Muito antes do Brasil conquistar a sua primeira estrela de campeão mundial, em 1958, já um cidadão brasileiro havia vencido o troféu mais cobiçado do Planeta do Futebol. Facto ocorrido em 1934, ano em que a Itália acolheu a segunda edição do Campeonato do Mundo, um certame que teve a mão marota do fascismo imposto pelo ditador Benito Mussolini, o qual manipulou tudo o que dizia respeito à competição da FIFA no sentido de levar a Squadra Azzurra ao título, o que viria inevitavelmente a acontecer. Ações como escolher os árbitros dos jogos da Itália, selecionar os estádios onde a sua seleção iria jogar, ou intimidar os próprios jogadores do combinado nacional italiano – conta-se que no dia da final terá enviado um telegrama ao selecionador e jogadores onde se lia “vitória ou morte” – terão sido levadas a cabo por Il Duce neste segundo Mundial da FIFA. Outra medida permitida pelo ditador prendeu-se com a naturalização de jogadores estrangeiros, com a finalidade de fortalecer a equipa nacional. Mussolini contornou as leis da nacionalidade que então vigoravam em Itália e permitiu que cinco futebolistas estrangeiros representassem a Nazionale italiana no Mundial de 1934. Cinco jogadores que tinham ascendência transalpina e que na época atuavam no campeonato italiano. Estes futebolistas ficariam conhecidos como os oriundi. Eram eles Luis Monti, Raimundo Orsi, Enrique Guaita, Attilio Demaría e Filó Guarisi. Os quatro primeiros eram argentinos, sendo que Filó era brasileiro. O tal nativo de Terras de Vera Cruz que se viria a sagrar campeão do Mundo muito antes do escrete canarinho o ser na Suécia, em 58, por influência de Pelé, Garrincha e companhia.
Anfilóquio Guarisi Marques, ou simplesmente Filó – para o Mundo da Bola – nasceu em São Paulo um dia depois do Natal de 1905 e era filho de uma imigrante italiana e do… português Manuel Augusto Marques, o segundo presidente da história da Portuguesa de Desportos. Foi esta figura que levou Filó para o futebol, precisamente para a Portuguesa, o primeiro clube que revelou um habilidoso e rápido extremo-direito, que logo chamou à atenção dos maiores clubes paulistas. No campeonato estadual de 1924 entrou na história da Portuguesa ao apontar os cinco golos da sua equipa no empate com o Brás. Após ter representado a Lusa entre 1922 e 1924, juntou-se um ano mais tarde ao astro Arthur Friedenreich no Paulistano, ao serviço do qual venceu dois campeonatos paulistas. A habilidade de Filó não passou despercebida aos responsáveis da seleção brasileira, que em 1925 o convocam para integrar a seleção que disputou em Buenos Aires o Campeonato Sul-Americano – atual Copa América – daquele ano. Filó atuou como titular nos quatro encontros realizados pelo Brasil na competição, tendo apontado um golo diante da do Paraguai. Em 1929 transfere-se para o gigante Corinthians. Nesse ano ajudou o emblema alvinegro a revalidar o título de campeão estadual num registo 100 por cento vitorioso, isto é, em sete jogos venceu outros tantos. Em 1925 ajuda ainda o Coringão a vencer a sua primeira partida internacional, ante os argentinos do Barracas. Um ano mais tarde é peça preponderante na conquista do tri-campeonato paulista pelo Corinthians, e era já, naturalmente, um dos futebolistas paulistas de maior nomeada a nível nacional. Não foi de estranhar que o seu nome estivesse na órbita para integrar a seleção nacional que iria ao Uruguai disputar o primeiro Mundial da história. Porém, a guerra entre as confederações paulista e carioca fez com que os primeiros fizessem um boicote no que toca a representar o Brasil no Mundial de 1930, originando que a seleção fosse na sua esmagadora maioria integrada por futebolistas oriundos do Rio de Janeiro – a exceção foi o paulista Araken Patusca.
Mas a ausência de Filó do grande palco mundial seria adiada por apenas quatro anos. Em 1931 ele não resistiu ao convite do já profissional futebol italiano para deixar o ainda amador futebol brasileiro. Rumou então a Roma para representar a Lazio, onde cedo deu nas vistas com os seus dribles curtos e fantasistas aliado a uma notável veia goleadora. No clube laziale teve a companhia dos seus compatriotas De Maria, Del Debbio, Rato Castelli, Pepe Rizzetti, André Tedesco, Ninão Fantoni, Amílcar Barbuy e Enzio Serafini, que consigo fizeram a longa travessia no Atlântico. As excelentes exibições de Filó aliadas ao sobrenome italiano – Guarisi – por parte da sua mãe fizeram com que em 1932 fosse chamado pela primeira vez por Vittorio Pozzo à seleção transalpina. Foi ante a Grécia e logo na estreia Filó apontou um golo. O seu nome iria figurar então no grupo que defendeu a Itália no Mundial de 1934, tendo Filó atuado a titular no primeiro jogo da caminhada triunfal, ante o Estados Unidos da América, que terminou com a vitória italiana por 7-1. Depois disso, viu do banco os seus companheiros guiarem a Squadra Azzurra até ao título… com a ajuda de Mussolini, por claro. Em 1937 deixa a Lazio e a Itália para regressar ao Corinthians, ainda a tempo de vencer mais um campeonato paulista – em 1939 –, tendo em 1940 pendurado as chuteiras ao serviço do Palmeiras. O primeiro campeão do Mundo brasileiro iria falecer em 8 de junho de 1974, já depois de ter visto o seu país natal conquistar coletivamente três campeonatos do Mundo.



































































































