sexta-feira, setembro 11, 2026

Histórias do Futebol em Portugal (52)... Boavista: o pioneiro do profissionalismo em Portugal e a estreia do mítico xadrez nas camisolas

 

Uma das primeiras equipas do Boavista após a implementação 
do xadrez como manto sagrado 

O doloroso presente que o Boavista vive não tem força suficiente para ofuscar o seu passado de glória. Ao longo de mais de um século de vida, o emblema portuense escreveu centenas de páginas relevantes no desporto português. E esta evidência leva-nos hoje até 1933, ano em que o clube do Bessa não só se reinventou sob o ponto de vista indumentário, como de igual modo teve um papel preponderante para acabar com o profissionalismo encapotado que vigorava em Portugal. E tudo isto pela mão de uma figura incontornável do clube do Bessa e do próprio desporto nacional: Artur d’ Oliveira Valença. Nascido em fevereiro de 1897, este tripeiro de gema (viria a falecer em 1978) foi uma figura incontornável da primeira metade do século XX não só no desporto como da sociedade portuense dessa altura. Foi um homem multifacetado ao desempenhar diversos cargos ao longo da sua vida, fazendo-o sempre com um sentido de inovação que deixou marca. Era um apaixonado pelo desporto de uma forma geral, embora o boxe tenha sido o seu primeiro grande amor. Talvez porque na sua juventude viveu alguns anos em França, onde a modalidade tinha força e prestígio. Regressado a Portugal nos anos 10, não só funda o Boxing Clube de Portugal como lança e orienta as primeiras estrelas da modalidade, casos de Tavares Crespo e Santa Camarão. Como empreendedor multifacetado que era, Oliveira Valença tinha de igual modo uma paixão pela escrita, e pelos jornais em particular, sendo que nos anos 20 criou o Sporting, o primeiro jornal desportivo bissemanário portuense. Este jornal serviria – sempre pela mão do seu fundador – de embrião para a fundação de outros organismos/clubes de diversas modalidades, cados da Federação Portuguesa de Boxe, da Federação Portuguesa de Remo, da Liga Portuguesa de Clubes de Natação, do Moto Club de Portugal, da Liga Portuguesa de Atletismo, entre outros. Oliveira Valença organizaria diversas competições desportivas no país ligadas a estas e a outras modalidades. Claro que o futebol tinha também um espaço reservado no seu coração. O futebol e muito em particular o seu Boavista Futebol Clube, ao qual esteve igualmente ligado enquanto presidente. E foi nesta condição que no regresso à Invicta após uma das suas idas a França trouxe a ideia de implementar as camisolas axadrezadas no clube do Bessa. As famosas camisolas axadrezadas que tornaram o Boavista popular em todos os cantos do país e noutros cantos do planeta. 

O peculiar equipamento e símbolo 
do Boavista antes do xadrez

Até aí, o emblema portuense apresentava uma indumentária um pouco fora do comum para aqueles dias, isto é, usava uma camisola às riscas verticais em azul, vermelho e branco! Mas não só o traje foi completamente reformado por influência de Oliveira Valença. O próprio emblema do clube foi alterado para o qual conhecemos hoje em dia: um retângulo formado por 13 quadrados pretos e 12 quadrados brancos exibidos em forma de xadrez. Oliveira Valença não só apenas alterou para sempre a estética do Boavista. Ele conduziu de igual modo o clube numa luta acérrima que procurou colocar um ponto final no profissionalismo encapotado que vigorava no futebol português nos anos 20. Nessa altura já havia jogadores profissionais em Portugal, pese embora fossem remunerados secretamente e/ou escondidos em empregos de fachada, pois na verdade passavam o tempo todo a treinar e a jogar. Já na época os clubes mais endinheirados pagavam a muitos jogadores prémios de jogo de forma totalmente clandestina, e como tal longe dos olhares da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e das associações de futebol distrital, organismos que proibiam o profissionalismo. Mas Oliveira Valença foi um dos rostos principais dessa luta para acabar com o amadorismo de fachada que existia em Portugal, ele e o seu Boavista. E esse murro na mesa aconteceu oficialmente em 1933, precisamente o ano em que o clube do Bessa estreou a sua hoje mítica camisola axadrezada. O fim do profissionalismo encapotado vinha, aliás, sendo discutido aberta e frontalmente por algumas personalidades do panorama desportivo luso, casos de Cândido de Oliveira e do próprio Oliveira Valença. 

A transição de símbolos do clube
O grito do Ipiranga terá sido dado na sequência do polémico “caso Nova”, o qual envolveu o Boavista e o Futebol Clube do Porto. Reza a história que um dirigente boavisteiro terá oferecido do seu bolso 70 escudos por semana ao futebolista João Nova para que este vestisse de xadrez, mas da Constituição chegava uma oferta maior: 150 escudos por semana. Nova aceita a proposta dos portistas e do Bessa surge a denúncia à Federação que valeu a suspensão do futebolista por um ano. No entanto, este caso levantou outras suspeitas quer de dirigentes federativos, quer de dirigentes das associações de futebol distrital. A Associação de Futebol do Porto terá descoberto oito jogadores “profissionais” no Boavista, multando posteriormente o clube em 12.000 escuros e suspendendo-o de três jornadas do seu campeonato regional. Estes episódios fizeram com que Oliveira Valença e o Boavista enquanto instituição desportiva lutassem com mais vigor pela legalização do profissionalismo no futebol. Até que a dia 29 de janeiro de 1933 se fez história em Portugal: o Boavista assumia-se abertamente como o primeiro clube profissional em Portugal. 

Oliveira Valença 
E fê-lo num encontro diante do Benfica, no Bessa. Foi um dia de uma estreia tripla, isto é, pela primeira vez o Boavista envergou as célebres camisolas axadrezadas, fez ainda a estreia do seu nome emblema, e atuou pela primeira vez e assumidamente com jogadores pagos. A ousadia boavisteira por este último facto acabaria por se pagar caro, já que na sequência deste jogo a FPF decidiu suspender o clube das suas provas pelo período de um ano. Porém, este seria o primeiro passo para que fossem abertas as portas do profissionalismo em Portugal. É justo pois atribuir ao Boavista o título de “pioneiro do futebol profissional em Portugal”. Quanto ao célebre jogo ante o Benfica o score saldou-se num 4-0 a favor dos portuenses, graças a um hattrick de Ferraz e a um golo de Vasco Nunes. O primeiro onze de profissionais de cara destapada em Portugal vestiu pois de xadrez e foi o seguinte: Soares do Reis, Luzia, Óscar, Carlos Pereira, Guimarães, Serafim, Klamar, Vasco Nunes, Costuras, Ferraz e Lima.

quinta-feira, setembro 03, 2026

Histórias do Planeta da Bola (36)... Irmãos de sangue, destinos distintos no caminho da glória

Ser filho da mesma mãe e do mesmo pai não significa que dois (ou mais) irmãos possam ter as mesmas apetências para desempenhar uma qualquer atividade com arte e engenho. Isso acontece também no futebol, onde o talento com a bola não se repercutiu entre irmãos biológicos. Isto abre-nos a porta para recordar quatro lendas do futebol planetário cujos irmãos de sangue não conseguiram atingir o estrelato.

Zoca e Pelé no Santos
O primeiro exemplo diz-nos que numa monarquia o acesso ao trono não está predestinado a todos os irmãos de sangue. Que o diga o Rei Pelé, cujo irmão não lhe seguiu as pisadas no glorioso Santos da década de 60. Jair Arantes do Nascimento era dois anos mais novo que o seu irmão Edson – o nome de batismo do Rei – e quando se tentou afirmar no clube da Vila Belmiro já Pelé lá reinava. Tal como o seu irmão mais velho, Zoca, como era conhecido Jair, cresceu na rua a correr de pé descalço atrás de uma bola de futebol feita de trapos. Edson e Jair partilhavam a mesma paixão pelo jogo, muito influenciados pelo pai de ambos, Dondinho, também ele jogador de futebol. Vendo o diamante bruto que Pelé já era, o Santos decide nos inícios da década de 60 chamar Zoca para integrar as suas equipas de formação. As dificuldades de Zoca - que atuava como avançado - em se impor no futebol começaram assim que chegou à equipa principal do clube, que tinha uma poderosa linha ofensiva constituída por Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Destronar algum destes craques era uma missão quase impossível para Zoca, que mesmo assim entre 1961 e 1962 realizou 15 jogos com o conjunto principal santista, tendo apontado quatro golos. A pressão de ser irmão do Rei foi grande para Zoca, e exemplo disso terá acontecido em abril de 61 num jogo diante do América do Rio de Janeiro a contar para o Torneio Rio-São Paulo. Numa altura em que o Santos já goleava o clube carioca, o técnico santista, Lula, decidiu dar uma oportunidade a Zoca, que então entrou para o lugar de Coutinho. De pronto, houve um burburinho nas bancadas da Vila Belmiro, que se entusiasmaram com a presença do irmão do seu Rei. Quase no términus da partida, e numa altura em que o Santos já vencia por 6-1, o árbitro assinala uma grande penalidade a favor da equipa da casa. Chamado à conversão, Zoca treme e desperdiça o castigo máximo. O aspirante não estava à altura do seu legado de sangue. A sua presença na equipa principal do Santos foi sendo cada vez mais intermitente, até que com apenas 20 anos de idade tomou a decisão de abandonar o futebol para se tornar no fiel escudeiro do seu irmão. Por outras palavras, passou a trabalhar nas empresas associadas à marca Pelé como “braço direito” do irmão nos negócios a ele associados. Zoca viria a falecer cerca de dois anos antes que o seu irmão, mais concretamente em 2020, vitimado por um cancro na próstata.

Franz e Walter num amigável nos anos 70
entre o Bayern e o TSV 1860
Outro exemplo de irmãos que tiveram sortes distintas no futebol vem de Munique, mais precisamente no bairro de Giesing, onde na década de 50 os irmãos Walter e Franz Beckenbauer cresceram juntos com a paixão comum pelo futebol que ali praticavam na rua. Quatro anos mais novo que o seu irmão, Franz começou por jogar como guarda-redes nos animados duelos que eram disputados entre a miudagem do bairro, mas rapidamente se percebeu que o seu talento ia muito para lá das balizas. Foi Walter que abriu as portas do Bayern para o seu irmão mais novo, clube que representou nas camadas jovens. Diz-se que Walter era um médio ofensivo com algum talento e rapidez, última característica esta comum ao seu irmão mais novo. Por seu lado, Franz atuava no vizinho de Munique, o TSV 1860, o clube onde jogava a maioria dos amigos dos dois irmãos Beckenbauer. E com a chegada do irmão mais novo ao colosso da Baviera, Walter faz o caminho inverso e saí do Bayern para ingressar no TSV 1860. E enquanto Franz disparou rumo ao estrelato mundial, quer ao serviço do Bayern, quer da seleção alemã, o irmão mais velho acabou por se afastar do futebol e enveredar por uma carreira ligado à venda de impressoras.

Johan (o terceiro na fila de baixo) e o seu 
irmão Henny (segundo na fila de cima) atuaram
juntos na formação do Ajax
Se atravessarmos a fronteira entre a Alemanha e os Países Baixos constatamos que em Amesterdão se vivenciou uma história muito parecida com a dos irmãos Beckenbauer. Neste caso, a história dos irmãos Cruyff, Hermanus e Johan. O primeiro era mais velho dois anos e meio, e tal como o seu irmão jogou nas categorias base do Ajax. Diz-se que era um lateral esquerdo raçudo e com algum talento. Henny – como ficou conhecido no mundo da bola o irmão do Cruyff mais mediático – e Johan fizeram juntos o curto caminho que separava a sua casa, na zona de Betondorp, rumo ao estádio do Ajax e juntos chegaram a jogar pela equipa da academia na época de 62/63. Conta-se que sempre que o franzino Johan, então com 15 anos, sofria uma entrada mais dura de algum adversário, Henny corria em socorro do irmão para tirar satisfações com o infrator. Após sair da formação do Ajax, Henny ainda atuou por duas temporadas ao serviço do modesto Blauw Wit, competindo nos escalões amadores. Por pouco tempo, já que após ter decidido pendurar as botas, ainda jovem, tomou conta de uma loja de artigos desportivos em Amesterdão, a qual batizou de Smit-Cruyff. Apesar de não ter seguido o caminho do irmão mais novo, Henny nunca deixou de amar o futebol, tendo inclusive feito parte da equipa de veteranos do Ajax, clube do qual sempre foi um fervoroso adepto, independentemente do seu irmão ter sido a maior lenda do clube de Amesterdão. A ligação de Henny a estrelas do futebol neerlandês não se esgotou ao seu irmão mais novo, já que a sua filha, Estelle Cruyff, foi casada com outra super-estrela do futebol laranja dos anos 80 e 90, Ruud Gullit. Henny viria a falecer em 2023, numa altura em que há já vários anos sofria da doença de Alzheimer.

Hugo, Lalo e Diego num jogo especial que juntou 
os três irmãos Maradona  
Voltando à América do Sul para conhecer um outro caso de irmãos que seguiram caminhos completamente distintos no Planeta da Bola. Estamos em Villa Fiorito, um bairro pobre nos subúrbios de Buenos Aires, onde numa casa modesta vivia o casal Diego Maradona e Dalma Salvadora Franco. Depois do nascimento de Ana Maria e Rita chegou o terceiro filho do casal, o primeiro filho varão, a quem deram o nome do pai, Diego. Depois deste vieram Raúl (Lalo), Hugo (El Turco), Maria Rosa e Cláudia, que completaram assim o Clã Maradona. Como tantos meninos pobres na Argentina os três rapazes passaram a infância na rua, atrás de uma bola. Porém, só um deles conseguiu chegar ao Olimpo: Diego Armando Maradona. Lalo e El Turco também enveredaram pela carreira de futebolistas, mas viveram sempre na sombra do irmão mais famoso. Por outras palavras, o sobrenome Maradona foi-lhes abrindo sempre portas “aqui e acolá” mais do que o talento que apresentavam como "cartão de visita". Hugo, vulgo El Turco, por exemplo, que era nove anos mais novo que Diego chegou a jogar nas seleções jovens da Argentina – jogou, inclusive, o Mundial de sub-20 de 1985 como seu país–, embora fosse notório que estava muito longe de ter o talento do seu irmão mais velho. Começou no Argentino Juniors, o mesmo clube que lançou Diego. Em 1987 o mais velho dos irmãos Maradona usa da sua influência junto dos dirigentes do Napoli para trazer Hugo para o clube do sul de Itália. Pedido aceite, mas… Hugo não era Diego e o Napoli decido empresta-lo ao Ascoli. Hugo não encantou, longe disso, e a partir dali tornou-se num verdadeiro globetrotter à boleia do futebol. Passou por Espanha, Venezuela, Áustria, Japão, Canadá, Uruguai e Paraguai, sempre de forma muito discreta. Hugo morreu em 2021 na cidade onde o seu irmão mais velho era D10S: Nápoles. Por sua vez, Lalo Maradona teve um percurso muito semelhante ao de Hugo. Fez, porém, uma carreira um pouco mais pomposa que a de Hugo, tendo-se estreado no clube pelo qual era apaixonado – tal como os seus dois irmãos –, o Boca Juniors em meados dos anos 80. Lalo era um médio de vocação ofensiva, que mesmo não tendo deslumbrado na Bombonera deu o salto para a Europa nos finais dessa década de 80. Foi para o Granada, de Espanha, para onde foi a troco de 25 milhões de pesetas. As coisas até nem começaram mal para Lalo, que nos primeiros tempos entusiasmou os adeptos locais com o seu futebol com rasgos maradonianos. No entanto, com a ausência de resultados positivos, a estrela de Lalo em Granada começou a pouco e pouco a apagar-se ao final de duas épocas em que ali esteve. Ainda assim, há um episódio muito especial na vida dos três irmãos Maradona vivenciada aquando da estadia de Lalo em Granada. Ele, juntamente com Diego e Hugo envergaram a camisola do clube andaluz num encontro particular ante os suecos do Malmo, em 1987. Os espanhóis venceram por 3-2, com um golo de Lalo após assistência de… Diego. Após a descida do Granada à 2.ª Divisão espanhola, Lalo deixou o clube e rumou ao Japão para defender as cores do Avispa Fukuoka. Dali imitou Hugo e tornou-se num globetrotter ao jogar em vários clubes de países distintos: o Defensa y Justicia (Uruguai), o Toronto Italia (Canadá), Deportivo Municipal (do Perú), o Deportivo Laferre e o Deportivo Italia (ambos da Venezuela). Aquele que para Diego era o melhor dos três irmãos Maradona (!) é hoje em dia treinador de equipas de formação na Argentina e o único dos três ainda vivo.    

sexta-feira, agosto 28, 2026

Flashes Biográficos (19)... Dulce Rosalina

DULCE ROSALINA (Brasil): Não é só dentro das quatro linhas que o futebol tem os seus encantos. Fora delas, o mesmo será dizer nas bancadas, ele ganha alma e paixão genuína através dos adeptos que transformam os estádios em verdadeiros palcos de emoção. A envolvência das bancadas dita o ritmo do jogo e cria uma atmosfera única. Vem isto a propósito da nossa estrela de hoje, que não só fez história ao imprimir um novo estilo de apoio nas bancadas, como e acima de tudo derrubou a barreira do preconceito em relação à presença e liderança feminina num espaço onde predominava – e ainda predomina maioritariamente – o sexo masculino. A nossa revolucionária é Dulce Rosalina, a carioca que há 70 ANOS ATRÁS se tornou na primeira mulher a líder uma claque – ou torcida – no Brasil… e no resto do Mundo. Nascida no Rio de Janeiro, em 1935, Dulce era filha de um imigrante português fanático pelo Vasco da Gama. Estabelecido no Bairro da Saúde, zona portuária que contava com uma massiva comunidade portuguesa com fortes ligações ao emblema da Cruz Maltina, o pai de Dulce foi a maior influência para que desde muito cedo a menina também ela se tornasse numa fervorosa adepta dos vascaínos. Mas não foi só a paixão pelo Vasco que este estivador de profissão transmitiu à sua filha. A defesa dos direitos humanos foi um dos ensinamentos que este homem sempre procurou transmitir à sua descendente, sobretudo no que concerne à abolição do preconceito racial. Ora, sendo o Vasco da Gama um dos clubes pioneiros no que diz respeito à integração de jogadores negros e operários nas suas equipas, deu-se aqui o casamento perfeito entre Dulce e o Gigante da Colina. Foi neste ambiente que Dulce Rosalina cresceu, até que aos 22 anos o seu nome entra na história do desporto. Estávamos em 1956, ano em que esta carioca assume a presidência da Torcida Organizada do Vasco, isto é, a maior claque da época do emblema de São Januário. Estava derrubada desta forma a barreira do preconceito em relação à mulher não só como adepta do futebol, como em relação à mulher no papel de líder de algo relacionado com esta modalidade, neste caso de uma claque organizada. Dulce Rosalina revolucionaria de imediato também o modo de apoio a um clube, ao trazer para os jogos confetis – ou papel picado – e tambores que até então só se viam e utilizavam em escolas de samba. Dulce rapidamente se tornou numa referência dentro do próprio clube, tendo o privilégio de conviver de perto e com frequência com alguns dos ídolos de então do Vasco, casos de Bellini ou Vavá. A sua popularidade seria reconhecida a nível nacional em 1960, quando a Revista do Esporte a distingue com o prémio de Melhor Torcedor do Brasil. Ela comandou a principal torcida do Vasco da Gama em vários estádios do Brasil, já que fazia questão de acompanhar o clube para onde quer que fosse. Esta acérrima paixão também lhe causou alguns momentos de sofrimento, como aquele que aconteceu em 1968, quando numa deslocação a São Paulo o autocarro em que a claque seguia teve um acidente, causando alguns ferimentos àquela que era já conhecida como a Primeira Dama do Vasco da Gama. Em 1977 ela desvincula-se da Torcida Organizada do Vasco, alegando divergências políticas com os dirigentes da época do clube. Porém, este divórcio esteve longe de significar o fim da sua relação com o clube o seu coração, já que logo depois fundou uma nova claque, a Renovascão. Foi casada com o jogador de futebol Norival Ponce de León e reza a história que sempre que o seu esposo jogava contra o Vasco, a Dona Dulce avisava-o de que ele tinha duas opções: perder o jogo ou não voltar para casa. Com o avançar da idade e o aparecimento dos problemas de saúde, Dulce Rosalina foi-se afastando dos estádios de futebol. Viria a falecer em 2004. Em jeito de homenagem, a Prefeitura – Câmara Municipal – do Rio de Janeiro atribuiu o seu nome a uma rua da cidade próxima ao Estádio de São Januário. 

terça-feira, agosto 25, 2026

Copa América (10)... Chile 1926


A seleção uruguaia que em 1926 recuperou 
o título de campeão das américas

Em 1926 o então denominado Campeonato Sul-Americano de Futebol dava as boas vindas ao seu sexto integrante da história, a Bolívia. Foi no Chile, mais precisamente na capital Santiago, que La Verde – que na altura até vestia de branco – deu há um século atrás a esta parte o pontapé de saída da sua história no Planeta da Bola.  Facto ocorrido a 17 de outubro de 1926, quando no Campos de Sports de Ñuñoa, a Bolívia entrou em campo pela primeira vez, na abertura da 10.ª edição da maior competição de seleções do continente americano. Mas puxemos a fita atrás, mais concretamente até ao dia 18 de agosto desse ano, altura em que a Federação Boliviana de Futebol – que havia sido fundada apenas um ano antes – decide aceitar o convite da sua congénere chilena para integrar o lote de seleções do 10.º Campeonato Sul-Americano. Estávamos a dois meses do início da competição, e os dirigentes bolivianos nem sequer tinham ainda uma seleção nacional montada, mas mesmo assim arriscaram participar com o argumento da visão de integrar o país no Mundo do futebol. 

Job De La Cerda

Foi de pronto nomeada uma comissão técnica, a qual foi liderada por Job de la Cerda, um dos pioneiros do futebol boliviano que começou a sua carreira de futebolista e mais tarde de dirigente na Argentina, para onde se havia mudado com apenas 10 anos de idade. Assim que chegou ao comando da seleção boliviana, Cerda realizou um torneio nacional com equipas das várias regiões do país no sentido de escolher os melhores que iria levar ao Chile. No rescaldo deste torneio de captação, digamos, foram selecionados 17 jogadores originários dos estados/províncias de La Paz, Oruro, Sucre, Potosí, Cochabamba e Uyuni. Escolhidos os jogadores, a seleção reuniu-se a 13 de setembro em Cochabamba, cidade que tinha um clima mais aproximado do que se verificava em Santiago do Chile, até que a 1 de outubro a delegação da Bolívia inicia a viagem de comboio até Antofagasta, onde iria pernoitar antes de apanhar o barco para Valparaíso e dali novamente de comboio até Santiago. Foram três esgotantes dias de viagem para a estreante seleção, que assim que chegou à capital chilena recebeu inúmeras manifestações de carinho, quer por parte das autoridades do Chile, quer da própria imprensa local. Sem tempo para treinar ou para se ambientar ao clima da capital chilena, os bolivianos entraram em campo diante da seleção anfitriã no dia 12 de outubro de 1926, uma data histórica, já que este foi o PRIMEIRO JOGO DE SEMPRE do combinado nacional da Bolívia. No Campos de Sports de Ñuñoa – onde anos mais tarde seria edificado o atual Estádio Nacional de Santiago – La Verde seria goleada por 7-1, um resultado que mostrava a clara inexperiência do futebol boliviano nestas andanças internacionais. Ainda assim, a equipa mostrou coragem e algum atrevimento ofensivo, como atestam as crónicas de então, facto que mereceu aplausos do público chileno. Do lado da La Roja sul americana um homem sobressaiu não só neste encontro como no resto do campeonato: David Arellano. O avançado do recém-criado Colo Colo – clube fundado um ano antes – foi autor de quatro golos neste match de estreia, ele que haveria de ficar famoso mundialmente – sim, mundialmente – por alegadamente ter sido o inventor da chilena, a designação que na América do Sul se dá ao pontapé de bicicleta. E dizemos alegadamente porque ainda hoje há uma disputa entre brasileiros e chilenos sobre quem terá sido o criador deste famoso gesto técnico, se Arellano ou Leônidas da Silva. Os chilenos dizem que foi o primeiro, enquanto que os brasileiros juram a pés juntos que o foi o seu Diamante Negro
Chile - Bolívia
Bom, mas voltando ao Sul Americano de 26, dizer que além de Chile e Bolívia a competição foi integrada ainda pela Argentina, pelo Paraguai e pelo Uruguai, seleção esta que estava de volta à Copa após ausência na edição anterior. Os campeões em título, os argentinos entraram em campo neste torneio precisamente diante da estreante Bolívia, que para espanto de muitos dos 8000 espectadores presentes no Campos de Sports de Ñuñoa realizaram uma primeira parte equilibrada, apesar de sair para o intervalo com uma desvantagem de quatro golos. Porém, a força e maior experiência argentina veio ao de cima no segundo tempo, tendo o marcador sido fechado em 5-0 a favor dos campeões. 

Chile - Uruguai

A 17 de outubro entravam em campo os campeões do Mundo, o Uruguai. Sim, campeões mundiais, atendendo a que naquela altura os campeões olímpicos eram assim denominados. Dois anos antes, nas Olimpíadas de Paris, os uruguaios haviam subido ao trono do Planeta da Bola. A equipa base era muito semelhante à que alcançou o ouro na capital francesa, destacando-se nomes como Andrés Mazali, José Nasazzi, José Leandro Andrade, Alfredo Ghierra, Santos Urdinarán, Ángel Romano, Zoilo Saldombide e Hector Scarone. Este último havia feito a longa travessia no Atlântico apenas um mês antes da Copa de 26 única e exclusivamente para voltar a vestir a camisola da Celeste, ele que então havia tido uma curta incursão no Barcelona e desta forma estava de regresso à América do Sul. Tal como em Paris, o Uruguai voltou a mostrar um futebol de alto nível técnico, e logo na estreia venceu com mérito os anfitriões por 3-1, dando assim o primeiro passo na tentativa de resgatar o título das américas das mãos dos vizinhos e eternos rivais argentinos. Neste encontro com os chilenos um dos golos seria apontado por Hector Castro, ou El Manco Castro, como ficou imortalizado pelo facto de não ter metade do braço direito na sequência de um acidente com uma serra elétrica quando tinha 13 anos. 
Seleção chilena saúda o seu público no Campos de Sports de Ñuñoa

Numa competição que continuava a ser disputada em forma de campeonato, em que o campeão seria a seleção que somasse mais pontos, a Argentina amealha mais uma vitória no encontro diante do Paraguai na sequência de uma goleada de 8-0, com destaque para o poker de Gabino Sosa. Diga-se de passagem, que na altura este foi o campeonato sul-americano que mais golos iria produzir: 55. Uma média de 5,5 golos nos 10 encontros realizados. Um dos jogos com menos golos foi precisamente o escaldante duelo entre argentinos e uruguaios, o grande clássico de então na América do Sul. 15.000 espectadores lotaram o Campos de Sports de Ñuñoa e presenciaram um jogo onde o Uruguai provou o porquê de ser a melhor seleção do planeta, vencendo por 2-0. No jogo seguinte Hector Scarone fez história não só na competição da CONMEBOL como da própria seleção uruguaia. Ao apontar cinco dos seis golos sem resposta com que o Uruguai bateu a Bolívia, Scarone tornou-se no primeiro jogador da competição a alcançar esta marca. Esta manita confere ainda a Scarone até aos dias de hoje o recorde de único jogador com maior número de golos num só jogo pela seleção uruguaia. 

A entrada em campo da Argentina
Se por um lado este avolumado score abria as portas da reconquista do título ao Uruguai, por outro encerrava a participação da Bolívia na Copa, uma presença que apesar dos avultados resultados negativos mostrou uma equipa que representou o país de forma digna, ainda que a absoluta falta de experiência competitiva aliada às pobres condições de preparação para uma competição deste género, sobressaíssem e servissem de exemplo para futuros torneios. O título dos uruguaios ficaria matematicamente selado após o confronto entre chilenos e argentinos, o qual se saldou por um empate a uma bola. A precisar de vencer para manter esperanças na renovação do cetro, a Argentina baqueou perante os anfitriões e entregou o título aos rivais do Rio da Prata. Deste modo, a vitória do Uruguai diante do Paraguai por 6-1 – com um poker de El Manco Castro – serviu para não só cumprir calendário como de igual modo celebrar o 6.º título de campeão das américas por parte da seleção celeste. Este triunfo daria origem a um famoso hino popular dedicado à seleção do Uruguai, o qual seria composto por Omar Odriozola e eternizada por José Ministeri "Pepino", e que versa o seguinte:

 “Invicto na Europa, invicto na América,

 Eles são campeões do mundo, são campeões da América.

 O mesmo que em Colombes, nos campos de Nuñoa

 Eles desfilaram vitoriosamente com a bandeira nacional.

 A equipe argentina e a equipe chilena,

 O boliviano e o paraguaio

 Eles foram derrotados pela equipe uruguaia, que estava invicta.

 Uruguaios, campeões da América e do mundo,

 Atletas esforçados que acabaram de triunfar,

 As cornetas que tocaram o toque de alvorada em Colombes,

 Para além dos Andes, eles soaram novamente.

 O povo da França nos Jogos Olímpicos

 Ele aplaudiu com entusiasmo seu triunfo mundial.

 E hoje é a América do Sul que se alegra.

 Admire a glória da equipe do leste”.

Arellano 

O Chile acabou este torneio no segundo lugar ex-áqueo com os argentinos após esmagar o Paraguai por 5-1, com destaque para os três golos da estrela David Arellano, um futebolista nascido em Santiago, em 1902, e que revolucionou o futebol no país no começo do século XX. Fundador, capitão e primeiro ídolo do Colo Colo, ele teria um final trágico um ano após a realização deste Campeonato Sul-Americano. 
Em 1927 a Federação de Futebol do Chile escolheu o Colo Colo para representar o país numa série de jogos particulares na Península Ibérica. Diz a história, que foi Arellano que no âmbito dessa digressão apresentou à Europa a famosa chilena, ou pontapé de bicicleta. Seria este gesto técnico em parte o responsável pela morte de David Arellano a 3 de maio daquele ano de 1927. Em Valladolid, o Colo Colo defrontou nessa tarde o Real Unión e ao tentar executar uma das suas famosas chilenas, Arellano caiu ao mesmo tempo que o seu marcador direto nesse lance, o espanhol Hornia, o qual caiu em simultâneo com o joelho em cima do peito do avançado chileno. A pancada provocou um abscesso intra-abdominal, levando à morte de um jogador que estava no auge da sua carreira. Voltando à Copa América de 26 para dizer que Arellano foi o melhor marcador do torneio, com sete remates certeiros. Esta edição do torneio marcou ainda o início da longa travessia da ausência do Brasil da competição. Conflitos entre várias federações estaduais, sobretudo entre as do Rio de Janeiro e de São Paulo, deram origem a que os brasileiros não só não marcassem presença nesta edição como nos restantes torneios da década de 20 e boa parte da década de 30. O Brasil só voltaria a disputar um Campeonato Sul Americano em 1937.

Nomes e números:

12 de outubro de 1926

Chile – Bolívia: 7-1

(Arellano, 15’, 41’, 80’, 84’; Ramirez, 10’; Subiabre, 14’, Moreno, 47’)

(Aguilar, 62’)

 

16 de outubro de 1926

Argentina – Bolívia: 5-0

(Cherro, 9’ e 19’; Sosa, 31’; Delgado, 43’; De Miguel, 74’)

 

17 de outubro de 1926

Uruguai – Chile: 3-1

(Borjas, 22’; Castro, 32’; Scarone, 55’)

(Subiabre, 65’)

 

20 de outubro de 1926

Argentina – Paraguai: 8-0

(Sosa, 11’, 32’, 59’, 87’; Delgado, 40’, 42’; Cherro, 16’; De Miguel, 52’)

 

23 de outubro de 1926

Paraguai – Bolívia: 6-1

(Ceferino Ramirez, 68’, 72’, 88’; Julio Ramirez, 76’; López, 57’, 81’)

(Soto, 15’)

 

24 de outubro de 1926

Uruguai – Argentina: 2-0

(Borjas, 22’; Castro, 73’)

 

28 de outubro de 1926

Uruguai – Bolívia: 6-0

(Scarone, 9’, 12’, 28’, 39’, 81’; Romano, 67’)

 

31 de outubro de 1926

Chile – Argentina: 1-1

(Saavedra, 25’)

(Tarasconi, 42’)

 

1 de novembro de 1926

Uruguai – Paraguai: 6-1

(Castro, 16’, 23’, 32’, 72’; Saldombide, 47’, 82’)

(Fretes, 41’)

 

3 de novembro de 1926

Chile – Paraguai: 5-1

(Arellano, 21’, 64’, 71’; Ramirez, 42’, 82’)

(Peña, 40’)

 

Classificação:

1.º Uruguai: 8 pts.

2.º Argentina: 5 pts.

3.º Chile: 5 pts.

4.º Paraguai: 2 pts.

5.º Bolívia: 0 pts.


sexta-feira, agosto 21, 2026

Museus REAIS do Futebol - Sala de Troféus Edmur (Vitória Sport Clube)


Pode não ter a dimensão de outros museus/salas de troféus de clubes portugueses, mas não deixa de ser um espaço que ilustra alguma da rica e nobre história de um clube singular no panorama do desporto nacional: o Vitória Sport Clube. Ser vitoriano é viver uma das paixões mais puras, fervorosas e singulares do desporto português. É pertencer a um clube que não se mede pelo número de títulos nacionais, mas sim pela lealdade inabalável de uma cidade inteira à sua identidade. Este sentimento paira no ar quando entramos na Sala de Troféus Edmur, um espaço que guarda mais de 200 taças e outras memórias que nos levam a fazer uma viagem pelos mais de 100 anos do Vitória, o primeiro e único amor das gentes da bela cidade de Guimarães.

A Sala de Troféus Edmur é o espaço museológico oficial do Vitória Sport Clube, localizada no interior do Estádio D. Afonso Henriques, em Guimarães, tendo sido oficialmente inaugurada em finais de 2007. Assim foi batizada em homenagem a uma das maiores lendas da história do emblema minhoto: Edmur Pinto Ribeiro. Ele foi um lendário avançado brasileiro que jogou no Vitória entre as décadas de 50 e 60. Edmur tornou-se uma figura imortal da história do clube por ser o primeiro jogador do Vitória a vencer a prestigiada Bola de Prata. Ademais, ele foi de igual modo o primeiro jogador estrangeiro a vencer o afamado troféu que premeia o melhor marcador do principal campeonato português. É Edmur que nos dá as boas vindas no início desta viagem para história vitoriana, como podemos ver nas duas fotografias de cima. 



Embora o Vitória tenha centenas de taças noutras modalidades que não só o futebol, o museu alberga sobretudo os principais títulos alcançados no Desporto Rei. Desde logo, e saltam à vista pelo lugar central e privilegiado em que se posicionam, os troféus alusivos às conquistas da Taça da Liga, da Taça de Portugal e da Supertaça Cândido de Oliveira, os três títulos nacionais mais pomposos da vida do centenário emblema de Guimarães. 

Ao percorrer o pequeno mas rico espaço museológico podemos encontrar alguns objetos que atestam algumas destas principais conquistas, como por exemplo a bola da final da Taça de Portugal de 2013, a camisola usada nesse dia histórico, ou os galhardetes trocados com o rival desse jogo, que estão religiosamente guardadas numa das vitrinas do espaço. 


Também o futebol de formação e o futebol feminino são evocados na Sala de Troféus Edmur. Os títulos de campeão nacional de sub-19, de sub17 e de sub-15 masculinos são evocados numa vitrina em concreto, ao passo que mesmo ao lado podemos contemplar o troféu de campeão nacional da 2.ª Divisão de futebol feminino. 







São igualmente muitas as memórias de jogos internacionais expostas não só em vitrinas como numa sala paralela recheada de galhardetes que comprovam o já longo percurso europeu do Vitória nas provas da UEFA. 





Naturalmente que num museu é imperativo a existência de fotografias, e também podemos ver algumas, sobretudo de equipas do passado... 

... mas também uma da lenda que dá nome a esta sala de troféus. 



Nesta incursão pela história do Vitória também pudemos recordar alguns mantos sagrados de outros tempos. 



O Vitória é um clube eclético. Muitas outras modalidades ajudaram a enriquecer este museu, casos do basquetebol, ou do polo aquático, a título de exemplo. 







A Sala de Troféus Edmur é o coração do orgulho vimaranense, servindo como um ponto de passagem das visitas guiadas ao Estádio D. Afonso Henriques.