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quarta-feira, setembro 06, 2023

Efemérides do Futebol (47)...

Passaram 110 anos da inauguração do Campo da Constituição assinalada com uma atribulada festa encarnada

A equipa do Benfica em 1913, com Cosme Damião (o jogador do meio na fila do meio)
como uma das principais referências do clube lisboeta

Cumpre-se neste ano de 2023 o 110.º aniversário daquele que foi quiçá o primeiro grande torneio de nível internacional realizado na cidade do Porto: o Torneio das 3 Cidades. A competição realizou-se entre 26 de janeiro e 2 de fevereiro de 1913 e teve como argumento a inauguração do Campo da Constituição, recinto erguido pelo FC Porto, um dos quatro clubes envolvidos na prova. Para além dos portistas o certame contou com outro clube da Cidade Invicta, no caso o Oporto Cricket Law Tennis Club, aos quais se juntariam o Benfica e o Real Vigo Sporting Club, este último oriundo da região da Galiza (Espanha). No novíssimo Campo da Constituição estavam assim reunidas quatro coletividades que iriam defender o bom nome de três cidades: Porto, Lisboa e Vigo.

Um breve aparte para dizer que o Campo da Constituição se assumiu como uma necessidade para o FC Porto após a morte do seu (re)fundador José Monteiro da Costa, em janeiro de 1911. Após a morte deste histórico dirigente azul-e-branco os proprietário dos terrenos onde estava então instalada a "casa" dos portistas, o Campo da Rainha, avisaram - em finais desse ano de 1911 - que o clube teria de abandonar o espaço por força da construção de uma fábrica. Foi então que o tenente Júlio Lencastre, que sucedeu a Monteiro da Costa na presidência do clube, põe pés a caminho em busca de um novo terreno para albergar uma nova casa. Até que em junho de 1912 encontra esse terreno. Ficava na Rua da Constituição. Acertadas as formalidades - como o valor de 350 escudos anuais pelo pagamento de renda - as obras começariam pouco tempo depois, em setembro desse ano e em janeiro de 1913 dá-se a inauguração com o referido Torneio das 3 Cidades, por força de uma ideia do à época presidente da direção azul-e-branca, ​​​​Joaquim Pereira da Silva​.

Mas voltemos ao torneio. Este quadrangular realizou-se num sistema de todos contra todos, vencendo a equipa que somasse mais pontos no final da competição. E o vencedor foi o Benfica, que contabilizou por triunfos todos os três encontros disputados. Cosme Damião era um dos nomes sonantes do emblema da capital, desempenhado as funções de jogador-treinador.

Apesar de não ter saído vencedor do "seu" torneio o FC Porto ficou com a consolação de ter visto um jogador seu apontar o primeiro golo naquele novo recinto desportivo. Tal feito pertenceu a Webber, um dos muitos ingleses que então faziam parte do plantel azul-e-branco, a par de, por exemplo, o guarda-redes Peter Janson, ou o médio Charles Allwood, dois atletas que, curiosamente haviam chegado aos dragões provenientes dos vizinhos do OportoCricket Law Tennis Club. Este emblema, sediado na zona do Campo Alegre, era integrado por cidadãos/atletas ingleses, sendo que por esta altura era um dos principais fornecedores de jogadores ao vizinho FC Porto. E curiosamente foram os ingleses do Oporto Cricket Law Tennis Club o adversário dos portistas no jogo inaugural do Torneio das 3 Cidades, partida esta que terminou com a vitória azul e branca por 1-0, com o tal golo de Webber.

Oporto CricketLaw Tennis Club que foi de longe a equipa mais frágil deste torneio, facto comprado pelas três derrotas em outros tantos encontros realizados e ainda por ter sofrido a derrota mais avolumada da contenda: 8-2 perante o Benfica. Porém, neste duelo os portuenses apresentaram-se em campo com apenas... 10 jogadores (!), pois não possuíam mais atletas!

No terceiro jogo do torneio o FC Porto venceu o então campeão da Galiza, o Real Vigo Sporting Club, por claros 4-0, o que fazia antever que a derradeira partida com o Benfica fosse decisiva quanto ao desfecho do torneio. Assim pensavam os portistas. Uma vitória bastaria para garantir o primeiro lugar, mas da capital haviam viajado onze jogadores forte e talentosos e nem o inspirado guaridão portista, Janson, impediu a vitória dos lisboetas por 3-1.

Perante isto o derradeiro encontro do torneio entre Benfica e Real Vigo Sporting Club - que havia derrotado ante o Oporto Cricket Law Tennis Club, por score desconhecido - assumia contornos de final. E como jogo decisivo que era teve muitos nervos à flor da pele, com agressões entre atletas de ambos os conjuntos. E como se não bastasse o desaguisado entre atletas até o público resolveu participar nas cenas de pugilato, obrigando o árbitro a dar o encontro por concluído três minutos mais cedo do que o previsto. O Benfica vencia por 1-0 quando o juiz interrompeu o jogo, tendo por isso sido atribuído aos encarnados de Lisboa o título de vencedor do Torneio das 3 Cidades.

Equipa do FC Porto em 1913

terça-feira, novembro 09, 2021

Arquivos do Futebol Português (19)...

Seleção da AFL que em 1913 fez uma digressão ao Brasil

Atuar fora do país era no início dos anos 10 do século passado algo raro no panorama do futebol português. Contavam-se pelos dedos de uma só mão as viagens de grupos nacionais ao estrangeiro para medir forças com combinados locais, sendo que a vizinha Espanha havia sido o destino mais longínquo que grupos portugueses haviam feito. Ir ao Brasil era pois algo digno de (vincado) registo, não só pela longa viagem (durava 14 dias de barco) mas de igual modo pelo elevado custo da travessia do Atlântico. Talvez por isso a grande notícia do ano de 1913 tenha sido a deslocação de um grupo português a Terras de Vera Cruz com a finalidade de ali disputar um conjunto de jogos amigáveis com equipas locais. Esta história teve início em 1912, quando o Botafogo do Rio de Janeiro convidou a Associação de Futebol de Lisboa (AFL) para uma visita à Cidade Maravilhosa

O convite não foi de pronto aceite, desde logo pela dispendiosa e morosa viagem, além de que o profissionalismo era coisa que não existia na época e os atletas tinham as suas profissões. Mas com tempo tudo se resolveu. A AFL, na época a maior associação de futebol do país, lá aceitou o convite, reunindo em seguida alguns dos melhores futebolistas que atuavam nos seus campeonatos regionais. O elenco que compôs a seleção da AFL foi recrutado a três clubes, nomeadamente o Sport Lisboa e Benfica, o Sporting Clube de Portugal e o Clube Internacional de Football (CIF). O primeiro emblema contribuiu com oito jogadores, sendo eles, Álvaro Gaspar, Artur José Pereira, Augusto Paiva Simões, Carlos Homem de Figueiredo, Henrique Costa, José Domingos Fernandes, Luís Vieira e Cosme Damião. Já os sportinguistas cederam os atletas Amadeu Cruz, António Stromp, Francisco Stromp, João Bentes e Cândido Rosa Rodrigues, ao passo que o CIF se fez representar por três futebolistas, Eduardo Luís Pinto Basto, Boaventura Belo e Carlos Sobral.

A epopeia da viagem ao Brasil aconteceu em julho de 1913, tendo a comitiva partido da capital portuguesa a 26 de junho a bordo do Drina, barco pertencente à Mala Real Inglesa. Dois dias antes, o grupo foi brindado com um jantar de despedida no Hotel Francfort, em Lisboa. À partida, centenas de pessoas despediram-se da comitiva lusa, que integrava ainda figuras como Alberto Lima, presidente do Benfica e diretor do jornal O Sport Lisboa; Duarte Rodrigues, também jornalista, mas da revista Tiro e Sport, tendo sido este nome o mensageiro do convite do Botafogo à AFL, já que era o correspondente do emblema carioca em Portugal; e Mário Duarte, futebolista aveirense designado pelo Ministério do Interior para acompanhar a equipa lisboeta.

A comitiva lusa no barco durante a longa travessia no Atlântico

Depois da longa travessia no Atlântico o grupo atraca no Rio de Janeiro no dia 10 de julho. Nesta cidade os lusos disputam quatro desafios. Ante o Scratch, inglês (Rio Cricket e Paysandu) perdeu 1-3, contra o Scratch brasileiro perdeu 0-1, diante da Liga Metropolitana empatou 0-0, e contra o Botafogo ganhou 1-0.

Em São Paulo a seleção da AFL realizou três encontros, contra a Atlética das Palmeiras empatou 2-2, contra o Colégio Mackenzie perdeu 1-5 e contra o Clube Atlético Paulistano ganhou 1-0. Artur José Pereira (3), Carlos Sobral (2) e António Stromp foram os marcadores dos golos portugueses nesta digressão ao Brasil. Ao longo desta estadia em terras sul-americanas a comitiva portuguesa foi alvo de várias homenagens, tendo sido presenteada com troféus, que, segunda reza a história, ficariam retidos na Alfândega quando a delegação regressou a Portugal, pois estavam sujeitos ao pagamento de taxas incomportáveis à época para uma delegação desportiva. E só em 1915, com a ajuda de Francisco Luís da Silva Calejo e com o despacho do primeiro-ministro, Afonso Costa, é que os troféus foram libertados. Outra curiosidade nesta viagem alude ao facto de um dos atletas, no caso Luís Vieira, ter ficado no Brasil a representar o Botafogo, tornando-se assim no segundo jogador português a atuar naquele país, sucedendo, digamos assim, a José Bello, que representou o Fluminense entre 1907 e 1909.