sexta-feira, setembro 11, 2026

Histórias do Futebol em Portugal (52)... Boavista: o pioneiro do profissionalismo em Portugal e a estreia do mítico xadrez nas camisolas

 

Uma das primeiras equipas do Boavista após a implementação 
do xadrez como manto sagrado 

O doloroso presente que o Boavista vive não tem força suficiente para ofuscar o seu passado de glória. Ao longo de mais de um século de vida, o emblema portuense escreveu centenas de páginas relevantes no desporto português. E esta evidência leva-nos hoje até 1933, ano em que o clube do Bessa não só se reinventou sob o ponto de vista indumentário, como de igual modo teve um papel preponderante para acabar com o profissionalismo encapotado que vigorava em Portugal. E tudo isto pela mão de uma figura incontornável do clube do Bessa e do próprio desporto nacional: Artur d’ Oliveira Valença. Nascido em fevereiro de 1897, este tripeiro de gema (viria a falecer em 1978) foi uma figura incontornável da primeira metade do século XX não só no desporto como da sociedade portuense dessa altura. Foi um homem multifacetado ao desempenhar diversos cargos ao longo da sua vida, fazendo-o sempre com um sentido de inovação que deixou marca. Era um apaixonado pelo desporto de uma forma geral, embora o boxe tenha sido o seu primeiro grande amor. Talvez porque na sua juventude viveu alguns anos em França, onde a modalidade tinha força e prestígio. Regressado a Portugal nos anos 10, não só funda o Boxing Clube de Portugal como lança e orienta as primeiras estrelas da modalidade, casos de Tavares Crespo e Santa Camarão. Como empreendedor multifacetado que era, Oliveira Valença tinha de igual modo uma paixão pela escrita, e pelos jornais em particular, sendo que nos anos 20 criou o Sporting, o primeiro jornal desportivo bissemanário portuense. Este jornal serviria – sempre pela mão do seu fundador – de embrião para a fundação de outros organismos/clubes de diversas modalidades, cados da Federação Portuguesa de Boxe, da Federação Portuguesa de Remo, da Liga Portuguesa de Clubes de Natação, do Moto Club de Portugal, da Liga Portuguesa de Atletismo, entre outros. Oliveira Valença organizaria diversas competições desportivas no país ligadas a estas e a outras modalidades. Claro que o futebol tinha também um espaço reservado no seu coração. O futebol e muito em particular o seu Boavista Futebol Clube, ao qual esteve igualmente ligado enquanto presidente. E foi nesta condição que no regresso à Invicta após uma das suas idas a França trouxe a ideia de implementar as camisolas axadrezadas no clube do Bessa. As famosas camisolas axadrezadas que tornaram o Boavista popular em todos os cantos do país e noutros cantos do planeta. 

O peculiar equipamento e símbolo 
do Boavista antes do xadrez

Até aí, o emblema portuense apresentava uma indumentária um pouco fora do comum para aqueles dias, isto é, usava uma camisola às riscas verticais em azul, vermelho e branco! Mas não só o traje foi completamente reformado por influência de Oliveira Valença. O próprio emblema do clube foi alterado para o qual conhecemos hoje em dia: um retângulo formado por 13 quadrados pretos e 12 quadrados brancos exibidos em forma de xadrez. Oliveira Valença não só apenas alterou para sempre a estética do Boavista. Ele conduziu de igual modo o clube numa luta acérrima que procurou colocar um ponto final no profissionalismo encapotado que vigorava no futebol português nos anos 20. Nessa altura já havia jogadores profissionais em Portugal, pese embora fossem remunerados secretamente e/ou escondidos em empregos de fachada, pois na verdade passavam o tempo todo a treinar e a jogar. Já na época os clubes mais endinheirados pagavam a muitos jogadores prémios de jogo de forma totalmente clandestina, e como tal longe dos olhares da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e das associações de futebol distrital, organismos que proibiam o profissionalismo. Mas Oliveira Valença foi um dos rostos principais dessa luta para acabar com o amadorismo de fachada que existia em Portugal, ele e o seu Boavista. E esse murro na mesa aconteceu oficialmente em 1933, precisamente o ano em que o clube do Bessa estreou a sua hoje mítica camisola axadrezada. O fim do profissionalismo encapotado vinha, aliás, sendo discutido aberta e frontalmente por algumas personalidades do panorama desportivo luso, casos de Cândido de Oliveira e do próprio Oliveira Valença. 

A transição de símbolos do clube
O grito do Ipiranga terá sido dado na sequência do polémico “caso Nova”, o qual envolveu o Boavista e o Futebol Clube do Porto. Reza a história que um dirigente boavisteiro terá oferecido do seu bolso 70 escudos por semana ao futebolista João Nova para que este vestisse de xadrez, mas da Constituição chegava uma oferta maior: 150 escudos por semana. Nova aceita a proposta dos portistas e do Bessa surge a denúncia à Federação que valeu a suspensão do futebolista por um ano. No entanto, este caso levantou outras suspeitas quer de dirigentes federativos, quer de dirigentes das associações de futebol distrital. A Associação de Futebol do Porto terá descoberto oito jogadores “profissionais” no Boavista, multando posteriormente o clube em 12.000 escuros e suspendendo-o de três jornadas do seu campeonato regional. Estes episódios fizeram com que Oliveira Valença e o Boavista enquanto instituição desportiva lutassem com mais vigor pela legalização do profissionalismo no futebol. Até que a dia 29 de janeiro de 1933 se fez história em Portugal: o Boavista assumia-se abertamente como o primeiro clube profissional em Portugal. 

Oliveira Valença 
E fê-lo num encontro diante do Benfica, no Bessa. Foi um dia de uma estreia tripla, isto é, pela primeira vez o Boavista envergou as célebres camisolas axadrezadas, fez ainda a estreia do seu nome emblema, e atuou pela primeira vez e assumidamente com jogadores pagos. A ousadia boavisteira por este último facto acabaria por se pagar caro, já que na sequência deste jogo a FPF decidiu suspender o clube das suas provas pelo período de um ano. Porém, este seria o primeiro passo para que fossem abertas as portas do profissionalismo em Portugal. É justo pois atribuir ao Boavista o título de “pioneiro do futebol profissional em Portugal”. Quanto ao célebre jogo ante o Benfica o score saldou-se num 4-0 a favor dos portuenses, graças a um hattrick de Ferraz e a um golo de Vasco Nunes. O primeiro onze de profissionais de cara destapada em Portugal vestiu pois de xadrez e foi o seguinte: Soares do Reis, Luzia, Óscar, Carlos Pereira, Guimarães, Serafim, Klamar, Vasco Nunes, Costuras, Ferraz e Lima.

quinta-feira, setembro 03, 2026

Histórias do Planeta da Bola (36)... Irmãos de sangue, destinos distintos no caminho da glória

Ser filho da mesma mãe e do mesmo pai não significa que dois (ou mais) irmãos possam ter as mesmas apetências para desempenhar uma qualquer atividade com arte e engenho. Isso acontece também no futebol, onde o talento com a bola não se repercutiu entre irmãos biológicos. Isto abre-nos a porta para recordar quatro lendas do futebol planetário cujos irmãos de sangue não conseguiram atingir o estrelato.

Zoca e Pelé no Santos
O primeiro exemplo diz-nos que numa monarquia o acesso ao trono não está predestinado a todos os irmãos de sangue. Que o diga o Rei Pelé, cujo irmão não lhe seguiu as pisadas no glorioso Santos da década de 60. Jair Arantes do Nascimento era dois anos mais novo que o seu irmão Edson – o nome de batismo do Rei – e quando se tentou afirmar no clube da Vila Belmiro já Pelé lá reinava. Tal como o seu irmão mais velho, Zoca, como era conhecido Jair, cresceu na rua a correr de pé descalço atrás de uma bola de futebol feita de trapos. Edson e Jair partilhavam a mesma paixão pelo jogo, muito influenciados pelo pai de ambos, Dondinho, também ele jogador de futebol. Vendo o diamante bruto que Pelé já era, o Santos decide nos inícios da década de 60 chamar Zoca para integrar as suas equipas de formação. As dificuldades de Zoca - que atuava como avançado - em se impor no futebol começaram assim que chegou à equipa principal do clube, que tinha uma poderosa linha ofensiva constituída por Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Destronar algum destes craques era uma missão quase impossível para Zoca, que mesmo assim entre 1961 e 1962 realizou 15 jogos com o conjunto principal santista, tendo apontado quatro golos. A pressão de ser irmão do Rei foi grande para Zoca, e exemplo disso terá acontecido em abril de 61 num jogo diante do América do Rio de Janeiro a contar para o Torneio Rio-São Paulo. Numa altura em que o Santos já goleava o clube carioca, o técnico santista, Lula, decidiu dar uma oportunidade a Zoca, que então entrou para o lugar de Coutinho. De pronto, houve um burburinho nas bancadas da Vila Belmiro, que se entusiasmaram com a presença do irmão do seu Rei. Quase no términus da partida, e numa altura em que o Santos já vencia por 6-1, o árbitro assinala uma grande penalidade a favor da equipa da casa. Chamado à conversão, Zoca treme e desperdiça o castigo máximo. O aspirante não estava à altura do seu legado de sangue. A sua presença na equipa principal do Santos foi sendo cada vez mais intermitente, até que com apenas 20 anos de idade tomou a decisão de abandonar o futebol para se tornar no fiel escudeiro do seu irmão. Por outras palavras, passou a trabalhar nas empresas associadas à marca Pelé como “braço direito” do irmão nos negócios a ele associados. Zoca viria a falecer cerca de dois anos antes que o seu irmão, mais concretamente em 2020, vitimado por um cancro na próstata.

Franz e Walter num amigável nos anos 70
entre o Bayern e o TSV 1860
Outro exemplo de irmãos que tiveram sortes distintas no futebol vem de Munique, mais precisamente no bairro de Giesing, onde na década de 50 os irmãos Walter e Franz Beckenbauer cresceram juntos com a paixão comum pelo futebol que ali praticavam na rua. Quatro anos mais novo que o seu irmão, Franz começou por jogar como guarda-redes nos animados duelos que eram disputados entre a miudagem do bairro, mas rapidamente se percebeu que o seu talento ia muito para lá das balizas. Foi Walter que abriu as portas do Bayern para o seu irmão mais novo, clube que representou nas camadas jovens. Diz-se que Walter era um médio ofensivo com algum talento e rapidez, última característica esta comum ao seu irmão mais novo. Por seu lado, Franz atuava no vizinho de Munique, o TSV 1860, o clube onde jogava a maioria dos amigos dos dois irmãos Beckenbauer. E com a chegada do irmão mais novo ao colosso da Baviera, Walter faz o caminho inverso e saí do Bayern para ingressar no TSV 1860. E enquanto Franz disparou rumo ao estrelato mundial, quer ao serviço do Bayern, quer da seleção alemã, o irmão mais velho acabou por se afastar do futebol e enveredar por uma carreira ligado à venda de impressoras.

Johan (o terceiro na fila de baixo) e o seu 
irmão Henny (segundo na fila de cima) atuaram
juntos na formação do Ajax
Se atravessarmos a fronteira entre a Alemanha e os Países Baixos constatamos que em Amesterdão se vivenciou uma história muito parecida com a dos irmãos Beckenbauer. Neste caso, a história dos irmãos Cruyff, Hermanus e Johan. O primeiro era mais velho dois anos e meio, e tal como o seu irmão jogou nas categorias base do Ajax. Diz-se que era um lateral esquerdo raçudo e com algum talento. Henny – como ficou conhecido no mundo da bola o irmão do Cruyff mais mediático – e Johan fizeram juntos o curto caminho que separava a sua casa, na zona de Betondorp, rumo ao estádio do Ajax e juntos chegaram a jogar pela equipa da academia na época de 62/63. Conta-se que sempre que o franzino Johan, então com 15 anos, sofria uma entrada mais dura de algum adversário, Henny corria em socorro do irmão para tirar satisfações com o infrator. Após sair da formação do Ajax, Henny ainda atuou por duas temporadas ao serviço do modesto Blauw Wit, competindo nos escalões amadores. Por pouco tempo, já que após ter decidido pendurar as botas, ainda jovem, tomou conta de uma loja de artigos desportivos em Amesterdão, a qual batizou de Smit-Cruyff. Apesar de não ter seguido o caminho do irmão mais novo, Henny nunca deixou de amar o futebol, tendo inclusive feito parte da equipa de veteranos do Ajax, clube do qual sempre foi um fervoroso adepto, independentemente do seu irmão ter sido a maior lenda do clube de Amesterdão. A ligação de Henny a estrelas do futebol neerlandês não se esgotou ao seu irmão mais novo, já que a sua filha, Estelle Cruyff, foi casada com outra super-estrela do futebol laranja dos anos 80 e 90, Ruud Gullit. Henny viria a falecer em 2023, numa altura em que há já vários anos sofria da doença de Alzheimer.

Hugo, Lalo e Diego num jogo especial que juntou 
os três irmãos Maradona  
Voltando à América do Sul para conhecer um outro caso de irmãos que seguiram caminhos completamente distintos no Planeta da Bola. Estamos em Villa Fiorito, um bairro pobre nos subúrbios de Buenos Aires, onde numa casa modesta vivia o casal Diego Maradona e Dalma Salvadora Franco. Depois do nascimento de Ana Maria e Rita chegou o terceiro filho do casal, o primeiro filho varão, a quem deram o nome do pai, Diego. Depois deste vieram Raúl (Lalo), Hugo (El Turco), Maria Rosa e Cláudia, que completaram assim o Clã Maradona. Como tantos meninos pobres na Argentina os três rapazes passaram a infância na rua, atrás de uma bola. Porém, só um deles conseguiu chegar ao Olimpo: Diego Armando Maradona. Lalo e El Turco também enveredaram pela carreira de futebolistas, mas viveram sempre na sombra do irmão mais famoso. Por outras palavras, o sobrenome Maradona foi-lhes abrindo sempre portas “aqui e acolá” mais do que o talento que apresentavam como "cartão de visita". Hugo, vulgo El Turco, por exemplo, que era nove anos mais novo que Diego chegou a jogar nas seleções jovens da Argentina – jogou, inclusive, o Mundial de sub-20 de 1985 como seu país–, embora fosse notório que estava muito longe de ter o talento do seu irmão mais velho. Começou no Argentino Juniors, o mesmo clube que lançou Diego. Em 1987 o mais velho dos irmãos Maradona usa da sua influência junto dos dirigentes do Napoli para trazer Hugo para o clube do sul de Itália. Pedido aceite, mas… Hugo não era Diego e o Napoli decido empresta-lo ao Ascoli. Hugo não encantou, longe disso, e a partir dali tornou-se num verdadeiro globetrotter à boleia do futebol. Passou por Espanha, Venezuela, Áustria, Japão, Canadá, Uruguai e Paraguai, sempre de forma muito discreta. Hugo morreu em 2021 na cidade onde o seu irmão mais velho era D10S: Nápoles. Por sua vez, Lalo Maradona teve um percurso muito semelhante ao de Hugo. Fez, porém, uma carreira um pouco mais pomposa que a de Hugo, tendo-se estreado no clube pelo qual era apaixonado – tal como os seus dois irmãos –, o Boca Juniors em meados dos anos 80. Lalo era um médio de vocação ofensiva, que mesmo não tendo deslumbrado na Bombonera deu o salto para a Europa nos finais dessa década de 80. Foi para o Granada, de Espanha, para onde foi a troco de 25 milhões de pesetas. As coisas até nem começaram mal para Lalo, que nos primeiros tempos entusiasmou os adeptos locais com o seu futebol com rasgos maradonianos. No entanto, com a ausência de resultados positivos, a estrela de Lalo em Granada começou a pouco e pouco a apagar-se ao final de duas épocas em que ali esteve. Ainda assim, há um episódio muito especial na vida dos três irmãos Maradona vivenciada aquando da estadia de Lalo em Granada. Ele, juntamente com Diego e Hugo envergaram a camisola do clube andaluz num encontro particular ante os suecos do Malmo, em 1987. Os espanhóis venceram por 3-2, com um golo de Lalo após assistência de… Diego. Após a descida do Granada à 2.ª Divisão espanhola, Lalo deixou o clube e rumou ao Japão para defender as cores do Avispa Fukuoka. Dali imitou Hugo e tornou-se num globetrotter ao jogar em vários clubes de países distintos: o Defensa y Justicia (Uruguai), o Toronto Italia (Canadá), Deportivo Municipal (do Perú), o Deportivo Laferre e o Deportivo Italia (ambos da Venezuela). Aquele que para Diego era o melhor dos três irmãos Maradona (!) é hoje em dia treinador de equipas de formação na Argentina e o único dos três ainda vivo.