quarta-feira, outubro 21, 2026

Os Reis da antiga 2.ª Divisão Nacional: Anos 50

1950: O ano em que a Pantera devorou a Fase Final só com vitórias

Foi por uma escassa diferença de dois pontos que na temporada de 49/50 o Boavista passou à tangente para a 2.ª fase do nacional da 2.ª Divisão. Integrados na Série 2 da 1.ª fase da prova, os boavisteiros quedaram-se no segundo lugar, com 25 pontos, a cinco do campeão – de série – Leixões e aos tais dois pontos do terceiro colocado, o Espinho, classificando-se desta forma para a 2.ª fase. Aqui, deu-se o inverso do que se havia passado na 1.ª fase, isto é, o Boavista levou a melhor sobre o Leixões – bem como sobre o Vila Real e o Vianense – e garantiu a presença na poule final – 3.ª fase – onde iria lutar pelo título juntamente com o Académico de Viseu, União de Montemor e o Oriental. Lisboetas que na fase do tudo ou nada haveriam de ser os principais rivais dos portuenses, como comprovam os dois desafios ocorridos entre os dois emblemas. Oriental que vivia no rescaldo do escândalo de suborno verificado na temporada anterior, e que lhe valeu a suspensão da competição por ordem do Ministro da Educação, Pires de Lima. Mas desta feita, os “guerreiros de Marvila” jogaram limpo…

Duelo entre boavisteiros e orientalistas
Na caminhada para o título o Boavista começou por despachar facilmente o União de Montemor por 4-0, sendo que na ronda seguinte teve pela frente o primeiro osso duro de roer, quando em Marvila suou para derrotar o Oriental num grande jogo de futebol. O desportivismo imperou nas bancadas do Campo Carlos Salema ainda antes do pontapé de saída, quando na chegada ao recinto, a comitiva boavisteira foi recebida com aplausos pelos adeptos orientalistas, em especial Serafim e Fernando Caiado, jogadores que poucos dias antes haviam feito a sua estreia internacional com as cores da seleção nacional. O resultado final de 4-3 a favor do Boavista espelha um jogo equilibrado, mas onde os portuenses tiveram mais alma. Alcino e Fernando Caiado, com dois golos cada um na conta pessoal, foram os marcadores dos tentos axadrezados. Na 3.ª ronda, no Bessa, ante numerosa falange de apoio, os boavisteiros deram mais um passo rumo ao título, ao vencerem o Académico de Viseu por 2-1. Alcindo inaugurou o marcador para o Boavista, aos 27 minutos, ao tirar proveito de uma confusão junto à baliza dos beirões. Um golo que fazia jus ao que se passava em campo, onde os locais eram mais ofensivos, ao passo que os contra-golpes dos forasteiros não causavam grandes calafrios ao guardião Mota. Na segunda metade e com o vento a seu favor, os boavisteiros continuaram ao ataque, mas neste período tiveram pela frente um Académico que passou a incomodar um pouco mais no capítulo ofensivo. E num desses incómodos, Ferreira empatou a contenda. O Boavista aumentou o caudal ofensivo a partir daqui, e aos 75 minutos Serafim é rasteirado dentro da área por Faria, sendo que na conversão do castigo máximo o mesmo Serafim faz o 2-1 final. Na jornada seguinte, os portuenses fizeram a longa viagem até ao Alentejo, para defrontar o União de Montemor. Os locais – que na entrada para esta ronda estavam a apenas dois pontos do seu adversário – evidenciaram um ligeiro ascendente na primeira meia hora de jogo, ante um Boavista que sofria com o extremo calor alentejano, como dava conta a crónica do Diário de Lisboa (DL). Pior ficaram quando aos 32 minutos Lourenço teve de sair de campo após um choque violento com Claro, obrigando o xadrez a ser composto por apenas dez peças até final – na época ainda não eram permitidas substituições. Isso não impediu os visitantes de entraram mais afoitos na segunda metade, e com mais energia que o seu adversário chegaram ao golo aos 56 minutos por intermédio de Fernando Caiado. Porém, sete minutos volvidos Espadinha repõe a igualdade, para já perto dos 75 minutos um «esplêndido» golo de Barros recolocar as panteras na frente do marcador. A sentença final – o 3-1 – chegou por meio de Lourenço, que desta forma mantinha o Boavista invicto e cada vez mais perto do título. Festa que aconteceu a 7 de maio de 1950, dia em que o Boavista recebia o Oriental, e uma vitória dos locais assegurava matematicamente o cetro nacional. O encontro foi disputado em Leça da Palmeira – desconhece-se as razões do porquê de não ter sido no Bessa –, no Campo Mascarenhas Júnior, e nos minutos iniciais viu-se um Boavista a atacar deliberadamente, mas de forma muito precipitada. Com o passar dos minutos o jogo entrou numa toada de equilíbrio, com ambos os setores recuados a terem de trabalhar para manter as suas balizas invioláveis. «Até ao intervalo os dois grupos lutaram com entusiasmo, mas sem eficiência. Os guarda-redes tiveram boa atuação e é devido ao seu trabalho que se justifica o resultado de 0-0 ao intervalo», contava o DL. No segundo tempo o cenário foi alterado. O Boavista dominou. O primeiro quarto de hora destes segundos 45 minutos foram demolidores. Três golos (!) – da autoria de Luzia e de Lourenço (2) – sem resposta praticamente sentenciaram a partida, de nada valendo a ténue reação do Oriental, já que aos 75 minutos Alcino fez o 4-0 final e garantiu dessa forma não só o triunfo como o título de campeão nacional da 2.ª Divisão para o Boavista. Os portuenses terminaram a poule final de forma invicta: na sequência de uma vitória em Viseu por 5-2 na ronda final.

1951: O Barreirense volta a inscrever o seu nome a letras de ouro na história da 2.ª Divisão

Trinta e nove equipas deram vida à 2.ª Divisão na temporada de 50/51, que se desenrolou num figurino menos desproporcional do que em épocas anteriores. Desde logo se olharmos para a 1.ª fase da competição, que só comportou quatro séries – de norte a sul – com 10 equipas na maioria delas – a exceção foi a Série 4 que só teve nove conjuntos a competir. O Barreirense venceu a Série C, com 29 pontos, garantindo assim um lugar no Grupo Sul da 2.ª fase, onde no qual também conquistou o primeiro posto e dessa forma foi juntamente com o Lusitano de Évora, o União de Coimbra e o Salgueiros lutar pelo título nacional na poule final. O início da luta final aconteceu a 6 de maio de 1951, dia em que se realizou a 1.ª jornada da 3.ª fase, tendo o conjunto do Barreiro recebido no Campo do Rossio o União de Coimbra. A atuar em casa o conjunto da Margem Sul deu o primeiro sinal de aviso, e não fosse Celso a defender o perigoso remate de Custódio o marcador teria sido inaugurado. Após a investida inicial dos locais, o jogo entrou numa toada de maior equilíbrio a partir do minuto 10. Mas foi sol de pouca dura, pois a partir dos 20 minutos o Barreirense voltou a forçar a defesa coimbrã a trabalhos redobrados e numa dessas incursões à área contrária Décio abre o ativo para os anfitriões. O golo teve o condão de despertar os jogadores do União, que a partir daqui roubam o protagonismo do jogo aos do Barreiro, mas os seus avançados mostram-se desinspirados na hora de atirar ao alvo. Aproveita esta falta de eficácia o Barreirense, que a jogar em contra-ataque faz o 2-0 antes da saída para o descanso. José Ferreira foi o autor do golo. 


A segunda metade começa com investidas de um lado e de outro. Numa dessas incursões o Barreirense mata o jogo ao fazer o terceiro tento por meio de Décio após cruzamento de Custódio. O marcador podia ter sido ampliado, já que estes dois últimos homens dispuseram de soberanas oportunidades para voltar a bater Celso, mas a cinco minutos do fim seria o União a apontar o merecido tento de honra, por Noronha. Na ronda seguinte, viagem até à capital do Alto Alentejo, Évora, onde no Campo da Estrela não cabia nem um alfinete para presenciar uma partida que começou com nervos à flor da pele de parte a parte. O primeiro golo seria da autoria de Ferreira, que desfere um forte remate a passe de Teixeira e coloca os barreirenses em vantagem. Os eborenses reagem bem, mas faltava-lhes uma ligação entre setores melhor engendrada para causar perigo junto da baliza de Francisco Silva. Na segunda parte, o Lusitana aparece mais vivo em campo, mas contra a corrente seria o Barreirense a ampliar o marcador por intermédio de João Silva. O Lusitano abanou, e aos 70 minutos Raul, de fora de área, marca um golaço que pôs cobro às ténues esperanças dos alentejanos em conseguir virar o jogo. Tempo houve ainda para Teixeira, de penalty, fazer o 4-0 a favor do Barreirense, sendo que o melhor que os eborenses conseguiram fazer foi encurtar a desvantagem por Teixeira da Silva. 
A 20 de maio o Barreirense recebeu o Salgueiros, que foi a equipa que deu os primeiros acordes ofensivos da tarde. Só na parte final do primeiro tempo é que o Barreirense mostrou as garras, e em boa hora o fez, pois antes do apito de António Serrano (de Lisboa) para o descanso, Ferreira abriu o ativo no seguimento de um pontapé de canto. A entrada do Barreirense na segunda parte não poderia ter sido melhor: bela jogada coletiva entre Faia, Teixeira e Custódio, com este último a bater Soeiro. 2-0 o resultado final, o que fazia com que ao términus da primeira volta da poule final o Barreirense surgisse isolado na classificação geral, com 6 pontos, mais dois que o União de Coimbra. E seria precisamente na bela cidade localizada nas margens do Mondego que surgiu o primeiro tropeção dos futuros campeões nesta 3.ª fase. Fazendo-se acompanhar de elevado número de adeptos até ao Campo da Arregaça, o Barreirense viu-se em apuros desde cedo face à avalanche ofensiva dos donos da casa. Porém, contra a corrente, foi Teixeira que de cabeça abriu o ativo para os forasteiros quando estavam decorridos 7 minutos. Pouco depois da meia hora o árbitro Vieira da Costa (do Porto) invalida um golo ao União, que não tirando o pé do acelerador chegou ao merecido empate ainda antes do intervalo, por intermédio de Conceição Rodrigues. «No reatamento, o jogo é assinalado com os unionistas a exercerem pressão, chegando mesmo a dominar, só não marcando, porém, devido aos maus remates dos seus dianteiros», retratava o DL. Á passagem dos 70 minutos essa tendência foi alterada, quando Noronha com toda a calma do Mundo fez um chapéu a Silva e amplia a vantagem e sela o resultado final em 2-1. No dia 3 de junho uma conjugação de resultados fez do Barreirense campeão da 2.ª Divisão pela segunda vez na história. À derrota do seu mais direto perseguidor – o União de Coimbra – na luta pelo título, no Porto diante do Salgueiros; o Barreirense respondeu com um triunfo (1-0) caseiro diante do Lusitano de Évora. Nos primeiros 15 minutos do encontro vimos um Barreirense dominador, mas sem conseguir assustar o guardião Martelo. Com as rédeas do jogo a passar de mão em mão em períodos alternados, o golo da vitória – e do título – só chegaria a 6 minutos do fim, no seguimento de um livre apontado por Teixeira a castigar uma falta sobre Ricardo Vale. O Barreirense fazia a festa e de nada valeu a derrota (3-2) no último jogo da poule, no Porto, ante o Salgueiral.

1952: Lusitano de Évora conquista o primeiro e único título para o Alentejo com a ajuda do único jogador a ser campeão nacional em três divisões distintas

Dia 1 de junho de 1952. Um dia histórico para Évora e para o futebol alentejano de um modo geral. O Lusitano daquela cidade conquistava o título de campeão nacional da 2.ª Divisão após um empate sem golos ante o Vitória de Setúbal na derradeira jornada da poule final. Mas para chegar ao título, os eborenses começaram por classificar-se em 2.º lugar da Série D da 1.ª fase, com 28 pontos, menos dois que o campeão de série, o União de Montemor, e os mesmos que o… vizinho Juventude de Évora! Juventude e Lusitano disputaram taco a taco o acesso à 2.ª fase do campeonato. No Estádio Sanches de Miranda, casa do Juventude, os dois rivais disputaram um dos mais empolgantes dérbis de Évora de que há memória. O Lusitano vencia ao intervalo os seus vizinhos por 4-1, sendo que no reatamento a equipa do Juventude fez uma recuperação extraordinária, levando o resultado para uma diferença mínima. Nos instantes finais os campeões nacionais da 3.ª Divisão da temporada anterior – o Juventude – beneficiariam de uma grande penalidade, a qual foi convertida e selaria o marcador num fantástico e inesquecível 5-5. O equilíbrio entre os dois rivais foi de tal maneira vincado que ambos chegariam ao final desta 1.ª fase em igualdade pontual na tabela classificativa, com os tais 28 pontos. Porém, o Lusitano levou a melhor no desempate no goal-average (marcou 66 golos contra 64 do Juventude), e qualificou-se assim para a fase seguinte do campeonato, ao passo que o rival ficava pelo caminho. 


Na 2.ª fase, ao classificar-se em segundo lugar, atrás do Vitória de Setúbal e à frente de União de Montemor e da CUF, o Lusitano avançou para a 3.ª e decisiva fase da prova, onde lutou pela subida de divisão e pelo título de campeão. As coisas até nem começaram da melhor maneira, já que em Torres Vedras de nada valeu o golo de Pepe, já que o Torreense venceu por 2-1. Na 2.ª jornada, o Lusitano tirou a barriga de misérias ao esmagar o União de Coimbra por 7-1. Unionistas que até abriram o ativo, logo aos 2 minutos, por Zeca, mas um par de minutos depois Teixeira da Silva corrigiu o mau arranque dos locais e empatou a contenda. A partir dali o Lusitano partiu para cima dos rapazes de Coimbra, criando diversas ocasiões para marcar. Umas iam sendo salvas a custo pelo guarda-redes Celso, ao passo que outras tiveram como destino o fundo das redes deste. Teixeira da Silva – com mais dois tentos na conta pessoal –, Duarte – com um hattrick – e Pepe apontaram os restantes golos desta goleada. A primeira volta da poule final terminou em Setúbal com um triunfo por 3-1 do Lusitano. Assistiu-se a um início de jogo veloz, com as duas equipas a tentarem chegar ao golo. Inácio atirou à trave para os setubalenses, mas foi Teixeira da Silva que aproveitou um erro da defesa local para colocar o Lusitano em vantagem no placard. O Vitória parecia nervoso, e um minuto volvido, Graça comete novo deslise ao tentar fazer um passe ao seu guarda-redes e acaba por… fazer um auto-golo. O Vitória sacudiu a sonolência e até ao intervalo ainda conseguiu reduzir a desvantagem por Dimas, após passe de Melão. O primeiro quarto de hora após o descanso resumiu-se a um futebol de cautelas de parte a parte, mas depois disto o Vitória assumiu as despesas do jogo obrigando o Vital a trabalho apertado. Seria, no entanto, no seguimento de um contra-ataque que o Lusitano voltou a marcar – por Pepe – e garantiu os dois pontos.

Taça de campeão entregue ao capitão 
do Lusitano
Em Évora, na 4.ª jornada, numeroso público deslocou-se ao recinto do Lusitano para presenciar in loco a vitória dos locais por 3-1 sobre o Torreense. Na penúltima ronda da poule o Lusitano praticamente entrou a ganhar em Coimbra, quando aos 2 minutos, Vale converte com êxito uma grande penalidade. Os unionistas ripostaram e à passagem dos 14 minutos empataram o jogo por Aparício. Até à meia hora as balizas foram procuradas pelos dois conjuntos de forma permanente, mas estranhamente até ao descanso o ritmo do jogo abrandou e muito, dando lugar a um espetáculo pouco digno desse nome. No reatamento o União obrigou a defesa eborense a trabalhar afincadamente, mas o desgaste físico dos unionistas acabaria por ser aproveitado pelo Lusitano para chegar ao tento da vitória, por intermédio de Duarte. Assim, o conjunto de Évora faria a festa do título diante do seu público da derradeira jornada da poule final. «O Campo da Estrela apresenta aspeto surpreendente. Flutuam bandeiras no campo», assim era retratado pelo DL o ambiente que antecedeu o encontro. As primeiras jogadas de maior entusiasmo aconteceram junto da área visitante. Com os ponteiros do relógio a baterem nos 30 minutos assistiu-se a uma partida pautada pelo equilíbrio, sendo que o golo poderia até ao intervalo ter acontecido em qualquer das balizas, não fossem os setores recuados estarem atentos às manobras ofensivas contrárias. No segundo tempo as oportunidades de golo repartem-se pelos dois lados, mas o empate a zero não se altera e com o apito final de António Calheiros (de Lisboa) a festa toma conta do Campo da Estrela e de… metade da cidade, pelo menos. «O final do jogo atinge momentos de extraordinário entusiasmo. Um por um, os jogadores de Setúbal abraçam os do Lusitano. No ar rebentam foguetes. Os “vivas” e as palmas constituem um barulho ensurdecedor e dando largas ao seu grande entusiasmo, a multidão invade o campo e com os jogadores aos ombros vai passeá-los pela cidade», eis a bonita imagem contada nas palavras do DL deste épico momento da história do futebol do Lusitano de Évora. Este título garantiu aos eborenses a subida à 1.ª Divisão, escalão esse onde haveriam de marcar presença nas… 14 épocas seguintes!

Teixeira
da Silva
O título do Lusitano guarda em si um curioso e histórico facto. Teixeira da Silva, um dos campeões nacionais de 51/52, foi, e é, o único futebolista a sagrar-se campeão nacional em três divisões distintas. Por outras palavras, foi campeão nacional da 1.ª Divisão ao serviço do Belenenses em 45/46, foi campeão nacional do segundo escalão pelo Lusitano de Évora em 51/52, e foi também campeão nacional da 3.ª Divisão ao serviço do Serpa em 56/57. É obra. Nascido em Angola, no dia 8 de dezembro de 1922, João Luís Teixeira da Silva atuava como avançado, tendo em meados dos anos 40 deixado África – e o seu clube, o Sport Moçâmedes e Benfica – para ingressar no Belenenses, onde ingressou na temporada de 44/45. No Restelo permaneceu quatro temporadas, antes de rumar ao Minho para representar o Vitória de Guimarães em duas épocas. Tudo isto, na 1.ª Divisão. Em 50/51, Teixeira da Silva desce um escalão nacional, passando a representar o Lusitano de Évora na 2.ª Divisão Nacional, clube pelo qual, como já vimos, venceu o título nacional secundário e levou à 1.ª Divisão. A transferência de Teixeira e Silva para a capital do Alto Alentejo está envolta num episódio curioso, ou seja, o jogador transferiu-se ao abrigo do regulamento (?) que permitia que jogadores mudassem de clube sem qualquer dificuldade desde que fosse ao abrigo da obtenção de um emprego na função pública. Ora, Teixeira e Silva foi admitido como funcionário público na Câmara Municipal de Évora e assim pôde deixar a Cidade Berço. No Alentejo haveria de ficar para sempre, já que após deixar os lusitanistas atravessou a rua para defender as cores do vizinho Juventude, por uma temporada, na 2.ª Divisão. Seguiu-se uma viagem até Serpa, onde esteve um total de seis temporadas, ajudando a levar o clube desde os campeonatos distritais até à 2.ª Divisão nacional, sendo que pelo meio venceu o tal título de campeão nacional da 3.ª divisão.

1953: Santos Populares festejados a dobrar em Marvila

Os campeões nacionais de 1953 vieram de Marvila
Foi no Porto que a 14 de junho de 1953 o popular Clube Oriental de Lisboa venceu o primeiro de dois campeonatos nacionais da 2.ª Divisão da sua longa e gloriosa história. Antes dos foguetes, da música e das flores decorarem o bairro de Marvila, cerca de 700 orientalistas percorrerem 350 quilómetros desde a capital até à Cidade Invicta para apoiar a sua equipa na importante jornada diante do Salgueiros, no Campo Eng. Vidal Pinheiro. Dois comboios esgotados fizeram a viagem (ida e volta) até ao Porto, tendo o bilhete custado a módica quantia de 95 escudos. Outros tempos. Bom, mas no campo o Oriental não podia ter tido uma entrada melhor, já que logo na bola de saída, Mendes abriu o ativo, ao aproveitar uma falha clamorosa do guardião da casa, Adelino. Os salgueiristas logo se recompuseram do abalo inicial, e a partida entrou numa toada de equilíbrio entusiástico. Porém, os lances de maior perigo eram construídos pelos lisboetas. Na reta final da primeira parte, o Salgueiros assume as rédeas da partida, procurando com insistência o tento do empate, mas a defensiva forasteira bate-se afincadamente com o ataque local. Na segunda metade, «continua a lutar-se com a mesma vivacidade inicial, ninguém cede, num desbaratar de energias que chega a causar encanto», contava o DL. Com o passar do tempo a energia vai diminuindo, dado que a resistência dos jogadores tem limites, e a meia hora do fim passa a ver-se um Oriental mais preocupado em defender o precioso resultado do que tentar ampliá-lo. 

E assim foi, com o apito final do árbitro Paulo de Oliveira (de Santarém) os 700 orientalistas presentes no Campo Eng. Vidal Pinheiro deram vivas de alegria, o Oriental era campeão nacional e estava de volta à 1.ª Divisão. E em Marvila, assim que se soube do resultado, a festa foi ainda maior e durou dias a fio, como contava o jornal Record: «A festa começou na tarde de domingo anterior, quando estoirou nos bairros orientais de Lisboa a grande bomba: o COL vencera no Porto e conquistara o título de campeão nacional da 2.ª Divisão. Depois, à noite, nos bailes populares, e quase de madrugada, quando chegou o comboio especial trazendo os briosos campeões, a apoteose começou, a alegria avassalou todos os corações da gente laboriosa e honesta das bandas do Poço de Bispo. A ideia da festa da consagração no domingo seguinte criou imediatamente raízes. No domingo, todo o orientalista têm obrigação de levar para o campo um balão, um maço de serpentinas e um foguete (…) e de facto, anteontem, o campo de Marvila mais parecia um arraial de festas populares, tipicamente portuguesas, do que um campo de futebol. (…) O campo oferecia um vistoso aspeto, todo embandeirado em volta, ornamentado com toda a espécie de emblemas, desenhos, grinaldas de verdura, um mundo de enfeites de arraial. (…). Apoteoticamente aclamados, os jogadores deram uma volta ao campo exibindo a cobiçada taça que premiou tão magnífico triunfo. Depois da debandada, um cortejo automóvel percorreu as principais ruas da zona oriental de Lisboa, por meio de alas de povo, levando num deles as taças conquistadas». Marques, Morais, Luz, Capelo, Isidoro de Jesus, Alfredo, Mendes, António Leitão, Carlos França, Almeida e José Pina, este foi o onze que no Porto deu o primeiro título de campeão nacional ao popular COL.  

1954: CUF - O gigante do Barreiro que nasceu operário e se fez grande no futebol nacional

Os operários da CUF que em 54 levaram 
a glória até ao Barreiro 
CUF, provavelmente o maior clube empresa da história do futebol português que viveu em 53/54 um dos seus maiores momentos de glória com a conquista da 2.ª Divisão. Apoiada por uma das maiores empresas nacionais de então - Companhia União Fabril – liderada por Alfredo da Silva, o maior industrial português do século XX, o clube do Barreiro foi uma espécie de PSV ou Bayer Leverkusen dos anos 40, 50 e 60, mas sem atingir a dimensão que estes dois emblemas ligados a grandes indústrias atingiram. Mas como já vimos, a CUF também teve os seus dias de felicidade, e o dia 23 de maio é sem dúvida um deles. Mas já lá vamos. Na temporada de 53/54 houve nova mudança de figurino da 2.ª Divisão, cuja 1.ª fase passou a ser constituída por apenas três séries: norte, centro e sul. As duas primeiras foram integradas por 14 clubes, ao passo que a última foi disputada por 12. Os cufistas venceram precisamente esta Série Sul, com 35 pontos, mais 4 que o Juventude de Évora que na condição de segundo classificado também garantiu a presença na poule final. Segunda fase que foi integrada por seis clubes – os dois primeiros posicionados de cada uma das três séries. A extensa – com 10 jogos – e difícil poule final da competição chegou ao seu decisivo dia com o campeão por decidir. Ou seja, CUF e Torreense surgiam empatados no 1.º lugar, com 12 pontos, embora os do Barreiro tivessem vantagem no goal-average. Os dois emblemas tinham colecionado até então nesta 2.ª fase cinco vitórias, dois empates e outras tantas derrotas. Na jornada decisiva a CUF recebia no Barreiro os Leões de Santarém, ao passo que os de Torres vedras jogavam também diante do seu público ante o Leixões. E no Barreiro, de acordo com a crónica do DL, os locais iniciaram o jogo com vontade de cedo chegar ao golo, semeando o pânico na área contrária e não fosse a desinspiração – ou nervosismo – inicial dos avançados cufistas o guardião Mário teria ido buscar a bola ao fundo das suas redes pelo menos em duas ocasiões claríssimas. «Nota-se que as equipas estão a jogar mais com os nervos do que com a cabeça e os pés, mormente a da casa, que acusa em demasia a responsabilidade do desafio», analisava o jornalista do DL. No entanto, aos 24 minutos o nervosismo deu lugar à determinação: Barriga corre isolado em direção à baliza de Mário e com um remate rente ao chão faz o primeiro golo da tarde. O golo aninou a CUF, que passou a carregar com maior insistência, criando diversas situações de aflição aos Leões, que por sua vez não deixavam de afiar as garras sempre que podiam. Também a CUF se pôde queixar de alguma de sorte na finalização, já que antes do descanso Vasques atirou uma bola ao poste. E o segundo tempo não poderia ter tido melhor início para os locais: aos 49 minutos, Aureliano faz de cabeça o 2-0, no seguimento de um pontapé de canto. O público que lotou o Campo de Santa Bárbara pressentia que o título estava perto e de pronto solta serpentinas que voam pelo retângulo de jogo. Pouco depois, Sérgio desperdiça uma soberana oportunidade para fazer um novo golo cufista, quando só com o guardião contrário pela frente atira ao lado. Apesar de a CUF ser dona e senhora do jogo, os Leões de Santarém iam dando alguma luta, e à passagem dos 75 minutos, Livramento encurta distâncias no marcador. Os escalabitanos animam-se e passam a jogar mais ao ataque, mas a CUF fecha com eficácia as portas da sua baliza e mantém o resultado até final. Com o derradeiro apito de Joaquim Campos (de Lisboa) a festa acontece no Barreiro. A CUF era campeã nacional da 2.ª Divisão, de nada valendo a expressiva vitória do Torreense no outro jogo diante dos matosinhenses: 5-1. No cair do pano desta edição da 2.ª Divisão, o DL escrevia que «um campeão que merece sempre distinção especial, mas no caso presente, tanto o novo titular como o Torreense se igualaram em categoria e ambos, por igual, devem ser alvo da simpatia de todos. Ganhou o título aquele que era favorito e a sua vitória constitui prémio para o labor despendido durante a longa e fatigante prova».

1955: Torres Vedras em festa com o Torreense campeão

Os homens que conquistaram o único título
de campeão nacional da história do Torreense 
Apenas duas zonas – norte e sul – deram vida à 1.ª fase da época de 54/55. Cada uma dessas zonas/séries foi disputada por 14 equipas, sendo que os três primeiros classificados de cada uma delas avançava para a 2.ª e decisiva fase da 2.ª Divisão. E ao fim de nove meses de competição, eis que a 29 de junho de 1955 foi encontrado um novo campeão nacional: o Torreense. Só na 10.ª jornada é que houve “fumo branco”, isto é, foi coroado o novo campeão nacional. Isto porque quer Torreense, quer o Caldas, entraram na última ronda a poderem vencer o título. As duas equipas encontravam-se separadas por apenas um ponto, sendo que a tarefa mais difícil parecia estar destinada os rapazes de Torres Vedras, que tiveram de viajar até Santarém para defrontarem os Leões locais, ao passo que o conjunto das Caldas da Rainha recebia o Estoril. Milhares de adeptos fizeram a viagem desde Torres até à capital do Ribatejo, conquistando desta forma uma “maioria absoluta” nas bancadas do Campo Alfredo Aguiar. O início de jogo foi movimentado de parte a parte, com ambos as equipas a procurarem levar o esférico para o meio campo contrário. As oportunidades de golo repartiram-se pelos dois lados, mas foram os visitantes a conseguir introduzir a bola dentro da baliza à passagem da meia hora: «a equipa visitante contra-atacou e um centro de Pina foi rematado por Carlos Alberto em condições de fornecer o primeiro golo da partida», assim escreveu o DL. Na retoma, os Leões de Santarém mostraram vontade de chegar ao empate, mas sem, no entanto, conseguirem criar perigo junto à baliza de Gama. Foi o Torreense que assustou de verdade na outra baliza, quando Pina atirou aos ferros na sequência de uma fuga de Martinho pelo flanco. Depois disto, os lances de perigo sucederam-se para ambos os lados, obrigando os dois guarda-redes – Cristobal e Gama – a trabalhos redobrados. O último quarto de hora foi de elevado interesse, com as equipas a intensificarem os seus ataques, os quais iam sendo travados com atenção e mestria ora pelos defesas, ora pelos guarda-redes. Começaram por esta altura também a vir ao de cima alguns nervos, expressos em algumas entradas um pouco mais ríspidas. Até que aos 80 minutos, Martinho voltou a ter uma arrancada que seria coroada de êxito: cruzou rasteiro para Mendonça, que aproveitando a atrapalhação da defesa local fez o 2-0 final. «O entusiasmo dentro e fora do retângulo tornou-se indiscritível. Todos se abraçavam e choravam de alegria». O Torreense era o novo campeão nacional da 2.ª Divisão ao concluir a 2.ª fase com 15 pontos, mais um que o Caldas que nessa mesma tarde despachou o Estoril por 7-2. O argentino Oscar Tellechea daria uma volta de honra ao campo para celebrar junto dos seus jogadores e adeptos este feito. Para a eternidade aqui ficam os nomes dos onze heróis que no Campo Alfredo Aguiar entraram na história do clube de Torres Vedras: Gama, Amílcar da Silva, Mergulho, Forneris, José Gonçalves, Carlos Alberto, Martinho, José da Costa, Mendonça e Pina.

1956: Quando o talento de Rogério “Pipi” ganhou o desafio e o campeonato

O Oriental campeão sob a batuta
de Rogério "Pipi"
Contando no seu elenco com um reforço de peso – o ex-benfiquista Rogério “Pipi” – o Oriental voltou a saborear a conquista do título secundário em 55/56. Os rapazes de Marvila venceram a Zona Sul da 1.ª fase, com 41 pontos, sendo que na 2.ª fase tiveram de medir forças com o Vitória de Guimarães, o Boavista, o Salgueiros, o Olhanense e o Coruchense para apurar o campeão nacional. E foi precisamente em Coruche, que na derradeira jornada da fase final o COL fez a festa do título. A equipa só dependia de si para ser campeã, ou por outras palavras, só precisava de mais uma vitória para no espaço de três anos sagrar-se campeã nacional pela segunda vez. Para o Ribatejo, o COL fez-se acompanhar de um imenso de mar de adeptos, os quais lotaram por completo o Campo da Horta da Nora. Nas palavras do Mundo Desportivo, aquela havia sido a maior enchente de sempre do recinto do Coruchense, e por consequência a melhor receita obtida até então pelo emblema ribatejano. O Record escrevia que «Coruche, atónita, viu-se invadida por cerca de 6000 forasteiros, exuberantes de entusiasmo, mas ordeiros e comunicativos».
Adeptos do Oriental invadiram Coruche

O peso da responsabilidade fez-se sentir do lado dos orientalistas, de tal maneira que os jogadores não souberam executar o que de melhor vinham fazendo ao longo desta temporada. Mas nem sempre ganha quem joga melhor, e o Oriental fez prova disso ao alcançar a tão almejada vitória (2-0) e assim conquistar o cetro. O primeiro tento da tarde aconteceu aos 29 minutos e foi da autoria da grande estrela da equipa, Rogério “Pipi”, que na entrada da área deu o melhor seguimento a um passe de Almeida. O mesmo Rogério “Pipi”, dez minutos volvidos, coordena uma bela jogada de combinação com Francisco Moreira e Almeida e posteriormente endossa o esférico para Carlos França, que de costas para a baliza ilude o guarda-redes Sério e faz o 2-0. O 3-0 final foi marcado já no segundo tempo: «Num livre à entrada da grande área, Rogério fez a bola galgar a barreira e anichar-se nas redes de Sério, que nem teve tempo de esboçar a defesa», escrevia Silva Resende, em A Bola, uma crónica cujo título expressava o que se tinha passado neste desafio decisivo: “O talento de Rogério ganhou o desafio e… o campeonato”. E Coruche o Oriental apresentou em campo Soares, Morais, Capelo, Cordeiro, Cruz, Fernando, Francisco Moreira, António Leitão, Carlos França, Rogério e Almeida.

1957: O dia em que Alma Salgueirista conquistou o Porto e… Portugal  

O velho Salgueiral em 1957
Após quatro tentativas goradas de alcançar a glória, eis que em 56/57 o velho Salgueiral fez jus à sua condição de clube popular ao conquistar o seu primeiro título de campeão nacional da 2.ª Divisão. Vencedor da Zona Norte da prova, o Salgueiros enfrentou o Braga, o Vitória de Guimarães, o Farense, o Coruchense e o Montijo na 2.ª fase, tendo o título sido decidido na derradeira jornada da prova. Salgueiros, que, diga-se de passagem, tinham uma equipa de respeito, já que entre outros craques haviam sido reforçados com três jogadores habituados a outras andanças no futebol nacional. Barrigana, Porcel e Carvalho, três futebolistas que no início da temporada haviam sido dispensados de forma polémica do vizinho FC Porto pelo controverso treinador azul e branco, Dorival Yustrich, foram acolhidos pelo seu colega de profissão do outro lado da cidade, Alfredo Valadas, que os juntou a outros talentos que o clube de Paranhos tinha na altura, casos do cabo-verdiano Chau, Gualdino, Lalo, Tai, Lenine, entre outros. Este foi ademais um campeonato que terminou de forma inédita, isto é, com três equipas empatadas pontualmente no primeiro lugar, com 14 pontos. Os portuenses levariam a melhor no desempate pelo critério do confronto direto. Salgueiros que na derradeira ronda da fase final, disputada no dia 12 de maio de 1957, deslocou-se ao Ribatejo para defrontar o Coruchense. 

Festa encarnada em Coruche... 
Fortemente apoiado pelos seus adeptos no Campo da Horta da Nora, o Salgueiros até começou a sofrer em Coruche com as investidas iniciais dos ribatejanos, mas a pouco e pouco foi equilibrando um encontro que durante largos períodos desenrolou-se a meio campo. Até que aos 20 minutos o marcador funcionou pela primeira vez. «Armando conduziu a avançada e passou depois o esférico para Veríssimo que se lançou pelo terreno e serviu Lopes, o qual chegou a fintar Barrigana para rematar de seguida com êxito», assim foi descrito pelo DL o primeiro tento do Coruchense. A vantagem não duraria muito, já que apenas dois minutos volvidos uma jogada iniciada em Germano é concluída com êxito por Teixeira. As equipas repartiam as ocasiões de perigo junto das balizas contrárias sem que, no entanto, o marcador voltasse a funcionar antes do intervalo. No reatamento o Coruchense é inicialmente mais ameaçador, mas foi Lalo que deu ao Salgueiros o primeiro remate intencional. Até aos 60 minutos a defesa dos portuenses teve de se aplicar a fundo para travar as descidas dos coruchenses à sua área, mas seria novamente a baliza dos locais a ver passar o perigo à sua frente na sequência de ações ofensivas de Pintos e Lalo. O Salgueiros passou então a comandar as operações, atacando a baliza de Vieira de forma mais frequente e enérgica, não sendo de estranhar que na passagem do minuto 73, Tai fizesse o 2-1 após passe de Lopez. Em desvantagem, o Coruchense voltou a despertar, lançando-se afincadamente ao ataque e obrigando Barrigana a uma série de defesas atentas. Até que a sensivelmente 10 minutos do apito final do árbitro Joaquim Campos (de Lisboa) um forte e bem colocado remate de Manuel Jorge fez o resultado final: 2-2. Findo o encontro, a tristeza abateu-se sobre os jogadores salgueiristas, que precisavam de ganhar para festejarem o título. Por entre lágrimas, os jogadores portuenses regressavam aos balneários, ao passo que a numerosa falange de apoio salgueirista ia abandonado o Campo da Horta da Nora cabisbaixa e silenciosa. Porem, tudo mudou quando de Faro chegavam notícias de que o Vitória de Guimarães ali tinha empatado (também a dois golos), o que de pronto rotulava o Salgueiros campeão. 

... e na Cidade Invicta
A multidão voltou a correr para o campo em absoluto delírio, juntando-se aos jogadores numa festa de arromba. Festa que duraria dias a fio, sobretudo na Cidade Invicta, onde os novos campeões nacionais regressaram no dia seguinte ao jogo, tendo sido recebidos por uma vasta multidão. O jornal A Bola escrevia que «fechou o comércio e paralisou o trânsito, segunda-feira, ao fim da tarde. Chegava nesse dia a equipa do Salgueiros, que, depois do desafio de Coruche, foi pernoitar a Vila Franca de Xira, de onde abalou para o Porto de manhãzinha, com passagem por Fátima e paragem em Leiria para almoço. A receção foi verdadeiramente triunfal. Nela tomou parte todo o Porto, mas não só o Porto, também os arredores. (…) Começou então a caminhada da apoteose – como outra se não viu ainda no Porto. Foi um delírio, uma loucura. O Salgueiros, clube do povo, alevantou o povo de Gaia e o povo do Porto. Parando constantemente, tal a quantidade de gente, a caravana avançou a passo de boi, penosamente. (…) O Salgueiros andava na boca de milhares de pessoas, que arrancavam os jogadores dos automóveis, levando-os em triunfo até à camioneta aberta em que fizeram o final do percurso. (…) E então, ao cabo da Avenida da Ponte, frente à Estação de São Bento, um mar de gente aglomerada e apinhada recebeu os campeões com manifestações que repercutiam de rua a rua. Finalmente, atravessado o centro da cidade, a caravana chegou à Praça D. João I, eram 19 horas e 20 minutos (…) quase duas horas haviam passado desde que a equipa começara a triunfal caminhada até à sede velha do Salgueiros. Milhares e milhares de entusiastas corriam atrás da camioneta. Rusgas organizadas, como se de uma noite de São João se tratasse, corriam a cidade (…) a Banda do Asilo do Terço rompeu uma marcha marcial, instrumentos de todo o género se fizeram ouvir. Mas, acima de tudo isso, soava mais alto, dominando tudo o mais, o grito entusiástico de “Salgueiros, Salgueiros, Salgueiros”».


Barrigana, Gualdino, Carvalho, Porcel, Mário, Germano, Lalo, Lopes, Teixeira, Tai e Pintos foram os onze heróis dessa tarde em que a Alma Salgueirista se fez sentir em Coruche.

1958: Serranos com sotaque alentejano festejam antecipadamente o seu segundo título nacional

Os campeões de 58 com
a Serra da Estrela como pano de fundo
Depois de na temporada transata termos tido a necessidade de esperar pela última jornada para conhecer o campeão, em 57/58 o sucessor do Salgueiros foi conhecido a duas jornadas do final da 2.ª fase da competição. E para o novo campeão este era um título que culminava uma das melhores fases da sua história, já que um ano antes havia tido o condão de pela primeira vez – até então – levar uma equipa do interior do país à final da Taça de Portugal. Feito esse que pertenceu ao Sporting da Covilhã, que em 56/57 chegou ao Jamor onde só seria vergado (3-1) pelo Benfica de José Águas e companhia. Pois bem, uma época depois os Leões da Serra venceriam pela segunda vez na história o título de campeão nacional da 2.ª Divisão. Para atacar, sobretudo, o regresso à 1.ª Divisão, os serranos foram até ao Alentejo reforçar-se com alguns nomes que haviam conduzido o Serpa, um ano antes, ao título nacional da 3.ª Divisão, casos de José Garcia, Picareta, Coureles e do treinador Joseph Fabian. Integrado na Zona Norte da 2.ª Divisão, o Covilhã ficaria no 2.º lugar, com 38 pontos, menos três que o primeiro colocado Vitória de Guimarães, clube este que haveria de voltar a ser o grande rival dos covilhanenses na 2.ª fase da competição. Os dois emblemas lutaram taco a taco até bem perto do final desta fase final, sendo que o tira-teimas aconteceu a 4 de maio de 1958, onde um empate a uma bola no Estádio José Santos Pinto, com o Farense, foi suficiente para garantir o cetro. Melhor começo o Covilhã não podia ter tido, já que fruto de uma entrada a todo o gás os da casa inauguraram o marcador logo no primeiro minuto por Tonho. Os algarvios não se encolherem, pelo contrário, e três minutos volvidos chegaram à igualdade por intermédio de Realito. Um grande golo do avançado espanhol do Farense, diga-se de passagem, já que pegou na bola ainda no meio campo e em sucessivos dribles bateu toda a defesa local e o guarda-redes Rita, acabando o esférico no fundo das redes. O Covilhã, de seguida, assumiu as despesas do encontro, mas sem conseguir criar perigo para a baliza de Mário Fevereiro. No segundo tempo, os locais continuaram por cima dos acontecimentos, sem que, no entanto, os algarvios nunca deixassem de espreitar o contra-ataque sempre que podiam, colocando em alerta o setor recuado local. Os onze heróis que defenderam as cores dos Leões da Serra neste que pode então ser considerado o jogo do título foram: Rita, Hélder, Couceiro, Lãzinha, Lourenço, Cabrita, Martin, Martinho, Tonho, Amílcar e Óscar Silva. Com o tropeção do Vitória no Bessa, o título foi matematicamente assegurado, pelo que uma semana depois o Estádio José Santos Pinto engalanou-se para dar vivas aos novos campeões nacionais. «Bandas de música e grupos de Zés Pereiras, antes do começo do jogo, deram a volta ao campo e os acordas das marchas com os entusiásticos aplausos dos covilhanenses. No ar estoiraram morteiros e preparavam-se todos para no final lançarem serpentinas e uma salva de pombos», assim descrevia o DL este ambiente festivo que se vivia na Covilhã na tarde de 11 de maio daquele ano. No campo assistiu-se a um primeiro quarto de hora pautado pelo equilíbrio entre Covilhã e Boavista, sendo que o nó foi desatado pelo boavisteiro Lourenço, aos 17 minutos. O Covilhã, em modo de festa, deixou-se adormecer pelos axadrezados, que até ao intervalo marcaram por mais três ocasiões: Amândio (2) e Germano foram os autores dos golos. Lãzinha ainda reduziu para os serranos, que na segunda metade ainda deram sinais de quererem mudar o rumo dos acontecimentos, postura que seria premiada com um remate certeiro de Amílcar a mais de 30 metros da baliza. Mas logo de seguida, Amândio mostrou que estava de “pé quente” e com o hattrick praticamente sentenciou a partida, de nada valendo o facto de Óscar Silva ter feito o 3-5 final. O Covilhã encerrou esta campanha vitoriosa no Algarve, diante do Olhanense, que foi batido por 2-1, com os golos dos campeões nacionais a serem apontados por Martinho e Amílcar, no espaço de apenas dois minutos. O Covilhã terminou a 2.ª fase com 15 pontos, mais três que os vimaranenses.

1959: Capitaneado por um futuro bi-campeão europeu, o Atlético afunda o Leixões na piscina de Leiria

Atlético de novo campeão!
Em 58/59 as emoções finais da 2.ª Divisão voltaram a ser decidida numa única partida: uma final. Os vencedores da Zona Norte e da Zona Sul – respetivamente, o Leixões e o Atlético – mediram forças num único encontro para apurar o novo campeão nacional do segundo escalão, encontro esse que teve lugar no dia 8 de março de 1959 e que teve como cenário a cidade de Leiria. Para lá chegarem as equipas classificaram-se então no lugar mais alto das respetivas séries: o Leixões venceu a norte com 41 pontos e o Atlético foi campeão a sul com 45 pontos. A final foi ensombrada pelo mau tempo. A região de Leiria foi assolada por um forte temporal que afastou os adeptos do futebol – e dos dois clubes em particular – de marcar presença no estádio. A FPF emitiu 3000 bilhetes para a final, mas poucas centenas foram vendidos. No entanto, houve quem nem o mau tempo impedisse de rumar à Cidade do Lis… a pé. É verdade, o DL dava conta de que uma dezena de adeptos do Atlético terá viajado de Lisboa até Leiria a pé para assistir ao encontro. Partiram da capital na 5.ª feira anterior e no domingo chegaram a Leiria, em cima da hora do jogo e… completamente encharcados pelas fortes chuvas que caíram. Por falar em chuva, também o relvado do Estádio de Leiria sofreu a bom sofrer com a intempérie, já que à hora do jogo era um autêntico charco de água! No camarote do estádio encontrava-se o Governador Civil do Distrito de Leiria, Olímpio Alves, que no final iria entregar a taça ao campeão. Mas até ser encontrado o sucessor do Covilhã no trono da 2.ª Divisão, houve que lutar, e o primeiro a dar sinais de que queria ganhar foi o Atlético, equipa que criou as duas primeiras grandes oportunidades. A primeira delas por intermédio de Germano, na marcação de um livre; e a outra por Carlos Gomes, que no seguimento de um canto cabeceou à trave. Germano que era, quiçá, a grande estrela daquele Atlético. Possante defesa central, ele iria brilhar na década de 60 ao serviço do Benfica, onde se sagraria bi-campeão europeu. 

Governador Civil de Leiria entrega a taça 
de campeão a Germano
A jogar melhor que os nortenhos, os rapazes de Alcântara abriram com naturalidade o marcador quando estavam decorridos 15 minutos: «Angeja desceu até à grande área dos leixonenses e rematando com força e colocação obrigou Rosas a defender para canto, que marcado (pelo próprio) por Angeja deu ensejo a que Mesiano fizesse o tento», assim descreveu o DL o tento inaugural da tarde. A bola foi ao centro e poucos segundos depois já estava a voltar a entrar na baliza de Rosas, como resultado de uma bela triangulação entre Germano, Carlos Gomes e Albano Fonseca, tendo este último rematado com êxito para o fundo das malhas. A partir daqui o Leixões despertou e fez pela vida. Aos 22 minutos, António Medeiros teve o golo nos pés, não fosse o poste travar essa intenção. Contudo, a superioridade técnico-tática dos lisboetas foi evidente até final da primeira metade, o que assim justificava a vantagem no intervalo. No reatamento, os leixonenses numa tentativa de surpreender a defesa do Atlético, começaram a ensaiar remates de longa distância, sem causar, no entanto, grandes tormentos ao guardião Pinho. Vendo que assim não iam lá, os matosinhenses recorreram à velocidade para desenhar as suas jogadas ofensivas, facto que haveria de lhes fazer mossa, já que aos poucos foram quebrando fisicamente. Facto aproveitado pelo Atlético para aos 27 minutos acabar com as aspirações nortenhas: «O Leixões foi punido com um livre próximo da grande área. Angeja marcou o castigo, na ala esquerda. A defesa matosinhense repeliu para perto e Orlando, de fora da grande área, atirou à trave, acabando por surgir Mesiano que como uma flecha obteve o terceiro golo do Atlético». Estava assim fechado o resultado e conquistado o segundo título nacional do escalão secundário por parte do Atlético, que nesta final jogou com: Pinho, Tomé Antunes, Fonseca, Germano, Alvarez, Orlando, Mesiano, Carlos Gomes, Álvaro Inácio, Albano Fonseca e Angeja. 

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