quarta-feira, outubro 21, 2026

Os Reis da antiga 2.ª Divisão Nacional: Anos 50

1950: O ano em que a Pantera devorou a Fase Final só com vitórias

Foi por uma escassa diferença de dois pontos que na temporada de 49/50 o Boavista passou à tangente para a 2.ª fase do nacional da 2.ª Divisão. Integrados na Série 2 da 1.ª fase da prova, os boavisteiros quedaram-se no segundo lugar, com 25 pontos, a cinco do campeão – de série – Leixões e aos tais dois pontos do terceiro colocado, o Espinho, classificando-se desta forma para a 2.ª fase. Aqui, deu-se o inverso do que se havia passado na 1.ª fase, isto é, o Boavista levou a melhor sobre o Leixões – bem como sobre o Vila Real e o Vianense – e garantiu a presença na poule final – 3.ª fase – onde iria lutar pelo título juntamente com o Académico de Viseu, União de Montemor e o Oriental. Lisboetas que na fase do tudo ou nada haveriam de ser os principais rivais dos portuenses, como comprovam os dois desafios ocorridos entre os dois emblemas. Oriental que vivia no rescaldo do escândalo de suborno verificado na temporada anterior, e que lhe valeu a suspensão da competição por ordem do Ministro da Educação, Pires de Lima. Mas desta feita, os “guerreiros de Marvila” jogaram limpo…

Duelo entre boavisteiros e orientalistas
Na caminhada para o título o Boavista começou por despachar facilmente o União de Montemor por 4-0, sendo que na ronda seguinte teve pela frente o primeiro osso duro de roer, quando em Marvila suou para derrotar o Oriental num grande jogo de futebol. O desportivismo imperou nas bancadas do Campo Carlos Salema ainda antes do pontapé de saída, quando na chegada ao recinto, a comitiva boavisteira foi recebida com aplausos pelos adeptos orientalistas, em especial Serafim e Fernando Caiado, jogadores que poucos dias antes haviam feito a sua estreia internacional com as cores da seleção nacional. O resultado final de 4-3 a favor do Boavista espelha um jogo equilibrado, mas onde os portuenses tiveram mais alma. Alcino e Fernando Caiado, com dois golos cada um na conta pessoal, foram os marcadores dos tentos axadrezados. Na 3.ª ronda, no Bessa, ante numerosa falange de apoio, os boavisteiros deram mais um passo rumo ao título, ao vencerem o Académico de Viseu por 2-1. Alcindo inaugurou o marcador para o Boavista, aos 27 minutos, ao tirar proveito de uma confusão junto à baliza dos beirões. Um golo que fazia jus ao que se passava em campo, onde os locais eram mais ofensivos, ao passo que os contra-golpes dos forasteiros não causavam grandes calafrios ao guardião Mota. Na segunda metade e com o vento a seu favor, os boavisteiros continuaram ao ataque, mas neste período tiveram pela frente um Académico que passou a incomodar um pouco mais no capítulo ofensivo. E num desses incómodos, Ferreira empatou a contenda. O Boavista aumentou o caudal ofensivo a partir daqui, e aos 75 minutos Serafim é rasteirado dentro da área por Faria, sendo que na conversão do castigo máximo o mesmo Serafim faz o 2-1 final. Na jornada seguinte, os portuenses fizeram a longa viagem até ao Alentejo, para defrontar o União de Montemor. Os locais – que na entrada para esta ronda estavam a apenas dois pontos do seu adversário – evidenciaram um ligeiro ascendente na primeira meia hora de jogo, ante um Boavista que sofria com o extremo calor alentejano, como dava conta a crónica do Diário de Lisboa (DL). Pior ficaram quando aos 32 minutos Lourenço teve de sair de campo após um choque violento com Claro, obrigando o xadrez a ser composto por apenas dez peças até final – na época ainda não eram permitidas substituições. Isso não impediu os visitantes de entraram mais afoitos na segunda metade, e com mais energia que o seu adversário chegaram ao golo aos 56 minutos por intermédio de Fernando Caiado. Porém, sete minutos volvidos Espadinha repõe a igualdade, para já perto dos 75 minutos um «esplêndido» golo de Barros recolocar as panteras na frente do marcador. A sentença final – o 3-1 – chegou por meio de Lourenço, que desta forma mantinha o Boavista invicto e cada vez mais perto do título. Festa que aconteceu a 7 de maio de 1950, dia em que o Boavista recebia o Oriental, e uma vitória dos locais assegurava matematicamente o cetro nacional. O encontro foi disputado em Leça da Palmeira – desconhece-se as razões do porquê de não ter sido no Bessa –, no Campo Mascarenhas Júnior, e nos minutos iniciais viu-se um Boavista a atacar deliberadamente, mas de forma muito precipitada. Com o passar dos minutos o jogo entrou numa toada de equilíbrio, com ambos os setores recuados a terem de trabalhar para manter as suas balizas invioláveis. «Até ao intervalo os dois grupos lutaram com entusiasmo, mas sem eficiência. Os guarda-redes tiveram boa atuação e é devido ao seu trabalho que se justifica o resultado de 0-0 ao intervalo», contava o DL. No segundo tempo o cenário foi alterado. O Boavista dominou. O primeiro quarto de hora destes segundos 45 minutos foram demolidores. Três golos (!) – da autoria de Luzia e de Lourenço (2) – sem resposta praticamente sentenciaram a partida, de nada valendo a ténue reação do Oriental, já que aos 75 minutos Alcino fez o 4-0 final e garantiu dessa forma não só o triunfo como o título de campeão nacional da 2.ª Divisão para o Boavista. Os portuenses terminaram a poule final de forma invicta: na sequência de uma vitória em Viseu por 5-2 na ronda final.

1951: O Barreirense volta a inscrever o seu nome a letras de ouro na história da 2.ª Divisão

Trinta e nove equipas deram vida à 2.ª Divisão na temporada de 50/51, que se desenrolou num figurino menos desproporcional do que em épocas anteriores. Desde logo se olharmos para a 1.ª fase da competição, que só comportou quatro séries – de norte a sul – com 10 equipas na maioria delas – a exceção foi a Série 4 que só teve nove conjuntos a competir. O Barreirense venceu a Série C, com 29 pontos, garantindo assim um lugar no Grupo Sul da 2.ª fase, onde no qual também conquistou o primeiro posto e dessa forma foi juntamente com o Lusitano de Évora, o União de Coimbra e o Salgueiros lutar pelo título nacional na poule final. O início da luta final aconteceu a 6 de maio de 1951, dia em que se realizou a 1.ª jornada da 3.ª fase, tendo o conjunto do Barreiro recebido no Campo do Rossio o União de Coimbra. A atuar em casa o conjunto da Margem Sul deu o primeiro sinal de aviso, e não fosse Celso a defender o perigoso remate de Custódio o marcador teria sido inaugurado. Após a investida inicial dos locais, o jogo entrou numa toada de maior equilíbrio a partir do minuto 10. Mas foi sol de pouca dura, pois a partir dos 20 minutos o Barreirense voltou a forçar a defesa coimbrã a trabalhos redobrados e numa dessas incursões à área contrária Décio abre o ativo para os anfitriões. O golo teve o condão de despertar os jogadores do União, que a partir daqui roubam o protagonismo do jogo aos do Barreiro, mas os seus avançados mostram-se desinspirados na hora de atirar ao alvo. Aproveita esta falta de eficácia o Barreirense, que a jogar em contra-ataque faz o 2-0 antes da saída para o descanso. José Ferreira foi o autor do golo. 


A segunda metade começa com investidas de um lado e de outro. Numa dessas incursões o Barreirense mata o jogo ao fazer o terceiro tento por meio de Décio após cruzamento de Custódio. O marcador podia ter sido ampliado, já que estes dois últimos homens dispuseram de soberanas oportunidades para voltar a bater Celso, mas a cinco minutos do fim seria o União a apontar o merecido tento de honra, por Noronha. Na ronda seguinte, viagem até à capital do Alto Alentejo, Évora, onde no Campo da Estrela não cabia nem um alfinete para presenciar uma partida que começou com nervos à flor da pele de parte a parte. O primeiro golo seria da autoria de Ferreira, que desfere um forte remate a passe de Teixeira e coloca os barreirenses em vantagem. Os eborenses reagem bem, mas faltava-lhes uma ligação entre setores melhor engendrada para causar perigo junto da baliza de Francisco Silva. Na segunda parte, o Lusitana aparece mais vivo em campo, mas contra a corrente seria o Barreirense a ampliar o marcador por intermédio de João Silva. O Lusitano abanou, e aos 70 minutos Raul, de fora de área, marca um golaço que pôs cobro às ténues esperanças dos alentejanos em conseguir virar o jogo. Tempo houve ainda para Teixeira, de penalty, fazer o 4-0 a favor do Barreirense, sendo que o melhor que os eborenses conseguiram fazer foi encurtar a desvantagem por Teixeira da Silva. 
A 20 de maio o Barreirense recebeu o Salgueiros, que foi a equipa que deu os primeiros acordes ofensivos da tarde. Só na parte final do primeiro tempo é que o Barreirense mostrou as garras, e em boa hora o fez, pois antes do apito de António Serrano (de Lisboa) para o descanso, Ferreira abriu o ativo no seguimento de um pontapé de canto. A entrada do Barreirense na segunda parte não poderia ter sido melhor: bela jogada coletiva entre Faia, Teixeira e Custódio, com este último a bater Soeiro. 2-0 o resultado final, o que fazia com que ao términus da primeira volta da poule final o Barreirense surgisse isolado na classificação geral, com 6 pontos, mais dois que o União de Coimbra. E seria precisamente na bela cidade localizada nas margens do Mondego que surgiu o primeiro tropeção dos futuros campeões nesta 3.ª fase. Fazendo-se acompanhar de elevado número de adeptos até ao Campo da Arregaça, o Barreirense viu-se em apuros desde cedo face à avalanche ofensiva dos donos da casa. Porém, contra a corrente, foi Teixeira que de cabeça abriu o ativo para os forasteiros quando estavam decorridos 7 minutos. Pouco depois da meia hora o árbitro Vieira da Costa (do Porto) invalida um golo ao União, que não tirando o pé do acelerador chegou ao merecido empate ainda antes do intervalo, por intermédio de Conceição Rodrigues. «No reatamento, o jogo é assinalado com os unionistas a exercerem pressão, chegando mesmo a dominar, só não marcando, porém, devido aos maus remates dos seus dianteiros», retratava o DL. Á passagem dos 70 minutos essa tendência foi alterada, quando Noronha com toda a calma do Mundo fez um chapéu a Silva e amplia a vantagem e sela o resultado final em 2-1. No dia 3 de junho uma conjugação de resultados fez do Barreirense campeão da 2.ª Divisão pela segunda vez na história. À derrota do seu mais direto perseguidor – o União de Coimbra – na luta pelo título, no Porto diante do Salgueiros; o Barreirense respondeu com um triunfo (1-0) caseiro diante do Lusitano de Évora. Nos primeiros 15 minutos do encontro vimos um Barreirense dominador, mas sem conseguir assustar o guardião Martelo. Com as rédeas do jogo a passar de mão em mão em períodos alternados, o golo da vitória – e do título – só chegaria a 6 minutos do fim, no seguimento de um livre apontado por Teixeira a castigar uma falta sobre Ricardo Vale. O Barreirense fazia a festa e de nada valeu a derrota (3-2) no último jogo da poule, no Porto, ante o Salgueiral.

1952: Lusitano de Évora conquista o primeiro e único título para o Alentejo com a ajuda do único jogador a ser campeão nacional em três divisões distintas

Dia 1 de junho de 1952. Um dia histórico para Évora e para o futebol alentejano de um modo geral. O Lusitano daquela cidade conquistava o título de campeão nacional da 2.ª Divisão após um empate sem golos ante o Vitória de Setúbal na derradeira jornada da poule final. Mas para chegar ao título, os eborenses começaram por classificar-se em 2.º lugar da Série D da 1.ª fase, com 28 pontos, menos dois que o campeão de série, o União de Montemor, e os mesmos que o… vizinho Juventude de Évora! Juventude e Lusitano disputaram taco a taco o acesso à 2.ª fase do campeonato. No Estádio Sanches de Miranda, casa do Juventude, os dois rivais disputaram um dos mais empolgantes dérbis de Évora de que há memória. O Lusitano vencia ao intervalo os seus vizinhos por 4-1, sendo que no reatamento a equipa do Juventude fez uma recuperação extraordinária, levando o resultado para uma diferença mínima. Nos instantes finais os campeões nacionais da 3.ª Divisão da temporada anterior – o Juventude – beneficiariam de uma grande penalidade, a qual foi convertida e selaria o marcador num fantástico e inesquecível 5-5. O equilíbrio entre os dois rivais foi de tal maneira vincado que ambos chegariam ao final desta 1.ª fase em igualdade pontual na tabela classificativa, com os tais 28 pontos. Porém, o Lusitano levou a melhor no desempate no goal-average (marcou 66 golos contra 64 do Juventude), e qualificou-se assim para a fase seguinte do campeonato, ao passo que o rival ficava pelo caminho. 


Na 2.ª fase, ao classificar-se em segundo lugar, atrás do Vitória de Setúbal e à frente de União de Montemor e da CUF, o Lusitano avançou para a 3.ª e decisiva fase da prova, onde lutou pela subida de divisão e pelo título de campeão. As coisas até nem começaram da melhor maneira, já que em Torres Vedras de nada valeu o golo de Pepe, já que o Torreense venceu por 2-1. Na 2.ª jornada, o Lusitano tirou a barriga de misérias ao esmagar o União de Coimbra por 7-1. Unionistas que até abriram o ativo, logo aos 2 minutos, por Zeca, mas um par de minutos depois Teixeira da Silva corrigiu o mau arranque dos locais e empatou a contenda. A partir dali o Lusitano partiu para cima dos rapazes de Coimbra, criando diversas ocasiões para marcar. Umas iam sendo salvas a custo pelo guarda-redes Celso, ao passo que outras tiveram como destino o fundo das redes deste. Teixeira da Silva – com mais dois tentos na conta pessoal –, Duarte – com um hattrick – e Pepe apontaram os restantes golos desta goleada. A primeira volta da poule final terminou em Setúbal com um triunfo por 3-1 do Lusitano. Assistiu-se a um início de jogo veloz, com as duas equipas a tentarem chegar ao golo. Inácio atirou à trave para os setubalenses, mas foi Teixeira da Silva que aproveitou um erro da defesa local para colocar o Lusitano em vantagem no placard. O Vitória parecia nervoso, e um minuto volvido, Graça comete novo deslise ao tentar fazer um passe ao seu guarda-redes e acaba por… fazer um auto-golo. O Vitória sacudiu a sonolência e até ao intervalo ainda conseguiu reduzir a desvantagem por Dimas, após passe de Melão. O primeiro quarto de hora após o descanso resumiu-se a um futebol de cautelas de parte a parte, mas depois disto o Vitória assumiu as despesas do jogo obrigando o Vital a trabalho apertado. Seria, no entanto, no seguimento de um contra-ataque que o Lusitano voltou a marcar – por Pepe – e garantiu os dois pontos.

Taça de campeão entregue ao capitão 
do Lusitano
Em Évora, na 4.ª jornada, numeroso público deslocou-se ao recinto do Lusitano para presenciar in loco a vitória dos locais por 3-1 sobre o Torreense. Na penúltima ronda da poule o Lusitano praticamente entrou a ganhar em Coimbra, quando aos 2 minutos, Vale converte com êxito uma grande penalidade. Os unionistas ripostaram e à passagem dos 14 minutos empataram o jogo por Aparício. Até à meia hora as balizas foram procuradas pelos dois conjuntos de forma permanente, mas estranhamente até ao descanso o ritmo do jogo abrandou e muito, dando lugar a um espetáculo pouco digno desse nome. No reatamento o União obrigou a defesa eborense a trabalhar afincadamente, mas o desgaste físico dos unionistas acabaria por ser aproveitado pelo Lusitano para chegar ao tento da vitória, por intermédio de Duarte. Assim, o conjunto de Évora faria a festa do título diante do seu público da derradeira jornada da poule final. «O Campo da Estrela apresenta aspeto surpreendente. Flutuam bandeiras no campo», assim era retratado pelo DL o ambiente que antecedeu o encontro. As primeiras jogadas de maior entusiasmo aconteceram junto da área visitante. Com os ponteiros do relógio a baterem nos 30 minutos assistiu-se a uma partida pautada pelo equilíbrio, sendo que o golo poderia até ao intervalo ter acontecido em qualquer das balizas, não fossem os setores recuados estarem atentos às manobras ofensivas contrárias. No segundo tempo as oportunidades de golo repartem-se pelos dois lados, mas o empate a zero não se altera e com o apito final de António Calheiros (de Lisboa) a festa toma conta do Campo da Estrela e de… metade da cidade, pelo menos. «O final do jogo atinge momentos de extraordinário entusiasmo. Um por um, os jogadores de Setúbal abraçam os do Lusitano. No ar rebentam foguetes. Os “vivas” e as palmas constituem um barulho ensurdecedor e dando largas ao seu grande entusiasmo, a multidão invade o campo e com os jogadores aos ombros vai passeá-los pela cidade», eis a bonita imagem contada nas palavras do DL deste épico momento da história do futebol do Lusitano de Évora. Este título garantiu aos eborenses a subida à 1.ª Divisão, escalão esse onde haveriam de marcar presença nas… 14 épocas seguintes!

Teixeira
da Silva
O título do Lusitano guarda em si um curioso e histórico facto. Teixeira da Silva, um dos campeões nacionais de 51/52, foi, e é, o único futebolista a sagrar-se campeão nacional em três divisões distintas. Por outras palavras, foi campeão nacional da 1.ª Divisão ao serviço do Belenenses em 45/46, foi campeão nacional do segundo escalão pelo Lusitano de Évora em 51/52, e foi também campeão nacional da 3.ª Divisão ao serviço do Serpa em 56/57. É obra. Nascido em Angola, no dia 8 de dezembro de 1922, João Luís Teixeira da Silva atuava como avançado, tendo em meados dos anos 40 deixado África – e o seu clube, o Sport Moçâmedes e Benfica – para ingressar no Belenenses, onde ingressou na temporada de 44/45. No Restelo permaneceu quatro temporadas, antes de rumar ao Minho para representar o Vitória de Guimarães em duas épocas. Tudo isto, na 1.ª Divisão. Em 50/51, Teixeira da Silva desce um escalão nacional, passando a representar o Lusitano de Évora na 2.ª Divisão Nacional, clube pelo qual, como já vimos, venceu o título nacional secundário e levou à 1.ª Divisão. A transferência de Teixeira e Silva para a capital do Alto Alentejo está envolta num episódio curioso, ou seja, o jogador transferiu-se ao abrigo do regulamento (?) que permitia que jogadores mudassem de clube sem qualquer dificuldade desde que fosse ao abrigo da obtenção de um emprego na função pública. Ora, Teixeira e Silva foi admitido como funcionário público na Câmara Municipal de Évora e assim pôde deixar a Cidade Berço. No Alentejo haveria de ficar para sempre, já que após deixar os lusitanistas atravessou a rua para defender as cores do vizinho Juventude, por uma temporada, na 2.ª Divisão. Seguiu-se uma viagem até Serpa, onde esteve um total de seis temporadas, ajudando a levar o clube desde os campeonatos distritais até à 2.ª Divisão nacional, sendo que pelo meio venceu o tal título de campeão nacional da 3.ª divisão.

1953: Santos Populares festejados a dobrar em Marvila

Os campeões nacionais de 1953 vieram de Marvila
Foi no Porto que a 14 de junho de 1953 o popular Clube Oriental de Lisboa venceu o primeiro de dois campeonatos nacionais da 2.ª Divisão da sua longa e gloriosa história. Antes dos foguetes, da música e das flores decorarem o bairro de Marvila, cerca de 700 orientalistas percorrerem 350 quilómetros desde a capital até à Cidade Invicta para apoiar a sua equipa na importante jornada diante do Salgueiros, no Campo Eng. Vidal Pinheiro. Dois comboios esgotados fizeram a viagem (ida e volta) até ao Porto, tendo o bilhete custado a módica quantia de 95 escudos. Outros tempos. Bom, mas no campo o Oriental não podia ter tido uma entrada melhor, já que logo na bola de saída, Mendes abriu o ativo, ao aproveitar uma falha clamorosa do guardião da casa, Adelino. Os salgueiristas logo se recompuseram do abalo inicial, e a partida entrou numa toada de equilíbrio entusiástico. Porém, os lances de maior perigo eram construídos pelos lisboetas. Na reta final da primeira parte, o Salgueiros assume as rédeas da partida, procurando com insistência o tento do empate, mas a defensiva forasteira bate-se afincadamente com o ataque local. Na segunda metade, «continua a lutar-se com a mesma vivacidade inicial, ninguém cede, num desbaratar de energias que chega a causar encanto», contava o DL. Com o passar do tempo a energia vai diminuindo, dado que a resistência dos jogadores tem limites, e a meia hora do fim passa a ver-se um Oriental mais preocupado em defender o precioso resultado do que tentar ampliá-lo. 

E assim foi, com o apito final do árbitro Paulo de Oliveira (de Santarém) os 700 orientalistas presentes no Campo Eng. Vidal Pinheiro deram vivas de alegria, o Oriental era campeão nacional e estava de volta à 1.ª Divisão. E em Marvila, assim que se soube do resultado, a festa foi ainda maior e durou dias a fio, como contava o jornal Record: «A festa começou na tarde de domingo anterior, quando estoirou nos bairros orientais de Lisboa a grande bomba: o COL vencera no Porto e conquistara o título de campeão nacional da 2.ª Divisão. Depois, à noite, nos bailes populares, e quase de madrugada, quando chegou o comboio especial trazendo os briosos campeões, a apoteose começou, a alegria avassalou todos os corações da gente laboriosa e honesta das bandas do Poço de Bispo. A ideia da festa da consagração no domingo seguinte criou imediatamente raízes. No domingo, todo o orientalista têm obrigação de levar para o campo um balão, um maço de serpentinas e um foguete (…) e de facto, anteontem, o campo de Marvila mais parecia um arraial de festas populares, tipicamente portuguesas, do que um campo de futebol. (…) O campo oferecia um vistoso aspeto, todo embandeirado em volta, ornamentado com toda a espécie de emblemas, desenhos, grinaldas de verdura, um mundo de enfeites de arraial. (…). Apoteoticamente aclamados, os jogadores deram uma volta ao campo exibindo a cobiçada taça que premiou tão magnífico triunfo. Depois da debandada, um cortejo automóvel percorreu as principais ruas da zona oriental de Lisboa, por meio de alas de povo, levando num deles as taças conquistadas». Marques, Morais, Luz, Capelo, Isidoro de Jesus, Alfredo, Mendes, António Leitão, Carlos França, Almeida e José Pina, este foi o onze que no Porto deu o primeiro título de campeão nacional ao popular COL.  

1954: CUF - O gigante do Barreiro que nasceu operário e se fez grande no futebol nacional

Os operários da CUF que em 54 levaram 
a glória até ao Barreiro 
CUF, provavelmente o maior clube empresa da história do futebol português que viveu em 53/54 um dos seus maiores momentos de glória com a conquista da 2.ª Divisão. Apoiada por uma das maiores empresas nacionais de então - Companhia União Fabril – liderada por Alfredo da Silva, o maior industrial português do século XX, o clube do Barreiro foi uma espécie de PSV ou Bayer Leverkusen dos anos 40, 50 e 60, mas sem atingir a dimensão que estes dois emblemas ligados a grandes indústrias atingiram. Mas como já vimos, a CUF também teve os seus dias de felicidade, e o dia 23 de maio é sem dúvida um deles. Mas já lá vamos. Na temporada de 53/54 houve nova mudança de figurino da 2.ª Divisão, cuja 1.ª fase passou a ser constituída por apenas três séries: norte, centro e sul. As duas primeiras foram integradas por 14 clubes, ao passo que a última foi disputada por 12. Os cufistas venceram precisamente esta Série Sul, com 35 pontos, mais 4 que o Juventude de Évora que na condição de segundo classificado também garantiu a presença na poule final. Segunda fase que foi integrada por seis clubes – os dois primeiros posicionados de cada uma das três séries. A extensa – com 10 jogos – e difícil poule final da competição chegou ao seu decisivo dia com o campeão por decidir. Ou seja, CUF e Torreense surgiam empatados no 1.º lugar, com 12 pontos, embora os do Barreiro tivessem vantagem no goal-average. Os dois emblemas tinham colecionado até então nesta 2.ª fase cinco vitórias, dois empates e outras tantas derrotas. Na jornada decisiva a CUF recebia no Barreiro os Leões de Santarém, ao passo que os de Torres vedras jogavam também diante do seu público ante o Leixões. E no Barreiro, de acordo com a crónica do DL, os locais iniciaram o jogo com vontade de cedo chegar ao golo, semeando o pânico na área contrária e não fosse a desinspiração – ou nervosismo – inicial dos avançados cufistas o guardião Mário teria ido buscar a bola ao fundo das suas redes pelo menos em duas ocasiões claríssimas. «Nota-se que as equipas estão a jogar mais com os nervos do que com a cabeça e os pés, mormente a da casa, que acusa em demasia a responsabilidade do desafio», analisava o jornalista do DL. No entanto, aos 24 minutos o nervosismo deu lugar à determinação: Barriga corre isolado em direção à baliza de Mário e com um remate rente ao chão faz o primeiro golo da tarde. O golo aninou a CUF, que passou a carregar com maior insistência, criando diversas situações de aflição aos Leões, que por sua vez não deixavam de afiar as garras sempre que podiam. Também a CUF se pôde queixar de alguma de sorte na finalização, já que antes do descanso Vasques atirou uma bola ao poste. E o segundo tempo não poderia ter tido melhor início para os locais: aos 49 minutos, Aureliano faz de cabeça o 2-0, no seguimento de um pontapé de canto. O público que lotou o Campo de Santa Bárbara pressentia que o título estava perto e de pronto solta serpentinas que voam pelo retângulo de jogo. Pouco depois, Sérgio desperdiça uma soberana oportunidade para fazer um novo golo cufista, quando só com o guardião contrário pela frente atira ao lado. Apesar de a CUF ser dona e senhora do jogo, os Leões de Santarém iam dando alguma luta, e à passagem dos 75 minutos, Livramento encurta distâncias no marcador. Os escalabitanos animam-se e passam a jogar mais ao ataque, mas a CUF fecha com eficácia as portas da sua baliza e mantém o resultado até final. Com o derradeiro apito de Joaquim Campos (de Lisboa) a festa acontece no Barreiro. A CUF era campeã nacional da 2.ª Divisão, de nada valendo a expressiva vitória do Torreense no outro jogo diante dos matosinhenses: 5-1. No cair do pano desta edição da 2.ª Divisão, o DL escrevia que «um campeão que merece sempre distinção especial, mas no caso presente, tanto o novo titular como o Torreense se igualaram em categoria e ambos, por igual, devem ser alvo da simpatia de todos. Ganhou o título aquele que era favorito e a sua vitória constitui prémio para o labor despendido durante a longa e fatigante prova».

1955: Torres Vedras em festa com o Torreense campeão

Os homens que conquistaram o único título
de campeão nacional da história do Torreense 
Apenas duas zonas – norte e sul – deram vida à 1.ª fase da época de 54/55. Cada uma dessas zonas/séries foi disputada por 14 equipas, sendo que os três primeiros classificados de cada uma delas avançava para a 2.ª e decisiva fase da 2.ª Divisão. E ao fim de nove meses de competição, eis que a 29 de junho de 1955 foi encontrado um novo campeão nacional: o Torreense. Só na 10.ª jornada é que houve “fumo branco”, isto é, foi coroado o novo campeão nacional. Isto porque quer Torreense, quer o Caldas, entraram na última ronda a poderem vencer o título. As duas equipas encontravam-se separadas por apenas um ponto, sendo que a tarefa mais difícil parecia estar destinada os rapazes de Torres Vedras, que tiveram de viajar até Santarém para defrontarem os Leões locais, ao passo que o conjunto das Caldas da Rainha recebia o Estoril. Milhares de adeptos fizeram a viagem desde Torres até à capital do Ribatejo, conquistando desta forma uma “maioria absoluta” nas bancadas do Campo Alfredo Aguiar. O início de jogo foi movimentado de parte a parte, com ambos as equipas a procurarem levar o esférico para o meio campo contrário. As oportunidades de golo repartiram-se pelos dois lados, mas foram os visitantes a conseguir introduzir a bola dentro da baliza à passagem da meia hora: «a equipa visitante contra-atacou e um centro de Pina foi rematado por Carlos Alberto em condições de fornecer o primeiro golo da partida», assim escreveu o DL. Na retoma, os Leões de Santarém mostraram vontade de chegar ao empate, mas sem, no entanto, conseguirem criar perigo junto à baliza de Gama. Foi o Torreense que assustou de verdade na outra baliza, quando Pina atirou aos ferros na sequência de uma fuga de Martinho pelo flanco. Depois disto, os lances de perigo sucederam-se para ambos os lados, obrigando os dois guarda-redes – Cristobal e Gama – a trabalhos redobrados. O último quarto de hora foi de elevado interesse, com as equipas a intensificarem os seus ataques, os quais iam sendo travados com atenção e mestria ora pelos defesas, ora pelos guarda-redes. Começaram por esta altura também a vir ao de cima alguns nervos, expressos em algumas entradas um pouco mais ríspidas. Até que aos 80 minutos, Martinho voltou a ter uma arrancada que seria coroada de êxito: cruzou rasteiro para Mendonça, que aproveitando a atrapalhação da defesa local fez o 2-0 final. «O entusiasmo dentro e fora do retângulo tornou-se indiscritível. Todos se abraçavam e choravam de alegria». O Torreense era o novo campeão nacional da 2.ª Divisão ao concluir a 2.ª fase com 15 pontos, mais um que o Caldas que nessa mesma tarde despachou o Estoril por 7-2. O argentino Oscar Tellechea daria uma volta de honra ao campo para celebrar junto dos seus jogadores e adeptos este feito. Para a eternidade aqui ficam os nomes dos onze heróis que no Campo Alfredo Aguiar entraram na história do clube de Torres Vedras: Gama, Amílcar da Silva, Mergulho, Forneris, José Gonçalves, Carlos Alberto, Martinho, José da Costa, Mendonça e Pina.

1956: Quando o talento de Rogério “Pipi” ganhou o desafio e o campeonato

O Oriental campeão sob a batuta
de Rogério "Pipi"
Contando no seu elenco com um reforço de peso – o ex-benfiquista Rogério “Pipi” – o Oriental voltou a saborear a conquista do título secundário em 55/56. Os rapazes de Marvila venceram a Zona Sul da 1.ª fase, com 41 pontos, sendo que na 2.ª fase tiveram de medir forças com o Vitória de Guimarães, o Boavista, o Salgueiros, o Olhanense e o Coruchense para apurar o campeão nacional. E foi precisamente em Coruche, que na derradeira jornada da fase final o COL fez a festa do título. A equipa só dependia de si para ser campeã, ou por outras palavras, só precisava de mais uma vitória para no espaço de três anos sagrar-se campeã nacional pela segunda vez. Para o Ribatejo, o COL fez-se acompanhar de um imenso de mar de adeptos, os quais lotaram por completo o Campo da Horta da Nora. Nas palavras do Mundo Desportivo, aquela havia sido a maior enchente de sempre do recinto do Coruchense, e por consequência a melhor receita obtida até então pelo emblema ribatejano. O Record escrevia que «Coruche, atónita, viu-se invadida por cerca de 6000 forasteiros, exuberantes de entusiasmo, mas ordeiros e comunicativos».
Adeptos do Oriental invadiram Coruche

O peso da responsabilidade fez-se sentir do lado dos orientalistas, de tal maneira que os jogadores não souberam executar o que de melhor vinham fazendo ao longo desta temporada. Mas nem sempre ganha quem joga melhor, e o Oriental fez prova disso ao alcançar a tão almejada vitória (2-0) e assim conquistar o cetro. O primeiro tento da tarde aconteceu aos 29 minutos e foi da autoria da grande estrela da equipa, Rogério “Pipi”, que na entrada da área deu o melhor seguimento a um passe de Almeida. O mesmo Rogério “Pipi”, dez minutos volvidos, coordena uma bela jogada de combinação com Francisco Moreira e Almeida e posteriormente endossa o esférico para Carlos França, que de costas para a baliza ilude o guarda-redes Sério e faz o 2-0. O 3-0 final foi marcado já no segundo tempo: «Num livre à entrada da grande área, Rogério fez a bola galgar a barreira e anichar-se nas redes de Sério, que nem teve tempo de esboçar a defesa», escrevia Silva Resende, em A Bola, uma crónica cujo título expressava o que se tinha passado neste desafio decisivo: “O talento de Rogério ganhou o desafio e… o campeonato”. E Coruche o Oriental apresentou em campo Soares, Morais, Capelo, Cordeiro, Cruz, Fernando, Francisco Moreira, António Leitão, Carlos França, Rogério e Almeida.

1957: O dia em que Alma Salgueirista conquistou o Porto e… Portugal  

O velho Salgueiral em 1957
Após quatro tentativas goradas de alcançar a glória, eis que em 56/57 o velho Salgueiral fez jus à sua condição de clube popular ao conquistar o seu primeiro título de campeão nacional da 2.ª Divisão. Vencedor da Zona Norte da prova, o Salgueiros enfrentou o Braga, o Vitória de Guimarães, o Farense, o Coruchense e o Montijo na 2.ª fase, tendo o título sido decidido na derradeira jornada da prova. Salgueiros, que, diga-se de passagem, tinham uma equipa de respeito, já que entre outros craques haviam sido reforçados com três jogadores habituados a outras andanças no futebol nacional. Barrigana, Porcel e Carvalho, três futebolistas que no início da temporada haviam sido dispensados de forma polémica do vizinho FC Porto pelo controverso treinador azul e branco, Dorival Yustrich, foram acolhidos pelo seu colega de profissão do outro lado da cidade, Alfredo Valadas, que os juntou a outros talentos que o clube de Paranhos tinha na altura, casos do cabo-verdiano Chau, Gualdino, Lalo, Tai, Lenine, entre outros. Este foi ademais um campeonato que terminou de forma inédita, isto é, com três equipas empatadas pontualmente no primeiro lugar, com 14 pontos. Os portuenses levariam a melhor no desempate pelo critério do confronto direto. Salgueiros que na derradeira ronda da fase final, disputada no dia 12 de maio de 1957, deslocou-se ao Ribatejo para defrontar o Coruchense. 

Festa encarnada em Coruche... 
Fortemente apoiado pelos seus adeptos no Campo da Horta da Nora, o Salgueiros até começou a sofrer em Coruche com as investidas iniciais dos ribatejanos, mas a pouco e pouco foi equilibrando um encontro que durante largos períodos desenrolou-se a meio campo. Até que aos 20 minutos o marcador funcionou pela primeira vez. «Armando conduziu a avançada e passou depois o esférico para Veríssimo que se lançou pelo terreno e serviu Lopes, o qual chegou a fintar Barrigana para rematar de seguida com êxito», assim foi descrito pelo DL o primeiro tento do Coruchense. A vantagem não duraria muito, já que apenas dois minutos volvidos uma jogada iniciada em Germano é concluída com êxito por Teixeira. As equipas repartiam as ocasiões de perigo junto das balizas contrárias sem que, no entanto, o marcador voltasse a funcionar antes do intervalo. No reatamento o Coruchense é inicialmente mais ameaçador, mas foi Lalo que deu ao Salgueiros o primeiro remate intencional. Até aos 60 minutos a defesa dos portuenses teve de se aplicar a fundo para travar as descidas dos coruchenses à sua área, mas seria novamente a baliza dos locais a ver passar o perigo à sua frente na sequência de ações ofensivas de Pintos e Lalo. O Salgueiros passou então a comandar as operações, atacando a baliza de Vieira de forma mais frequente e enérgica, não sendo de estranhar que na passagem do minuto 73, Tai fizesse o 2-1 após passe de Lopez. Em desvantagem, o Coruchense voltou a despertar, lançando-se afincadamente ao ataque e obrigando Barrigana a uma série de defesas atentas. Até que a sensivelmente 10 minutos do apito final do árbitro Joaquim Campos (de Lisboa) um forte e bem colocado remate de Manuel Jorge fez o resultado final: 2-2. Findo o encontro, a tristeza abateu-se sobre os jogadores salgueiristas, que precisavam de ganhar para festejarem o título. Por entre lágrimas, os jogadores portuenses regressavam aos balneários, ao passo que a numerosa falange de apoio salgueirista ia abandonado o Campo da Horta da Nora cabisbaixa e silenciosa. Porem, tudo mudou quando de Faro chegavam notícias de que o Vitória de Guimarães ali tinha empatado (também a dois golos), o que de pronto rotulava o Salgueiros campeão. 

... e na Cidade Invicta
A multidão voltou a correr para o campo em absoluto delírio, juntando-se aos jogadores numa festa de arromba. Festa que duraria dias a fio, sobretudo na Cidade Invicta, onde os novos campeões nacionais regressaram no dia seguinte ao jogo, tendo sido recebidos por uma vasta multidão. O jornal A Bola escrevia que «fechou o comércio e paralisou o trânsito, segunda-feira, ao fim da tarde. Chegava nesse dia a equipa do Salgueiros, que, depois do desafio de Coruche, foi pernoitar a Vila Franca de Xira, de onde abalou para o Porto de manhãzinha, com passagem por Fátima e paragem em Leiria para almoço. A receção foi verdadeiramente triunfal. Nela tomou parte todo o Porto, mas não só o Porto, também os arredores. (…) Começou então a caminhada da apoteose – como outra se não viu ainda no Porto. Foi um delírio, uma loucura. O Salgueiros, clube do povo, alevantou o povo de Gaia e o povo do Porto. Parando constantemente, tal a quantidade de gente, a caravana avançou a passo de boi, penosamente. (…) O Salgueiros andava na boca de milhares de pessoas, que arrancavam os jogadores dos automóveis, levando-os em triunfo até à camioneta aberta em que fizeram o final do percurso. (…) E então, ao cabo da Avenida da Ponte, frente à Estação de São Bento, um mar de gente aglomerada e apinhada recebeu os campeões com manifestações que repercutiam de rua a rua. Finalmente, atravessado o centro da cidade, a caravana chegou à Praça D. João I, eram 19 horas e 20 minutos (…) quase duas horas haviam passado desde que a equipa começara a triunfal caminhada até à sede velha do Salgueiros. Milhares e milhares de entusiastas corriam atrás da camioneta. Rusgas organizadas, como se de uma noite de São João se tratasse, corriam a cidade (…) a Banda do Asilo do Terço rompeu uma marcha marcial, instrumentos de todo o género se fizeram ouvir. Mas, acima de tudo isso, soava mais alto, dominando tudo o mais, o grito entusiástico de “Salgueiros, Salgueiros, Salgueiros”».


Barrigana, Gualdino, Carvalho, Porcel, Mário, Germano, Lalo, Lopes, Teixeira, Tai e Pintos foram os onze heróis dessa tarde em que a Alma Salgueirista se fez sentir em Coruche.

1958: Serranos com sotaque alentejano festejam antecipadamente o seu segundo título nacional

Os campeões de 58 com
a Serra da Estrela como pano de fundo
Depois de na temporada transata termos tido a necessidade de esperar pela última jornada para conhecer o campeão, em 57/58 o sucessor do Salgueiros foi conhecido a duas jornadas do final da 2.ª fase da competição. E para o novo campeão este era um título que culminava uma das melhores fases da sua história, já que um ano antes havia tido o condão de pela primeira vez – até então – levar uma equipa do interior do país à final da Taça de Portugal. Feito esse que pertenceu ao Sporting da Covilhã, que em 56/57 chegou ao Jamor onde só seria vergado (3-1) pelo Benfica de José Águas e companhia. Pois bem, uma época depois os Leões da Serra venceriam pela segunda vez na história o título de campeão nacional da 2.ª Divisão. Para atacar, sobretudo, o regresso à 1.ª Divisão, os serranos foram até ao Alentejo reforçar-se com alguns nomes que haviam conduzido o Serpa, um ano antes, ao título nacional da 3.ª Divisão, casos de José Garcia, Picareta, Coureles e do treinador Joseph Fabian. Integrado na Zona Norte da 2.ª Divisão, o Covilhã ficaria no 2.º lugar, com 38 pontos, menos três que o primeiro colocado Vitória de Guimarães, clube este que haveria de voltar a ser o grande rival dos covilhanenses na 2.ª fase da competição. Os dois emblemas lutaram taco a taco até bem perto do final desta fase final, sendo que o tira-teimas aconteceu a 4 de maio de 1958, onde um empate a uma bola no Estádio José Santos Pinto, com o Farense, foi suficiente para garantir o cetro. Melhor começo o Covilhã não podia ter tido, já que fruto de uma entrada a todo o gás os da casa inauguraram o marcador logo no primeiro minuto por Tonho. Os algarvios não se encolherem, pelo contrário, e três minutos volvidos chegaram à igualdade por intermédio de Realito. Um grande golo do avançado espanhol do Farense, diga-se de passagem, já que pegou na bola ainda no meio campo e em sucessivos dribles bateu toda a defesa local e o guarda-redes Rita, acabando o esférico no fundo das redes. O Covilhã, de seguida, assumiu as despesas do encontro, mas sem conseguir criar perigo para a baliza de Mário Fevereiro. No segundo tempo, os locais continuaram por cima dos acontecimentos, sem que, no entanto, os algarvios nunca deixassem de espreitar o contra-ataque sempre que podiam, colocando em alerta o setor recuado local. Os onze heróis que defenderam as cores dos Leões da Serra neste que pode então ser considerado o jogo do título foram: Rita, Hélder, Couceiro, Lãzinha, Lourenço, Cabrita, Martin, Martinho, Tonho, Amílcar e Óscar Silva. Com o tropeção do Vitória no Bessa, o título foi matematicamente assegurado, pelo que uma semana depois o Estádio José Santos Pinto engalanou-se para dar vivas aos novos campeões nacionais. «Bandas de música e grupos de Zés Pereiras, antes do começo do jogo, deram a volta ao campo e os acordas das marchas com os entusiásticos aplausos dos covilhanenses. No ar estoiraram morteiros e preparavam-se todos para no final lançarem serpentinas e uma salva de pombos», assim descrevia o DL este ambiente festivo que se vivia na Covilhã na tarde de 11 de maio daquele ano. No campo assistiu-se a um primeiro quarto de hora pautado pelo equilíbrio entre Covilhã e Boavista, sendo que o nó foi desatado pelo boavisteiro Lourenço, aos 17 minutos. O Covilhã, em modo de festa, deixou-se adormecer pelos axadrezados, que até ao intervalo marcaram por mais três ocasiões: Amândio (2) e Germano foram os autores dos golos. Lãzinha ainda reduziu para os serranos, que na segunda metade ainda deram sinais de quererem mudar o rumo dos acontecimentos, postura que seria premiada com um remate certeiro de Amílcar a mais de 30 metros da baliza. Mas logo de seguida, Amândio mostrou que estava de “pé quente” e com o hattrick praticamente sentenciou a partida, de nada valendo o facto de Óscar Silva ter feito o 3-5 final. O Covilhã encerrou esta campanha vitoriosa no Algarve, diante do Olhanense, que foi batido por 2-1, com os golos dos campeões nacionais a serem apontados por Martinho e Amílcar, no espaço de apenas dois minutos. O Covilhã terminou a 2.ª fase com 15 pontos, mais três que os vimaranenses.

1959: Capitaneado por um futuro bi-campeão europeu, o Atlético afunda o Leixões na piscina de Leiria

Atlético de novo campeão!
Em 58/59 as emoções finais da 2.ª Divisão voltaram a ser decidida numa única partida: uma final. Os vencedores da Zona Norte e da Zona Sul – respetivamente, o Leixões e o Atlético – mediram forças num único encontro para apurar o novo campeão nacional do segundo escalão, encontro esse que teve lugar no dia 8 de março de 1959 e que teve como cenário a cidade de Leiria. Para lá chegarem as equipas classificaram-se então no lugar mais alto das respetivas séries: o Leixões venceu a norte com 41 pontos e o Atlético foi campeão a sul com 45 pontos. A final foi ensombrada pelo mau tempo. A região de Leiria foi assolada por um forte temporal que afastou os adeptos do futebol – e dos dois clubes em particular – de marcar presença no estádio. A FPF emitiu 3000 bilhetes para a final, mas poucas centenas foram vendidos. No entanto, houve quem nem o mau tempo impedisse de rumar à Cidade do Lis… a pé. É verdade, o DL dava conta de que uma dezena de adeptos do Atlético terá viajado de Lisboa até Leiria a pé para assistir ao encontro. Partiram da capital na 5.ª feira anterior e no domingo chegaram a Leiria, em cima da hora do jogo e… completamente encharcados pelas fortes chuvas que caíram. Por falar em chuva, também o relvado do Estádio de Leiria sofreu a bom sofrer com a intempérie, já que à hora do jogo era um autêntico charco de água! No camarote do estádio encontrava-se o Governador Civil do Distrito de Leiria, Olímpio Alves, que no final iria entregar a taça ao campeão. Mas até ser encontrado o sucessor do Covilhã no trono da 2.ª Divisão, houve que lutar, e o primeiro a dar sinais de que queria ganhar foi o Atlético, equipa que criou as duas primeiras grandes oportunidades. A primeira delas por intermédio de Germano, na marcação de um livre; e a outra por Carlos Gomes, que no seguimento de um canto cabeceou à trave. Germano que era, quiçá, a grande estrela daquele Atlético. Possante defesa central, ele iria brilhar na década de 60 ao serviço do Benfica, onde se sagraria bi-campeão europeu. 

Governador Civil de Leiria entrega a taça 
de campeão a Germano
A jogar melhor que os nortenhos, os rapazes de Alcântara abriram com naturalidade o marcador quando estavam decorridos 15 minutos: «Angeja desceu até à grande área dos leixonenses e rematando com força e colocação obrigou Rosas a defender para canto, que marcado (pelo próprio) por Angeja deu ensejo a que Mesiano fizesse o tento», assim descreveu o DL o tento inaugural da tarde. A bola foi ao centro e poucos segundos depois já estava a voltar a entrar na baliza de Rosas, como resultado de uma bela triangulação entre Germano, Carlos Gomes e Albano Fonseca, tendo este último rematado com êxito para o fundo das malhas. A partir daqui o Leixões despertou e fez pela vida. Aos 22 minutos, António Medeiros teve o golo nos pés, não fosse o poste travar essa intenção. Contudo, a superioridade técnico-tática dos lisboetas foi evidente até final da primeira metade, o que assim justificava a vantagem no intervalo. No reatamento, os leixonenses numa tentativa de surpreender a defesa do Atlético, começaram a ensaiar remates de longa distância, sem causar, no entanto, grandes tormentos ao guardião Pinho. Vendo que assim não iam lá, os matosinhenses recorreram à velocidade para desenhar as suas jogadas ofensivas, facto que haveria de lhes fazer mossa, já que aos poucos foram quebrando fisicamente. Facto aproveitado pelo Atlético para aos 27 minutos acabar com as aspirações nortenhas: «O Leixões foi punido com um livre próximo da grande área. Angeja marcou o castigo, na ala esquerda. A defesa matosinhense repeliu para perto e Orlando, de fora da grande área, atirou à trave, acabando por surgir Mesiano que como uma flecha obteve o terceiro golo do Atlético». Estava assim fechado o resultado e conquistado o segundo título nacional do escalão secundário por parte do Atlético, que nesta final jogou com: Pinho, Tomé Antunes, Fonseca, Germano, Alvarez, Orlando, Mesiano, Carlos Gomes, Álvaro Inácio, Albano Fonseca e Angeja. 

domingo, outubro 11, 2026

Os Reis da antiga 2.ª Divisão Nacional: Anos 40

1940: Farense conquista título frente ao Boavista em final manchada por confrontos violentos

Os Leões de Faro em 1940
Os primeiros anos de vida da 2.ª Divisão assumiram-se como uma verdadeira luta entre o norte e o sul pelo título de campeão. Mais do que o título entrava em campo a honra regional. Talvez por isso as finais do segundo escalão causavam verdadeiros fenómenos de mobilização popular dentro do país. Numa época em que viajar pelo país era difícil e dispendioso, organizavam-se "comboios especiais" e caravanas de camionetas carregadas de adeptos que atravessavam Portugal para apoiar as suas cores, transformando as bancadas num campo de batalha regional. Cenário este que se verificou na final da temporada de 39/40, em que a rivalidade da vizinhança porta com porta foi posta de lado em prol da defesa de uma cidade, neste caso a cidade do Porto. Tudo porque quer o FC Porto, quer o Boavista desceram, em simultâneo, à capital para lutarem pelo trono do futebol nacional da referida época. De forma mais precisa, os portistas pelo título de campeão nacional da 1.ª divisão e os boavisteiros pelo cetro nacional da 2.ª Divisão. Nesse sentido, os dois vizinhos da Cidade Invicta deram as mãos e organizaram um grande comboio especial conjunto para os seus adeptos se deslocarem até Lisboa para assistirem aos respetivos encontros: o FC Porto diante do Benfica (nas Amoreiras) e o Boavista ante o Farense (na Tapadinha). Os dois clubes portuenses haveriam de registar os mesmos resultados no rescaldo desta viagem decisiva à capital: 3-2. Porém, foi um score com sabores distintos: os azuis e brancos sagraram-se campeões nacionais, ao passo que os axadrezados deixaram fugir o título secundário para os Leões de Faro. Farense que para chegar à final havia vencido na 1.ª fase da competição a Série Algarve, com 9 pontos, eliminando na 2.ª fase os conjuntos do Luso de Beja (4-0) e do Casa Pia (também por 4-0). A grande estrela dos algarvios era, quiçá, o seu treinador, o lendário Joseph Szabo.


Nessa temporada de 39/40, o mestre da tática magiar orientou o Sporting, clube pelo qual conquistou o Campeonato de Lisboa, mas já no final da época aceitou o repto dos algarvios para orientar os Leões de Faro durante algumas semanas. Uma pequena incursão que haveria de ter contornos vitoriosos, já que na Tapadinha o Farense levou a melhor sobre o Boavista e conquistou o título da 2.ª Divisão. A final de 1940 foi envolta em polémica, muito por culpa do reputado (?) árbitro Carlos Canuto, que nas palavras do jornalista do Diário de Lisboa (DL) que assistiu ao encontro teve uma atuação «detestável». O juiz deixou passar em claro faltas muito feias: «choques de brutalidade, pontapés selvagens, agressões puras. O árbitro limitou-se a dar conselhos, a contemporizar.
Julinho, com as cores 
do Boavista
Fê-lo, nalgumas ocasiões, empurrando os jogadores, o que é contra as regras», descreveu o DL. Se já estava muito quente, o ambiente escaldou a meio da 2.ª parte, quando Laguna (do Boavista) e Gomes (do Farense) foram expulsos, uma decisão que provocou o caos total em campo. Quanto ao pouco futebol que se viu na Tapadinha, o Farense dispôs das melhores ocasiões para marcar nos minutos iniciais e numa delas Nunes abre o ativo. Quiçá contagiado pelo ambiente de cortar à faca que se fazia sentir dentro das quatro linhas, o guardião boavisteiro Pesqueira falha a interceção a um cruzamento vindo da direita do ataque farense para permitir que Nunes, de cabeça, bisasse. Já na 2.ª parte, o mesmo Pesqueira tem uma saída precipitada que seria aproveitada por Palmeira para elevar o marcador para 3-0. De nada valeriam os golos de Pina e Julinho – que depois de uma passagem pelo Académico do Porto haveria de ser estrela no Benfica durante 10 anos – para os nortenhos, já que o Farense segurou a vitória e dessa forma colocou as mãos no título. O Boavista ainda chegou a protestar o jogo, mas em vão, pois, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) confirmaria o Farense campeão. E campeões nessa tarde de 19 de maio de 1940 foram os seguintes jogadores: Ascensão, Domingos, Castela, Américo, Marti, Gomes, Catarino, Gralho, Palmeiro, Vilanova e Nunes. A grande festa aconteceu em Faro, no mês de julho, onde a comitiva farense foi recebida no Cine-Teatro Farense e das mãos do presidente do Comité Olímpico Português, José Pontes, recebeu a Taça "O Século".

1941: Olhanense alcança tricampeonato e abre caminho para uma Era Dourada na 1.ª Divisão

O Olhanense alcançou em 1941 o terceiro
título nacional da 2.ª Divisão
A década de 40 é por muitos rotulada de “dourada” quando se olha para a história do Olhanense. O clube algarvio disputa de forma ininterrupta até 50/51 a 1.ª Divisão Nacional com classificações dignas de registo, além de que vê vários futebolistas seus serem chamados às seleções nacionais, casos de Cabrita, Grazina e Salvador. E para chegar ao patamar mais alto do futebol luso o Olhanense saboreou pela terceira vez na sua história o sucesso no escalão secundário. Estávamos na temporada de 1940/41, quando os de Olhão atingem a final da 2.ª Divisão após terem vencido na 1.ª fase da competição a Série Algarve e posteriormente terem eliminado, na fase seguinte, o Juventude de Évora (4-0) e o Seixal (2-1). Treinados pelo húngaro Desiderio Hertzka, os olhanenses viajaram até Lisboa, onde a 22 de junho de 1941 mediram forças com o Leça. O cenário para este duelo foi o mítico Campo das Salésias, que nos 5 minutos iniciais presenciou um maior atrevimento dos leceiros. Depois disto, o Olhanense recompôs-se e com um futebol mais preciso passou à ofensiva. A partir da meia hora de jogo o equilíbrio passava a ser nota dominante e por esta altura o denominador comum era a boa exibição que os dois guarda-redes iam fazendo face às investidas contrárias. Contudo, na reta final da 1.ª parte o nó do equilíbrio é desatado pelos matosinhenses, que criam inúmeras ocasiões para marcar, mas sem sucesso. Faltavam os golos àquele que era então um bom jogo de futebol. E eles apareceram nos segundos 45 minutos e em dose farta para gáudio do numeroso público que acorreu às Salésias. Contra a corrente do jogo surgiu o golo leceiro: após uma fuga pelo flanco direito, Godinho bateu José Abraão. O tento não desarmou os algarvios, pelo contrário. Os remates em direção à baliza do leceiro Alfredo Dias “Jaguaré” sucediam-se, mas só aos 70 minutos o Olhanense marcou: Acácio António remata para uma defesa incompleta do guardião do Leça e na recarga Santos faz o empate. Embalado pelo golo, dois minutos volvidos o Olhanense chega à vantagem por intermédio de Joaquim Gomes. E aos 78 minutos João Baptista amplia a vantagem algarvia para 3-1. Só a partir daqui o Leça esboçou uma reação, dando trabalho ao keeper algarvio. Mas seria contra a corrente do jogo, que a cinco minutos dos 90 o Olhanense colocou um ponto final nas aspirações leceiras ao fazer o 4-1 final, por intermédio de Santos. Em jeito de balanço da final, o DL escrevia que «a vitória da equipa do sul teve incontestável merecimento e plena justificação. Com efeito, os seus jogadores evidenciaram melhor sentido de jogo, trabalhando a bola com mais arte que o seu adversário. No entanto, foi boa a réplica dos leceiros». José Abraão, José Ramos, César Murta, José Joaquim, Grazina, Calé, Jerónimo Lima, Santos, Acácio António, João Baptista e Joaquim Gomes foram os onze heróis que nas Salésias deram ao Olhanense o seu terceiro título de campeão da 2.ª Divisão.

1942: Nascido para vencer, o Estoril Praia sagra-se campeão nacional aos dois anos de idade

Estorilistas e leixonenses medem forças na final
Com apenas três anos de vida o Estoril Praia conquistou o primeiro de quatro títulos nacionais da 2.ª Divisão que reluzem nas suas vitrinas. Com apenas três anos o clube em si, pois a secção de futebol do emblema da Linha só seria criada em 1940 e desde logo com resultados – e títulos – dignos de registo. É caso para dizer que foi chegar, ver e vencer, assim se pode olhar para a estreia dos estorilistas no campeonato da 2.ª Divisão Nacional em 41/42. Integrado numa das 15 séries/grupos que figuraram na 1.ª fase da competição, o Estoril começou por levar a melhor sobre as reservas do Sporting, do Belenenses, do Carcavelinhos, e equipas principais do Casa Pia e do Futebol Benfica, avançando assim para a fase a eliminar da prova. Aí, deixaram pelo caminho o União de Tomar (5-0), o Vitória de Setúbal (3-0) e a equipa de reservas do Benfica – sim, a partir desta temporada algumas equipas de reservas de clubes da 1.ª Divisão competiram no segundo escalão. No seu grupo, o Estoril tinha alguns nomes de peso, desde logo o possante avançado jugoslavo Franjo Petrak, que antes de rumar para Cascais apontou 76 golos em duas temporadas ao serviço do FC Porto. O último obstáculo dos canarinhos para chegar ao título foi o Leixões, clube que se deslocou a Lisboa para no dia 7 de junho de 1942 tentar levar o caneco para o norte. As Salésias voltaram a ser o palco escolhido pela FPF para a disputa de um título que teve dois atos. Isto é, duas finais. Na primeira delas, o DL relatou que «ao fim de 120 minutos de jogo ardorosamente disputado, nenhum dos contendores se podia orgulhar de ter conquistado o almejado título, pois cada um deles contava com quatro bolas no seu ativo». É verdade, o muito e fervoroso público presente nas bancadas teve o privilégio de assistir a uma chuva de oito golos – quatro para cada lado – que obrigou à disputa de uma finalíssima apenas dois dias depois (!), onde a equipa da Linha venceu por 3-1.

1943: Com seis golos de Cardoso Pereira, Barreirense vence a final e garante o primeiro título da divisão onde é rei absoluto

Em 1943 nascia o rei da 2.ª Divisão: 
o Barreirense
Olhando para a história da 2.ª Divisão há um clube que se destaca no que ao palmarés diz respeito: o Barreirense. Com sete títulos no seu currículo, o clube da Margem Sul deu início a este legado de vitórias na temporada de 42/43, em que foi dado o primeiro passo de uma caminhada mítica que eternizou os alvi-rubros como os verdadeiros reis da prova. Após vencer uma das 20 (!) séries da 1.ª fase da competição, o Barreirense começou por deixar pelo caminho na fase a eliminar o campeão em título Estoril (3-2 e 1-1), seguindo-se o Atlético (4-0), o Vitória de Setúbal (3-2) e o Lusitano de Vila Real de Santo António (7-2), alcançando assim a final onde a 23 de maio de 1943 mediu forças com a Sanjoanense. Lisboa foi mais uma vez a cidade escolhida para uma final onde o Barreirense esmagou o seu oponente por 6-1. O DL escrevia que o jogo «tem descrição fácil e quase se limita à história dos golos. Não foi uma final de emoção nem o público se esgatanhou para conhecer o vencedor». A Sanjoanense foi descrita como uma equipa algo ingénua e que não esteve à altura do seu adversário, mas que ainda assim deu indícios de no futuro poder atingir posições superiores no futebol português. Mas mesmo com essa ingenuidade, os rapazes de São João da Madeira entraram com vontade de contrariar a supremacia dos sulistas. Em vão o fizeram, pois Cardoso Pereira cedo tratou de mostrar que o Barreirense queria levar para casa a taça ao apontar um magnífico golo. De nada valeu o empate da Sanjoanense logo a seguir, já que a equipa do centro do país pouco ou nada fazia para sacudir a pressão barreirense. Ainda assim, o intervalo chegou com o empate no marcador. Na segunda parte os golos deram expressão à supremacia barreirense, clube cujo domínio nestes segundos 45 minutos foi ainda mais intenso. «A Sanjoanense mesmo sem se render completamente foi sempre menos “team” e, portanto, impotente para evitar o pesado resultado que ao fim se verificou, mas lutou com ânimo, e deu nota simpatiquíssima de desportivismo que não é vulgar nos tempos que vão correndo», analisava o jornalista do DL que assistiu ao jogo.
Cardoso Pereira
No entanto, um homem houve que chamou a si todo o protagonismo desta final: Cardoso Pereira. O avançado do Barreirense viveu, quiçá, o seu momento de glória numa carreira trilhada entre o Barreiro e Setúbal – defendeu as cores do Vitória ao longo de sete temporadas – ao apontar os seis golos do Barreirense nesta final! Seis que podiam ter sido oito, não fosse o árbitro Abel Ferreira ter invalidado dois tentos do avançado por alegado fora de jogo. Manuel Batista, Pascoal, Ricardo, João Limas, Moreira, Gervásio, Raimundo, Arsénio, Maximino, Guedes e Cardoso Pereira foram os heróis barreirenses deste primeiro título secundário. De referir que deste grupo de campeões, um houve que não muito tempo depois se destacou com as cores do Benfica, Arsénio Duarte, o seu nome. Jogador talentoso com dotes de goleador, Arsénio brilhou ao serviço do Benfica ao longo de 12 épocas (43-55). Chegou a Lisboa ainda jovem, com apenas 17 anos, mas logo o rapazinho franzino, mas extremamente veloz, deu nas vistas, sendo que em 224 jogos pelos encarnados apontou 152 golos.

1944: Estorilistas bi-campeões numa época quase perfeita

Além do título da 2.ª Divisão, o Estoril
chegou à final da Taça de Portugal
O ainda muito jovem Estoril Praia teve uma temporada (43/44) quase perfeita. Ou melhor, podemos dizer que foi perfeita, pois não é todos os dias que uma equipa então a militar na 2.ª Divisão chega à final da Taça de Portugal, como aconteceu aos estorilistas na citada época. No Jamor, o poderio do Benfica falou mais alto: vitória por 8-0. Mas esta derrota na Prova Rainha do futebol luso não tirou o brilho da caminhada dos canarinhos nesse ano. Pelo contrário, só acrescentou valor, e foi como que um prémio à conquista do título nacional da 2.ª Divisão. Pela frente os rapazes da Linha tiveram o Vila Real, emblema que no Lumiar – palco da final – entrou forte e determinado, mas foi o Estoril que na segunda parte conseguiu ascendente sobre o adversário e conseguiu vencer por 3-2 e assim sagrar-se pela segunda vez na história campeão nacional da 2.ª Divisão.

1945: Como o Atlético honrou o legado do “progenitor” Carcavelinhos

O "filho" (Atlético) honrou o legado 
do "pai" (Carcavelinhos) 
O Atlético Clube de Portugal nasceu a 18 de setembro de 1942 através da fusão entre o Carcavelinhos Football Club e o União Foot-Ball Lisboa, ambos clubes da zona de Alcântara, em Lisboa. Ao herdar a identidade destes dois clubes, sobretudo do Carcavelinhos, laureado emblema lisboeta dos anos 20 e 30, o Atlético manteve-se profundamente ligado ao bairro de Alcântara, assumindo-se desde cedo como um histórico do futebol português. E cedo porque em 44/45 o emblema da Tapadinha – que já era a casa histórica do Carcavelinhos – saboreou pela primeira a conquista de um título nacional sob a nova designação. Dizer que o campeonato nacional da 2.ª Divisão atraía por esta alturas largas dezenas de participantes, que numa fórmula algo confusa começam por disputar numa 1.ª fase mini-campeonatos provinciais, com apuramentos posteriores por eliminatórias até à final. O Estádio do Lumiar voltou a acolher a final do escalão secundário, desta feita protagonizada pelo jovem Atlético e pela CUF do Barreiro. A 1.ª parte pertenceu ao clube de Alcântara, que com uma postura atacante esclarecida e uma linha média que sabia ocupar com arte o seu lugar, chegou ao intervalo a vencer com todo o mérito por 2-0. Na revista Stadium, Tavares da Silva escrevia que «na verdade o Atlético mostrou-se superior logo no primeiro pontapé e isso tirou-nos a emoção a que nos achávamos com direito. Mas ninguém tem culpa de que o desafio tenha decorrido desta forma. Em tudo o Atlético foi superior: na coesão da defesa, na compenetração e inteligência da linha medular, na arte e no comando da célula avançada». Marques e Catinana foram os autores dos tentos dos lisboetas. Na segunda parte a CUF apareceu em campo mais espevitada e acima de tudo mais ameaçadora. Neste ponto, destaque para Arnaldo Carneiro, que em três ocasiões obrigou o guardião Paiva a arregaçar as mangas para trabalhar. «A CUF, conjunto de jogadores experientes e homens que não passam hoje de promessas não pôde resistir nem suportar a melhor organização do Atlético. Lutou, reagiu, defendeu-se e atacou, por vezes, mas dando sempre a sensação de team com muitas deficiências…», assim analisava Tavares da Silva a equipa do Barreiro. Refira-se em nota de rodapé que no “team” cufista que esteve nesta final se encontravam dois jovens talentos que anos mais tarde iriam fazer parte do mais famoso quinteto do futebol português: Os Cinco Violinos. Eram eles José Travassos (tinha 19 anos) e Vasques (então com 18 anos). O resultado da final de 1945 não se alterou e o Atlético dava assim seguimento à glória conquistada pelo seu “progenitor” Carcavelinhos nas décadas de 20 e de 30. Paiva, Carlos Baptista, Ventura, José Lopes, Gregório, José Lopes, Micael, Rosário, Catinana, Armindo e Marques foram os heróis de Alcântara naquela tarde de 1 de abril de 1945.

1946: Soberano nos anos 40, o Estoril dominou a 2.ª Divisão numa época em que o figurino voltou a mudar

No espaço de quatro anos o Estoril 
venceu o título em três ocasiões
A FPF promoveu uma verdadeira revolução no figurino da 2.ª Divisão a partir da temporada de 45/46. Eram cada vez mais os clubes participantes, de norte a sul do país. A 1.ª fase manteve-se igual a edições anteriores, ou seja, os clubes eram distribuídos por áreas geográficas, competindo numa espécie de mini-campeonatos, sendo que os vencedores se apuravam para a fase a eliminar, a tal 2.ª fase. Tudo igual neste aspeto. A novidade é que os quatro vencedores dos quartos-de-final ao invés de competirem entre num sistema de meias-finais e final, enfrentaram um mini-campeonato a duas voltas, sendo o campeão a equipa que tivesse somado mais pontos. E aqui o Estoril pela terceira vez no curto espaço de quatro anos (!) sagra-se campeão nacional. Os rapazes da Linha começaram por vencer a Série 9 da 1ª fase, com 19 pontos, sendo que na fase a eliminar afastaram o Casa Pia (4-1) e o Onze Unidos (3-1). Na 3.ª fase, o tal mini-campeonato final, superaram a concorrência do Famalicão, União de Coimbra e do Portimonense. A caminhada rumo ao título teve início em Famalicão, onde o Estoril não foi além de um empate a uma bola diante dos locais. A equipa de Cascais abriu o ativo logo aos 3 minutos, por intermédio de Raul Silva que de recarga bateu o guarda-redes da casa. Álvaro Pereira, na sequência de um canto apontado por Sampaio, restabeleceu uma igualdade que o Estoril segurou até final muito graças à brilhante atuação do seu guarda-redes Valongo. Seguiu-se o jogo na Amoreira diante do União de Coimbra, que levou para casa uma derrota por 4-1 – os golos do Estoril foram apontados por Silva, Lourenço, Mota e Eloi. Na 3.ª jornada os estorilistas receberam e dominaram em toda a linha o Portimonense ao longo da 1.ª parte, domínio esse que foi expresso em quatro golos – Lourenço apontou três deles, sendo que o outro foi da autoria de Vieira. Na segunda metade o Estoril continuou a carregar e obteve mais três tentos que selaram o resultado num expressivo 7-2 a seu favor. Na ronda seguinte foi a vez do Famalicão ser despachado por 4-1, numa partida em que os canarinhos foram dominadores na 1.ª parte, alcançando neste período três golos por intermédio de Silva (2) e Lourenço. A segunda metade foi mais equilibrada e acima de tudo mais bem disputada, tendo os nortenhos ainda reduzido a diferença por intermédio de Pereira, aos 60 minutos, mas cinco minutos volvidos Silva completa o hattrick e acaba com as esperanças famalicenses. Em Coimbra aconteceu uma nova vitória, esta mais curta, por 2-1, mas o suficiente para garantir matematicamente o título de campeão da 2.ª Divisão. No Campo da Arregaça, o Estoril entrou melhor, apresentando uma técnica mais apurada que o União. Porém, seriam os locais que pregavam mais sustos a Valongo, o guardião da Linha, mas ainda assim o marcador não funcionou antes do intervalo. Os golos só surgiram na 2.ª parte, o primeiro aos 56 minutos e para o Estoril, por intermédio de Mota. Tento que animou os sulistas, que à passagem dos 75 minutos ampliam a vantagem pelo pé de Lourenço. O União não deitou a toalha ao chão e pouco depois reduz por meio de Velha, um esforço insuficiente para evitar a derrota. O Estoril carimbava assim o seu terceiro nacional secundário, de nada valendo o único percalço desta caminhada, o qual aconteceu em Portimão, onde foi derrotado por 4-3. O DL escrevia que o Portimonense exerceu «maior domínio durante todo o jogo», e que assim justificou o triunfo. Vieira (em duas ocasiões) e Mota marcaram os tentos estorilistas. No somatório dos seis jogos da poule de apuramento de campeão o Estoril somou 9 pontos.

1947: O título do SC Braga marcado por acusações de suborno

O Sporting de Braga campeão 
Na temporada de 1946/47 e após oito anos de andanças pelo sul do país eis que o troféu de campeão nacional da 2.ª Divisão volta a viajar para o norte. Mais precisamente para Braga, através do Sporting local, que inicia a Série 4 da 1.ª fase da competição de forma demolidora e logo com um recorde: uma vitória por 14-0 sobre o Infesta, com sete dos golos a serem apontados por Nelo, ou Nelito Barros, como este popular avançado nascido em Fafe era conhecido no Minho. O grande rival dos bracarenses nesta 1.ª fase foi o Académico do Porto, que ao ser derrotado (3-6) pelos minhotos na penúltima jornada desta fase entrega o 1.º lugar da série aos arsenalistas, que não desperdiçaram a oferta e na última jornada ao baterem o Candal por 2-0 asseguraram o título de campeão de série, avançando assim para a fase a eliminar. Aqui, começou por eliminar o Fafe (2-0), ao que se seguiu o Vila Real (4-3) e assim estava o Braga qualificado para a 3.ª e decisiva fase de apuramento de campeão. Os bracarenses entraram na fase final em falso, ao serem derrotados (0-1) pela Oliveirense. Porém, até final da primeira volta corrigiram este mau arranque com duas vitórias sobre o Lusitano de Vila Real de Santo António e sobre o Onze Unidos (do Montijo), respetivamente por 2-0 e 5-1. Com esta performance o Braga ocupava a par da Oliveirense o 1.º lugar da poule ao fim de três jornadas e ficou isolado quando obteve na ronda inaugural da segunda volta uma concludente vitória (2-0) sobre o conjunto de Oliveira de Azeméis. Porém, o título não foi confirmado na jornada seguinte, tudo porque no Algarve o Lusitano venceu os arsenalistas por 1-0 e ficou tudo adiado para a derradeira ronda. E aqui assistiu-se a um alegado triste jogo de bastidores que envergonhou o futebol luso. Lançou-se a suspeita de que o Braga havia aliciado com dinheiro quatro jogadores do Onze Unidos para que estes facilitassem o triunfo dos nortenhos, que mantinham a liderança da poule ex-aequeo com a Oliveirense, beneficiando do goal-average para ser campeão em caso de igualdade pontual no final do campeonato.
Em Braga houve festa rija na receção 
aos campeões da 2.ª Divisão de 1947
Desta forma a FPF suspendeu o jogo do Montijo para averiguar esta alegada proposta de suborno do dirigente bracarense José Antunes Guimarães. O organismo federativo colocou o dirigente frente a frente com os quatro jogadores do Onze Unidos para ver quem falava a verdade. O presidente do Sporting de Braga negou qualquer tipo de tentativa de suborno, ao passo que os quatro atletas do emblema do Montijo contradiziam-se, sendo que o guarda-redes Braço Forte dizia ter-se reunido com o dirigente do Braga, ao passo que os restantes afirmavam nunca se terem encontrado com José Antunes Guimarães. Após analisados os factos/depoimentos, a FPF não conseguiu reunir indícios concretos de que tinha havido tentativa de suborno, pelo que decide ilibar o Braga, que desta forma estava “livre” para disputar o jogo decisivo do campeonato. O jogo do Montijo foi disputado sob um clima de suspeição, como seria de esperar, mas nada que impedisse o Braga de somar uma nova vitória (2-0), com golos de Mário e Cassiano Brandão, e assim festejar o primeiro título nacional da sua história. A equipa foi recebida em euforia na Cidade dos Arcebispos, e o título foi amplamente festejado um pouco por todo o Minho, como comprova o facto de o Ateneu Comercial de Famalicão ter hasteado no seu edifício a bandeira do Sporting de Braga e de dirigentes do Vitória de Guimarães se terem deslocado à capital do Minho para participar na sessão solene de homenagem aos campeões nacionais da 2.ª Divisão.

1948 e 1949: Covilhã e Académica levam pela primeira vez o título para o centro do país em dois anos seguidos

Em 47/48 a FPF impôs novas mudanças ao figurino da prova ao eliminar os jogos por eliminatória, passe a redundância. Ou seja, existiu uma 1.ª fase constituída por quatro séries de oito clubes cada uma delas, sendo que os dois primeiros classificados de cada uma delas avançavam para uma 2.ª fase que foi constituída por duas séries (uma no norte e outra no sul), cujos dois primeiros classificados avançavam para a 3.ª e última fase. Confuso, no mínimo, mas assim era o futebol português de então sob o ponto de vista organizativo/logístico. Vencedor da Série B da 1.ª fase – com 26 pontos – e do Grupo Norte da 2.ª fase – com 8 pontos – o Sporting da Covilhã ganhou o direito de disputar a poule de apuramento de campeão com o Barreirense, a CUF e o Famalicão. Janos Szabo, acumulava as funções treinador-jogador nos Leões da Serra, que chegaram ao título pela diferença entre golos marcados e sofridos, ou seja, terminaram com os mesmos pontos (8) que o Barreirense, mas levaram a melhor no goal-average.

A Briosa rainha da Segunda em 1949
Este foi o primeiro de dois títulos consecutivos da 2.ª Divisão que viajaram para o centro do país, já que na temporada seguinte foi a vez da Académica festejar aquele que por aquela altura era o seu segundo cetro mais pomposo a seguir à Taça de Portugal arrecadada pelos estudantes em 1939. Após vencer a Série B da 1.ª fase, a Briosa levou a melhor sobre Oliveirense, Académico de Viseu e Famalicão no Grupo Norte da 2.ª fase, garantindo assim o passaporte para a final da 2.ª Divisão. É verdade, voltávamos a ter uma final para decidir o campeão, mas assim o foi não pelos melhores motivos. Ou seja, após a 5.ª jornada da poule final – que além da Académica tinha ainda o Famalicão, o Portimonense e o Oriental – os estudantes e os lisboetas ocupavam o primeiro lugar, com 6 pontos, sendo que na última e decisiva jornada os de Coimbra deveriam deslocar-se ao terreno dos orientalistas. Acontece que mais uma vez a vergonha voltou a bater à porta do futebol luso, já que ao que parece os jogadores do Famalicão haviam sido subornados para perder o jogo com o Oriental na 5.ª jornada, derrota essa que se consumou: 2-1. O então Ministro da Educação, Pires de Lima, decide suspender famalicenses e orientalistas da competição, dando ainda ordem para que fossem anulados todos os jogos até ali disputados da poule da 3.ª fase e que o campeão nacional fosse encontrado após a realização de um jogo único entre a Académica e o Portimonense. Assim foi.


Lisboa e o Estádio do Lumiar foram o cenário escolhido para acolher esta final de última hora, sendo que à capital desceu – no dia 5 de junho de 1949 – uma gigantesca macha negra para apoiar a Briosa. Disso deu nota o DL: «A imagem mais sedutora da final do Nacional da 2.ª Divisão foi-nos fornecida não pelos jogadores, mas sim pelos componentes da unida e irrequieta falange de apoio da Académica. O público de Lisboa não arredou pé, com as atenções presas nesse curioso espetáculo suplementar de uma longa reunião futebolística que não havia primado pela qualidade. Constituiu uma alegre e colorida mancha no declinar de uma tarde sufocante, imprópria para a prática do futebol. Representou uma extraordinária manifestação de fé e amor clubista». Olhando para o que se passou dentro das quatro linhas, cedo a Briosa se adiantou no marcador na sequência de um golo de Pacheco Nobre, quando estavam decorridos apenas dois minutos. Apesar de dominado em todos os capítulos do jogo, o Portimonense ainda conseguiu chegar à igualdade aos 18 minutos, mas a Académica, que nas palavras do DL «adotou sempre toada franca de ataque», chegaria de novo à vantagem, já na segunda metade, por intermédio do jogador-treinador Alberto Gomes.
Euforia nas ruas de Coimbra na receção
aos campeões nacionais 
Foi uma vitória – 2-1 – inquestionável «da equipa que revelou superioridade em todos os aspetos e tudo fez para se tornar digna dela (dessa vitória», assim analisou o DL, que descreveu o finalista vencido como uma equipa que correu e batalhou muito, mas «jogou pouquíssimo». Dizer que em 48/49 a Académica teve uma curta passagem pela 2.ª Divisão, onde havia caído na temporada transata, regressando assim ao escalão maior com o título de campeão nacional secundário no bolso. No final do encontro, a festa entre o relvado e as bancadas foi uma só, como relatou A Bola, ao descrever que o relvado do Lumiar foi rapidamente invadido por uma nuvem de estudantes com as suas capas negras a esvoaçar ao vento. As festividades continuaram no dia seguinte, quando a equipa chegou a Coimbra, onde a euforia foi ainda maior. Os campeões nacionais foram recebidos no Largo da Portagem por uma multidão em delírio, seguindo-se depois um cortejo pelas ruas da cidade – repletas de povo – até à sede da Associação Académica onde os campeões foram homenageados por entre salvas de foguetes.