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A seleção uruguaia que em 1926 recuperou o título de campeão das américas |
Em 1926 o
então denominado Campeonato Sul-Americano de Futebol dava as boas vindas ao seu
sexto integrante da história, a Bolívia. Foi no Chile, mais precisamente na
capital Santiago, que La Verde – que
na altura até vestia de branco – deu há um século atrás a esta parte o pontapé
de saída da sua história no Planeta da Bola. Facto ocorrido
a 17 de outubro de 1926, quando no Campos de Sports de Ñuñoa, a Bolívia entrou
em campo pela primeira vez, na abertura da 10.ª edição da maior competição de
seleções do continente americano. Mas puxemos a fita atrás, mais concretamente até ao dia 18 de
agosto desse ano, altura em que a Federação Boliviana de Futebol – que havia
sido fundada apenas um ano antes – decide aceitar o convite da sua congénere
chilena para integrar o lote de seleções do 10.º Campeonato Sul-Americano.
Estávamos a dois meses do início da competição, e os dirigentes bolivianos nem
sequer tinham ainda uma seleção nacional montada, mas mesmo assim arriscaram
participar com o argumento da visão de integrar o país no Mundo do futebol.  |
| Job De La Cerda |
Foi de pronto
nomeada uma comissão técnica, a qual foi liderada por Job de la Cerda, um dos
pioneiros do futebol boliviano que começou a sua carreira de futebolista e mais
tarde de dirigente na Argentina, para onde se havia mudado com apenas 10 anos
de idade. Assim que chegou ao comando da seleção boliviana, Cerda realizou um
torneio nacional com equipas das várias regiões do país no sentido de escolher
os melhores que iria levar ao Chile. No rescaldo deste torneio de captação,
digamos, foram selecionados 17 jogadores originários dos estados/províncias de La
Paz, Oruro, Sucre, Potosí, Cochabamba e Uyuni. Escolhidos os jogadores, a
seleção reuniu-se a 13 de setembro em Cochabamba, cidade que tinha um clima mais
aproximado do que se verificava em Santiago do Chile, até que a 1 de outubro a
delegação da Bolívia inicia a viagem de comboio até Antofagasta, onde iria
pernoitar antes de apanhar o barco para Valparaíso e dali novamente de comboio
até Santiago. Foram três esgotantes dias de viagem para a estreante seleção,
que assim que chegou à capital chilena recebeu inúmeras manifestações de
carinho, quer por parte das autoridades do Chile, quer da própria imprensa
local. Sem tempo para treinar ou para se ambientar ao clima da capital chilena,
os bolivianos entraram em campo diante da seleção anfitriã no dia 12 de outubro
de 1926, uma data histórica, já que este foi o PRIMEIRO JOGO DE SEMPRE do
combinado nacional da Bolívia. No Campos de Sports de Ñuñoa – onde anos mais
tarde seria edificado o atual Estádio Nacional de Santiago – La Verde seria goleada por 7-1, um
resultado que mostrava a clara inexperiência do futebol boliviano nestas
andanças internacionais. Ainda assim, a equipa mostrou coragem e algum
atrevimento ofensivo, como atestam as crónicas de então, facto que mereceu
aplausos do público chileno. Do lado da La
Roja sul americana um homem sobressaiu não só neste encontro como no resto
do campeonato: David Arellano. O avançado do recém-criado Colo Colo – clube
fundado um ano antes – foi autor de quatro golos neste match de estreia, ele
que haveria de ficar famoso mundialmente – sim, mundialmente – por alegadamente
ter sido o inventor da chilena, a
designação que na América do Sul se dá ao pontapé de bicicleta. E dizemos
alegadamente porque ainda hoje há uma disputa entre brasileiros e chilenos
sobre quem terá sido o criador deste famoso gesto técnico, se Arellano ou
Leônidas da Silva. Os chilenos dizem que foi o primeiro, enquanto que os
brasileiros juram a pés juntos que o foi o seu Diamante Negro.  |
| Chile - Bolívia |
Bom, mas
voltando ao Sul Americano de 26, dizer que além de Chile e Bolívia a competição
foi integrada ainda pela Argentina, pelo Paraguai e pelo Uruguai, seleção esta
que estava de volta à Copa após ausência na edição anterior. Os campeões em
título, os argentinos entraram em campo neste torneio precisamente diante da
estreante Bolívia, que para espanto de muitos dos 8000 espectadores presentes
no Campos de Sports de Ñuñoa realizaram uma primeira parte equilibrada, apesar
de sair para o intervalo com uma desvantagem de quatro golos. Porém, a força e
maior experiência argentina veio ao de cima no segundo tempo, tendo o marcador
sido fechado em 5-0 a favor dos campeões.
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Chile - Uruguai
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A 17 de
outubro entravam em campo os campeões do Mundo, o Uruguai. Sim, campeões
mundiais, atendendo a que naquela altura os campeões olímpicos eram assim
denominados. Dois anos antes, nas Olimpíadas de Paris, os uruguaios haviam
subido ao trono do Planeta da Bola. A equipa base era muito semelhante à que
alcançou o ouro na capital francesa, destacando-se nomes como Andrés Mazali,
José Nasazzi, José Leandro Andrade, Alfredo Ghierra, Santos Urdinarán, Ángel
Romano, Zoilo Saldombide e Hector Scarone. Este último havia feito a longa
travessia no Atlântico apenas um mês antes da Copa de 26 única e exclusivamente
para voltar a vestir a camisola da Celeste,
ele que então havia tido uma curta incursão no Barcelona e desta forma estava
de regresso à América do Sul. Tal como em Paris, o Uruguai voltou a mostrar um
futebol de alto nível técnico, e logo na estreia venceu com mérito os anfitriões
por 3-1, dando assim o primeiro passo na tentativa de resgatar o título das
américas das mãos dos vizinhos e eternos rivais argentinos. Neste encontro com
os chilenos um dos golos seria apontado por Hector Castro, ou El Manco Castro, como ficou imortalizado
pelo facto de não ter metade do braço direito na sequência de um acidente com
uma serra elétrica quando tinha 13 anos.  |
| Seleção chilena saúda o seu público no Campos de Sports de Ñuñoa |
Numa
competição que continuava a ser disputada em forma de campeonato, em que o
campeão seria a seleção que somasse mais pontos, a Argentina amealha mais uma
vitória no encontro diante do Paraguai na sequência de uma goleada de 8-0, com
destaque para o poker de Gabino Sosa.
Diga-se de passagem, que na altura este foi o campeonato sul-americano que mais
golos iria produzir: 55. Uma média de 5,5 golos nos 10 encontros realizados. Um
dos jogos com menos golos foi precisamente o escaldante duelo entre argentinos
e uruguaios, o grande clássico de então na América do Sul. 15.000 espectadores
lotaram o Campos de Sports de Ñuñoa e presenciaram um jogo onde o Uruguai provou
o porquê de ser a melhor seleção do planeta, vencendo por 2-0. No jogo seguinte
Hector Scarone fez história não só na competição da CONMEBOL como da própria
seleção uruguaia. Ao apontar cinco dos seis golos sem resposta com que o
Uruguai bateu a Bolívia, Scarone tornou-se no primeiro jogador da competição a
alcançar esta marca. Esta manita confere ainda a Scarone até aos dias de hoje o
recorde de único jogador com maior número de golos num só jogo pela seleção
uruguaia.  |
| A entrada em campo da Argentina |
Se por um
lado este avolumado score abria as portas da reconquista do título ao Uruguai,
por outro encerrava a participação da Bolívia na Copa, uma presença que apesar
dos avultados resultados negativos mostrou uma equipa que representou o país de
forma digna, ainda que a absoluta falta de experiência competitiva aliada às
pobres condições de preparação para uma competição deste género, sobressaíssem e
servissem de exemplo para futuros torneios. O título dos uruguaios ficaria
matematicamente selado após o confronto entre chilenos e argentinos, o qual se
saldou por um empate a uma bola. A precisar de vencer para manter esperanças na
renovação do cetro, a Argentina baqueou perante os anfitriões e entregou o
título aos rivais do Rio da Prata. Deste modo, a vitória do Uruguai diante do
Paraguai por 6-1 – com um poker de El
Manco Castro – serviu para não só cumprir calendário como de igual modo
celebrar o 6.º título de campeão das américas por parte da seleção celeste.
Este triunfo daria origem a um famoso hino popular dedicado à seleção do
Uruguai, o qual seria composto por Omar Odriozola e eternizada por José
Ministeri "Pepino", e que versa o seguinte:
“Invicto na Europa, invicto na América,
Eles são campeões do mundo, são campeões da
América.
O mesmo que em Colombes, nos campos de Nuñoa
Eles desfilaram vitoriosamente com a bandeira
nacional.
A equipe argentina e a equipe chilena,
O boliviano e o paraguaio
Eles foram derrotados pela equipe uruguaia, que
estava invicta.
Uruguaios, campeões da América e do mundo,
Atletas esforçados que acabaram de triunfar,
As cornetas que tocaram o toque de alvorada em
Colombes,
Para além dos Andes, eles soaram novamente.
O povo da França nos Jogos Olímpicos
Ele aplaudiu com entusiasmo seu triunfo
mundial.
E hoje é a América do Sul que se alegra.
Admire a glória da equipe do leste”.
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| Arellano |
O Chile
acabou este torneio no segundo lugar ex-áqueo com os argentinos após esmagar o
Paraguai por 5-1, com destaque para os três golos da estrela David Arellano, um
futebolista nascido em Santiago, em 1902, e que revolucionou o futebol no país
no começo do século XX. Fundador, capitão e primeiro ídolo do Colo Colo, ele
teria um final trágico um ano após a realização deste Campeonato Sul-Americano. Em 1927 a Federação de Futebol do Chile escolheu o Colo Colo para representar o país numa série de jogos particulares na Península Ibérica. Diz a história,
que foi Arellano que no âmbito dessa digressão apresentou à Europa a famosa chilena,
ou pontapé de bicicleta. Seria este gesto técnico em parte o responsável pela
morte de David Arellano a 3 de maio daquele ano de 1927. Em Valladolid, o Colo
Colo defrontou nessa tarde o Real Unión e ao tentar executar uma das suas
famosas chilenas, Arellano caiu ao mesmo tempo que o seu marcador direto nesse
lance, o espanhol Hornia, o qual caiu em simultâneo com o joelho em cima do
peito do avançado chileno. A pancada provocou um abscesso intra-abdominal,
levando à morte de um jogador que estava no auge da sua carreira. Voltando
à Copa América de 26 para dizer que Arellano foi o melhor marcador do torneio,
com sete remates certeiros. Esta
edição do torneio marcou ainda o início da longa travessia da ausência do
Brasil da competição. Conflitos entre várias federações estaduais, sobretudo
entre as do Rio de Janeiro e de São Paulo, deram origem a que os brasileiros
não só não marcassem presença nesta edição como nos restantes torneios da
década de 20 e boa parte da década de 30. O Brasil só voltaria a disputar um
Campeonato Sul Americano em 1937.
Nomes e
números:
12 de
outubro de 1926
Chile –
Bolívia: 7-1
(Arellano,
15’, 41’, 80’, 84’; Ramirez, 10’; Subiabre, 14’, Moreno, 47’)
(Aguilar,
62’)
16 de
outubro de 1926
Argentina
– Bolívia: 5-0
(Cherro,
9’ e 19’; Sosa, 31’; Delgado, 43’; De Miguel, 74’)
17 de
outubro de 1926
Uruguai –
Chile: 3-1
(Borjas,
22’; Castro, 32’; Scarone, 55’)
(Subiabre,
65’)
20 de outubro
de 1926
Argentina
– Paraguai: 8-0
(Sosa, 11’,
32’, 59’, 87’; Delgado, 40’, 42’; Cherro, 16’; De Miguel, 52’)
23 de
outubro de 1926
Paraguai –
Bolívia: 6-1
(Ceferino
Ramirez, 68’, 72’, 88’; Julio Ramirez, 76’; López, 57’, 81’)
(Soto, 15’)
24 de
outubro de 1926
Uruguai –
Argentina: 2-0
(Borjas,
22’; Castro, 73’)
28 de
outubro de 1926
Uruguai –
Bolívia: 6-0
(Scarone,
9’, 12’, 28’, 39’, 81’; Romano, 67’)
31 de
outubro de 1926
Chile –
Argentina: 1-1
(Saavedra,
25’)
(Tarasconi,
42’)
1 de
novembro de 1926
Uruguai –
Paraguai: 6-1
(Castro,
16’, 23’, 32’, 72’; Saldombide, 47’, 82’)
(Fretes,
41’)
3 de
novembro de 1926
Chile –
Paraguai: 5-1
(Arellano,
21’, 64’, 71’; Ramirez, 42’, 82’)
(Peña, 40’)
Classificação:
1.º
Uruguai: 8 pts.
2.º
Argentina: 5 pts.
3.º
Chile: 5 pts.
4.º
Paraguai: 2 pts.
5.º
Bolívia: 0 pts.