domingo, outubro 11, 2026

Os Reis da antiga 2.ª Divisão Nacional: Anos 40

1940: Farense conquista título frente ao Boavista em final manchada por confrontos violentos

Os Leões de Faro em 1940
Os primeiros anos de vida da 2.ª Divisão assumiram-se como uma verdadeira luta entre o norte e o sul pelo título de campeão. Mais do que o título entrava em campo a honra regional. Talvez por isso as finais do segundo escalão causavam verdadeiros fenómenos de mobilização popular dentro do país. Numa época em que viajar pelo país era difícil e dispendioso, organizavam-se "comboios especiais" e caravanas de camionetas carregadas de adeptos que atravessavam Portugal para apoiar as suas cores, transformando as bancadas num campo de batalha regional. Cenário este que se verificou na final da temporada de 39/40, em que a rivalidade da vizinhança porta com porta foi posta de lado em prol da defesa de uma cidade, neste caso a cidade do Porto. Tudo porque quer o FC Porto, quer o Boavista desceram, em simultâneo, à capital para lutarem pelo trono do futebol nacional da referida época. De forma mais precisa, os portistas pelo título de campeão nacional da 1.ª divisão e os boavisteiros pelo cetro nacional da 2.ª Divisão. Nesse sentido, os dois vizinhos da Cidade Invicta deram as mãos e organizaram um grande comboio especial conjunto para os seus adeptos se deslocarem até Lisboa para assistirem aos respetivos encontros: o FC Porto diante do Benfica (nas Amoreiras) e o Boavista ante o Farense (na Tapadinha). Os dois clubes portuenses haveriam de registar os mesmos resultados no rescaldo desta viagem decisiva à capital: 3-2. Porém, foi um score com sabores distintos: os azuis e brancos sagraram-se campeões nacionais, ao passo que os axadrezados deixaram fugir o título secundário para os Leões de Faro. Farense que para chegar à final havia vencido na 1.ª fase da competição a Série Algarve, com 9 pontos, eliminando na 2.ª fase os conjuntos do Luso de Beja (4-0) e do Casa Pia (também por 4-0). A grande estrela dos algarvios era, quiçá, o seu treinador, o lendário Joseph Szabo.


Nessa temporada de 39/40, o mestre da tática magiar orientou o Sporting, clube pelo qual conquistou o Campeonato de Lisboa, mas já no final da época aceitou o repto dos algarvios para orientar os Leões de Faro durante algumas semanas. Uma pequena incursão que haveria de ter contornos vitoriosos, já que na Tapadinha o Farense levou a melhor sobre o Boavista e conquistou o título da 2.ª Divisão. A final de 1940 foi envolta em polémica, muito por culpa do reputado (?) árbitro Carlos Canuto, que nas palavras do jornalista do Diário de Lisboa (DL) que assistiu ao encontro teve uma atuação «detestável». O juiz deixou passar em claro faltas muito feias: «choques de brutalidade, pontapés selvagens, agressões puras. O árbitro limitou-se a dar conselhos, a contemporizar.
Julinho, com as cores 
do Boavista
Fê-lo, nalgumas ocasiões, empurrando os jogadores, o que é contra as regras», descreveu o DL. Se já estava muito quente, o ambiente escaldou a meio da 2.ª parte, quando Laguna (do Boavista) e Gomes (do Farense) foram expulsos, uma decisão que provocou o caos total em campo. Quanto ao pouco futebol que se viu na Tapadinha, o Farense dispôs das melhores ocasiões para marcar nos minutos iniciais e numa delas Nunes abre o ativo. Quiçá contagiado pelo ambiente de cortar à faca que se fazia sentir dentro das quatro linhas, o guardião boavisteiro Pesqueira falha a interceção a um cruzamento vindo da direita do ataque farense para permitir que Nunes, de cabeça, bisasse. Já na 2.ª parte, o mesmo Pesqueira tem uma saída precipitada que seria aproveitada por Palmeira para elevar o marcador para 3-0. De nada valeriam os golos de Pina e Julinho – que depois de uma passagem pelo Académico do Porto haveria de ser estrela no Benfica durante 10 anos – para os nortenhos, já que o Farense segurou a vitória e dessa forma colocou as mãos no título. O Boavista ainda chegou a protestar o jogo, mas em vão, pois, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) confirmaria o Farense campeão. E campeões nessa tarde de 19 de maio de 1940 foram os seguintes jogadores: Ascensão, Domingos, Castela, Américo, Marti, Gomes, Catarino, Gralho, Palmeiro, Vilanova e Nunes. A grande festa aconteceu em Faro, no mês de julho, onde a comitiva farense foi recebida no Cine-Teatro Farense e das mãos do presidente do Comité Olímpico Português, José Pontes, recebeu a Taça "O Século".

1941: Olhanense alcança tricampeonato e abre caminho para uma Era Dourada na 1.ª Divisão

O Olhanense alcançou em 1941 o terceiro
título nacional da 2.ª Divisão
A década de 40 é por muitos rotulada de “dourada” quando se olha para a história do Olhanense. O clube algarvio disputa de forma ininterrupta até 50/51 a 1.ª Divisão Nacional com classificações dignas de registo, além de que vê vários futebolistas seus serem chamados às seleções nacionais, casos de Cabrita, Grazina e Salvador. E para chegar ao patamar mais alto do futebol luso o Olhanense saboreou pela terceira vez na sua história o sucesso no escalão secundário. Estávamos na temporada de 1940/41, quando os de Olhão atingem a final da 2.ª Divisão após terem vencido na 1.ª fase da competição a Série Algarve e posteriormente terem eliminado, na fase seguinte, o Juventude de Évora (4-0) e o Seixal (2-1). Treinados pelo húngaro Desiderio Hertzka, os olhanenses viajaram até Lisboa, onde a 22 de junho de 1941 mediram forças com o Leça. O cenário para este duelo foi o mítico Campo das Salésias, que nos 5 minutos iniciais presenciou um maior atrevimento dos leceiros. Depois disto, o Olhanense recompôs-se e com um futebol mais preciso passou à ofensiva. A partir da meia hora de jogo o equilíbrio passava a ser nota dominante e por esta altura o denominador comum era a boa exibição que os dois guarda-redes iam fazendo face às investidas contrárias. Contudo, na reta final da 1.ª parte o nó do equilíbrio é desatado pelos matosinhenses, que criam inúmeras ocasiões para marcar, mas sem sucesso. Faltavam os golos àquele que era então um bom jogo de futebol. E eles apareceram nos segundos 45 minutos e em dose farta para gáudio do numeroso público que acorreu às Salésias. Contra a corrente do jogo surgiu o golo leceiro: após uma fuga pelo flanco direito, Godinho bateu José Abraão. O tento não desarmou os algarvios, pelo contrário. Os remates em direção à baliza do leceiro Alfredo Dias “Jaguaré” sucediam-se, mas só aos 70 minutos o Olhanense marcou: Acácio António remata para uma defesa incompleta do guardião do Leça e na recarga Santos faz o empate. Embalado pelo golo, dois minutos volvidos o Olhanense chega à vantagem por intermédio de Joaquim Gomes. E aos 78 minutos João Baptista amplia a vantagem algarvia para 3-1. Só a partir daqui o Leça esboçou uma reação, dando trabalho ao keeper algarvio. Mas seria contra a corrente do jogo, que a cinco minutos dos 90 o Olhanense colocou um ponto final nas aspirações leceiras ao fazer o 4-1 final, por intermédio de Santos. Em jeito de balanço da final, o DL escrevia que «a vitória da equipa do sul teve incontestável merecimento e plena justificação. Com efeito, os seus jogadores evidenciaram melhor sentido de jogo, trabalhando a bola com mais arte que o seu adversário. No entanto, foi boa a réplica dos leceiros». José Abraão, José Ramos, César Murta, José Joaquim, Grazina, Calé, Jerónimo Lima, Santos, Acácio António, João Baptista e Joaquim Gomes foram os onze heróis que nas Salésias deram ao Olhanense o seu terceiro título de campeão da 2.ª Divisão.

1942: Nascido para vencer, o Estoril Praia sagra-se campeão nacional aos dois anos de idade

Estorilistas e leixonenses medem forças na final
Com apenas três anos de vida o Estoril Praia conquistou o primeiro de quatro títulos nacionais da 2.ª Divisão que reluzem nas suas vitrinas. Com apenas três anos o clube em si, pois a secção de futebol do emblema da Linha só seria criada em 1940 e desde logo com resultados – e títulos – dignos de registo. É caso para dizer que foi chegar, ver e vencer, assim se pode olhar para a estreia dos estorilistas no campeonato da 2.ª Divisão Nacional em 41/42. Integrado numa das 15 séries/grupos que figuraram na 1.ª fase da competição, o Estoril começou por levar a melhor sobre as reservas do Sporting, do Belenenses, do Carcavelinhos, e equipas principais do Casa Pia e do Futebol Benfica, avançando assim para a fase a eliminar da prova. Aí, deixaram pelo caminho o União de Tomar (5-0), o Vitória de Setúbal (3-0) e a equipa de reservas do Benfica – sim, a partir desta temporada algumas equipas de reservas de clubes da 1.ª Divisão competiram no segundo escalão. No seu grupo, o Estoril tinha alguns nomes de peso, desde logo o possante avançado jugoslavo Franjo Petrak, que antes de rumar para Cascais apontou 76 golos em duas temporadas ao serviço do FC Porto. O último obstáculo dos canarinhos para chegar ao título foi o Leixões, clube que se deslocou a Lisboa para no dia 7 de junho de 1942 tentar levar o caneco para o norte. As Salésias voltaram a ser o palco escolhido pela FPF para a disputa de um título que teve dois atos. Isto é, duas finais. Na primeira delas, o DL relatou que «ao fim de 120 minutos de jogo ardorosamente disputado, nenhum dos contendores se podia orgulhar de ter conquistado o almejado título, pois cada um deles contava com quatro bolas no seu ativo». É verdade, o muito e fervoroso público presente nas bancadas teve o privilégio de assistir a uma chuva de oito golos – quatro para cada lado – que obrigou à disputa de uma finalíssima apenas dois dias depois (!), onde a equipa da Linha venceu por 3-1.

1943: Com seis golos de Cardoso Pereira, Barreirense vence a final e garante o primeiro título da divisão onde é rei absoluto

Em 1943 nascia o rei da 2.ª Divisão: 
o Barreirense
Olhando para a história da 2.ª Divisão há um clube que se destaca no que ao palmarés diz respeito: o Barreirense. Com sete títulos no seu currículo, o clube da Margem Sul deu início a este legado de vitórias na temporada de 42/43, em que foi dado o primeiro passo de uma caminhada mítica que eternizou os alvi-rubros como os verdadeiros reis da prova. Após vencer uma das 20 (!) séries da 1.ª fase da competição, o Barreirense começou por deixar pelo caminho na fase a eliminar o campeão em título Estoril (3-2 e 1-1), seguindo-se o Atlético (4-0), o Vitória de Setúbal (3-2) e o Lusitano de Vila Real de Santo António (7-2), alcançando assim a final onde a 23 de maio de 1943 mediu forças com a Sanjoanense. Lisboa foi mais uma vez a cidade escolhida para uma final onde o Barreirense esmagou o seu oponente por 6-1. O DL escrevia que o jogo «tem descrição fácil e quase se limita à história dos golos. Não foi uma final de emoção nem o público se esgatanhou para conhecer o vencedor». A Sanjoanense foi descrita como uma equipa algo ingénua e que não esteve à altura do seu adversário, mas que ainda assim deu indícios de no futuro poder atingir posições superiores no futebol português. Mas mesmo com essa ingenuidade, os rapazes de São João da Madeira entraram com vontade de contrariar a supremacia dos sulistas. Em vão o fizeram, pois Cardoso Pereira cedo tratou de mostrar que o Barreirense queria levar para casa a taça ao apontar um magnífico golo. De nada valeu o empate da Sanjoanense logo a seguir, já que a equipa do centro do país pouco ou nada fazia para sacudir a pressão barreirense. Ainda assim, o intervalo chegou com o empate no marcador. Na segunda parte os golos deram expressão à supremacia barreirense, clube cujo domínio nestes segundos 45 minutos foi ainda mais intenso. «A Sanjoanense mesmo sem se render completamente foi sempre menos “team” e, portanto, impotente para evitar o pesado resultado que ao fim se verificou, mas lutou com ânimo, e deu nota simpatiquíssima de desportivismo que não é vulgar nos tempos que vão correndo», analisava o jornalista do DL que assistiu ao jogo.
Cardoso Pereira
No entanto, um homem houve que chamou a si todo o protagonismo desta final: Cardoso Pereira. O avançado do Barreirense viveu, quiçá, o seu momento de glória numa carreira trilhada entre o Barreiro e Setúbal – defendeu as cores do Vitória ao longo de sete temporadas – ao apontar os seis golos do Barreirense nesta final! Seis que podiam ter sido oito, não fosse o árbitro Abel Ferreira ter invalidado dois tentos do avançado por alegado fora de jogo. Manuel Batista, Pascoal, Ricardo, João Limas, Moreira, Gervásio, Raimundo, Arsénio, Maximino, Guedes e Cardoso Pereira foram os heróis barreirenses deste primeiro título secundário. De referir que deste grupo de campeões, um houve que não muito tempo depois se destacou com as cores do Benfica, Arsénio Duarte, o seu nome. Jogador talentoso com dotes de goleador, Arsénio brilhou ao serviço do Benfica ao longo de 12 épocas (43-55). Chegou a Lisboa ainda jovem, com apenas 17 anos, mas logo o rapazinho franzino, mas extremamente veloz, deu nas vistas, sendo que em 224 jogos pelos encarnados apontou 152 golos.

1944: Estorilistas bi-campeões numa época quase perfeita

Além do título da 2.ª Divisão, o Estoril
chegou à final da Taça de Portugal
O ainda muito jovem Estoril Praia teve uma temporada (43/44) quase perfeita. Ou melhor, podemos dizer que foi perfeita, pois não é todos os dias que uma equipa então a militar na 2.ª Divisão chega à final da Taça de Portugal, como aconteceu aos estorilistas na citada época. No Jamor, o poderio do Benfica falou mais alto: vitória por 8-0. Mas esta derrota na Prova Rainha do futebol luso não tirou o brilho da caminhada dos canarinhos nesse ano. Pelo contrário, só acrescentou valor, e foi como que um prémio à conquista do título nacional da 2.ª Divisão. Pela frente os rapazes da Linha tiveram o Vila Real, emblema que no Lumiar – palco da final – entrou forte e determinado, mas foi o Estoril que na segunda parte conseguiu ascendente sobre o adversário e conseguiu vencer por 3-2 e assim sagrar-se pela segunda vez na história campeão nacional da 2.ª Divisão.

1945: Como o Atlético honrou o legado do “progenitor” Carcavelinhos

O "filho" (Atlético) honrou o legado 
do "pai" (Carcavelinhos) 
O Atlético Clube de Portugal nasceu a 18 de setembro de 1942 através da fusão entre o Carcavelinhos Football Club e o União Foot-Ball Lisboa, ambos clubes da zona de Alcântara, em Lisboa. Ao herdar a identidade destes dois clubes, sobretudo do Carcavelinhos, laureado emblema lisboeta dos anos 20 e 30, o Atlético manteve-se profundamente ligado ao bairro de Alcântara, assumindo-se desde cedo como um histórico do futebol português. E cedo porque em 44/45 o emblema da Tapadinha – que já era a casa histórica do Carcavelinhos – saboreou pela primeira a conquista de um título nacional sob a nova designação. Dizer que o campeonato nacional da 2.ª Divisão atraía por esta alturas largas dezenas de participantes, que numa fórmula algo confusa começam por disputar numa 1.ª fase mini-campeonatos provinciais, com apuramentos posteriores por eliminatórias até à final. O Estádio do Lumiar voltou a acolher a final do escalão secundário, desta feita protagonizada pelo jovem Atlético e pela CUF do Barreiro. A 1.ª parte pertenceu ao clube de Alcântara, que com uma postura atacante esclarecida e uma linha média que sabia ocupar com arte o seu lugar, chegou ao intervalo a vencer com todo o mérito por 2-0. Na revista Stadium, Tavares da Silva escrevia que «na verdade o Atlético mostrou-se superior logo no primeiro pontapé e isso tirou-nos a emoção a que nos achávamos com direito. Mas ninguém tem culpa de que o desafio tenha decorrido desta forma. Em tudo o Atlético foi superior: na coesão da defesa, na compenetração e inteligência da linha medular, na arte e no comando da célula avançada». Marques e Catinana foram os autores dos tentos dos lisboetas. Na segunda parte a CUF apareceu em campo mais espevitada e acima de tudo mais ameaçadora. Neste ponto, destaque para Arnaldo Carneiro, que em três ocasiões obrigou o guardião Paiva a arregaçar as mangas para trabalhar. «A CUF, conjunto de jogadores experientes e homens que não passam hoje de promessas não pôde resistir nem suportar a melhor organização do Atlético. Lutou, reagiu, defendeu-se e atacou, por vezes, mas dando sempre a sensação de team com muitas deficiências…», assim analisava Tavares da Silva a equipa do Barreiro. Refira-se em nota de rodapé que no “team” cufista que esteve nesta final se encontravam dois jovens talentos que anos mais tarde iriam fazer parte do mais famoso quinteto do futebol português: Os Cinco Violinos. Eram eles José Travassos (tinha 19 anos) e Vasques (então com 18 anos). O resultado da final de 1945 não se alterou e o Atlético dava assim seguimento à glória conquistada pelo seu “progenitor” Carcavelinhos nas décadas de 20 e de 30. Paiva, Carlos Baptista, Ventura, José Lopes, Gregório, José Lopes, Micael, Rosário, Catinana, Armindo e Marques foram os heróis de Alcântara naquela tarde de 1 de abril de 1945.

1946: Soberano nos anos 40, o Estoril dominou a 2.ª Divisão numa época em que o figurino voltou a mudar

No espaço de quatro anos o Estoril 
venceu o título em três ocasiões
A FPF promoveu uma verdadeira revolução no figurino da 2.ª Divisão a partir da temporada de 45/46. Eram cada vez mais os clubes participantes, de norte a sul do país. A 1.ª fase manteve-se igual a edições anteriores, ou seja, os clubes eram distribuídos por áreas geográficas, competindo numa espécie de mini-campeonatos, sendo que os vencedores se apuravam para a fase a eliminar, a tal 2.ª fase. Tudo igual neste aspeto. A novidade é que os quatro vencedores dos quartos-de-final ao invés de competirem entre num sistema de meias-finais e final, enfrentaram um mini-campeonato a duas voltas, sendo o campeão a equipa que tivesse somado mais pontos. E aqui o Estoril pela terceira vez no curto espaço de quatro anos (!) sagra-se campeão nacional. Os rapazes da Linha começaram por vencer a Série 9 da 1ª fase, com 19 pontos, sendo que na fase a eliminar afastaram o Casa Pia (4-1) e o Onze Unidos (3-1). Na 3.ª fase, o tal mini-campeonato final, superaram a concorrência do Famalicão, União de Coimbra e do Portimonense. A caminhada rumo ao título teve início em Famalicão, onde o Estoril não foi além de um empate a uma bola diante dos locais. A equipa de Cascais abriu o ativo logo aos 3 minutos, por intermédio de Raul Silva que de recarga bateu o guarda-redes da casa. Álvaro Pereira, na sequência de um canto apontado por Sampaio, restabeleceu uma igualdade que o Estoril segurou até final muito graças à brilhante atuação do seu guarda-redes Valongo. Seguiu-se o jogo na Amoreira diante do União de Coimbra, que levou para casa uma derrota por 4-1 – os golos do Estoril foram apontados por Silva, Lourenço, Mota e Eloi. Na 3.ª jornada os estorilistas receberam e dominaram em toda a linha o Portimonense ao longo da 1.ª parte, domínio esse que foi expresso em quatro golos – Lourenço apontou três deles, sendo que o outro foi da autoria de Vieira. Na segunda metade o Estoril continuou a carregar e obteve mais três tentos que selaram o resultado num expressivo 7-2 a seu favor. Na ronda seguinte foi a vez do Famalicão ser despachado por 4-1, numa partida em que os canarinhos foram dominadores na 1.ª parte, alcançando neste período três golos por intermédio de Silva (2) e Lourenço. A segunda metade foi mais equilibrada e acima de tudo mais bem disputada, tendo os nortenhos ainda reduzido a diferença por intermédio de Pereira, aos 60 minutos, mas cinco minutos volvidos Silva completa o hattrick e acaba com as esperanças famalicenses. Em Coimbra aconteceu uma nova vitória, esta mais curta, por 2-1, mas o suficiente para garantir matematicamente o título de campeão da 2.ª Divisão. No Campo da Arregaça, o Estoril entrou melhor, apresentando uma técnica mais apurada que o União. Porém, seriam os locais que pregavam mais sustos a Valongo, o guardião da Linha, mas ainda assim o marcador não funcionou antes do intervalo. Os golos só surgiram na 2.ª parte, o primeiro aos 56 minutos e para o Estoril, por intermédio de Mota. Tento que animou os sulistas, que à passagem dos 75 minutos ampliam a vantagem pelo pé de Lourenço. O União não deitou a toalha ao chão e pouco depois reduz por meio de Velha, um esforço insuficiente para evitar a derrota. O Estoril carimbava assim o seu terceiro nacional secundário, de nada valendo o único percalço desta caminhada, o qual aconteceu em Portimão, onde foi derrotado por 4-3. O DL escrevia que o Portimonense exerceu «maior domínio durante todo o jogo», e que assim justificou o triunfo. Vieira (em duas ocasiões) e Mota marcaram os tentos estorilistas. No somatório dos seis jogos da poule de apuramento de campeão o Estoril somou 9 pontos.

1947: O título do SC Braga marcado por acusações de suborno

O Sporting de Braga campeão 
Na temporada de 1946/47 e após oito anos de andanças pelo sul do país eis que o troféu de campeão nacional da 2.ª Divisão volta a viajar para o norte. Mais precisamente para Braga, através do Sporting local, que inicia a Série 4 da 1.ª fase da competição de forma demolidora e logo com um recorde: uma vitória por 14-0 sobre o Infesta, com sete dos golos a serem apontados por Nelo, ou Nelito Barros, como este popular avançado nascido em Fafe era conhecido no Minho. O grande rival dos bracarenses nesta 1.ª fase foi o Académico do Porto, que ao ser derrotado (3-6) pelos minhotos na penúltima jornada desta fase entrega o 1.º lugar da série aos arsenalistas, que não desperdiçaram a oferta e na última jornada ao baterem o Candal por 2-0 asseguraram o título de campeão de série, avançando assim para a fase a eliminar. Aqui, começou por eliminar o Fafe (2-0), ao que se seguiu o Vila Real (4-3) e assim estava o Braga qualificado para a 3.ª e decisiva fase de apuramento de campeão. Os bracarenses entraram na fase final em falso, ao serem derrotados (0-1) pela Oliveirense. Porém, até final da primeira volta corrigiram este mau arranque com duas vitórias sobre o Lusitano de Vila Real de Santo António e sobre o Onze Unidos (do Montijo), respetivamente por 2-0 e 5-1. Com esta performance o Braga ocupava a par da Oliveirense o 1.º lugar da poule ao fim de três jornadas e ficou isolado quando obteve na ronda inaugural da segunda volta uma concludente vitória (2-0) sobre o conjunto de Oliveira de Azeméis. Porém, o título não foi confirmado na jornada seguinte, tudo porque no Algarve o Lusitano venceu os arsenalistas por 1-0 e ficou tudo adiado para a derradeira ronda. E aqui assistiu-se a um alegado triste jogo de bastidores que envergonhou o futebol luso. Lançou-se a suspeita de que o Braga havia aliciado com dinheiro quatro jogadores do Onze Unidos para que estes facilitassem o triunfo dos nortenhos, que mantinham a liderança da poule ex-aequeo com a Oliveirense, beneficiando do goal-average para ser campeão em caso de igualdade pontual no final do campeonato.
Em Braga houve festa rija na receção 
aos campeões da 2.ª Divisão de 1947
Desta forma a FPF suspendeu o jogo do Montijo para averiguar esta alegada proposta de suborno do dirigente bracarense José Antunes Guimarães. O organismo federativo colocou o dirigente frente a frente com os quatro jogadores do Onze Unidos para ver quem falava a verdade. O presidente do Sporting de Braga negou qualquer tipo de tentativa de suborno, ao passo que os quatro atletas do emblema do Montijo contradiziam-se, sendo que o guarda-redes Braço Forte dizia ter-se reunido com o dirigente do Braga, ao passo que os restantes afirmavam nunca se terem encontrado com José Antunes Guimarães. Após analisados os factos/depoimentos, a FPF não conseguiu reunir indícios concretos de que tinha havido tentativa de suborno, pelo que decide ilibar o Braga, que desta forma estava “livre” para disputar o jogo decisivo do campeonato. O jogo do Montijo foi disputado sob um clima de suspeição, como seria de esperar, mas nada que impedisse o Braga de somar uma nova vitória (2-0), com golos de Mário e Cassiano Brandão, e assim festejar o primeiro título nacional da sua história. A equipa foi recebida em euforia na Cidade dos Arcebispos, e o título foi amplamente festejado um pouco por todo o Minho, como comprova o facto de o Ateneu Comercial de Famalicão ter hasteado no seu edifício a bandeira do Sporting de Braga e de dirigentes do Vitória de Guimarães se terem deslocado à capital do Minho para participar na sessão solene de homenagem aos campeões nacionais da 2.ª Divisão.

1948 e 1949: Covilhã e Académica levam pela primeira vez o título para o centro do país em dois anos seguidos

Em 47/48 a FPF impôs novas mudanças ao figurino da prova ao eliminar os jogos por eliminatória, passe a redundância. Ou seja, existiu uma 1.ª fase constituída por quatro séries de oito clubes cada uma delas, sendo que os dois primeiros classificados de cada uma delas avançavam para uma 2.ª fase que foi constituída por duas séries (uma no norte e outra no sul), cujos dois primeiros classificados avançavam para a 3.ª e última fase. Confuso, no mínimo, mas assim era o futebol português de então sob o ponto de vista organizativo/logístico. Vencedor da Série B da 1.ª fase – com 26 pontos – e do Grupo Norte da 2.ª fase – com 8 pontos – o Sporting da Covilhã ganhou o direito de disputar a poule de apuramento de campeão com o Barreirense, a CUF e o Famalicão. Janos Szabo, acumulava as funções treinador-jogador nos Leões da Serra, que chegaram ao título pela diferença entre golos marcados e sofridos, ou seja, terminaram com os mesmos pontos (8) que o Barreirense, mas levaram a melhor no goal-average.

A Briosa rainha da Segunda em 1949
Este foi o primeiro de dois títulos consecutivos da 2.ª Divisão que viajaram para o centro do país, já que na temporada seguinte foi a vez da Académica festejar aquele que por aquela altura era o seu segundo cetro mais pomposo a seguir à Taça de Portugal arrecadada pelos estudantes em 1939. Após vencer a Série B da 1.ª fase, a Briosa levou a melhor sobre Oliveirense, Académico de Viseu e Famalicão no Grupo Norte da 2.ª fase, garantindo assim o passaporte para a final da 2.ª Divisão. É verdade, voltávamos a ter uma final para decidir o campeão, mas assim o foi não pelos melhores motivos. Ou seja, após a 5.ª jornada da poule final – que além da Académica tinha ainda o Famalicão, o Portimonense e o Oriental – os estudantes e os lisboetas ocupavam o primeiro lugar, com 6 pontos, sendo que na última e decisiva jornada os de Coimbra deveriam deslocar-se ao terreno dos orientalistas. Acontece que mais uma vez a vergonha voltou a bater à porta do futebol luso, já que ao que parece os jogadores do Famalicão haviam sido subornados para perder o jogo com o Oriental na 5.ª jornada, derrota essa que se consumou: 2-1. O então Ministro da Educação, Pires de Lima, decide suspender famalicenses e orientalistas da competição, dando ainda ordem para que fossem anulados todos os jogos até ali disputados da poule da 3.ª fase e que o campeão nacional fosse encontrado após a realização de um jogo único entre a Académica e o Portimonense. Assim foi.


Lisboa e o Estádio do Lumiar foram o cenário escolhido para acolher esta final de última hora, sendo que à capital desceu – no dia 5 de junho de 1949 – uma gigantesca macha negra para apoiar a Briosa. Disso deu nota o DL: «A imagem mais sedutora da final do Nacional da 2.ª Divisão foi-nos fornecida não pelos jogadores, mas sim pelos componentes da unida e irrequieta falange de apoio da Académica. O público de Lisboa não arredou pé, com as atenções presas nesse curioso espetáculo suplementar de uma longa reunião futebolística que não havia primado pela qualidade. Constituiu uma alegre e colorida mancha no declinar de uma tarde sufocante, imprópria para a prática do futebol. Representou uma extraordinária manifestação de fé e amor clubista». Olhando para o que se passou dentro das quatro linhas, cedo a Briosa se adiantou no marcador na sequência de um golo de Pacheco Nobre, quando estavam decorridos apenas dois minutos. Apesar de dominado em todos os capítulos do jogo, o Portimonense ainda conseguiu chegar à igualdade aos 18 minutos, mas a Académica, que nas palavras do DL «adotou sempre toada franca de ataque», chegaria de novo à vantagem, já na segunda metade, por intermédio do jogador-treinador Alberto Gomes.
Euforia nas ruas de Coimbra na receção
aos campeões nacionais 
Foi uma vitória – 2-1 – inquestionável «da equipa que revelou superioridade em todos os aspetos e tudo fez para se tornar digna dela (dessa vitória», assim analisou o DL, que descreveu o finalista vencido como uma equipa que correu e batalhou muito, mas «jogou pouquíssimo». Dizer que em 48/49 a Académica teve uma curta passagem pela 2.ª Divisão, onde havia caído na temporada transata, regressando assim ao escalão maior com o título de campeão nacional secundário no bolso. No final do encontro, a festa entre o relvado e as bancadas foi uma só, como relatou A Bola, ao descrever que o relvado do Lumiar foi rapidamente invadido por uma nuvem de estudantes com as suas capas negras a esvoaçar ao vento. As festividades continuaram no dia seguinte, quando a equipa chegou a Coimbra, onde a euforia foi ainda maior. Os campeões nacionais foram recebidos no Largo da Portagem por uma multidão em delírio, seguindo-se depois um cortejo pelas ruas da cidade – repletas de povo – até à sede da Associação Académica onde os campeões foram homenageados por entre salvas de foguetes.  

quinta-feira, outubro 08, 2026

Os Reis da antiga 2.ª Divisão Nacional: Anos 30

A extinta 2.ª Divisão Nacional foi durante seis décadas (entre 1934 e 1990) o palco onde dezenas de emblemas históricos viveram o seu maior momento de glória, gravando ali os seus nomes na história do futebol em Portugal. Ofuscado pelo brilho da 1.ª Divisão Nacional, o escalão secundário é rico em momentos épicos que fizeram parar vilas e cidades de norte a sul do país como consequência de um título conquistado por clubes que estavam (e alguns ainda estão) longe da esfera dos chamados Grandes do Futebol Português. É para recordar, mas acima de tudo homenagear não só jogadores e treinadores desconhecidos que se tornaram lendas locais, mas também pequenos grandes clubes que atingiram a gloria, que hoje damos início a uma nova rubrica intitulada “OS REIS DA ANTIGA 2.ª DIVISÃO NACIONAL”. Nesta série de seis artigos iremos lembrar cada um destes campeões hoje quase esquecidos (?), mas de forma mais precisa recordar como alcançaram a glória secundária do Desporto Rei nacional.

1935: Carcavelinhos, o primeiro campeão numa final em dois atos

Campo do Arnado
E começamos este roteiro nostálgico pela década de 30, precisamente quando a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) cria em simultâneo o Campeonato da Liga da 1.ª Divisão e o Campeonato da Liga da 2.ª Divisão. O pontapé de saída das duas novas provas nacionais aconteceu na temporada de 1934/35, sendo que no caso do segundo escalão 32 foram os clubes de norte a sul do país que lutaram entre si pelo título de campeão nacional. 32 emblemas que foram divididos numa 1.ª fase em oito grupos, cujos vencedores avançavam para uma 2.ª fase – uma espécie de quartos-de-final – e posteriormente seguiam-se as meias-finais e por fim a final. E na 1.ª edição daquela que com o passar dos anos ficou popularizada como 2.ª Divisão, o vencedor seria um histórico do futebol luso. Um emblema que nos anos 20 havia feito das suas ao vencer a então principal – e então única – competição nacional, o Campeonato de Portugal. Esse histórico foi o Carcavelinhos, que precisou de fazer horas extras para conquistar aquele que seria o segundo cetro nacional da sua existência. Após terem vencido (com cinco vitórias e uma derrota) o Grupo 7 da 1.ª fase e de ter ultrapassado na fase a eliminar o Olhanense (1-4 e 5-0) e o Barreirense (3-2) os rapazes de Alcântara tiveram pela frente o Boavista, clube que reaparecia nas competições oficiais após um ano de castigo imposto pela FPF depois de em 1933 ter-se apresentado num jogo diante do Benfica com uma equipa assumidamente profissional… numa altura em que o profissionalismo era proibido e Portugal. Boavisteiros que na sua frente de ataque tinham um nome sonante que viria a dar cartas no vizinho e rival da Constituição: Costuras. Mas não era só José Monteiro – o nome oficial do matador Costuras – que dava nas vistas no xadrez. Vítor Guilhar, Janos Biri, ou César Machado, faziam dos axadrezados um rival de peso, como se veio a confirmar. Coimbra e o mítico Campo do Arnado foram o cenário escolhido pela FPF para a primeira decisão da 2.ª Divisão. Reza a crónica do Diário de Lisboa (DL) que os lisboetas contaram com mais apoio nas bancadas e que as duas equipas recearam-se em demasia nos minutos iniciais da partida. Receosas, mas entusiasmadas, assim eram descritas os dois conjuntos. Até que ao minuto 12 os nortenhos chegam ao golo por intermédio de Machicha, na sequência de um ataque pelo flanco direito. O Carcavelinhos não desanimou e pouco depois dispôs de uma soberana oportunidade para chegar ao empate: Óscar de Carvalho comete falta dentro da área e o árbitro Santos Farinha (de Santarém) não tem dúvidas em assinalar o castigo máximo. Porém, Oliveira e Silva desperdiça a oportunidade. O match entra então num período de menor beleza, com os jogadores de ambos os lados a usarem e abusarem da dureza. Até que aos 28 minutos, Tomás Rodrigues restabeleceu o justo empate face ao que se verificava no Campo do Arnado. Na segunda parte os lisboetas ganham ascendente. No espaço de cinco minutos constroem três oportunidades de golo que com um pouco mais de precisão poderiam ferir a pantera. Após este início avassalador do Carcavelinhos o Boavista acordou e poderia ter ficado em vantagem numérica caso o juiz do encontro não tivesse feito vista grossa a uma agressão clara de Oliveira e Silva a um adversário. Este lance aqueceu os ânimos, e até final dos 90 minutos assistem-se a mais algumas picardias entre os jogadores de ambos lados. O jogo vai para prolongamento. O cansaço começa a fazer-se notar no campo de batalha, mas ainda assim é o Carcavelinhos a estar mais perto do golo, não fosse Biri estar à altura ao negar o festejo com uma estupenda parada. Com o empate a persistir, os regulamentos indicavam que Boavista e Carcavelinhos teriam de disputar um novo jogo dali a cerca de um mês e meio!

De novo no Campo do Arnado, que desta feita apresentava uma baixa assistência, as equipas voltam a medir forças. O Carcavelinhos entra melhor, desenvolve o seu jogo no meio campo do adversário, que por sua vez na primeira jogada em que consegue invadir o meio campo contrário fez golo: Justo de Pinho mete a mão na bola dentro da área e o juiz Natividade e Silva (de Aveiro) assinala penalty. O matador Costuras não perdoa e abre o marcador. Este golo surgiu contra a corrente, já que os lisboetas impunham melhor o seu jogo e sem se deixarem abater pelo tento axadrezado atacam com rapidez a baliza de Biri, que por diversas vezes se encontra em apuros. Num desses lances, o guardião húngaro é traído por um colega seu que no meio de uma confusão na área comete a infelicidade de oferecer o empate aos lisboetas. O Boavista só aos 20 minutos consegue sacudir um pouco a pressão do seu oponente. Mas seria de novo o Carcavelinhos que ainda antes do intervalo se coloca novamente em vantagem: Quirino recolhe um passe de Pratas e já dentro da área fuzila Biri. Vantagem justa ao intervalo. No segundo tempo o jogo inicia-se numa toada menos veloz em relação aos primeiros 45 minutos, e disso aproveita-se o Boavista que passa a chamar a si o domínio. O lance polémico acontece já muito perto do fim, quando no seguimento de uma rápida jogada do Boavista o guardião lisboeta Medueño deixa escapar a bola das mãos, tendo esta ressaltado aparentemente para lá da linha de golo. O árbitro assim não entende, e os jogadores do Bessa protestam veemente com Natividade e Silva. A revolta estende-se às bancadas, sendo que nos últimos minutos vislumbram-se mais picardias do que futebol. Chegado o apito final o Carcavelinhos vence e torna-se assim no primeiro campeão da 2.ª Divisão. Madueño, Vergilésio, Justo, Marques Pereira, Esteves, Prazeres, Quirino, Pratas, Álvaro Sousa, Oliveira e Silva e Humberto Sousa são os onze heróis que entram na história do popular clube de Alcântara.

1936: Olhanense junta título da 2.ª Divisão à glória do Campeonato de Portugal de 1924

Os campeão do Algarve e da 2.ª Divisão Nacional de 36
Na época seguinte a fórmula de disputa da 2.ª Divisão sofre uma pequena alteração: ao invés de oito grupos/séries a prova desenrola-se em sete grupos/séries. E na final surge pelo segundo ano consecutivo um clube da Cidade Invicta, neste caso o Salgueiros, que pela frente terá o Olhanense. Para chegarem às Amoreiras – recinto do Estoril onde se realizou a final de 36 – os algarvios venceram a sua série da 1.ª fase com um registo de seis vitórias e uma derrota, sendo que na fase a eliminar deixaram por terra o Barreirense (5-1 e 1-0) e o União de Lisboa (2-1). Perante uma reduzida assistência – na sua maioria afeta ao Salgueiral, e que viajou para a capital em comboios especiais – os algarvios fizeram da experiência a arma para levar a taça para casa. Na visão do jornalista do DL que acompanhou o desafio, o Olhanense «mais habituado a lutas decididas, impõe-se como o melhor conjunto», ante um Salgueiros que «tem um grupo de gente moça, que se encontra progredindo». A grande final teve uma primeira parte enérgica, em que se praticou «um football digno dos campos lisboetas». O primeiro festejo da tarde pertenceu aos portuenses. Estavam decorridos 38 minutos quando no seguimento de uma jogada desenhada pelo flanco direito, Pepe, de cabeça, coloca o Salgueiros na frente. O segundo tempo terá sido menos agradável de ser visto, com o esforço físico despendido nos primeiros 45 minutos a fazer-se notar em ambos os lados. Ainda assim o Olhanense esteve melhor, e com 55 minutos jogados Norberto Cavém restabelece a igualdade ao aproveitar uma indecisão do setor recuado dos portuenses. A desatenção dos defesas salgueiristas iria acabar por ditar o desfecho desta final, já que dez minutos volvidos um novo deslize sentenciou o jogo: Bengala fez o 2-1 final e levou o título para Olhão. Este era então o segundo título nacional conquistado pelos olhanenses, que 12 anos antes haviam arrecadado aquele que ainda hoje é o cetro mais importante da sua história: o Campeonato de Portugal.

1937: Título à segunda tentativa – Boavista conquista 2.ª Divisão após ano difícil

Xeque mate boavisteiro em 37
Na 3.ª edição do Nacional da 2.ª Divisão a FPF introduziu algumas mudanças no figurino da competição. A 1.ª fase passou a ser disputada em 10 séries/grupos de norte a sul do país, sendo que os vencedores de cada uma delas avançavam para uma fase a eliminar que iria ser concluída com a final. E pela primeira vez na ainda curta história da competição o título viajou para o norte, pela mão de um dos seus mais populares emblemas: o Boavista. Os axadrezados atingiram pela segunda vez a final da 2.ª Divisão, após terem vencido a Série 2 da 1.ª fase com 9 pontos e eliminado o Vila Real (7-0 e 7-3), o Académico do Porto (4-2 e 2-2) e o Marinhense (9-0) na 2.ª fase. Na final – disputada no Campo do Arnado, em Coimbra – os boavisteiros encontraram o União de Lisboa. Esta foi uma temporada difícil para os portuenses, já que um ano antes haviam sido despromovidos para o segundo escalão pela via da secretaria, isto é, o alegado facto de terem inscrito de forma irregular um jogador num desafio ante a Académica fez com que a FPF lhes aplicasse a despromoção de divisão como castigo. A juntar a isto, o emblema do Bessa viveu ano atribulado no que ao comando da sua equipa principal dizia respeito, pois pelo banco dos axadrezados passaram quatro técnicos! O antigo guarda-redes húngaro Biri foi o primeiro timoneiro, mas os maus resultados inicialmente averbados deram lugar ao despedimento. Seguiu-se no cargo a antiga estrela dos anos 20 do vizinho FC Porto, Alexandre Cal, mas os bons resultados tardavam em aparecer pelo que o caminho da rua foi apontado ao ex-portista. Da Constituição chegou o terceiro treinador da época, Joseph Szabo, mas o chamamento do Sporting, onde faria história, falou mais alto e pouco tempo teve para aquecer o banco do Bessa. Perante esta rápida partida do húngaro, a direção do Boavista decidiu entregar o comando técnico da sua equipa principal a Alberto Simões, que teve o condão de guiar o conjunto àquele que viria a ser o seu primeiro título nacional. Uma conquista que teve um certo sabor a justiça, desde logo por tudo o que o clube tinha vivido ao longo de uma época atribulada. E para Coimbra, deslocaram-se cerca de 7000 boavisteiros (!), num comboio especial, que foi fretado, digamos, pelo jornal Sporting, que era propriedade do dedicado dirigente do clube, Artur d'Oliveira Valença. Para dar mais vida ao acontecimento, o citado jornal distribuiu a cada adepto que fez a viagem até ao centro do país uma bandeirinha afeta ao clube portuense. Boavista e União de Lisboa subiam ao Campo do Arnado ao final da manhã do dia 2 maio, e ainda mal os boavisteiros haviam “ligado os motores” e já os lisboetas faziam a festa por intermédio de Saraiva, que aos 3 minutos recebe uma bola centrada por Gonçalves sob a linha de fundo para abrir o marcador. Mas rapidamente, o Boavista se refez do susto madrugador. Não só impõe o seu jogo, como obriga o guarda-redes contrário, Tavira, a aplicar-se a fundo. Por sua vez, os unionistas respondem ao melhor futebol dos axadrezados com tímidos contra-ataques. O fulgor dos nortenhos seria premiado aos 26 minutos, quando Humberto às “três tabelas” traiu Tavira na sequência de um forte remate de Peseta. 

Peseta
A propósito de Peseta, cujo nome de batismo era Augusto Domingues, nesta mesma época de 36/37 ele é personagem de mais um caso de profissionalismo encapotado que vigorava no futebol luso daquele tempo. Diz a história que Peseta não compareceu no arranque dos trabalhos da nova temporada, vindo-se posteriormente a saber que o jogador tinha arranjado um emprego na repartição de Finanças de Valença, localidade onde residia. Ora, não querendo abrir mão deste craque, os dirigentes boavisteiros resolveram o assunto ao atribuir ao futebolista um subsídio de 200 escudos por cada deslocação que este fizesse entre Valença e o Porto. Mas voltando à final de 1937, ainda antes do intervalo, um potente disparo de Ferraz de fora da área bate Tavira e coloca o Boavista em vantagem. Os lisboetas atónitos não têm outro remédio senão parar o carrossel boavisteiro com entradas mais duras, sendo que num desses lances Manuel Silva comete penalty. Na conversão, Costuras faz o 3-1 com que se atingiu o descanso. A segunda metade não mais foi do que una demonstração evidente da superioridade do Boavista. O 4-1 surgiu na sequência de uma veloz investida protagonizada por Costuras que à saída de Tavira atirou sem piedade para o fundo das redes. Os nortenhos não queriam ficar por aqui, e já perto dos 90 minutos Antero aproveitou um bom passe de Laguna para fechar o marcador em 5-1. «A vitória dos portuenses foi merecida absolutamente e o resultado de 5-1 expressa-a com fidelidade. O Boavista, finalista pela segunda vez, jogou da melhor maneira, fazendo uma exibição convincente», assim resumia o DL. 

Pelas 21H30 o comboio especial que o jornal Sporting tinha fretado para levar a “família” boavisteira a Coimbra, chega à Estação de S. Bento (no Porto), trazendo a bordo os novos campeões nacionais da 2.ª Divisão: Pesqueira, Humberto, Cortês, Reis, Monteiro, Sena, Antero, Peseta, Costuras, Ferraz e Laguna.

1938: Dois golos de rajada deitam por terra o sonho do União de Lisboa na segunda final consecutiva

A Armada do Mar campeã em 1938
O União de Lisboa tornou-se na temporada de 37/38 no primeiro clube a lograr atingir em duas ocasiões consecutivas a final da 2.ª Divisão e de em ambas ter saído derrotado. E de novo por uma equipa do norte, neste caso o Leixões. Vencedores da série 2 da 1.ª fase de forma invicta, os matosinhenses atingiram a final após eliminarem na 2.ª fase o Vila Real (5-0), o Boavista (também por 5-0) e o Marinhense (4-1). E fizeram-no com base num ataque deveras produtivo (35 golos) e uma defesa de betão (apenas três golos sofridos). Mais uma vez, o Campo do Arnado foi o cenário para onde a FPF levou a final do escalão secundário, realizada a 8 de maio de 1938. E tal como na final transata, o União de Lisboa teve um melhor arranque que o adversário, ocupando o meio campo contrário com base num jogo de passes curtos na tentativa de adormecer os nortenhos. Mas esta toada seria "sol de pouca dura", já que como quem não quer a coisa – ou que a quer, na verdade – o Leixões passou a assumir as rédeas do encontro, não sendo de estranhar que aos 7 minutos, Mano tivesse inaugurado o marcador para a Armada do Mar após receber um passe açucarado de Mitra. O mesmo jogador estava de pé quente e mal a bola tinha sido reposta em jogo já estava outra vez a fazê-la entrar na baliza lisboeta pela segunda vez no espaço de pouco mais de um minuto! O Leixões estava em modo diabólico, um verdadeiro quebra-cabeças para a equipa do União de Lisboa que dava mostras de um completo desnorte em campo. A avalanche dos nortenhos durou até aos 20 minutos, altura em que os lisboetas se começam a libertar das amarras e a tentar subir no terreno. Tentativas estas que iam sendo travadas pela defesa leixonense, que fazia da rapidez a arma para se antecipar aos lances de ataque contrários. Na segunda parte o União surge mais entusiasmado, e aos 50 minutos essa postura seria premiada com o golo de Salvaterra, que após receber um passe de Marques rematou sem hipótese para Álvaro. O empate pairou no ar num par de vezes, não fosse a falta de pontaria de Valentim. A partir dos 65 minutos o jogo conhece a sua fase mais sombria, com os jogadores das duas equipas a travarem-se de razões: Viriato e Mitra são expulsos e logo de seguida Salvaterra vai pelo mesmo caminho após discutir com o árbitro Álvaro Santos (de Coimbra). Mesmo a jogar com nove elementos – contra 10 – o União de Lisboa nunca desiste de atacar a baliza de Álvaro, enquanto que os nortenhos optam por jogar à defesa na tentativa de segurar a magra vantagem. E assim foi, 2-1 foi o resultado final com o título a viajar para Matosinhos, mas pelo que viu na etapa complementar também poderia muito bem ter ido para Lisboa que não teria ficado mal. Mas a história assim não quis e para a eternidade ficam os nomes de Álvaro, João Fernandes, Henrique, Quelhas, Minhoto, Lino, Mário Sarria, Mitra, Silveira e Mano, os campeões nacionais da 2.ª Divisão de 1938.

1939: Segunda coroa para o Carcavelinhos numa final em que o Centro do país aparece pela primeira no mapa das decisões

Os campeões de 1939
Em 1938/39 surgem novas mudanças no figurino da 2.ª Divisão. As equipas passam a estar dispostas em séries/grupos de acordo com a sua localização geográfica. Isto é, passa a haver a Série Minho (para equipas daquela região), a Série Alto Douro (idem aspas), Série Douro Litoral (idem idem aspas apas) e por aí abaixo no território continental. O Carcavelinhos ao vencer a Série Estremadura 1 garantiu a qualificação para a 2.ª fase onde eliminou o União de Lisboa (1-0), a Académica de Santarém (1-0) e o Farense (3-0), atingindo assim a final onde pela frente encontrou o Sporting da Covilhã, emblema este que assim se tornou na primeira equipa do centro do país a chegar ao jogo decisivo do segundo escalão nacional. As duas equipas mediram forças a 30 de abril de 1939, em Santarém, no Campo Alfredo Aguiar, que nesse dia recebeu um elevado número de entusiastas adeptos dos dois lados que para ali se deslocaram de comboio e/ou de camioneta. Conta o DL, que antes do apito inicial do árbitro Santos Palma (de Santarém) vislumbravam-se nas bancadas repletas muitas senhoras «que com a sua presença emprestam um ar festivo»! Ora aqui está uma prova de que já nos anos 30 o futebol não era uma paixão exclusivamente masculina. Assim que a bola foi posta a rolar percebe-se algum nervosismo da parte do guarda-redes do Covilhã, Júlio de Almeida: «mostra-se hesitante, tanto pior para ele, pois a bola ameaça-o constantemente e numa dessas vezes só por muita sorte é que os covilhanenses evitaram ser batidos», contava o enviado especial do DL a Santarém. 

Artur 
Baeta
Os lisboetas mostravam-se superiores, conduzindo a bola com velocidade até à área contrária, ao passo que os serranos só de vez em quando esboçam inofensivas reações ao domínio contrário. Foi, pois, de elementar justiça que à passagem do minuto 36 o remate fraco mas bem direcionado de Tomás Rodrigues levasse como destino o fundo da baliza de Júlio de Almeida. Na segunda parte, o Covilhã acorda e surge mais ameaçador, mas o Carcavelinhos não vai na conversa e continua a galopada ofensiva que vinha fazendo desde o apito inicial de Santos Palma. A partida ganha assim um interesse redobrado, com “bola cá, bola lá”, sendo que a luta se intensifica no último quarto de hora do match, mas sem que o resultado sofresse mais alterações. Para o DL venceu o melhor “team” no terreno, que desta forma levava pela segunda vez para Alcântara e no curto espaço de quatro anos o título nacional da 2.ª Divisão. Francisco Lopes, Artur Baeta, Vergilésio, José Lopes, Vitoriano, França, Pratas, Abrantes Mendes, Tomás Rodrigues, Quirino e Ferreira Lopes, compõem o team campeão. Deste naipe de futebolistas dois saltam à vista: Artur Baeta e Abrantes Mendes. O primeiro foi uma figura incontornável do futebol português, sobretudo enquanto treinador, tendo sido um visionário no que ao futebol de formação diz respeito, onde não se limitou a ser um condutor de jovens futebolistas, mas de igual modo um mestre na vertente dos ensinamentos cívicos, um pedagogo de excelência, que aliou o desenvolvimento do jovem futebolista quer enquanto atleta, mas sobretudo, quer enquanto futuro homem, enquanto cidadão. O segundo elemento ficou eternizado como o "avançado doutor", já que se formou em Direito ao mesmo tempo que desenvolveu a sua carreira de futebolista. O Sporting foi o clube que o formou e catapultou para o Planeta da Bola, jogando pelos leões entre 1926 e 1939, sendo que neste último ano tem uma breve incursão junto do Carcavelinhos onde termina a sua carreira de forma feliz: com o título de campeão nacional da 2.ª Divisão.

(continua)

domingo, outubro 04, 2026

Histórias do Planeta da Bola (37)... O crime passional de Pierre Mony, o primeiro jogador preso por homicídio

O futebol e o crime deram as mãos muito antes dos escândalos mediáticos do século XXI quando nomes sonantes como Robinho, Dani Alves, Ronaldinho Gaúcho, ou Freddy Rincón viram em determinado período das suas vidas o sol “nascer aos quadradinhos” em virtude de atos criminosos cometidos. Há sensivelmente 100 anos atrás um caso pioneiro chocou a opinião pública europeia e só a fama obtida nos relvados salvou o criminoso de uma pena pesada. Corria o ano de 1928, quando Pierre Mony, um antigo defesa-esquerdo da seleção francesa, no seguimento de uma crise de ciúmes, assassinou a tiro o seu melhor amigo. Mas vamos por partes. Mony era um dos meninos queridos do futebol francês dos anos 20. Uma Era onde imperava o amadorismo, mas ainda assim capaz de popularizar nomes como Paul Nicolas – tido como o melhor futebolista gaulês da referida década –, ou Jean Boyer. Juntamente com estes dois craques, Mony integrou a seleção francesa que em 1920 participou nos Jogos Olímpicos de Antuérpia. Nascido em Paris, em 1896, Mony desenvolveu toda a sua carreira no norte de França, mais concretamente na cidade costeira de Boulogne-sur-Mer, onde representou em dois períodos distintos – entre 1918-1921 e 1925-1928 – o US Boulogne e o OSC Boulogne – entre 1923 e 1924, tendo sido, pois, nesta região que alcançou o estatuto de lenda. E foi precisamente numa altura em que já estaria afastado das lides futebolísticas que o nome de Pierre Mony voltou a ecoar pelos quatro cantos do território francês, e tudo devido a uma crise de ciúmes. A antiga estrela dos relvados vivia uma vida aparentemente pacata na cidade onde alcançou a fama, localidade onde geria um restaurante do qual era proprietário. Na noite de 15 de maio de 1928 e após dar por encerrado mais um dia de trabalho no seu restaurante, Mony fez o que habitualmente fazia: ir beber um copo com os amigos ao Popes Bar. Mas naquela noite a sua ida àquele espaço noturno tinha um outro propósito. Entrado no bar, sentou-se ao balcão junto dos seus amigos, onde entre os quais se encontrava o antigo campeão de ciclismo Jean Delpierre. Bebidas e brindes sucederam-se em catadupa até à 1H00, altura em que o bar fechou e Mony juntamente com Delpierre e outro amigo comum, de nome Maurice Dagbert, decidiram separar-se do resto do grupo e ir continuar a farra para outro lado da cidade. Diz a história que os três homens se deslocaram no carro de Delpierre até ao Hotel de La Paix com a intenção de ali continuarem a noite de copos. Porém, o hotel estava fechado, ao que os três amigos decidiram sentar-se na entrada da unidade hoteleira dando aso a uma animada cavaqueira. Nada fazia prever que a determinada altura da borga Pierre Mony tirasse do bolso uma pistola e apontando-a para Delpierre tivesse disparado quatro tiros sobre este. Enquanto Mony desatou dali a fugir, Delpierre ainda conseguiu rastejar com a ajuda de Dagbert até ao café mais próximo no sentido de pedir ajuda. Posteriormente foi transportado para o hospital local, onde seria operado sem sucesso, já que viria a falecer no dia seguinte. Por sua vez, Mony fugiu para o porto de Boulogne-sur-Mer, onde terá atirado ao mar a arma do crime, dirigindo-se depois para casa de um outro amigo a quem pediu para o levar até Calais, a casa dos seus sogros, onde se encontravam a sua mulher, Paule, e a sua filha. Ali chegado, despediu- se da filha com um beijo e foi embora, regressando a Boulogne-sur-Mer para se entregar na esquadra de polícia local onde confessou o crime. No decorrer do interrogatório policial, Mony explicou que suspeitava que Delpierre e a sua esposa tinham um caso amoroso, suspeitas que subiram de tom após uma viagem que os dois haviam feito a Nice, sendo que no regresso Paule terá pedido o divórcio a Mony. Profundamente abalado com este pedido por parte da sua esposa, Pierre Mony terá então planeado matar aquele que era um dos seus melhores amigos. Ato consumado, e Mony foi acusado pelas autoridades por assassinato premeditado, tendo sido detido por tal. O julgamento só viria a ter lugar cerca de cinco meses volvidos o crime, em Arras, cujo tribunal foi pequeno demais para albergar populares e jornalistas – que vieram de vários pontos de França – que ali se deslocaram para assistir a este julgamento mediático. Mony chegou ao tribunal visivelmente abatido e com uma expressão de quem estaria à espera da condenação. As primeiras palavras de Mony perante o juiz foram no sentido de se lamentar por ter cometido tal ato de loucura levado pelo ciúme. Uma das testemunhas que o tribunal ouviu foi a própria Paule, que perante o juiz negou ter tido qualquer afaire com Delpierre. No seu depoimento, Paule referiu ter a sua reputação manchada, retratando o seu marido como um homem imoral e preguiçoso, explicando que seguiu viagem para Nice com Delpierre após Mony a ter incitado a seguir a própria vida dela ao passo que ele seguia a sua. Porém, e após ter ouvido outras testemunhas que conheciam a vida do casal, o juiz terá chegado à conclusão de que Mony não seria nenhum santo no que aos deveres matrimoniais dizia respeito, já que a popularidade granjeada nos retângulos de futebol abriu-lhe as portas dos corações de muitas madames por aquelas bandas! Por outras palavras, cometeu por diversas ocasiões o pecado da infidelidade. Porém, a sua fama de futebolista acabou por pesar mais alto ao fim das 14 horas que durou este julgamento, sendo que quando pronunciado a deliberar a sua decisão sobre este caso o júri decidiu não culpar Mony pelo assassinato de Delpierre. Como se estivesse numa qualquer bancada de um estádio, o público presente na sala de tribunal rapidamente se levantou para ovacionar o absolvido Pierre Mony, que assim foi posto em liberdade até ao resto da sua vida.

quinta-feira, setembro 24, 2026

Jogos Memoráveis (13)... Leixões - La Chaux-de-Fonds (Taça das Taças 1961/62)


No ano de 1961 e no espaço de apenas três meses o Leixões escreveu duas das mais brilhantes páginas da sua hoje centenária história. A primeira aconteceu a 9 de julho do referido ano, dia em que na tribuna do Estádio das Antas o emblema de Matosinhos ergueu para surpresa de todos a Taça de Portugal às expensas do FC Porto. Uma conquista que abriu as portas da Europa do futebol à Armada do Mar, que na temporada seguinte (61/62) competiu na 2.ª edição da Taças dos Vencedores das Taças. E também na estreia na alta roda internacional os leixonenses escreveram uma página histórica que até hoje não mais foi igualada por nenhum outro clube português nas provas da UEFA. E é precisamente sobre este capítulo que hoje iremos recordar.

O grupo que ostentou ao peito o símbolo do Leixões naquela que era a primeira aventura europeia do emblema nortenho, foi maioritariamente o mesmo que venceu a Taça de Portugal, pelo que o entrosamento e a crença (no potencial da equipa) estavam presentes na cabeça de todos os futebolistas que o integravam. Isso e quiçá algum tique de superioridade, tendo em conta que após o resultado do sorteio da 1.ª eliminatória da Taça das Taças de 61/62 a velha expressão “são favas contadas” terá assolado de pronto o pensamento de muitos leixonenses. Na verdade, o nome La Chaux-de-Fonds pouco ou nada dizia a um Leixões que vivia no rescaldo da euforia da conquista da Prova Rainha do futebol luso. “Se vencemos o poderoso FC Porto na sua própria cada numa final da Taça de Portugal, não serão uns tais de La Chaux-de-Founds que nos vão intimidar e vencer”, terão pensado, porventura, os leixonenses na antecâmara da estreia europeia. Pois bem, esta sobranceira acabou por lhes sair caro, já que da Suíça o Leixões trouxe um saco cheio de golos: seis. A derrota por 6-2 na pequena cidade localizada no cantão de Neuchâtel foi acima de tudo um banho de humildade que os portugueses levaram. Dar a volta ao texto, ou seja, à eliminatória, era uma tarefa árdua, já que para passar este obstáculo os pupilos do técnico argentino Filpo Núñez teriam de marcar cinco golos e não sofrer nenhum. Impossível? Não para a Armada do Mar, como iremos ver. Assim, o feriado de 5 de outubro de 1961 fica para sempre nos anais da história do futebol português. O palco desta que viria a ser uma tarde de glória foi mesmo onde ao longo de mais de 50 anos o Leixões vivenciou grandes vitórias: o Campo de Santana. Nesse dia, o hoje desaparecido recinto localizado no centro de Matosinhos – na Rua Silva Pinheiro – foi pequeno demais para acolher a apaixonada massa adepta leixonense que ali se deslocou em busca de presenciar um milagre. E o santo milagreiro que nessa tarde baixou sobre o pelado do Campo de Santana tinha pronúncia brasileira, constituindo-se como um dos mais brilhantes futebolistas nascidos em Terras de Vera Cruz que nos anos 60 passaram pelo futebol português. Mas já lá vamos a dados mais concretos.

Alheio à pressão do resultado que se impunha, os jogadores do Leixões aplicaram-se desde o primeiro minuto de forma brilhante, fazendo da velocidade e da determinação as armas com que a barreira suíça haveria de ser ultrapassada. «A equipa portuguesa foi prodigiosa de velocidade, brio, determinação… e jogo! Foi a jogar e a jogar bem, num ritmo rápido e certo, em que integravam admiravelmente todos os seus elementos, que o Leixões se tornou prontamente amo e senhor da partida», assim dava nota o jornalista Alberto Lobo, o qual ao serviço do Diário de Lisboa (DL) testemunhou este milagre futebolístico. No “quadro pintado” pelo repórter, a atitude do Leixões empolgou os seus adeptos. Autoritários e entusiasmados os jogadores do conjunto português trataram de repor a verdade numa eliminatória que na voz de Alberto Lobo havia ferido na Suíça o prestígio do futebol luso a nível internacional. Outro cenário que não fosse a passagem do Leixões teria sido uma injustiça, de acordo com o jornalista do DL, dado que no Campo de Santana ficou evidente a longa distância em termos de categoria que separava os dois conjuntos… com os portugueses a perfilarem-se muito à frente neste aspeto particular. Na verdade, em Matosinhos os helvéticos mostraram uma «personalidade débil», que só a espaços ser tornou perigosa nos rápidos contra-ataques que “aqui e acolá” foram fazendo. Por sua vez, o Leixões de pronto atacou a baliza de Leo Eichmann, criando inúmeros lances de perigo nos primeiros minutos da batalha. Na verdade, só Eichmann ia colocando algum travão na fúria da Armada do Mar. Isso, e algum nervosismo que com o passar do tempo se ia instalando nos jogadores de Matosinhos que viam a sua garra e vontade esbarrar na falta de sorte ou no guardião contrário.

Osvaldo Silva 
«Com os suíços votados à defesa e os portugueses ao ataque, a bola ficou praticamente colhida entre duas barreiras, cujas linhas cortavam a grande área dos visitantes. A manobra tornou-se dificílima, até porque os matosinhenses pretendiam o golo pela certa, levando a teia de passes até debaixo da baliza do seguro Eichmann», assim descreveu Alberto Lobo as incidências dos primeiros 25 minutos de jogo. Percebendo que por aquele caminho o golo iria tardar cada vez mais, o Leixões corrigiu o estilo de jogo que vinha adotando, passando a optar por tentar a sorte de mais longe da baliza. Por outras palavras, passou a rematar com mais frequência e de ângulos distintos na tentativa de derrubar a muralha suíça. Uma opção que viria a tornar-se na chave do triunfo. Aos poucos a tal muralha contrária começou a ceder aos tiros dos lusos. O atirador principal foi o tal artista brasileiro de que atrás falámos, Osvaldo Silva. Com dois remates certeiros aos 28 e 32 minutos do primeiro tempo, ele começou a operar o tal milagre da reviravolta. Apoiado por Gomes no ataque, o brasileiro do Leixões voltou a ser um autêntico diabo à solta numa segunda parte que abriu praticamente com o golo de Oliveirinha, ao minuto 47, que colocava o Leixões mais perto do milagre. A toada de jogo não se alterou nestes segundos 45 minutos, pelo que até a revolta ser consumada foi uma questão de tempo e de paciência. Aos 53 minutos, António Medeiros empatou a eliminatória, até que aos 72 Oliveirinha bisou e consumou o milagre. O Leixões venceu por 5-0, apagando assim a má imagem deixada na Suíça no jogo da 1.ª mão, e mais do que isso avançava na eliminatória. Nas cabines, os leixonenses estavam, naturalmente, eufóricos com este feito. Para o capitão Raul Machado «o primeiro jogo foi de manifesta pouca sorte para nós e de felicidade para os nossos adversários. Sempre considerei o Leixões superior e por isso acreditava que se tudo corresse normalmente a recuperação não era impossível». E assim foi. Esta reviravolta assume contornos históricos até hoje no futebol português, já que nenhuma outra equipa conseguiu anular uma desvantagem tão grande trazida da 1.ª mão. Sob arbitragem do francês Jean Tricot, as equipas alinharam da seguinte forma: Leixões – Roldão, Santana, Joaquim Pacheco, Raul Machado, Jacinto, António Medeiros, Patela, Gomes, Osvaldo Silva, Mário Ventura, Oliveirinha. Treinador: Filpo Núñez. La Chaux-de-Fonds: Leo Eichmann, Kurt Leuenberger, Jean-Claude Deforel, Raymond Aubert, Willy Kernen, Gabriel Morel, André Brossard, Kurt Sommerlatt, Roberto Frigerio, Heinz Bertschi, Charles Antenen.