
Nenhum
outro clube na história do futebol português conseguiu alcançar a Europa após
tão curta estadia na 1.ª Divisão Nacional como o Estrela da Amadora na
transição da década de 80 para a de 90. O Estrelinha, como é carinhosamente
tratado o emblema tricolor pelas gentes da Amadora, chegou pela primeira vez à
elite do futebol luso na temporada de 88/89 e somente duas temporadas mais
tarde já inscrevia o seu nome na alta roda do futebol europeu, mais
precisamente na Taça das Taças. Tal ascensão meteórica se ficou a dever aquele
que é provavelmente o maior feito da história do Estrela: a conquista da Taça
de Portugal na época de 89/90. Facto que permitiu ao clube da Reboleira
participar na época seguinte nas provas europeias. O clube amadorense vivia
ainda num período de luto após o falecimento (em 1989) do homem que tornou o
pequeno Estrelinha no grande Estrela da década de 90, José Gomes. Assumiu o
comando dos tricolores a meio da década de 70, quando o clube estava nos
campeonatos distritais de Lisboa guiando-o na década seguinte até ao topo do
futebol português. Quem também já não estava no clube aquando da entrada na
Europa era João Alves, o homem (treinador) que na relva sagrada do Estádio Nacional havia a 3 de junho de 1990 arquitetado o triunfo sobre o Farense (na
finalíssima) na Prova Rainha do Desporto Rei lusitano. Para o substituir
chegou uma lenda que havia pendurado as chuteiras não muito tempo antes e que
dava os primeiros passos como treinador: Manuel Fernandes. E na sua equipa
técnica figurava um jovem preparador físico de 27 anos de idade que pouco mais
de uma década mais tarde haveria de se tornar num dos maiores (e titulados)
técnicos da história do futebol mundial, José Mourinho de seu nome. 19 de
setembro de 1990 é, pois, a primeira de muitas noites europeias que aquele que
seria eternizado como o Special One
iria vivenciar ao longo da sua brilhante carreira de treinador, embora naquela
longínqua noite de final de verão o tenha feito na condição de técnico-adjunto
de Manuel Fernandes.  |
| O jovem José Mourinho no banco do Estrela |
O batismo europeu do Estrelinha deu-se perante uma equipa
mais experiente nas andanças europeias, os helvéticos do Neuchâtel Xamax, um
conjunto que que aterrava em solo nacional repleto de vários jogadores
internacionais (pelos seus respetivos países) e que era orientado por um
treinador que dava os primeiros passos de uma carreira de sucesso no mundo da
bola, o inglês Roy Hodgson. Por tudo isto (e mais alguma coisa) os suíços eram
claramente favoritos a passar a primeira ronda da Taça das Taças. Mas na
prática não foi bem assim o que se passou… inicialmente no relvado do Estádio
José Gomes. Contando com um forte apoio nas bancas do Estrela esqueceu que era
novato nestas andanças e sem medo do categorizado Neuchâtel Xamax cedo partiu
em direção à baliza do titular da seleção helvética, Marco Pascolo, com Ricky a
dar o primeiro sinal de aviso. Faltou, porém, serenidade ao avançado nigeriano
não só naquele como noutros lances que se seguiram para fazer estragos nas
redes contrárias. De facto, e como deu conta a crónica elaborada pelo Jornal de
Notícias (JN), os avançados do Estrela naquela noite, Ricky e Abel Campos,
pecaram pela inoperância ofensiva, uma «pecha
que se manifesta amiudamente nas equipas portuguesas», conforme recordava o
JN. Apesar desta falta de habilidade ofensiva, o conjunto luso continuou a
lutar para chegar ao golo, graças ao empenho dos setores intermédio e
defensivo. «Miranda no meio campo, Duílio
e Agatão atrás, tentavam interpretar o futebol mais conveniente para este tipo
de situações. Mas nem Abel nem Ricky logravam as situações de rutura conducentes
ao golo», escrevia o JN. Os suíços resistiram ao entusiasmo
inicial dos portugueses, e a partir dos 15 minutos da primeira parte começaram
a discutir o jogo pelo jogo. Passaram a fazer marcação aos homens do meio campo
do Estrela, anulando quase sempre a ação dos jogadores mais criativos do
conjunto da Reboleira. E quase sempre, porque à passagem do minuto 26 o
criativo Miranda resgatou uma bola no seu meio campo, rapidamente teve a visão
para a colocar no lado direito em Abel, que por sua vez corre até ao interior
da área com o esférico em seu poder. «Sobre
a linha de fundo, cruzou, com prontidão, para o seio da grande área, onde
apareceu, bem colocado, Ricky, que se limitou a empurrar a bola para o fundo da
baliza do Neuchâtel», assim descrevia o JN o lance do primeiro golo europeu
da história do Estrela da Amadora. Contudo, a experiência acabou por ditar leis
nos minutos que se seguiram, já que os suíços mais habituados a estas andanças
de sofrer e dar a volta por cima no contexto do futebol internacional,
continuaram a exibir o seu futebol bem esquematizado e a disputar o jogo com o
adversário, pese embora a iniciativa até ao intervalo tivesse pertencido sempre
aos portugueses. Mas ainda antes do descanso a bola esteve muito perto de
voltar a entrar numa das balizas, neste caso a de Vital, que aos 42 minutos não
conseguiu segurar um remate forte e raso de Perret, deixando escapar o esférico
para Chassot que na recarda e com tudo para marcar rematou de forma defeituosa
ao lado. Mas… seria um sério aviso para o que se viria a passar na segunda
metade. «Após o intervalo assistiu-se
aquilo que já era esperado, isto é, a equipa suíça surgiu com outra
agressividade e o Estrela passou a conhecer algumas dificuldades junto à baliza
à guarda de Vital», conforme analisou o JN. 
Até que numa dessas ocasiões de
perigo o tento do empate surgiu. Beat Sutter, que nas palavras do diário
portuense foi um “diabo à solta” na noite da Reboleira, é lançado no seu flanco
esquerdo por um companheiro seu. Correu meio campo em direção à baliza
estrelista e à saída de Vital rematou cruzado para restabelecer o empate quando
estavam decorridos 55 minutos. Até final, o marcador não mais se iria alterar,
e ao cair do pano, e pelo que haviam sido estes 90 minutos de futebol na
Reboleira, poucos vaticinaram um desfecho feliz ao Estrela neste seu batismo
europeu. «Bem se pode dizer que “os
estrelas” de Manuel Fernandes, devido ao remate cruzado de Sutter, podem ter
acabado por entregar o ouro ao bandido, já que este golo pode valer por dois e
garantir a passagem do Neuchâtel Xamax à eliminatória seguinte da Taça das Taças»,
assim concluía o JN, que mais à frente nesta crónica, e numa apreciação ao
desempenho do Estrela neste seu primeiro jogo internacional, escrevia que «o Estrela não teve uma estreia de estalo
nas competições europeias, mesmo assim os homens da Reboleira mostraram que têm
gente e talento para lutar até ao fim por um lugar no grande comboio europeu.
Importa, isso sim que Ricky, por exemplo, não seja tão perdulário, e que também
a linha defensiva tenha outra postura, e que, enfim, a sorte do jogo esteja do
lado da equipa orientada por Manuel Fernandes». E a estrelinha que faltou
neste primeiro jogo reacendeu-se na segunda mão, na Suíça, onde o Estrela da
Amadora ao voltar a empatar a uma bola levou a decisão para as grandes
penalidades, onde seria mais feliz, avançando assim para a 2.ª eliminatória da
prova, onde viria a ser eliminado pelos belgas do RFC Liège. Voltando
ainda à estreia do Estrela na alta roda
do futebol europeu, um dos treinadores-adjuntos de Manuel Fernandes, no caso, Augusto
Matine, falou à imprensa no final da partida, começando por dizer que este
resultado não era o que a sua equipa pretendia. «Na primeira parte jogámos bem, mas na segunda, o reforço do meio campo
dos adversários dificultou-nos a missão. (…) O Neuchâtel tinha a lição bem
estudada e produziu o futebol que mais lhe convinha. O Estrela não quebrou,
perdeu foi o meio campo devido os reforços que entraram para o Neuchâtel após o
intervalo. Consentimos o empate em casa. Os golos fora contam a dobrar, como se
sabe, mas penso que udo está ainda em aberto», foram estas algumas das
palavras de Augusto Matine após este encontro (arbitrado pelo belga Alphonse
Constantin) cuja ficha foi a seguinte:Estrela
da Amadora: Vital, Rui Neves, Duílio, Valério, Dimas, Agatão, Miranda (Pedro
Xavier, 66), Baroti (Paulo Jorge, 76), Paulo Bento, Abel Campos e Ricky.
Treinador: Manuel Fernandes.
Neuchâtel
Xamax: Marco Pascolo, Peter Lonn, Régis Rothenbuhler, André Egli, Walter
Fernandez, Philippe Perret, Martin Jeitziner, Christophe Bonvin, Didier Gigon (Francis
Froidevaux, 68), Frédéric Chassot e Beat Sutter. Treinador: Roy Hodgson.