quinta-feira, julho 30, 2026

Histórias do Futebol em Portugal (51)...


Prestes a dar-se início à Era Jorge Jesus no comando da seleção nacional de Portugal, é oportuno olhar para trás e recordar os antecessores daquele que será o 33.º Mestre da Tática da Equipa de Todos Nós, como um dia foi batizado o combinado nacional pelo célebre jornalista Ricardo Ornelas. Uns mais conhecidos, outros menos, uns mais vitoriosos, outros nem por isso, mas todos com a honra comum de terem conduzido o nome de Portugal pelos relvados desse Mundo fora, fosse em jogos de caráter particular fosse em grandes competições planetárias. Vamos, pois, recordá-los, em breves registos biográficos individuais.


FERNANDO SANTOS (103 JOGOS): Nos mais de 700 jogos que a Equipa das Quinas disputou até ao dia de hoje, só um treinador se sentou no banco em mais de 100 ocasiões. E olhando para o prisma do sucesso, essa figura é provavelmente o treinador que mais contribuiu para o palmarés internacional – no patamar sénior, claro está – da seleção nacional, a qual conta nas suas vitrinas com um Campeonato da Europa e duas Ligas das Nações da UEFA. Falamos de Fernando Santos, o homem que em setembro de 2014 assumiu o cargo mais desejado do futebol português e que seria responsável nos oito anos seguintes por duas das maiores conquistas do futebol luso além-fronteiras. Fernando Manuel Fernandes da Costa Santos nasceu em Lisboa a 10 de outubro de 1954. A sua ligação ao futebol começou com apenas 40 dias de idade (!), quando deitado numa alcofa foi levado pela mãe à inauguração do Estádio da Luz. Após percorrer alguns clubes de bairro da capital portuguesa, chegou aos juvenis do Benfica com 17 anos, precisamente numa altura em que acabara de entrar na universidade para cursar Engenharia Eletrónica e Telecomunicações. Da boca do bi-campeão europeu (pelo Benfica) Ângelo Martins recebeu o convite para ficar na Luz com a promessa de receber 1000 escudos por mês. Fernando, correu a dar a notícia ao pai que de pronto lhe ordenou que fosse mas é estudar. Lá chegou a um consenso com o seu progenitor, de que se chumbasse um ano que fosse na universidade deixava o futebol. Não chumbou e não deixaria o futebol, onde ao longo de 14 anos esteve na primeira linha da defesa do Estoril Praia, o clube onde desenvolveu a maior parte da sua modesta carreira de futebolista. Na Amoreira, conciliou a atividade de jogador com o cargo de diretor e chefe de manutenção no Hotel Palácio, precisamente localizado no Estoril. No clube da Linha fez a transição de atleta para treinador, tendo iniciado uma brilhante carreira de técnico em 1987. Nos sete anos seguintes levou o Estoril ao topo do futebol português, isto é, à 1.ª Divisão, onde se manteve até 1994 a praticar bom futebol com poucos recursos. O Estrela da Amadora viu nele a figura capaz para cimentar a sua presença no escalão maior de Portugal, e durante quatro temporadas manteve sem sobressaltos o clube da Reboleira lá em cima e sempre… em crescendo de qualidade exibicional. Próximo do virar de século o então presidente do FC Porto, Pinto da Costa, viu nele o homem certo para conduzir o clube a algo então inédito, a algo que ainda hoje só foi alcançado pelo clube da Cidade Invicta na história do futebol lusitano: o pentacampeonato. Nas Antas, Fernando Santos confirmou a sua vocação de ser um especialista na formação de equipas com aura vencedora. Dessa forma conduziu os portistas à vitória no campeonato nacional, o quinto consecutivo, o penta, de tal modo que ainda hoje é conhecido nos meandros futebolísticos como o Engenheiro do Penta, numa alusão ao histórico e até hoje impar registo e à sua formação profissional. No Porto, onde se manteve até 2001, venceu ainda duas Taças de Portugal e outras tantas Supertaças Cândido de Oliveira. Nas três temporadas seguintes andou pela Grécia, a sua segunda pátria, como um dia haveria de confessar, e por lá venceu uma taça ao serviço do AEK de Atenas, antes de se transferir para o rival da capital helénica, o Panathinaikos. Em 2003 regressa a Portugal para orientar por uma temporada sem grande brilho o Sporting, regressando depois à Grécia a ao AEK. Em 2006 faz história num novo regresso a Portugal. Aceita o convite do Benfica, tornando-se assim no primeiro treinador português a orientar os chamados Três Grandes (Benfica, Sporting e FC Porto) de Portugal. Porém, e tal como havia acontecido no eterno rival da Segunda Circular, Fernando Santos não teve sucesso na Luz e retoma à Grécia para orientar ao longo de três épocas outro gigante daquele país, o Paok. Mesmo treinando clubes distintos e rivais na nação helénica, Fernando Santos granjeou uma enorme admiração do povo grego, facto que lhe abria as portas da seleção da Grécia em 2012, substituindo no cargo o alemão Otto Rehhagel, responsável pelo maior feito do futebol grego, a conquista do Europeu de 2004. Aos comandos da seleção, o técnico luso marca presença na fase final do Euro 2012 e do Mundial de 2014, provas em que supera a fase de grupos, sendo que no caso da segunda competição seria a primeira vez que a Grécia o fazia. Em quatro ocasiões é rotulado como treinador do ano na Grécia, e em 2010 é-lhe atribuído o prémio de treinador da década naquele país, cuja seleção comandou em 49 ocasiões. Uma das raras manchas da sua carreira aconteceu no Campeonato do Mundo de 2014, quando no jogo dos oitavos-de-final diante da Costa Rica recebeu ordem de expulsão por uma alegada conduta antidesportiva com os árbitros. Face a isso, foi-lhe imposto pela FIFA um castigo de oito jogos de suspensão. Nem isso impediu que o então presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Gomes, endereçasse ao engenheiro o convite para suceder a Paulo Bento no cargo de treinador da seleção nacional. Com a ajuda dos dirigentes da federação lusa, Fernando Santos recorreu Tribunal Arbitral do Desporto para contestar o castigo que lhe foi imposto pelo organismo máximo do futebol mundial, tendo em 2015 aquela entidade reduzido o castigo para quatro jogos, com dois deles cumpridos com pena suspensa, pelo que o técnico falhou apenas dois jogos oficiais. A estreia no banco português aconteceu a 11 de outubro de 2014, num particular realizado no Stade de France, em Paris, ante a seleção francesa. O encontro terminou com o triunfo gaulês por 2-1, mas conta-se que Fernando Santos terá de imediato lançado a profecia de que a seleção nacional ali iria voltar para a final do Euro 2016 e levar a taça para casa. Dito e feito. Na qualificação para o Campeonato da Europa, o engenheiro somente cedeu um empate no primeiro jogo da caminhada, ante a Dinamarca, sendo que posteriormente somou sete vitórias noutros tantos jogos e carimbou o passaporte para França. Na fase final do Euro, Portugal esteve longe de encantar, é certo, passando a fase de grupos como um dos melhores terceiros classificados na sequência de três empates ante seleções de menor calibre. Católico convicto, Fernando Santos respondeu às duras críticas de que foi alvo após um dececionante empata a zero bolas com a Áustria, na 2.ª jornada da fase de grupos, com uma nova profecia: «Vamos chegar à final e vamos ganhá-la». E assim foi. 10 de julho de 2016 é provavelmente o dia mais feliz da história do futebol português. Nessa tarde/noite, no mesmo relvado onde cerca de dois anos antes se havia estreado aos comandos da seleção, o engenheiro viveu o seu maior momento de glória ao guiar a Equipa das Quinas ao título continental. Três anos volvidos, Fernando Santos atinge de novo o Olimpo, após vencer com a seleção lusa a primeira edição da Liga das Nações da UEFA, cuja fase final se realizou em território português. Sob a sua batuta, Portugal marcou ainda presença no Europeu de 2020 e nos Mundiais de 2018 e 2022, fazendo que deste modo seja hoje em dia o treinador com mais fases finais de grandes competições internacionais ao serviço de Portugal. Fernando Santos deixou a seleção após o Mundial do Catar, em 2022, com um total de 103 jogos realizados, contabilizando 63 vitórias, 23 empates e sete derrotas. Se juntarmos a estes números os 382 jogos enquanto treinador na 1.ª Divisão Nacional portuguesa, 144 jogos no segundo escalão nacional luso, 41 partidas na Taça de Portugal, sete na Supertaça Cândido de Oliveira, 31 encontros na Liga dos Campeões, 40 encontros na Taça UEFA, os já referidos 49 jogos ao serviço da seleção grega e 218 partidas no campeonato nacional grego, facilmente verificamos que estamos perante um dos maiores Mestres da Tática da história do futebol português.

 

LUIZ FELIPE SCOLARI (74 jogos): Cara de sisudo e de personalidade brava – há quem diga que demasiado agressiva – o segundo treinador que mais tempo –  e por consequência mais jogos realizou – esteve no comando técnico da seleção lusa veio do outro lado do Atlântico. Luiz Felipe Scolari, gaúcho de nascimento (1948), chegou a Portugal com um rico cartão de visita nos inícios de 2003. Era então e tão somente o técnico campeão do Mundo, feito conquistado cerca de um ano ante no Japão, quando levou o seu Brasil ao penta campeonato Mundial. Filipão, como era chamado no seu país natal, vinha com a missão de levar Portugal à glória no Europeu que se iria realizar precisamente em solo luso no ano de 2004. E quase o conseguiu. A estreia com as quinas ao peito deu-se em Génova a 12 de fevereiro de 2003 ante a Itália e saldou-se por uma derrota por 1-0. A primeira vitória aconteceu logo no segundo encontro e teve um sabor especial para Filipão. Foi no antigo Estádio das Antas, no Porto, onde sob forte intempérie Portugal derrotava o Brasil por 2-1, com o tento da vitória a ser apontado pelo estreante luso-brasileiro Deco. Um facto duplamente curioso: o então campeão do Mundo Brasil era derrotado por dois conterrâneos seus: Deco e Scolari. Como país anfitrião do Europeu, Portugal não precisou de fazer a fase de qualificação, sendo que a estreia a doer para Scolari aconteceu curiosamente no Estádio das Antas, na abertura do Euro, diante da Grécia, que para surpresa do Mundo inteiro derrotou os portugueses por 2-1. Portugal corrigiu o mau arranque do seu Europeu, e passo a passo foi subindo de patamar até atingir a final sonhada onde viria a defrontar de novo os gregos. Liderada no campo por Figo, com a ajuda de Deco, Costinha, Maniche, Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho, Pauleta e um jovem chamado Cristiano Ronaldo que dava os primeiros passos na seleção, a turma lusa chegava à final com o estatuto de favorita. Não só porque jogava num Estádio da Luz lotado, diante do seu público, como também vinha apresentando um bom futebol, mas acima de tudo porque tinha contas as ajustar com os helénicos. Pois bem, mas a tragédia grega conheceu um segundo ato e Portugal inteiro chorou uma impensável derrota (0-1) que adiou o sonho de conquistar uma grande competição internacional no patamar sénior. Scolari continuou ao leme da seleção, e a meta seguinte era o Mundial de 2006. Portugal chegou à Alemanha – país onde se realizou o referido Campeonato do Mundo – de forma imaculada, isto é, sem qualquer derrota na fase de qualificação. Na fase final da prova, os lusos provaram o porquê de serem então uma das melhores seleções do planeta, e na última dança de Figo na alta roda internacional os lusos chegaram às meias-finais, onde perderam para a França, sendo que na luta pelo pódio foram derrotados pelos anfitriões do torneio, fazendo com que aquela fosse a segunda melhor presença de Portugal num Mundial, apenas superada pelo terceiro lugar dos Magriços de Eusébio e companhia em 1966. A despedida de Scolari da seleção aconteceu em Basileia, na Suíça, curiosamente contra a Alemanha, que com um triunfo por 3-2 afastava Portugal nos quartos-de-final do Euro 2008, a terceira fase final consecutiva de Filipão à frente da seleção. No total, foram 74 jogos, entre 2003 e 2008, sendo que em 42 deles venceu, em 18 empatou, e foi derrotado em 14. Scolari fica ainda na história da seleção pelo facto de no dia 20 de agosto de 2003 ter lançado num particular realizado em Chaves um tal de… Cristiano Ronaldo, que então fazia a sua primeira aparição com a camisola das quinas.

 

CARLOS QUEIROZ (49 jogos): Quando em 1984 o ex-magriço José Augusto convidou um jovem licenciado em Educação Física, com especialização em Futebol, pelo Instituto Superior de Educação Física (ISEF) de Lisboa de nome Carlos Queiroz para os quadros do setor de formação da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), estaria, talvez, longe de imaginar que aquele seria o homem que iria revolucionar, no bom sentido, o Desporto Rei português. Juntamente com o seu fiel escudeiro Nelo Vingada, Queiroz foi o autor de um processo de transformação e reformulação do futebol jovem luso que até hoje continua a dar frutos. A dupla chegou à FPF em 1984 e logo iniciou um trabalho intenso e meticuloso que dali a cinco anos iria conhecer o primeiro grande momento de euforia: o título mundial de Riade. Queiroz e Vingada traçaram as linhas mestras que (re)organizaram o departamento de futebol juvenil da FPF, levando o futebol luso para patamares de excelência nunca dantes vistos. 1989 é de facto o ano do boom do futebol de formação português. Ao título mundial de sub-20, alcançado em 89, Portugal junta nesse mesmo ano seguinte o título de campeão da Europa de sub-16, e dois anos depois revalida o cetro Mundial de sub-20 em casa. Nascia assim a Geração de Ouro, tendo Carlos Queiroz assinado esta obra de arte, para muitos a melhor de sempre do futebol lusitano. Carlos Manuel Brito Leal Queiroz nasceu a 1 de março de 1953, em Nampula (na então colónia portuguesa Moçambique). O jovem Carlos apaixonou-se pelo futebol por influência do pai, que ouvia religiosamente os relatos de Artur Agostinho na então Emissora Nacional. Na sua curta incursão no futebol enquanto atleta, Carlos Queiroz foi guarda-redes do Ferroviário. Com a Revolução do 25 de Abril de 1974, Carlos Queiroz e a sua família, como tantas outras famílias portuguesas que viviam nas então colónias portuguesas, viram-se forçados a regressar a Portugal. Em Lisboa, acaba tempos mais tarde por ingressar no ISEF, concluindo ali o curso de Educação Física, com especialização em futebol. Começa então a fazer preleções em formações ligadas ao treino e às Ciências do Desporto. José Augusto era um dos seus pares nesses cursos de treinadores que eram ministrados e por influência do ex-magriço acaba por ingressar na FPF para assumir as seleções jovens, declinando o convite para continuar no Estoril, onde havia sido adjunto de Mário Wilson. O estupendo trabalho realizado na formação levou Carlos Queiroz a assumir a seleção principal em 1991, mas esta primeira passagem não teve os resultados esperados e o técnico saiu de forma controversa da FPF. Com um vasto leque de talentos – por si lapidados – ao dispor na equipa principal, Queiroz falhou no objetivo de levar Portugal à fase final de uma grande competição internacional. O verniz estalou no derradeiro jogo de qualificação para o Mundial de 1994, em que Portugal tinha de vencer a Itália, em Milão, para garantir a viagem até aos Estados Unidos da América. Com uma seleção muito jovem e verde no patamar sénior, os portugueses caíram aos pés de uma Squadra Azzurra muito mais experiente, onde pontificavam nomes como Maldini, Baresi, Costacurta, Mancini, ou Roberto Baggio. A derrota por 1-0 significou o adeus ao Mundial e no final Queiroz explodiu ao proferir a célebre declaração: «É preciso varrer a porcaria que há na federação portuguesa. Há muita coisa para mudar». A polémica frase valeu-lhe um processo disciplinar e a saída da FPF. Aproveitou o Sporting, que de imediato o foi contratar para substituir Bobby Robson, mas em Alvalade, durante três anos, Queiroz só venceu uma Taça de Portugal e ainda hoje é recordado por ter perdido em casa um campeonato nacional ante o velho rival Benfica na sequência de uma estrondosa derrota por 3-6. Nos 10 anos que se seguiram à saída do Sporting, Queiroz foi um verdadeiro globetrotter. Treinou em várias partes do globo: África do Sul, Estados Unidos da América, Espanha, Japão, Emirados Árabes Unidos e Inglaterra. Neste último país teria, talvez, o maior desafio da sua carreira: ser o adjunto principal de Alex Ferguson, no Manchester United. O prestígio e conhecimentos acumulados em Manchester fariam que após a saída de Scolari da seleção, em 2008, a FPF desse a Queiroz uma nova oportunidade na seleção principal lusa. O objetivo era levar Portugal o mais longe possível no Mundial de 2010. A qualificação para a prova realizada na África do Sul não foi fácil. Só através de play-off os lusos lá chegaram. A fasquia estava alta, até porque a seleção nacional vinha de um 4.º lugar no Campeonato do Mundo anterior. O que é certo é que na África do Sul os lusos desiludiram, sobretudo no embate contra a Espanha, nos oitavos-de-final, em que apresentaram uma postura extremamente defensiva, a qual acabou por ditar a eliminação e a rutura com a estrela-mor desta, Cristiano Ronaldo, que no final do encontro criticou as escolhas do selecionador. Ainda assim, sob o comando de Queiroz, Portugal bateu neste Mundial a Coreia do Norte por 7-0, na fase de grupos, sendo este até à data o resultado mais expressivo obtido pelos lusos numa fase final. Carlos Queiroz deixaria a seleção com um total de 49 jogos realizados, traduzidos em 25 vitórias, 16 empates e oito derrotas. Após esta segunda passagem pelo comando técnico da Equipa das Quinas, voltaria a aventurar-se no estrangeiro. Orientou as seleções do Irão, do Egito, do Catar, da Colômbia, de Omã e do Gana. É hoje o treinador português com mais presenças em fases finais de Campeonatos do Mundo, palco onde esteve em cinco ocasiões. Uma vez com Portugal (2010), três ocasiões com o Irão (2014, 2018 e 2022) e uma com o Gana (2026).

 

ROBERTO MARTINEZ (45 jogos): Já diz o provérbio popular que “De Espanha nem bom vento, nem bom casamento”, o qual bem se podia aplicar ao único técnico espanhol que até hoje orientou a seleção nacional: Roberto Martinez. Nascido em Balaguer a 13 de julho de 1973, Martinez não foi um jogador de futebol de topo, muito longe disso, pautando a sua carreira como médio em clubes de escalões secundários em Espanha, Inglaterra, País de Gales e Escócia. Como treinador, a história seria um pouco diferente, sobretudo a partir do momento em que em 2013 leva o Wigan Athletic à histórica conquista da Taça de Inglaterra. Dali em diante foi sempre a subir degraus, passando depois pelo Everton e pela seleção nacional da Bélgica. Teve nas mãos aquela que muitos definem como a melhor geração belga de todos os tempos, mas ainda assim não fez melhor do que um terceiro lugar no Mundial de 2018. Aos 49 anos, Martinez assumia a seleção portuguesa. Estávamos na ressaca do Mundial de 2022, o qual havia colocado um ponto final na Era Fernando Santos. O espanhol foi o terceiro estrangeiro a conduzir os destinos da Equipa das Quinas, depois dos brasileiros Otto Glória e Luiz Felipe Scolari. Martinez cumpriu os objetivos mínimos que lhe foram pedidos enquanto selecionador nacional, isto é, a qualificação para as fases finais de Europeus e Mundiais. Porém, a performance do combinado luso nessas grandes competições esteve muito longe de convencer, como foi o caso do Europeu de 2024, onde Portugal caiu aos pés da França nos quartos-de-final, mas com um futebol pobre, com vitórias modestas e onde a luta de egos dentro do grupo sobressaiu pela negativa. Apesar desta participação muito aquém das expectativas, Martinez continuou ao leme da seleção e no ano de 2025 venceu o segundo título da Liga das Nações para Portugal. Um mal menor numa caminhada que terminaria em 2026, num Mundial em que Portugal se autointitulava candidato à vitória final, mas o que se viu foi mais uma prestação que ficou muito longe do esperado, com exibições a roçar a mediocridade e onde os egos mais uma vez falaram mais alto que o grupo. Martinez saiu pela porta pequena e nem o título da Liga das Nações parece prever que vá deixar saudades no futuro. Mesmo assim fica na história como o treinador com melhor percentagem de vitórias na seleção: cerca de 69%. No total, o espanhol fez 45 jogos, contabilizando 30 vitórias, nove empates e seis derrotas.

 

ANTÓNIO OLIVEIRA (44 jogos): Como jogador foi no mínimo um virtuoso com a bola nos pés. Encantou plateias nos anos 70 e 80 com os seus dribles mágicos, passes precisos e golos de levantar estádios que fizeram dele um dos mais brilhantes futebolistas lusos de todos os tempos. Como treinador, os seus créditos de génio também são evocados em vários capítulos importantes do Desporto Rei luso, inclusive ao serviço da seleção nacional. O seu nome é António Oliveira, um artista dos relvados que nasceu em Penafiel a 10 de junho de 1952, tendo com apenas 17 anos sido chamado à equipa principal do seu clube do coração, o FC Porto. A camisola com o número 10 estampado nas costas, o dorsal atribuído aos craques, assentou-lhe que nem uma luva e a meio da década de 70, com a chegada de José Maria Pedroto ao leme do clube da Cidade Invicta, Oliveira arranca para a consagração definitiva. Na condição de médio ofensivo criativo, ele foi a peça fundamental para o fim de jejum (de 19 anos) de títulos de campeão nacional que os portistas viveram em 1977/78. Os grandes do futebol europeu cobiçaram-no, como foi o caso dos dois colossos de Madrid – Real e Atlético – mas seria mais a sul do país vizinho que Oliveira iria assentar arraiais no final da década de 80. Em Sevilha foi recebido em apoteose pelos adeptos do Bétis, o que clube que passou a representar em 79/80. As coisas não correram bem na Andaluzia, e pouco depois regressa literalmente a casa, isto é, à sua terra natal onde defendeu as cores do clube local como jogador e… treinador, alcançando resultados sensacionais para um clube daquela (pequena) dimensão. Oliveira continuava no auge da carreira, e em 81/82 assina pelo Sporting, onde nessa mesma época forma um dos tridentes ofensivos mais mortíferos e inolvidáveis do futebol em Portugal. Juntamente com Manuel Fernandes e Rui Jordão ajuda os leões a vencer tudo o que havia para ganhar nessa temporada em Portugal. No Sporting volta a ser chamado para a função de jogador–treinador na época seguinte, cenário que se iria repetir na Madeira, onde Oliveira colocou o ponto final da carreira de futebolista ao serviço do Marítimo. Abraçou posteriormente a carreira de técnico a full time, passando por clubes como a Académica, o Vitória de Guimarães, o Gil Vicente e Sporting de Braga, deixando a sua marca de excelência nos ensinamentos do futebol. Após a falhada qualificação para o Mundial de 94, a Federação Portuguesa de Futebol convida António Oliveira para o cargo de selecionador nacional com a missão de levar Portugal ao Europeu de 1996. Missão essa que seria cumprida com brilhantismo. Recorrendo à Geração de Ouro do futebol luso (utilizando jogadores como Figo, Rui Costa, Paulo Sousa, Fernando Couto, João Vieira Pinto, ou Vítor Baía), que havia nascido pela mão de Carlos Queiroz no final da década de 80, Oliveira colocou Portugal numa fase final 10 anos após o México 86, e o que é certo é que no Euro inglês os lusos praticaram algum do melhor futebol ali visto e que só seria parado pela República Checa nos quartos-de-final da prova. Após esse Campeonato da Europa, Oliveira sai da seleção, com 22 jogos realizados e com um saldo positivo de 13 vitórias, seis empates e apenas três derrotas. Posto isto, o técnico não resiste ao apelo do coração e assume o comando técnico do FC Porto nas duas épocas seguintes, onde alcança um objetivo que há muitos anos o clube perseguia: vencer três campeonatos nacionais consecutivos. Não só venceu o tri como também conquistaria o tetra, lançando assim a semente para que Fernando Santos em 98/99 guiasse os portistas ao único penta conquistado por um clube em Portugal. Após uma brilhante prestação do Euro 2000 pela mão de Humberto Coelho, a seleção nacional volta a chamar António Oliveira para tentar coroar a Geração de Ouro com um título de dimensão internacional no patamar sénior. O Campeonato do Mundo de 2002 era esse sonho e matéria prima para o alcançar não faltava, desde logo Portugal tinha aquele que era por aqueles dias considerado o melhor jogador do Mundo, Luís Figo, que se fazia acompanhar por (hoje) lendas como João Vieira Pinto, Pauleta, Vítor Baía, Jorge Costa, Fernando Couto, Rui Costa, ou Sérgio Conceição. Um grupo orientado por Oliveira e que não perdeu qualquer jogo na fase de qualificação para o Mundial do Oriente. Na antecâmara do certame, Portugal era apontado como um dos candidatos a chegar ao trono do futebol, mas as coisas acabaram por sair… ao contrário. Desde o estágio (em Macau) até à performance em campo tudo correu mal aos portugueses, que saíram de cena de forma prematura na fase de grupos do campeonato. Além disso, ainda houve o triste episódio do murro de João Vieira Pinto ao árbitro argentino Sanchez no jogo ante os coreanos. No regresso a Portugal não faltaram críticas à delegação nacional, em especial a António Oliveira, que após este fiasco sai da seleção pela porta pequena. No total, nas duas passagens pelo comando técnico de Portugal, Oliveira fez 44 jogos, somando 26 vitórias, 10 empates e oito derrotas.

 

PAULO BENTO (44 jogos): A par de Fernando Santos, Luiz Felipe Scolari e Roberto Martinez, ele é um dos treinadores que teve o privilégio de treinar a seleção portuguesa em mais do que uma fase final de uma grande prova internacional. Paulo Bento é o seu nome. Lisboeta de nascimento (1969) ele começaria por dar nas vistas como um médio centro de cariz defensivo pautado por um estilo certinho, de jogador que sem fazer grandes exibições joga pelo certo e raramente compromete. Características que terão agradado a João Alves, o famoso “Luvas Pretas”, que no final da década de 80 o leva para o primo divisionário Estrela da Amadora, onde Paulo Bento pegou de estaca e foi um dos esteios responsáveis pela maior conquista do emblema tricolor: a Taça de Portugal. Após duas temporadas na Reboleira salta para o norte, mais precisamente para Guimarães, onde continua em bom plano ao serviço do Vitória local, de tal modo que o Benfica o contrata a meio da década de 90. O clube da Luz vivia uma crise de resultados desportivos, de tal modo que nas duas temporadas em que vestiu a camisola encarnada, Paulo Bento só conquistou uma Taça de Portugal. Saiu depois para o estrangeiro, mais precisamente para o Real Oviedo, onde se afirmou como um dos esteios da equipa naquele que era então o campeonato mais competitivo e mediático da Europa, a Liga Espanhola. Após um brilhante Euro 2000 ao serviço da seleção regressa a Portugal pela porta do Sporting, onde em quatro temporadas vence o campeonato nacional, Taça de Portugal e Supertaça Cândido de Oliveira. Penduradas as chuteiras seria precisamente em Alvalade que Paulo Bento dá início à sua carreira de treinador, e logo no primeiro ano sentado no banco vence o campeonato nacional de juniores, título que revalida na época seguinte. Homem de forte personalidade, Paulo Bento foi a aposta do presidente de então do Sporting, Soares Franco, para pôr cobro à crise de maus resultados que o clube vinha tendo no patamar sénior. Rapidamente, Bento impôs a sua filosofia, assente numa forte disciplina tática em que a equipa foi construída de trás para a frente. Tal como era em campo, Paulo Bento revelou-se um líder forte no banco e isso refletiu-se não só na maneira como o Sporting passou a encarar todos os seus jogos, mas sobretudo na conquista de títulos, sendo que nas cinco temporadas em que orientou o emblema leonino venceu duas Taças de Portugal e outras tantas Supertaças Cândido de Oliveira. Teve o condão de ser o primeiro técnico a qualificar o Sporting para a Liga dos Campeões em três épocas consecutivas. Faltava, contudo, o título de campeão nacional, e terá sido esse o motivo do divórcio com o clube de Alvalade em 2010, numa altura em que os adeptos do clube começavam a perder a paciência com o técnico que mais uma época voltava a falhar o assalto ao título de campeão nacional. Paulo Bento saiu do Sporting em direção à seleção nacional, não tendo sido, porém, a primeira escolha para o cargo por parte do então presidente da federação, Gilberto Madaíl. A intenção era que José Mourinho assumisse o cargo de selecionador, acumulando funções com a de técnico do Real Madrid, mas o presidente do clube espanhol não terá autorizado a cedência de Mou à equipa nacional e Paulo Bento foi a solução. Assinou contrato com a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) em setembro de 2010 com a missão de levar Portugal ao Euro 2012. Objetivo cumprido apenas através de um play-off intenso com a Bósnia Herzegovina. Na fase final do Europeu, realizado em conjunto pela Ucrânia e pela Polónia, Portugal chegou até às meias-finais, sendo apenas derrotado nas grandes penalidades pela melhor seleção do Mundo da altura, a Espanha. O bom desempenho no Euro levou a FPF a dar um voto de confiança a Paulo Bento com o objetivo de garantir a presença no Mundial de 2014. E mais uma vez com recurso a um play-off, desta feita com a Suécia, o técnico levou os lusos ao Brasil para ali… levar um banho de água gelada. A popularidade de Bento à frente da seleção decaia de jogo para jogo e o facto de não ter passado sequer a fase de grupos do Mundial do Brasil, fruto de exibições que ficaram muito aquém do esperado, levaram a um divórcio anunciado. A consumação dessa separação deu-se após uma derrota humilhante no reduto da modesta Albânia no primeiro jogo da fase de apuramento para o Euro 2016. A Era de Paulo Bento na seleção teve 24 vitórias, 11 empates e nove derrotas. Paulo Bento ainda estaria presente noutro Campeonato do Mundo na condição de selecionador, facto ocorrido em 2022, quando no Catar orientou a Coreia do Sul.

 

JUCA (40 jogos): Júlio Cernadas Pereira, imortalizado no futebol como Juca foi um futebolista de renome nos anos 50. Nasceu em Moçambique, então colónia portuguesa a 13 de janeiro de 1929, na cidade de Lourenço Marques (atual Maputo), onde se destacou no Sporting local como um médio elegante, portador de exímia visão de jogo e uma técnica refinada. Características que levaram o Sporting Clube de Portugal a chamá-lo para a Metrópole. Fez a viagem de barco na companhia de outro vulto do futebol luso nascido em África, Mário Wilson, tendo ambos chegado a Lisboa no dia 10 de setembro de 1949. No Sporting, Juca desenvolveu toda a sua carreira de futebolista. Foram 11 épocas de leão ao peito, tendo contribuído para a conquista de cinco campeonatos nacionais e uma Taça de Portugal. Como curiosidade, Juca esteve no pontapé de saída das competições europeias de clubes. Facto ocorrido em 1955, no Estádio Nacional, onde o Sporting mediu forças com o Partizan naquele que foi o primeiro jogo das provas da UEFA. Após um brilhante percurso como jogador, Juca atingiu a notoriedade como treinador. Iniciou a sua caminhada nos bancos nos juniores do seu clube de sempre, o Sporting, fazendo saltar para a ribalta nomes como Vítor Damas, Barão ou Barnabé. Saltou posteriormente para os seniores, onde começou como adjunto de Mário Imbelloni, até que em 61/62 assume as lides da equipa principal, onde venceria os campeonatos nacionais dessa mesma temporada e de 65/66. Pelo meio ganhou ainda a Taça de Portugal de 62/63, que abriria caminho à única conquista europeia do Sporting até hoje, a Taça das Taças, em 1964. Após sair de Alvalade, Juca comandou com brilho o Vitória de Guimarães, a Académica de Coimbra – que conduziu numa épica campanha da Taça das Taças em 1969/70, onde alcançou os quartos-de-final –, o Barreirense – onde descobriu e promoveu um tal de Fernando Chalana –, o Belenenses e o Sporting de Braga. Tudo isto nos anos 70 e 80. Foi precisamente nestas décadas que Juca chega à seleção nacional, ainda que inicialmente de forma intermitente e em dupla função. Isto é, a acumular as funções de selecionador com as de treinador de clubes. A estreia na equipa principal lusa acontece em dezembro de 1976, num particular com a Itália, em Lisboa, que terminou com o triunfo português por 2-1. Comandou a seleção em mais cinco encontros até 1978, até ser substituído no cargo pelo seu companheiro de viagem – de Moçambique para Portugal – Mário Wilson. Lançou para a ribalta com a camisola das quinas, nomes como Manuel Fernandes, ou Chalana. Após a saída de Wilson em março de 80, Juca reassume a seleção até 1982, falhando a qualificação para o Mundial de 82. A terceira e última passagem do técnico pelo banco da seleção aconteceu após um polémico e desolador Mundial de 86, em que Portugal saiu pela “porta pequena”. Juca reassumiu a seleção em Estocolmo, em 1987, num jogo de apuramento para o Europeu de 1988, competição onde os lusos não iriam marcar presença fruto de um empate (0-0) caseiro comprometedor com a Suíça e uma derrota clara (3-0) em Milão frente à Itália. Juca ainda liderou os portugueses em mais um apuramento falhado para uma fase final, neste caso a do Mundial de 90, tendo realizado o seu último jogo no banco luso em Lisboa a 15 de novembro de 1989, ante a Checoslováquia. Juca orientou a seleção portuguesa em 40 partidas, tendo vencido 17, empatado nove e perdido 14. Faleceu a 11 de outubro de 2007.


JOSÉ MARIA ANTUNES (31 jogos): Hoje em dia é impensável alguém treinar – profissionalmente – um clube ou uma seleção nacional de borla! Nada que no passado não fosse comum. José Maria Antunes é um desses exemplos, em que a paixão a uma causa, neste caso à seleção portuguesa, falou mais alto que o dinheiro. Figura notável da Académica de Coimbra, José Maria Antunes nasceu em 1913 e foi um dos muitos exemplos de jogadores-doutores que brilharam com a camisola da Briosa. Formou-se em Medicina, na área da pneumologia, numa altura (1942) em que já havia deixado a sua marca de futebolista na história da Académica, emblema cujas cores defendeu ao longo de nove anos, na condição de robusto defesa direito. E fica ligado à história do emblema dos estudantes porque em 1939 ele foi um dos jogadores que integrou a equipa academista que venceu a primeira edição da Taça de Portugal. Treinaria ainda a sua Briosa em 1947, cerca de 10 anos antes de assumir o comando da seleção nacional. Fê-lo em três períodos distintos, entre 1957 e 1969. Sempre de forma gratuita. No seu percurso de selecionador destaca-se, por exemplo, o facto de ter conduzido Portugal na fase de apuramento para o primeiro Campeonato da Europa da história, ou de nomes icónicos do futebol luso como Coluna, José Torres, Simões, ou José Augusto, terem-se estreado a marcar com a camisola das Quinas sob as suas ordens. Orientou Portugal em 31 ocasiões, tendo somado nove vitórias, quatro empates e 18 derrotas. José Maria Antunes foi o primeiro homem a desempenhar o cargo de treinador num clube em simultâneo com o de selecionador nacional. Tinha um amor profundo ao desporto de uma forma geral, sendo que também se interessava por rugby, modalidade cuja federação portuguesa o homenageou poucas horas antes de morrer a 23 de março de 1991, na cidade dos seus amores, Coimbra.  

 

CÂNDIDO DE OLIVEIRA (30 JOGOS): Cândido de Oliveira não jogou apenas futebol, ele desenhou a identidade do desporto em Portugal com a precisão de um mestre e a paixão de um pioneiro. Sobre o Mestre Cândido já muito aqui escrevemos no Museu Virtual do Futebol, referindo-nos por diversas vezes a ele como o “Homem dos 7 Ofícios”, ou como uma figura que viveu sempre à frente do seu tempo. Cândido Fernandes Plácido de Oliveira (nasceu a 24 de setembro de 1896), é uma das figuras mais marcantes da história do futebol em Portugal. Mestre Cândido foi o primeiro grande estudioso do futebol em Portugal, responsável maior pelo aparecimento da seleção nacional, trabalhador incansável no sentido de que o futebol português se colocasse ao nível do que acontecia nos outros países da Europa, sobretudo nas suas vertentes organizativas. Mas Cândido de Oliveira foi mais ainda: grande figura humana, democrata convicto que tomou desassombradas posições públicas contra os regimes de Hitler, de Mussolini, de Franco e Salazar. A sua coragem intelectual só teve paralelo na sua coragem física. Foi sujeito a um sem-número de prisões levadas a cabo pela então PIDE; brutalmente torturado e espancado a ponto de lhe terem partido todos os dentes; em 1942 é enviado para o campo de concentração do Tarrafal. Sobre ele escreveu um livro chamado «Tarrafal – o pântano da morte», publicado a título póstumo, após o 25 de Abril de 1974. Depois de ter sido demitido dos correios telégrafos e telefones (CTT), onde trabalhara longos anos e atingira a elevada função de inspetor de exploração, funda com Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo o jornal «A Bola». Nascido em Fronteira, distrito de Portalegre, Cândido de Oliveira entrou para a Casa Pia em 1905 e cedo mostrou capacidades inatas para a prática do futebol, capacidades essas que o levaram ao Benfica a partir da época de 1914/15. Aí se manteve até 1920, tendo saído para fundar o Casa Pia Atlético Clube. Apesar de se ter destacado também como avançado, Cândido de Oliveira foi um excelente médio centro, com uma capacidade de comando e de passe que fez dele um dos grandes jogadores portugueses das primeiras duas décadas do século XX. Seria ele o primeiro «capitão» da seleção nacional, no célebre jogo de Madrid, em 1921. Por várias vezes ocupou o cargo de selecionador nacional – foi ele o responsável pelo cargo no primeiro grande êxito da seleção nacional, os Jogos Olímpicos de Amesterdão, em 1928 -, tendo-se tornado num técnico sempre disponível para as necessidades da «equipa de todos nós». Foi jornalista na «Stadium», diretor de «Os Sports», «Diário de Notícias», «Diário de Lisboa» e «O Século» antes de fundar o jornal «A Bola». Treinador do Sporting dos «Cinco Violinos», da Académica, do Belenenses, do FC Porto e do Atlético, chegou também a orientar o Flamengo, do Brasil, em 1950-51. Foi autor de vários livros sobre desporto e tática no futebol, sofreu uma pneumonia enquanto cobria, como enviado-especial de «A Bola», o Campeonato do Mundo de 1958, realizado na Suécia. Como consequência, viria a falecer no dia 23 de junho desse ano. Enquanto seleção, Cândido realizou 30 jogos entre 1926 e 1942, em três períodos distintos, tendo somado oito triunfos, oito empates e 14 derrotas.

 

TAVARES DA SILVA (30 jogos): Na história centenária da seleção nacional estão plasmados alguns exemplos de vultos do jornalismo desportivo com queda para o treino, isto é, com apetência para serem treinadores. Um dos casos mais sonantes é o Tavares da Silva, um homem que nasceu em Estarreja, em 1903, e que na hora de escolher um futuro profissional optou pelo Direito. Advogado de créditos firmados seria então, abrindo um escritório na Rua Nova do Almada, em Lisboa, mas... dentro de si algo mais forte se pronunciava em detrimento do Direito: o futebol. Uma paixão avassaladora a quem deu sempre o que tinha e o que não tinha de si. Foi jogador, treinador, árbitro, dirigente e “artista das letras”, vulgo, jornalista. Um dos maiores legados de Tavares da Silva ao futebol terá sido possivelmente a designação que “rotulou” uma das linhas avançadas mais famosas de todos os tempos do futebol planetário. Uma linha que atuava no Sporting Clube de Portugal e que era composta pelos magos Peyroteo, Travassos, Jesus Correia, Albano, e Vasques, e que ficou mundialmente conhecida como os “Cinco Violinos”. O autor desta designação? Tavares da Silva. Mas não seria só desta forma que este homem do futebol ficaria ligado eternamente ao clube lisboeta, pois na temporada de 1953/54 ele seria o treinador que conduziria os “eões à célebre conquista do “treta-campeonato” (quatro campeonatos nacionais consecutivos). Ainda como técnico passou pelos bancos do Belenenses, Sporting da Covilhã, Lusitano de Évora, Académica, e da própria Seleção Nacional, na qual o seu nome ficou igualmente gravado a letras de ouro já que seria sob a sua batuta que Portugal venceria pela primeira vez na história (corria o ano de 1947) a vizinha e rival Espanha. Seria ainda o obreiro do triunfo inaugural da nossa seleção no estrangeiro, mais concretamente na Irlanda (também em 1947). Treinou a seleção em quatro períodos distintos da história. O primeiro em abril e maio de 1941, em que fez apenas dois jogos; o segundo entre maio de 1945 e maio de 1947, em que realizou nove encontros; o terceiro entre abril e junho de 1951; e a quarto e última – e que seria a mais duradoura – entre maio de 1955 e junho de 1957. Curiosamente, só nesta sua última incursão pela seleção é que teve jogos a “doer”, isto é, jogos de qualificação para uma grande competição internacional, no seu caso para o Mundial de 1958, já que nas outras três passagens só fez jogos particulares. No total, Tavares da Silva orientou a seleção em 30 ocasiões, tendo vencido 10 jogos, empatado quatro e perdido 16. Viria a falecer precisamente em 1958 uma altura em que era redator principal do “Norte Desportivo” e chefe da secção de desporto do “Diário de Notícias”.

 

HUMBERTO COELHO (24 jogos): A não qualificação para o Mundial de 98 fez com que a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) decidisse colocar um ponto final da Era de Artur Jorge e dar o comando técnico da seleção a um homem que nasceu no norte mas que se fez rei no sul. Humberto Coelho, lendário futebolista dos anos 70, que nessa década chegou a ser considerado como o melhor defesa central do futebol europeu. Nasceu no Porto, em 20 de maio de 1950 e começou a dar nas vistas ao serviço do modesto Ramaldense, clube mais habituado a brilhar no hóquei em campo do que no futebol. Ainda com idade de júnior muda-se para Lisboa, mais concretamente para o Benfica, clube que ganhou a corrida ao seu concurso. Na Luz acaba a sua formação, até que no final da década de 60 conquista um lugar no centro da defesa da equipa principal benfiquista, onde se iria manter de pedra e cal até meados dos anos 70. Humberto Coelho era um defesa elegante e inteligente, ao ponto de o capítulo ofensivo daquele Benfica começar a ser escrito pelos seus pés desde o centro do setor recuado. Era, pois, um defesa de fino recorte técnico, e prova disso é que gostava de sair a jogar com a bola controlada ao invés de a pontapear para a frente. A Europa começou a cobiçar Humberto, que em 1976 decide aventurar-se no estrangeiro. Foi para França, para defender as cores do então recém-criado Paris Saint-Germain, clube onde brilharia por duas temporadas. Após uma curta passagem pelo futebol norte-americano regressa ao Benfica, onde se mantém até final da sua carreira, em 1986, quando já era um dos mais afamados capitães de equipa da história do emblema lisboeta. O seu percurso de treinador começa a norte, no Salgueiros, passando depois pelo Braga. Após uma década de interregno em que não esteve ao serviço de qualquer clube, eis que em 1998 a FPF o chama para selecionador com o objetivo de qualificar Portugal para o Europeu de 2000. Competição esta em que Portugal não só marcou presença como de igual forma brilhou pelo futebol vistoso que apresentou nos relvados dos Países Baixos e da Bélgica, países onde decorreu o Euro. Seleções poderosas como a Inglaterra e a Alemanha foram humilhadas pelos lusos, que só viriam a cair nas meias-finais diante da França, na sequência de um penalti polémico a castigar uma alegada mão de Abel Xavier dentro de área. Há quem ainda hoje defenda que a par da seleção de 1966, o conjunto nacional que esteve no Euro 2000 foi o melhor que Portugal alguma vez apresentou numa fase final de uma grande competição. Essa seleção era integrada maioritariamente por jogadores saídos da Geração de Ouro germinada nos anos 80, e que atingiu a maturidade precisamente na segunda metade dos anos 90 e na virada para o novo milénio. Em 24 partidas enquanto técnico da seleção, Humberto Coelho venceu 16 jogos, empatou quatro e perdeu outros quatro. Depois de deixar Portugal assumiu o cargo de selecionador de outras equipas nacionais nos anos que se seguiram, como foi o caso de Marrocos, Coreia do Sul e Tunísia. Na segunda década do novo milénio regressa à FPF na qualidade de dirigente, no exercício das funções de vice-presidente da direção, cargo que desempenhou ao longo de 14 anos. Humberto Coelho tem ainda a particularidade de ser um dos nomes que representou a seleção nacional quer como jogador, quer como treinador, sendo nesta condição de futebolistas que mais tarde seriam selecionadores aquele que mais vezes vestiu a camisola das quinas: 64 ocasiões.

 

ARTUR JORGE (20 jogos): Artur Jorge foi provavelmente o treinador português mais mediático a nível internacional nos dos finais dos anos 80 e primeira metade dos anos 90 do século passado. Foi o primeiro técnico luso a vencer a Taça dos Campeões Europeus, em 1987, ao serviço do FC Porto, facto que lhe valeu a abertura das portas do futebol internacional. Nascido no Porto, em 1946, Artur Jorge construiu um currículo invejável no futebol, primeiro como jogador e mais tarde como treinador. Como futebolista, foi um dos maiores e mais eficazes avançados do futebol português - foi Bola de Prata (melhor marcador do campeonato português) em duas épocas consecutivas: 1970/71 e 1971/72 –, brilhando intensamente tanto na Académica como no Benfica. Em Coimbra notabilizou-se como jogador-estudante, tendo ali concluído o curso de Filologia Germânica. O início da carreira de treinador não começou da melhor maneira ao serviço do Belenenses, mas depois de procurar um dos seus mestres no futebol, José Maria Pedroto, Artur Jorge partiu em direção a uma carreira recheada de êxitos. Foi adjunto de Pedroto no Vitória de Guimarães, e foi Pedroto que já no leito da morte e numa altura em que era técnico do FC Porto, que indicou – ao presidente portista de então, Pinto da Costa – Artur Jorge para seu sucessor no banco dos portistas. O FC Porto continuou em boas mãos e o resto é a história que se conhece. Com o sucesso conquistado na Cidade Invicta, Artur Jorge partiu para França, onde iria orientar o Matra Racing, mas sem sucesso. Regressou ao FC Porto, onde se reencontrou com os êxitos no início dos anos 90. E é nesta altura que acumula a função de técnico dos azuis e brancos com a de selecionador nacional. Nesta primeira passagem pelo banco nacional faz oito jogos, dando de seguida o lugar a Carlos Queiroz. Regressa posteriormente à Cidade Luz, desta feita para orientar o Paris Saint-Germain e desta vez consegue ser mais feliz, alcançando um campeonato francês, uma Taça de França e uma supertaça. Ademais, brilhou com os parisienses nas provas europeias, onde se bateu de igual para igual com algumas das melhores equipas continentais. Em 1996 marca presença naquela que foi a sua primeira e única grande fase final de uma prova internacional de seleção, o Campeonato da Europa, competição onde orientou a seleção da Suíça. É após este Euro que regressa pela segunda vez ao banco do combinado nacional português, com a missão de guiar Portugal ao Mundial de 98. Objetivo que, contudo, seria falhado, o que levou à saída do técnico. Nos 20 encontros realizados ao serviço da seleção, Artur Jorge venceu nove, empatou oito e perdeu três. Faleceu recentemente, a 22 de fevereiro de 2024.

 

MANUEL DA LUZ AFONSO (20 jogos): É muitas vezes recordado como o pai dos “Magriços”, a seleção que em 1966 encantou e surpreendeu o Mundo com o 3.º lugar no Mundial desse ano. Ele, na condição de selecionador nacional, juntamente com Otto Glória, na função de treinador de campo, foram os obreiros da melhor classificação de sempre de Portugal num Campeonato do Mundo. Falamos de Manuel da Luz Afonso, uma figura que nasceu em Loulé a 31 de janeiro de 1917 e que começou a evidenciar-se no Planeta da Bola enquanto dirigente desportivo. Em 1958 aceitou o convite de Maurício Viera de Brito, então presidente do Benfica, para dirigir o Departamento de Futebol do clube da Luz. Sob a sua gestão os benfiquistas sagaram-se bi-campeões europeus e foi olhando para o trabalho que ele desenvolveu nos encarnados, que em 1964 a Federação Portuguesa de Futebol o convida para o cargo de selecionador nacional. Com Otto Glória na função de treinador, a Era de Manuel Luz Afonso na seleção começou da melhor maneira em finais de 1964 com um triunfo sobre os então campeões europeus de seleções, a Espanha, por 2-1. Depois disso veio a brilhante fase de qualificação para o Mundial de 1966, onde se destacam importantes vitórias, como a que foi alcançada em casa de uma das potências europeias de então, a Checoslováquia, que era tão só a vice-campeã do Mundo da altura. Sob a batuta de Eusébio, em campo, Portugal chegou ao Mundial pela primeira vez na história e o resto é… história. Após esse épico Campeonato do Mundo, Manuel da Luz Afonso ainda realizou mais um jogo aos comandos da seleção nacional no ano de 1966, deixando o cargo depois disso, com um registo de 15 vitórias, dois empates e três derrotas. Manuel da Luz Afonso viria a falecer em outubro de 2000.

 

JOSÉ TORRES (17 jogos): «Deixem-me sonhar», a célebre frase proferida por aquele que foi um dos mais brilhantes futebolistas de todos os tempos do futebol português ecoou em outubro de 1985 na véspera de um importante desafio de qualificação para o Mundial de 86, em que Portugal precisava de vencer em casa da poderosa República Federal da Alemanha (RFA) para carimbar o passaporte para o México. Quem a proferiu foi José Torres, que enquanto jogador brilhou com a camisola das Quinas – com o ponto alto a acontecer no Mundial de 66 – mas como treinador viveu um dos priores momentos da sua longa carreira desportiva. Logo após o fantástico desempenho da seleção nacional no Europeu de 1984 os responsáveis federativos ofereceram o cargo de selecionador ao “Bom Gigante” – como Torres era popularmente conhecido devido à sua elevada estatura e à sua condição de pessoa humilde e bondosa –, pedindo-lhe apenas que guiasse o combinado luso até ao Mundial do México, em 1986. A tarefa era complicada, até porque no grupo de Portugal estava a poderosa RFA e as sempre indesejadas Checoslováquia e Suécia. Na entrada para a reta final da fase de qualificação os portugueses precisavam de um milagre para alcançarem a qualificação para o México. E esse milagre passava por uma vitória em solo germânico... Impossível, disseram muitos. Perante o pessimismo que reinava entre o povo português José Torres lançou um desabafo: «deixem-me sonhar...». E mais uma vez o sonho virou realidade. Em Estugarda, no dia 16 de outubro de 1985, um golo solitário do pequeno médio Carlos Manuel derrotava a forte RFA e levava pela segunda vez na história Portugal a uma fase final de um Mundial. Só que chegados ao México os portugueses viram-se a braços com uma série de problemas internos. Os jogadores abriram guerra com a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) por causa dos prémios relativos à sua presença na fase final. Convocaram greves, organizaram-se em grupos, e com isto o plano desportivo passou definitivamente para segundo plano. Saltillo - localidade mexicana onde a seleção ergueu o seu quartel-general - é sinónimo de inúmeros escândalos, assinalando assim uma das páginas mais negras da história do nosso belo jogo. Portugal ainda venceu a Inglaterra no jogo de estreia (por 1-0), mas as derrotas com a Polónia (0-1) e com Marrocos (1-3) trouxeram os portugueses mais cedo para casa. José Torres foi uma vítima de Saltillo, como ele próprio confessou tantas e tantas vezes. «Saltillo marcou-me o destino. Cinco meses antes organizei uma reunião com os jogadores, na qual tive a preocupação de alertar para a necessidade de não se formarem grupinhos, garanti-lhes que ninguém teria o estatuto de titular, pedi-lhes única e simplesmente que fossem para o México para servir Portugal. Por essa altura a FPF prometeu-me, igualmente, que resolvia o problema dos dinheiros/prémios (para os jogadores), sabia bem que esse poderia ser o nosso calcanhar de Aquiles, a promessa foi vã, quem tinha a responsabilidade de tudo resolver agiu como Pilatos e foi o que foi, aconteceu o que se sabe, foi tudo muito triste - e ninguém foi mais penalizado do que eu, apesar da minha responsabilidade ser quase nula em toda aquela complicação». Dos 117 jogos realizados à frente da seleção, Torres venceu oito, empatou um e perdeu outros oito. Como treinador ainda trabalhou em clubes como o Boavista, Estoril, Vitória de Setúbal, Estrela da Amadora, Varzim Portimonense, Vila Real de Desportivo de Beja. Faleceu a 3 de setembro de 2010.

 

JOSÉ MARIA PEDROTO (16 jogos): A morte levou demasiado cedo um homem que vivia à frente do seu tempo. Era um visionário. Natural de Lamego, onde nasceu a 21 de outubro de 1928, José Maria Pedroto começou por ser um jogador de boa categoria e mais tarde treinador de créditos firmados. A sua primeira experiência enquanto técnico seria logo coroada de êxito, o primeiro grande sucesso do futebol português enquanto seleção alcançado em 1961: o Torneio Internacional de Juniores da UEFA, a prova que antecedeu ao atual Campeonato da Europa de Sub-21. Desde esse momento que Pedroto vincou a sua veia de mestre, de revolucionário - no bom sentido -, de exímio líder que aliava profundos conhecimentos futebolísticos a um poder notável de motivação. Estes foram alguns dos condimentos que fizeram de Pedroto um mestre da tática, um dos melhores de todos os tempos do futebol português. Um vencedor, acima de tudo. Depois das seleções jovens o Zé do Boné - como ficou eternizado graças à peculiar indumentária habitual que usava no seu dia-a-dia - colocou a sua inteligência e visão avançada no tempo ao serviço de emblemas como a Académica, o Leixões, o Varzim, o Vitória de Setúbal, e o Boavista - sendo que nestes dois clubes alcançou êxitos nunca dantes vividos por estes emblemas. Mas seria ao serviço do clube do seu coração, o FC Porto, que atingiu o topo da montanha da glória. Para os portistas Pedroto significou a viragem. Pedroto fez do FC Porto um clube vencedor, criou uma mística que perdura até hoje na Invicta, uma mística de conquistas, uma mística de glória. Pedroto abriu o caminho dos títulos ao clube azul e branco, um caminho que idealizado juntamente com o seu grande amigo Jorge Nuno Pinto da Costa, o homem que esteve mais de quatro décadas no comando do clube. É justo dizer-se que Pedroto foi um dos arquitetos do FC Porto dos dias de hoje, um clube de dimensão mundial. Na seleção principal de Portugal, José Maria Pedroto estre entre 1973 e 1976, realizando 16 jogos, com o saldo de seis triunfos, quatro empates e seis derrotas. Viria a falecer em janeiro de 1985 quando o FC Porto moldado pelas suas mãos arrancava para a conquista de grandes êxitos internacionais.

 

JOSÉ AUGUSTO (14 jogos): Enquanto jogador chegou a ser considerado como o melhor extremo direito do futebol europeu dos anos 60. Nascido a 13 de abril de 1937, no Barreiro, ele foi um dos maiores ídolos do Benfica e da seleção nacional de todos os tempos. José Augusto, o seu nome. Muito jovem começou a mostrar um talento ímpar com a bola nos pés, e seria no clube da terra, o Barreirense, que começou a jogar de forma oficial, destacando-se de pronto pela velocidade, técnica e faro pelo golo. Não foi de estranhar que despertasse de pronto a cobiça de clubes de maior dimensão e com apenas 21 anos ingressa no Benfica. Na Luz, José Augusto entrou logo na equipa principal, juntando-se a uma geração lendária onde pontificavam nomes como Coluna, José Águas, Germano, Cavém, Ângelo, ou Costa Pereira, aos quais pouco mais tarde se juntariam Simões e Eusébio. Aquele Benfica dominaria o futebol português e… europeu, na sequência da dupla conquista da Taça dos Clubes Campeões Europeus no início da década de 60. Na primeira campanha vitoriosa na prova maior de clubes da UEFA, José Augusto fez sete golos, sendo apenas superado pelo homem-golo daquela equipa, José Águas, com 11 golos. Foi dos jogadores mais completos do seu tempo. Brilhou de igual modo com a camisola da seleção lusa, a qual defendeu em 45 ocasiões, tendo feito nove golos. Foi peça fundamental da esplêndida campanha que Portugal realizou no Mundial de 66, onde marcou três golos. Fez mais de 360 jogos pelo Benfica e no final da década de 60 pôs ponto final à sua carreira de futebolista, e logo na estreia como técnico vence a Taça de Portugal ao serviço do seu Benfica. Após a sua saída da Luz ingressa na Federação Portuguesa de Futebol (FPF), onde assume o comando da Equipa das Quinas após a saída de José Gomes da Silva, em 1971. Ao longo de cerca de ano e meio, entre 1972 e 1973, José Augusto efetua 14 jogos ao comando da seleção portuguesa, com o foco a residir na qualificação para o Mundial de 1974. Na seleção treina antigos companheiros de campo, como por exemplo, Eusébio, Jaime Graça, ou Simões. Apesar de ter falhado a qualificação para o Mundial germânico em 74 e de ter saído da seleção em finais de 73, José Augusto voltaria à FPF no início dos anos 80 para assumir as seleções mais jovens do país, trazendo para os quadros federativos o homem que haveria de revolucionar o futebol luso desde a base: Carlos Queiroz. Dos 14 encontros em que José Augusto orientou a equipa principal de Portugal venceu nove, empatou três e foi derrotado em dois.

JOSÉ GOMES DA SILVA / SALVADOR DO CARMO (13 jogos): Ambos têm em comum o facto de terem estado ligados ao Belenenses, enquanto dirigentes. Salvador do Carmo, por exemplo, era dirigente deste clube quando em 1942 este venceu a sua primeira Taça de Portugal. Na seleção estiveram ambos de forma intermitente, ou seja, efetuaram passagens pelo banco nacional em alturas períodos distintos. Nos seus 13 jogos realizados, Salvador do Carmo venceu três, empatou cinco e perdeu outros cinco; ao passo que José Gomes da Silva (na imagem) venceu cinco partidas, empatou quatro e perdeu outras quatro.

 

MÁRIO WILSON (10 jogos): Era, e é, carinhosamente apelidado como o “Velho Capitão”. Alcunha que ganhou em Coimbra, na altura em que capitaneou a Académica desde o centro da defesa, onde se impunha pela sua estampa física. Mário Wilson, o seu nome. Desembarcou em Lisboa com a missão de substituir o voraz goleador Fernando Peyroteo, no Sporting, mas o que é certo é que seria como médio centro que se impôs na equipa leonina. Defendeu dos leões em apenas duas temporadas, o suficiente para se sagrar campeão nacional em 50/51. Viajou depois para Coimbra, para jogar à bola e… estudar. Na cidade do Mondego permaneceu ao longo de onze épocas, e ali deu início a uma brilhante carreira de treinador. Na Briosa, conquistou em 66/67 um inédito 2.º lugar, a apenas 3 pontos do campeão Benfica, o clube onde iria fazer história. Na Luz foi campeão nacional em 75/76 e da sua boca saiu uma frase que ainda hoje perdura no tempo: «No Benfica, qualquer treinador se arrisca a ser campeão». Fez história no clube da Luz ao ser o primeiro técnico português a ser campeão nacional. Voltaria ao Benfica na década de 90 mas sem o sucesso antes granjeado. Teve ainda passagens pelo Alverca, Tirsense, Belenenses, Boavista, Vitória de Guimarães, Estoril, Torreense, Louletano e Recreio de Águeda. Os seus conhecimentos foram colocados ao serviço da seleção em finais da década de 70, altura em que dirigiu o combinado nacional em 10 encontros, com a meta (falhada) de qualificar Portugal para o Euro 80. Somou cinco triunfos (diante dos Estados Unidos da América, Áustria, Escócia, e Noruega por duas ocasiões), dois empates (diante de Bélgica e Espanha) e três derrotas (perante Áustria, Escócia e Bélgica). Viria a falecer a 3 de outubro de 2016.

 

FERNANDO CABRITA (9 jogos): O seu nome está ligado à brilhante campanha realizada pela seleção no Europeu de 84. Após a saída do brasileiro Otto Glória em 1983 do comando da equipa das Quinas, Fernando Cabrita conduziu a seleção à segunda participação numa fase final de uma grande competição, após o Mundial de 66, e a primeira presença num Campeonato da Europa. Juntamente com António Morais, Toni e José Augusto, Cabrita constituiu um quarteto que alcançou três vitórias em outros tantos jogos na reta final do apuramento para o Euro francês, corrigindo assim o mau arranque da campanha sob a batuta de Otto. Como jogador, Fernando Cabrita, passou por clubes como Olhanense, o Sporting da Covilhã, o Portimonense e os franceses do Angers. Nascido em Lagos, em 1923, ele começou o seu percurso de treinador na década de 50 pelo modesto Unhais da Serra. Antes de chegar às reservas do Benfica, treinou o Portimonense e o Covilhã, sendo que na Luz atingiu o seu momento de glória em 67/68, quando foi chamado à equipa principal com a missão de substituir o chileno Fernando Riera, levando o clube à conquista do campeonato nacional. Além do Benfica, treinou também o União de Tomar e o Beira-Mar, dois emblemas que conduziu à 1.ª Divisão, tendo ainda o feito de levar o Boavista à Europa do futebol. Na fase final do Euro 84 registou empates com a RFA e a Espanha e um triunfo diante da Roménia, que valeu a passagem às meias-finais da seleção portuguesa. Aí, ante a equipa da casa, Portugal teve o pássaro nas mãos, mas a frieza de Platini e companhia fez o sonho cair por terra. Fernando Cabrita faleceu em 22 de setembro de 2014.

 

OTTO GLÓRIA (7 jogos): Ele foi o primeiro treinador estrangeiro a orientar a seleção nacional. Estrangeiro, mas com linhagem portuguesa, já que o se avô paterno era açoriano e o seu avô materno era de Vila Nova de Gaia. Nascido no Rio de Janeiro, no dia 9 de Janeiro de 1917, este homem foi o treinador mais vitorioso que passou pelo futebol português. Otto Martins Glória, ou simplesmente Otto Glória, o seu nome. Conquistou cinco títulos de campeão nacional da 1.ª Divisão, venceu cinco Taças de Portugal e deixou o seu nome eternamente ligado a uma das páginas mais brilhantes da história da seleção: o 3.º lugar no Mundial de 1966. Chegou a Portugal em 1954 e logo impôs uma profunda remodelação no futebol do Benfica, o primeiro clube que aqui treinou. Além do Benfica, treinou ainda o Belenenses, o FC Porto e o Sporting, tendo sido o único técnico estrangeiro a orientar os chamados “3 Grandes” do futebol luso. No seu Brasil natal, começou muito cedo a caminhada enquanto treinador. Tinha apenas 25 anos quando lhe foram confiadas as equipas de formação do Vasco da Gama. Posteriormente, passou para adjunto de Flávio Costa no clube da Cruz Maltina, passando pouco depois a técnico principal do clube carioca. Treinou ainda o Américo do Rio de Janeiro, e terá sido nesta condição que chegou à conversa com Joaquim Bogalho, presidente do Benfica, que o convenceu a atravessar o Atlântico rumo a Lisboa para orientar os encarnados. O resto é história. Os bons desempenhos de Otto Glória ao serviço dos quatro maiores (na altura) clubes portugueses não passaram despercebidos à Federação Portuguesa de Futebol, que em 1966 o chamaria para treinar a seleção nacional (o selecionador português era Manuel da Luz Afonso, sendo que Otto era, por assim, dizer o treinador de campo) que nesse ano disputou o Mundial de Futebol. Portugal escreveria neste Mundial a página mais bonita da sua história, classificando-se num até hoje inigualável 3º lugar. Otto Glória assumiu no papel de selecionador a seleção em sete ocasiões entre 1982 e 1983, com a missão de levar Portugal ao Europeu de 84, mas saiu do cargo ainda antes da fase final com o saldo de três vitórias, um empate e três derrotas (duas delas com o seu Brasil, que assim vingou a humilhação sofrida em 1966). Otto treinou ainda em Espanha (Atlético de Madrid), França (Marselha), México (Monterrey) e Nigéria, cuja seleção levou à conquista da Taça das Nações Africanas em 1980. Morreria a 2 de setembro de 1986, no Rio de Janeiro, um dos mais brilhantes treinadores da história do futebol português.

 

ARMANDO FERREIRA (6 jogos): Ao longo de décadas a fio saíram do Barreiro inúmeros talentos para o futebol português. Um desses exemplos é Armando Ferreira, que ali nasceu em 23 de dezembro de 1919. Com 16 anos ingressou nas primeiras categorias do Barreirense, onde deu nas vistas como um homem golo. Numa altura em que o futebol ainda era pouco profissional em Portugal, formou-se em engenharia. Nos finais dos anos 30 transferiu-se para o Sporting, onde venceu seis campeonatos nacionais e três Taças de Portugal. Representou os leões em 142 ocasiões e apontou 55 golos, e só não foram mais porque a certa altura da sua longa passagem por Alvalade – foram 11 temporadas de leão ao peito – teve a concorrência dos… Cinco Violinos. Iniciou a carreira de treinador no clube da sua terra, o Barreirense, tendo conduzido a equipa à 1.ª Divisão nacional na época de 50/51. Treinou ainda os juniores do Sporting nos finais dos anos 50, e em 1961 chega à seleção nacional, em cujo banco se sentou em seis ocasiões. Iniciou a campanha de apuramento para o Mundial de 62, com uma vitória e um empate, tendo sido substituído no cargo pelo seu antigo companheiro de equipa, Fernando Peyroteo. Após a saída deste do cargo de treinador, Ferreira fez mais três jogos com a seleção, dois deles no Brasil, ante a seleção bi-campeã do Mundo, ambos concluídos com derrotas. No saldo final, Armando Ferreira somou uma vitória, um empate e quatro derrotas à frente dos destinos da seleção. Armando Félix Ferreira faleceu a 31 de julho de 2005.

RIBEIRO DOS REIS (6 jogos): Ele foi o primeiro selecionador/treinador nacional. É um vulto do futebol luso, nas suas mais variadas vertentes. Militar de profissão ele teve um papel preponderante na formação do futebol em Portugal. Ele foi jogador, treinador, árbitro, dirigente e jornalista desportivo. Um verdadeiro homem dos 7 ofícios. António Ribeiro dos Reis nasceu em Lisboa a 10 de julho de 1896. Enquanto futebolista desenvolveu a sua carreira primeiro no Casa Pia, passando depois pela equipa do Liceu Pedro Nunes, e posteriormente pelo Benfica, cuja camisola passou a defender a partir da temporada de 1913/14 e que envergou até final da sua carreira, em 1925. Foi precisamente em 1913 que enverga pela primeira vez a camisola do Benfica, numa partida ante o Sacavenense, em terceiras categorias. Contava então com apenas 16 anos! Estreou-se nas primeiras categorias dos encarnados em 1914 e de lá saiu em 1925. Foi treinador e dirigente do clube encarnado, sendo que neste último papel desempenhou, entre outras, funções de vice-presidente da Direção, e de presidente da Assembleia Geral, tendo tido, por exemplo, um papel importante no processo de construção do antigo Estádio da Luz. Enquanto treinador do Benfica, Ribeiro dos Reis venceu o Campeonato de Portugal de 1930, o primeiro conquistado pelo clube. 23 anos volvidos venceria a Taça de Portugal pelo emblema ao qual sempre esteve ligado. Foi ainda figura de proa na criação da seleção nacional, já que esteve presente na orientação do primeiro jogo da equipa das quinas em 1921, ante a Espanha. Nesse célebre encontro, além de ter defendido a Equipa das Quinas na condição de avançado-centro, teve ainda de fazer – no final – a crónica dos acontecimentos para o Sport de Lisboa, onde era redator. Era um apaixonado pelo jornalismo, tendo a sua incursão nos jornais tido início em 1914, precisamente no semanário Sport de Lisboa. Anos mais tarde, juntamente com o seu bom amigo Cândido de Oliveira, fundou o jornal A Bola, em cujas páginas também deixou um rico legado enquanto jornalista e mestre do Belo Jogo. No jornal da Travessa da Queimada exercido funções de redator principal e de diretor (entre 1951 e 1961). Os primeiros três jogos da história da seleção nacional foram dirigidos por um comité, em que os jogadores eram escolhidos por… voto, tendo em conta que esse mesmo comité era formado por vários elementos ligados ao futebol de então. Até que em 1924 Ribeiro dos Reis é convidado para selecionador/treinador nacional, O PRIMEIRO DA HISTÓRIA CENTENÁRIA DA SELEÇÃO. Numa primeira passagem esteve quatro jogos nos comandos do combinado nacional, todos eles de carater particular, realizados entre 1925 e 1926. Foi sob a sua batuta que neste período a seleção conquistou a sua primeira vitória, facto ocorrido em 1925, ante a Itália. A sua segunda passagem deu-se em 1934, e coincidiu com a primeira fase de apuramento da seleção para um Mundial, neste caso o de Itália. Na eliminatória para o Itália 34, Portugal defrontava a vizinha e poderosa Espanha, e o resultado foi uma catástrofe. No primeiro jogo, em Madrid, 9-0 a favor dos espanhóis, ao passo que na segunda mão, em Lisboa, os neustros hermanos voltaram a ganhar, desta feita por 2-1. Portugal tinha saído humilhado desta luta e a crítica de pronto lançou uma campanha a culpar o selecionador nacional por tal desfecho. Ribeiro dos Reis diria após esta dupla derrota com a Espanha que «tomou horror ao cargo (de selecionador», de maneira que saiu e nunca mais voltou. Foi agraciado com a Comenda da Ordem Militar de Avis, a Medalha de Mérito Desportivo, a Medalha de Mérito Internacional da Federação Portuguesa de Futebol, a Medalha de Ouro da Comissão Central de Árbitro, e a Medalha de Mérito da Associação de Futebol de Lisboa. Em 1995 foi agraciado a título póstumo com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito. Foi pois em homenagem a esta figura incontornável do futebol português que na temporada de 1961/62 a FPF coloca em ação a Taça Ribeiro dos Reis, uma competição destinada às equipas reservas do futebol português. Ribeiro dos Reis viria a falecer em 1961.


RUI SEABRA (6 jogos): O Mundial do México em 1986 constituiu-se como um dos piores pesadelos da história centenária da seleção nacional. Desde a polémica de Saltilho, em que os jogadores selecionados se desentenderam com a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) em relação aos prémios de participação, até à triste campanha dentro dos relvados mexicanos desenvolvida e que atirou os lusos para fora do certame ainda na fase de grupos, tudo foi um pesadelo para o selecionador de então, José Torres, que não resistiu aos tristes acontecimentos e deixou a Equipa das Quinas. Para o seu lugar entrou de forma temporária Rui Seabra, que não só acalmou os ânimos como ajudou a reconstruir a seleção. Na verdade, pouca ou nenhuma experiência tinha de campo quando assumiu os destinos da seleção no pós-Saltilho. Advogado de profissão, Rui Seabra tinha apenas experiência no dirigismo desportivo, quando aceitou o cargo de selecionador. E na verdade, nunca deu um único treino enquanto desempenhou a função! Verdade. O seu braço direito, o homem que calçava as chuteiras, era Juca, que seria o selecionador seguinte. A missão de Seabra era simples: curar as feridas de 86, unir novamente a seleção e garantir a qualificação para o Euro 88. A escolha de Rui Seabra para selecionador caiu mal na generalidade da comunicação social portuguesa, desde logo porque não trazia nenhuma experiência de treino, mas também porque era um cidadão com pensamentos de direita (esteve ligado ao CDS-PP) e a maioria dos jornalistas de então eram de… esquerda. Mas Seabra fez-se rodear de pessoas experientes na área do treino e da condução de jogadores, desde logo Juca, mas as coisas não correram bem, já que nos quatro primeiros jogos de apuramento para o Campeonato da Europa de 88 Portugal não ganhou um único encontro sob a liderança de Rui Seabra. Pior, empatou em casa com a modestíssima seleção de Malta! Seabra só esteve nos comandos da seleção em seis encontros – dois deles particulares. Numa entrevista dada ao site MaisFutebol, em 2016, Rui Seabra faria um balanço desta sua curta passagem pela FPF, ao referir que «convém sublinhar que os resultados eram secundários, atendendo às circunstâncias. Mas consegui, na altura, aquela que era a segunda melhor série sem derrotas da seleção. Só que não ganhava, empatava… Só ganhei à Bélgica (num particular) e até empatei com Malta».

 

AGOSTINHO OLIVEIRA (6 jogos): Após duas campanhas em Mundiais que ficaram muito aquém do esperado, o nome de Agostinho Oliveira foi o escolhido para acalmar as águas na seleção antes de se dar início a novos “mandatos” técnicos. Nascido a 5 de fevereiro de 1947 na Póvoa de Lanhoso, Agostinho Vieira de Oliveira foi atleta do Sporting de Braga, cujas cores defendeu na maior parte da sua modesta carreira de futebolista. O seu nome saltou para a ribalta na década de 90, por ter integrado a estrutura da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) no sentido de dar seguimento ao excelente trabalho desenvolvido na formação pela dupla Carlos Queiroz – Nelo Vingada. Passou quase duas décadas nas seleções mais jovens, onde traçou campanhas dignas de registo em fases finais de Mundiais de Sub-20 ou em Europeus de Sub-21, de Sub-18 e de Sub-16. Foi uma espécie de “bombeiro de serviço”, a primeira vez no pós-Mundial de 2002, onde a seleção lusa dirigida por António Oliveira desiludiu tudo e todos ao não passar a fase de grupos. Os portugueses haviam viajado para o Campeonato do Mundo realizado na Coreia do Sul e no Japão com o estatuto de favoritos à conquista do título, mas o que é verdade é que foi um autêntico desastre na sequência de duas derrotas impensáveis (ante a Coreia do Sul e os Estados Unidos da América) e um soco de João Vieira Pinto ao árbitro argentino Ángel Sanchez, um episódio que manchou ainda mais a prestação lusa, deitou tudo a perder. Com a saída de António Oliveira, a FPF entregou de forma interina a seleção principal a Agostinho Oliveira, que no último trimestre de 2002 realizou quatro particulares (ante Inglaterra, Tunísia, Escócia e Suécia) e não perdeu nenhum – duas vitórias e outros tantos empates. A sua segunda passagem pelo comando da seleção AA foi mais curta, mas resultou de um novo fiasco numa fase final de um Mundial. Em 2010, na África do Sul Carlos Queiroz não conseguiu manter o nível exibido quatro anos antes no Mundial da Alemanha, onde Portugal foi 4.º classificado. Mesmo com a super estrela planetária Cristiano Ronaldo a comandar – dentro do campo – a seleção, Queiroz jogou sempre à defesa e Portugal tombou com merecimento nos oitavos-de-final diante da futura campeã mundial, a Espanha. Agostinho Oliveira voltou a pegar na seleção, tendo realizado dois jogos no mês de setembro de 2010, ambos de carater oficial e com vista ao apuramento para o Europeu de 2012: um diante do Chipre (empate a quatro bolas) e outro ante a Noruega (derrota por 0-1). Após a chegada de Paulo Bento ao banco da seleção, Oliveira regressou à base, isto é, às seleções de formação, tendo saído dos quadros da FPF em 2011.

 

LAURINDO GRIJÓ (4 jogos): Após a saída do capitão (do exército) Maia Loureiro do cargo de treinador, em finais da década de 20, o cargo foi ocupado por Laurino Grijó, que em 1930 dirigiu o conjunto nacional em quatro ocasiões. Foi um período conturbado em termos de seleção, já que um conflito entre a Associação de Futebol de Lisboa e a Federação Portuguesa de Futebol escalou de tal modo que vários jogadores lisboetas se recusaram a vestir a camisola das quinas neste período. Ainda assim nada que impedisse Laurindo Grijó de entrar na história da seleção, já que ele foi o primeiro técnico a iniciar o seu percurso de selecionador/treinador com uma vitória. Antes dele, Cândido de Oliveira estreou-se com um empate, Ribeiro dos Reis entrou com uma derrota e Maia Loureiro conheceu um desaire no seu único jogo ao comando da equipa nacional. O triunfo aconteceu num particular em Lisboa, a 12 de janeiro de 1930, diante da poderosa Checoslováquia, por 1-0, graças a um tento do prodígio belenense Pepe. «Vencemos. E quando todos esperavam que a nossa equipa sucumbisse à técnica, à virtuosidade, à ciência fantástica dos profissionais checos, a vitória apareceu-nos sem a mais pequena sombra, sem nada, absolutamente nada, a empanar o brilho de um resultado tão lógico como foi o de ontem (12 de outubro de 1930). Dá gosto ver jogar assim». Estas foram palavras plasmadas na edição de 13 de outubro de 1930 do Diário de Lisboa a resumir a primeira da história dos lusos ante os checoslovacos. Sob a batuta de Grijó, a seleção venceu ainda a França, no Porto, por 2-0; e perdeu com a Bélgica em Antuérpia, por 1-2; e com a Espanha, no Porto, por 0-1. Laurindo Grijó era um homem do norte, tendo tido um papel muito ativo no associativismo desportivo. O Vilanovense deve-lhe muito, clube que numa publicação aquando de um aniversário seu nos anos 30 escreveu um texto onde evoca não só Laurindo como também o seu irmão Joaquim, dois homens que passaram pela direção do clube de Vila Nova de Gaia: «Laurindo e Joaquim Grijó deram ao Vilanovense Foot-ball Club o melhor do seu cuidado e do seu esforço. Dirigiram e foram seus atletas; representaram-no nos mais altos cargos do desporto nacional. A Laurindo e a Joaquim Grijó deve Vilanovense e a sua falange de admiradores alguns dos melhores momentos da sua carreira desportiva. E enquanto houver Vilanovense - hão-de figurar nos seus arquivos dois nomes: Laurindo e Joaquim Grijó». Laurindo desempenhou vários cargos associativos ao longo da sua vida, na Federação Portuguesa de Futebol (em que foi diretor, delegado e membro do conselho técnico), na Associação de Futebol do Porto (onde foi também diretor), na Associação Portuense de Hóquei (da qual foi presidente), na Associação Portuense de Basquetebol (onde foi vice-presidente), e na Associação Portuense de Atletismo (onde também desempenhou funções de vice-presidente).

 

ARMANDO SAMPAIO (4 jogos): Foi no Alentejo profundo que em 27 de junho de 1907 nasceu Armando Francisco Coelho Sampaio, uma figura que como tantos outras que passaram pela Universidade de Coimbra encarnou o estatuto de estudante-jogador de futebol com mestria e dedicação. Nasceu em Beja, mas cedo foi para Lisboa para estudar no Colégio Militar. Jogou duas temporadas nas 2.ª e 3.ª categorias do Sporting na primeira metade dos anos 20, sendo que concluído o liceu parte para Coimbra para estudar medicina. Representou então a Académica, primeiro como jogador e depois como diretor. Isto, também nos anos 20. Após a conclusão do curso regressa a Lisboa, onde nunca esqueceu o futebol, tendo em 1932 feito parte do Conselho Técnico da seleção nacional e o Delegado da Direção do Sporting, clube este do qual era o sócio n.º 49. Em 1936 regressa ao seu Alentejo natal, mais concretamente para Portalegre, onde não só exerceu a profissão de médico como também de dirigente e técnico do Grupo Desportivo Portalegrense. Foi uma figura ligada ao Estado Novo, tendo entre outros cargos desempenhado funções de Delegado Regional da Mocidade Portuguesa, tendo nesta função promovido na região de Portalegre diversas modalidades desportivas, entre outras, o voleibol, o atletismo, o aeromodelismo, a ginástica e o ténis de mesa. Esteve ainda ligado ao jornalismo, tendo colaborado, entre outros títulos, com A Bola e a Voz Portalegrense, último jornal este do qual foi diretor entre 1949 e 1965. Armando Sampaio chegou ao comando da seleção nacional a 27 de fevereiro de 1949, num jogo em Génova diante da Itália, que se saldou por uma vitória transalpina por 4-1. Realizou mais três jogos como selecionador, sendo um deles diante do País de Gales, o primeiro entre ambas as seleções, com Portugal a vencer por 3-2. Este encontro, realizado em Lisboa a 15 de maio de 1949, teve a curiosidade de que um dos golos dos lusos ter sido apontado por outro alentejano, um conterrâneo de Armando Sampaio, de nome Patalino, provavelmente, o melhor futebolista que o Alentejo produziu em toda a sua história. Este foi, aliás, o único golo apontado por Patalino com a camisola das quinas. Armando Sampaio morreu em Portalegre a 12 de janeiro de 1982.

 

VIRGÍLIO PAULA (3 jogos): A atividade da seleção nacional ao longo de toda a década de 40 é pautada por jogos de caráter particular, dada a ausência do Campeonato do Mundo do calendário internacional em virtude da II Guerra Mundial. Foi um período em que os lusos conheceram mais derrotas do que vitórias. Em 21 jogos realizados nos anos 40, Portugal perdeu 10, empatou quatro e venceu sete. Na reta final desta década, a Equipa das Quinas foi orientada por um dos pioneiros do futebol em Portugal, alguém que como jogador esteve nos primeiros matchs disputados, nas primeiras competições realizadas. Em suma, no tempo em que futebol português era ainda uma criança. Falamos de Virgílio Paula. Nasceu a 3 de setembro de 1890 e diz-se que foi um avançado com talento nos anos 10 do século passado. Atuou na equipa principal do Benfica entre 1909 e 1913, tendo neste espaço temporal ajudado os encarnados a vencer três campeonatos de Lisboa. Era doente por futebol, segundo reza a história, tendo sido peça preponderante para a organização do Benfica enquanto clube no plano administrativo. Esteve ainda na génese do Clube de Futebol Os Belenenses, já que em 1919 se juntou a Artur José Pereira para fundar este nobre emblema do desporto nacional. Virgílio Paula é avô materno de José António Saraiva, ilustre arquiteto, jornalista, cronista e autor português, e que entre outros cargos foi diretor dos semanários «Expresso» e «Sol». Sobre o seu avô, este já desaparecido vulto das letras portuguesas escreveu o seguinte texto: «Ele foi dos portugueses que tiveram o privilégio de dar os primeiros pontapés na bola em solo nacional: segundo a história que sempre ouvi na família, participou em célebres desafios contra uma equipa formada por ingleses que estavam cá a montar o Cabo Submarino. Este meu avô era médico, chamava-se Virgílio Paula, e não se ficou pelos jogos iniciais: esteve no núcleo que lançou o futebol em Portugal, com Ribeiro dos Reis, Cândido de Oliveira e outros. Jogou a seguir no Benfica, onde conquistou vários troféus, sendo um dos ‘dissidentes’ que decidiram sair para fundar o Belenenses (tendo hoje o seu nome cravado em letras de bronze num dos pilares do Estádio do Restelo)»Virgílio Paula comandou a seleção nacional em três encontros no final da década de 40, mais precisamente diante da França – derrota por 24, em Lisboa, no ano de 1947; derrota em Madrid ante a Espanha, por 2-0, em 1948; e vitória perante a República da Irlanda por 2-0, também em 1948 num jogo realizado em Lisboa. Faleceu a 9 de outubro de 1951.

 

FERNANDO PEYROTEO (2 jogos): Como futebolista, ele foi um dos maiores de sempre do futebol em Portugal. O seu nome impõe respeito e atrai admiração de todos os quadrantes desportivos. Foi um dos primeiros fenómenos do futebol lusitano e dá pelo nome de Fernando Peyroteo. Nasceu a 10 de março de 1918, em Humpata, Angola (na época colónia portuguesa) e desde cedo revelaria queda para a bola, em especial para a arte de marcar golos. E começou a marcá-los, e muitos diga-se passagem, ao serviço do Sporting Clube de Luanda. Aos 19 anos chegou a Lisboa, mais precisamente no dia 26 de junho de 1937 e a partir daqui começou a escrever história ao serviço do Sporting Clube de Portugal. No seu primeiro ano de leão ao peito, ajudaria o clube a conquistar um Campeonato de Portugal. Este foi aliás o único Campeonato de Portugal (a prova que deu origem à Taça de Portugal) que conquistaria. Em termos de palmarés venceria ainda cinco Campeonatos Nacionais da 1ª Divisão e quatro Taças de Portugal. Foi por seis vezes o melhor marcador do Campeonato Nacional, prova em que apontou 331 golos em 197 jogos, uma média de mais de 1,6 golos por jogo, média ainda hoje não superada por nenhum jogador do mundo em jogos referentes aos “nossos” campeonatos nacionais. No total foram 393 jogos com a camisola leonina (entre 1937 e 1949) tendo marcado 635 golos (média de 1,61 por jogo), sendo que a totalidade de jogos disputados pelo Sporting e pela seleção nacional foi 432, tendo marcado 700 golos (média de 1,62 por jogo). Sem dúvida um dos maiores goleadores de sempre do futebol português e mundial com esta impressionante média de golos por jogo. Pela seleção nacional atuou por 20 ocasiões e apontou 14 golos. Peyroteo foi um jogador que ao longo da sua brilhante carreira estabeleceu inúmeros recordes pessoais, sendo um deles o facto de ser o jogador português que mais golos marcou num só jogo em campeonatos nacionais, mais precisamente nove tentos contra o Leça em 22 de fevereiro de 1942, jogo que o Sporting venceu por 14-0. Foi ainda o jogador português que mais golos consecutivos marcou num só jogo a contar para campeonatos nacionais: cinco ao Vitória de Guimarães a 8 de fevereiro de 1942. Foi o atleta com mais golos marcados ao Benfica, 64 em 55 jogos (média de 1,2 por jogo), e ao FC Porto, 33 em 32 jogos (média de 1,02 por jogo). Fernando Peyroteo era uma máquina de fazer golos, e foi um dos integrantes do famoso quinteto sportinguista das décadas de 40 e 50 denominado de Os Cinco Violinos, que para além de Peyroteo era ainda composto por Jesus Correia, Albano, Travassos e Vasques. Terminou a sua carreira aos 31 anos. Foi selecionador nacional entre 1961 e 1962, tendo como principal feito ao serviço da seleção das quinas o simples facto de ter lançado um jovem chamado... Eusébio da Silva Ferreira. Um acontecimento visto numa das derrotas (2-4) mais humilhantes da seleção lusa, diante do modesto Luxemburgo, em 8 de outubro de 1961. O outro jogo de Fernando Peyroteo enquanto treinador de Portugal saldou-se por nova derrota (0-2), desta feita em Londres ante a poderosa Inglaterra, a 25 de outubro desse mesmo ano. Faleceu em 28 de novembro de 1978, com apenas 60 anos.

 

NELO VINGADA (2 jogos): Ao longo dos mais de 100 anos de história da equipa nacional, foram alguns os técnicos que ocuparam o banco de forma interina, ou em jeito de transição. Foi o caso de Nelo Vingada, um nome que para sempre irá ficar ligado à história do futebol nacional, já que ele foi o fiel escudeiro de Carlos Queiroz na restruturação do futebol luso na década de 80. Uma reforma que aconteceu desde a base, isto é, desde os escalões da formação, e que teve uma maior profundidade com a chegada à Federação Portuguesa de Futebol (FPF) no início dos anos 80 do ex-magriço José Augusto, figura que haveria de ter um papel preponderante na criação da geração de ouro. Foi ele que na primeira metade da referida década chama para trabalhar na Praça da Alegria – a sede da federação – uma dupla que haveria de revolucionar – no bom sentido da palavra – o futebol português. Carlos Queiroz e Nelo Vingada. Foram estes homens os pais da Geração de Ouro, foram eles os autores de um processo de transformação e reformulação do futebol jovem que até hoje continua a dar frutos. Queiroz e Vingada traçaram as linhas mestras que (re)organizaram o departamento de futebol juvenil da FPF, levando o Desporto Rei luso para patamares de excelência nunca dantes vistos. Antes de chegar aos quadros da FPF, Vingada – que como jogador tinha sido um modesto médio em clubes da zona de Lisboa, como o Atlético, Sintrense e o Vilafranquense – tinha trabalhado como treinador principal precisamente em dois emblemas que havia representado como atleta, o Sintrense e o Vilafranquense. Com Queiroz alcançou o Olimpo dos Deuses ao sagrar-se bi-campeão mundial de sub-20 – em 1989 e em 1991 –, tendo acompanhado o professor quando este transitou para a seleção principal em 1991. Nascido em Serpa a 30 de março de 1952, Eduardo Manuel Martinho Vingada, o seu nome completo, assumiu o comando da seleção nacional AA no período de transição entre Carlos Queiroz e António Oliveira, em finais de 1993, após Portugal ter falhado a qualificação para o Mundial de 94. Vingada orientou a seleção em dois jogos particulares realizados além-fronteiras em janeiro e abril de 1994. O primeiro em Vigo, diante da Espanha, saldado por um empate a duas bolas; e o segundo em Oslo, ante a Noruega, que terminou com uma igualdade a zero. Nelo Vingada fica ainda na história do futebol português pelo facto de ter alcançado a melhor classificação de sempre da Equipa das Quinas em Jogos Olímpicos, o 4.º lugar. Em 1996, em Atlanta, Portugal chegou às meias-finais do torneio olímpico, tendo perdido a medalha de bronze para o Brasil de Ronaldo (Fenómeno) e companhia. O percurso de Vingada como treinador conheceu inúmeros capítulos na 1.ª Divisão Nacional ao serviço de Marítimo e Académica, dois dos muitos clubes onde trabalhou. Após sair de Portugal, a sua carreira tem-se desviado sobretudo com mais inclinação para o Médio Oriente, onde tem trabalhado quer em clubes, quer em seleções.

 

FERNANDO VAZ (1 jogo): Ter a honra de vestir o manto sagrado do nosso país no caso de um jogador, ou de treinar a seleção no caso de um treinador nem que seja por uma única ocasião é já por si um momento marcante. Bem o pode dizer Fernando Vaz, que só se sentou no banco da Equipa das Quinas numa única ocasião. Nascido a 3 de agosto de 1918, em Benguela (Angola), Fernando Vaz foi, enquanto técnico, um dos diamantes saídos da mina que era a Casa Pia de Lisboa, de onde havia saído outro nome sonante do futebol luso, Cândido de Oliveira. Vaz nasceu na então colónia lusa Angola e regressou a Portugal com pouco mais de um ano de idade após a morte do seu pai. Ingressou na Casa Pia aos nove anos, como tanto outros meninos órfãos, e lá se formou como homem e como futebolista. Ingressou na primeira equipa dos casapianos com apenas 17 anos, tendo feito parte do conjunto que representou o clube na sua primeira aparição na 1.ª Divisão Nacional, em 38/39. E quando se previa uma carreira auspiciosa nos retângulos da bola portugueses, eis que com apenas 22 anos de idade Fernando Vaz coloca um ponto final no seu percurso de futebolista em virtude das exigências que o seu estatuto de empregado bancário se lhe deparavam. Paralelamente ao emprego no banco, Vaz era colaborador de vários jornais, a saber, o Diário de Lisboa, a revista Stadium, ou o jornal A Bola, para onde havia sido convidado por Cândido de Oliveira e onde chegou a ser chefe de redação. Era um homem do futebol e acima de tudo um exímio condutor de homens e profundo conhecedor dos conceitos técnicos e táticos do jogo. Tais virtudes valeram-lhe o convite do seu mestre, Cândido de Oliveira, para o coadjuvar no banco do Sporting, em 1947/48. Ali esteve como fiel escudeiro de Mestre Cândido ao longo de quatro temporadas, coroadas com a conquista de três campeonatos nacionais e uma Taça de Portugal. Na hora de soltar amarras, Fernando Vaz teve a bênção de Cândido de Oliveira, que o recomendaria primeiro ao Belenenses e depois ao Sporting de Braga no sentido de assumir as equipas principais destes clubes. Isto, na década de 50. Foi precisamente nesta década, mais concretamente no dia 19 de dezembro de 1954 que Fernando Vaz dirigiu pela primeira e única vez a seleção nacional. Foi em Lisboa, diante da República Federal da Alemanha. Nesta altura, Vaz treinava o Sporting de Braga, cuja equipa se passeava nos relvados (e pelados) portugueses com um futebol de alto nível, facto que fez com que o conjunto minhoto fosse rotulado de “Arsenal do Minho”. Voltando ao único jogo de Vaz na seleção, ele terminou com a vitória por 3-0 dos alemães, um resultado de mentira, como titulou o Dário de Lisboa, no sentido em que não fosse o manifesto azar dos lusos o score podia ter sido muito bem ao contrário. O Vitória de Setúbal é, provavelmente, a obra prima de Fernando Vaz enquanto treinador de futebol. Na cidade do Sado esteve oito temporadas, onde construiu, quiçá, os capítulos de maior requinte do emblema sadino, tanto a nível nacional como a nível internacional. No Bonfim venceu duas Taças de Portugal. Treinou ainda o Sporting – onde venceu um campeonato nacional e uma Taça de Portugal –, o FC Porto, a CUF, o Atlético, o Beira-Mar, o Caldas, a Académica e o Marítimo. Após deixar os bancos, no final da década de 70, dedicou-se não só ao jornalismo – onde foi crítico de futebol – e ao dirigismo desportivo – foi, entre outros, dirigente do sindicato de treinadores. Faleceu em 25 de agosto de 1986.

 

MAIA LOUREIRO (1 jogo): Além de Fernando Vaz só outro homem orientou a seleção nacional numa única ocasião. Maia Loureiro, o seu nome. Nascido nos finais do século XIX (1897) o capitão Maia Loureiro teve uma brilhante carreira militar, a sua principal atividade profissional, a qual desenvolveu a par com a paixão pelo desporto, o futebol em particular. Foi futebolista no Sporting, clube cujas cores defendeu nas 4.ª categorias, tendo ainda praticado atletismo no emblema lisboeta. Finda a modesta (e amadora) carreira de desportista, enveredou pelo dirigismo. Além de ter desempenhado cargos na direção, na Assembleia Geral e no conselho fiscal do Sporting, Maia Loureiro esteve por várias décadas ligado à Federação Portuguesa de Futebol (FPF), tendo sido eleito pela primeira vez presidente deste organismo em 1951. Esteve no cargo até 1954, sendo substituído por Ângelo Ferrari num curto período de três anos, já que em 1957 Maia Loureiro foi reeleito presidente da FPF, lugar que ocupou até 1960. Mas foi muito antes de se sentar na cadeira da presidência da federação, que este oficial do exército se sentou no banco da seleção nacional. Facto ocorrido em 1 de dezembro de 1929, em Milão, onde Portugal defrontou a Itália. 6-1 a favor dos italianos foi o resultado final num jogo em que a seleção não atuou com os seus melhores jogadores, que se encontravam suspensos pela FPF que alegadamente os considerou… profissionais! Tempos em que o amadorismo ditava leis. Quanto ao match de Milão, este decorreu num relvado transformado num pantanal de lama, em virtude das chuvas torrenciais que assolaram a cidade italiana nos três dias anteriores. Esta condicionante a juntar ao facto de a Squadra Azzurra ser mais forte sob o ponto de vista individual e coletivo ajudaram àquela que era então a maior derrota do combinado nacional numa partida internacional. Apesar disso, Portugal soube jogar com brio, sobretudo no primeiro tempo, onde foram perigosos no assédio à área local. Maia Loureiro faleceu em setembro de 1965.

 

Nos primeiros três jogos realizados, a seleção nacional foi orientada por um Comité de Seleção. Partidas essas de caráter particular e todas elas realizadas diante da Espanha, entre 1921 e 1923. Assim, o Comité da Seleção que realizou o primeiro jogo da história, em 18 de dezembro de 1921 foi composto por Carlos Vilar (na imagem), Pedro Del Negro, Reis Gonçalves, Virgílio Paula, Plácido Duro e Júlio de Araújo. No segundo encontro, ocorrido a 17 de dezembro de 1922, o Comité da Seleção foi composto por Reis Gonçalves, José Pereira Júnior, Joaquim Narciso Freire, Guilherme Augusto Alves de Sousa e Raúl Nunes. Por fim, o Comité da Seleção composto por Virgílio Paula, Ribeiro dos Reis e Raúl Nunes orientou o combinado nacional no terceiro jogo de sempre realizado em 16 de dezembro de 1923. Todos estes três encontros se saldaram por derrotas.