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quinta-feira, maio 28, 2015

Histórias do Planeta da Bola (10)... Os anos dourados (1927-1939) da Taça Mitropa - A primeira montra de estrelas do futebol europeu (parte V)

Matthias Sindelar, uma das maiores figuras da história
da Taça Mitropa tenta aqui passar pelos

defesas do Ferencvaros na meia-final de 1935
Iniciamos hoje a penúltima de uma série de seis viagens pela era dourada (1927-1939) da Mitropa Cup, a competição progenitora das atuais eurotaças. E a nossa primeira paragem nesta nova incursão ao passado da prova idealizada por Hugo Meisl dá-se em 1935, ano em que um célebre cidadão belga centrou em si as luzes da ribalta da 9ª edição da competição continental.O seu nome? Raymond Braine, foi ele o general que conduziu o exército do Sparta de Praga à conquista da Europa do futebol pela segunda vez na história do mítico clube checoslovaco. Com uma técnica sublime aliada a um apurado faro para o golo, ele foi o ás de trunfo do Sparta de Ferro para dizimar a feroz concorrência. Sparta que apareceu nesta edição da Mitropa na condição de vice-campeão da Checoslováquia, tendo na primeira ronda enfrentado outro antigo campeão do certame continental, os austríacos do First Viena. O primeiro embate deu-se na Áustria, tendo o Sparta oferecido o jogo ao inimigo, isto é, permitiu que o First controlasse do princípio ao fim o rumo dos acontecimentos, optando por jogar apenas em contra-ataque, criando uma série de lances venenosos que semeavam o pânico no último reduto vienense. Num desses lances Nejedly marcou o golo que valeu um precioso empate (1-1) com que os checoslovacos deixaram a capital austríaca. Na segunda mão, tudo foi diferente. O Sparta assumiu o jogo, partindo com toda a sua armada para cima dos vienenses, que pouco puderam fazer para evitar a derrota (5-3) e a consequente eliminação. No plano individual Braine e Olidich Zajiek dividiram o protagonismo: o primeiro foi o cérebro da equipa, ao passo que o segundo assumiu o papel de goleador, ao apontar três dos cinco golos do emblema de Praga.
Raymond Braine, a grande figura
da 9ª edição da Taça Mitropa
E por falar na capital da então Checoslováquia, a outra equipa desta cidade, o Slavia, também entrou com o pé direito na edição de 1935 da Taça Mitropa, após vencer os estreantes do Szegedi, modesto clube húngaro que foi arrasado na primeira mão da eliminatória pelo endiabrado Kopecky, autor de três dos quatro golos com que os campeões da Checoslováquia bateram (4-1) o quarto classificado do campeonato húngaro na sua própria casa. Com a passagem à fase seguinte praticamente assegurada o Slavia relaxou na segunda mão, permitindo que o Szegedi saísse de Praga com uma vitória por 1-0. 
A grande surpresa desta primeira ronda foi protagonizada por outro caloiro nestas andanças, o Zidenice, que surgia na competição por via do terceiro posto conquistado no campeonato da Checoslováquia. Na entrada para a eliminatória o papel do Zidenice na prova não seria mais do que um mero participante, até porque o oponente dava pelo nome de Rapid de Viena, campeão da Áustria, e um dos grandes candidatos ao triunfo final. A surpresa começou a ser desenhada na primeira mão, quando diante do seu público o Zidenice chegou ao intervalo a vencer os austríacos por 3-0, com a particularidade destes três golos terem sido apontados por Vaclav Prusa. Na segunda parte o Rapid puxou dos seus galões e conseguiu reduzir para 2-3, resultado que encerrou o marcador, e que fazia sonhar o campeão da Áustria com uma reviravolta fácil no seu estádio. Como estavam enganados! Em Viena, o Zidenice alcançou um empate a duas bolas – ao intervalo vencia por 2-1 –, garantindo uma impensável qualificação para os quartos-de-final, colocando assim rostos de espanto na Europa do futebol.
A edição de 1935 da Mitropa Cup foi de má memória para a maioria dos conjuntos austríacos. Depois do Rapid e do First Viena terem dito adeus à competição logo na primeira eliminatória, o Admira foi pelo mesmo caminho, após cair com estrondo aos pés do MTK de Budapeste por um total de 9-4. Um desfecho que inicialmente até não era de todo previsível, já que em Viena o Admira venceu por 3-2 o seu adversário. Somente 3-2, há que sublinhá-lo, pois o desperdício foi uma característica evidente na performance do vice-campeão austríaco ao longo de toda a partida. Com muito menos oportunidades de golo mas tremendamente eficazes na hora de rematar à baliza os húngaros apontaram dois preciosos golos que lhes deram grandes esperanças para o embate da segunda mão, golos esses apontados por Heinrich Muller, jogador de nacionalidade... austríaca. O jogo de volta resumiu-se ao vendaval ofensivo do MTK, vendaval esse que demorou 45 minutos a surgir, já que ao intervalo o Admira vencia por 1-0. Os segundos 45 minutos foram então explosivos para a turma da casa, que apontou sete golos, três deles por intermédio de Cseh.
Ai está Sindelar em mais um ataque
às redes contrárias
A exceção ao pobre desempenho das equipas austríacas nesta 9ª edição da Mitropa foi o Austria de Viena, conjunto cuja estrela principal dava pelo nome de Matthias Sindelar, o Mozart do futebol, como ainda hoje é conhecido. O Austria, que aparecia nesta competição pelo facto de ter vencido a taça do seu país, mediu forças com os italianos da Ambrosiana-Inter, reeditando assim a final de 1933 da Taça Mitropa. Mais do que a reedição da citada final ocorrida dois anos antes este jogo marcou o reencontro de dois dos maiores génios do futebol internacional daqueles dias, Sindelar e Giuseppe Mezza. Levou a melhor o austríaco, que esteve envolvido nos cinco golos com que a sua equipa derrotou (5-2) os transalpinos. No encontro de volta, em Viena, Sindi realizou mais uma soberba exibição, culminada com a obtenção dos três golos com que o Austria derrotou, mais uma vez, os vice-campeões de Itália.
Quem também saiu humilhada da prova logo na primeira ronda foi a Roma, que depositava na sua estrela-mor, Enrique Guaita, as esperanças em afastar os húngaros do Ferencvaros. E a primeira mão, jogada na capital italiana, até nem correu mal, já que um triunfo por 3-1, com o destaque individual a ir para Scopelli, autor de dois golos. Em Budapeste o descalabro aconteceu. Uma exibição verdadeiramente assombrosa – no bom sentido – de Gyorgy Sarosi abriu caminho à goleada de 8-0 (!) oferecido pelo vice-campeão da Hungria à squadra orientada por Luigi Barbesino. Sarosi marcou por quatro vezes – três delas de grande penalidade – abrindo desta forma o caminho até... à grande final.
O onze da Fiorentina que em 1935 fez a estreia do emblema viola nas competições europeias
Estreia absoluta nestas andanças europeias teve a Fiorentina, que a 16 de junho de 1935 media forças com o campeão da Hungria, o Ujpest, em território inimigo. Mas nem este facto amedrontou os ragazzi de Florença, sobretudo os dois extremos da equipa viola, Comini e Gringa, os quais além de terem feito os dois únicos golos do jogo semearam inúmeras vezes o pânico no reduto defensivo dos locais. Em Florença o Ujpest arriscou tudo na tentativa de corrigir o resultado negativo averbado em casa, exibindo uma postura totalmente ofensiva. Porém, e uma vez mais, os italianos não baixaram a guarda, e responderam na mesma moeda. O resultado final deste duelo de parada e resposta foi um novo triunfo da Fiorentina, desta feita por 4-3, com três dos golos viola a serem da autoria de Cesare Augusto Fasanelli.
Passagem de eliminatória relativamente tranquila tiveram os penta campeões italianos, a Juventus, que se desenvencilhou dos checoslovacos do Viktoria Plzen por 8-4 – no total das duas mãos. Na Checoslováquia a Vecchia Signora empatou a três bolas, enquanto que em Turim o Viktoria foi autenticamente atropelado por 5-1, sendo aqui de sublinhar a magnífica exibição individual de Giovanni Ferrari.
Página do jornal que retatou o massacre
do Ferencvaros à Roma
A Taça Mitropa de 1935 foi farta em resultados avolumados. À semelhança do que havia ocorrido na primeira ronda, os quartos-de-final foram férteis em goleadas. A maior delas foi obtida pelos futuros campeões, o Sparta de Praga, cujo tridente ofensivo – Nejedly, Facsinek, e Braine – abateu o muro viola com sete tiros certeiros. A segunda mão foi pois um passeio para os checolosvacos, que jogando de forma descontraída – demasiado até – permitiram que a Fiorentina se despedisse do certame com uma vitória (3-1.) Melhor destino teve a outra equipa italiana por esta altura ainda em prova, a Juventus, que da viagem até Budapeste trouxe uma confortável vitória por 3-1. Uma vitória heróica há que referi-lo, já que a Juve jogou com menos um homem desde os 40 minutos. Neste jogo a linha da frente dos transalpinos esteve diabólica, em particular Ferrari, autor de um golo e de uma belíssima exibição. Na segunda mão Ferrari voltou a fazer o gosto ao pé, e depois disso foi a vez da defesa – edificada por Foni, Rosetta, Bertolini, e Monti – da Juve brilhar a grande altura ao travar a esmagadora maioria dos venenosos ataques dos contrários, que só por uma vez conseguiram bater o guardião Valinasso.
Quem continuou a surpreender a Europa futebolística foi o Zidenice, cujo futebol mais físico causou mossa ao Ferencvaros, uma equipa tecnicamente mais evoluída que os checoslovacos. 4-2 a favor do surpreendente Zidencie, foi o score final da primeira mão. Em Budapeste os vice-campeões húngaros deram a volta à eliminatória, e que volta (!), conforme expressa o pesado marcador de 6-1 a seu favor, com Toldi e Sarosi em evidência ao apontarem, cada um deles, dois golos. Mais equilibrado foi o duelo entre o Austria de Viena e o Slavia de Praga, resolvido num jogo extra. Mas já lá vamos. Na primeira mão, ocorrida em Praga, o Slavia venceu por 1-0, enquanto que na volta, em Viena, o Austria derrotou o seu oponente por 2-1. Surgiu então a necessidade de um play-off, jogo decisivo este em que Sindelar voltou a estar magnífico. Jogou (muito) e fez jogar todos os seus companheiros, uma estupenda exibição coletiva que foi concluída com uma robusta vitória por 5-2. Sindi fez um dos golos.
Gyorgy Sarosi, estrela do Ferencvaros
e melhor marcador (9 golos)
da Taça Mitropa de 1935
Necessidade de um jogo de desempate voltou a surgir nas meias-finais, mais concretamente no braço de ferro entre Sparta de Praga e Juventus. Na primeira mão, realizada na capital da então Checoslováquia, o setor recuado dos anfitriões exibiu-se a um nível perfeito, impedido com classe que a temível linha avançada dos transalpinos causasse estragos na baliza à guarda de Klenovec. A Juve saiu de Praga derrotada por 2-0. E mais do que isso viu-se impedida de utilizar Monti na segunda mão, já que o ítalo-argentino recebeu ordem de expulsão no jogo do Estádio Strahov. A segunda mão teve contornos dramáticos. Com dois golos de Borel a Juventus igualou a eliminatória, mas à passagem do minuto 52 Nejedly gelou o tiffosi presentes no Stadio Benito Mussolini, em Turim, ao reduzir para 1-2 e recolocar o Sparta na frente do combate. Depois disto o jogo teve quase única e exclusivamente sentido único, o da baliza forasteira, e aos 85 minutos a Juve ganha uma grande penalidade a seu favor. Castigo máximo que no entanto seria salvo pelo guardião Klenovec, uma defesa festejada como se de um golo se tratasse, já que a passagem à final estava praticamente assegurada. No entanto, os jogos só terminam quando o árbitro apita, e em cima do minuto 90 Borel volta a faturar, levando a decisão para um play-off. No duelo decisivo voltou a brilhar a estrela de Raymond Braine, jogador que ao longo de 90 minutos causou enormes calafrios na defesa da Vecchia Signora. O avançado belga apontou dois golos e viu ainda os seus companheiros baterem Valinasso em mais três ocasiões, perfazendo desta forma um resultado final de 5-1 a favor dos checoslovacos.
Toldi remata para o fundo das redes e coloca
o Ferencvaros na final
Na outra meia-final o Ferencvaros voltou a mostrar que me casa era uma equipa imbatível e acima disso tremendamente eficaz no plano ofensivo. No entanto, a turma de Budapeste começou por sofrer às mãos do Mozart do futebol, ou melhor, aos pés de Sindelar, jogador este que abriu o marcador no Ulloi Ut Stadium. Depois disto o goleador e capitão de equipa Gyorgy Sarosi mostrou todo o seu talento finalizador, contribuindo com dois golos para a reviravolta no marcador. Sarosi que haveria de sagrar-se o melhor marcador desta edição, com nove remates certeiros. Sindelar ainda reduziu, mas a dez minutos do final Kiss fez o 4-2 final para os húngaros. Em Viena assistiu-se a um encontro de alto nível técnico, um jogaço de futebol, como se diz na gíria. Sindelar, quem mais poderia ser, abriu o marcador para o Austria, emblema que aos 58 minutos vencia por 3-1 e desta forma empatava a eliminatória. Porém, na reta final, apareceu Toldi, que fez o seu segundo golo da tarde e mais do que isso garantiu que o Ferencvaros iria marcar presença na final da Mitropa.
O bilhete da 1ª mão da final da Taça Mitropa de 1935
Final essa que começou por ser discutida em Budapeste, onde mais uma vez o Ferencvaros ditou leis. Com apenas 30 minutos jogados já os húngaros lideravam o marcador, e logo por dois golos de diferença! Pareciam assim encaminhados para a glória final. Mas, ainda faltava muito para que essa glória fosse alcançada. Faltava um segundo jogo, e ainda a segunda parte da primeira mão, 45 minutos estes que foram terríveis para o Ferencvaros. Em primeiro lugar, o emblema da capital da Hungria ficou privado do seu grande goleador, Sarosi, que abandonou o retângulo de jogo por lesão, e pior do que isso viu o matador do adversário, Raymond Braine, reduzir para 1-2 aos 71 minutos, selando assim o resultado final. Na segunda mão, e mesmo com Sarosi recuperado, o Ferencvaros não se conseguiu impor ao Sparta de ferro, que logo aos 26 minutos inaugurava o marcador por intermédio de Faczinek. A reviravolta na eliminatória foi conformada pela grande estrela desta edição da Mitropa Cup, Raymond Braine. Aos 34 minutos o belga fez o 2-0, e já no segundo tempo, aos 69 minutos, fez um novo golo, carimbando assim não só a vitória no jogo como na competição. O Sparta, primeiro vencedor da competição europeia, voltava a erguer o troféu, juntando-se assim – na altura – aos italianos do Bologna na condição de clube que em mais ocasiões triunfou na prova idealizada por Hugo Meisl.


Números e nomes:



1ª Eliminatória (1ª e 2ª mãos)

Admira Viena (Áustria) – MTK Budapeste (Hungria): 3-2/1-7
Viktoria Plzen (Checoslováquia) - Juventus (Itália): 3-3/1-5
First Viena (Áustria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 1-1/3-5
Ujpest (Hungria) – Fiorentina (Itália): 0-2/3-4
Rapid Viena (Áustria) - Zidenice (Checoslováquia): 2-2/2-3
Roma (Itália) - Ferencvaros (Hungria): 3-1/0-8
Szegedi (Hungria) - Slavia Praga (Checoslováquia): 1-4/1-0
Ambrosiana-Inter (Itália) - Austria Viena (Áustria): 2-5/1-3

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

MTK Budapeste (Hungria) - Juventus (Itália): 1-3/1-1
Sparta Praga (Checoslováquia) – Fiorentina (Itália): 7-1/1-3
Zidenice (Checoslováquia) – Ferencvaros (Hungria): 4-2/1-6
Slavia Praga (Checoslováquia) - Austria Viena (Áustria): 1-0/1-2/2-5 (desempate)

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)

Ferencvaros (Hungria) - Austria Viena (Áustria): 4-2/2-3
Sparta Praga (Checoslováquia) - Juventus (Itália): 2-0/1-3/5-1 (desempate)

Final (1ª mão)



Ferencvaros (Hungria) – Sparta Praga (Checoslováquia): 2-1

Data: 8 de setembro de 1935
Estádio: Ulloi Ut, em Budapeste (Hungria)
Árbitro: William Walter Walden (Inglaterra)

Ferencvaros: Jozsef Háda, Gyula Polgár, Lajos Korányi, Károly Mikes, János Móré, Nándor Bán, Mihai Tanzer, Gyula Kiss, Gyorgy Sarosi (c), Géza Toldi, e Tibor Kemény. Treinador: Zoltan Blum.

Sparta Praga: Bohumil Klenovec, Jaroslav Burgr (c), Josef Ctyroky, Josef Kostalek, Jaroslav Boucek, Erich Srbek, Ferdinand Faczinek, Oldrich Zajucek, Raymond Braine, Oldrich Nejedly, e Geza Kalocsay. Treinador: Frantisek Sedlacek.

Golos: 1-0 (Toldi, aos 16m), 2-0 (Kiss, aos 27m), 2-1 (Braine, aos 71m).

Final (2ª mão)



Sparta Praga (Checoslováquia) – Ferencvaros (Hungria): 3-0

Data: 15 de setembro de 1935
Estádio: Strahov, em Praga (Checoslováquia)
Árbitro: Albert Foo (Inglaterra)

Sparta Praga: Bohumil Klenovec, Jaroslav Burgr (c), Josef Ctyroky, Josef Kostalek, Jaroslav Boucek, Erich Srbek, Ferdinand Faczinek, Oldrich Zajucek, Raymond Braine, Oldrich Nejedly, e Geza Kalocsay. Treinador: Frantisek Sedlacek.

Ferencvaros: Jozsef Háda, Gyula Polgár, Lajos Korányi, Károly Mikes, János Móré, Nándor Bán, Mihai Tanzer, Gyula Kiss, Gyorgy Sarosi (c), Géza Toldi, e Tibor Kemény. Treinador: Zoltan Blum.

Golos: 1-0 (Faczinek, aos 26m), 2-0 (Braine, aos 34m), 3-0 (Braine, aos 69m).
A turma do Sparta de Praga que em 1935 conquistou a segunda Taça Mitropa para o lendário clube

1936: Suíços entram em campo

Uma verdadeira relíquia: a medalha
atribuida aos campeões
da Taça Mitropa de 1936
A grande novidade da 10ª edição da Taça Mitropa foi a inclusão de uma nova nação na competição: a Suíça. Os helvéticos fizeram-se representar por quatro clubes que pouca ou nenhuma luta deram aos seus oponentes, numa demonstração clara de que no plano futebolístico a Suíça estava ainda muito longe de países como a Checoslováquia, a Hungria, a Áustria, e a Itália. Para acolher os emblemas suíços no certame o comité organizador da Mitropa teve a necessidade de incluir uma ronda pré-eliminar no calendário da edição de 1936, ronda essa disputada entre os quatro representantes da nação estreante e os quartos classificados dos campeonatos nacionais dos quatro países habituais da prova. E as memórias da estreia dos cavaleiros helvéticos nestas andanças europeias resume-se a uma palavra: goleada. Sem grandes dificuldades o Zidenice (Checoslováquia), o Phobus (Hungria), o Austria de Viena (Áustria), e o Torino (Itália) afastaram de forma concludente, isto é, na sequência de vitórias avolumadas, respetivamente o Lausanne-Sports, o Young Fellows, o FC Bern, e o Grasshopper de Zurique. 
 
Chegados à 1ª eliminatória um dos embates mais apetecíveis opunha os campeões húngaros, o MTK de Budapeste, aos vice-campeões da Áustria, o First Viena. Na primeira mão, ocorrida na capital da Hungria, esta última equipa mostrou o porquê de ter tido a defesa menos batida – apenas 25 golos consentidos – no campeonato austríaco de 35/36, ao barrar com êxito todas as investidas húngaras à sua baliza. Mais do que isso fizeram dois golos, por intermédio de Franz Erdl, que praticamente sentenciaram a eliminatória. Na segunda mão assistiu-se a mais uma grande exibição do First, e em particular de Gschweild, que além de ter apontado um dos cinco golos da sua equipa deu outros a marcar na sequência de belas jogadas individuais.
O First não foi a única equipa de Viena a fazer a festa da passagem aos quartos-de-final. O Austria, liderado pelo astro Matthias Sindelar, iniciou uma caminhada que seria de glória ante os campeões italianos de 1935/36, o Bologna, equipa esta que tinha colocado um ponto final num reinado de cinco anos consecutivos da Juventus no campeonato transalpino. Na primeira mão, jogada em Itália, os bolonheses exibiram-se a grande nível no plano defensivo, conseguindo anular os movimentos da grande estrela austríaca, Sindelar, pese embora ao nível atacante não tenham conseguido marcar mais do que dois golos, facto que a juntar ao golo sofrido fazia com que os detentores do scudetto levassem uma vantagem demasiado curta na bagagem para a segunda mão. Jogo este onde, e como seria de esperar, os austríacos entraram a todo o gás, chegando ao intervalo com uma vantagem de dois golos. Na segunda parte o Bologna surgiu mais atrevido no retângulo de jogo, mas foi o Austria, ou melhor, foi Sindelar, que deu a machadada final nas aspirações italianas. Duas jogadas magistrais do Homem de Papel culminaram na obtenção de dois golos – um deles da sua própria autoria e outro de Camillo Jerusalem – que selaram o resultado final em 4-0 a fazer dos austríacos, que desta forma continuavam em prova. 
 
Sindelar, sempre ele, a causar calafrios
na defesa do Bologna
Outra equipa italiana que ficou pelo caminho foi o Torino, que fazia a sua estreia nas competições europeias. A presença do emblema de Turim na Taça Mitropa de 36 é apontada por muitos historiadores desportivos como o início da lenda de Il Grande Torino, de um legado que iria durar até 1949, ano em que um trágico acidente aéreo eclipsou do mapa do futebol aquele que foi o conjunto mais brilhante do futebol italiano da segunda metade da década de 30 e dos anos 40 do século passado. Mas voltando à edição de 1936 da Mitropa, o Torino até nem entrou mal no duelo ante os húngaros do Ujpest, que do mítico recinto dos italianos, o Stadio Filadelfia, sairam derrotados por duas bolas a zero. Na segunda mão o Ujpest deu a volta à eliminatória, e muito devido à ação de uma jovem estrela que emergia então no emblema húngaro, estrela essa que dava pelo nome de Gyula Zsengeller, avançado que muito contribuiu para o robusto triunfo por 5-0 que abriu a porta dos quartos (-de-final) aos vice-campeões da Hungria.
Os campeões em título, o Sparta de Praga, chegavam à edição de 1936 da Taça Mitropa com a moral em alta, não só porque eram os detentores do troféu continental mas sobretudo porque haviam colocado um ponto final no domínio de três anos consecutivos dos vizinhos e rivais do Slavia no campeonato da Checoslováquia. No entanto, e contra todas as previsões iniciais, o Sparta enfrentou algumas dificuldades na eliminatória ante os estreantes do Phobus. De forma confortável os campões checoslovacos venceram, em casa, o encontro da primeira mão, por 5-2, com destaque para os dois golos de Nejedly, mas no jogo de volta foram surpreendentemente dominados pelos húngaros, que ao minuto 87 venciam por 4-1, e com este cenário impunha-se a necessidade de um play-off para desempatar a contenda. Contudo, nos segundos finais do jogo, surgiu o inspirado Nejedly, que com um remate fatal fez o 2-4 final que classificou o Sparta para a ronda seguinte. Foi por pouco que o campeão não caiu à primeira. 
 
Embate entre Roma e Rapid
Franz Binder foi o herói do Rapid de Viena no jogo da primeira ante os italianos da Roma. Com dois golos na conta pessoal o avançado austríaco contribiu assim para um triunfo de 3-1 da sua equipa, resultado que no entanto não foi suficiente para avançar na competição, já que na capital transalpina a turma local goleou por 5-1.
Outro dos grandes destaques individuais desta 10ª edição da Taça Mitropa foi o italiano Giuseppe Meazza, a grande estrela da Ambrosiana-Inter e da Squadra Azzura da década de 30. Peppino, como era carinhosamente tratado pelos companheiros de equipa e pelos adeptos da bola, foi a principal figura da eliminatória ante os checoslovacos do Zidenice, ao apontar sete (!) dos 11 golos com que os transalpinos afastaram sem dificuldade – com um resultado global de 11-3 – o quarto classificado do campeonato checoslovaco da temporada anterior. Meazza que seria o melhor marcador desta edição, com 10 tentos.
Pautado pelo equilíbrio foi o embate entre o Ferencvaros e o Slavia de Praga. Na primeira mão, em Budapeste, os vice-campeões da Mitropa da época anterior exerceram um domínio avassalador sobre o seu oponente, performance essa expressa numa vitória por 5-2, sendo que quatro dos cinco golos dos húngaros foram apontados pelo matador Gyorgy Sarosi. Na segunda mão inverteram-se os papéis, com o Slavia a cilindrar o seu oponente por 4-0 e a garantir desta forma a passagem à ronda seguinte. 
 
Por fim, a grande surpresa desta 1ª eliminatória, a eliminação do campeão austríaco, o Admira, diante dos estreantes checoslovacos do Prostejov. A surpresa, ou escândalo, como então foi descrita este embate, começou a ser desenhado em Viena, bela cidade de onde o Prostejov saiu com um triunfo de... 4-0!!! Drozd foi o grande herói dos novatos checoslovacos, ao apontar um hattrick nesta partida. Na segunda mão o Admira ainda tentou consertar os tremendos estragos feitos pelos checoslovacos em Viena, sendo que com apenas 10 minutos jogados já Bican e Hahnemann haviam colocado os campeões da Áustria a vencer por 2-0. No entanto, e depois desta entrada fulgurante do Admira, o Prostejov aguentou-se, foi travando os ataques do seu adversário, e aos 67 minutos reduziu para 1-2, sentenciando quase de imediato a eliminatória. O golo dos anfitriões despoletou a fúria dos vienenses, que até final viram cinco dos seus jogadores serem expulsos por comportamento violento. Que triste fim para o campeão da Áustria.

"Peppino" Meazza,
aqui a evidenciar toda a sua genialidade
O futebol italiano começava nos anos 30 a mostrar a sua tendência para a rigidez defensiva que hoje em dia o caracteriza. No duelo da primeira mão dos quartos-de-final a Ambrosiana-Inter abdicou por completo do seu setor atacante para passar 90 minutos a jogar... à defesa diante do First Viena. Perante o ferrolho italiano só por duas ocasiões os austríacos conseguiram marcar, garantindo assim uma vitória justa mas que se iria revelar demasiado curta na viagem para Milão. Aqui, a Ambrosiana-Inter mudou o chip e assumiu desde cedo o controlo do jogo, levando o perigo por diversas ocasiões à baliza contrária. A igualdade a uma bola registada ao intervalo não traduzia aquilo o que se havia passado no relvado durante os primeiros 45 minutos, onde os italianos foram nitidamente melhores. Porém, a justiça acabaria por chegar na etapa complementar, onde a Ambrosiana-Inter repetiu a dose e esmagou por completo o First, apontando três golos que selaram o marcador em 4-1 e acima de tudo garantiram a presença nas meias-finais.
A outra equipa italiana ainda em prova, a Roma, saiu de cena de forma inglória. Realizou uma magnífica exibição em Praga, diante do Sparta, na primeira mão da eliminatória, exibição essa que no entanto não ficou traduzida num resultado positivo muito por culpa do seu inexperiente guarda-redes de 17 anos, Fulvio Bernardini, que na hora h sucumbiu ao poder de fogo dos atacantes Braine e Nejedly. Seria pois com uma desvantagem de 0-3 que a Roma iria receber na segunda mão os detentores do ceptro, num jogo que começou de forma eletrizante com dois golos logo nos primeiros dois minutos! Os romanos abriram o marcador mal o árbitro deu início ao duelo, sendo que no minuto seguinte o Sparta empatou. Depois disto os checoslovacos remeteram-se à defesa, e até final o resultado não mais foi alterado.
A aventura dos estreantes do Prostejov terminou aos pés do Ujpest, última equipa esta que sob o comando da jovem estrela Gyula Zsengeller dominou ambas partidas da eliminatória, acabando por vencer com um total de 3-0.
Em Viena, o Austria precisou apenas de 45 minutos para garantir uma confortável vitória por 3-0 no encontro da primeira mão diante do Slavia de Praga. Sindelar, Sesta, e Nausch foram os homens golos dos austríacos, que na segunda mão exibiram-se de forma majestosa no plano defensivo, consentindo apenas um golo aos vice-campeões da Checoslováquia.

A talentosa squadra da Ambrosiana-Inter que chegou às meias-finais da Mitropa em 36
Milão testemunhou um grande jogo de futebol protagonizada pela Ambrosiana-Inter e pelo Sparta de Praga, a contar para a primeira mão das meias-finais. Os campeões da nação de leste beneficiaram de uma intervenção infeliz do defesa transalpino Ernesto Mascheroni para se colocarem em vantagem logo aos 9 minutos, vantagem essa que seria ampliada três minutos depois pelo temível dianteiro belga Braine. Os nerazzurri reagiram bem, e à passagem do quarto de hora Ferrari reduziu. Até ao intervalo a avalanche italiana iria causar mais estragos junto da baliza de Klenovec, primeiro por Meazza, aos 31 minutos, e posteriormente por intermédio de Ferraris, que ao minuto 35 colocou a Ambrosiana-Inter em vantagem. No entanto, do outro lado estavam dois dos maiores goleadores do futebol continental de então, Raymond Braine e Oldrich Nejedly. Este último empatou a partida a quatro minutos do descanso, ao passo que o belga recolocou o Sparta na liderança aos 72 minutos. Zaycek deu a machadada final aos 84 minutos, selando o marcador em 5-3 a favor do Sparta, que assim tinha caminho aberto para uma nova final. Em Praga, na segunda mão, os italianos ainda lutaram por um final feliz, mas do outro lado Braine teve uma nova tarde verdadeiramente diabólica, apontando dois dos três golos com que o Sparta obteve um novo triunfo e carimbou a passagem ao encontro decisivo.

E se Braine foi o herói da meia-final entre Sparta e Ambrosiana-Inter, Sindelar não quis ficar atrás do belga e vestiu também ele a capa de herói da eliminatória entre o Austria de Viena e o Ujpest. No entanto, a primeira mão, ocorrida na Hungria, ficou manchada pela violência, primeiro entre jogadores de ambas as equipas, e depois entre adeptos. De tal modo que a polícia foi chamada a intervir no sentido de evitar uma batalha campal. No plano desportivo, o Austria levou a melhor, por 2-1. Na segunda mão o talentoso Gyula Zsengeller ainda deu esperanças ao Ujpest, depois de inaugurar o marcador no Estádio do Prater. A entrada fulgurante dos húngaros seria no entanto sol de pouca dura, já que depois disto apareceu... Matthias Sindelar. O Mozart do futebol liderou o assalto do Austria à baliza húngara, apontando dois golos e dando outros a marcar, contribuindo, e muito, para que o Austria vencesse por claros 5-2 e garantisse a presença em mais uma final.
Liderado pelo Mozart do Futebol - Matthias Sindelar - o Austria de Viena
voltou em 1936 a subir ao topo da Europa do futebol
A 6 de setembro de 1936 o Estádio do Prater, em Viena, recebeu 42.000 espetadores ansiosos por ver aquele que se previa ser um hino ao futebol espetáculo, prevendo-se emoção e golos em catadupa. O Sparta chegava à capital da Áustria com um invejável registo de uma centena de golos apontados em 26 partidas disputadas – repartidas entre o campeonato checoslovaco e a Mitropa Cup!!! Porém, a veia goleadora dos rapazes de Praga não se fez notar, muito devido à soberba performance da defesa local, que anulou com mestria os perigosos avançados Braine e Nejedly. Não querendo ficar atrás do setor homólogo, também a defesa do Sparta esteve impecável na hora de travar... Sindelar. Resultado final: 0-0. Em Praga, uma semana mais tarde, o Estádio Strahov foi pequeno demais para o número de entusiastas que não quiseram perder o segundo assalto da grande final. Mais uma vez o Austria esteve intransponível no plano defensivo, sendo aqui de destacar a aexibição do defesa Mock que bloqueou com garra e arte todas as tentativas de Raymond Braine importunar o guardião Zohrer. Karl Sesta fez o mesmo com Nejedly. Do lado oposto do campo estava Sindelar, que aos 67 minutos pegou na bola e como que num ápice de magia colocou-a magistralmente nos pés de Jerusalem que fez o único golo do jogo, o golo da vitória, o golo do segundo título continental para o Austria de Viena.

Nomes e números:



Pré-Eliminatória (1ª e 2ª mãos)

Zidenice (Checoslováquia) - Lausanne-Sports (Suíça): 5-0/1-2
Young Fellows (Suíça) Phobus (Hungria): 0-3/2-6
FC Bern (Suíça) – Torino (Itália): 1-4/1-7
Austria Viena (Áustria) - Grasshopper (Suíça): 3-1/1-1

1ª Eliminatória (1ª e 2ª mãos)

MTK Budapeste (Hungria) - First Viena (Áustria): 0-2/1-5
Zidenice (Checoslováquia) – Ambrosiana-Inter (Itália): 2-3/1-8
Sparta Praga (Checoslováquia) - Phobus (Hungria): 5-2/2-4
Rapid Viena (Áustria) – Roma (Itália): 3-1/1-5
Admira (Áustria) - Prostejov (Checoslováquia): 0-4/3-2
Torino (Itália) – Ujpest (Hungria): 2-0/0-5
Bologna (Itália) - Austria Viena (Áustria): 2-1/0-4
Ferencvaros (Hungria) - Slavia Praga (Checoslováquia): 5-2/0-4

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

First Viena (Áustria) – Ambrosiana-Inter (Itália): 2-0/1-4
Austria Viena (Áustria) - Slavia Praga (Checoslováquia): 3-0/0-1
Sparta Praga (Checoslováquia) - Roma (Itália): 3-0/1-1
Prostejov (Checoslováquia) – Ujpest (Hungria): 0-1/0-2

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)

Ambrosiana-Inter (Itália) - Sparta Praga (Checoslováquia): 3-5/2-3
Ujpest (Hungria) - Austria Viena (Áustria): 1-2/2-5

Final (1ª mão)



Austria Viena (Áustria) – Sparta Praga (Checoslováquia): 0-0

Data: 6 de setembro de 1936
Estádio: Prater, em Viena (Áustria)
Árbitro: Giuseppe Scarpi (Itália)

Austria Viena: Rudolf Zohrer, Karl Andritz, Karl Sesta, Karl Adamek, Johann Mock, Walter Nausch (c), Franz Riegler, Josef Stroh, Matthias Sindelar, Camillo Jerusalem, e Rudolf Viertl. Treinador: Jeno Konrad.

Sparta Praga: Bohumil Klenovec, Jaroslav Burgr (c), Josef Ctyroky, Josef Kostalek, Jaroslav Boucek, Ludovit Rado, Ferdinand Faczinek, Oldrich Zajucek, Raymond Braine, Oldrich Nejedly, e Geza Kalocsay. Treinador: Frantisek Sedlacek.

Final (2ª mão)



Sparta Praga (Checoslováquia) – Austria Viena (Áustria): 0-1

Data: 13 de setembro de 1936
Estádio: Strahov, em Praga (Checoslováquia)
Árbitro: Rinaldo Barlassina (Itália)

Sparta Praga: Bohumil Klenovec, Jaroslav Burgr (c), Josef Ctyroky, Josef Kostalek, Jaroslav Boucek, Ludovit Rado, Ferdinand Faczinek, Oldrich Zajucek, Raymond Braine, Oldrich Nejedly, e Geza Kalocsay. Treinador: Frantisek Sedlacek.

Austria Viena: Rudolf Zohrer, Karl Andritz, Karl Sesta, Karl Adamek, Johann Mock, Walter Nausch (c), Franz Riegler, Josef Stroh, Matthias Sindelar, Camillo Jerusalem, e Rudolf Viertl. Treinador: Jeno Konrad.

Golo: 0-1 (Jerusalem, aos 67m)

sexta-feira, abril 10, 2015

Histórias do Planeta da Bola (9)... Os anos dourados (1927-1939) da Taça Mitropa - A primeira montra de estrelas do futebol europeu (parte IV)

Matthias Sindelar, um dos mais virtuosos
futebolistas da História e a grande figura
da edição de 1933 da Mitropa Cup
Um céu repleto de estrelas, assim era vista a Taça Mitropa nos inícios dos anos 30. Uma deslumbrante constelação de estrelas dava cor a uma competição que em 1933 partia para sua sétima edição, e onde na qual aquela que foi talvez a estrela mais cintilante da história da Mitropa Cup teve a sua primeira aparição. Matthias Sindelar de seu nome, o Homem de Papel, ou o Mozart do futebol austríaco, uma lenda que vive na memória dos (poucos) comuns mortais - ainda entre nós - que o viram atuar e no imaginário de todos aqueles que lamentam não ter vivido no tempo em que este imortal do futebol espalhou (a sua) magia pelos retângulos do Velho Continente. Sindi - como era carinhosamente tratado pelos seus amigos e companheiros de equipa - foi então a estrela mais reluzente - não só pelo futebol que mostrou mas igualmente pela influência que teve na condução do seu Austria de Viena ao triunfo no certame - daquela que foi a edição da Taça Mitropa que mais figurais lendárias do futebol internacional das décadas de 20 e 30 reuniu ao seu redor. Nomes como Raymond Braine, István Avar, Raimundo Orsi, Josef Silný, Frantisek Plánicka, Giampiero Combi, ou Giuseppe Meazza, foram algumas das personagens mais famosas de um certame que atestou - uma vez mais - a mestria e o poderio do futebol austríaco de então, na sequência do triunfo final alcançado pelo estreante - no que concerne à Mitropa Cup - Austria de Viena. Liderado por aquele que era já considerado então o futebolista mais virtuoso da Áustria, Sindelar, o clube de Viena não teve contudo um trajeto livre de dificuldades até ao momento em que ergueu o troféu. Na primeira ronda o obstáculo deu pelo nome de Slavia de Praga, os campeões da Checoslováquia, cujo ponto forte estava na baliza: Frantisek Plánicka. Na primeira mão, realizada em Praga, o Austria pôde dar-se por satisfeito por ter regressado a casa com uma derrota de apenas 3-1. E dizemos apenas porque segundo rezam as crónicas de então o trio de avançados dos checoslovacos, Svoboda, Sobotka, e Kopecky - cada um deles com um golo apontado neste encontro - foi uma persistente dor de cabeça para a defensiva forasteira. Na segunda mão inverteu-se o cenário, com o Austria a dominar por completo um jogo onde Matthias Sindelar deslumbrou a assistência e... os adversários! Uma exibição soberba do Homem de Papel - assim chamado devido à sua estrutura física franzina - guiou os vienenses a um triunfo por 3-0, um score que só não foi mais avolumado devido à grande exibição do mãos de ferro Plánicka. Rudolf Viertl, com dois golos, e Sindelar com um, foram os homens que derrubaram a muralha checoslovaca rumo às meias-finais.

Raimundo Orsi
E se o embate entre checoslovacos e austríacos havia sido - no cômputo das duas mãos - equilibrado, o jogo entre os campeões italianos e húngaros, respetivamente, a Juventus e o Ujpest, foi notoriamente desnivelado.  Um resultado total de 10-4 assim o comprovou. Na primeira mão, ocorrida em Budapeste, a Juve chegou à meia hora da etapa inicial a vencer por 4-0! No jogo de volta o ítalo-argentino Raimundo Orsi assumiu o papel de estrela da companhia, ao apontar quatro dos seis golos - o resultado final foi de 6-2 - com que os transalpinos despacharam os húngaros. Orsi, que também tinha marcado um golo no início deste duplo embate, perfazia assim um total de cinco remates certeiros, que lhe iriam conferir a par de Sindelar, Kloz, e Meazza o título de melhor marcador da edição de 1933 da Mitropa.
Quem também teve motivos para festejar nesta primeira ronda foi a outra equipa italiana em prova, a Ambrosiana-Inter, que se desenvencilhou dos campeões da Áustria, o First de Viena, por um total de 4-1. Porém, na primeira mão, na capital austríaca, o emblema de Milão não teve vida fácil, devendo ao seu guarda-redes, Carlo Ceresoli, o facto de ter saído derrotado pela margem mínima (1-0). Na segunda mão uma exibição de gala de Giuseppe Meazza acabou com as aspirações dos conterrâneos de Mozart. Secundado de forma brilhante pelos extremos Frione e Levratto, Il Peppino, como era conhecido, apontou três dos quatro golos da sua squadra, que assim avançava para a fase seguinte, onde iria enfrentar o Sparta de Praga, conjunto este que graças à sua temível linha avançada formada por Raymond Braine, Josef Silný, Nejedly, e Frantisek Kloz afastou com dois triunfos mínimos (3-2 e 2-1) mas inteiramente merecidos o MTK de Budapeste.
A equipa da Juventus que na meia-final foi varrida por um vendaval chamado... Sindelar

A primeira mão das meias-finais praticamente decifrou quais os finalistas da edição de 1933 da Taça Mitropa, tal foi a robusta vantagem que as equipas que atuaram diante do seu público alcançaram. Em Viena, Sindelar voltou a fazer das suas. Que o diga Luis Monti, que teve a ingrata tarefa de marcar o Homem de Papel, que no encontro da capital austríaca esteve verdadeiramente endiabrado, sendo da sua autoria o golo madrugador - apontado aos três minutos - que violou a baliza de Combi. A veia artística de Sindi espicaçou a fúria dos italianos, que ao longo de todo o encontro recorreram a inúmeras entradas violentas para travar o astro austríaco. Numa dessa entradas o marcador direto do craque do Austria de Viena, Monti, recebeu ordem de expulsão por parte do árbitro húngaro Arpad Keil, já perto do final de uma partida que terminou com o triunfo por 3-0 dos vencedores da Taça da Áustria da época 32/33 - Sindelar bisou e Viktor Spechtl apontou o terceiro ainda antes do intervalo.
E se o Homem de Papel foi o herói do jogo de Viena, o guarda-redes austríaco Johann Billich centrou em si as atenções na partida de Turim, disputada no Stadio Benito Mussolini. Como lhe competia a Juventus entrou em campo disposta a provar que a tarefa de dar a volta ao marcador não era uma missão de todo impossível, com o trio ofensivo formado por Ferrari, Borel, e Cesarini a criar um sem número de oportunidades junto da baliza forasteira. Porém, esta era guardada de maneira heróica por Billich que só por uma vez foi buscar a bola ao fundo das redes, na sequência de um remate fulminante de Giovanni Ferrari, aos 21 minutos. Golo que foi sol de pouca dura, já que volvidos apenas nove minutos Josef Stroh restabeleceu a igualdade no marcador que até final não mais iria sofrer alterações, não obstante da avalanche ofensiva patenteada pela Juve na etapa complementar.

Attilio Demaria
Em Milão, Attilio Demaria foi a estrela do primeiro round entre a Ambrosiana-Inter e o Sparta de Praga. O ítalo-argentino apontou três dos quatro golos com que os italianos derrotaram (4-1) os checoslovacos. Este jogo teve a particularidade de conhecer duas partes bem distintas. A primeira foi desenvolvida num ritmo frenético por parte da turma da casa, que ao intervalo já vencia por 4-0, ao passo que a segunda foi lenta e desprovida de grandes interesses - a exceção foi talvez o golo do Sparta, apontado por Nejedly - muito por culpa do extremo calor que abraçou Milão.
E se o calor havia massacrado os jogadores da Ambrosiana-Inter na primeira mão, em Praga o massacre foi protagonizado pelos futebolistas do Sparta, que durante 90 minutos não largaram a baliza de Ceresoli. Ataques atrás de ataques resumiram um encontro de sentido - quase - único, o da baliza dos transalpinos, que muito tiveram de suar para sair da capital da Checoslováquia com uma preciosa igualdade a duas bolas, resultados que assim lhes garantia a presença na final. Frantisek Klos marcou os dois golos do Sparta, enquanto que do outro lado Demaria voltou a ser o abono de família da squadra de Milão, ao apontar mais um golo, o seu quarto no confronto com os checoslovacos.

Sindelar e Meazza, duas lendas
do futebol mundial dos anos 30,
posam juntos antes da final
Mitropa Cup de 1933
A 3 de setembro de 1933 a Europa do futebol acordou envolta num clima de entusiasmo, já que nesse dia dois dos maiores futebolistas de então iriam enfrentar-se na primeira mão da final da Mitropa Cup. Giuseppe Meazza e Matthias Sindelar, respetivamente as estrelas principais da Ambrosiana-Inter e do Austria de Viena. Ambos, Il Peppino e Sindi, jogaram de forma magistral, como lhes era característico, num jogo marcado pelo drama e pela postura heróica dos futebolistas daquele tempo. O azar bateu à porta dos italianos, que cedo se viram privados do atacante Felicio Levratto, o qual teve de abandonar por largos minutos o relvado por lesão, numa altura em que as substituições ainda não eram permitidas.
A jogar com menos um elemento os transalpinos não deixaram porém de atacar a baliza de Billich, sempre com perigo, e quase sempre por intermédio do génio Meazza. Fazendo jus a um velho ditado popular português, "água mole em pedra dura tanto bate até que fura", Il Peppino iria inaugurar o marcador a cinco minutos do intervalo, período em que para espanto da multidão presente na Arena Civica, Levratto retorna ao relvado - lesionado - para, no minuto seguinte, fazer o 2-0, naquele que foi um ato de coragem e paixão pelo emblema que carregava ao peito. No segundo tempo os papéis inverteram-se.
O Austria passou a controlar o jogo, postura essa que seria premiada com um golo, apontado por Rudolf Viertl, aos 77 minutos. 2-1, vitória da Ambrosiana-Inter, que partia assim para Viena com uma magra vantagem na bagagem. E como seria insuficiente...
As três equipas - o Austria de Viena, a Ambrosina-Inter, e o trio de arbitragem - que deram vida à final
de 1933 posam juntas
antes do pontapé de saída
Apenas cinco dias mais tarde as duas formações voltaram a medir forças, desta feita no Estádio do Prater - que havia sido inaugurado dois anos antes. Um embate que se resumiu em duas palavras: Matthias Sindelar. Simplesmente divina a atuação do Homem de Papel, que em cima do intervalo converteu uma grande penalidade que colocava a eliminatória em igualdade. Com sucessivos dribles diabólicos sobre os seus adversários, Sindi foi um quebra-cabeças constante para o último reduto dos nerazzurri, sendo que aos 80 minutos o génio austríaco levou a multidão ao delírio na sequência de uma soberba jogada individual que foi concluída com a bola a beijar o fundo das redes de Ceresoli. Este era, contudo, um duelo de astros, e quase na jogada seguinte Giuseppe Meazza também tirou um coelho da cartola, fazendo o 1-2, numa altura em que a Ambrosiana-Inter estava reduzida a nove homens, já que minutos antes dois jogadores seus - Allemandi e Demaria - haviam sido expulsos pelo árbitro checoslovaco Frantisek Cejnar. E eis que quando os 58 000 espectadores presentes no Prater de Viena já imaginavam um terceiro jogo para decidir quem iria ficar com o título de campeão, Matthias Sindelar, sempre ele, edifica um magnífico remate em vólei que termina no fundo da baliza italiana, quando o relógio marcava 88 minutos. Todo o estádio entrou em delírio perante aquela obra de arte criada pelo artista vienense. Um golo que mais do que conferir o título ao Austria Viena conferia a Sindi o estatuto de imortal do belo jogo.

Números e nomes:

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

Ujpest (Hungria) - Juventus (Itália): 2-4/2-6

Slavia Praga (Checoslováquia) - Austria Viena (Áustria): 3-1/0-3

MTK Budapeste (Hungria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 2-3/1-2

First Viena (Áustria) - Ambrosiana-Inter (Itália): 1-0/0-4

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)

Ambrosiana-Inter (Itália) - Sparta Praga (Checoslováquia): 4-1/2-2

Austria Viena (Áustria) - Juventus (Itália): 3-0/1-1

Final (1ª mão)

Ambrosiana-Inter (Itália) - Austria Viena (Áustria): 2-1

Data: 3 de setembro de 1933
Estádio: Arena Civica, em Milão (Itália)
Árbitro: Ferenc Klug (Hungria)

Ambrosiana-Inter: Carlo Ceresoli, Paolo Agosteo, Luigi Allemandi, Alfredo Pitto, Ricardo Faccio, Armando Castellazzi, Francisco Frione, Renato De Manzano, Giuseppe Meazza (c), Attilio Demaria, e Felice Levratto. Treinador: Árpád Weisz.

Austria Viena: Johann Billich, Karl Graf, Walter Nausch (c), Matthias Majemnik, Johann Mock, Karl Gall, Josef Molzer, Josef Stroh, Matthias Sindelar, Camillo Jerusalem, e Rudolf Viertl. Treinador: Josef Blum.

Golos: 1-0 (Meazza, aos 40m), 2-0 (Levratto, aos 41m), 2-1 (Viertl, aos 77m)

Final (2ª mão)

Austria Viena (Áustria) - Ambrosiana-Inter (Itália): 3-1

Data: 8 de setembro de 1933
Estádio: Prater, em Viena (Áustria)
Árbitro: Frantisek Cejnar (Checoslováquia)

Austria Viena: Johann Billich, Karl Graf, Walter Nausch (c), Matthias Majemnik, Johann Mock, Karl Adamek, Josef Molzer, Josef Stroh, Matthias Sindelar, Camillo Jerusalem, e Rudolf Viertl. Treinador: Josef Blum.

Ambrosiana-Inter: Carlo Ceresoli, Paolo Agosteo, Luigi Allemandi, Alfredo Pitto, Ricardo Faccio, Giuseppe Viani, Francisco Frione, Pietro Serantoni, Giuseppe Meazza (c), Attilio Demaria, e Armando Castellazzi. Treinador: Árpád Weisz.

Golos: 1-0 (Sindelar, aos 45), 2-0 (Sindelar, aos 80m), 2-1 (Meazza, aos 85m), 3-1 (Sindelar, aos 88m)
Matthias Sindelar - o primeiro jogar na fila de cima, a contar da esquerda para a direita - foi o ilustre condutor
que levou o Austria de Viena à conquista da Taça Mitropa de 1933
1934: O alargamento da grande montra europeia de clubes

Carlo Reguzzoni, o melhor marcador
da edição de 1934 da competição
A popularidade da Taça Mitropa na Europa do futebol na década de 30 era por demais evidente. O interesse em torno da competição - quer da parte dos clubes, quer da parte dos adeptos - subida de edição para edição. Ciente deste facto a organização decide em 1934 duplicar o número de participantes, passando de 8 para 16 os pretendentes ao trono da competição. Uma verdadeira Liga dos Campeões dos anos 30, com mais jogos, maior competitividade, e um maior número de estrelas envolvidas, era este o panorama da oitava edição da Mitropa.
Cada um dos quatro países envolvidos na competição passava agora a dispor de quatro vagas a serem ocupadas pelo campeão, vice-campeão, terceiro e quarto classificados, sendo que no caso da Áustria uma dessas vagas era ocupada pelo vencedor da taça. Com o aumento do número de clubes a competição europeia criada por Hugo Meisl conheceu alguns emblemas novos em 1934. Um desses caloiros foi o Floridsdorfer, da Áustria, que logo na primeira ronda evidenciou toda a sua inexperiência internacional ao ser copiosamente goleado por um resultado global de 10-1 pelos antigos campeões da prova, os húngaros do Ferencvaros, com o destaque individual deste confronto desnivelado a ir para o avançado do clube de Budapeste, Gyorgy Sarosi, autor de três dos dez tentos da sua equipa, a qual no jogo da segunda mão, disputado no mítico estádio Hohe Warte, em Viena, atuou para 800 pessoas, num recinto que tinha capacidade para acolher 40 000, constituindo-se este como um dos registos mais baixos - em termos de assistência - da história da era dourada da Mitropa Cup
Estreia auspiciosa tiveram os checoslovacos do Kladno, que protagonizariam a maior surpresa desta primeira eliminatória ao afastar os vice-campeões da temporada anterior, a Ambrosiana-Inter. Na primeira mão, os italianos arrancaram uma igualdade a uma bola no terreno do adversário, sendo impensável que no encontro de volta, em Milão, pudessem deixar escapar a oportunidade de continuar a sua caminhada rumo a uma nova final, no mínimo! Na verdade, Meazza e seus companheiros estavam enganados, já que uma exibição letal do ex-avançado do Sparta de Praga, Frantisek Kloz - um dos melhores marcadores da edição anterior - ajudou o Kladno a vencer em Itália por 3-2 e colocar desta forma a Europa do futebol em estado de choque! Pudera.

Angelo Schiavio remata para o fundo das redes húngaras
Passagem de eliminatória complicada teria o futuro campeão da prova, os também italianos do Bologna, que não tiveram vida fácil diante dos húngaros do Bocskai, que no jogo da primeira mão, no Stadio del Litorialle - atualmente denominado de Renato dall'Ara - se apresentou com uma defesa de ferro, só derrubada pela arte e força de Carlo Reguzzoni e da grande estrela da equipa, Angelo Schiavio. Na segunda mão foi a vez do setor defensivo dos italianos brilhar, segurando a avalanche ofensiva dos húngaros que tiveram em Jeno Vincze a sua maior figura, sendo dele um dos golos com que o Bocskai derrotou o Bologna, por 2-1. Resultado, contudo, insuficiente para passar aos quartos-de-final, já que o tento de Reguzzoni fez estalar a festa entre a comitiva transaplina. A primeira de muitas festas para os rapazes comandados pelo húngaro Lajos Kovács ao longo desta edição.
Outra das surpresas desta primeira ronda foi a eliminação dos campeões em título, o Austria de Viena, aos pés dos húngaros do Ujpest. Privados do seu capitão de equipa, Walter Nausch, por se encontrar lesionado, os austríacos foram derrotados pelo mesmo score (2-1) nos dois embates, onde ficou vincada a robustez defensiva do vice-campeão magiar.
Tranquila foi a passagem dos campeões de Itália, a Juventus, diante dos frágeis checoslovacos do FK Teplice, enquanto que o equilíbrio surgiu em dois dos restantes duelos desta primeira eliminatória, decididos num terceiro, quarto, quinto, e sexto jogos!!! Sem a sua estrela-mor, Anton Schall, os campeões da Áustria, o Admira de Viena, enfrentaram os estreantes do Nápoles, que na primeira mão causou surpresa ao empatar a zero bolas no terreno do adversário. Na cidade do sul de Itália verificou-se um novo empate no jogo de volta, desta feita com golos, 2-2, tendo os napolitanos estado em vantagem grande parte do tempo por 2-0, score que até poderia ser mais avolumado não fosse a tarde inspirada do guardião Peter Platzer. Porém, na reta final da partida apareceu Adolf Vogl, que com dois golos obrigou à necessidade de se realizar um terceiro e decisivo duelo. Ato este que decorreu em campo neutro, em Zurique mais concretamente, tendo ai o Admira vincado o porquê de ter vencido com distinção o competitivo campeonato austríaco na temporada anterior. 5-0, foi o pesado resultado com que os vienenses afastaram os italianos, com destaque para as magníficas performances de Stoiber, Sigl, e - mais uma vez - Vogl.

Raymond Braine, uma das grandes
estrelas do Sparta Praga
Renhida foi também a eliminatória entre o MTK de Budapeste e o Sparta de Praga. Na primeira mão, na capital da Checoslováquia, os húngaros surpreenderam o seu oponente com um triunfo por 2-1, enquanto que no jogo de volta foi a vez do belga Raymond Braine e do checoslovaco Nejedly guiarem o Sparta até um triunfo por 5-4, empatando assim a eliminatória, o que obrigou a um jogo de desempate. E aqui surgiu a polémica. O MTK protestou a utilização por parte do Sparta do jogador Facsinek no encontro do play-off de desempate, partida essa que os checoslovacos haviam vencido por 5-2. Na sequência desse protesto o comité organizador da Mitropa decidiu anular os três jogos da eliminatória disputados entre estes dois clubes, obrigando a que tudo fosse repetido, ou seja, a eliminatória iria começar do zero! No primeiro jogo o MTK venceu em casa por 2-1, enquanto que uma semana mais tarde o Sparta aplicou ao adversário o mesmo resultado, obrigando a um novo jogo de desempate. Para não variar, o equilíbrio foi a nota dominante numa eliminatória que teimava em não ser fechada, conforme traduz o resultado final de 1-1. Perante tal facto, os organizadores da prova tiveram de proceder a um sorteio para decidir quem avançaria para os quartos-de-final, tendo a sorte bafejado o Sparta Praga.
Pior sorte teve a outra equipa de Praga, o Slavia, que perdeu o braço de ferro com o Rapid de Viena.

Gyorgy Sarosi
Gyorgy Sarosi foi a vedeta do jogo da primeira mão dos quartos-de final entre o Ferencvaros e o surpreendente Kladno, ao apontar três dos seis golos com que a sua equipa esmagou (6-0) os checoslovacos, os quais na segunda mão estiveram muito perto de alcançar o impossível, como comprova o triunfo por 4-1, num jogo em que a linha defensiva dos húngaros mostrou não estar à altura da sua congénere ofensiva.  
Com a preciosa ajuda do melhor marcador do campeonato italiano da temporada transata, Felice Borel, a Juventus alcançou uma saborosa vitória - todas o são, naturalmente - em casa do Ujpest, por 3-1, com o citado atleta a fazer o gosto ao pé em duas ocasiões. Na segunda mão uma exibição categórica dos irmãos gémeos Mario e Giovanni Varglien no setor defensivo da Vecchia Signora impediu que o ataque dos húngaros fizesse estragos de maior em Turim, tendo o encontro terminado com um empate a uma bola, com Borel a apontar o tento dos italianos que assim seguiam em frente. Tranquila foi a passagem do Bologna, que na primeira mão, diante do seu público, humilhou por completo o Rapid de Viena. 6-1 foi o resultado de uma partida onde os atacantes Reguzzoni e Schiavio estiveram em claro destaque ao apontarem os golos da sua equipa. Em Viena, o Rapid adiantou-se cedo no marcador, por intermédio de Binder, logo aos dois minutos, dando ideia de que o milagre poderia acontecer, mas Reguzzoni logo tratou de arrefecer o ímpeto dos locais com o golo do empate, de nada valendo os três golos de Binder no segundo tempo.
Em grande forma estava por esta altura o Admira de Viena, que na receção ao Sparta de Praga aplicou a chapa 4 com uma classe meritória inquestionável, numa partida onde no plano individual sobressaiu o austríaco Wilhelm Hahnemann. Na segunda mão, e contrariamente ao que se previa, foi o Admira a entrar mais atrevido no jogo, tendo o bis de Karl Durspekt colocado os visitantes a vencer por 2-0 ao intervalo. Com a passagem às meias finais mais do que assegurada os vienenses abrandaram na segunda parte, permitindo que os checoslovacos concluíssem a sua participação na Mitropa Cup de 1934 com uma vitória (3-2).
Capitães do Ferencvaros e do Bologna posam para a posteridade junto da equipa de arbitragem
antes do início da primeira mão da meia-final
O primeiro embate das meias-finais comprovou que o Bologna era de facto uma das grandes equipas da Europa dos anos 30. Que o diga o Ferencvaros, que na primeira mão não foi além de um empate caseiro antes os italianos, que por sua vez no jogo de volta esmagaram por completo os húngaros na sequência de um robusto triunfo por 5-1, com relevo para as exibições de Fedullo e Schiavio, este último autor de dois golos. Na outra meia-final o Admira de Viena deu uma nova prova da sua condição de belíssima equipa. Com 50 minutos cravados no relógio - na partida da primeira mão - a turma austríaca já vencia a Juventus por 3-0. Um golo tardio de Orsi fechou o marcador em 3-1 para a turma da casa, um golo que dava assim alguma esperança ao campeão italiano. Juve que na segunda mão dominou por completo a partida, sendo que numa altura em que estavam decorridos 30 minutos de jogo o marcador indicava já uma vantagem de dois golos para os transalpinos - com golos de Borel e Orsi - que assim empatavam a eliminatória. Contudo, na aproximação ao intervalo, um contra-ataque letal do Admira foi concluído com êxito por Vogl. Um golo que selou a qualificação dos austríacos para a final, já que no segundo tempo a turma orientada por Hans Skolaut fechou-se a sete chaves na sua zona defensiva, travando de todas as formas e feitios os sucessivos ataques dos juventinos.

Fase da partida entre Bologna e Admira Viena
E assim chegávamos a mais uma final, onde surgiu pela segunda vez - no espaço de três anos - Il Grande Bologna, clube que, recorde-se, dois anos antes havia vencido a competição sem precisar de jogar a final, devido ao castigo imposto pela organização aos outros integrantes - Juventus e Slavia de Praga - de uma das semi-finais. Bologna que se viu a braços com o azar na partida da primeira mão da final da edição de 1934, já que por motivos de lesão a sua maior estrela, Angelo Schiavio, não pôde viajar para Viena. No entanto, e em contrário ao que se esperava, os italianos não ficariam fragilizados por esse facto, já que ao intervalo venciam o seu oponente por duas bolas a zero. No segundo tempo, e no curto espaço de seis minutos, o Admira deu a volta ao marcador, o qual não mais viria a ser alterado até final, graças a uma magnífica exibição do guardião bolonhês Mario Gianni. Na segunda mão, e já com o seu capitão e estrela-mor Schiavio em campo, o Bologna dominou por completo os acontecimentos. Jogada de baixo de um calor infernal a partida foi de sentido único, o da baliza forasteira, com sucessivos lances de perigo a ocorreram junto da baliza à guarda de Platzer. O perigo número um na área vienense dava pelo nome de Carlo Reguzzoni, que neste encontro esteve verdadeiramente endiabrado. Apontou três dos cinco golos com que o Bologna venceu o seu oponente, mas poderia ter marcado muitos mais, tais foram as ocasiões em que assustou Platzer. Com este hattrick Reguzzoni elevaria para 10 o número de golos marcados na competição, facto que fez dele o melhor da edição de 1934 da Mitropa. Quando o árbitro inglês Arthur James Jewell apitou para o final do encontro os 25 000 espectadores presentes no Stadio del Littoriale explodiram de alegria: Il Grande Bologna era de novo campeão da Europa.
Depois da conquista do Mundo - na sequência do triunfo da Squadra Azzura no Campeonato do Mundo da FIFA - o futebol italiano arrecadava agora a coroa europeia no que a clubes dizia respeito. Memorável.

Números e nomes: 

Oitavos-de-final (1ª e 2ª mãos)

Ferencvaros (Hungria) - Floridsdorfer (Áustria): 8-0/2-1

Kladno (Checoslováquia) - Ambrosiana-Inter (Itália): 1-1/3-2

Bologna (Itália) - Bocskay (Hungria): 2-0/1-2

Slavia Praga (Checoslováquia) - Rapid Viena (Áustria): 1-3/1-1

Austria Viena (Áustria) - Ujpest (Hungria): 1-2/1-2

Juventus (Itália) - Teplice (Checoslováquia): 4-2/1-0

Admira Viena (Áustria) - Nápoles (Itália): 0-0/2-2/5-0 (desempate)

MTK Budapeste (Hungria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 2-1/1-2/1-1 (Sparta vence por sorteio)

Quartos-de-final (1ª e 2ª mãos)

Ferencvaros (Hungria) - Kladno (Checoslováquia): 6-0/1-4

Ujpest (Hungria) - Juventus (Itália): 1-3/1-1

Bologna (Itália) - Rapid Viena (Áustria): 6-1/1-4

Admira Viena (Áustria) - Sparta Praga (Checoslováquia): 4-0/2-3

Meias-finais (1ª e 2ª mãos)
Recorte de um jornal da época dando conta do embate entre o Bologna e o Ferencvaros
Ferencvaros (Hungria) - Bologna (Itália): 1-1/1-5

Admira Viena (Áustria) - Juventus (Itália): 3-1/1-2

Final (1ª mão)

Admira Viena (Áustria) - Bologna (Itália): 3-2

Data: 5 de setembro de 1934
Estádio: Prater, em Viena (Áustria)
Árbitro: William Walden (Inglaterra)

Admira Viena: Peter Platzer, Robert Pavlicek, Anton Janda, Johann Urbanek, Karl Hummeberger, Josef Mirschitzka, Ignaz Sigl (c), Wilhelm Hahnemann, Karl Stoiber, Anton Schall, e Adolf Vogl. Treinador: Hans Skolaut.

Bologna: Mario Gianni, Eraldo Monzeglio, Felice Gasperi, Mario Montesanto (c), Aldo Donati, Giordano Corsi, Bruno Maini, Raffaele Sansone, Aldo Spivach, Francisco Fedullo, e Carlo Reguzzoni. Treinador: Lajos Kovács.

Golos: 0-1 (Spivach, aos 7m), 0-2 (Reguzzoni, aos 25m), 1-2 (Stoiber, aos 56m), 2-2 (Vogl, aos 58m), 3-2 (Schall, aos 60m)

Final (2ª mão)

Bologna (Itália) - Admira Viena (Áustria): 5-1

Data: 9 de setembro de 1934
Estádio: Del Littoriale, em Bolonha (Itália)
Árbitro: Arthur James Jewell (Inglaterra)

Bologna: Mario Gianni, Eraldo Monzeglio, Felice Gasperi, Mario Montesanto, Aldo Donati, Giordano Corsi, Bruno Maini, Raffaele Sansone, Angelo Schiavio (c), Francisco Fedullo, e Carlo Reguzzoni. Treinador: Lajos Kovács.

Admira Viena: Peter Platzer, Robert Pavlicek, Anton Janda, Johann Urbanek, Karl Hummeberger, Josef Mirschitzka, Karl Durspekt, Wilhelm Hahnemann, Karl Stoiber, Anton Schall, e Adolf Vogl (c). Treinador: Hans Skolaut.

Golos: 1-0 (Maini, aos 21m), 1-1 (Vogl, aos 32m), 2-1 (Reguzzoni, aos 33m), 3-1 (Reguzzoni, aos 40m), 4-1 (Fedullo, aos 84m), 5-1 (Reguzzoni, aos 88m).
A squadra do Bologna que pela segunda vez no curto espaço de três anos conquistou a coroa do futebol europeu