistas,
sendo que em 224 jogos pelos encarnados apontou 152 golos.
1944: Estorilistas bi-campeões numa época quase
perfeita
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Além do título da 2.ª Divisão, o Estoril chegou à final da Taça de Portugal |
O ainda muito jovem Estoril Praia teve uma temporada (43/44) quase perfeita. Ou
melhor, podemos dizer que foi perfeita, pois não é todos os dias que uma equipa
então a militar na 2.ª Divisão chega à final da Taça de Portugal, como
aconteceu aos estorilistas na citada época. No Jamor, o poderio do Benfica
falou mais alto: vitória por 8-0. Mas esta derrota na Prova Rainha do futebol
luso não tirou o brilho da caminhada dos canarinhos nesse ano. Pelo contrário,
só acrescentou valor, e foi como que um prémio à conquista do título nacional
da 2.ª Divisão. Pela frente os rapazes da Linha tiveram o Vila Real, emblema
que no Lumiar – palco da final – entrou forte e determinado, mas foi o Estoril
que na segunda parte conseguiu ascendente sobre o adversário e conseguiu vencer
por 3-2 e assim sagrar-se pela segunda vez na história campeão nacional da 2.ª
Divisão.
1945: Como o Atlético honrou o legado do
“progenitor” Carcavelinhos
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O "filho" (Atlético) honrou o legado do "pai" (Carcavelinhos) |
O
Atlético Clube de Portugal nasceu a 18 de setembro de 1942 através da fusão
entre o Carcavelinhos Football Club e o União Foot-Ball Lisboa, ambos clubes da
zona de Alcântara, em Lisboa. Ao herdar a identidade destes dois clubes, sobretudo
do Carcavelinhos, laureado emblema lisboeta dos anos 20 e 30, o Atlético
manteve-se profundamente ligado ao bairro de Alcântara, assumindo-se desde cedo
como um histórico do futebol português. E cedo porque em 44/45 o emblema da
Tapadinha – que já era a casa histórica do Carcavelinhos – saboreou pela
primeira a conquista de um título nacional sob a nova designação. Dizer que o
campeonato nacional da 2.ª Divisão atraía por esta alturas largas dezenas de
participantes, que numa fórmula algo confusa começam por disputar numa 1.ª fase
mini-campeonatos provinciais, com apuramentos posteriores por eliminatórias até
à final. O Estádio do Lumiar voltou a acolher a final do escalão secundário,
desta feita protagonizada pelo jovem Atlético e pela CUF do Barreiro. A 1.ª
parte pertenceu ao clube de Alcântara, que com uma postura atacante esclarecida
e uma linha média que sabia ocupar com arte o seu lugar, chegou ao intervalo a
vencer com todo o mérito por 2-0. Na revista Stadium, Tavares da Silva escrevia que «na verdade o Atlético mostrou-se superior logo no primeiro pontapé e
isso tirou-nos a emoção a que nos achávamos com direito. Mas ninguém tem culpa
de que o desafio tenha decorrido desta forma. Em tudo o Atlético foi superior:
na coesão da defesa, na compenetração e inteligência da linha medular, na arte
e no comando da célula avançada». Marques e Catinana foram os autores dos
tentos dos lisboetas. Na segunda parte a CUF apareceu em campo mais espevitada
e acima de tudo mais ameaçadora. Neste ponto, destaque para Arnaldo Carneiro,
que em três ocasiões obrigou o guardião Paiva a arregaçar as mangas para
trabalhar. «A CUF, conjunto de jogadores
experientes e homens que não passam hoje de promessas não pôde resistir nem
suportar a melhor organização do Atlético. Lutou, reagiu, defendeu-se e atacou,
por vezes, mas dando sempre a sensação de team com muitas deficiências…»,
assim analisava Tavares da Silva a equipa do Barreiro. Refira-se em nota de
rodapé que no “team” cufista que esteve nesta final se encontravam dois jovens talentos
que anos mais tarde iriam fazer parte do mais famoso quinteto do futebol
português: Os Cinco Violinos. Eram eles José Travassos (tinha 19 anos) e
Vasques (então com 18 anos). O resultado da final de 1945 não se alterou e o
Atlético dava assim seguimento à glória conquistada pelo seu “progenitor”
Carcavelinhos nas décadas de 20 e de 30. Paiva, Carlos Baptista, Ventura, José
Lopes, Gregório, José Lopes, Micael, Rosário, Catinana, Armindo e Marques foram
os heróis de Alcântara naquela tarde de 1 de abril de 1945.
1946: Soberano nos anos 40, o Estoril dominou a
2.ª Divisão numa época em que o figurino voltou a mudar
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No espaço de quatro anos o Estoril venceu o título em três ocasiões |
A FPF
promoveu uma verdadeira revolução no figurino da 2.ª Divisão a partir da
temporada de 45/46. Eram cada vez mais os clubes participantes, de norte a sul
do país. A 1.ª fase manteve-se igual a edições anteriores, ou seja, os clubes
eram distribuídos por áreas geográficas, competindo numa espécie de
mini-campeonatos, sendo que os vencedores se apuravam para a fase a eliminar, a
tal 2.ª fase. Tudo igual neste aspeto. A novidade é que os quatro vencedores
dos quartos-de-final ao invés de competirem entre num sistema de meias-finais e
final, enfrentaram um mini-campeonato a duas voltas, sendo o campeão a equipa
que tivesse somado mais pontos. E aqui o Estoril pela terceira vez no curto
espaço de quatro anos (!) sagra-se campeão nacional. Os rapazes da Linha
começaram por vencer a Série 9 da 1ª fase, com 19 pontos, sendo que na fase a
eliminar afastaram o Casa Pia (4-1) e o Onze Unidos (3-1). Na 3.ª fase, o tal
mini-campeonato final, superaram a concorrência do Famalicão, União de Coimbra
e do Portimonense. A caminhada rumo ao título teve início em Famalicão, onde o
Estoril não foi além de um empate a uma bola diante dos locais. A equipa de
Cascais abriu o ativo logo aos 3 minutos, por intermédio de Raul Silva que de
recarga bateu o guarda-redes da casa. Álvaro Pereira, na sequência de um canto
apontado por Sampaio, restabeleceu uma igualdade que o Estoril segurou até
final muito graças à brilhante atuação do seu guarda-redes Valongo. Seguiu-se o
jogo na Amoreira diante do União de Coimbra, que levou para casa uma derrota
por 4-1 – os golos do Estoril foram apontados por Silva, Lourenço, Mota e Eloi.
Na 3.ª jornada os estorilistas receberam e dominaram em toda a linha o
Portimonense ao longo da 1.ª parte, domínio esse que foi expresso em quatro
golos – Lourenço apontou três deles, sendo que o outro foi da autoria de Vieira.
Na segunda metade o Estoril continuou a carregar e obteve mais três tentos que
selaram o resultado num expressivo 7-2 a seu favor. Na ronda seguinte foi a vez
do Famalicão ser despachado por 4-1, numa partida em que os canarinhos foram
dominadores na 1.ª parte, alcançando neste período três golos por intermédio de
Silva (2) e Lourenço. A segunda metade foi mais equilibrada e acima de tudo
mais bem disputada, tendo os nortenhos ainda reduzido a diferença por
intermédio de Pereira, aos 60 minutos, mas cinco minutos volvidos Silva
completa o hattrick e acaba com as
esperanças famalicenses. Em Coimbra aconteceu uma nova vitória, esta mais
curta, por 2-1, mas o suficiente para garantir matematicamente o título de
campeão da 2.ª Divisão. No Campo da Arregaça, o Estoril entrou melhor, apresentando
uma técnica mais apurada que o União. Porém, seriam os locais que pregavam mais
sustos a Valongo, o guardião da Linha, mas ainda assim o marcador não funcionou
antes do intervalo. Os golos só surgiram na 2.ª parte, o primeiro aos 56
minutos e para o Estoril, por intermédio de Mota. Tento que animou os sulistas,
que à passagem dos 75 minutos ampliam a vantagem pelo pé de Lourenço. O União
não deitou a toalha ao chão e pouco depois reduz por meio de Velha, um esforço
insuficiente para evitar a derrota. O Estoril carimbava assim o seu terceiro
nacional secundário, de nada valendo o único percalço desta caminhada, o qual aconteceu
em Portimão, onde foi derrotado por 4-3. O DL escrevia que o Portimonense
exerceu «maior domínio durante todo o
jogo», e que assim justificou o triunfo. Vieira (em duas ocasiões) e Mota
marcaram os tentos estorilistas. No somatório dos seis jogos da poule de
apuramento de campeão o Estoril somou 9 pontos.
1947: O título do SC Braga marcado por
acusações de suborno
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| O Sporting de Braga campeão |
Na
temporada de 1946/47 e após oito anos de andanças pelo sul do país eis que o
troféu de campeão nacional da 2.ª Divisão volta a viajar para o norte. Mais
precisamente para Braga, através do Sporting local, que inicia a Série 4 da 1.ª
fase da competição de forma demolidora e logo com um recorde: uma vitória por
14-0 sobre o Infesta, com sete dos golos a serem apontados por Nelo, ou Nelito
Barros, como este popular avançado nascido em Fafe era conhecido no Minho. O
grande rival dos bracarenses nesta 1.ª fase foi o Académico do Porto, que ao
ser derrotado (3-6) pelos minhotos na penúltima jornada desta fase entrega o
1.º lugar da série aos arsenalistas, que não desperdiçaram a oferta e na última
jornada ao baterem o Candal por 2-0 asseguraram o título de campeão de série,
avançando assim para a fase a eliminar. Aqui, começou por eliminar o Fafe
(2-0), ao que se seguiu o Vila Real (4-3) e assim estava o Braga qualificado
para a 3.ª e decisiva fase de apuramento de campeão. Os bracarenses entraram na
fase final em falso, ao serem derrotados (0-1) pela Oliveirense. Porém, até
final da primeira volta corrigiram este mau arranque com duas vitórias sobre o
Lusitano de Vila Real de Santo António e sobre o Onze Unidos (do Montijo),
respetivamente por 2-0 e 5-1. Com esta performance o Braga ocupava a par da
Oliveirense o 1.º lugar da poule ao fim de três jornadas e ficou isolado quando
obteve na ronda inaugural da segunda volta uma concludente vitória (2-0) sobre
o conjunto de Oliveira de Azeméis. Porém, o título não foi confirmado na
jornada seguinte, tudo porque no Algarve o Lusitano venceu os arsenalistas por
1-0 e ficou tudo adiado para a derradeira ronda. E aqui assistiu-se a um alegado triste jogo de bastidores que envergonhou o futebol luso. Lançou-se a suspeita de que
o Braga havia aliciado com dinheiro quatro jogadores do Onze Unidos para que
estes facilitassem o triunfo dos nortenhos, que mantinham a liderança da poule ex-aequeo com a Oliveirense,
beneficiando do goal-average para ser campeão em caso de igualdade pontual no
final do campeonato.  |
Em Braga houve festa rija na receção aos campeões da 2.ª Divisão de 1947 |
Desta forma a FPF suspendeu o jogo do Montijo para
averiguar esta alegada proposta de suborno do dirigente bracarense José Antunes
Guimarães. O organismo federativo colocou o dirigente frente a frente com os
quatro jogadores do Onze Unidos para ver quem falava a verdade. O presidente do
Sporting de Braga negou qualquer tipo de tentativa de suborno, ao passo que os
quatro atletas do emblema do Montijo contradiziam-se, sendo que o guarda-redes
Braço Forte dizia ter-se reunido com o dirigente do Braga, ao passo que os
restantes afirmavam nunca se terem encontrado com José Antunes Guimarães. Após
analisados os factos/depoimentos, a FPF não conseguiu reunir indícios concretos
de que tinha havido tentativa de suborno, pelo que decide ilibar o Braga, que
desta forma estava “livre” para disputar o jogo decisivo do campeonato. O jogo
do Montijo foi disputado sob um clima de suspeição, como seria de esperar, mas
nada que impedisse o Braga de somar uma nova vitória (2-0), com golos de Mário e
Cassiano Brandão, e assim festejar o primeiro título nacional da sua história. A
equipa foi recebida em euforia na Cidade dos Arcebispos, e o título foi
amplamente festejado um pouco por todo o Minho, como comprova o facto de o
Ateneu Comercial de Famalicão ter hasteado no seu edifício a bandeira do
Sporting de Braga e de dirigentes do Vitória de Guimarães se terem deslocado à
capital do Minho para participar na sessão solene de homenagem aos campeões
nacionais da 2.ª Divisão.
1948 e 1949: Covilhã e Académica levam pela
primeira vez o título para o centro do país em dois anos seguidos

Em 47/48
a FPF impôs novas mudanças ao figurino da prova ao eliminar os jogos por
eliminatória, passe a redundância. Ou seja, existiu uma 1.ª fase constituída por quatro séries de
oito clubes cada uma delas, sendo que os dois primeiros classificados de cada
uma delas avançavam para uma 2.ª fase que foi constituída por duas séries (uma
no norte e outra no sul), cujos dois primeiros classificados avançavam para a
3.ª e última fase. Confuso, no mínimo, mas assim era o futebol português de
então sob o ponto de vista organizativo/logístico. Vencedor da Série B da 1.ª
fase – com 26 pontos – e do Grupo Norte da 2.ª fase – com 8 pontos – o Sporting
da Covilhã ganhou o direito de disputar a poule de apuramento de campeão com o
Barreirense, a CUF e o Famalicão. Janos Szabo, acumulava as funções treinador-jogador
nos Leões da Serra, que chegaram ao título pela diferença entre golos marcados
e sofridos, ou seja, terminaram com os mesmos pontos (8) que o Barreirense, mas
levaram a melhor no goal-average.
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| A Briosa rainha da Segunda em 1949 |
Este foi
o primeiro de dois títulos consecutivos da 2.ª Divisão que viajaram para o
centro do país, já que na temporada seguinte foi a vez da Académica festejar
aquele que por aquela altura era o seu segundo cetro mais pomposo a seguir à
Taça de Portugal arrecadada pelos estudantes em 1939. Após vencer a Série B da
1.ª fase, a Briosa levou a melhor
sobre Oliveirense, Académico de Viseu e Famalicão no Grupo Norte da 2.ª fase,
garantindo assim o passaporte para a final da 2.ª Divisão. É verdade, voltávamos
a ter uma final para decidir o campeão, mas assim o foi não pelos melhores
motivos. Ou seja, após a 5.ª jornada da poule final – que além da Académica
tinha ainda o Famalicão, o Portimonense e o Oriental – os estudantes e os lisboetas
ocupavam o primeiro lugar, com 6 pontos, sendo que na última e decisiva jornada
os de Coimbra deveriam deslocar-se ao terreno dos orientalistas. Acontece que
mais uma vez a vergonha voltou a bater à porta do futebol luso, já que ao que
parece os jogadores do Famalicão haviam sido subornados para perder o jogo com
o Oriental na 5.ª jornada, derrota essa que se consumou: 2-1. O então Ministro
da Educação, Pires de Lima, decide suspender famalicenses e orientalistas da
competição, dando ainda ordem para que fossem anulados todos os jogos até ali
disputados da poule da 3.ª fase e que o campeão nacional fosse encontrado após
a realização de um jogo único entre a Académica e o Portimonense. Assim foi. 
Lisboa
e o Estádio do Lumiar foram o cenário escolhido para acolher esta final de
última hora, sendo que à capital desceu – no dia 5 de junho de 1949 – uma gigantesca
macha negra para apoiar a Briosa. Disso deu nota o DL: «A imagem mais sedutora da
final do Nacional da 2.ª Divisão foi-nos fornecida não pelos jogadores, mas sim
pelos componentes da unida e irrequieta falange de apoio da Académica. O público
de Lisboa não arredou pé, com as atenções presas nesse curioso espetáculo
suplementar de uma longa reunião futebolística que não havia primado pela
qualidade. Constituiu uma alegre e colorida mancha no declinar de uma tarde
sufocante, imprópria para a prática do futebol. Representou uma extraordinária
manifestação de fé e amor clubista». Olhando para o que se passou dentro das
quatro linhas, cedo a Briosa se adiantou no marcador na sequência de um golo de
Pacheco Nobre, quando estavam decorridos apenas dois minutos. Apesar de
dominado em todos os capítulos do jogo, o Portimonense ainda conseguiu chegar à
igualdade aos 18 minutos, mas a Académica, que nas palavras do DL «adotou
sempre toada franca de ataque», chegaria de novo à vantagem, já na segunda
metade, por intermédio do jogador-treinador Alberto Gomes.  |
Euforia nas ruas de Coimbra na receção aos campeões nacionais |
Foi uma vitória – 2-1
– inquestionável «da equipa que revelou superioridade em todos os aspetos e
tudo fez para se tornar digna dela (dessa vitória», assim analisou o DL, que
descreveu o finalista vencido como uma equipa que correu e batalhou muito, mas
«jogou pouquíssimo». Dizer que em 48/49 a Académica teve uma curta passagem
pela 2.ª Divisão, onde havia caído na temporada transata, regressando assim ao
escalão maior com o título de campeão nacional secundário no bolso. No final
do encontro, a festa entre o relvado e as bancadas foi uma só, como relatou A
Bola, ao descrever que o relvado do Lumiar foi rapidamente invadido por uma
nuvem de estudantes com as suas capas negras a esvoaçar ao vento. As
festividades continuaram no dia seguinte, quando a equipa chegou a Coimbra, onde
a euforia foi ainda maior. Os campeões nacionais foram recebidos no Largo da
Portagem por uma multidão em delírio, seguindo-se depois um cortejo pelas ruas
da cidade – repletas de povo – até à sede da Associação Académica onde os
campeões foram homenageados por entre salvas de foguetes.