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sexta-feira, abril 10, 2026

Efemérides do Futebol (58)... Nem a histórica deputada do PCP, Odete Santos, livrou Vítor Baptista de ir “treinar” a equipa da Colónia Penal de Sintra

Vítor Baptista no banco dos réus ao lado de Odete Santos

Os versos da canção do célebre Antóbio Variações de que “quando a cabeça não tem juízo (…) o corpo é que paga”, bem que podiam resumir a vida de um dos maiores talentos que o futebol português produziu em toda a sua história: Vítor Baptista. A sua genialidade dentro das quatro linhas não teve cenário idêntico fora delas, sendo que a sua triste história de vida é sobejamente conhecida por todos. Drogas, jogo, práticas criminosas, fizeram com que acabasse os seus dias mais profunda miséria. A nossa viagem ao passado de hoje recorda um dos muitos dias tristes que Vítor Batista viveu fora dos relvados, numa altura em que já estava afastado do futebol. Esta história torna-se de certa forma peculiar porque envolve uma figura política ligada à história do Partido Comunista Português. Bem, estávamos em 1989, mais concretamente a 29 de maio, e na sequência de mais um ato irrefletido (?) Vítor Baptista volta à barra do tribunal para ser julgado por dois furtos qualificados. Por outra palavras, um roubo a um interior de uma viatura e outro furto idêntico, o que se traduziu numa pena de prisão de quatro anos. Nesse mesmo julgamento, o Maior – como ele próprio se autointitulava devido às suas notáveis capacidades técnicas na arte de manusear a bola de futebol – foi ainda absolvido da acusação de um assalto a uma sapataria, por falta de provas. Esta não era já a primeira vez que Vítor Baptista se sentava no banco de um tribunal enquanto réu por prática de atos ilícitos, de tal forma que na leitura da sentença a juíza Isabel Tapadinhas mencionou precisamente que o antigo futebolista revelava «inclinação especial para as infrações relativas a furtos», acrescentando que o mesmo - e em jeito de reprimenda - havia «jogado em grandes clubes e na seleção nacional, pelo que seria recomendável outro procedimento», e que o tribunal, neste caso, não havia sido duro com ele. Neste julgamento, o Maior (dos relvados, claro está) teve como advogada a então deputada à Assembleia da República do PCP, Odete Santos, também ela já na época uma figura conhecida e muito ligada a Setúbal, terra do futebolista, onde exerceu também vários cargos a nível partidário e autárquico. A então deputada e figura histórica do PCP declarava à saída da sessão deste julgamento que admitia a possibilidade de adquirir um exame às faculdades mentais de Vítor Baptista a fim dele ser internado. De facto, o antigo jogador passava por inúmeros problemas ligados ao consumo de drogas e álcool, sendo esta atividade criminosa que então praticava não mais do que uma forma de sustentar o vício. «Vítor Baptista não pode estar preso. Tem que ser internado», defendida a deputada/advogada. Também o então presidente do último clube em que o Maior alinhou, avogava que o antigo craque não estava bem no plano mental e que era urgente o seu tratamento. «As prisões não curam ninguém. O Vítor Baptista deveria ser internado num centro de recuperação a fim de ser útil à sociedade», opinava à saída do tribunal, Camilo Alminha, presidente do Estrelas do Faralhão. Certo é que Vítor Baptista rumaria depois disto num carro celular para cumprir pena na Colónia Penal de Sintra (atualmente denominado de Estabelecimento Prisional de Sintra)… onde viria a ser o treinador da equipa de futebol daquela prisão.

quarta-feira, abril 16, 2025

Jogos Memoráveis (10)... Southampton - Sporting (Taça UEFA 1981/82)


A primeira vez é sempre inesquecível, e então se acontecer num lugar especial ainda mais inolvidável se torna. É desta forma que podemos olhar para a vitória do Sporting em casa do Southampton na temporada de 81/82 em jogo a contar para a 1.ª mão da 2.ª eliminatória da Taça UEFA, por concludentes 4-2. E o que tem esta vitória de tão especial assim, perguntar-se-ão os visitantes do Museu. Simples, tratou-se do primeiro triunfo de uma equipa portuguesa em solo britânico a contar para as competições europeias de clubes. Em solo britânico, isto é, na terra dos inventores do futebol moderno, os mestres ingleses, há que sublinhá-lo, visto que não era qualquer equipa que ousava chegar a Inglaterra e vencer um cavaleiro dali oriundo. Mas aquela era, e é, talvez uma das equipas mais lendárias da história do Sporting, a equipa que nessa temporada venceu tudo a nível nacional através de um futebol encantador edificado por artistas de enorme qualidade em todos os setores do terreno. 


Havia, porém, uma zona do retângulo de jogo onde essa mestria se fazia notar ainda mais: o ataque. Setor este onde pontificava um dos tridentes mais cintilantes da história do futebol luso, um trio de artistas notáveis que muito contribuiu para que aquela fosse uma das melhores temporadas de sempre do Sporting. Falamos, claro, de António Oliveira, Rui Jordão e Manuel Fernandes. Pedra fundamental para que esta fosse uma das melhores épocas de sempre do Sporting foi o então seu lendário presidente, João Rocha, que após uma temporada (80/81) de insucesso desportivo começou por tomar a decisão de contratar um treinador que fizesse regressar a Alvalade a estrela das vitórias e mais do que isso, dos títulos. Depois de falhar a contratação de José Maria Pedroto e de John Mortimore, que tantas glórias haviam dado aos grandes rivais internos dos leões nos anos anteriores, respetivamente, FC Porto e Benfica, eis que a escolha recai noutro inglês, Malcolm Allison. Big Mal, como era conhecido no seu país, logo implementou um futebol de ataque no Sporting, assente na tal mestria e criatividade letal do trio Oliveira, Jordão e Manuel Fernandes, o qual era auxiliado por um meio campo operário, onde pontificavam nomes como Nogueira, Carlos Xavier, Ademar, Francisco Barão, ou Mário Jorge; uma defesa de betão, formada por figuras como Eurico, Inácio, ou Virgílio; e um guarda-redes ultra seguro, de seu nome Ferenc Mészáros. O guardião internacional húngaro foi a par de Oliveira a contratação mais sonante para aquela temporada de glória dos leões
Um "onze" do Sporting numa época (81/82) maravilhosa

E bem se pode dizer que o encantamento por aquele Sporting não só da parte dos adeptos leoninos como de todos aqueles que gostam de bom futebol, começou precisamente na noite de 21 de outubro de 1981, data em que o Southampton recebia o conjunto português. Atenção, este não era um Southampton qualquer, mas sim uma equipa recheada de talentos, sendo o maior deles aquele que provavelmente era o melhor futebolista inglês de então, Kevin Keegan. Vencedor por duas ocasiões (1978 e 1979) da Bola de Ouro, o famoso futebolista era a principal referência do Southampton, onde ingressara em 80/81 após três temporadas de sucesso ao serviço dos alemães do Hamburgo. Confiantes de que a sua estrela-mor iria abater os leões portugueses, os adeptos ingleses lotaram por completo o velhinho The Dell, mítico estádio do Southampton, mas o que viram, na realidade, foi uma exibição categórica e de autor do Sporting concluída com um histórico triunfo por 4-2. O primeiro de sempre, como já vimos, de equipas lusas em Terras de Sua Majestade a contar para as provas uefeiras. 

O Southampton onde pontificava o lendário Kevin Keegan

Abra-se aqui um parêntese, para recordar que antes deste jogo, os conjuntos portugueses haviam disputado 19 partidas europeias em solo da Velha Albion, por intermédio do Benfica, do FC Porto, do Belenenses, do Braga, do Vitória de Setúbal, do Vitória de Guimarães e do próprio Sporting, sendo que nesses 19 encontros anteriores ali disputados por estas equipas foram contabilizadas… 19 derrotas!

Mas o Sporting de Big Mal mudou esse paradigma naquela noite no relvado do The Dell. «O triunfo do Sporting frente a uma equipa onde joga o famoso Kevin Keegan, pode ser considerado uma proeza para o futebol português», assim escrevia o Diário de Lisboa na sua edição do dia seguinte a um jogo onde o Southampton cedo foi surpreendido com um futebol veloz e de ataque do Sporting, não sendo de admirar que logo aos 2 minutos Jordão, de cabeça, desse o melhor seguimento a uma jogada magistral de Oliveira, a qual foi construída pelo flanco direito do seu ataque. Aliás, ninguém esperava ver Oliveira nesse jogo a… defesa direito. A decisão de Allison deixou a todos perplexos, desde logo os seus próprios conterrâneos, e o que se passou foi que Oli – assim tratava Bil Mal o genial Oliveira – foi um verdadeiro diabo à solta no The Dell.

O majestoso tridente ofensivo dos leões: Jordão, Manuel Fernandes e Oliveira
O golo acordou os ingleses, que passaram a pressionar em zona alta os portugueses, mas a defesa leonina «susteve o ímpeto contrário e o meio campo e o ataque do Sporting trocavam a bola e lançavam perigosos contra-ataques que perturbavam a defesa inglesa», analisava o Diário de Lisboa. E seria num desses contragolpes venenosos que a sorte bafejou os portugueses e o azar bateu à porta dos britânicos. Estavam decorridos 20 minutos quando, pelo lado esquerdo, Freire rompeu com a bola pela área inglesa e pela frente encontrou Nick Holmes, que ao tentar roubar o esférico ao português traiu o seu guarda-redes e ampliou a vantagem dos visitantes. Apesar de atordoado com a postura inesperada dos portugueses, o Southampton não desistiu de atacar a baliza de Mészáros, «mas a defesa do Sporting, vigiando bem Keegan e atuando num sistema de dobras e apoios constantes (a que se associavam o meio campo e também Freire e Manuel Fernandes) foi-se opondo com êxito». Por seu turno, o Sporting continuava a dar azo a rápidos contra-ataques, e foi, uma vez mais, num desses lances que a três minutos do intervalo as bancadas do The Dell voltaram a estremecer com um novo golo lusitano. Oliveira, sempre ele, pelo flanco direito, lançou Manuel Fernandes, que ao superar a oposição da defesa local atirou para o fundo das redes de Peter Wells pela terceira vez naquela noite. Quem diria que ao intervalo o Sporting estaria a bater o Southampton em sua casa por 3-0! 

Keegan foi sempre muito bem vigiado pelos leões no The Dell
Na segunda parte houve sofrimento por parte dos leões, já que o Southampton, ferido no orgulho, apostou as fichas todas para inverter o rumo dos acontecimentos. O primeiro sinal de aviso foi dado por Mick Channon, aos 49 minutos, com um potente remate aos ferros da baliza de Mészáros. Persentindo, quiçá, o que seriam aqueles segundos 45 minutos, Malcolm Allison refresca e reforça o seu setor defensivo, tirando um homem de meio campo (Nogueira) e colocando em seu lugar um defesa (Virgílio). E quando não eram os homens do setor recuado leonino a dar conta do recado, lá estava Ferenc Mészáros a mostrar os seus dotes de guardião de craveira mundial. «Aos 56 minutos, Mészáros fez a defesa da noite: um “chapéu” de Moran apanhou-o adiantado e, quando o estádio aplaudia o golo, o guardião húngaro, em golpe de rins, desviou a bola para canto», contava a crónica do jogo escrita no Diário de Lisboa. À passagem da hora de jogo, George Lawrence reforçou o ataque inglês, e avalanche ofensiva dos anfitriões deu os seus frutos quando aos 68 minutos o central Eurico derrubou dentro de área o astro Kevin Keegan, não restando ao árbitro sueco, Erik Fredriksson, dúvidas quanto à marcação de grande penalidade a favor do Southampton. O mesmo Keegan bateu Mészáros e relançou a partida. O golo conferiu uma vitamina extra aos ingleses, que três minutos volvidos voltaram a marcar, desta feita Mick Channon, após assistência de Keegan. O Sporting passou a sofrer ainda mais a partir deste momento, com os ingleses a sufocarem ofensivamente os portugueses até final na expectativa de uma reviravolta. Valeu aos sportinguistas terem cabeça fria e muita concentração na hora em que o Southampton atacava. Até que a dois minutos dos 90 o sofrimento leonino terminou. Freire numa rápida incursão cruzou para o interior da área onde Manuel Fernandes não teve quaisquer dificuldades em fazer o 4-2 final a favor do Sporting. «A vitória do Sporting é indiscutível, sobretudo pela atuação da sua defesa, muito coesa, vibrante, corajosa e agressiva na marcação impiedosa que moveu aos jogadores contrários. O meio campo ajudou sempre que pôde e lançou o ataque em rápidos contra-ataques que desbarataram por completo a defesa inglesa, impotente face ao talento de Freire, Jordão Oliveira e Manuel Fernandes», concluiu o Diário de Lisboa. No jogo da 2.ª mão houve empate a zero bolas, o que permitiu ao Sporting avançar na prova, vindo a cair na ronda seguinte aos pés do Neuchâtel Xamax. 

Aqui fica a constituição das duas equipas nessa célebre noite europeia para o futebol português:

Southampton - Peter Wells, Chris Nicholl, Ivan Golac, Mark Whitlock (George Lawrence, 62), David Armstrong, Nick Holmes, Steve Williams, Alan Ball, Steve Moran, Mick Channon, e Kevin Keegan. Treinador: Lawrie McMenemy.

Sporting: Ferenc Mészáros, Eurico, Inácio, Zezinho (Francisco Barão, 79), Carlos Xavier, António Oliveira, Nogueira (Virgílio, 55), Ademar, Rui Jordão, Manuel Fernandes, e Freire. Treinador: Malcolm Allison.

Vídeo: Resumo da célebre partida disputada no The Dell

quinta-feira, março 20, 2025

Jogos Memoráveis (9)... Belenenses - Barcelona (Taça UEFA 1987/88)

É gooooloooo do Belenenses!

No futebol existem vitórias que são encaradas como se títulos pomposos se tratassem. Mesmo até que esses triunfos na prática não tenham levado a caminho algum, ou por outras palavras, que não tenham evitado uma eliminação de uma qualquer competição. Mas sempre que o pequeno David vence o gigante Golias é sempre uma história inolvidável e digna de ser recordada vezes sem conta. E na temporada de 1987/88 o Belenenses vestiu a pele de David após vencer no seu estádio um Golias que dava pelo nome de Barcelona, em jogo da 2.ª mão da 1.ª eliminatória da então Taça UEFA. Foi um triunfo histórico, mas que na verdade não foi suficiente para que os azuis do Restelo afastassem os catalães da prova, isto é, na Cidade Condal registou-se um resultado favorável ao Barcelona por 2-0, e em Lisboa o emblema da Cruz de Cristo venceu por 1-0. E é precisamente sobre este célebre triunfo que hoje vamos recordar, o qual resultou de um dos jogos mais épicos realizados pelo grande Belenenses nas provas europeias. Numa nota introdutória a este momento, é de realçar que esta era a terceira vez que os dois clubes se encontram numa eliminatória das competições europeias, sendo que apesar de ultrapassar sempre o Belenenses, o Barça nunca ganhou um jogo disputado no Restelo, contabilizando dois empates e uma derrota. 


Pois bem, em 87/88 o Barcelona não viveu um grande momento desportivo, muito pelo contrário. A equipa ficou num modesto 6.º lugar na LigaEspanhola, caiu nos quartos-de-final da Taça UEFA, e nem a vitória na Copa del Rey apagou uma época tão cinzenta. E isso ficou logo patente no jogo da primeira mão da eliminatória ante do Belenenses, realizado em Camp Nou, em que só um milagre deu o triunfo (2-0) aos catalães no… período de compensação. A vitória sofrida fez-se sentir entre os adeptos blaugrana, que no final se despediram da sua equipa com lenços brancos, sendo que a vítima imediata desta indignação foi o treinador inglês Terry Venables, despedido pouco depois e substituído no cargo pelo espanhol Luis Aragonés. Não era por falta e argumentos que o Barça vivia, ou viveu, naquele ano uma fase negativa, muito pelo contrário. Nomes de craveira mundial como o inglês Gary Lineker, o alemão Bernd Schuster, ou os espanhóis Andoni Zubizarreta, Víctor Muñoz, Migueli, Julio Alberto, Urbano, ou Alexanko faziam daquele Barcelona um dos conjuntos mais bem apetrechados do futebol europeu. Porém, nem sempre fartura (de craques) é sinónimo de qualidade. E qualidade era também o que não faltava a um Belenenses que viveria nesta reta final dos anos 80 um dos melhores períodos da sua história. 

Um "onze" do Belém nessa temporada de 87/88

Orientado pelo brasileiro Marinho Peres – que enquanto futebolista havia passado, curiosamente, pelo Barcelona – os azuis do Restelo fizeram uma temporada soberba, que terminou com um 3.º lugar no campeonato nacional, o que lhes valeria uma nova qualificação para a Taça UEFA da época seguinte onde voltariam a escrever história, ao eliminar o então detentor do título uefeiro, o Bayer Leverkusen. Mas isso é uma outra história. Centremos atenções no jogo de 30 de setembro de 1987, no Estádio do Restelo, que veio a provar que eliminar o Barcelona depois de uma derrota por 2-0 em Camp Nou não era afinal uma missão assim tão impossível de atingir. Não aconteceu, é certo, mas esteve muito perto de ser alcançada como iremos perceber nas próximas linhas. A exibição dos lisboetas no encontro da 1.º mão galvanizou os adeptos belenenses, que acorreram em massa ao Restelo. Quiçá esperançados numa reviravolta épica, mais otimistas ficaram quando logo aos 4 minutos viram o cerebral Schuster perder no seu meio campo uma bola para o búlgaro Mladenov, que sem perder tempo sprintou pelo flanco esquerdo do seu ataque, entrou na área e cruzou para o miolo onde apareceu Mapuata solto de marcação para fazer um golo que fez explodir de alegria as bancadas do Restelo. «Cumpriu-se o primeiro desejo de Marinho Peres: que o Belenenses marcasse cedo», assim rezava o início da crónica do encontro escrita por Jorge Caiágua no jornal oficial do emblema da Cruz de Cristo. 

O lance do golo de Mapuata

O jornalista escrevia mais adiante que o clube português se bateu com empenho e dignidade, confirmando o valor da equipa. De facto, assistiu-se a um jogo quase de sentido único, o da baliza de Zubizarreta, muito por culpa dos pupilos de Marinho Peres, que entraram no relvado impondo um ritmo veloz ao jogo, antecipando-se às jogadas de ataque dos catalães quase sempre, e quando a bola era recuperada não perdiam tempo a lançá-la para os homens da frente. Na realidade, esta partida mostrou uma vez mais que além de o Belenenses estar numa excelente forma, o seu opositor continuava a jogar mal, e no Restelo viu-se um Barça que atuou sempre sobre brasas. Para se resguardar das investidas azuis, os catalães mastigaram sempre muito o jogo no seu meio campo ao longo da primeira parte. Chiquinho Conde e Mladenov, que juntamente com Mapuata formavam o tridente ofensivo do Belenenses nessa célebre noite, não aproveitaram as abertas que o Barcelona por vezes ia dando na sua zona defensiva. Ainda no primeiro tempo, o búlgaro e o moçambicano desperdiçaram flagrantes oportunidades para desfeitear o grande Zubi. Mas não era apenas o setor atacante dos portugueses a dar nas vistas, já que a defesa, comandada pelo capitão e líder do grupo, José António, esteve sublime quer na marcação, quer na antecipação de jogadas ofensivas dos catalães. José António e Sobrinho, a dupla de centrais do Belenenses, foi um verdadeiro muro nessa noite. O próprio José António aventurou-se algumas vezes no ataque da sua equipa, e num desses lances, já perto do fim, chegou um tudo ou nada atrasado a uma recarga após defesa incompleta de Zubizarreta a um cabeceamento de Chiquinho Conde


Não foram poucas as ocasiões em que na segunda metade vimos os jogadores do Barcelona a recorreram às faltas (algumas bem duras) para travar o ímpeto belenense. «Jogou tão bem o Belenenses, foi tão grande o esforço que desenvolveu frente à equipa do clube mais poderoso do Mundo, que Marinho Peres não hesitou em mandar entrar Luís Reina e Chico Faria, acabando o desafio com todos os avançados disponíveis, sempre com o objetivo de alcançar o segundo golo. E se esse risco que o técnico brasileiro correu numa demonstração cabal da sua grande visão estratégica, foi possível, não devemos esquecer desta vez, o acerto da defensiva azul, criticada noutras ocasiões, mas que na quarta-feira atuou com eficácia», assim analisava o jornalista Jorge Caiágua a exibição coletiva do seu clube. Apesar desta exibição categórica, culminada com uma inédita e mais do que merecida vitória sobre o todo poderoso Barcelona, o Belenenses ficava pelo caminho na Taça UEFA, um desfecho algo injusto para o futebol produzido pelos azuis nos dois jogos, sobretudo no do Restelo. «Foi pena. Vencemos mas deixamos a Taça UEFA com uma certa frustração. Caímos de pé», rematou assim a crónica o jornalista do órgão de comunicação oficial do Belenenses. 

Schuster e Lineker, duas das grandes 
estrelas do Barça de 87/88

Anos mais tarde, numa entrevista à RTP em que juntamente com Jaime recordou este jogo, o defesa Sobrinho confessou que antes deste jogo se abeirou da estrela inglesa do Barça, Gary Lineker, no sentido de com este trocar de camisola no final, ao que o inglês terá respondido: “depois vemos isso”. Porém, seria o próprio Lineker que após o apito final do suíço Kurt Rothlisberger foi ter com Sobrinho a pedir para trocarem de camisola, confessando ao jogador português que nunca ninguém lhe tinha feito uma marcação tão cerrada e ao mesmo tempo disciplinada como a que o defesa central belenenses lhe fez naquela noite.

Para a eternidade, aqui fica a ficha deste célebre capítulo da história do Belenenses nas provas da UEFA.

Belenenses: Jorge Martins, Teixeira, José António, Sobrinho, Artur Fonte (Luís Reina, 54), Paulo Monteiro (Chico Faria, 69), Jaime Mercês, Juanico, Mapuata, Mladenov, e Chiquinho Conde. Treinador: Marinho Peres.

Barcelona: Zubizarreta, Gerardo Miranda, Moratalla, Migueli, Julio Alberto, Urbano, Víctor Muñoz, Bernd Schuster, Roberto Fernández, Gary Lineker, e Lobo Carrasco. Treinador: Luis Aragónes.

Vídeo do histórico golo de Mapuata diante do Barcelona:



segunda-feira, julho 29, 2024

Figuras do apito (7)... Entre marido e mulher estava o árbitro!

Está já muito longe de merecer sinais de espanto o facto de vermos uma mulher a exercer o papel de autoridade máxima – vulgo, a figura de árbitro e/ou de assistente – num jogo de futebol na variante masculina. Quer a nível internacional, quer nacional, há que sublinhá-lo. Porém, há cerca de 40 anos atrás não era bem assim, e ver uma menina ou senhora de apito na boca ou de bandeirinha mão era facto para ficarmos pasmados! E a boca abria-se ainda mais de estupefação se no retângulo de jogo estivesse um casal de árbitros! Parece mentira? Mas não é, pois tal cenário aconteceu em Portugal no início da década de 80, quando nos pelados da Associação de Futebol de Viseu (AFV) havia um casal que passava os seus domingos de uma forma diferente da maior parte dos casais de então. Luís Lopes e Laurinda Lopes, protagonizaram (mais) um episódio histórico no ano de 1982, quando no encontro entre o Tabuaço e o Resende a contar para os campeonatos distritais da AFV entraram em campo não de mão de dada mas com a bandeirinha de árbitros assistentes, ou fiscais de linha como na época se dizia, na mão! E de quem foi a culpa desta improvável – para a época – dupla de bandeirinhas? Foi o árbitro principal, Arlindo Duarte, que à reportagem da Gazeta dos Desportos explicava que «esta equipa de auxiliares foi por mim escolhida, e creia que tenho tido problemas, pelo contrário, nos campos onde temos arbitrado tenho notado respeito e simpatia pela minha auxiliar. Saliento-lhe um: em determinado sítio um elemento afeto ao clube local em face da presença da minha colega teve um desabafo dizendo que já não podia insultar como era seu hábito pois estava uma senhora a juiz de linda (risos)». 1979 é o ano em que o casal Lopes – natural de Urgeiriça – iniciou o curso de arbitragem na AFV, e juntos realizaram o seu primeiro jogo algum tempo depois, um momento que causou um certo nervosismo a Laurinda Lopes. «Comecei por ter um certo receio por parte do público, porém tudo resultou em pleno, embora reconhecesse que os nervos me atraiçoassem em certas decisões, mas tudo acabou em bem», contava então a senhora juíza, que prometia querer continuar a acompanhar o marido nestas andanças da arbitragem. Outros tempos que hoje não passam de situações corriqueiras do nosso quotidiano. E ainda bem.

sexta-feira, outubro 20, 2023

Efemérides do Futebol (48)...

Um ângulo de Vidal Pinheiro ainda pelado

O último golo da 1.ª Divisão Nacional marcado num pelado

A presente época desportiva tem a particularidade de assinalar o 40.º aniversário da última vez que se jogou futebol num campo pelado – ou de terra batida – no escalão maior de Portugal. Este facto leva-nos mais longe ao recordar o último golo marcado num retângulo pelado no escalão maior do futebol nacional. Estávamos na temporada de 83/84 e o Campo Eng. Vidal Pinheiro, casa do popular Salgueiros, era a exceção à regra no panorama da 1.ª Divisão Nacional, isto é, era o único campo pelado dos 16 clubes que competiram nessa temporada naquele escalão. Cerca de dois anos antes a Federação Portuguesa de Futebol havia estipulado que na temporada de 84/85 todos os clubes que disputassem a 1.ª Divisão Nacional teriam de ter os seus campos relvados, caso coso contrário teriam de jogar em casa emprestada sempre que atuassem na condição de visitados. O anúncio era feito com duas épocas de antecedência, de modo a que os clubes com aspirações a pisar os palcos de primeira pudessem planear o arrelvamento dos seus campos. O Salgueiros foi pois o último clube da 1.ª Divisão a competir num pelado e fê-lo até à última, ou seja, até à derradeira jornada do Nacional de 83/84. Jornada decisiva para muitas equipas que lutavam pela permanência entre a elite do futebol luso, entre estas o próprio Salgueiros, que precisava de ganhar obrigatoriamente ao vizinho Boavista para garantir a manutenção. Octávio Machado havia iniciado a temporada ao comando dos encarnados do Norte, fazendo deste modo a sua estreia no papel de treinador principal, depois de uma época antes ter pendurado as chuteiras. O Palmelão, como é conhecido Octávio, não se aguenta até ao fim da linha, é substituído por António Jesus que dali a nada dá o lugar ao guarda-redes António Fidalgo. O antigo guardião de Benfica e Sporting é a opção de risco dos responsáveis salgueiristas para salvar a equipa da descida. De risco porque Fidalgo assumiu o cargo na condição de jogador-treinador, isto é, ele defendia pela primeira vez as redes do emblema de Vidal Pinheiro, onde só permaneceu uma época, e não possuía experiência enquanto treinador. Aliás, após esta curta e vitoriosa, como veremos adiante, experiência, Fidalgo ainda jogou durante mais duas temporadas, abraçando a profissão de treinador em exclusivo só a partir de 87/88. Desde fevereiro de 1984 no comando da equipa Fidalgo chega à derradeira jornada do Nacional da 1.ª Divisão, disputada a 13 de maio, a depender não só de si como de uma série de outras equipas para se salvar. Era preciso um milagre, mas estávamos a 13 de maio… e tudo era possível. 


O Salgueiros de 83/84

Como era seu apanágio sempre que o Salgueiros lá atuava o Campo Eng. Vidal Pinheiro estava à pinha. Repleto. O Boavista surgia em campo tranquilo, sem nada a ganhar ou a perder, já que o comboio da Europa tinha sido perdido poucas jornadas antes. Henrique Calisto era o treinador dos axadrezados que tinham em João Alves, o luvas pretas, a sua maior estrela. No banco boavisteiro estava ainda um tal de Zoran Filipovic, avançado da então Jugoslávia, e que anos mais tarde como treinador haveria de fazer furor curiosamente ali mesmo, em Vidal Pinheiro. Mas voltemos à decisiva e emotiva tarde de 13 de maio. Os adeptos salgueiristas estavam de olhos no pelado de Vidal Pinheiro e de ouvidos nas Antas, em Alvalade, em Guimarães e em Vila do Conde, locais onde jogavam adversários diretos do seu clube na fuga quer à despromoção direta quer à liguilha/play-off pela manutenção. Foi uma tarde de sofrimento mas que começou praticamente de forma eufórica com o tão desejado golo do Salgueiros. Penteado foi o seu autor. Estavam decorridos 16 minutos quando Nelito cruza para a área pelo flanco esquerdo do seu ataque onde aparece Penteado que de cabeça faz um chapéu ao jugoslavo Petar Borota. O Salgueiros aguentou até final estoicamente a magra vantagem, numa jogo que as crónicas rotularam de fraco e em diversos momentos confuso. O Salgueiros de Fidalgo deixou de lado a nota artística optando por vestir o fato macaco para jogar feio quando teve de o fazer em defesa da vitória que viria a alcançar. Após o apito final de Rosa Santos a festa tomou conta de Vidal Pinheiro, não só porque o Salgueiros tinha vencido mas por nas Antas o Estoril tinha perdido por 8-0, em Alvalade o Farense havia sido derrotado por 4-0, em Guimarães o Penafiel perdeu por 1-0, e em Vila do Conde o Águeda foi derrotado por 5-1. Conclusão, o Salgueiral tinha ganho em todos os campos e estava safo. Ia continuar na 1.ª Divisão Nacional.

 

Fidalgo, o jogador/treinador que salvou o Salgueiros
da descida é levado em ombros no final do jogo

Quanto a Penteado a história reserva-lhe assim um lugar de destaque, já que o seu golo foi o último a ser marcado num campo pelado num encontro da 1.ª Divisão. Manuel Penteado que havia precisamente chegado a Vidal Pinheiro em 83/84, vindo do FC Porto, em rota de colisão dom José Maria Pedroto, que lhe tinha prometido mais oportunidades no ataque portista e não cumpriu. Octávio em boa hora o convenceu a abandonar as Antas e a rumar a Vidal Pinheiro.   
Penteado, autor do último golo num jogo da
1.ª Divisão disputado num pelado

Para a história aqui fica a ficha do último jogo da 1.ª Divisão Nacional disputado num pelado: Campo Eng. Vidal Pinheiro, no Porto. Árbitro: Rosa Santos, de Beja, auxiliado por Francisco Lobo e Marcolino Baptista. Salgueiros: Pinto, Carlos Ribeiro, Soares I, Germano, Jorginho, Luís Pereira (Matias, 83), Silva, Carvalho, Joy, Penteado (Armando, 78) e Nelito. Treinador: António Fidalgo. Suplentes não utilizados: Soares II, João, e António Manuel. Boavista: Borota, Queiró, Adão (Figueiredo, 27), Frederico, Teixeira, Barbosa, Almeidinha, João Alves, Palhares, Coelho e Vitorino. Treinador: Henrique Calisto. Suplentes não utlizados: Matos, José Manuel, Bravo e Zoran Filipovic.

Vídeo do último golo marcado num campo pelado na 1.ª Divisão Nacional



segunda-feira, julho 25, 2022

Jogos Memoráveis (4)... Portimonense - Partizan (Taça UEFA de 1985/86)

Há quem diga que o Algarve é não só a estância balnear de Portugal, mas também da Europa. Com o seu clima quente, as suas praias paradisíacas e a farta animação noturna, esta região tem sido o destino de férias para cidadãos de vários países europeus ao longo de décadas. Deste modo, será uma minoria, por certo, a percentagem de europeus que não conhece esta região do sul do nosso país pelas características naturais que apresenta. Porém, em termos de futebol só na segunda metade dos anos 80 do século passado é que o Algarve se deu a conhecer à Europa. Apresentação que aconteceu na temporada de 1985/86, altura em que um dos filhos futebolísticos mais ilustres da região fez a sua estreia - e única até à data - na alta roda do futebol continental, isto é, nas competições europeias. Emblema esse que dá pelo nome de Portimonense Sport Clube, e que fruto do brilhante 5.º lugar conquistado na época anterior, no Campeonato Nacional da 1.ª Divisão, assegurou o passaporte para a Taça UEFA. Feito alcançado por um treinador algarvio, o que eleva ainda mais os níveis históricos do facto, um homem que é hoje em dia um dos técnicos mais titulados a nível internacional do nosso futebol. O seu nome? Manuel José. Foi ele o maestro de uma orquestra afinada e talentosa que na altura tinha nomes como o experiente defesa-central Simões - que tinha passado com sucesso pelo FC Porto -, o médio Vítor Oliveira - formado no Leixões e que no final desta temporada pendurou as chuteiras -, o promissor avançado Rui Águas, ou o também dianteiro belga Serge Cadorin - quiçá o nome mais sonante daquele Portimonense, pelos muitos golos que marcou durante a sua estadia no Algarve.

No entanto, não seria Manuel José a apresentar o emblema de Portimão à Velha Europa do futebol, uma tarefa que ficou nas mãos de Vítor Oliveira, que como já foi referido encerrou a sua carreira de atleta no Algarve e foi um dos obreiros que em campo garantiu a presença da Taça UEFA de 85/86. Vítor Oliveira que dava assim em Portimão início a uma brilhante carreira de treinador, tendo passado nos 34 anos seguintes por diversos clubes do nosso futebol, alcançando na maior parte deles subidas de divisão, de tal maneira que ainda hoje é conhecido como o "Rei das Subidas". Figura esta que desapareceu do nosso convívio muito recentemente, em 2020, e que deixou, naturalmente, saudades a todos aqueles que consigo trabalharam e conviveram.

Mas voltamos à temporada de 85/86, onde o Portimonense fez alguns reajustes ao seu plantel não só com o intuito de repetir a boa prestação interna da época transata, mas de igual modo para fazer boa figura na estreia internacional. Entre as novas caras encontravam-se o médio brasileiro Nivaldo, vindo do Benfica, e o avançado Pita, que haveria de ficar com o seu nome gravado na história do Portimonense no âmbito desta entrada na Europa do futebol.

O histórico "onze" do Portimonense que bateu o Partizan de Belgrado

O apadrinhamento europeu dos algarvios foi feito por um emblema muito experiente nestas andanças, por um gigante do futebol do leste europeu, o Partizan de Belgrado. Se a inexperiência já de si era um fator que à partida condicionava os homens de Portimão, o facto de terem pela frente um dos maiores clubes da então Jugoslávia tornava esta numa missão praticamente impossível, o que se viria a confirmar no final da eliminatória. Mas o nosso foco é no jogo da primeira mão, em Portimão, cujo estádio se engalanou para o batismo europeu do seu clube. E quando aludimos ao termo engalanou queremos dizer que não era só a atmosfera quente - não só pelo calor típico algarvio, mas sobretudo pela massa adepta presente - que envolveu esse histórico encontro realizado a 18 de setembro de 1985, mas também porque nesse dia, ou melhor, nessa noite, era inaugurada a iluminação elétrica do estádio, que tinha custado a módica quantia de 35.000 contos. Quiçá todos estes condimentos ajudaram o Portimonense a alcançar uma vitória histórica, por 1-0, um resultado que assustou o Partizan, segundo a crónica de A Bola. Pela pena de uma magistral dupla de jornalistas, os Serpa, Homero (o pai) e Vítor (o filho), escreveu-se que na noite morna de Portimão o clube local, sem traquejo internacional, fez a sua estreia europeia ante um experiente Partizan, uma equipa com largo prestígio na Europa, e que talvez tivesse sido esta a razão pela qual a turma algarvia entrou em campo com uma certa inibição. Facto que com o passar do tempo se eclipsou, e o Portimonense começou a mostrar o desejo de dar boa conta do recado. Os portugueses foram para Vítor Serpa uma equipa «combativa, determinada, mas que não teve dúvidas nunca quanto à diferença da qualidade técnica que a separava do adversário. De tal modo assim foi que o Portimonense apenas conseguia equilibrar as operações, ou até, eventualmente, sobrepor-se ao seu adversário, quando adregava imprimir maior velocidade ao jogo, tirando assim partido da rapidez de execução de alguns dos seus jogadores. E sabe-se por um certo saber de experiência feito, o quanto de uma forma geral desagrada às equipas de leste jogar de pressa», assim descrevia o jornalista um jogo que terminou com uma «vitória saborosa na jornada que assinala a estreia - facto que só por si merece ser devidamente assinalado», mas que era um resultado que não garantia um passo decisivo para passar a eliminatória. E como estava certo o jornalista da Travessa da Queimada.

Já o seu pai escrevia que foi num ambiente «misto de euforia e de dúvidas - até porque na sua opinião os algarvios ainda não haviam encontrado naquela época o entrosamento necessário - que a equipa de Vítor Oliveira entrou no relvado do seu estádio, pela primeira vez iluminado, para defrontar, em desafio oficial, uma equipa estrangeira: Partizan de Belgrado, uma turma habituadíssima às competições internacionais; portanto, com muito mais experiência do que o Portimonense que só agora inaugurou esta nova via num percurso que está a fazer, desde a Segunda Divisão, em constante progresso».

Lance do jogo do Algarve
E prosseguindo a sua análise ao jogo, Homero Serpa dizia que «devemos começar por dizer que Partizan começou, logo de início, por transmitir a ideia de que iria realizar um jogo calmo, sem grandes sobressaltos, no intuito de  preparar a decisão da eliminatória para a segunda mão, em Belgrado. O 0-0 seria um bom resultado, o 1-1, excelente, e, por aí adiante . Mas a derrota sofrida, embora por margem escassa, não será assim tão bom, pese o facto de o Portimonense não se encontrar, presentemente, na sua melhor forma. Longe disso, obrigando a que permaneça a dúvida quanto à sua capacidade de resistência para o segundo e decisivo "round". Mas, o futebol é, como uma caixinha de surpresas, e, até pode suceder que a simpática equipa algarvia prossiga em prova. No entanto, e pelo que se conhece do futebol jugoslavo, a tarefa não vai ser nada fácil, bastando, para tanto, recordar os exemplos de outras equipas de maiores pergaminhos no futebol europeu que "morreram" às mãos do Partizan, que continua uma das grandes formações europeias, com um futebol bem entremeado, onde a técnica e a velocidade combinam quase perfeitamente. Mas, aconteça o que acontecer, na segunda mão, o que mais importa agora é que o Portimonense venceu este seu primeiro teste ao nível de provas da UEFA, o que, só por si, chega para elevar a equipa algarvia a uma posição muito simpática no cotejo internacional». E assim foi.

Mais a fundo, Homero Serpa dizia que as equipas jogaram este desafio do Algarve um pouco no escuro, com algum receio uma da outra, tendo sido, no entanto, dos de Portimão os dois primeiros sinais de algum perigo, sendo que na visão do jornalista o primeiro lance é uma clara grande penalidade cometida por Nikodijevic sobre Freire, que o árbitro belga Alphonse Constantin ignorou. Acrescentaria que os primeiros dez minutos da partida foram de domínio algarvio, uma equipa que nas suas palavras «se esqueceu da categoria do adversário que tinha pela frente».

Nivaldo prepara-se para mais um ataque
à baliza do Partizan 
Encostado às cordas, o técnico do Partizan abdica de um defesa e dá ordem ao seu lateral direito para subir no terreno, uma mudança que atordoou os pupilos de Vítor Oliveira, que com mais um homem pela frente no meio campo contrário. Um «embaraço» que «naturalmente, acabaria por ser bem aproveitado pelos jugoslavos que começam, tecnicamente, a mandar na partida. As sua jogadas, no entanto, nunca foram demasiado perigosas. Via-se que detinham o comando, mas pouco apoquentavam o guarda-redes português, que tinha à sua frente dez companheiros humildes e uma defesa que, quando era preciso aliviava de qualquer maneira, mesmo de forma arcaica. (...) O Portimonense não fazia flores, e não se envergonhava de ser humilde. Soube, antes do mais, ser realista, actuando com a frieza necessária. O tempo ia correndo e, aquilo que a princípio mais se temia, continuava por não suceder. As balizas da turma portuguesa permaneciam invioláveis. A seu favor, os jugoslavos apenas podiam contabilizar dois, lances que, muito no condicional, poderiam ter ocasionado dois golos». Isto na primeira parte. O reatamento não poderia ter começado melhor para os portugueses, já que aos 47 minutos surge o ponto alto deste encontro, o golo! O tento da autoria do cabo-verdiano Pita, um golaço que levantou o estádio e que foi desenhado da seguinte maneira: «Cadorin foi rápido a fazer um lançamento no lado direito, já perto da bandeirola de canto, Freire centrou também rapidamente e Pita, entrando fulgurantemente de cabeça, atirou à baliza. A bola, antes de entrar, tabelou no poste direito, sem hipóteses para o guarda-redes».

Pita, um jogador que Homero Serpa considerava o melhor ponta-de-lança do futebol português a atuar de cabeça! O Partizan ficou perplexo com este golo, em contraposto com os adeptos algarvios, que entusiasmados por este festejo empolgaram ainda mais o seu conjunto. «Toda a equipa sobe de rendimento (...) Os jugoslavos perturbam-se. O Portimonense, galvanizado, arranca para uma exibição memorável, com um futebol de nível internacional. Sem grande técnica, mas, veloz, e com o aproveitamento milimétrico de todo o terreno. Agora, a equipa portuguesa torna se num bico-de-obra para o seu adversário», lia-se na reportagem de A Bola.

Vítor Oliveira passou de jogador
a treinador dos algarvios
Foi uma meia hora empolgante do Portimonense, que atirou ao tapete o experiente Partizan, que apesar de nos últimos 15 minutos alargar a sua frente da ataque não levou perigo para os pupilos de Vítor Oliveira. «Esta equipa do Partizan não nos pareceu muito rápida. Acreditamos, no entanto, que não terá mostrado frente aos portugueses o muito de que é capaz de progredir neste aspecto. E, meus amigos, se conseguir combinar a velocidade com a excelente técnica de que é detentora; vai ser, não tenhamos dúvidas, um osso muito duro de roer em Belgrado», escrevia o jornalista de A Bola numa antevisão daquilo o que seria o inferno na Jugoslávia, onde os portugueses viriam a cair por expressivos 4-0, dizendo adeus à UEFA.

Mas ninguém tira aos algarvios o prazer de ter assustado os poderosos jugoslavos e de se terem estreado nas competições europeias com uma surpreendente, mas justa, vitória. Surpresa era pois o estado de alma que reinava no balneário do Partizan no final do encontro, a começar pelo treinador Nenad Bjekovic. «Os portugueses estiveram muito bem e confesso que me surpreenderam. Estava à espera que jogassem em passes curtos e a trocarem a bola e apareceu-me um estilo de jogo totalmente, ao contrário. O Portimonense surgiu a jogar em passes longos e a actuar muito bem de cabeça. (...) No meu entender, os portugueses sobressaíram pelo seu jogo colectivo, se bem que tenha de distinguir a exibição de Nivaldo, muito boa, um elemento que faz jogar a equipa e demonstra bastante experiência», disse o técnico jugoslavo que fez ainda uma antevisão do encontro da segunda mão, opinando que este seria decisivo, e que a sua equipa tinha boas hipóteses de seguir em frente.

Cadorin, uma das principais
figuras dos algarvios
Uma das estrelas do Partizan era então Ljubomir Radanovic, defesa que representou a Jugoslávia no Europeu de 1984, e nos Jogos Olímpicos do mesmo ano, que opinaria que «o Portimonense mostrou-se mais lutador, pelo que mereceu ganhar. O Partizan não mostrou em Portimão o seu verdadeiro valor, mas irá faze-lo em Belgrado, dentro de duas semanas. O Portimonense, apesar de boa equipa não chegará para superar esta eliminatória», como estava certo o capitão da equipa Balcã. Curiosidade é que também o árbitro do encontro foi ouvido pelos jornalistas de A Bola, tecendo uma opinião sobre o jogo! Coisa impensável nos dias de hoje. Alphonse Constantin disse então que este havia sido um encontro interessante de arbitrar, «com os portugueses, muito bons tecnicamente, a desfrutarem de grandes hipóteses para ultrapassar a eliminatória. É verdade que os portugueses demonstraram uma falta de maturidade competitiva, mas estou convencido que a irão adquirir, pois dispõem de muitos jogadores novos e muito futuro na sua combinação». E o penalti reclamado pelo Portimonense na primeira parte, o que tinha o senhor Constantin a dizer em sua defesa? «O Portimonense reclamou, de facto, grande penalidade, mas o jogador atirou-se voluntariamente para o chão sem ninguém lhe ter tocado. Aliás, esse jogador procedeu de forma muito inteligente. Pois levantou-se e não me disse uma palavra».

Na cabine de Portimonense reinava a alegria, mas ao mesmo tempo um sentimento de que o resultado era curto para a viagem à Jugoslávia quinze dias depois. Vítor Oliveira estava satisfeito com a exibição da sua equipa e com o resultado, «embora reconheça que se tivéssemos marcado mais um ou dois golos seria mais justo para a minha equipa. (...) Apesar de escasso (o resultado), vamos tentar passar a eliminatória, a fim de prestigiar a cidade de Portimão e o nome de Portugal», disse então o técnico.

Também o experiente defesa Simões era de opinião que o score era curto em relação à exibição dos de Portimão,  endereçando ainda uma palavra ao público afeto à sua equipa: «não quero deixar de enaltecer o apoio entusiástico que o público de Portimão nos dispensou e bom seria que assim se mantivesse durante as jornadas do campeonato. Esse calor humano à nossa volta só engrandece a equipa».

Para a história do Portimonense e do futebol português aqui fica a ficha deste jogo:

Estádio do Portimonense. Árbitro: Alphonse Constantin (Bélgica)

Portimonense: Vital; Dinis, Balacó, Simões, Teixeirinha, Freire, Carvalho, Nivaldo, Luís Reina, Pita e Cadorin. Substituições: Nivaldo por João Reina, Freire por Barão, aos 40 e 44 minutos respetivamente. Treinador: Vítor Oliveira.

Partizan: Omeovic; Radovic, Vermezovic, Capljic, Rojevic, Zivkovic, Stevanovic, Radanovic, Nikodijevic, Varga e Vucievic. Substituições: Varga por Djukic, Stevanovic por Diermai, aos 21 e 27 minutos, respetivamente. Treinador: Nenad Bjekovic.

Golo: Pita, aos 47 minutos.

ENTREVISTA COM JOÃO REINA

«DIGNIFICÁMOS O FUTEBOL PORTUGUÊS E PRINCIPALMENTE O FUTEBOL ALGARVIO»

Algarvio de gema (nasceu em Olhão), João Reina era uma das figuras do plantel do Portimonense que viveu na pele a aventura europeia de 85/86. Ele participou no célebre jogo com o Partizan, entrando para o lugar de Nivaldo. Chegou a Portimão precisamente na histórica temporada em que o emblema algarvio alcançou o 5.º lugar que deu acesso à Taça UEFA, e nesta entrevista ao Museu Virtual do Futebol o antigo defesa recordou não só a épica vitória ante o conjunto oriundo da ex-Jugoslávia, como também falou dos timoneiros (Vítor Oliveira e Manuel José) que conduziram a nau algarvia naqueles anos dourados, bem como o significado que este triunfo teve para toda a região do Algarve.

João Reina com 
a camisola do Portimonense
Museu Virtual do Futebol (MVF): O João Reina cumpria na altura a segunda época em Portimão, sendo um dos obreiros desta qualificação para a Taça UEFA. Como explica esta rápida ascensão à Europa do futebol de um clube que só se tinha estreado na 1.ª Divisão em 1979?

João Reina (JR): O Portimonense já vinha fazendo boas épocas na 1.ª Divisão Nacional, e com a entrada de vários jogadores e do treinador  Manuel José, que tinha um grande conhecimento do futebol português, a pré época correu muito bem e começámos nos lugares acima do meio da tabela. Depois, fomos cimentando a nossa posição, conseguido a qualificação (europeia) com muito mérito.

MVF: Recorda-se como é que Portimão, e o Algarve em geral, viveram esta qualificação para uma competição europeia?

JR: Sendo o primeiro clube algarvio a conseguir esse feito Portimão e o Algarve estavam naturalmente ansiosos à espera desses jogos (europeus).

MVF: E quando no sorteio uefeiro vos colocou pela frente o Partizan, um clube poderoso, oriundo de uma escola de futebol muito forte, o que vos passou pela cabeça nessa altura?

JR: Toda a gente conhecia o Partizan, que na altura era uma das boas equipas da Europa. Mas nós tínhamos o sonho de fazer uma boa prova.

MVF: O que vos disse Vítor Oliveira nos dias que antecederam este jogo, como é que ele trabalhou a vossa mente no sentido de ultrapassar este obstáculo?

JR: O mister Vítor Oliveira sempre se mostrou tranquilo, sempre a motivar-nos não só nestes jogos (europeus), como também para os do campeonato. Mas sempre acreditando que poderíamos seguir em frente nesta eliminatória.

MVF: Por falar em Vítor Oliveira, o João Reina partilhou o balneário com ele nos anos de Portimonense, quer enquanto colega de equipa, quer na qualidade de pupilo. O que lhe diz Vítor Oliveira ainda hoje, o que se lembra dele?

JR: Como colega foi um orgulho fazer parte da equipa dele. Sempre foi amigo do seu amigo, e como seu pupilo (mais tarde) dele sempre foi um treinador a pensar em prol da equipa, sem olhar a nomes, fazendo  jogar quem estava seu melhor momento de forma. Com ele aprendi muito de futebol, e já na altura o Portimonense jogava com três centrais e dois alas e eu fui um dos que fui adaptado à posição de ala, onde penso que me saí bem. O Vítor Oliveira é uma pessoa que nunca vou esquecer.

MVF: Não podemos esquecer que esta qualificação europeia foi obra de outro nome consagrado da tática em Portugal, Manuel José...

JR: Foi o mister Manuel José que me levou para o Portimonense, tendo ele conseguido o feito de nos apurarmos para uma competição da UEFA. Foi dos bons treinadores que tive ao longo da minha carreira, e dele guardo boas recordações, tal como do mister Vítor Oliveira.

MVF: Veio o dia do jogo, ou melhor, a noite, porque se estreava a iluminação artificial, e o que sentiu quando a bola começou a rolar no ambiente quente - no duplo sentido - algarvio. Como foram os primeiros minutos de jogo, estavam nervosos, acreditavam que podiam ganhar, em suma como estava a equipa?

JR: Naturalmente estávamos todos nervosos, mas com o decorrer dos minutos fomos acreditando que poderíamos fazer um bom resultado. Acho até que o 1-0 foi pouco pelo que produzimos, principalmente na 2.ª parte. Tínhamos um excelente grupo. com alguns jogadores mais experiente que encaravam o jogo de outra forma.

MVF: Rezam as crónicas que na segunda parte o Portimonense soltou-se mais, dominou o jogo, e veio o golaço de Pita. O que se lembra destes momentos da etapa complementar, do golo, e de que vos disse Vítor Oliveira ao intervalo e que mudou a atitude dos jogadores de Portimão (?)

JR: O Portimonense, como já disse, fez uma grande 2.ª parte, tendo o golo do Pita reposto alguma verdade no marcador. O Vítor Oliveira só nos fez acreditar que poderíamos sair com uma vitória nesse jogo.

MVF: Esta é uma pergunta clássica, mas impõe-se: qual foi o segredo para vencer o Partizan naquela noite?

JR: O segredo foi acreditarmos no grupo que tínhamos, e que fazendo um jogo sem erros poderíamos ganhar. E foi o que aconteceu.

MVF: Tem ideia do que significou esta vitória para o clube e em particular para a região do Algarve, que até então internacionalmente era só conhecida pelo sol e pelas belas praias?

JR: Para o clube foi o encarar o campeonato com mais tranquilidade, sabendo que os nossos adversários iriam olhar pata nós de outra forma, respeitando-nos mais. Para a região foi o dar a saber que no Algarve também existia futebol.

MVF: E depois, o que aconteceu em Belgrado para justificar a pesada derrota e a consequente eliminação da Taça UEFA?

JR: Em Belgrado sofremos logo nos primeiros minutos um golo, e contra estas equipas quando se sofre cedo dificilmente se consegue contrariar a sua maior experiência, como era o caso do Partizan. Mas penso que dignificámos o futebol português e principalmente o futebol algarvio.

quinta-feira, junho 09, 2022

Jogos Memoráveis (3)... Desportivo de Chaves - Universitatea de Craiova (Taça UEFA de 1987/88)

Em 1987 Chaves e o interior de Portugal
entram no mapa do futebol europeu
Já diz o chavão que "para lá do Marão mandam os que lá estão". Tem sido assim com o passar dos anos no sentido de vincar a garra e determinação do povo transmontano em muitos aspetos da vida, sendo que o futebol não é exceção.

Vem isto a propósito de um jogo que ficou para a história não só desta região como de todo o interior do nosso país, já que até aos dias de hoje nunca mais a Velha Europa do Futebol teve como palco o muitas vezes esquecido interior português. Este encontro foi o capítulo principal de uma caminhada europeia também ela histórica, atendendo a que estávamos perante um clube que cumpria somente a sua terceira temporada ao mais alto nível do futebol luso, ou seja, a 1.ª divisão. Chegar a uma competição europeia ao fim de apenas duas épocas de contacto com os chamados grandes do futebol português é obra, e mais ainda se chegados ao palco europeu, sem qualquer tipo de experiência nestas andanças, conseguir superar uma eliminatória e vender muito cara a derrota na ronda seguinte. Um feito ao alcance de poucos clubes, sendo uma dessas raras e (hoje) históricas exceções é o Grupo Desportivo de Chaves. 

O "onze" do Chaves que em Trás-os-Montes defrontou e venceu o Craiova

A chegada à Europa do futebol deu-se como consequência do brilhante 5.º lugar obtido no Nacional da 1.ª divisão de 86/87. Sob o comando técnico de Raul Águas o emblema transmontano superou o também brilhante 6.º lugar alcançado na época anterior, precisamente a estreia no escalão maior do nosso futebol. Emílio Macedo e Sousa (1924-2017) era por estes dias um homem feliz, ele que na condição de presidente da Direção levou o Chaves não só à 1.ª divisão como também à Europa no curto espaço de três anos. 1987/88 é pois ainda hoje uma temporada marcante e carregada de nostalgia na vida dos flavienses, sobretudo daqueles que assistiram à performance dos pupilos de Raul Águas nos relvados onde atuaram. E é sobre uma dessas performance, ou exibições, que hoje iremos falar, mais concretamente do encontro da 2.ª mão da 1.ª eliminatória da Taça UEFA 87/88, que viria a ser ganha pelos alemães do Bayer Leverkusen, mas que teve no Desportivo de Chaves, quiçá, a primeira grande surpresa. O sorteio ditou que os flavienses defrontassem na ronda inaugural da competição os romenos da Universitatea de Craiova. Nunca será por demais frisar o poderio que o futebol do leste europeu ostentava naqueles anos, sendo que apenas duas épocas antes da Roménia havia saído um campeão da Europa, o Steaua de Bucareste.

O forte plantel do Universitatea de Craiova em 87/88

Perante isto, e aliado à inexperiência dos transmontanos, a balança do favoritismo pendia para o clube de Craiova, onde pontificavam nomes como o guardião Silviu Lung - que havia brilhado no Europeu de 1984 ao serviço da seleção romena -, Mircea Irimescu, Gheorghe Popescu - que viria a destacar-se na década de 90 não só ao serviço da sua seleção nos Mundiais de 90, 94 e 98, como também com as cores do Barcelona e do Galatasaray, onde venceu, respetivamente, uma Taça das Taças e uma Taça UEFA -, Nicolae Negrila, Emil Sandoi, entre outros artistas que marcaram o futebol romeno de então. Uma equipa de respeito, por isso, que nos dez anos anteriores havia vencido quatro campeonatos nacionais e outras tantas taças romenas.

O batismo europeu do Chaves aconteceu em solo romeno, depois de 24 horas de viagem (!) e debaixo de uma temperatura escaldante de 45 graus (!), mas que mesmo assim não sufocou os portugueses, que em Craiova venderam caro a derrota por 2-3, e onde até estiveram a vencer por 2-0.

Nada estava perdido, muito pelo contrário, e ainda faltavam 90 minutos no Municipal de Chaves, e já se sabe que "para lá do Marão, mandam os que lá estão". E assim foi.

Vermelhinho foi um diabo à solta no Municipal
E eis que chegávamos ao dia 30 de setembro de 1987, uma quarta-feira de tarde, dia em que a cidade parou para ver o seu Desportivo na alta roda do futebol continental. Pela primeira vez as competições europeias de futebol chegavam a Trás-os-Montes e ao interior de Portugal. Era um momento histórico e nem os vizinhos espanhóis quiseram faltar à festa que lotou por completo a catedral do futebol flaviense. Se fosse pela falange de apoio que teve nessa tarde, o Chaves já tinha passado a eliminatória, algo que a bola viria a confirmar 90 minutos mais tarde no relvado do Estádio Municipal.

No livro "40 Anos de Vida do Grupo Desportivo de Chaves", da autoria de António Saldanha, e Álvaro Coutinho, conta-se como os flavienses deram a volta à eliminatória. «Com Vermelhinho em plano de grande brilho, o Desportivo de Chaves conseguiu no seu estádio dar a volta ao resultado da primeira mão e anular a desvantagem que trazia da Roménia. Não foi um triunfo fácil, mas os flavienses mereceram inteiramente o desfecho favorável da partida, prosseguindo assim nesta que pode ser uma aventura maravilhosa na Taça UEFA», pode ler-se no livro.

Vermelhinho, um dos nomes mais sonantes daquele plantel do Chaves comandado por Raul Águas, um homem que em Trás-os-Montes vivia a sua primeira experiência como treinador após pendurar as chuteiras de jogador, precisamente com a camisola azulgrana do Desportivo flaviense. Vermelhinho era com toda a certeza o jogador mais experiente dos transmontanos em matéria de competições europeias, já que na temporada anterior havia-se sagrado campeão europeu ao serviço do FC Porto, clube este que agora o cedia por empréstimo durante uma temporada ao Desportivo.

Mais um lance de perigo para a baliza de Lung
Mas havia outros bons valores para lá do Marão, casos do defesa central brasileiro Jorginho, dos guarda-redes Padrão e Fonseca, ou das estrelas búlgaras Georgi Slavkov e Radoslav Zdravkov - imortalizado em Chaves como Radi-, sendo que a título de curiosidade este último havia sido titular na seleção do seu país no Mundial do México, disputado pouco mais de um ano antes. Havia também muita gente da terra, e da região envolvente, que talvez no início da sua carreira nunca tenha imaginado este momento ímpar na história da cidade de do clube. Jogadores como Diamantino Braz (que dedicou uma vida ao Desportivo), Gilberto, ou Ramadas, sabiam como ninguém o que significava esta presença na Europa do futebol para Trás-os-Montes.

Mas voltando a um jogo onde "Vermelhinho jogou, fez jogar e marcou", como salientaram os autores do atrás citado livro que conta parte da história do clube, para dizer que o Municipal de Chaves cedo explodiu de alegria, já que «aos cinco minutos e quando o público não estava ainda perfeitamente instalado nos seus lugares, o Desportivo abriu o ativo. Foi na sequência de um canto do lado direito do seu ataque. A bola foi parar aos pés de Slavkov que abriu uma brecha por entre os defesas e abriu a contar». Estavam decorridos somente cinco minutos de um encontro que havia iniciado com bastante vivacidade, onde desde o apito inicial do norte irlandês Oliver Donnelly o Chaves deu indicações de que queria marcar golos.

«Após o tento inaugural o Chaves baixou o seu ritmo, com a partida a conhecer um período de alguma monotonia, muito embora coubessem sempre aos donos da casa as melhores ocasiões para marcar». A título de exemplo, mais uma endiabrada jogada de Vermelhinho, que aos 36 minutos «isolou-se frente ao guarda-redes Lung, mas disparou de forma a permitir a defesa do seu antagonista, que tapou bem o ângulo de remate».

Três minutos depois e cheirava novamente a golo no Municipal, altura em que Jorginho de cabeça, «dentro de área atirou por cima da barra, num lance que merecia melhor sorte, tendo na jogada seguinte o mesmo Jorginho evitado o 1-1, ao oferecer o corpo à bola num disparo de um avançado romeno». Apesar de o Chaves ter sido a equipa mais perigosa no ataque, a primeira parte terminou sob o signo do equilíbrio. «Quando a bola ia para os pés de Slavkov ou Radi a defesa do Universitatea de Craiova tinha bastantes dificuldades em anular os lances».

«No período complementar o Chaves reapareceu determinado, pressionando o adversário, com Vermelhinho a falhar por um triz dentro de área, aos 53 minutos, e Slavkov a atirar junto ao poste, aos 54, em duas jogadas de bom recorte técnico. O 2-0 surgiu aos 62 minutos, por intermédio de Vermelhinho, num remate cruzado dentro de área e depois de uma desmarcação em jogada de entendimento com Serra».

O segundo golo flaviense foi protestado pelos romenos, que alegaram junto do árbitro britânico um hipotético fora de jogo, que não viria a ser assinalado e «estava feito o segundo golo dos locais e se já antes havia otimismo, neste momento ninguém presente no Municipal acreditou que a eliminatória pudesse ser perdida».

Porém, os romenos reagiram e levaram então algum perigo à baliza de Padrão, cuja inspiração ajudou e muito a segurar o triunfo. A defesa flaviense esteve à semelhança do seu guarda-redes muito segura, cometendo poucos erros, sendo que uma das raras exceções aconteceu ao minuto 83, altura em que o Universitatea de Craiova apontou o seu golo. «Num canto, Ghita saltou melhor que os defesas do Chaves e atirou para o fundo das malhas. Tudo tentaram os romenos para marcar mais um golo, mas os flavienses sacudiram muito bem a pressão e conseguiram assim passar à segunda fase da prova que, diga-se, merecida».

Se alguns jornais destacavam as exibições de Vermelhinho, Jorginho e Gilberto como a chave para este êxito, outros órgãos de comunicação referiam que o segredo desta vitória e consequente passagem à 2.ª eliminatória da Taça UEFA foi o coletivo.

O sonho europeu dos flavienses terminou precisamente na segunda ronda, ao serem batidos pelos húngaros do Honved, com uma derrota em solo português, por 1-2, e por 3-1 em Budapeste.

Mas para a histórica fica mesmo a vitória dos flavienses diante do Craiova cuja ficha técnica foi a seguinte:

Estádio Municipal de Chaves. Árbitro: Oliver Donnelly (da Irlanda do Norte).

Desportivo de Chaves: Padrão, Cerqueira, Garrido, Jorginho, Serra, Gilberto, Radi, Diamantino, David, Vermelhinho e Slavkov. Treinador: Raul Águas. Substituições: Júlio Sérgio entrou para o lugar de Slavkov aos 63 minutos, e Vicente entrou para o lugar de Radi aos 84 minutos.

Universitatea de Craiova: Silviu Lung, Gheorghe Popescu, Adrian Popescu, Nicolae Negrila, Emil Sandoi, Vasile Manaila, Marian Rada, Pavel Badea, Gheorghe Ciurea, Ion Geolgau e Viorel Vancea. Treinador: Constantin Otet. Substituições: Ao intervalo Nicolae Ghita entrou para o lugar de Gheorghe Ciurea, e aos 68 minutos Mircea Irimescu entrou para o lugar de Ion Geolgau.

ENTREVISTA COM JÚLIO SÉRGIO, QUE RECORDA: 

A «LOUCURA TOTAL» VIVIDA EM CHAVES PELA VITÓRIA ANTE OS ROMENOS

Ele foi um dos homens que ajudou a escrever esta história com sotaque de Trás-os-Montes. Não só participou neste jogo como também viveu o início do "conto de fadas" flaviense no mais alto escalão do futebol português, já que a sua primeira época em Chaves coincidiu com a estreia do Desportivo na 1.ª divisão, em 85/86. Com formação feita no FC Porto, este médio vivenciou no emblema azulgrana os seus primeiros dias de glória no futebol sénior. Aquando da vitória sobre o Universitatea de Craiova ele tinha apenas 22 anos, tendo vivido a sua primeira experiência europeia ao nível de clubes, após ter entrado na segunda parte para o lugar de Slavkov. Nesta entrevista ele recorda-nos não só esta sua experiência como também este momento que faz parte da história do Grupo Desportivo de Chaves. Sem mais demoras passemos à conversa com Júlio Sérgio.

Júlio Sérgio
Museu Virtual do Futebol (MVF:) Imaginava quando chegou a Chaves, em 1985/86, ano de estreia do clube na 1.ª divisão, que dois anos depois estaria a disputar uma prova europeia?

Júlio Sérgio (JS): Naturalmente que não, mentiria se dissesse que iríamos construir um marco histórico no panorama futebolístico nacional.

MVF: Qual foi o segredo que esteve na base deste sucesso, isto é, para terem alcançado tão boas classificações nas duas primeiras temporadas de 1.ª divisão que vos iriam conduzir até à Taça UEFA?

JS: Tínhamos um grupo muito unido com jogadores que queriam aparecer e mostrar o seu valor, além que o facto de vivermos com as famílias perto uns dos outros fortalecia a nossa união. Até nos treinos havia competição (saudável) nas equipas formadas para disputar as peladinhas, havia a equipa de baixo e a equipa de cima. Como nos divertia-mos.

MVF: Para uma região que até então era órfã das grandes tardes/noites europeias este feito pode ser considerado ainda mais épico...

JS: Sim claro que sim, estávamos a transportar o nome de uma região que até então era desconhecida e que se tornou numa das melhores regiões de Portugal.

MVF: Chegados à temporada de estreia na Taça UEFA, e assim que o sorteio ditou que o Universitatea de Craiova iria ser o vosso oponente, qual foi a primeira coisa que vos passou pela cabeça?

JS: Não ia ser fácil, mas o transmontano não desiste e sabíamos do nosso potencial.

MVF: O facto de o clube ser oriundo de uma região isolada num Portugal que tinha acabado de entrar na CEE assustou-vos na hora de jogar com uma equipa de um país (Roménia) que dava cartas no futebol europeu de então?

JS: Assustar não, mas tínhamos respeito por uma das melhores equipas da Europa na época. Mas não tínhamos nada a perder e havia toda uma região a precisar de nós.

Raul Águas, o timoneiro
do Chaves europeu
MVF: Conheciam alguma coisa do Universitatea de Craiova, algum jogador em especial, ou simplesmente foram de "olhos fechados", por assim dizer, para esta eliminatória?

JS: Conhecíamos o clube, mas pouco sabíamos acerca deles. Mas tínhamos o nosso chefe (mister) que sabia muito de futebol e nos guiava em todos os momentos.

MVF: E como é que as gentes de Chaves, de toda aquela região, viveram esta experiência europeia?

JS: Loucura total, foi indescritível o quanto fomos acarinhados e o quanto essa gente viveu o momento.

MVF: A derrota em Craiova esmoreceu-vos, ou pelo contrário, sentiram que em Chaves iriam fazer jus ao velho chavão transmontano "para lá do Marão mandam os que lá estão" e iriam eliminar os romenos?

JS: Usámos em muitos jogos esse chavão, mas, pelo que tínhamos feito no primeiro jogo sentimos que era possível tornar o sonho realidade e passar a eliminatória.

MVF: Começou o encontro da segunda mão no banco, entrando na segunda parte, e pergunto-lhe como é que viveu as emoções deste jogo tão de perto?

JS: Eram muitas e desgastantes, mas sobretudo a sensação de que era possível passar a eliminatória superava isso tudo.

MVF: Quando entrou no segundo tempo que indicações lhe deu Raul Águas?

JS: Em relação a conversa com o Raul sinceramente não me lembro do ele me disse.  Mas o Raul sempre que eu ficava no banco e entrava era muito pragmático ao dizer-me "vais entrar e conto contigo para ganhar o jogo", ou se estivéssemos a ganhar queria que eu controlasse os tempos de jogo. Era muito moralizador.

MVF: Como se pode explicar a vitória do Chaves neste encontro e a consequente passagem da eliminatória, por outras palavras, qual foi o segredo deste triunfo?

JS: União. Essa é a explicação para tanto sucesso e principalmente para esse triunfo ante os romenos.

MVF: Houve festa no balneário depois desta vitória, por certo...

JS: Claro, nestas ocasiões e depois de saltos abraços ...só queríamos ir para fora do estádio, pois sabíamos que tínhamos os flavienses a querer festejar connosco.

MVF: E Raul Águas, de que forma vos motivou para este encontro, e o que vos disse depois desta vitória?

JS: Sinceramente não posso dizer, mas uma coisa é certa, o Raul é um homem que sempre nos tratou quase como colegas, a motivação dele era diária, e nesse jogo além de se rir muito deu-nos os parabéns. Não sabia ser diferente.

Houve festa rija na capital 
do Alto Tâmega
MVF: Na eliminatória seguinte o sonho europeu acabou diante do Honved. O que faltou para o Chaves ir mais longe nesta aventura europeia?

JS: Eu ter falhado um penalti no jogo da primeira mão em casa, pois talvez se tivesse concretizado haveria mais hipóteses de passarmos. A falta de traquejo europeu da equipa também explica o facto de termos sido eliminados pelo Honved.

MVF: Esteve quatro temporadas consecutivas em Chaves, precisamente o período de estreia na 1.ª divisão e na Taça UEFA. Como é que caracteriza aquele grupo que ajudou a cimentar o Chaves como um clube não só de dimensão nacional como o principal emblema de uma região (Trás os Montes)?

JS: Uma família, desde o presidente, aos diretores, massagistas, médicos, roupeiro, motorista. todos eram fenomenais. Depois nós, jogadores, comíamos todos no mesmo restaurante, viajávamos todas as semanas para Chaves juntos, fazíamos férias com a família juntos, vivíamos todos no mesmo prédio, e em dias de folga jogávamos as cartas juntos (com o mister), e sabíamos que havia uma região por trás de nós que tínhamos de pôr no mapa nacional. Foi uma experiência incrível.