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terça-feira, março 08, 2022

Histórias do Futebol em Portugal (33)... "É Carnaval, ninguém leva a mal", assim pensou a nata do futebol português em 1910

O Grupo das Patroas...
Não vai longe no tempo o Carnaval de 2022, e é ainda imbuídos no espírito do entrudo que abrimos hoje as portas do nosso Museu para recuar mais de um século - 112 anos para sermos mais precisos - para recordar um peculiar match protagonizado por algumas das principais estrelas do futebol luso de então. Tudo aconteceu no mítico campo da Palhavã, em Lisboa, onde fazendo jus à quadra carnavalesca que então se vivia resolveram mascarar-se de matrafonas e levar por diante um divertido encontro.

Os mantos sagrados da época, vulgo equipamentos de football, foram substituídos por finos e pomposos vestidos usados pelas damas daquele tempo. De um lado do campo estavam as "patroas" e do outro as "sopeiras" - o termo na época utilizado para denominar uma empregada doméstica. Assim que as "donzelas" entraram em campo travestidas a gargalhada foi geral do público que não perdeu a oportunidade de também se juntar a este pitoresco festejo carnavalesco protagonizado pelos sportsman da capital.

... e o Grupo das Sopeiras
O jogo teve honra de cobertura pela revista Tiro & Sport, a quem cujos créditos das fotografias desta breve história que aqui publicamos pertencem. O Grupo das Patroas era composto na sua maioria pelos jogadores do Clube Internacional de Football, o popular CIF, da família Pinto Basto. Desta ilustre família, responsável pela introdução do futebol em Portugal, deram azo a esta brincadeira, Gastão e Eduardo Luiz, que se faziam acompanhar por outros nomes aristocratas do futebol lisboeta, nomeadamente, Heraldo Ribeiro, Adolfo Burnay, Plácido Duro (que além de futebolista era também um popular tenista), José de Sousa Prego, Carlos Sobral, Nuno de Vasconcelos, Paulo de Eça e Augusto de Freitas. (nota: desconhece-se o nome do 11.º jogador desta equipa). Contava a reportagem da Tiro & Sport que Augusto de Freitas terá sido um reforço "contratado" à última da hora para substituir o benfiquista Cosme Damião, que ao que parece não terá encontrado um vestido que lhe servisse!

Por sua vez, o Grupo das Sopeiras era composto quase em exclusivo pelos donos do campo, o Império, nomeadamente, António Bentes, Borja Santos, Joaquim Alves, Daniel de Freitas, Albino Abranches, Travassos Lopes, Basileu Dantas, Jorge Cadete (não o conhecido futebolista que ainda estava longe de nascer, mas sim um famoso toureiro da época), Filipe Mendes, e o reforço de peso vindo do Sporting, Francisco Stromp.

Uma fase do jogo entre as "donzelas"

Do resultado não reza a história, não se sabendo se as patroas puxaram dos seus galões para controlar as sopeiras, ou se estas últimas se terão emancipado e reivindicado o prémio da vitória. Isso pouco ou nada interessa, ou não fosse aquela uma tarde de Carnaval em que ninguém levava a mal fosse o que fosse.  

terça-feira, novembro 09, 2021

Arquivos do Futebol Português (19)...

Seleção da AFL que em 1913 fez uma digressão ao Brasil

Atuar fora do país era no início dos anos 10 do século passado algo raro no panorama do futebol português. Contavam-se pelos dedos de uma só mão as viagens de grupos nacionais ao estrangeiro para medir forças com combinados locais, sendo que a vizinha Espanha havia sido o destino mais longínquo que grupos portugueses haviam feito. Ir ao Brasil era pois algo digno de (vincado) registo, não só pela longa viagem (durava 14 dias de barco) mas de igual modo pelo elevado custo da travessia do Atlântico. Talvez por isso a grande notícia do ano de 1913 tenha sido a deslocação de um grupo português a Terras de Vera Cruz com a finalidade de ali disputar um conjunto de jogos amigáveis com equipas locais. Esta história teve início em 1912, quando o Botafogo do Rio de Janeiro convidou a Associação de Futebol de Lisboa (AFL) para uma visita à Cidade Maravilhosa

O convite não foi de pronto aceite, desde logo pela dispendiosa e morosa viagem, além de que o profissionalismo era coisa que não existia na época e os atletas tinham as suas profissões. Mas com tempo tudo se resolveu. A AFL, na época a maior associação de futebol do país, lá aceitou o convite, reunindo em seguida alguns dos melhores futebolistas que atuavam nos seus campeonatos regionais. O elenco que compôs a seleção da AFL foi recrutado a três clubes, nomeadamente o Sport Lisboa e Benfica, o Sporting Clube de Portugal e o Clube Internacional de Football (CIF). O primeiro emblema contribuiu com oito jogadores, sendo eles, Álvaro Gaspar, Artur José Pereira, Augusto Paiva Simões, Carlos Homem de Figueiredo, Henrique Costa, José Domingos Fernandes, Luís Vieira e Cosme Damião. Já os sportinguistas cederam os atletas Amadeu Cruz, António Stromp, Francisco Stromp, João Bentes e Cândido Rosa Rodrigues, ao passo que o CIF se fez representar por três futebolistas, Eduardo Luís Pinto Basto, Boaventura Belo e Carlos Sobral.

A epopeia da viagem ao Brasil aconteceu em julho de 1913, tendo a comitiva partido da capital portuguesa a 26 de junho a bordo do Drina, barco pertencente à Mala Real Inglesa. Dois dias antes, o grupo foi brindado com um jantar de despedida no Hotel Francfort, em Lisboa. À partida, centenas de pessoas despediram-se da comitiva lusa, que integrava ainda figuras como Alberto Lima, presidente do Benfica e diretor do jornal O Sport Lisboa; Duarte Rodrigues, também jornalista, mas da revista Tiro e Sport, tendo sido este nome o mensageiro do convite do Botafogo à AFL, já que era o correspondente do emblema carioca em Portugal; e Mário Duarte, futebolista aveirense designado pelo Ministério do Interior para acompanhar a equipa lisboeta.

A comitiva lusa no barco durante a longa travessia no Atlântico

Depois da longa travessia no Atlântico o grupo atraca no Rio de Janeiro no dia 10 de julho. Nesta cidade os lusos disputam quatro desafios. Ante o Scratch, inglês (Rio Cricket e Paysandu) perdeu 1-3, contra o Scratch brasileiro perdeu 0-1, diante da Liga Metropolitana empatou 0-0, e contra o Botafogo ganhou 1-0.

Em São Paulo a seleção da AFL realizou três encontros, contra a Atlética das Palmeiras empatou 2-2, contra o Colégio Mackenzie perdeu 1-5 e contra o Clube Atlético Paulistano ganhou 1-0. Artur José Pereira (3), Carlos Sobral (2) e António Stromp foram os marcadores dos golos portugueses nesta digressão ao Brasil. Ao longo desta estadia em terras sul-americanas a comitiva portuguesa foi alvo de várias homenagens, tendo sido presenteada com troféus, que, segunda reza a história, ficariam retidos na Alfândega quando a delegação regressou a Portugal, pois estavam sujeitos ao pagamento de taxas incomportáveis à época para uma delegação desportiva. E só em 1915, com a ajuda de Francisco Luís da Silva Calejo e com o despacho do primeiro-ministro, Afonso Costa, é que os troféus foram libertados. Outra curiosidade nesta viagem alude ao facto de um dos atletas, no caso Luís Vieira, ter ficado no Brasil a representar o Botafogo, tornando-se assim no segundo jogador português a atuar naquele país, sucedendo, digamos assim, a José Bello, que representou o Fluminense entre 1907 e 1909. 

quinta-feira, julho 22, 2021

Arquivos do Futebol Português (17)...

Edifício/sede da AFL
Em 1911 dá-se a novidade de pela primeira vez em Portugal se cobrarem ingressos para assistir aos jogos de futebol. Mas ainda antes disto a Liga Portuguesa de Futebol (LFP) desaparece, fruto dos sucessivos tumultos que assolavam o futebol lisboeta de então. A indisciplina reinava nas relações entre clubes, causadas por queixas contra árbitros, ou decisões da LPF. Os regulamentos raramente eram cumpridos. Os jogadores mudavam de camisola quando bem lhes apetecesse, os clubes desistiam a meio das provas, além de que a segurança não existia numa época em que as rivalidades levavam os adeptos a ultrapassar a fronteira que separa os bons costumes da selvajaria. Tumulto cujo ponto final foi colocado a 23 de setembro desse longínquo ano de 1910, dia em que nasce a Associação de Futebol de Lisboa (AFL), a entidade que haveria de dinamizar e remodelar o futebol associativo em Portugal dali em diante. AFL que tomou de imediato conta do Campeonato de Lisboa, tendo logo em 1910/11 chamado a si a organização do certame, que iria contar com a participação de sete clubes, nomeadamente o CIF, o Benfica, o Sporting, o Campo de Ourique, o Império, o Lisboa Football Club, e o União Belenense. Notava-se a ausência de alguns clubes históricos dos primeiros anos de futebol em Portugal, desde logo os ingleses do Carcavellos Club, que preferiam agora competir apenas em jogos particulares (!), enquanto que emblemas como o Lisbon Cricket e o Gilman desapareciam, tendo os seus valorosos atletas rumado para outras paragens. O CIF seria coroado campeão de Lisboa na temporada de 1910/11.

A equipa do FC Porto que em 1911
venceu a primeira edição da Taça Monteiro da Costa

A norte, em 1911, dá-se um terrível choque para a nação portista: morre aos 29 anos José Monteiro da Costa, nada mais nada menos do que o refundador do Football Club do Porto. Monteiro da Costa era a alma do FC Porto, tudo o que tivesse a ver com o clube chamava à sua responsabilidade, desde a constituição das equipas para os jogos até aos meros convites endereçados aos associados para assistiram aos empolgantes duelos futebolísticos. Pelo que ele representava para o clube não demorou muito a que um grupo de associados metesse mãos à obra para homenagear o reinventor do FC Porto, ao propor a instituição de um troféu, que seria denominado de Taça Monteiro da Costa, e que dali em diante iria coroar o rei do futebol nortenho. O homenageado não chegou a ver a competição em andamento, já que morreu antes do pontapé de saída. Monteiro da Costa adoece nos primeiros dias de janeiro de 1911, vindo a falecer no dia 30 desse mesmo mês com apenas 29 anos! A nação portista entra em pânico. E agora? Como é que o clube vai sobreviver sem o seu principal impulsionador, sem a sua figura central, sem a sua alma? Foram questões levantadas de imediato por associados e dirigentes do então jovem FC Porto. Temeu-se que pela segunda vez na sua história o clube fosse empurrado para uma morte prematura, medos que no entanto seriam eclipsados na Assembleia Geral de 16 de março desse ano de 1911, altura em que um punhado de seguidores do sonho de Monteiro da Costa decide continuar a aventura em memória do saudoso companheiro. E é pois nesse embalo para o futuro que se edifica a primeira edição da Taça Monteiro da Costa, ou o primeiro Campeonato do Norte, como defendem alguns historiadores desportivos. Convidados para a estreia da citada competição, cujo vencedor teria à sua espera a denominação de campeão do norte (aquém Mondego), seriam os vizinhos do Boavista e do Leixões, para além, claro, do clube anfitrião, o FC Porto, que no final acabaria por fazer a festa.

O certame abriu com um duelo entre matosinhenses e boavisteiros, a 26 de março, com os primeiros a bater sem apelo nem agrado os portuenses por 4-1. A 2 de abril entra em campo o FC Porto, cujos jogadores transportavam consigo a ambição sentimental de vencer aquele troféu tão especial. O oponente foi o Boavista. Resultado final: 3-1 para os portistas. Posteriormente, portistas e leixonenses mediriam forças no derradeiro jogo desta primeira edição da Taça Monteiro da Costa, um duelo que teve contornos de verdadeira final, pois quem vencesse seria coroado como o primeiro campeão do norte. Tal como se esperava foi um desafio muito intenso, e rezam as crónicas que o Leixões esteve várias vezes perto do golo, valendo aos portistas a magnífica exibição do seu guarda-redes, Manuel Valença. E como quem não marca sofre, o FC Porto chegaria ao golo - cujo autor se desconhece - um tento solitário que deu a primeira Taça Monteiro da Costa ao clube da Cidade Invicta, que assim se auto-proclamava o primeiro campeão nortenho do então jovem football.

Para a eternidade ficam pois os nomes dos seguintes campeões: Manuel Valença, Elísio Bessa, Vitorino Pinto, Mário Maçãs, Adelino Costa, Magalhães Bastos, José Bacelar, Camilo Moniz, Carlos Megre, João Cal, e Ivo Lemos. Jogadores treinados pelo mestre francês Adolphe Cassaigne, o homem que haveria de estar nas quatro restantes conquistas do portistas nesta prova.

A seleção nacional da AFL que em 1911 defrontou os franceses do Stade Bordelais

Também em 1991 a recém surgida AFL resolve reunir uma "seleção nacional", para enfrentar os franceses do Stade Bordelais, que a convite da associação lisboeta efetuaram três encontros em território português, um diante do CIF, outro com o Benfica, e por último ante a "seleção" da AFL. Este último desafio decorreu no dia 21 de maio, no Campo da Feiteira, em Lisboa, e a "seleção nacional", equipando de camisola azul e branca (cores da monarquia que então acabara de cair em Portugal), calção branco, e meia preta, alinhou com: Eduardo Luís Pinto Basto (CIF), Merick Barley (CIF), Henrique Costa (Benfica), William Sissener (CIF), Cosme Damião (Benfica), Artur José Pereira (Benfica), António Stromp (Sporting), Francisco Stromp (Sporting), António Rosa Rodrigues (Sporting), Carlos Sobral (CIF), e João Bentes (Sporting). Quanto ao resultado o conjunto luso esmagou o seu congénere gaulês por 5-1.

terça-feira, julho 20, 2021

Arquivos do Futebol Português (16)...

A equipa do Benfica que em 1910 venceu o seu primeiro Campeonato Regional de Lisboa

O ano de 1910 marca o fim de uma hegemonia no futebol lisboeta, marca o fim do domínio dos ingleses do Carcavellos naquele que era então o único campeonato disputado em Portugal, o Campeonato de Lisboa. E assim o foi por "culpa" do Benfica, que com a conquista do seu primeiro "regional" interrompe um ciclo vitorioso de três títulos seguidos por parte do Carcavellos. Este foi aliás um ano de ouro para os benfiquistas, que veneram ainda os títulos das segundas e terceiras categorias. O Campeonato Regional de 09/10 teve algumas peripécias dignas de registo, mais concretamente o facto de algumas equipas terem desistido a meio da "corrida", entre elas o próprio Carcavellos, que depois de derrotado pelo Benfica na 7.ª jornada da prova desistiu por uma questão de... supremacia moral! Também o CIF, repleto de ingleses, em solidariedade com os seus compatriotas sai da prova, ao passo que o Sporting segue o exemplo destes dois últimos clubes depois de discordar com a suspensão do seu guarda-redes, Augusto Freitas, que tinha agredido dois jogadores do Benfica no jogo da 9.ª jornada e que terminou com a vitória dos encarnados por 4-0. Já o Império não gostou que lhe tivessem anulado um golo diante do Benfica num jogo das terceiras categorias e também decide abandonar a competição. Naquela que foi a quarta edição do Campeonato de Lisboa só o Benfica comparece em todos os 10 jogos disputados, um facto estranho tendo em conta que o futebol lisboeta vivia uma fase de expansão. Pela primeira vez organizaram-se três campeonatos para as três categorias, tendo sido inscritos um total de dez clubes, nomeadamente o Carcavellos Club, o Sport Lisboa e Benfica, o Club Internacional de Futebol (CIF), o Sporting Club de Portugal, o Sport União Belenense, o Gilman Sporting Club, o Sport Club Império, o Football Grupo de Campo d’Ourique, o Grupo de Sport Cruz Quebrada e o Lisboa Football Club, sendo que no campeonato de 1.ª categoria inscreveram-se seis clubes: Carcavellos, Benfica, CIF, Sporting, União Belenense e Gilman. O Benfica, orientado por Cosme Damião, que além de treinador era ainda jogador e vice-presidente do clube fundado seis anos antes, somente conheceu a derrota em duas ocasiões, ante o Carcavellos na 2.ª jornada, por 0-2, e diante do CIF na 8.ª ronda, também por 0-2. Mas o grande jogo desta época foi quiçá o da vitória sobre os mestres ingleses do Carcavellos, na 7.ª jornada, por 1-0, naquela que foi a segunda vitória da história dos encarnados sobre os ingleses. Depois do triunfo obtido em 1907 o Benfica voltou a vencer os campeões em título três anos volvidos, uma vitória que aconteceu a 23 de janeiro no Campo da Feiteira perante uma multidão de 8000 espectadores. Aliás, sempre que o adversário era o Carcavellos o recinto do Benfica enchia-se de entusiastas adeptos. Nesse célebre encontro o Benfica alinhou com Alfredo Machado, Leopoldo Mocho, Henrique Costa, António Costa, Cosme Damião, Artur José Pereira, Manuel Lopes, António Meireles, Luís Vieira, Germano de Vasconcelos (autor do golo solitário nesta partida) e Josué Correia, nomes que ficam para a história do clube, pois todos eles ofereceram o primeiro título da história ao Benfica que terminou este campeonato com oito vitórias e duas derrotas.

Em 31 de julho de 1910 o clube organizou uma festa para homenagear os seus futebolistas campeões. No Restaurante Bacalhau houve almoço e a respetiva fotografia com futebolistas, dirigentes e convidados, entre eles jornalistas e com exposição dos troféus conquistados em seis anos de existência.

O misto nacional que em 1910 foi a Huelva com as cores do Sporting!

O ano de 1910 fica também marcado pela primeira saída ao estrangeiro daquela que se poderá considerar a primeira seleção nacional da história. Uma seleção nacional equipada à Sporting (!), na verdade. Foi a 27 de agosto de 1910, data que um misto de jogadores de três equipas de Lisboa, nomeadamente o Sporting, o Benfica e o Sport União Belenese, se deslocou a Espanha para jogar com o Recreativo de Huelva. Atuando com o equipamento do Sporting a seleção lisboeta, ou o Sporting reforçado com três jogadores do Benfica - entre os quais pontificava Cosme Damião - e um do Sport União Belenense - segundo muitos historiadores, venceu por 4-0 os espanhóis. A estreia desse combinado nacional resulta de um convite inicial do Recreativo daquela cidade castelhana a Eduardo Luís Pinto Basto, dirigente/atleta do Clube Internacional de Futebol (CIF). Pinto Basto sugeriu o Sporting como substituto do CIF, último clube este que por motivos desconhecidos não se mostrou disponível para viajar até Espanha, acabando o CIF e o Sporting por decidir enviar uma equipa que fosse composta por jogadores provenientes de vários clubes lisboetas. E a equipa que viajou para Huelva e bateu o Recreativo era composta por: António Bentes (Sporting), Augusto de Freitas (Sporting), Henrique Costa (Benfica), Francisco Bellas (Sport União Belenense), António Couto (Sporting), Cosme Damião (Benfica), António Rosa Rodrigues (Sporting), António Stromp (Sporting), Francisco Stromp (Sporting), e Luiz Vieira (Benfica). Reza a história que o encontro foi dominado pelos portugueses, que venceu confortavelmente com golos de Luiz Vieira, António Rosa Rodrigues e Francisco Stromp, este último autor de dois golos.

sexta-feira, maio 28, 2021

Arquivos do Futebol Português (15)...

O primeiro troféu internacional conquistado por um clube português

Clube Internacional de Futebol, popularmente designado por CIF, tornou-se em 1907 na primeira equipa portuguesa a atuar fora de portas, facto ocorrido em janeiro desse ano, quando os lisboetas se deslocaram ao reduto do Madrid FC (futuro Real Madrid). O CIF, reforçado com alguns craques ingleses do Carcavellos Club, venceu este jogo por 2-0, tendo este feito sido muito celebrado pelos jornais da época. Não demorou mais de dois anos a que o clube dos Pinto Basto voltasse a receber um convite de nuestros hermanos para voltar ao país vizinho para um novo match, desta feita em Badajoz. Pela frente os portugueses tiveram o Sport Club Bacense, com a particularidade de em jogo estar a disputa de um troféu oferecido pelo município de Badajoz. Com as suas camisolas de listas verticais pretas e brancas, o Internacional era um clube que tinha nascido prestigiado, já que tinha sido fundado pela reunião de vontades de alguns dos mais destacados pioneiros do futebol em Portugal, com destaque para a família Pinto Basto. 
Com um misto de jogadores portugueses e ingleses, o CIF era um emblema elitista e, a par dos ingleses do Carcavellos Club, tinha um prestígio inatacável. 
Rezam as poucas crónicas existentes sobre este encontro que 4000 pessoas terão assistido ao duelo entre espanhóis e portugueses, e que o CIF terá apresentado no retângulo de jogo os seguintes jogadores: Gastão Pinto Basto, Merik Barley, Sidney Mascarenhas, João Figueiredo, Augusto Sabbo, Eduardo Luiz Pinto Basto, Luís Kruss Gomes, Carlos Sobral, Vieira da Silva, A. Barreto e Cecil Barley. 
Quanto ao jogo consta que os portugueses estiveram sempre por cima, foram sempre superiores, impressionando a assistência com a sua técnica e complacência física. O resultado do jogo cifrou-se em 3-0 a favor dos lusos, graças a golos de Vieira da Silva, Luís Kruss Gomes e Augusto Sabbo, sendo que este último foi considerado como o homem do jogo, graças à sua apetência para organizador e condutor de jogo. 
Augusto Sabbo
Augusto Sabbo nasceu em Lisboa a 27 de março de 1887 e tinha ascendência germano-húngara. Estudou na Alemanha, onde chegou a praticar futebol de forma oficial, tendo ainda passado algum tempo na Áustria e na Hungria, locais onde colheu muitos ensinamentos sobre o jogo. Na Alemanha estudou engenharia, sendo que no regresso a Portugal foi um dos responsáveis pela montagem da rede de tração elétrica em Coimbra, entre outras obras. No futebol, os tempos eram ainda muitos verdes em Portugal, praticava-se um estilo de jogo algo rudimentar ainda, e Sabbo viria a tornar-se uma espécie de joia rara no Planeta da Bola luso, já que possuía conhecimentos profundos do jogo e ademais era um visionário. Em Portugal, Sabbo iniciou-se no CIF como jogador, ali deu nas vistas, mas seria já como treinador nos anos 20 que ficaria imortalizado como um dos grandes nomes do nosso futebol. Dirigiu o futebol do Sporting em 1922/23 (quando os leões conquistaram o seu primeiro campeonato de Portugal), sendo que sensivelmente um ano antes, em 1921, foi escolhido para ser o cargo de primeiro seleccionador nacional. Porém, os jogadores não gostaram da dureza dos seus métodos e ele acabou por não orientar nenhum jogo da seleção. Em 1926 tornando-se no primeiro treinador remunerado ao serviço do Sporting, clube onde aplicou toda a sua sabedoria. Em 1923, Sabbo editou em Lisboa um minucioso manual de 75 páginas, intitulado Football (Técnica e Didáctica de Jogo), sobre todos os aspectos importantes do futebol. Para além de jogador e treinador disso foi árbitro e fez ainda parte das primeiras equipas de râguebi do Sporting. Faleceu a 30 de outubro de 1971.

domingo, fevereiro 12, 2017

Arquivos do Futebol Português (8)...

Um quadro de Lisboa no início do Século XX
O início do século XX trouxe consigo a alavanca que iria catapultar em definitivo o futebol português para o caminho da popularidade. Não deixa de ser curioso que esta ascensão acontece em anos conturbados da vida do país, o qual estava mergulhado numa profunda crise sócio-económica. O regime monárquico era pontapeado sistematicamente pelo movimento republicano que ganhava cada vez mais adeptos e força para vencer uma batalha que teria o seu epílogo a 5 de Outubro de 1910 - precisamente com a implementação da República. Mas isso são outras histórias... Era, no entanto, num cenário negro que o país vivia no início do novo século, sob o signo da tristeza, do sofrimento e da miséria. Motivos para sorrir eram quase uma miragem. Quase, e este quase deve-se ao futebol, ou jogo do coice, como então ainda era denominado por alguns que resistiam em ridicularizar aquele que começava aqui a tornar-se como o ópio do povo, como muitos anos mais tarde "alguém" viria a denominar esta modalidade. Na verdade, o football começava a vislumbrar-se por estes dias conturbados como uma distração de um povo que diariamente sofria as consequências da agitação - a diversos níveis - que se vivia em Portugal. E a quem muito se deve este súbito despertar do interesse em torno do belo jogo foi à imprensa. Após os últimos anos do século anterior terem sido pautados por algum desprezo face ao jogo, os jornais (nota: o Tiro Civil é um dos mais ativos na publicação de notícias futebolísticas por estes dias) voltam a centrar atenções nos matches - e nas figuras que lhes davam vida - que iam sendo desenrolados. Nos primeiros anos do novo século surgem mesmo inúmeras publicações vocacionadas apenas para o sport, não só no futebol como noutras modalidades, facto que contribuiu imenso para a popularização do fenómeno. E quando falamos em popularização aludimos ao facto de o football começar neste início de século a sair do berço aristocrático em que nasceu para se juntar ao povo, às classes mais baixas da sociedade. Apesar deste início de união (eterna) entre futebol e povo começar a ganhar vida nos primeiros lampejos do século XX, seriam, de certa forma, os aristocratas a voltar a segurar na alavanca que iria impulsionar de vez o futebol em Portugal. E neste capítulo há que destacar uma vez mais a nobre família Pinto Basto, os introdutores do jogo no nosso país, nunca é demais recordar, cabendo a eles uma grande parte da responsabilidade pelo facto de a bola recomeçar a saltar com vigor nos grounds nacionais.

Eduardo Luís Pinto Basto
A chama do futebol em Portugal reacende-se no seu berço, isto é, em Lisboa. É lá que alguns grupos se voltam a reunir. Em Belém surgem alguns grupos provenientes da Casa Pia, e que acabariam por estar na génese do futuro Sport Lisboa que mais tarde viria a tornar-se no atual Sport Lisboa e Benfica. De forma um pouco mais organizada o futebol ressurge então pela mão dos aristocratas, com os Pinto Basto a comandar esse intento juntamente com a colónia inglesa radicada na capital - ou zona envolvente - que sempre continuou a praticar o jogo mesmo no período em que ele esteve digamos que moribundo. Claro que noutras zonas da capital, em Belém como já vimos, o futebol ganhou vida pela mão de populares, sobretudo estudantes, muitos deles vindos da também já referida Casa Pia, mas no que concerne a matches rodeados de interesse, esses ainda eram disputados por aristocratas e ingleses, sendo aqui de destacar três clubes em particular, o Carcavellos Club, o Lisbon Cricket Club - dois temidos emblemas fundados e compostos por ingleses - e o Real Ginásio Clube, agremiação de índole nacional reanimada pela mão da família Pinto Basto, sobretudo por intermédio de Eduardo Luís Pinto Basto, cuja ação foi preponderante para a reorganização da secção de futebol do Ginásio Clube. Por esta altura, e facto que também terá contribuído para o definitivo enraizamento do futebol em Portugal, terá sido o fim do ódio português a tudo o que era inglês, e como o football era uma criação britânica abriram-se os braços ao beautiful game.

No concerne a matches, ou notícias relevantes de jogos, que surgiram na imprensa durante esta época de 1900/01, destacamos por exemplo a goleada do Carcavellos Club - continuava indiscutivelmente a dominar o futebol lisboeta - aos conterrâneos do Lisbon Cricket Club por 5-0, num duelo disputado na Quinta Nova, em Carcavelos, em março, sendo que no plano individual um tal de Withers destacou-se ao apontar três golos. No início de 1901 o Real Ginásio Club havia também medido forças com o Carcavellos Club, tendo conseguido o enorme feito de travar a armada britânica com um... empate a zero bolas na Cruz Quebrada.
Em 16 de março de 1901 acontece algo de certa forma histórico, que veio quebrar pela primeira vez em Portugal uma tradição inglesa, a de não se jogar football ao domingo por motivos religiosos. Neste dia o Carcavellos Club aceita um desafio diante do Real Ginásio Clube, ocorrido em Carcavelos. A notícia deste match é dada com relevância no Diário Ilustrado de 18 de março desse ano de 1901, da qual recordamos na integra alguns trechos que mostram a mestria e a admiração (que crescia entre os portugueses) pelos ingleses e a bravura dos lusos:
«(...) Os jogadores de Lisboa partiram acompanhados de grande número de sportsmen e senhores convidados no comboio da 1.45 do Cais do Sodré. Chegados a Carcavellos às 2 e meia, eram cercadas 3 quando o referee, Sr. Blythman, deu o sinal de começo, estando frente a frente os dois teams seguintes: Por Carcavellos Club: Durrant (goalkeeper), E.A. Wilmott (back), Hall (back), Normandy (half back), E.P. Wilmott (half back), Manes (half back), Coombs (forward), MacKay (forward), Clark (forward), Gibbons (forward) e Colider (forward). 
Pelo Real Gymnasio Club: Figueiredo (goalkeeper), Aimé da Costa Feio (back) e Siddle (back), C. Gonçalves (half back), F. Boavida (half back) e Motta Veiga (half back), Lacerda (forward), L. Araujo (forward), Mortimer (forward), (nota: desconhecendo-se os dois outros jogadores).
De ambos os lados, desde o principio, jogou-se com valentia. Por parte do team inglês notou-se o que sempre se nota por parte de teams ingleses, e em especial de Carcavellos: muito treino. O seu segredo não é outro.É esse: muito treino. O muito treino dá-lhes unidade no ataque, resistencia na defesa, certesa nos pontapés e folego para nunca abandonarem a bola. (...) São em football o que são em polities, em família, em comércio, em tudo: valentes dentro de sangue frio, enthusiastas dentro da logica, atrevidos dentro da lei. Modelos em tudo. (...) Na 1ª parte marcaram 2 goals contra nenhum; na 2ª marcaram outros dois contra nenhum. Não se pense, porém, que venceram com facilidade. Custou-lhes a vencer, e o perder os portugueses não podia ser mais honroso do para estes do que foi. Efectivamente sem treinos, com jogadores - como o goalkeeper - que há seis anos não jogava e outros que não conheciam o jogo dos seus parceiros, é precisa muita alma, alma de portugueses para aguentar o embate das hostes inimigas com valentia com que o R.G.C. aguantou (...)». 

segunda-feira, novembro 09, 2015

Arquivos do Futebol Português (4)

O team de Lisboa que em 1894 conquistou o primeiro troféu da história do futebol português
A popularização do futebol em Portugal levou a que a modalidade ultrapassasse em 1894 pela primeira vez as fronteiras regionais. A 29 de outubro de 1893 o jornal Diário Ilustrado publica uma carta do presidente do Football Club do Porto, António Nicolau d' Almeida, endereçada ao presidente do Football Club Lisbonense, Guilherme Pinto Basto, onde na qual o team do Porto convidava o team lisboeta para um duelo futebolístico a realizar a 2 de novembro desse ano. A missiva rezava assim: «Desejando solenizar a definitiva instalação do Football Club do Porto resolvemos organizar um match quarta-feira próxima 2 de novembro, no qual tomasse parte um eleven do team do clube a que V.Exa. tão dignamente preside. Não temos, é certo, em virtude da pouca prática e nenhum training dos nossos jogadores um eleven de primeira ordem, capaz de fazer frente ao do Club Lisbonense. Como, no entanto, o nosso convite não representa um repto lançado pelos nossos jogadores aos jogadores de Lisboa, mas tão somente o vivo desejo de estreitar relações de franca camaradagem, esperamos que V.Exas. nos revelarão a nossa justificada imperícia. Cumpro, pois, na qualidade de presidente do Football Club do Porto, o honroso dever de convidar por intermédio de V. Exas. os valentes e adestrados jogadores do Club Lisbonense a tomarem parte no referido match. Na esperança de sermos honrados com a anuência do nosso pedido, aguardamos o favor de uma resposta rápida para nosso governo. Deus guarde V.Exas. Excelentíssimo Sr. Presidente do Football Club Lisbonense».
A carta de António Nicolau d'Almeida a Guilherme Pinto Basto
O repto é aceite, pese embora por motivo de impossibilidade de organizar de forma tão célere a equipa e a viagem para o norte os de Lisboa fazem com o match fosse jogado somente a 2 de março do ano seguinte! Na ânsia de fazer deste um encontro adornado com pompa e circunstância, Guilherme Pinto Basto convence o rei D. Carlos a patrocinar o evento. O monarca, um acérrimo apaixonado pelo desporto, aceita de pronto, e mais do que isso disponibiliza-se para oferecer um troféu ao vencedor do match, exigindo somente que esta partida fosse incluída no programa das comemorações do Centenário Henriquino, em homenagem ao Infante D. Henrique, e que pelo menos seis jogadores de cada equipa teriam de ser portugueses, embora esta última exigência não terá sido seguida à risca, conforme iria atestar a constituição das equipas. O famoso encontro seria batizado pela imprensa da época de Cup d'el Rei, tendo os dois combinados sido integrados por elementos pertencentes a outros grupos de football das duas principais urbes lusitanas, facto que de pronto fez deste um confronto entre... Lisboa e Porto, o primeiro embate entre as duas cidades que com o passar das décadas viria a dar aso a uma acesa rivalidade.
O Campo do Inglês (na zona do Campo Alegre) era propriedade de um dos grupos mais populares da Cidade Invicta daquele tempo, o Oporto Cricket Club, emblema que cedeu alguns dos seus melhores jogadores ao team representativo do Porto, aos quais se juntariam alguns elementos do Football Club do Porto. Quanto ao team de Lisboa esse era capitaneado por Guilherme Pinto Basto, e reza a história que a viagem entre a capital e o Porto terá sido feita durante a madrugada que antecedeu o jogo e cuja duração chegou às 14 horas! Após o desembarque na Estação de Campanhã os lisboetas partiram de imediato para a zona do Campo Alegre onde de Sua Majestade o rei e restante família real... nem sinal! Mesmo sem a presença dos ilustres convidados o pontapé de saída foi dado quando passavam 15 minutos das três da tarde, tendo o encontro sido arbitrado por Eduardo Pinto Basto. Os jornais da época ressalvaram o facto de o terreno de jogo não ser dos melhores para a prática do futebol, referindo que a zona das balizas descaiam bastante, além de que os postes não se encontrariam à distância regulamentada! Quanto à família real essa chegou bastante atrasada ao espetáculo, quando passavam já 15 minutos das quatro da tarde, sendo que a pedido de Sua Majestade a Rainha D. Amélia os 22 players tiveram de fazer um esforço suplementar em prolongar a partida por mais 10 minutos para que os ilustres espectadores pudessem apreciar, devidamente, o espetáculo que terminou com a vitória da equipa mais experiente nestas andanças, isto é, a turma de Lisboa, por 1-0.
A bonita Cup d'el Rei, o primeiro troféu futebolístico instituído em Portugal, tendo sido disputado pelos grupos de Lisboa e Porto, em 1894
Os relatos do célebre encontro dizem que o golo dos lisboetas foi marcado já com a presença de suas majestades, embora o seu autor fosse por completo desconhecido! Rezam ainda as crónicas que o match teve na verdade dois golos, tendo o primeiro ocorrido quando faltavam 14 minutos para o intervalo, mas o facto de a bola ter batido no braço de um defensor da equipa nortenha antes de se encaminhar para o fundo da baliza levou a que o juiz Eduardo Pinto Basto anulasse o lance com a justificação de que o esférico havia sido jogado com a mão. Ainda segundo os relatos da época para a vitória do team de Lisboa - cujo golo foi marcado no segundo tempo - muito contribuíram as esplêndidas exibições dos irmãos Vilar, Carlos e Afonso, do inglês Rankin e ainda de Paiva Raposo. Para os portuenses sobraram alguns elogios, tidos como um team de primeira ordem, sendo que no plano individual se destacou as exibições do experiente escocês MacGeock, de Arthur Dagge e de MacMillen, facto que levou o jornal Sport - um dos primeiros periódicos portugueses dedicados ao desporto - referir que «se o grupo de Lisboa que, para o ano de 1895, tiver de defender a taça, não se treinar e não tiver muito cuidado na escolha dos jogadores que dele devem fazer parte, decerto bem difícil lhe será poder vencer o match, pois que, à equipa que vimos jogar pelo Porto, a única coisa que lhe notámos foi a falta de treinos, que, no que, estamos certos, não descurarão de futuro, a fim de poderem ganhar a taça, para o ano».
A notícia deste jogo teve eco além fronteiras, tendo os jornais ingleses publicado uma breve nota sobre o acontecimento ocorrido no Campo Alegre. Quanto ao troféu, o capitão e guarda-redes da equipa de Lisboa, Guilherme Pinto Basto, recebeu-o no final do encontro das mãos do rei D. Carlos, monarca que havia mandado executar esta peça banhada em prata na Casa Leitão & Irmão, joalheiros da Casa Real.  
Para a eternidade ficam as lines desse histórico embate: Porto - Hugh Ponsonly (c), MacGeock, A. Nugent, Guimarães, Arthur Dagge, MacMillen, Albert Kendall, Adolfo Ramos, MacKenie, Ray e Alfredo Kendall. Lisboa - Guilherme Pinto Basto (c), Keating, Locke, Barley, Artur Raposo, Rankin, Afonso Vilar, Pittuck, Thomson, Palmers e Carlos Vilar.
1893 e 1894 são anos repletos de matchs, não só nas duas principais urbes do país como noutras regiões de um Portugal que começava a abraçar nos seus quatro cantos o jovem football. Os jornais dão conta de desafios em Coimbra, Faro, Portalegre e Madeira, embora continue a ser na capital que a bola rola com mais frequência. O emblema com mais encontros disputados é o Football Club Lisbonense, que a par dos ingleses do Carcavelos Club é tido como o emblema mais forte do império. Há, aliás, em 1893 um duelo curioso entre estes dois clubes, disputado a 2 de fevereiro, no Campo das Salésias, e segundo as crónicas de então o Carcavelos, integrado por jogadores de outros teams lisboetas, como o Braço de Prata e o Club de Lisboa, derrotou por 1-0 o até então invencível Lisbonense, onde pontificavam três jogadores de origem negra - os primeiros negros do futebol português, segundo se sabe - Pascoal, Alfredo Silva e Valentim Machado.

Vídeo: Reportagem do Canal História sobre o primeiro troféu disputado em Portugal
 

terça-feira, abril 02, 2013

Histórias do Futebol em Portugal (12)... Nascimento da A.F. Lisboa coincide com o único título conquistado pelo primeiro grande clube português

Trazido pela mão dos irmãos Pinto Basto em finais do século XIX o futebol em Portugal iniciou a sua curva ascendente no que a popularidade diz respeito nos inícios dos 100 anos que se seguiram, altura em que surgiram os primeiros duelos acesos entre os clubes que iam florescendo a uma velocidade estonteante, duelos que começavam a despoletar nos corações do povo lusitano a paixão por aquele belo jogo nascido em Inglaterra. O primeiro grande centro futebolístico português foi Lisboa, cidade que em finais do século XIX e princípios do século XX viu nascer uma série de clubes que ajudaram a enraizar o jogo na cultura lusitana. Nasceram as primeiras rivalidades clubísticas, os primeiros disputadíssimos torneios, e naturalmente as primeiras lendas dos retângulos de jogo. Contudo, e talvez porque fosse algo novo, a organização foi digamos que o calcanhar de aquiles do jovem futebol português. Nos anos iniciais as regras muitas vezes não eram respeitadas, causando o caos entre clubes, jogadores, e adeptos. Foi preciso esperar até 1910 para que finalmente o futebol fosse estruturado dos pés à cabeça, tendo para isso muito contribuido o nascimento da Associação de Futebol de Lisboa (AFL), a primeira associação do país, e para muitos a primeira entidade reguladora a sério do fenómeno futebolístico luso.
Na viagem de hoje ao passado vamos então recordar as incidências do primeiro Campeonato (regional) de Lisboa organizado pela AFL, e recordar o seu primeiro campeão oficial, aquele que na época era o clube mais bem estruturado do ainda criança futebol nacional.

Como já vimos as competições inter-clubes começaram a surgir um pouco por todos os quatro cantos da capital portuguesa nos inícios do século passado. Esta atividade não era mais do que o resultado dos elevados índices de popularidade que o futebol grangeava na urbe lisboeta. A imprensa começava a dar destaque aos jogos que se desenrolavam aqui e acolá, e com naturalidade surgiram pois os primeiros campeonatos regionais. Em meados de 1906 os principais emblemas lisboetas da época reúnem-se com a intenção de criar um organismo que orientasse e coordenasse uma grande competição. Dessa reunião nasce a Liga Football Association (LFA), o organismo (presidido por Joaquim Costa e secretariado por um tal de José de Alvalade, esse mesmo, o mentor do Sporting Clube de Portugal) que tutela o primeiro campeonato de Lisboa, cujo pontapé de saída foi dado na temporada de 1906/07. Grande dominador do futebol daqueles dias o Carcavelos Club - composto exclusivamente por jogadores ingleses a laborar no Cabo Submarino - conquistou o título, levando a melhor sobre o Benfica, o Lisbon Cricket, e o Clube Internacional de Futebol, popularmente conhecido como CIF.
A arte futebolística dos ingleses do Carcavelos seria vincada nas duas edições seguintes, com a obtenção de mais dois ceptros regionais, sendo que na temporada de 1907/08 o Campeonato de Lisboa passa a ser organizado por uma nova entidade, a Liga Portuguesa de Futebol (LPF), a sucessora da LFA. Januário Barreto, médico de profissão, árbitro, jogador, e ilustre dirigente desportivo - exerceu entre outros cargos o de presidente do Sport Lisboa - foi o primeiro presidente do recém-nascido organismo. Mas a vida da LPF seria curta.

Ainda antes do Benfica colocar em 1909/10 um ponto final no reinado de três anos consecutivos dos ingleses do Carcavelos Club na competição, mosquistos por cordas começaram a surgir em catadupa no seio do futebol lisboeta. Com as rivalidades entre clubes ao rubro, as águas agitavam-se entre adeptos, jogadores e dirigentes. A indisciplina reinava nas relações entre clubes, causadas por queixas contra árbitros, ou decisões da LPF. Os regulamentos raramente eram cumpridos. Os jogadores mudavam de camisola quando bem lhes apetecesse, os clubes desistiam a meio das provas, além de que a segurança não existia numa época em que as rivalidades levavam os adeptos a ultrapassar a fronteira que separa os bons costumes da selvajaria. Tudo isto, ao que se juntou a morte de Januário Barreto, levou a que em 1910 a LPF fechasse portas. O futebol vivia em tumulto, tal como aliás o próprio país, que se encontrava em transição do regimo monárquico para o da república. Tumulto cujo ponto final foi colocado a 23 de setembro desse longínquio 1910, dia em que nasce a Associação de Futebol de Lisboa, a entidade que haveria de dinamizar o futebol associativo em Portugal dali em diante.
AFL que tomou de imediato conta do Campeonato de Lisboa, tendo logo em 1910/11 chamado a si a organização do certame, que iria contar com a participação de sete clubes, nomedamente o CIF, o Benfica, o Sporting, o Campo de Ourique, o Império, o Lisboa Football Club, e o União Belenense. Notava-se a ausência de alguns clubes históricos dos primeiros anos de futebol em Portugal, desde logo os ingleses do Carcavelos Club, que preferiam agora competir apenas em jogos particulares (!), enquanto que emblemas como o Lisbon Cricket e o Gilman desapareciam, tendo os seus valorosos atletas rumado para outras paragens. O CIF, por exemplo, reforçou-se com alguns atletas do Lisbon Cricket, ao passo que o Império recebeu quase toda a equipa (!) do Gilman. A AFL organizou o primeiro Campeonato (oficial) de Lisboa em três categorias: primeiras, segundas, e terceiras, sendo que as duas últimas se equiparavam a uma espécie de campeonatos de reservas.

O primeiro "regional" lisboeta teve início a 13 de novembro de 1910, tendo logo na ronda inaugural surgido uma enorme supresa. O campeão da época anterior, o Benfica, foi derrotado em casa pelo União Belenense, por 2-3 (!), o único desaire dos encarnados liderados pelo seu dirigente/treinador/jogador (!!!) Cosme Damião, mas que haveria de ser decisivo nas contas finais. Outro grande candidato ao título que iria tropeçar lá mais para a frente do campeonato era o Sporting, o clube aristocrata da sociedade lisboeta, o clube abastado financeiramente, que tinha nas suas fileiras alguns dos melhores jogadores lusos de então.
Os irmãos Stromp (Francisco e António) eram duas das principais estrelas leoninas, aos quais se juntavam os irmãos Catatau (António Rosa Rodrigues, e Cândido Rosa Rodrigues), responsáveis pela primeira grande traição do futebol lusitano no início do século passado.

Figuras de destaque dos primórdios do Benfica, António Rosa Rodrigues e Cândido Rosa Rodrigues desertaram do clube no final da temporada de 1906/07, rumo ao grande rival Sporting, que os aliciou com... banhos quentes e toalhas lavadas no final de cada jogo/treino (!), mordomias que o então pobre Benfica não possuia. Grande figura daquele Sporting era também Francisco dos Santos, o primeiro emigrante de sucesso do futebol português, a quem o Museu Virtual do Futebol já dedicou longas linhas numa outra visita ao passado. Só para relembrar os mais esquecidos Francisco dos Santos revelou-se como um cerebral médio-ofensivo no Casa Pia, em finais do século XIX, tendo posteriormente respresentado o Sport Lisboa - antecessor do Sport Lisboa e Benfica - antes de rumar ao estrangeiro para estudar... Belas Artes. Primeiro em Paris e depois em Roma, sendo que na Cidade Eterna para fazer face às enormes dificuldades financeiras vivenciadas arranjou emprego como... jogador de futebol. E em boa hora o fez, pois tornou-se de imediato numa referência do jovem calcio transalpino ao serviço da Lázio. No emblema da capital italiana destacou-se então, não sendo de admirar que a braçadeira de capitão lhe fosse entregue logo na primeira época! Foi um dos artistas do primeiro dérbi romano, entre Lázio e Roma, tendo o ilustre (jornal) Gazzetta dello Sport sublinhado que nesse jogo histórico estiveram em evidência dois jogadores... «o jovem Saraceni e o veterano Dos Santos, que com os seus 55 quilos foi, impressionante, dos melhores em campo...». De regresso a Portugal (em 1908) assinou pelo Sporting, ali terminando a sua brilhante carreira de futebolista, antes de se dedicar em exclusivo à atividade de escultor que o haveria de eternizar na História de Portugal.

Mas as estrelas só por si não ganham jogos, e o Sporting encontrou muitas dificuldades ao longo da sua caminhada no primeiro "regional" oficial de Lisboa. Dificuldades criadas sobretudo pelos seus dois maiores rivais, o Benfica, com quem perdeu na 6ª jornada por 5-1, e o CIF, que derrotaria os leões nos dois confrontos realizados, o primeiro (na 5ª jornada) por 1-0, e o segundo na 11ª ronda, por 2-0. Os desaires averbados nas 5ª e 6ª jornadas - diante dos seus principais rivais - ditaram praticamente o afastamento dos sportinguistas da luta pelo título, a qual foi quase de forma exclusiva protagonizada pelo CIF e pelo Benfica. Os duelos entre CIF e Benfica - cuja maior estrela era Cosme Damião - neste campeonato terminaram empatados, um a zero golos (na 2ª jornada), e outro a uma bola (na ronda número oito), pese embora a meta tenha sido cortada em primeiro lugar pelos primeiros, com um total de 22 pontos, contra os 20 dos encarnados.

Desta forma o CIF era assim coroado como o primeiro campeão oficial da AFL. Na última jornada do campeonato um facto caricato ocorreu no embate entre Benfica e Sporting, ocorrido no recinto do Lisboa Football Club, o Campo dos Castelos. A tarde futebolística teve início com uma partida das segundas categorias, cujo vencedor foi o Benfica, por 1-0. O público afeto ao Sporting não terá gostado da exibição do árbitro do encontro, queixando-se sobretudo do golo benfiquista, que segundo os leões teria sido apontado em fora de jogo. O ambiente estava incendiado, e mais ficou quando as primeiras categorias subiram ao retângulo de jogo. O Sporting abriu o marcador, mas logo depois o Benfica restabelece a igualdade em mais um lance... irregular, nas vozes leoninas. Estas sublinham uma carga evidente do marcador do golo benfiquista sobre o guarda-redes da casa, Gastão Pinto Basto. O árbitro do encontro, que por sinal era primo do guardião leonino, e que dava pelo nome de Eduardo Luís Pinto Basto, validou o tento, e a multidão em fúria invadiu o terreno de jogo. As cenas que se seguiram foram o que se pode chamar de um intenso combate de boxe (!) entre benfiquistas e sportinguistas. A AFL homologou a igualdade a uma bola, mas a Comissão de Árbitros não concordou, tendo então sido marcado um novo jogo entre ambas as equipas para 18 de julho de 1911, partida essa à qual o Sporting não compareceu, alegando num comunicado que «os benfiquistas não eram dignos de pisar as suas instalações»!

Bom, mas voltando ao campeão, ao CIF, o clube terminou a temporada de 1910/11 com um total de 10 vitórias alcançadas e apenas dois empates consentidos (ante o Benfica, como já vimos), tendo entre o seu grupo de notáveis jogadores destacado-se nomes como Eduardo Luis Pinto Basto, Merik Barley, W. Sissener, Augusto Sabbo, ou Luis Kruss Gomes. CIF que foi digamos que o primeiro grande clube de futebol em Portugal, sobretudo sob o ponto de vista estrutural, servindo de exemplo para muitos outros clubes que iriam nascer nos anos seguintes. Ligado diretamente aos introdutores do futebol em Portugal, os Pinto Basto, o CIF alcançou assim o único título oficial da sua hoje centenária vida, coincidindo com o nascimento de uma AFL que seria a semente para o crescimento do futebol português no plano organizativo. O exemplo organizativo da AFL deu origem a que mais tarde outras associações de futebol nascessem noutras regiões de Portugal que começavam também elas a ver os seus grupos futebolísticos darem os primeiros pontapés na bola de forma mais séria.

A figura: Eduardo Luís Pinto Basto

Oriundo da família responsável pela introdução do futebol em Portugal Eduardo Luís Pinto Basto foi para muitos a grande figura do primeiro campeonato oficial da AFL. Filho do pai do futebol português, Guilherme Pinto Basto, o homem que em 1884 trouxe de Inglaterra a primeira bola, e que em 1888 organizou o primeiro jogo - facto já mencionado pelo Museu Virtual do Futebol - Eduardo Luís Pinto Basto herdou do seu progenitor a paixão pelo desporto, e pelo futebol muito em particular. Além de jogador, foi árbitro, e dirigente, tendo sido um dos rostos da fundação do CIF. À semelhança do seu pai estudou em Inglaterra, onde teve contato com o belo jogo, e chegado a Portugal colocaria em prática esses conhecimentos, contribuindo e muito para o crescimento do futebol luso. O seu pai, Guilherme Pinto Basto, deu-nos a conhecer o jogo em finais do século XIX, ao passo que Eduardo ajudou a cimentá-lo nos inícios do século XX não só com a organização de jogos e torneios, mas também ao nível da própria estruturação deste fenómeno. Como jogador destingiu-se sobretudo na baliza, tal como o seu pai - mais um ponto em comum entre ambos -, tendo sido um dos primeiros grandes keepers lusos, brilhando com as cores do seu CIF, clube que ajudou a fundar juntamente com nomes sonantes da época como Carlos Villar, ou Joaquim Costa. CIF que foi o primeiro clube português a jogar além-fronteiras, facto ocorrido em 1907, quando os lisboetas foram à capital espanhola bater o Madrid FC - antecessor do Real Madrid - por 2-0. Eduardo Luís Pinto Basto estava na baliza. E na baliza estaria também em 1911 aquando da primeira visita de um clube estrangeiro a Portugal, no caso os franceses do Stade Bordelais, que enfrentaram em Lisboa além do CIF de Pinto Basto, o Benfica e uma seleção da AFL, que na baliza tinha... Eduardo Luíz Pinto Basto. AFL onde esta figura se distinguiu, quer como dirigente, quer como árbitro, tendo sido um dos juízes mais conceituados da época.
Nasceu a 6 de junho de 1886, precisamente dois anos antes do seu pai ter organizado o tal primeiro jogo de futebol em Portugal, nos terrenos da Parada, em Cascais. Faleceu em 1955.  

Números finais do primeiro Campeonato (oficial) de Lisboa 

1-CIF: 22 pontos
2-Benfica: 20 pontos
3-Sporting: 14 pontos
4-Campo de Ourique: 10 pontos
5-Império: 8 pontos
6-União Belenense: 6 pontos
7-Lisboa FC: 4 pontos

Resultados mais dilatados

Benfica - Lisboa FC: 15-0
Sporting - Lisboa FC: 14-0
CIF - Lisboa FC: 12-3
Campo de Ourique - CIF: 0-11

Legenda das fotografias:
1-Clube Internacional de Futebol, o popular CIF, o primeiro campeão da Associação de Futebol de Lisboa (AFL)
2-O notável dirigente desportivo Januário Barreto
3-Um dos primeiros escudos da AFL
4-Cosme Damião, a estrela do Benfica
5-Os irmãos Catatau
6-Jogo entre CIF e Sporting
7-Cosme Damião em ação contra o Império
8-Equipa do Benfica, vice campeã regional de 1911
9-Eduardo Luís Pinto Basto
10-Francisco dos Santos, uma das estrelas do primeiro campeonato da AFL

sexta-feira, novembro 23, 2012

Efemérides do Futebol (12)...

A primeira "seleção nacional"

Noutras visitas à história já recordámos a primeira vez que a seleção nacional de Portugal entrou em campo para defender a sua bandeira. Facto ocorrido, nunca é demais relembrar, a 18 de dezembro de 1921, em Madrid, diante da Espanha, que bateu o combinado luso por 3-1. Este foi efetivamente o primeiro encontro em que a seleção nacional portuguesa apareceu sob esta desiganção, mas mais de uma década antes a Associação de Futebol de Lisboa (AFL) reuniu alguns dos melhores clubes da sua região administrativa para representar a sua equipa em duelos ante equipas internacionais, equipa essa que seria batizada de... seleção nacional. A estreia desse combinado nacional ocorreu em Huelva (Espanha) a 27 de agosto de 1910 e resulta de um convite inicial do Recreativo daquela cidade castelhana a Eduardo Luís Pinto Basto, filho do introdutor do futebol em Portugal, Guilherme Pinto Basto, e dirigente/atleta do Clube Internacional de Futebol (CIF). Pinto Basto sugeriu o Sporting como substituto do CIF, que por motivos desconhecidos não se mostrou disponível para viajar até Espanha, acabando o CIF e o Sporting por decidir enviar uma equipa que fosse composta por jogadores provenientes de vários clubes filiados na AFL. E a equipa que viajou para Huelva e bateu o Recreativo local por 4-2 era composta por: António Bentes (Sporting), Augusto de Freitas (Sporting), Henrique Costa (Benfica), Francisco Bellas (Sport União Belenense), António Couto (Sporting), Cosme Damião (Benfica), António Rosa Rodrigues (Sporting), António Stromp (Sporting), Francisco Stromp (Sporting), e Luiz Vieira (Benfica).
Encantados com a experiência a AFL resolve em 1911 voltar a reunir a sua "seleção nacional", desta feita para enfrentar os franceses do Stade Bordelais, que a convite da associação lisboeta efetuaram três encontros em território português, um diante do CIF, outro com o Benfica, e por último ante a "seleção" da AFL. Este último desafio decorreu no dia 21 de maio, no Campo da Feiteira, em Lisboa, e a "seleção nacional", equipando de camisola azul e branca (cores da monaquia que então acabara de cair em Portugal), calção branco, e meia preta, alinhou com: Eduardo Luís Pinto Basto (CIF), Merick Barley (CIF), Henrique Costa (Benfica), William Sissener (CIF), Cosme Damião (Benfica), Artur José Pereira (Benfica), António Stromp (Sporting), Francisco Stromp (Sporting), António Rosa Rodrigues (Sporting), Carlos Sobral (CIF), e João Bentes (Sporting). Quanto ao resultado o conjunto luso esmagou o seu congénere gaulês por 5-1.
Nos anos que se seguiram a "seleção nacional" da AFL efetuou mais alguns jogos, sendo de sublinhar uma ida ao Brasil, onde no Rio de Janeiro somaram uma vitória, um empate, e duas derrotas.
Na imagem de cima pode ver-se a equipa da AFL, sob os desígnios de "seleção nacional" que enfrentou o Stade Bordelais na tarde de 21 de maio. (da esquerda para a direita na fila de baixo: António Stromp, António Rosa Rodrigues, Francisco Stromp, Carlos Sobral, e João Bentes. Em cima pela mesma ordem: Cosme Damião, Merick Barley, Eduardo Luís Pinto Basto, Henrique Costa, Artur José Pereira, e William Sissener).

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Histórias do Futebol em Portugal (3): O primeiro jogo oficial...

A mulher peluda do Jardim Zoológico figurou
no primeiro jogo oficial do futebol em Portugal


Em viagens passadas a bordo da Máquina do Tempo fomos ao encontro daquela que é tida como a primeira aparição oficial do futebol em Portugal. Um histórico momento ocorrido em 1888, em Cascais (nos terrenos da Parada), protagonizado por um grupo de veraneantes proveniente da mais fina flor da alta sociedade portuguesa daquela época, onde na qual se destacava Guilherme Pinto Basto, o grande responsável pela introdução do futebol em terras lusitanas. Sobre os acontecimentos desse célebre final de tarde de um – qualquer – domingo de outubro já aqui foram traçadas umas linhas aquando da visita feita ao ilustre pai do futebol português, Guilherme Pinto Basto, eternizado no Museu Virtual do Futebol no cantinho destinado às “estrelas cintilantes”.
Não será demais recordar que segundo o próprio Pinto Basto – anos mais tarde – aquele primeiro contacto com a bola – trazida de Inglaterra pelos seus irmãos Eduardo e Frederico – não passou senão de um “ensaio” onde 28 fidalgos travaram conhecimento com o jogo que apaixonou os irmãos Pinto Basto aquando da passagem destes por terras inglesas. Foi digamos que uma espécie de aula ministrada pelos Pinto Basto ao seu ilustre leque de amigos sobre aquilo que viria tempos mais tarde a tornar-se no ópio do povo.
E não demorou muito para que o recém-nascido futebol – em Portugal – começasse a gatinhar. Poucos meses após o “ensaio” de Cascais realizou-se aquele que é considerado o primeiro grande duelo da modalidade no nosso país, o primeiro jogo a sério, o oposto do cenário descontraido e familiar edificado por aqueles 28 aristocratas nos terrenos da Parada. Recorrendo a alguns desses 28 elitistas Guilherme Pinto Basto montou uma equipa – não se sabe se com muito ou pouco jeito para encenar o “pontapé na bola”, o primeiro nome dado pelos populares lusitanos à modalidade – que ousou enfrentar os mestres do “football” moderno, vulgo os ingleses. Súbitos de “Sua Majestade” que constituiram um “team” formado por empregados do Cabo Submarino e da Casa Graham.
Lisboa e os terrenos do seu Campo Pequeno – na altura ainda sem toiros – presenciaram na tarde de 22 de janeiro de 1889 a batalha entre os fidalgos portugueses e os operários ingleses, tendo ao local ocorrido um vasto número de personagens possuídas por ávida curiosidade em presenciar o ato bárbaro de pontapear uma bola protagonizado por 22 homens.
Eternizados ficaram pois os seus nomes, sendo que pelos portugueses se apresentaram em campo: Guilherme Pinto Basto (sabe-se na qualidade de guarda redes), João Saldanha Pinto Basto, João Bregaro, Eduardo Romero, Eduardo Pinto Basto, Afonso Vilar, D. Simão de Sousa Coutinho (Borba), Duarte Pinto Basto, Frederico Pinto Basto, Fernando Pinto Basto, Augusto Moller e Henrique Vilar. 12 nomes do lado lusitano, presumindo-se que um deles tivesse sido suplente. Pela armada britânica entraram em campo: J. Frazer, J. Mason, C. Anderson. Wray. R. W. Watson, Rawstron, Govan, Briggs, F. Palmer, C. Cox e um outro jogador não identificado.
Pormenor curioso foram os equipamentos. Caricatos, na verdade! Trajes para todos os gostos e feitios. Houve quem levasse fatos de banhos às riscas (!) outros com endumentária de presidiários calçando sapatos no lugar de botas, e quase todos eles ostentando um peculiar barrete a fazer lembrar um vendedor de gelados deambulando pelas praias!
Táticas de jogo não parece que tenham existido, até porque o único objetivo era pontapear a bola para a frente na tentativa de a introduzir no “goal” adversário. Na plateia senhoras da alta sociedade com vestes de gala olhavam com chocada admiração as correrias bárbaras dos “gentelmens” lusitanos e dos trabalhdores britânicos. Pormenores mais detalhados da contenda são desconhecidos, apenas se sabe que os corajosos portugueses venceram, embora não se sabe por quantos nem quem foram os autores dos “goals”.
Desse histórico momento daquela tarde ventosa há no entanto uma relíquia ainda hoje guardada. Uma deliciosa e – muito – peculiar crónica publicada no “Jornal do Comércio” de 23 de janeiro de 1889. De autor desconhecido este é tido como o primeiro texto escrito em Portugal retratando os acontecimentos de um “match de football”, o qual foi ilustrado por uma não menos peculiar ilustração que também aqui hoje recordamos. Sem mais demoras aqui fica o “retrato escrito” daquele momento cujo título é senão mais do que uma curiosa combinação de palavras das emoções ali vividas:

«O “Match” no Campo Pequeno – A mulher peluda no Jardim Zoológico

Uma quantidade enorme de pessoas foi hoje ao Campo Pequeno assistir ao desafio, entre ingleses e portugueses, de futebol. Grande número de carruagens com elegantes senhoras, entre as quais se destacavam mademoiselle Ida Blanc, governando galhardamente, ao lado de sua mãe, uma soberba parelha de cavalos pretos. O resultado do jogo foi muito lisongeiro para os nossos compatriotas que conseguiram ganhar. Não faltaram os trambolhões e os rebolões do próprio jogo, mostrando todos os fortes mancebos, que nele tomaram parte, quão exímios são no “manejo” do pontapé, como disse uma elegante que, por casualidade, ficou ao pé de nós. Quase toda a gente, findo o futebol, foi passear ao Jardim Zoológico, onde se exibia a persa Mirra, a mulher peluda».


Uma crónica pituresca de um acontecimento que nas décadas seguintes do novo século que se aproximava haveria de se tornar num ritual comum das tardes domingueiras para as gentes da brava nação lusitana.

Legendas das fotografias:
1-A equipa portuguesa, com o pai do futebol português, Guilherme Pinto Basto, a figurar na fila de cima, em quarto lugar, da esquerda para a direito
2-O combinado inglês
3-A pisturesca ilustração que acompanhou a peculiar crónica do "match"