quinta-feira, outubro 08, 2026

Os Reis da antiga 2.ª Divisão Nacional: Anos 30

A extinta 2.ª Divisão Nacional foi durante seis décadas (entre 1934 e 1990) o palco onde dezenas de emblemas históricos viveram o seu maior momento de glória, gravando ali os seus nomes na história do futebol em Portugal. Ofuscado pelo brilho da 1.ª Divisão Nacional, o escalão secundário é rico em momentos épicos que fizeram parar vilas e cidades de norte a sul do país como consequência de um título conquistado por clubes que estavam (e alguns ainda estão) longe da esfera dos chamados Grandes do Futebol Português. É para recordar, mas acima de tudo homenagear não só jogadores e treinadores desconhecidos que se tornaram lendas locais, mas também pequenos grandes clubes que atingiram a gloria, que hoje damos início a uma nova rubrica intitulada “OS REIS DA ANTIGA 2.ª DIVISÃO NACIONAL”. Nesta série de seis artigos iremos lembrar cada um destes campeões hoje quase esquecidos (?), mas de forma mais precisa recordar como alcançaram a glória secundária do Desporto Rei nacional.

1935: Carcavelinhos, o primeiro campeão numa final em dois atos

Campo do Arnado
E começamos este roteiro nostálgico pela década de 30, precisamente quando a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) cria em simultâneo o Campeonato da Liga da 1.ª Divisão e o Campeonato da Liga da 2.ª Divisão. O pontapé de saída das duas novas provas nacionais aconteceu na temporada de 1934/35, sendo que no caso do segundo escalão 32 foram os clubes de norte a sul do país que lutaram entre si pelo título de campeão nacional. 32 emblemas que foram divididos numa 1.ª fase em oito grupos, cujos vencedores avançavam para uma 2.ª fase – uma espécie de quartos-de-final – e posteriormente seguiam-se as meias-finais e por fim a final. E na 1.ª edição daquela que com o passar dos anos ficou popularizada como 2.ª Divisão, o vencedor seria um histórico do futebol luso. Um emblema que nos anos 20 havia feito das suas ao vencer a então principal – e então única – competição nacional, o Campeonato de Portugal. Esse histórico foi o Carcavelinhos, que precisou de fazer horas extras para conquistar aquele que seria o segundo cetro nacional da sua existência. Após terem vencido (com cinco vitórias e uma derrota) o Grupo 7 da 1.ª fase e de ter ultrapassado na fase a eliminar o Olhanense (1-4 e 5-0) e o Barreirense (3-2) os rapazes de Alcântara tiveram pela frente o Boavista, clube que reaparecia nas competições oficiais após um ano de castigo imposto pela FPF depois de em 1933 ter-se apresentado num jogo diante do Benfica com uma equipa assumidamente profissional… numa altura em que o profissionalismo era proibido e Portugal. Boavisteiros que na sua frente de ataque tinham um nome sonante que viria a dar cartas no vizinho e rival da Constituição: Costuras. Mas não era só José Monteiro – o nome oficial do matador Costuras – que dava nas vistas no xadrez. Vítor Guilhar, Janos Biri, ou César Machado, faziam dos axadrezados um rival de peso, como se veio a confirmar. Coimbra e o mítico Campo do Arnado foram o cenário escolhido pela FPF para a primeira decisão da 2.ª Divisão. Reza a crónica do Diário de Lisboa (DL) que os lisboetas contaram com mais apoio nas bancadas e que as duas equipas recearam-se em demasia nos minutos iniciais da partida. Receosas, mas entusiasmadas, assim eram descritas os dois conjuntos. Até que ao minuto 12 os nortenhos chegam ao golo por intermédio de Machicha, na sequência de um ataque pelo flanco direito. O Carcavelinhos não desanimou e pouco depois dispôs de uma soberana oportunidade para chegar ao empate: Óscar de Carvalho comete falta dentro da área e o árbitro Santos Farinha (de Santarém) não tem dúvidas em assinalar o castigo máximo. Porém, Oliveira e Silva desperdiça a oportunidade. O match entra então num período de menor beleza, com os jogadores de ambos os lados a usarem e abusarem da dureza. Até que aos 28 minutos, Tomás Rodrigues restabeleceu o justo empate face ao que se verificava no Campo do Arnado. Na segunda parte os lisboetas ganham ascendente. No espaço de cinco minutos constroem três oportunidades de golo que com um pouco mais de precisão poderiam ferir a pantera. Após este início avassalador do Carcavelinhos o Boavista acordou e poderia ter ficado em vantagem numérica caso o juiz do encontro não tivesse feito vista grossa a uma agressão clara de Oliveira e Silva a um adversário. Este lance aqueceu os ânimos, e até final dos 90 minutos assistem-se a mais algumas picardias entre os jogadores de ambos lados. O jogo vai para prolongamento. O cansaço começa a fazer-se notar no campo de batalha, mas ainda assim é o Carcavelinhos a estar mais perto do golo, não fosse Biri estar à altura ao negar o festejo com uma estupenda parada. Com o empate a persistir, os regulamentos indicavam que Boavista e Carcavelinhos teriam de disputar um novo jogo dali a cerca de um mês e meio!

De novo no Campo do Arnado, que desta feita apresentava uma baixa assistência, as equipas voltam a medir forças. O Carcavelinhos entra melhor, desenvolve o seu jogo no meio campo do adversário, que por sua vez na primeira jogada em que consegue invadir o meio campo contrário fez golo: Justo de Pinho mete a mão na bola dentro da área e o juiz Natividade e Silva (de Aveiro) assinala penalty. O matador Costuras não perdoa e abre o marcador. Este golo surgiu contra a corrente, já que os lisboetas impunham melhor o seu jogo e sem se deixarem abater pelo tento axadrezado atacam com rapidez a baliza de Biri, que por diversas vezes se encontra em apuros. Num desses lances, o guardião húngaro é traído por um colega seu que no meio de uma confusão na área comete a infelicidade de oferecer o empate aos lisboetas. O Boavista só aos 20 minutos consegue sacudir um pouco a pressão do seu oponente. Mas seria de novo o Carcavelinhos que ainda antes do intervalo se coloca novamente em vantagem: Quirino recolhe um passe de Pratas e já dentro da área fuzila Biri. Vantagem justa ao intervalo. No segundo tempo o jogo inicia-se numa toada menos veloz em relação aos primeiros 45 minutos, e disso aproveita-se o Boavista que passa a chamar a si o domínio. O lance polémico acontece já muito perto do fim, quando no seguimento de uma rápida jogada do Boavista o guardião lisboeta Medueño deixa escapar a bola das mãos, tendo esta ressaltado aparentemente para lá da linha de golo. O árbitro assim não entende, e os jogadores do Bessa protestam veemente com Natividade e Silva. A revolta estende-se às bancadas, sendo que nos últimos minutos vislumbram-se mais picardias do que futebol. Chegado o apito final o Carcavelinhos vence e torna-se assim no primeiro campeão da 2.ª Divisão. Madueño, Vergilésio, Justo, Marques Pereira, Esteves, Prazeres, Quirino, Pratas, Álvaro Sousa, Oliveira e Silva e Humberto Sousa são os onze heróis que entram na história do popular clube de Alcântara.

1936: Olhanense junta título da 2.ª Divisão à glória do Campeonato de Portugal de 1924

Os campeão do Algarve e da 2.ª Divisão Nacional de 36
Na época seguinte a fórmula de disputa da 2.ª Divisão sofre uma pequena alteração: ao invés de oito grupos/séries a prova desenrola-se em sete grupos/séries. E na final surge pelo segundo ano consecutivo um clube da Cidade Invicta, neste caso o Salgueiros, que pela frente terá o Olhanense. Para chegarem às Amoreiras – recinto do Estoril onde se realizou a final de 36 – os algarvios venceram a sua série da 1.ª fase com um registo de seis vitórias e uma derrota, sendo que na fase a eliminar deixaram por terra o Barreirense (5-1 e 1-0) e o União de Lisboa (2-1). Perante uma reduzida assistência – na sua maioria afeta ao Salgueiral, e que viajou para a capital em comboios especiais – os algarvios fizeram da experiência a arma para levar a taça para casa. Na visão do jornalista do DL que acompanhou o desafio, o Olhanense «mais habituado a lutas decididas, impõe-se como o melhor conjunto», ante um Salgueiros que «tem um grupo de gente moça, que se encontra progredindo». A grande final teve uma primeira parte enérgica, em que se praticou «um football digno dos campos lisboetas». O primeiro festejo da tarde pertenceu aos portuenses. Estavam decorridos 38 minutos quando no seguimento de uma jogada desenhada pelo flanco direito, Pepe, de cabeça, coloca o Salgueiros na frente. O segundo tempo terá sido menos agradável de ser visto, com o esforço físico despendido nos primeiros 45 minutos a fazer-se notar em ambos os lados. Ainda assim o Olhanense esteve melhor, e com 55 minutos jogados Norberto Cavém restabelece a igualdade ao aproveitar uma indecisão do setor recuado dos portuenses. A desatenção dos defesas salgueiristas iria acabar por ditar o desfecho desta final, já que dez minutos volvidos um novo deslize sentenciou o jogo: Bengala fez o 2-1 final e levou o título para Olhão. Este era então o segundo título nacional conquistado pelos olhanenses, que 12 anos antes haviam arrecadado aquele que ainda hoje é o cetro mais importante da sua história: o Campeonato de Portugal.

1937: Título à segunda tentativa – Boavista conquista 2.ª Divisão após ano difícil

Xeque mate boavisteiro em 37
Na 3.ª edição do Nacional da 2.ª Divisão a FPF introduziu algumas mudanças no figurino da competição. A 1.ª fase passou a ser disputada em 10 séries/grupos de norte a sul do país, sendo que os vencedores de cada uma delas avançavam para uma fase a eliminar que iria ser concluída com a final. E pela primeira vez na ainda curta história da competição o título viajou para o norte, pela mão de um dos seus mais populares emblemas: o Boavista. Os axadrezados atingiram pela segunda vez a final da 2.ª Divisão, após terem vencido a Série 2 da 1.ª fase com 9 pontos e eliminado o Vila Real (7-0 e 7-3), o Académico do Porto (4-2 e 2-2) e o Marinhense (9-0) na 2.ª fase. Na final – disputada no Campo do Arnado, em Coimbra – os boavisteiros encontraram o União de Lisboa. Esta foi uma temporada difícil para os portuenses, já que um ano antes haviam sido despromovidos para o segundo escalão pela via da secretaria, isto é, o alegado facto de terem inscrito de forma irregular um jogador num desafio ante a Académica fez com que a FPF lhes aplicasse a despromoção de divisão como castigo. A juntar a isto, o emblema do Bessa viveu ano atribulado no que ao comando da sua equipa principal dizia respeito, pois pelo banco dos axadrezados passaram quatro técnicos! O antigo guarda-redes húngaro Biri foi o primeiro timoneiro, mas os maus resultados inicialmente averbados deram lugar ao despedimento. Seguiu-se no cargo a antiga estrela dos anos 20 do vizinho FC Porto, Alexandre Cal, mas os bons resultados tardavam em aparecer pelo que o caminho da rua foi apontado ao ex-portista. Da Constituição chegou o terceiro treinador da época, Joseph Szabo, mas o chamamento do Sporting, onde faria história, falou mais alto e pouco tempo teve para aquecer o banco do Bessa. Perante esta rápida partida do húngaro, a direção do Boavista decidiu entregar o comando técnico da sua equipa principal a Alberto Simões, que teve o condão de guiar o conjunto àquele que viria a ser o seu primeiro título nacional. Uma conquista que teve um certo sabor a justiça, desde logo por tudo o que o clube tinha vivido ao longo de uma época atribulada. E para Coimbra, deslocaram-se cerca de 7000 boavisteiros (!), num comboio especial, que foi fretado, digamos, pelo jornal Sporting, que era propriedade do dedicado dirigente do clube, Artur d'Oliveira Valença. Para dar mais vida ao acontecimento, o citado jornal distribuiu a cada adepto que fez a viagem até ao centro do país uma bandeirinha afeta ao clube portuense. Boavista e União de Lisboa subiam ao Campo do Arnado ao final da manhã do dia 2 maio, e ainda mal os boavisteiros haviam “ligado os motores” e já os lisboetas faziam a festa por intermédio de Saraiva, que aos 3 minutos recebe uma bola centrada por Gonçalves sob a linha de fundo para abrir o marcador. Mas rapidamente, o Boavista se refez do susto madrugador. Não só impõe o seu jogo, como obriga o guarda-redes contrário, Tavira, a aplicar-se a fundo. Por sua vez, os unionistas respondem ao melhor futebol dos axadrezados com tímidos contra-ataques. O fulgor dos nortenhos seria premiado aos 26 minutos, quando Humberto às “três tabelas” traiu Tavira na sequência de um forte remate de Peseta. 

Peseta
A propósito de Peseta, cujo nome de batismo era Augusto Domingues, nesta mesma época de 36/37 ele é personagem de mais um caso de profissionalismo encapotado que vigorava no futebol luso daquele tempo. Diz a história que Peseta não compareceu no arranque dos trabalhos da nova temporada, vindo-se posteriormente a saber que o jogador tinha arranjado um emprego na repartição de Finanças de Valença, localidade onde residia. Ora, não querendo abrir mão deste craque, os dirigentes boavisteiros resolveram o assunto ao atribuir ao futebolista um subsídio de 200 escudos por cada deslocação que este fizesse entre Valença e o Porto. Mas voltando à final de 1937, ainda antes do intervalo, um potente disparo de Ferraz de fora da área bate Tavira e coloca o Boavista em vantagem. Os lisboetas atónitos não têm outro remédio senão parar o carrossel boavisteiro com entradas mais duras, sendo que num desses lances Manuel Silva comete penalty. Na conversão, Costuras faz o 3-1 com que se atingiu o descanso. A segunda metade não mais foi do que una demonstração evidente da superioridade do Boavista. O 4-1 surgiu na sequência de uma veloz investida protagonizada por Costuras que à saída de Tavira atirou sem piedade para o fundo das redes. Os nortenhos não queriam ficar por aqui, e já perto dos 90 minutos Antero aproveitou um bom passe de Laguna para fechar o marcador em 5-1. «A vitória dos portuenses foi merecida absolutamente e o resultado de 5-1 expressa-a com fidelidade. O Boavista, finalista pela segunda vez, jogou da melhor maneira, fazendo uma exibição convincente», assim resumia o DL. 

Pelas 21H30 o comboio especial que o jornal Sporting tinha fretado para levar a “família” boavisteira a Coimbra, chega à Estação de S. Bento (no Porto), trazendo a bordo os novos campeões nacionais da 2.ª Divisão: Pesqueira, Humberto, Cortês, Reis, Monteiro, Sena, Antero, Peseta, Costuras, Ferraz e Laguna.

1938: Dois golos de rajada deitam por terra o sonho do União de Lisboa na segunda final consecutiva

A Armada do Mar campeã em 1938
O União de Lisboa tornou-se na temporada de 37/38 no primeiro clube a lograr atingir em duas ocasiões consecutivas a final da 2.ª Divisão e de em ambas ter saído derrotado. E de novo por uma equipa do norte, neste caso o Leixões. Vencedores da série 2 da 1.ª fase de forma invicta, os matosinhenses atingiram a final após eliminarem na 2.ª fase o Vila Real (5-0), o Boavista (também por 5-0) e o Marinhense (4-1). E fizeram-no com base num ataque deveras produtivo (35 golos) e uma defesa de betão (apenas três golos sofridos). Mais uma vez, o Campo do Arnado foi o cenário para onde a FPF levou a final do escalão secundário, realizada a 8 de maio de 1938. E tal como na final transata, o União de Lisboa teve um melhor arranque que o adversário, ocupando o meio campo contrário com base num jogo de passes curtos na tentativa de adormecer os nortenhos. Mas esta toada seria "sol de pouca dura", já que como quem não quer a coisa – ou que a quer, na verdade – o Leixões passou a assumir as rédeas do encontro, não sendo de estranhar que aos 7 minutos, Mano tivesse inaugurado o marcador para a Armada do Mar após receber um passe açucarado de Mitra. O mesmo jogador estava de pé quente e mal a bola tinha sido reposta em jogo já estava outra vez a fazê-la entrar na baliza lisboeta pela segunda vez no espaço de pouco mais de um minuto! O Leixões estava em modo diabólico, um verdadeiro quebra-cabeças para a equipa do União de Lisboa que dava mostras de um completo desnorte em campo. A avalanche dos nortenhos durou até aos 20 minutos, altura em que os lisboetas se começam a libertar das amarras e a tentar subir no terreno. Tentativas estas que iam sendo travadas pela defesa leixonense, que fazia da rapidez a arma para se antecipar aos lances de ataque contrários. Na segunda parte o União surge mais entusiasmado, e aos 50 minutos essa postura seria premiada com o golo de Salvaterra, que após receber um passe de Marques rematou sem hipótese para Álvaro. O empate pairou no ar num par de vezes, não fosse a falta de pontaria de Valentim. A partir dos 65 minutos o jogo conhece a sua fase mais sombria, com os jogadores das duas equipas a travarem-se de razões: Viriato e Mitra são expulsos e logo de seguida Salvaterra vai pelo mesmo caminho após discutir com o árbitro Álvaro Santos (de Coimbra). Mesmo a jogar com nove elementos – contra 10 – o União de Lisboa nunca desiste de atacar a baliza de Álvaro, enquanto que os nortenhos optam por jogar à defesa na tentativa de segurar a magra vantagem. E assim foi, 2-1 foi o resultado final com o título a viajar para Matosinhos, mas pelo que viu na etapa complementar também poderia muito bem ter ido para Lisboa que não teria ficado mal. Mas a história assim não quis e para a eternidade ficam os nomes de Álvaro, João Fernandes, Henrique, Quelhas, Minhoto, Lino, Mário Sarria, Mitra, Silveira e Mano, os campeões nacionais da 2.ª Divisão de 1938.

1939: Segunda coroa para o Carcavelinhos numa final em que o Centro do país aparece pela primeira no mapa das decisões

Os campeões de 1939
Em 1938/39 surgem novas mudanças no figurino da 2.ª Divisão. As equipas passam a estar dispostas em séries/grupos de acordo com a sua localização geográfica. Isto é, passa a haver a Série Minho (para equipas daquela região), a Série Alto Douro (idem aspas), Série Douro Litoral (idem idem aspas apas) e por aí abaixo no território continental. O Carcavelinhos ao vencer a Série Estremadura 1 garantiu a qualificação para a 2.ª fase onde eliminou o União de Lisboa (1-0), a Académica de Santarém (1-0) e o Farense (3-0), atingindo assim a final onde pela frente encontrou o Sporting da Covilhã, emblema este que assim se tornou na primeira equipa do centro do país a chegar ao jogo decisivo do segundo escalão nacional. As duas equipas mediram forças a 30 de abril de 1939, em Santarém, no Campo Alfredo Aguiar, que nesse dia recebeu um elevado número de entusiastas adeptos dos dois lados que para ali se deslocaram de comboio e/ou de camioneta. Conta o DL, que antes do apito inicial do árbitro Santos Palma (de Santarém) vislumbravam-se nas bancadas repletas muitas senhoras «que com a sua presença emprestam um ar festivo»! Ora aqui está uma prova de que já nos anos 30 o futebol não era uma paixão exclusivamente masculina. Assim que a bola foi posta a rolar percebe-se algum nervosismo da parte do guarda-redes do Covilhã, Júlio de Almeida: «mostra-se hesitante, tanto pior para ele, pois a bola ameaça-o constantemente e numa dessas vezes só por muita sorte é que os covilhanenses evitaram ser batidos», contava o enviado especial do DL a Santarém. 

Artur 
Baeta
Os lisboetas mostravam-se superiores, conduzindo a bola com velocidade até à área contrária, ao passo que os serranos só de vez em quando esboçam inofensivas reações ao domínio contrário. Foi, pois, de elementar justiça que à passagem do minuto 36 o remate fraco mas bem direcionado de Tomás Rodrigues levasse como destino o fundo da baliza de Júlio de Almeida. Na segunda parte, o Covilhã acorda e surge mais ameaçador, mas o Carcavelinhos não vai na conversa e continua a galopada ofensiva que vinha fazendo desde o apito inicial de Santos Palma. A partida ganha assim um interesse redobrado, com “bola cá, bola lá”, sendo que a luta se intensifica no último quarto de hora do match, mas sem que o resultado sofresse mais alterações. Para o DL venceu o melhor “team” no terreno, que desta forma levava pela segunda vez para Alcântara e no curto espaço de quatro anos o título nacional da 2.ª Divisão. Francisco Lopes, Artur Baeta, Vergilésio, José Lopes, Vitoriano, França, Pratas, Abrantes Mendes, Tomás Rodrigues, Quirino e Ferreira Lopes, compõem o team campeão. Deste naipe de futebolistas dois saltam à vista: Artur Baeta e Abrantes Mendes. O primeiro foi uma figura incontornável do futebol português, sobretudo enquanto treinador, tendo sido um visionário no que ao futebol de formação diz respeito, onde não se limitou a ser um condutor de jovens futebolistas, mas de igual modo um mestre na vertente dos ensinamentos cívicos, um pedagogo de excelência, que aliou o desenvolvimento do jovem futebolista quer enquanto atleta, mas sobretudo, quer enquanto futuro homem, enquanto cidadão. O segundo elemento ficou eternizado como o "avançado doutor", já que se formou em Direito ao mesmo tempo que desenvolveu a sua carreira de futebolista. O Sporting foi o clube que o formou e catapultou para o Planeta da Bola, jogando pelos leões entre 1926 e 1939, sendo que neste último ano tem uma breve incursão junto do Carcavelinhos onde termina a sua carreira de forma feliz: com o título de campeão nacional da 2.ª Divisão.

(continua)

domingo, outubro 04, 2026

Histórias do Planeta da Bola (37)... O crime passional de Pierre Mony, o primeiro jogador preso por homicídio

O futebol e o crime deram as mãos muito antes dos escândalos mediáticos do século XXI quando nomes sonantes como Robinho, Dani Alves, Ronaldinho Gaúcho, ou Freddy Rincón viram em determinado período das suas vidas o sol “nascer aos quadradinhos” em virtude de atos criminosos cometidos. Há sensivelmente 100 anos atrás um caso pioneiro chocou a opinião pública europeia e só a fama obtida nos relvados salvou o criminoso de uma pena pesada. Corria o ano de 1928, quando Pierre Mony, um antigo defesa-esquerdo da seleção francesa, no seguimento de uma crise de ciúmes, assassinou a tiro o seu melhor amigo. Mas vamos por partes. Mony era um dos meninos queridos do futebol francês dos anos 20. Uma Era onde imperava o amadorismo, mas ainda assim capaz de popularizar nomes como Paul Nicolas – tido como o melhor futebolista gaulês da referida década –, ou Jean Boyer. Juntamente com estes dois craques, Mony integrou a seleção francesa que em 1920 participou nos Jogos Olímpicos de Antuérpia. Nascido em Paris, em 1896, Mony desenvolveu toda a sua carreira no norte de França, mais concretamente na cidade costeira de Boulogne-sur-Mer, onde representou em dois períodos distintos – entre 1918-1921 e 1925-1928 – o US Boulogne e o OSC Boulogne – entre 1923 e 1924, tendo sido, pois, nesta região que alcançou o estatuto de lenda. E foi precisamente numa altura em que já estaria afastado das lides futebolísticas que o nome de Pierre Mony voltou a ecoar pelos quatro cantos do território francês, e tudo devido a uma crise de ciúmes. A antiga estrela dos relvados vivia uma vida aparentemente pacata na cidade onde alcançou a fama, localidade onde geria um restaurante do qual era proprietário. Na noite de 15 de maio de 1928 e após dar por encerrado mais um dia de trabalho no seu restaurante, Mony fez o que habitualmente fazia: ir beber um copo com os amigos ao Popes Bar. Mas naquela noite a sua ida àquele espaço noturno tinha um outro propósito. Entrado no bar, sentou-se ao balcão junto dos seus amigos, onde entre os quais se encontrava o antigo campeão de ciclismo Jean Delpierre. Bebidas e brindes sucederam-se em catadupa até à 1H00, altura em que o bar fechou e Mony juntamente com Delpierre e outro amigo comum, de nome Maurice Dagbert, decidiram separar-se do resto do grupo e ir continuar a farra para outro lado da cidade. Diz a história que os três homens se deslocaram no carro de Delpierre até ao Hotel de La Paix com a intenção de ali continuarem a noite de copos. Porém, o hotel estava fechado, ao que os três amigos decidiram sentar-se na entrada da unidade hoteleira dando aso a uma animada cavaqueira. Nada fazia prever que a determinada altura da borga Pierre Mony tirasse do bolso uma pistola e apontando-a para Delpierre tivesse disparado quatro tiros sobre este. Enquanto Mony desatou dali a fugir, Delpierre ainda conseguiu rastejar com a ajuda de Dagbert até ao café mais próximo no sentido de pedir ajuda. Posteriormente foi transportado para o hospital local, onde seria operado sem sucesso, já que viria a falecer no dia seguinte. Por sua vez, Mony fugiu para o porto de Boulogne-sur-Mer, onde terá atirado ao mar a arma do crime, dirigindo-se depois para casa de um outro amigo a quem pediu para o levar até Calais, a casa dos seus sogros, onde se encontravam a sua mulher, Paule, e a sua filha. Ali chegado, despediu- se da filha com um beijo e foi embora, regressando a Boulogne-sur-Mer para se entregar na esquadra de polícia local onde confessou o crime. No decorrer do interrogatório policial, Mony explicou que suspeitava que Delpierre e a sua esposa tinham um caso amoroso, suspeitas que subiram de tom após uma viagem que os dois haviam feito a Nice, sendo que no regresso Paule terá pedido o divórcio a Mony. Profundamente abalado com este pedido por parte da sua esposa, Pierre Mony terá então planeado matar aquele que era um dos seus melhores amigos. Ato consumado, e Mony foi acusado pelas autoridades por assassinato premeditado, tendo sido detido por tal. O julgamento só viria a ter lugar cerca de cinco meses volvidos o crime, em Arras, cujo tribunal foi pequeno demais para albergar populares e jornalistas – que vieram de vários pontos de França – que ali se deslocaram para assistir a este julgamento mediático. Mony chegou ao tribunal visivelmente abatido e com uma expressão de quem estaria à espera da condenação. As primeiras palavras de Mony perante o juiz foram no sentido de se lamentar por ter cometido tal ato de loucura levado pelo ciúme. Uma das testemunhas que o tribunal ouviu foi a própria Paule, que perante o juiz negou ter tido qualquer afaire com Delpierre. No seu depoimento, Paule referiu ter a sua reputação manchada, retratando o seu marido como um homem imoral e preguiçoso, explicando que seguiu viagem para Nice com Delpierre após Mony a ter incitado a seguir a própria vida dela ao passo que ele seguia a sua. Porém, e após ter ouvido outras testemunhas que conheciam a vida do casal, o juiz terá chegado à conclusão de que Mony não seria nenhum santo no que aos deveres matrimoniais dizia respeito, já que a popularidade granjeada nos retângulos de futebol abriu-lhe as portas dos corações de muitas madames por aquelas bandas! Por outras palavras, cometeu por diversas ocasiões o pecado da infidelidade. Porém, a sua fama de futebolista acabou por pesar mais alto ao fim das 14 horas que durou este julgamento, sendo que quando pronunciado a deliberar a sua decisão sobre este caso o júri decidiu não culpar Mony pelo assassinato de Delpierre. Como se estivesse numa qualquer bancada de um estádio, o público presente na sala de tribunal rapidamente se levantou para ovacionar o absolvido Pierre Mony, que assim foi posto em liberdade até ao resto da sua vida.

quinta-feira, setembro 24, 2026

Jogos Memoráveis (13)... Leixões - La Chaux-de-Fonds (Taça das Taças 1961/62)


No ano de 1961 e no espaço de apenas três meses o Leixões escreveu duas das mais brilhantes páginas da sua hoje centenária história. A primeira aconteceu a 9 de julho do referido ano, dia em que na tribuna do Estádio das Antas o emblema de Matosinhos ergueu para surpresa de todos a Taça de Portugal às expensas do FC Porto. Uma conquista que abriu as portas da Europa do futebol à Armada do Mar, que na temporada seguinte (61/62) competiu na 2.ª edição da Taças dos Vencedores das Taças. E também na estreia na alta roda internacional os leixonenses escreveram uma página histórica que até hoje não mais foi igualada por nenhum outro clube português nas provas da UEFA. E é precisamente sobre este capítulo que hoje iremos recordar.

O grupo que ostentou ao peito o símbolo do Leixões naquela que era a primeira aventura europeia do emblema nortenho, foi maioritariamente o mesmo que venceu a Taça de Portugal, pelo que o entrosamento e a crença (no potencial da equipa) estavam presentes na cabeça de todos os futebolistas que o integravam. Isso e quiçá algum tique de superioridade, tendo em conta que após o resultado do sorteio da 1.ª eliminatória da Taça das Taças de 61/62 a velha expressão “são favas contadas” terá assolado de pronto o pensamento de muitos leixonenses. Na verdade, o nome La Chaux-de-Fonds pouco ou nada dizia a um Leixões que vivia no rescaldo da euforia da conquista da Prova Rainha do futebol luso. “Se vencemos o poderoso FC Porto na sua própria cada numa final da Taça de Portugal, não serão uns tais de La Chaux-de-Founds que nos vão intimidar e vencer”, terão pensado, porventura, os leixonenses na antecâmara da estreia europeia. Pois bem, esta sobranceira acabou por lhes sair caro, já que da Suíça o Leixões trouxe um saco cheio de golos: seis. A derrota por 6-2 na pequena cidade localizada no cantão de Neuchâtel foi acima de tudo um banho de humildade que os portugueses levaram. Dar a volta ao texto, ou seja, à eliminatória, era uma tarefa árdua, já que para passar este obstáculo os pupilos do técnico argentino Filpo Núñez teriam de marcar cinco golos e não sofrer nenhum. Impossível? Não para a Armada do Mar, como iremos ver. Assim, o feriado de 5 de outubro de 1961 fica para sempre nos anais da história do futebol português. O palco desta que viria a ser uma tarde de glória foi mesmo onde ao longo de mais de 50 anos o Leixões vivenciou grandes vitórias: o Campo de Santana. Nesse dia, o hoje desaparecido recinto localizado no centro de Matosinhos – na Rua Silva Pinheiro – foi pequeno demais para acolher a apaixonada massa adepta leixonense que ali se deslocou em busca de presenciar um milagre. E o santo milagreiro que nessa tarde baixou sobre o pelado do Campo de Santana tinha pronúncia brasileira, constituindo-se como um dos mais brilhantes futebolistas nascidos em Terras de Vera Cruz que nos anos 60 passaram pelo futebol português. Mas já lá vamos a dados mais concretos.

Alheio à pressão do resultado que se impunha, os jogadores do Leixões aplicaram-se desde o primeiro minuto de forma brilhante, fazendo da velocidade e da determinação as armas com que a barreira suíça haveria de ser ultrapassada. «A equipa portuguesa foi prodigiosa de velocidade, brio, determinação… e jogo! Foi a jogar e a jogar bem, num ritmo rápido e certo, em que integravam admiravelmente todos os seus elementos, que o Leixões se tornou prontamente amo e senhor da partida», assim dava nota o jornalista Alberto Lobo, o qual ao serviço do Diário de Lisboa (DL) testemunhou este milagre futebolístico. No “quadro pintado” pelo repórter, a atitude do Leixões empolgou os seus adeptos. Autoritários e entusiasmados os jogadores do conjunto português trataram de repor a verdade numa eliminatória que na voz de Alberto Lobo havia ferido na Suíça o prestígio do futebol luso a nível internacional. Outro cenário que não fosse a passagem do Leixões teria sido uma injustiça, de acordo com o jornalista do DL, dado que no Campo de Santana ficou evidente a longa distância em termos de categoria que separava os dois conjuntos… com os portugueses a perfilarem-se muito à frente neste aspeto particular. Na verdade, em Matosinhos os helvéticos mostraram uma «personalidade débil», que só a espaços ser tornou perigosa nos rápidos contra-ataques que “aqui e acolá” foram fazendo. Por sua vez, o Leixões de pronto atacou a baliza de Leo Eichmann, criando inúmeros lances de perigo nos primeiros minutos da batalha. Na verdade, só Eichmann ia colocando algum travão na fúria da Armada do Mar. Isso, e algum nervosismo que com o passar do tempo se ia instalando nos jogadores de Matosinhos que viam a sua garra e vontade esbarrar na falta de sorte ou no guardião contrário.

Osvaldo Silva 
«Com os suíços votados à defesa e os portugueses ao ataque, a bola ficou praticamente colhida entre duas barreiras, cujas linhas cortavam a grande área dos visitantes. A manobra tornou-se dificílima, até porque os matosinhenses pretendiam o golo pela certa, levando a teia de passes até debaixo da baliza do seguro Eichmann», assim descreveu Alberto Lobo as incidências dos primeiros 25 minutos de jogo. Percebendo que por aquele caminho o golo iria tardar cada vez mais, o Leixões corrigiu o estilo de jogo que vinha adotando, passando a optar por tentar a sorte de mais longe da baliza. Por outras palavras, passou a rematar com mais frequência e de ângulos distintos na tentativa de derrubar a muralha suíça. Uma opção que viria a tornar-se na chave do triunfo. Aos poucos a tal muralha contrária começou a ceder aos tiros dos lusos. O atirador principal foi o tal artista brasileiro de que atrás falámos, Osvaldo Silva. Com dois remates certeiros aos 28 e 32 minutos do primeiro tempo, ele começou a operar o tal milagre da reviravolta. Apoiado por Gomes no ataque, o brasileiro do Leixões voltou a ser um autêntico diabo à solta numa segunda parte que abriu praticamente com o golo de Oliveirinha, ao minuto 47, que colocava o Leixões mais perto do milagre. A toada de jogo não se alterou nestes segundos 45 minutos, pelo que até a revolta ser consumada foi uma questão de tempo e de paciência. Aos 53 minutos, António Medeiros empatou a eliminatória, até que aos 72 Oliveirinha bisou e consumou o milagre. O Leixões venceu por 5-0, apagando assim a má imagem deixada na Suíça no jogo da 1.ª mão, e mais do que isso avançava na eliminatória. Nas cabines, os leixonenses estavam, naturalmente, eufóricos com este feito. Para o capitão Raul Machado «o primeiro jogo foi de manifesta pouca sorte para nós e de felicidade para os nossos adversários. Sempre considerei o Leixões superior e por isso acreditava que se tudo corresse normalmente a recuperação não era impossível». E assim foi. Esta reviravolta assume contornos históricos até hoje no futebol português, já que nenhuma outra equipa conseguiu anular uma desvantagem tão grande trazida da 1.ª mão. Sob arbitragem do francês Jean Tricot, as equipas alinharam da seguinte forma: Leixões – Roldão, Santana, Joaquim Pacheco, Raul Machado, Jacinto, António Medeiros, Patela, Gomes, Osvaldo Silva, Mário Ventura, Oliveirinha. Treinador: Filpo Núñez. La Chaux-de-Fonds: Leo Eichmann, Kurt Leuenberger, Jean-Claude Deforel, Raymond Aubert, Willy Kernen, Gabriel Morel, André Brossard, Kurt Sommerlatt, Roberto Frigerio, Heinz Bertschi, Charles Antenen.

sexta-feira, setembro 11, 2026

Histórias do Futebol em Portugal (52)... Boavista: o pioneiro do profissionalismo em Portugal e a estreia do mítico xadrez nas camisolas

 

Uma das primeiras equipas do Boavista após a implementação 
do xadrez como manto sagrado 

O doloroso presente que o Boavista vive não tem força suficiente para ofuscar o seu passado de glória. Ao longo de mais de um século de vida, o emblema portuense escreveu centenas de páginas relevantes no desporto português. E esta evidência leva-nos hoje até 1933, ano em que o clube do Bessa não só se reinventou sob o ponto de vista indumentário, como de igual modo teve um papel preponderante para acabar com o profissionalismo encapotado que vigorava em Portugal. E tudo isto pela mão de uma figura incontornável do clube do Bessa e do próprio desporto nacional: Artur d’ Oliveira Valença. Nascido em fevereiro de 1897, este tripeiro de gema (viria a falecer em 1978) foi uma figura incontornável da primeira metade do século XX não só no desporto como da sociedade portuense dessa altura. Foi um homem multifacetado ao desempenhar diversos cargos ao longo da sua vida, fazendo-o sempre com um sentido de inovação que deixou marca. Era um apaixonado pelo desporto de uma forma geral, embora o boxe tenha sido o seu primeiro grande amor. Talvez porque na sua juventude viveu alguns anos em França, onde a modalidade tinha força e prestígio. Regressado a Portugal nos anos 10, não só funda o Boxing Clube de Portugal como lança e orienta as primeiras estrelas da modalidade, casos de Tavares Crespo e Santa Camarão. Como empreendedor multifacetado que era, Oliveira Valença tinha de igual modo uma paixão pela escrita, e pelos jornais em particular, sendo que nos anos 20 criou o Sporting, o primeiro jornal desportivo bissemanário portuense. Este jornal serviria – sempre pela mão do seu fundador – de embrião para a fundação de outros organismos/clubes de diversas modalidades, cados da Federação Portuguesa de Boxe, da Federação Portuguesa de Remo, da Liga Portuguesa de Clubes de Natação, do Moto Club de Portugal, da Liga Portuguesa de Atletismo, entre outros. Oliveira Valença organizaria diversas competições desportivas no país ligadas a estas e a outras modalidades. Claro que o futebol tinha também um espaço reservado no seu coração. O futebol e muito em particular o seu Boavista Futebol Clube, ao qual esteve igualmente ligado enquanto presidente. E foi nesta condição que no regresso à Invicta após uma das suas idas a França trouxe a ideia de implementar as camisolas axadrezadas no clube do Bessa. As famosas camisolas axadrezadas que tornaram o Boavista popular em todos os cantos do país e noutros cantos do planeta. 

O peculiar equipamento e símbolo 
do Boavista antes do xadrez

Até aí, o emblema portuense apresentava uma indumentária um pouco fora do comum para aqueles dias, isto é, usava uma camisola às riscas verticais em azul, vermelho e branco! Mas não só o traje foi completamente reformado por influência de Oliveira Valença. O próprio emblema do clube foi alterado para o qual conhecemos hoje em dia: um retângulo formado por 13 quadrados pretos e 12 quadrados brancos exibidos em forma de xadrez. Oliveira Valença não só apenas alterou para sempre a estética do Boavista. Ele conduziu de igual modo o clube numa luta acérrima que procurou colocar um ponto final no profissionalismo encapotado que vigorava no futebol português nos anos 20. Nessa altura já havia jogadores profissionais em Portugal, pese embora fossem remunerados secretamente e/ou escondidos em empregos de fachada, pois na verdade passavam o tempo todo a treinar e a jogar. Já na época os clubes mais endinheirados pagavam a muitos jogadores prémios de jogo de forma totalmente clandestina, e como tal longe dos olhares da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e das associações de futebol distrital, organismos que proibiam o profissionalismo. Mas Oliveira Valença foi um dos rostos principais dessa luta para acabar com o amadorismo de fachada que existia em Portugal, ele e o seu Boavista. E esse murro na mesa aconteceu oficialmente em 1933, precisamente o ano em que o clube do Bessa estreou a sua hoje mítica camisola axadrezada. O fim do profissionalismo encapotado vinha, aliás, sendo discutido aberta e frontalmente por algumas personalidades do panorama desportivo luso, casos de Cândido de Oliveira e do próprio Oliveira Valença. 

A transição de símbolos do clube
O grito do Ipiranga terá sido dado na sequência do polémico “caso Nova”, o qual envolveu o Boavista e o Futebol Clube do Porto. Reza a história que um dirigente boavisteiro terá oferecido do seu bolso 70 escudos por semana ao futebolista João Nova para que este vestisse de xadrez, mas da Constituição chegava uma oferta maior: 150 escudos por semana. Nova aceita a proposta dos portistas e do Bessa surge a denúncia à Federação que valeu a suspensão do futebolista por um ano. No entanto, este caso levantou outras suspeitas quer de dirigentes federativos, quer de dirigentes das associações de futebol distrital. A Associação de Futebol do Porto terá descoberto oito jogadores “profissionais” no Boavista, multando posteriormente o clube em 12.000 escuros e suspendendo-o de três jornadas do seu campeonato regional. Estes episódios fizeram com que Oliveira Valença e o Boavista enquanto instituição desportiva lutassem com mais vigor pela legalização do profissionalismo no futebol. Até que a dia 29 de janeiro de 1933 se fez história em Portugal: o Boavista assumia-se abertamente como o primeiro clube profissional em Portugal. 

Oliveira Valença 
E fê-lo num encontro diante do Benfica, no Bessa. Foi um dia de uma estreia tripla, isto é, pela primeira vez o Boavista envergou as célebres camisolas axadrezadas, fez ainda a estreia do seu nome emblema, e atuou pela primeira vez e assumidamente com jogadores pagos. A ousadia boavisteira por este último facto acabaria por se pagar caro, já que na sequência deste jogo a FPF decidiu suspender o clube das suas provas pelo período de um ano. Porém, este seria o primeiro passo para que fossem abertas as portas do profissionalismo em Portugal. É justo pois atribuir ao Boavista o título de “pioneiro do futebol profissional em Portugal”. Quanto ao célebre jogo ante o Benfica o score saldou-se num 4-0 a favor dos portuenses, graças a um hattrick de Ferraz e a um golo de Vasco Nunes. O primeiro onze de profissionais de cara destapada em Portugal vestiu pois de xadrez e foi o seguinte: Soares do Reis, Luzia, Óscar, Carlos Pereira, Guimarães, Serafim, Klamar, Vasco Nunes, Costuras, Ferraz e Lima.

quinta-feira, setembro 03, 2026

Histórias do Planeta da Bola (36)... Irmãos de sangue, destinos distintos no caminho da glória

Ser filho da mesma mãe e do mesmo pai não significa que dois (ou mais) irmãos possam ter as mesmas apetências para desempenhar uma qualquer atividade com arte e engenho. Isso acontece também no futebol, onde o talento com a bola não se repercutiu entre irmãos biológicos. Isto abre-nos a porta para recordar quatro lendas do futebol planetário cujos irmãos de sangue não conseguiram atingir o estrelato.

Zoca e Pelé no Santos
O primeiro exemplo diz-nos que numa monarquia o acesso ao trono não está predestinado a todos os irmãos de sangue. Que o diga o Rei Pelé, cujo irmão não lhe seguiu as pisadas no glorioso Santos da década de 60. Jair Arantes do Nascimento era dois anos mais novo que o seu irmão Edson – o nome de batismo do Rei – e quando se tentou afirmar no clube da Vila Belmiro já Pelé lá reinava. Tal como o seu irmão mais velho, Zoca, como era conhecido Jair, cresceu na rua a correr de pé descalço atrás de uma bola de futebol feita de trapos. Edson e Jair partilhavam a mesma paixão pelo jogo, muito influenciados pelo pai de ambos, Dondinho, também ele jogador de futebol. Vendo o diamante bruto que Pelé já era, o Santos decide nos inícios da década de 60 chamar Zoca para integrar as suas equipas de formação. As dificuldades de Zoca - que atuava como avançado - em se impor no futebol começaram assim que chegou à equipa principal do clube, que tinha uma poderosa linha ofensiva constituída por Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Destronar algum destes craques era uma missão quase impossível para Zoca, que mesmo assim entre 1961 e 1962 realizou 15 jogos com o conjunto principal santista, tendo apontado quatro golos. A pressão de ser irmão do Rei foi grande para Zoca, e exemplo disso terá acontecido em abril de 61 num jogo diante do América do Rio de Janeiro a contar para o Torneio Rio-São Paulo. Numa altura em que o Santos já goleava o clube carioca, o técnico santista, Lula, decidiu dar uma oportunidade a Zoca, que então entrou para o lugar de Coutinho. De pronto, houve um burburinho nas bancadas da Vila Belmiro, que se entusiasmaram com a presença do irmão do seu Rei. Quase no términus da partida, e numa altura em que o Santos já vencia por 6-1, o árbitro assinala uma grande penalidade a favor da equipa da casa. Chamado à conversão, Zoca treme e desperdiça o castigo máximo. O aspirante não estava à altura do seu legado de sangue. A sua presença na equipa principal do Santos foi sendo cada vez mais intermitente, até que com apenas 20 anos de idade tomou a decisão de abandonar o futebol para se tornar no fiel escudeiro do seu irmão. Por outras palavras, passou a trabalhar nas empresas associadas à marca Pelé como “braço direito” do irmão nos negócios a ele associados. Zoca viria a falecer cerca de dois anos antes que o seu irmão, mais concretamente em 2020, vitimado por um cancro na próstata.

Franz e Walter num amigável nos anos 70
entre o Bayern e o TSV 1860
Outro exemplo de irmãos que tiveram sortes distintas no futebol vem de Munique, mais precisamente no bairro de Giesing, onde na década de 50 os irmãos Walter e Franz Beckenbauer cresceram juntos com a paixão comum pelo futebol que ali praticavam na rua. Quatro anos mais novo que o seu irmão, Franz começou por jogar como guarda-redes nos animados duelos que eram disputados entre a miudagem do bairro, mas rapidamente se percebeu que o seu talento ia muito para lá das balizas. Foi Walter que abriu as portas do Bayern para o seu irmão mais novo, clube que representou nas camadas jovens. Diz-se que Walter era um médio ofensivo com algum talento e rapidez, última característica esta comum ao seu irmão mais novo. Por seu lado, Franz atuava no vizinho de Munique, o TSV 1860, o clube onde jogava a maioria dos amigos dos dois irmãos Beckenbauer. E com a chegada do irmão mais novo ao colosso da Baviera, Walter faz o caminho inverso e saí do Bayern para ingressar no TSV 1860. E enquanto Franz disparou rumo ao estrelato mundial, quer ao serviço do Bayern, quer da seleção alemã, o irmão mais velho acabou por se afastar do futebol e enveredar por uma carreira ligado à venda de impressoras.

Johan (o terceiro na fila de baixo) e o seu 
irmão Henny (segundo na fila de cima) atuaram
juntos na formação do Ajax
Se atravessarmos a fronteira entre a Alemanha e os Países Baixos constatamos que em Amesterdão se vivenciou uma história muito parecida com a dos irmãos Beckenbauer. Neste caso, a história dos irmãos Cruyff, Hermanus e Johan. O primeiro era mais velho dois anos e meio, e tal como o seu irmão jogou nas categorias base do Ajax. Diz-se que era um lateral esquerdo raçudo e com algum talento. Henny – como ficou conhecido no mundo da bola o irmão do Cruyff mais mediático – e Johan fizeram juntos o curto caminho que separava a sua casa, na zona de Betondorp, rumo ao estádio do Ajax e juntos chegaram a jogar pela equipa da academia na época de 62/63. Conta-se que sempre que o franzino Johan, então com 15 anos, sofria uma entrada mais dura de algum adversário, Henny corria em socorro do irmão para tirar satisfações com o infrator. Após sair da formação do Ajax, Henny ainda atuou por duas temporadas ao serviço do modesto Blauw Wit, competindo nos escalões amadores. Por pouco tempo, já que após ter decidido pendurar as botas, ainda jovem, tomou conta de uma loja de artigos desportivos em Amesterdão, a qual batizou de Smit-Cruyff. Apesar de não ter seguido o caminho do irmão mais novo, Henny nunca deixou de amar o futebol, tendo inclusive feito parte da equipa de veteranos do Ajax, clube do qual sempre foi um fervoroso adepto, independentemente do seu irmão ter sido a maior lenda do clube de Amesterdão. A ligação de Henny a estrelas do futebol neerlandês não se esgotou ao seu irmão mais novo, já que a sua filha, Estelle Cruyff, foi casada com outra super-estrela do futebol laranja dos anos 80 e 90, Ruud Gullit. Henny viria a falecer em 2023, numa altura em que há já vários anos sofria da doença de Alzheimer.

Hugo, Lalo e Diego num jogo especial que juntou 
os três irmãos Maradona  
Voltando à América do Sul para conhecer um outro caso de irmãos que seguiram caminhos completamente distintos no Planeta da Bola. Estamos em Villa Fiorito, um bairro pobre nos subúrbios de Buenos Aires, onde numa casa modesta vivia o casal Diego Maradona e Dalma Salvadora Franco. Depois do nascimento de Ana Maria e Rita chegou o terceiro filho do casal, o primeiro filho varão, a quem deram o nome do pai, Diego. Depois deste vieram Raúl (Lalo), Hugo (El Turco), Maria Rosa e Cláudia, que completaram assim o Clã Maradona. Como tantos meninos pobres na Argentina os três rapazes passaram a infância na rua, atrás de uma bola. Porém, só um deles conseguiu chegar ao Olimpo: Diego Armando Maradona. Lalo e El Turco também enveredaram pela carreira de futebolistas, mas viveram sempre na sombra do irmão mais famoso. Por outras palavras, o sobrenome Maradona foi-lhes abrindo sempre portas “aqui e acolá” mais do que o talento que apresentavam como "cartão de visita". Hugo, vulgo El Turco, por exemplo, que era nove anos mais novo que Diego chegou a jogar nas seleções jovens da Argentina – jogou, inclusive, o Mundial de sub-20 de 1985 como seu país–, embora fosse notório que estava muito longe de ter o talento do seu irmão mais velho. Começou no Argentino Juniors, o mesmo clube que lançou Diego. Em 1987 o mais velho dos irmãos Maradona usa da sua influência junto dos dirigentes do Napoli para trazer Hugo para o clube do sul de Itália. Pedido aceite, mas… Hugo não era Diego e o Napoli decido empresta-lo ao Ascoli. Hugo não encantou, longe disso, e a partir dali tornou-se num verdadeiro globetrotter à boleia do futebol. Passou por Espanha, Venezuela, Áustria, Japão, Canadá, Uruguai e Paraguai, sempre de forma muito discreta. Hugo morreu em 2021 na cidade onde o seu irmão mais velho era D10S: Nápoles. Por sua vez, Lalo Maradona teve um percurso muito semelhante ao de Hugo. Fez, porém, uma carreira um pouco mais pomposa que a de Hugo, tendo-se estreado no clube pelo qual era apaixonado – tal como os seus dois irmãos –, o Boca Juniors em meados dos anos 80. Lalo era um médio de vocação ofensiva, que mesmo não tendo deslumbrado na Bombonera deu o salto para a Europa nos finais dessa década de 80. Foi para o Granada, de Espanha, para onde foi a troco de 25 milhões de pesetas. As coisas até nem começaram mal para Lalo, que nos primeiros tempos entusiasmou os adeptos locais com o seu futebol com rasgos maradonianos. No entanto, com a ausência de resultados positivos, a estrela de Lalo em Granada começou a pouco e pouco a apagar-se ao final de duas épocas em que ali esteve. Ainda assim, há um episódio muito especial na vida dos três irmãos Maradona vivenciada aquando da estadia de Lalo em Granada. Ele, juntamente com Diego e Hugo envergaram a camisola do clube andaluz num encontro particular ante os suecos do Malmo, em 1987. Os espanhóis venceram por 3-2, com um golo de Lalo após assistência de… Diego. Após a descida do Granada à 2.ª Divisão espanhola, Lalo deixou o clube e rumou ao Japão para defender as cores do Avispa Fukuoka. Dali imitou Hugo e tornou-se num globetrotter ao jogar em vários clubes de países distintos: o Defensa y Justicia (Uruguai), o Toronto Italia (Canadá), Deportivo Municipal (do Perú), o Deportivo Laferre e o Deportivo Italia (ambos da Venezuela). Aquele que para Diego era o melhor dos três irmãos Maradona (!) é hoje em dia treinador de equipas de formação na Argentina e o único dos três ainda vivo.    

sexta-feira, agosto 28, 2026

Flashes Biográficos (19)... Dulce Rosalina

DULCE ROSALINA (Brasil): Não é só dentro das quatro linhas que o futebol tem os seus encantos. Fora delas, o mesmo será dizer nas bancadas, ele ganha alma e paixão genuína através dos adeptos que transformam os estádios em verdadeiros palcos de emoção. A envolvência das bancadas dita o ritmo do jogo e cria uma atmosfera única. Vem isto a propósito da nossa estrela de hoje, que não só fez história ao imprimir um novo estilo de apoio nas bancadas, como e acima de tudo derrubou a barreira do preconceito em relação à presença e liderança feminina num espaço onde predominava – e ainda predomina maioritariamente – o sexo masculino. A nossa revolucionária é Dulce Rosalina, a carioca que há 70 ANOS ATRÁS se tornou na primeira mulher a líder uma claque – ou torcida – no Brasil… e no resto do Mundo. Nascida no Rio de Janeiro, em 1935, Dulce era filha de um imigrante português fanático pelo Vasco da Gama. Estabelecido no Bairro da Saúde, zona portuária que contava com uma massiva comunidade portuguesa com fortes ligações ao emblema da Cruz Maltina, o pai de Dulce foi a maior influência para que desde muito cedo a menina também ela se tornasse numa fervorosa adepta dos vascaínos. Mas não foi só a paixão pelo Vasco que este estivador de profissão transmitiu à sua filha. A defesa dos direitos humanos foi um dos ensinamentos que este homem sempre procurou transmitir à sua descendente, sobretudo no que concerne à abolição do preconceito racial. Ora, sendo o Vasco da Gama um dos clubes pioneiros no que diz respeito à integração de jogadores negros e operários nas suas equipas, deu-se aqui o casamento perfeito entre Dulce e o Gigante da Colina. Foi neste ambiente que Dulce Rosalina cresceu, até que aos 22 anos o seu nome entra na história do desporto. Estávamos em 1956, ano em que esta carioca assume a presidência da Torcida Organizada do Vasco, isto é, a maior claque da época do emblema de São Januário. Estava derrubada desta forma a barreira do preconceito em relação à mulher não só como adepta do futebol, como em relação à mulher no papel de líder de algo relacionado com esta modalidade, neste caso de uma claque organizada. Dulce Rosalina revolucionaria de imediato também o modo de apoio a um clube, ao trazer para os jogos confetis – ou papel picado – e tambores que até então só se viam e utilizavam em escolas de samba. Dulce rapidamente se tornou numa referência dentro do próprio clube, tendo o privilégio de conviver de perto e com frequência com alguns dos ídolos de então do Vasco, casos de Bellini ou Vavá. A sua popularidade seria reconhecida a nível nacional em 1960, quando a Revista do Esporte a distingue com o prémio de Melhor Torcedor do Brasil. Ela comandou a principal torcida do Vasco da Gama em vários estádios do Brasil, já que fazia questão de acompanhar o clube para onde quer que fosse. Esta acérrima paixão também lhe causou alguns momentos de sofrimento, como aquele que aconteceu em 1968, quando numa deslocação a São Paulo o autocarro em que a claque seguia teve um acidente, causando alguns ferimentos àquela que era já conhecida como a Primeira Dama do Vasco da Gama. Em 1977 ela desvincula-se da Torcida Organizada do Vasco, alegando divergências políticas com os dirigentes da época do clube. Porém, este divórcio esteve longe de significar o fim da sua relação com o clube o seu coração, já que logo depois fundou uma nova claque, a Renovascão. Foi casada com o jogador de futebol Norival Ponce de León e reza a história que sempre que o seu esposo jogava contra o Vasco, a Dona Dulce avisava-o de que ele tinha duas opções: perder o jogo ou não voltar para casa. Com o avançar da idade e o aparecimento dos problemas de saúde, Dulce Rosalina foi-se afastando dos estádios de futebol. Viria a falecer em 2004. Em jeito de homenagem, a Prefeitura – Câmara Municipal – do Rio de Janeiro atribuiu o seu nome a uma rua da cidade próxima ao Estádio de São Januário. 

terça-feira, agosto 25, 2026

Copa América (10)... Chile 1926


A seleção uruguaia que em 1926 recuperou 
o título de campeão das américas

Em 1926 o então denominado Campeonato Sul-Americano de Futebol dava as boas vindas ao seu sexto integrante da história, a Bolívia. Foi no Chile, mais precisamente na capital Santiago, que La Verde – que na altura até vestia de branco – deu há um século atrás a esta parte o pontapé de saída da sua história no Planeta da Bola.  Facto ocorrido a 17 de outubro de 1926, quando no Campos de Sports de Ñuñoa, a Bolívia entrou em campo pela primeira vez, na abertura da 10.ª edição da maior competição de seleções do continente americano. Mas puxemos a fita atrás, mais concretamente até ao dia 18 de agosto desse ano, altura em que a Federação Boliviana de Futebol – que havia sido fundada apenas um ano antes – decide aceitar o convite da sua congénere chilena para integrar o lote de seleções do 10.º Campeonato Sul-Americano. Estávamos a dois meses do início da competição, e os dirigentes bolivianos nem sequer tinham ainda uma seleção nacional montada, mas mesmo assim arriscaram participar com o argumento da visão de integrar o país no Mundo do futebol. 

Job De La Cerda

Foi de pronto nomeada uma comissão técnica, a qual foi liderada por Job de la Cerda, um dos pioneiros do futebol boliviano que começou a sua carreira de futebolista e mais tarde de dirigente na Argentina, para onde se havia mudado com apenas 10 anos de idade. Assim que chegou ao comando da seleção boliviana, Cerda realizou um torneio nacional com equipas das várias regiões do país no sentido de escolher os melhores que iria levar ao Chile. No rescaldo deste torneio de captação, digamos, foram selecionados 17 jogadores originários dos estados/províncias de La Paz, Oruro, Sucre, Potosí, Cochabamba e Uyuni. Escolhidos os jogadores, a seleção reuniu-se a 13 de setembro em Cochabamba, cidade que tinha um clima mais aproximado do que se verificava em Santiago do Chile, até que a 1 de outubro a delegação da Bolívia inicia a viagem de comboio até Antofagasta, onde iria pernoitar antes de apanhar o barco para Valparaíso e dali novamente de comboio até Santiago. Foram três esgotantes dias de viagem para a estreante seleção, que assim que chegou à capital chilena recebeu inúmeras manifestações de carinho, quer por parte das autoridades do Chile, quer da própria imprensa local. Sem tempo para treinar ou para se ambientar ao clima da capital chilena, os bolivianos entraram em campo diante da seleção anfitriã no dia 12 de outubro de 1926, uma data histórica, já que este foi o PRIMEIRO JOGO DE SEMPRE do combinado nacional da Bolívia. No Campos de Sports de Ñuñoa – onde anos mais tarde seria edificado o atual Estádio Nacional de Santiago – La Verde seria goleada por 7-1, um resultado que mostrava a clara inexperiência do futebol boliviano nestas andanças internacionais. Ainda assim, a equipa mostrou coragem e algum atrevimento ofensivo, como atestam as crónicas de então, facto que mereceu aplausos do público chileno. Do lado da La Roja sul americana um homem sobressaiu não só neste encontro como no resto do campeonato: David Arellano. O avançado do recém-criado Colo Colo – clube fundado um ano antes – foi autor de quatro golos neste match de estreia, ele que haveria de ficar famoso mundialmente – sim, mundialmente – por alegadamente ter sido o inventor da chilena, a designação que na América do Sul se dá ao pontapé de bicicleta. E dizemos alegadamente porque ainda hoje há uma disputa entre brasileiros e chilenos sobre quem terá sido o criador deste famoso gesto técnico, se Arellano ou Leônidas da Silva. Os chilenos dizem que foi o primeiro, enquanto que os brasileiros juram a pés juntos que o foi o seu Diamante Negro. 
Chile - Bolívia
Bom, mas voltando ao Sul Americano de 26, dizer que além de Chile e Bolívia a competição foi integrada ainda pela Argentina, pelo Paraguai e pelo Uruguai, seleção esta que estava de volta à Copa após ausência na edição anterior. Os campeões em título, os argentinos entraram em campo neste torneio precisamente diante da estreante Bolívia, que para espanto de muitos dos 8000 espectadores presentes no Campos de Sports de Ñuñoa realizaram uma primeira parte equilibrada, apesar de sair para o intervalo com uma desvantagem de quatro golos. Porém, a força e maior experiência argentina veio ao de cima no segundo tempo, tendo o marcador sido fechado em 5-0 a favor dos campeões. 

Chile - Uruguai

A 17 de outubro entravam em campo os campeões do Mundo, o Uruguai. Sim, campeões mundiais, atendendo a que naquela altura os campeões olímpicos eram assim denominados. Dois anos antes, nas Olimpíadas de Paris, os uruguaios haviam subido ao trono do Planeta da Bola. A equipa base era muito semelhante à que alcançou o ouro na capital francesa, destacando-se nomes como Andrés Mazali, José Nasazzi, José Leandro Andrade, Alfredo Ghierra, Santos Urdinarán, Ángel Romano, Zoilo Saldombide e Hector Scarone. Este último havia feito a longa travessia no Atlântico apenas um mês antes da Copa de 26 única e exclusivamente para voltar a vestir a camisola da Celeste, ele que então havia tido uma curta incursão no Barcelona e desta forma estava de regresso à América do Sul. Tal como em Paris, o Uruguai voltou a mostrar um futebol de alto nível técnico, e logo na estreia venceu com mérito os anfitriões por 3-1, dando assim o primeiro passo na tentativa de resgatar o título das américas das mãos dos vizinhos e eternos rivais argentinos. Neste encontro com os chilenos um dos golos seria apontado por Hector Castro, ou El Manco Castro, como ficou imortalizado pelo facto de não ter metade do braço direito na sequência de um acidente com uma serra elétrica quando tinha 13 anos. 
Seleção chilena saúda o seu público no Campos de Sports de Ñuñoa

Numa competição que continuava a ser disputada em forma de campeonato, em que o campeão seria a seleção que somasse mais pontos, a Argentina amealha mais uma vitória no encontro diante do Paraguai na sequência de uma goleada de 8-0, com destaque para o poker de Gabino Sosa. Diga-se de passagem, que na altura este foi o campeonato sul-americano que mais golos iria produzir: 55. Uma média de 5,5 golos nos 10 encontros realizados. Um dos jogos com menos golos foi precisamente o escaldante duelo entre argentinos e uruguaios, o grande clássico de então na América do Sul. 15.000 espectadores lotaram o Campos de Sports de Ñuñoa e presenciaram um jogo onde o Uruguai provou o porquê de ser a melhor seleção do planeta, vencendo por 2-0. No jogo seguinte Hector Scarone fez história não só na competição da CONMEBOL como da própria seleção uruguaia. Ao apontar cinco dos seis golos sem resposta com que o Uruguai bateu a Bolívia, Scarone tornou-se no primeiro jogador da competição a alcançar esta marca. Esta manita confere ainda a Scarone até aos dias de hoje o recorde de único jogador com maior número de golos num só jogo pela seleção uruguaia. 

A entrada em campo da Argentina
Se por um lado este avolumado score abria as portas da reconquista do título ao Uruguai, por outro encerrava a participação da Bolívia na Copa, uma presença que apesar dos avultados resultados negativos mostrou uma equipa que representou o país de forma digna, ainda que a absoluta falta de experiência competitiva aliada às pobres condições de preparação para uma competição deste género, sobressaíssem e servissem de exemplo para futuros torneios. O título dos uruguaios ficaria matematicamente selado após o confronto entre chilenos e argentinos, o qual se saldou por um empate a uma bola. A precisar de vencer para manter esperanças na renovação do cetro, a Argentina baqueou perante os anfitriões e entregou o título aos rivais do Rio da Prata. Deste modo, a vitória do Uruguai diante do Paraguai por 6-1 – com um poker de El Manco Castro – serviu para não só cumprir calendário como de igual modo celebrar o 6.º título de campeão das américas por parte da seleção celeste. Este triunfo daria origem a um famoso hino popular dedicado à seleção do Uruguai, o qual seria composto por Omar Odriozola e eternizada por José Ministeri "Pepino", e que versa o seguinte:

 “Invicto na Europa, invicto na América,

 Eles são campeões do mundo, são campeões da América.

 O mesmo que em Colombes, nos campos de Nuñoa

 Eles desfilaram vitoriosamente com a bandeira nacional.

 A equipe argentina e a equipe chilena,

 O boliviano e o paraguaio

 Eles foram derrotados pela equipe uruguaia, que estava invicta.

 Uruguaios, campeões da América e do mundo,

 Atletas esforçados que acabaram de triunfar,

 As cornetas que tocaram o toque de alvorada em Colombes,

 Para além dos Andes, eles soaram novamente.

 O povo da França nos Jogos Olímpicos

 Ele aplaudiu com entusiasmo seu triunfo mundial.

 E hoje é a América do Sul que se alegra.

 Admire a glória da equipe do leste”.

Arellano 

O Chile acabou este torneio no segundo lugar ex-áqueo com os argentinos após esmagar o Paraguai por 5-1, com destaque para os três golos da estrela David Arellano, um futebolista nascido em Santiago, em 1902, e que revolucionou o futebol no país no começo do século XX. Fundador, capitão e primeiro ídolo do Colo Colo, ele teria um final trágico um ano após a realização deste Campeonato Sul-Americano. 
Em 1927 a Federação de Futebol do Chile escolheu o Colo Colo para representar o país numa série de jogos particulares na Península Ibérica. Diz a história, que foi Arellano que no âmbito dessa digressão apresentou à Europa a famosa chilena, ou pontapé de bicicleta. Seria este gesto técnico em parte o responsável pela morte de David Arellano a 3 de maio daquele ano de 1927. Em Valladolid, o Colo Colo defrontou nessa tarde o Real Unión e ao tentar executar uma das suas famosas chilenas, Arellano caiu ao mesmo tempo que o seu marcador direto nesse lance, o espanhol Hornia, o qual caiu em simultâneo com o joelho em cima do peito do avançado chileno. A pancada provocou um abscesso intra-abdominal, levando à morte de um jogador que estava no auge da sua carreira. Voltando à Copa América de 26 para dizer que Arellano foi o melhor marcador do torneio, com sete remates certeiros. Esta edição do torneio marcou ainda o início da longa travessia da ausência do Brasil da competição. Conflitos entre várias federações estaduais, sobretudo entre as do Rio de Janeiro e de São Paulo, deram origem a que os brasileiros não só não marcassem presença nesta edição como nos restantes torneios da década de 20 e boa parte da década de 30. O Brasil só voltaria a disputar um Campeonato Sul Americano em 1937.

Nomes e números:

12 de outubro de 1926

Chile – Bolívia: 7-1

(Arellano, 15’, 41’, 80’, 84’; Ramirez, 10’; Subiabre, 14’, Moreno, 47’)

(Aguilar, 62’)

 

16 de outubro de 1926

Argentina – Bolívia: 5-0

(Cherro, 9’ e 19’; Sosa, 31’; Delgado, 43’; De Miguel, 74’)

 

17 de outubro de 1926

Uruguai – Chile: 3-1

(Borjas, 22’; Castro, 32’; Scarone, 55’)

(Subiabre, 65’)

 

20 de outubro de 1926

Argentina – Paraguai: 8-0

(Sosa, 11’, 32’, 59’, 87’; Delgado, 40’, 42’; Cherro, 16’; De Miguel, 52’)

 

23 de outubro de 1926

Paraguai – Bolívia: 6-1

(Ceferino Ramirez, 68’, 72’, 88’; Julio Ramirez, 76’; López, 57’, 81’)

(Soto, 15’)

 

24 de outubro de 1926

Uruguai – Argentina: 2-0

(Borjas, 22’; Castro, 73’)

 

28 de outubro de 1926

Uruguai – Bolívia: 6-0

(Scarone, 9’, 12’, 28’, 39’, 81’; Romano, 67’)

 

31 de outubro de 1926

Chile – Argentina: 1-1

(Saavedra, 25’)

(Tarasconi, 42’)

 

1 de novembro de 1926

Uruguai – Paraguai: 6-1

(Castro, 16’, 23’, 32’, 72’; Saldombide, 47’, 82’)

(Fretes, 41’)

 

3 de novembro de 1926

Chile – Paraguai: 5-1

(Arellano, 21’, 64’, 71’; Ramirez, 42’, 82’)

(Peña, 40’)

 

Classificação:

1.º Uruguai: 8 pts.

2.º Argentina: 5 pts.

3.º Chile: 5 pts.

4.º Paraguai: 2 pts.

5.º Bolívia: 0 pts.