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sexta-feira, setembro 11, 2015

Copa América (5)... Argentina 1921

Uma revista da época retratando o feito alvi-celeste
1921 é um ano especial para o povo argentino. Pela primeira vez a seleção das pampas subia ao trono do futebol sul-americano após arrebatar a coroa de campeão continental. Um feito alcançado em Buenos Aires, o mesmo local onde cinco anos antes havia sido dado o pontapé de saída para aquela que é hoje a maior competição de seleções de todo o continente americano, a Copa América. Para a quinta edição do então denominado Campeonato Sul-Americano de Futebol uma novidade saltou à vista: a estreia do Paraguai. Orientados por um argentino, de nome José Durand Laguna, os paraguaios - que neste preciso ano de 1921 acabavam de filiar-se na FIFA - juntavam-se aos habituais Brasil, Uruguai e Argentina, substituindo a seleção do Chile, que devido a problemas internos na sua federação esteve ausente do campeonato. Paraguai que teve uma estreia de sonho na copa, já que no Estádio do Club Sportivo Barracas, o palco com capacidade para 30.000 pessoas que acolheu os seis encontros do certame, bateu por 2-1 nada mais nada menos do que os campeões em título, o Uruguai. Um dos responsáveis por esta autêntica surpresa foi um niño de 16 anos, Gerardo Rivas, que apesar da sua tenra idade assumia já o estatuto de grande estrela do selecionado paraguaio. Foi ele que aos 9 minutos abriu um marcador que seria ampliado já na etapa complementar por intermédio de Ildefonso López. O máximo que os atordoados uruguaios conseguiram fazer foi reduzir a desvantagem, através de um dos seus jogadores mais virtuosos, José Piendibene. 


Jogo inaugural da Copa de 1921,
entre a Argentina e o Brasil

O certame havia sido aberto no dia 2 de outubro desse longínquo ano de 1921 pelos combinados da Argentina e do Brasil. Esta última seleção viajou para Buenos Aires desfalcada dos seus melhores futebolistas, desde logo a grande estrela do futebol brasileiro de então, Arthur Friedenreich, que não participou na copa por ser... mestiço! Mais uma vez o racismo voltava a evidenciar-se nas canchas do futebol sul-americano. A recusa do Brasil em levar alguns dos seus melhores jogadores, grande parte deles de origem negra, surgia como consequência de um cartoon que um jornal de Buenos Aires havia feito em 1916, por alturas da primeira edição do Campeonato Sul-Americano, em que os futebolistas brasileiros eram representados por macacos magricelas a saltar de galho em galho a fazer piruetas! Uma caracterização que ganhou fama, sendo que a partir de então os brasileiros passaram a ser apelidados de macaquinhos. Cinco anos volvidos, e preocupados com a imagem que o país passou a deter no exterior na sequência desta caracterização, o presidente da República de então, Epitácio Pessoa, convocou uma reunião com a Confederação Brasileira de Desportos onde recomendou que apenas poderiam representar a nação os futebolistas das famílias mais abastadas economicamente, e que fossem de pele clara e de cabelos lisos! É caso para dizer que não sabe quem era mais racista, se os argentinos ou se o próprio chefe da nação brasileira! De nada valeram os protestos da sociedade do Brasil, onde se destacou a voz do escritor Lima Barreto, também ele mestiço, sendo que a seleção ao ficar privada dos seus craques não fez uma grande figura na capital argentina. Ante a equipa da casa o Brasil sucumbiu por 1-0, com o tento dos alvi-celestes a ser apontado por aquele que viria a ser o melhor marcador e grande figura do torneio, Julio Libonatti. Neste encontro de estreia os comandados de Ferreira Vianna Netto atuaram durante 80 minutos com menos um homem, já que logo aos 10 minutos o avançado Nonô teve de sair do relvado por motivo de lesão. 


Paraguaios não tiveram argumentos
para derrotar a turma da casa
Dez dias mais tarde o Brasil voltou a entrar em campo, desta feita para defrontar os caloiros do Paraguai. Mesmo sem realizar uma exibição convincente o escrete esmagou os paraguaios por 3-0, com golos de Machado (2) e Candiota, todos eles na primeira parte. 
Por sua vez, o Paraguai mostrou que a surpreendente vitória de estreia ante o poderoso Uruguai havia sido, quiçá, um mero golpe de sorte, pois à má performance obtida diante do Brasil seguiu-se uma nova e modesta atuação ante os anfitriões. Libonatti, aos 43 minutos, abriu o caminho de uma vitória fácil por 3-0 dos argentinos que desta forma estavam a um pequeno passo de entrar para a história. Mas para o fazer a equipa do jogador/treinador Pedro Fournol precisa de vencer o vizinho e eterno inimigo da outra margem do Rio da Prata, o Uruguai, seleção que se recompôs da derrota inaugural com um triunfo curto mas importante sobre o Brasil. Dois golos de Ángel Romano, um dos principais jogadores dos charrúas, contra apenas um dos brasileiros, deram aos campeões em título um novo alento quanto a uma possível renovação do ceptro. Quanto ao Brasil despedia-se sem honra nem glória, ficando somente para a história as heróicas atuações do seu guarda-redes, Júlio Kuntz, performance que levou a que o maestro Francisco Canaro tivesse composto um tango em homenagem ao goleiro do Flamengo. 


Libonatti marca o golo (contra o Uruguai)
que consagrou a Argentina
como campeã das américas
E no dia 30 de outubro o Estádio do Club Sportivo Barracas encheu para ver o encontro decisivo da copa. Aos argentinos um empate bastaria para celebrar o primeiro título continental da sua história, ao passo que uma derrota poderia dar o tetra à celeste. Contudo, os argentinos estavam dispostos a mudar o rumo da história, além de que contavam com um goleador em grande forma, Julio Libonatti, que aos 57 minutos apontou o único golo do encontro para gáudio do 30.00o espetadores presentes. Pelos seus golos Libonatti pode ter sido para muitos a chave do êxito argentino nesta competição, mas há que fazer igualmente uma referência ao guarda-redes alvi-celeste, Américo Tesoriere, que ao manter a sua baliza inviolável (!) deu um forte contributo para a conquista do título. Para a história do futebol argentino ficam os nomes de Florindo Bearzotti, Américo Tesoriere, Pedro Calomino, Aldolfo Celli, Jaime Chavín, Miguel Dellavalle, Raúl Echeverría, Alfredo Elli, José López, Vicente González, Julio Libonatt, Ernesto Kiessel, Juan Presta, Blas Saruppo, Emilio Solari e Gabino Sosa. Contudo, esta quinta edição ficou igualmente marcada pelo reduzido poder de finalização das quatro seleções em prova, já que somente 14 golos foram apontados em seis partidas.  

A figura: Julio Libonatti


Julio Libonatti com a camisola
da Argentina
Reza a lenda que mal o árbitro brasileiro Pedro Santos apitou para o final do decisivo Argentina - Uruguai os hinchas locais correram para agarrar Julio Libonatti, pegando nele e levando-o em ombros até à Plaza de Mayo! Ainda hoje, recordar o primeiro título do futebol argentino no que a seleções diz respeito obriga a proferir o nome de Libonatti, o herói da copa de 1921. Este atacante nasceu em Rosário a 5 de julho de 1901 tendo iniciado o seu percurso futebolístico num dos clubes locais, neste caso o Newell's Old Boys. Ao serviço deste emblema deu nas vistas durante os oito anos em que vestiu o seu manto sagrado, essencialmente devido aos seus atributos de temível matador, o mesmo será dizer, de homem-golo. A estas características não ficaram indiferentes os responsáveis pela seleção argentina, os quais em 1919 chamam Libonatti pela primeira vez. Um ano depois integrou o grupo que defendeu a Argentina no Campeonato Sul-Americano de 1920, vencido, como se sabe, pelo Uruguai, Em 1921 foi então uma peça fundamental, para muitoa foi mesmo a peça fundamental, do êxito alvi-celeste, ao apontar três golos decisivos para a conquista do primeiro título continental para aquela nação. A sua fama subiu pois em flecha, sendo que quatro anos mais tarde do outro lado do Atlântico chegou-lhe um convite para exibir o seu talento em terras italianas. O convite surgiu da parte do Torino, e Libonatti - descendente de italianos - não recusou, entrando para a história como o primeiro jogador sul-americano a atuar no Velho Continente. Em Turim continuou a fazer o que melhor sabia, isto é, golos. Juntamente com Gino Rossetti e Adolfo Baloncieri formou um trio mortífero para os rivais do Toro, de tal modo que a imprensa italiana o batizou de trio maravilha. Durante os nove anos em que defendeu as cores do Torino Libonatti apontou mais de 150 golos, tendo tido um papel preponderante na conquista de dois scudettos por parte do clube. Pelo facto de ter descendência italiana Julio Liboantti defendeu em 17 ocasiões as cores da Squadra Azzurra - seleção nacional - tendo sido o primeiro oriundi - descendente - a fazê-lo. Na reta final da sua carreira ficou-se por Itália, onde defendeu ainda os emblemas do Génova e do Rimini. Ao serviço deste último clube teve a sua curta experiência como treinador - em 1936. Viria a falecer a 9 de outubro de 1981, com 80 anos de idade. 

Números e nomes: 

2 de outubro de 1921

Argentina - Brasil: 1-0
(Libonatti, aos 27m)
A seleção do Paraguai que em 1921 participou pela primeira vez na Copa América
9 de outubro 1921

Paraguai - Uruguai: 2-1
(Rivas, aos 9m, López, aos 66m)
(Piendibene, aos 83m)
Um ângulo da bancada e da tribuna central do Estádio do Club Sportivo Barracas,
onde decorreu o campeonato sul-americano de 1921
12 de outubro de 1921

Brasil - Paraguai: 3-0
(Machado, aos 21m, aos 44m, Candiota, aos 45m)

16 de outubro de 1921
Capitães do Paraguai e da Argentina cumprimentam-se antes do duelo travado entre si
Argentina - Paraguai: 3-0
(Libonatti, aos 43m, Saruppo, aos 71m, Echeverría, aos 76m)

23 de outubro de 1921

Uruguai - Brasil: 2-1
(Romano, ao 1n, aos 8m)
(Zézé, aos 53m)

30 de outubro de 1921

Argentina - Uruguai: 1-0
(Libonatti, aos 57m)

Classificação

1-Argentina: 6 pontos
2-Brasil: 2 pontos
3-Uruguai: 2 pontos
4-Paraguai: 2 pontos
A célebre seleção argentina que em 1921 alcançou o seu primeiro título oficial

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Copa América (4)... Chile 1920

Uma multidão aguarda no Porto de Valparaíso a chegada
do navio que transportou as delegações do Brasil,
Uruguai, e Argentina, para a 4ª edição
Campeonato Sul-Americano
Setembro acabara de se iniciar naquele longínquo ano de 1920, para gáudio da população de Valparaíso, pitoresca cidade costeira situada no Chile, e que acolheu a quarta edição do então denominado Campeonato Sul-Americano de Futebol. Atraído por aquela jovem e encantadora modalidade que pouco mais do que um par de décadas antes havia desembarcado naquela região do continente americano, o povo de Valparaíso mostrou todo o seu entusiasmo ainda antes de ter sido dado o pontapé de saída do torneio, quando em massa se deslocou ao porto da cidade para receber em euforia as três seleções que juntamente com o Chile iriam dar vida ao certame. Argentina, Uruguai, e Brasil, eis os ilustres convidados recebidos no porto de Valparaíso como verdadeiros reis do futebol continental. Reis, ou astros da bola, neste caso, que na verdade foram muito poucos no Campeonato Sul-Americano de 1920, uns porque, entretanto, haviam feito a sua retirada da alta competição, caso do mago uruguaio Isabelino Gradín, outros por desavenças entre organismos internos, casos dos brasileiros Arthur Friedenreich, Neco, Marcos de Mendonça, Haroldo, ou Píndaro de Carvalho - cinco pedras basilares na conquista do título por parte do escrete (que ainda não era canarinho) um ano antes. E foi precisamente um Brasil composto por jogadores reservistas que juntamente com a seleção da casa deu a 11 de setembro o pontapé de saída de um torneio que à semelhança dos três anteriores iria ser desenrolado em sistema de poule, onde todos jogariam contra todos a uma só volta, sendo o campeão o país que somasse o maior número de pontos.

Alvariza, autor do único
golo brasileiro em Valparaíso
As guerrilhas internas entre as federações paulista e carioca privou então a seleção brasileira de defender o título com os seus melhores intérpretes, tendo o selecionador Oswaldo Gomes não tido outro remédio senão levar alguns jogadores de segundo plano internacional, casos do defesa Telefone - alcunha curiosa do cidadão José Almeida Netto - João de Maria, Sisson, Fortes, Zézé, Junqueira, ou Ismael Alvariza. Seria este último jogador que no relvado do Valparaíso Sporting Club - o recinto que serviu de palco aos seis encontros deste campeonato - apontou o único golo da vitória sobre um Chile em reconstrução, uma seleção moldada pelo conceituado treinador uruguaio Juan Carlos Bertone com uma mescla de experiência - com futebolistas como Manuel Guerrero, Alfredo France, ou Horacio Muñoz - e juventude - casos de Pedro Vergara, Víctor Toro, Victor Varas, ou Humberto Elgueta - e que sobretudo deixou uma imagem bem mais positiva em relação aos três torneios anteriores. Um dia mais tarde entraram em campo os velhos inimigos do rio da Prata, Argentina e Uruguai, seleções que disputaram uma partida intensa e em certos períodos desenrolada nos limites da agressividade. 1-1 foi o resultado final deste clássico das américas onde sobressaiu o génio de uma das maiores estrelas do selecionado uruguaio orientado por Ernesto Figoli, José Piendibene de seu nome. El Maestro, como era conhecido, realizou uma soberba exibição, a qual seria coroada com um golo, o primeiro desse encontro, apontado aos 10 minutos. Porém, Raul Echevarría igualou a contenda no segundo tempo quando o relógio marcava 75 minutos. Com este resultado o Brasil era líder isolado ao final da 1ª jornada, dependendo apenas de si para revalidar o título conquistado um ano antes no Rio de Janeiro, mas... do céu ao inferno o trajeto foi curto para os brasileiros nesta Copa de 1920.

Brasil sofre humilhação histórica

El Loco Romano
Após cinco dias de descanso a competição voltou a entrar em ação no dia 18 de setembro. Frente a frente as duas seleções que haviam disputado o jogo final da edição anterior, o Brasil e Uruguai. O duelo disputado no Valparaíso Sporting Club teve um desfecho trágico para os campeões em título, já que um autêntico vendaval celeste varreu com os brasileiros do mapa do campeonato. 6-0, uma goleada que até há bem pouco tempo era a maior derrota averbada pela seleção do Brasil ao longo da sua centenária história, um recorde - negativo - que seria batido em 2014, altura em que a canarinha foi humilhada (7-1) em casa pela Alemanha, nas meias-finais do Campeonato do Mundo. Mas voltando a 1920, e a Valparaíso, para recordar que a avalanche ofensiva dos uruguaios teve início aos 23 minutos, quando Ángel Romano, mais conhecido como El Loco Romano, bateu pela primeira vez o infeliz Júlio Kuntz, goleiro que na época atuava no Flamengo. Três minutos volvidos Urdinarán, na conversão de uma grande penalidade, aumentou a vantagem, sendo que ainda antes da saída para o intervalo o centro-campista José Pérez fez o terceiro. Nada corria bem a um Brasil muito desfalcado das suas grandes estrelas da altura, e logo no reatamento da partida Antonio Campolo faria o quarto da tarde. O pesadelo ganhou contornos mais vincados quando à passagem do minuto 60 El Loco Romano voltou a bater Kuntz, que não iria para o duche sem antes ir buscar por uma última vez a bola ao fundo da sua baliza, desta feita enviada, de novo, por José Pérez. Exibição de gala do Uruguai, que provou no Chile que a derrota no Campeonato Sul-Americano de 1919 não havia sido senão um mero acidente de percurso, já que era evidente que continuava a ser a mais virtuosa e letal seleção da América do Sul.
No dia 20 de setembro o Valparaíso Sporting Club encheu para ver a seleção da casa defrontar a Argentina. Contando com o apoio maciço dos seus hinchas, a seleção chilena fez - segundo rezam as poucas crónicas de então - o seu melhor jogo do torneio, culminado com um impensável empate a um golo que deixava a Argentina em maus lençóis quanto à questão do título. Ainda em relação ao Chile, uma particularidade saltou à vista neste torneio, a qual prendeu-se com a cor da camisola usada pela seleción. Pela primeira vez a seleção chilena vestiu a camisola vermelha - nos primeiros anos de vida aquele combinado nacional vestiu-se de branco -, indumentária que persiste até aos dias de hoje, como se sabe.

O nascimento da relação amor/ódio entre argentinos e brasileiros

A principal bancada do Valparaíso Sporting Club,
estádio onde decorreram os seis jogos
da Copa de 1920
A 25 de setembro Argentina e Brasil disputaram o jogo do tudo ou nada. Ambas as seleções precisavam de uma dupla vitória para garantir o título, ou seja, precisavam não só de vencer este jogo como esperar que o anfitrião Chile derrotasse uma semana mais tarde o Uruguai. Os brasileiros, mais uma vez, voltaram a demonstrar que não estavam à altura da seleção que em 1919 havia guiado o país à sua primeira grande conquista internacional, como comprovou o resultado de 2-0 favorável aos argentinos. O Brasil saia sem honra nem glória da Copa do Chile. Quanto aos argentinos, um milagre era aquilo por que suspiravam para o último jogo da competição, que iria decorrer no dia 3 de outubro, e no qual estariam frente a frente chilenos e uruguaios. Antes de passarmos aos factos deste encontro decisivo para as contas finais do torneio importa sublinhar que foi no seguimento do Brasil-Argentina do Campeonato Sul-Americano de 1920 que nasceu a acérrima rivalidade entre os dois países, no que a futebol diz respeito. Até então as duas nações viviam uma relação cordial, a qual mudou como da água para o vinho precisamente depois de um artigo escrito pelo jornalista uruguaio Antonio Palacio Zino ser publicado no jornal argentino "Crítica", onde além de tecer severas... críticas aos jogadores brasileiros ainda os apelidou de macacos. O texto foi o embrião para o nascimento da relação de amor e ódio entre os dois povos, sendo que o aspeto mais curioso nesta bipolaridade sentimental é o facto dela ter sido criada por um uruguaio!

O árbitro do jogo decisivo,
o chileno Carlos Fanta
Voltemos à ação, ao campo de batalha, ao derradeiro dia da prova para nos centramos no confronto entre Chile e Uruguai. Apesar de técnica e taticamente superiores, os uruguaios não tiveram tarefa fácil diante de uma aguerrida seleção do Chile que contou com o apoio frenético de 16 000 espetadores ao longo dos 90 minutos. Uruguai que antes da partida torceu o nariz à nomeação do árbitro do jogo, Carlos Fanta, do... Chile! Contudo, a atuação do juiz chileno, considerado um dos melhores daqueles anos, foi impecável, facto que fez esquecer a todos os presentes que o seu coração batia pela sua pátria. A muralha chilena apenas seria derrubada já muito próximo do intervalo, altura em que El Loco Romano inaugurou o marcador para a celeste. No segundo tempo a multidão presente num estádio que nos dias hoje acolhe corridas de cavalo (!) entrou em delírio, por culpa de Aurelio Dominguez, que aos 60 minutos igualou a contenda. Sol de pouca dura, já que cinco minutos volvidos José Pérez voltou a colocar o Uruguai em vantagem, a qual não mais seria perdida até final, e que mais do que garantir a segunda vitória dos charrúas no torneio assegurou a conquista do terceiro Campeonato Sul-Americano em quatro edições realizadas! A melhor equipa da América do Sul era de novo a rainha do continente.

A figura: José Piendibene

El maestro Piendibene, com
as cores do seu Peñarol
Ángel El Loco Romano e José Pérez sagraram-se os melhores marcadores deste 4º Campeonato Sul-Americano, mas a estrela que mais brilhou ao longo do torneio foi a de José Piendibene. El maestro, como era conhecido, pela forma como pautava o jogo da sua equipa, era um avançado alto, portador de uma qualidade técnica apurada, a qual encantou os adeptos sul-americanos ao longo das décadas em que defendeu com brio as camisolas do Uruguai e do seu amado Peñarol de Montevidéu. José Antonio Piendibene nasceu na capital uruguaia, a 10 de junho de 1890, sendo que com apenas 17 anos vestiu pela primeira vez o manto sagrado da primeira equipa do Peñarol num jogo ante o French, em 1908, e onde no qual o jovem oriundo do bairro de Pocitos maravilhou o público com a marcação de dois golos e uma exibição deslumbrante. A partir dai não mais largou a titularidade no emblema de Montevidéu, tendo chegado à seleção em 1911. A estreia pela celeste deu-se diante do inimigo do outro lado do rio da Prata, a Argentina, tendo a alcunha de maestro nascido precisamente no rescaldo desse encontro, já que de acordo com a história, no final do duelo, o defesa argentino Alumni terá proferido o seguinte elogio ao jovem José Piendibene: «Usted es un maestro, muchacho...». E a alcunha ficou para o resto da sua vida. Ao serviço do Peñarol atuou em mais de meia centena de ocasiões - 506, para sermos mais precisos - tendo apontado 253 golos, registo que faz dele uma lenda eterna do clube aurinegro. Venceu seis campeonatos uruguaios (1911, 1918, 1921, 1924, 1926, e 1928), e em 1916 entrou para a história do Campeonato Sul-Americano de Futebol após ter marcado o primeiro golo da história daquela que hoje em dia é conhecida como Copa América. Fê-lo diante do Chile, a 2 de julho desse longínquo ano de 1916.

Este primeiro Campeonato Sul-Americano seria conquistado, como nunca é demais recordar, pelo Uruguai, tendo este sido o primeiro dos dois títulos continentais - esteve ausente na caminhada triunfal do Uruguai na segunda edição do certame - que Piendibene conquistou ao serviço da seleção celeste, a qual defendeu por 56 ocasiões, tendo apontado 26 golos. Outro recorde que ainda hoje predura prende-se com o facto de Piendibene ser o jogador que mais golos marcou no clássico do rio da Prata, o qual opõe a Argentina ao Uruguai, tendo o jogador do bairro de Pocitos apontado 17 tentos. O reinado do poderoso avançado no seio da seleção terminou nas vésperas de o Uruguai conquistar o Mundo, o mesmo é dizer, os Jogos Olímpicos de 1924. Piendibene só não fez parte dessa célebre equipa onde pontificavam nomes como José Nasazzi, Pedro Cea, Ángel Romano, Pedro Petrone, Héctor Scarone, ou a maravilha negra José Leandro Andrade porque o seu clube estava de candeias às avessas com a Associação Uruguaia de Futebol, e como tal proibiu os seus futebolistas de envergarem o manto celeste nas Olimpíadas de Paris. Nesse mesmo ano de 1924 foi atribuído a José Piendibene o título de sócio honorário do Peñarol. Antes de ser um exímio futebolista ele era um perfeito cavalheiro nas canchas em que passeou a sua classe, já que reza a lenda que sempre que marcava um golo nunca o festejava, em sinal de respeito para com o seu adversário. Faleceu em 1969, na sua cidade natal, Montevidéu.

Nomes e números:

11 de setembro de 1920

A desoladora seleção do Brasil que marcou presença no Chile, em 1920
Brasil - Chile: 1-0
(Alvariza, aos 53m)

12 de setembro de 1920

Uruguai - Argentina: 1-1
(Piendibene, aos 10m)
(Echeverría, aos 75m)

18 de setembro de 1920

Uruguai - Brasil: 6-0
(Ángel Romano, aos 23m, aos 60m, José Pérez, aos 29m, aos 65m, Antonio Urdinarán, aos 26m, Antonio Campolo, aos 48m)

20 de setembro de 1920
A equipa da casa, que pela primeira vez vestiu de vermelho
Argentina - Chile: 1-1
(Dellavale, aos 13m)
(Bolados, aos 30m)

25 de setembro de 1920

Argentina - Brasil: 2-0
(Echeverría, aos 40m, Libonatti, aos 73m)

3 de outubro

Chile - Uruguai: 1-2
(Aurelio Dominguez, aos 60m)
(Ángel Romano, aos 37m, José Pérez, aos 65m)

Classificação

1- Uruguai: 5 pontos
2- Argentina: 4 pontos
3- Brasil: 2 pontos
4- Chile: 1 ponto
A celeste uruguaia, que em terras chilenas alcançou o seu terceiro título de campeão das américas

sexta-feira, maio 03, 2013

Copa América (2)... Uruguai 1917


Por estes longínquos dias de 1917 grande parte da América do Sul andava verdadeiramente louca com o futebol! O caudal de desafios era cada vez maior - sobretudo no plano interno - não sendo de estranhar que a recém nascida CONMEBOL (Confederação Sul-Americana de Futebol) decidisse no citado ano dar continuidade ao sucesso granjedado em 1916 pelo também recém edificado Campeonato Sul-Americano, ao nomear o Uruguai como anfitrião da segunda edição do certame. E para este segundo Campeonato Sul-Americano de Futebol uma novidade saltou de imediato à vista de todos: o troféu que iria - dali em diante - coroar o rei das américas.
Se na edição inaugural, ocorrida um ano antes, recorde-se, na Argentina, a organização não atribuiu qualquer troféu ao campeão continental - o Uruguai -, em 1917 foi apresentada uma deslumbrante taça concebida em prata, sobre uma base em madeira, comprada numa joalharia (!) de origem francesa localizada em Buenos Aires pelo preço de 3000 francos suíços. O troféu fez então a viagem para Montevidéu, a capital uruguaia, escolhida para palco da edição de 1917 do Campeonato Sul-Americano. Os convidados para dar vida à grande festa do futebol continental foram os mesmos que um ano antes estiveram em Buenos Aires, isto é, Chile, Brasil, Argentina, e a seleção da casa, e campeã em título, o Uruguai.
Pomposo - pelo menos assim era visto naquela época - era também o Parque Pereira, o recinto mandado construir pela Asociación Uruguaya propositadamente para acolher os seis encontros do torneio. Um estádio edificado em madeira (!) com capacidade para 40 000 espetadores que teria vida curta, já que pouco depois do torneio seria demolido para em seu lugar ser construída uma pista de atletismo! Facto curioso é que o Parque Pereira foi edificado a pouquíssimos metros do local onde 13 anos mais tarde seria erguido o majestoso Estádio Centenário, o palco principal do primeiro Campeonato do Mundo da FIFA. 

De 30 de setembro a 14 de outubro de 1917 Montevidéu parou para assistir ao desenlace do Campeonato Sul-Americano. Favoritos à vitória? Talvez a equipa da casa, não só porque atuava diante do seu fervoroso público, mas porque continuava a agregar alguns dos melhores intérpretes do belo jogo da altura. O Uruguai era naqueles dias um autêntico viveiro de craques, e a prova disso é que mesmo a ausência das lendas responsáveis pela primeira conquista continental, Isabelino Gradín, José Piendibene, e Juan Delgado, impediu a celeste de continuar a ter um certo ascendente sobre os seus rivais. Gradín, Piendibene e Delgado deram lugar a outros astros que iriam marcar para sempre a história da modalidade, casos de Héctor Scarone ou Ángel Romano, homens que viriam a ser as duas grandes figuras - ligadas ao Nacional de Montevidéu - deste segundo torneio... e de outras futuras conquistas uruguais, algumas delas bem mais pomposas que o certame da CONMEBOL.

A 30 de setembro de 1917 é dado então o pontapé de saída de uma competição que à semelhança do ano anterior era disputada num sisteme de poule, onde todos jogavam contra todos, e o campeão seria o conjunto que somasse mais pontos.
Ao relvado do Parque Pereira subiram Uruguai e Chile. Diante de 22 000 espetadores, e sob a arbitragem do argentino Germán Guassone os uruguaios não tiveram grande dificuldade em esmagar o conjunto chileno por 4-0, com o destaque a pairar sobre os atacantes Ángel Romano e Carlos Scarone. Aos 20 minutos o irmão mais velho de Héctor Scarone batia o desampardo Manuel Guerrero pela primeira vez na tarde, para um minuto antes do intervalo Romano ampliar para dois golos a vantagem charrúa. A etapa complementar teve os mesmo protagonistas. À passagem do minuto 62, na transformação de uma grande penalidade, Carlos Scarone faz o 3-0, e aos 75 Ángel Romano fecha as contas em 4-0. Romano e (Carlos) Scarone teriam sortes distintas no futebol. Carlos, apesar de ter ficado na história como um excelente atleta viveu sempre na sombra do seu talentoso irmão mais novo, Héctor, enquanto que El Loco Romano cedo se tornou num dos jogadores mais queridos da afición uruguaia, muito graças à sua multifacetada maneira de estar em campo. Ao apurado sentido pelo golo o homem que fazia todas as posições de ataque da sua equipa (!), nascido em Montevidéu a 2 de agosto de 1893, era igualmente um talentoso organizador de jogo, rápido e preciso. Jogou quase 400 jogos (388 para sermos mais precisos) e marcou 164 golos até 1930, ano em que se retirou, ano este que coincidiu com a conquista do primeiro Campeonato do Mundo pelos charrúas. Ser campeão mundial teria sido o merecido prémio de uma brilhante carreira para El Loco Romano, uma lenda que ao lado de José Leandro Andrade, Héctor Scarone, Héctor Castro, ou José Nasazzi escreveu as páginas mais belas da... encantadora história do futebol uruguaio. Na ausência do título mundial o currículo de Ángel Romano é abrilhantado com os dois títulos olímpicos da década de 20 (1924 e 1928), que na altura eram equiparados... ao ceptro mundial. 

Três dias mais tarde, no mesmo cenário, Brasil e Argentina lutaram entre si. Os brasileiros partiram para a capital uruguaia com baixas de vulto no seu grupo em relação ao que se havia passado em 1916. Desde logo a ausência mais notada foi a do melhor jogador brasileiro daquele tempo, Arthur Friedenreich. Como parecia ser tradição não faltaram confusões na hora do embarque da seleção rumo a Montevidéu. A mais conflituosa terá sido a da escolha do treinador. A Confederação Brasileira dos Desportos (CBD) formou uma comissão técnica para liderar a equipa, comissão essa que seria encabeçada por Mário Pollo (dirigente da Liga Metropolitana, do Rio de Janeiro) e R. Cristófaro (dirigente da APEA). Além de escolher os jogadores que iriam representar o país esta comissão tinha por missão eleger o capitão de equipa, posto para o qual foi nomeado o atleta do Fluminense Chico Netto. Como as guerras entre Rio de Janeiro e São Paulo eram na época bem acesas alguns dirigentes paulistas não terão gostado da escolha, e indicaram Sílvio Lagreca para o posto. A CBD manteve a sua posição, e Chico Netto continuou capitão, mas em contrapartida Lagreca assumiu a função de treinador! E foi com Sylvio Lagreca como jogador/treinador que o Brasil defrontou a armada Argentina a 3 de outubro, encontro este que até começou da melhor forma para os brasileiros, que logo aos oito minutos inauguraram o marcador, por intermédio de Neco. 

Outra ausência de vulto no combinado de Lagreca era a do guarda-redes do Fluminense, Marcos Carneiro de Mendonça, o primeiro grande keeper canarinho. Para o seu lugar foi convocado o português Casemiro do Amaral - que já tinha participado no Campeonato Sul-Americano de1916. Aos 15 minutos Pedro Calomico empata o jogo, e a partir daqui o que se viu foi uma atuação... verdadeiramente desastrosa do guardião nascido em Lisboa ao serviço do Brasil. Seleção que no entanto iria para o descanso em vantagem, já que ao minuto 39 o jogador/treinador Lagreca converteu com êxito uma grande penalidade. No segundo tempo a Argentina aproveitaria então o desnorte de Casemiro do Amaral para dar a volta ao marcador. Sucessivas falhas do goleiro fizeram com que o Brasil fosse derrotado por claros 4-2 e hipotecasse - praticamente - desde logo as aspirações quanto à vitória final na competição. Quem disse definitivamente adeus ao título seria o frágil Chile, que no dia 6 de outubro perdeu por 0-1 precisamente ante a Argentina, graças a um lance infeliz de Luis Garcia, que aos 76 minutos apontaria um golo na baliza errada! Chile de regresso a casa - embora ainda faltasse disputar um encontro - e a Argentina em estado de graça com duas vitórias noutros tantos jogos realizados e com francas possibilidades de destronar o Uruguai como campeão das américas. Mas não iria ser bem assim, como mais à frente iremos poder constatar.  

E por falar em Uruguai, na tarde de 7 de outubro 21 000 aficionados celestes foram à loucura com mais uma exibição de gala da sua seleção. Os brasileiros foram despachados com a mesma chapa que uma semana antes haviam sido os chilenos, isto é, 4-0! Héctor Scarone aos oito minutos inaugurou a goleada. Veloz, tecnicamente bastante evoluído, exímio cabeceador, e de relação próxima com o golo o mais novo dos irmãos Scarone foi um dos grandes nomes do futebol uruguaio das décadas de 10 e 20, tendo sido preponderante não só na conquista deste mas de outros títulos que hoje em dia enchem de orgulho o povo charrúa pelo seu glorioso passado futebolístico.
Voltando ao relvado do Parque Pereira a magia uruguaia não se ficaria por ali. El Loco Romano ampliou a vantagem aos 17 minutos, sendo que já na segunda parte - ao minuto 77 - o mesmo Romano bisou na partida, fazendo desta forma o seu quarto golo na competição, o tento que o iria coroar como o rei dos goleadores deste segundo Campeonato Sul-Americano. Ainda antes do apito final do argentino Guassone o mais velho dos hermanos Scarone, Carlos, faria o 4-0 final, numa altura em que o relógio marcava 86 minutos.
Perante este resultado o cenário de 1916 voltava a repetir-se, ou seja Uruguai e Argentina iriam no derradeiro jogo da prova lutar pelo título de campeão. A final, assim era encarado esse encontro, estava marcada para 14 de outubro, mas antes disso, dois dias antes o Brasil fazia história. Diante de 10 000 pessoas os pupilos de Sílvio Lagreca esmagavam o Chile por 5-0, conquistando desta forma não só o terceiro lugar da copa mas acima de tudo a sua primeira vitória na ainda curta história de vida do certame continental.

Neste encontro um episódio curioso ocorreu. Quer Brasil quer Chile usavam camisola branca. Assim sendo os brasileiros foram obrigados a arranjar uma indumentária de outra cor, mas como na época as equipas/seleções não tinham mais do que um equipamento - e às vezes nem isso! - os brasileiros foram obrigados a ir a uma loja de material desportivo em Montevidéu comprar camisolas de outra cor. Vermelho foi a cor encontrada, e de vermelho vestido a seleção alcançaria então o seu primeiro triunfo na história da copa.
Com o terceiro lugar entregue ao Brasil as atenções focaram-se na final do dia 14. Mas antes disso um outro episódio caricato ocorreu na história deste campeonato de 1917. Amadores de alma e coração - o profissionalismo ainda só existia em Inglaterra - grande parte dos atletas que faziam parte do grupo argentino que se deslocou a Montevidéu teve de regressar a Buenos Aires para os... seus respetivos empregos! O futebol era tão somente uma paixão, e não o ganha pão do dia a dia, e como tal muitos dos craques das pampas tiveram de apanhar o barco de regresso à capital do seu país, deixando para trás o encontro decisivo do certame.


Perante isto a tarefa dos anfitriões ficou ainda mais facilitada. No derradeiro jogo da competição 40 000 pessoas lotaram por completo o Parque Pereira. 40 000 fervorosas almas que viram a estrela Héctor Scarone oferecer o título à celeste quando estavam decorridos 60 minutos de jogo. 
Um simples tento que deu o bi-campeonato sul-americano a um pequeno país cujo talento no futebol parecia ser inesgotável. Não estavam Gradín, Piendibene, ou Delgado, mas estavam outros capazes de continuar a caminhada triunfal que marcou a época dourada do futebol uruguaio. 
Na final outro episódio curioso ocorreu. Numa época em que não eram permitidas substituições o guarda-redes da casa, Saporitti, sofreu uma lesão a meio da contenda, tendo sido substituído pelo jogador de campo Manuel Varela, que até final se portou muito bem na posição de portero
O Uruguai terminava assim a competição invicto... e sem golos sofridos! 
Depois do último apito do chileno Juan Livingstone o Parque Pereira explodiu - naturalmente - de alegria.

 

Números e nomes:

30 de setembro de 1917

Uruguai - Chile: 4-0
(Carlos Scarone, aos 20m, aos 62m, Ángel Romano, aos 44m, aos 75m)

3 de outubro de 1917

Argentina - Brasil: 4-2
(Ohaco, aos 56m, aos 58, Calomino, aos 15m, Blanco, aos 80m)
(Neco, aos 8m, Lagreca, aos 39m)

6 de outubro de 1917

Argentina - Chile: 1-0
(Luis Garcia (p.b.), aos 76m)

7 de outubro de 1917
Uruguai - Brasil: 4-0
(Ángel Romano, aos 17m, aos 77m, Héctor Scarone, aos 8m, Carlos Scarone, aos 86m)

12 de outubro de 1917

Brasil - Chile: 5-0
(Haroldo, aos 26m, aos 59m, Caetano, aos 21m, Neco, aos 23m, Amilcar, aos 41m)

14 de outubro de 1917

Uruguai - Argentina: 1-0
(Héctor Scarone, aos 60m)

Classificação

1-Uruguai: 6 pontos
2-Argentina-4 pontos
3-Brasil: 2 pontos
4-Chile: 0 pontos

Legenda das fotografias:

1-O troféu instituído em 1917 que coroa - até aos dias de hoje, os vencedores do Campeonato Sul-Americano/Copa América
2-O Parque Pereira (estádio já desaparecido) onde decorreu toda a ação do certame de 1917
3-Ángel El Loco Romano, o melhor marcador da copa
4-Fase do duelo entre Argentina e Brasil
5-O português Casemiro do Amaral, que ocupou o posto de goleiro da seleção brasileira neste campeonato
6-Héctor Scarone, uma das estrelas do torneio
7-Amilcar, faz um dos cinco golos com que o Brasil - vestido de vermelho! - bateu o Chile
8-Seleção da Argentina
9-Héctor Scarone
10-Seleção brasileira
11-Fase do encontro entre chilenos e brasileiros
12-A seleção do Uruguai, bi-campeã das américas

quarta-feira, setembro 05, 2012

Futebol nos Jogos Olímpicos (4)... Paris 1924

Paris, a deslumbrante capital francesa assistiu em 1924 a um dos mais belos capítulos da história do futebol mundial, orquestrado por um virtuoso conjunto de futebolistas oriundos de um pequeno país sul americano de apenas 3 milhões de habitantes que conferiram ao jogo um misto de arte e fantasia nunca dantes interpretado por nenhum outro artista do pontapé da bola. Um facto ocorrido debaixo dos holofotes dos Jogos Olímpicos do citado ano, numa cidade à qual foi dada uma espécie de segunda oportunidade para mostrar ao restante globo terrestre a sua eficiência - e merecimento - em dar vida àquele que era já de forma indiscutível um dos maiores eventos planetários. Nunca será demais relembrar que 24 anos antes Paris tinha sedeado a II edição das Olímpiadas da Era Moderna, certame inserido no programa da Exposição Universal que em 1900 teve lugar na "cidade luz" e que seria rotulado como um profundo fracasso, desde logo pela razão de que não tinha sido mais do que um mero apontamento de entretenimento paralelo da dita exposição. Querendo apagar essa - má - imagem o recriador dos Jogos Olímpicos, e na época presidente do Comité Olímpico Internacional, o barão Pierre de Coubertin, fez de tudo - fazendo frente a inúmeras vozes de oposição - para que a sua cidade natal pudesse voltar a sedear os Jogos. A batalha seria ganha, e Paris tratou desde logo de se preparar para não repetir os erros cometidos em 1900. Foram construídas diversas infraestruturas desportivas, sendo a mais vistosa de todas elas o magnífico Estádio des Colombes, o local idealizado para acolher a esmagadora maioria das modalidades dos Jogos de 1924. Novidade seria a edificação de uma aldeia olímpica, uma espécie de complexo habitacional onde os atletas das nações participantes ficariam instalados. Atletas que seriam aproximadante 3100, em representação de 44 países, um número recorde na história da competição até então. E recorde seria igualmente o número de participantes no torneio olímpico de futebol, 22 em termos exatos, mais 8 que aqueles que tinham marcado presença quatro anos antes em Antuérpia, numa demonstração clara da popularidade que o torneio ia angariando de edição para edição entre as nações. A corrida ao título mundial - não será demais recordar que era desta forma que o torneio olímpico era encarado pela família do futebol - teve início a 25 de junho de 1924, quando no Stade des Colombes mediram forças duas potências futebolísticas da época - e cujo poder continua a ser bem evidente nos dias de hoje -, mais precisamente a Espanha e a Itália. Espanhóis que continuavam a ter como grande estrela o guarda-redes Ricardo Zamora, o qual 4 anos antes havia tido um papel fundamental na conquista da medalha de prata pelo combinado ibérico nos Jogos Olímpicos de Antuérpia. Do lado transalpino as luzes da ribalta focavam-se sobretudo no treinador Vittorio Pozzo, lendário mestre da tática que procurava apagar a má imagem deixada pela "squadra azzurra" no Torneio Olímpico de 1912, em Estocolmo, onde havia caído de forma prematura e surpreendente aos pés da frágil Finlândia. Em Paris a Itália mostrou outra atitude, e essencialmente talento futebolístico, pese embora tivesse de suar a camisola para afastar a forte e aguerrida seleção espanhola da 1ª eliminatória dos Jogos de 1924. Numa partida marcada pelo equilíbrio valeu à Itália o infortúnio do defesa espanhol Pedro Vallana, que aos 84 minutos do duelo traiu o seu companheiro Zamora ao introduzir o esférico na sua baliza e desta forma apontar o único golo da contenda, o qual garantia aos pupilos de Pozzo o passaporte para a ronda seguinte. Ainda no dia 25 deu-se a estreia de duas seleções em andanças olímpicas, nomeadamente a Suíça e a Lituânia. Foram mais felizes, muito mais na verdade, os helvéticos, que comandados pela sua estrela-mor Max Abegglen esmagariam a equipa do leste europeu por 9-0 (!), com destaque para o próprio Abegglen, autor de 3 golos, e de Paolo Sturzenegger, autor de 4 remates certeiros. Mas a epopeia suíça não se ficaria por aqui, como mais à frente iremos ver.
Sem dificuldades a Checoslováquia - uma das surpresas das Olímpiadas de 1920 - derrotou a estreante Turquia por 5-2, enquanto que no derradeiro jogo do dia os Estados Unidos da América - também eles a fazerem a sua estreia em matéria de Torneio Olímpico - batiam a Estónia por 1-0, graças a um golo de Andrew Stradan.

Mágicos uruguaios entram em ação

E no dia 26 de junho de 1924 o mundo do futebol iria sofrer uma verdadeira revolução... no bom sentido. Neste dia, que haveria de ter contornos célebres, entrou em ação o estreante Uruguai, pequeno país da América do Sul cujo futebol era uma verdadeira incógnita para as restantes seleções presentes. Dizer que com a entrada em cena dos uruguaios e dos norte-americanos, na véspera, o Torneio Olímpico abria assim as suas portas a países de fora da Europa e de África, tornando-se assim e agora num verdadeiro Campeonato do Mundo. Conforme já foi referido pouco ou quase nada se sabia dos uruguaios, sabendo-se somente que eram os reis do desconhecido reino futebolístico da América do Sul a julgar pelas 4 Copas América - em 7 edições disputadas até à data - que ostentavam no seu currículo. Mas isso não significava nada para os europeus, cientes da sua mestria da arte de manusear a bola.
Assim terão pensado inicialmente os jugoslavos, os oponentes do Uruguai na 1ª eliminatória dos Jogos de Paris, conforme recordou anos mais tarde o mítico jornalista uruguaio Eduardo Galeano, ao contar que aquando do visionamento de um treino da seleção sul-americana os espiões jugoslavos - jogadores e equipa técnica - terão desatado à gargalhada após verem in loco a falta de jeito dos seus adversário para com a bola. Bolas chutadas para as bancadas, choques atabalhoados entre os jogadores e dezenas de passes errados fizeram crer ao conjunto europeu que passar à fase seguinte seria uma tarefa mais do que fácil peramte os aparentemente toscos uruguaios. Mas só aparentemente, porque na realidade esta fraca performance patenteada no treino não foi mais do que uma tática para enganar os jugoslavos, na tentativa de os fazer acreditar que a vitória era mais do que certa perante tamanha falta de jeito. Tática essa que resultou em pleno, tendo a Jugoslávia entrado em campo totalmente relaxada e mais do que convencida que este não seria mais que um mero jogo-treino. Como que num ápice de magia os toscos uruguaios tranformaram-se em magistrais intérpretes do futebol, apresentando ao público parisiense um jogo alegre, solto, e tecnicamente atrativo, mais parecendo que o "onze" proveniente da América do Sul bailava ao som de um tango de Carlos Gardel. Resultado final: 7-0 a favor do Uruguai diante dos destruídos e pasmados fanfarrões jugoslavos, que por certo nunca mais iriam esquecer aquela lição. De imediato as atenções do torneio olímpico recairam no Uruguai, naquele pequeno país cujo desconhecido futebol havia de imediato apaixonado os parisienses que na tarde de 26 de junho se deslocaram ao Stade des Colombes. Na retina dos presentes ficaram sobretudo os bailados futebolísticos de nomes como Pedro Cea, Hector Scarone, José Nasazzi, Pedro Petrone, e de um tal Jose Leandro Andrade, um negro que haveria de sair destes Jogos Olímpicos endeusado pelo povo da capital francesa.
No último jogo da eliminatória a Hungria bateu sem dificuldades a estreante Polónia por 5-0.

Campeões olímpicos humilhados!

No dia 27 de junho arrancou a 2ª eliminatória da competição, com a entrada em campo da medalha de bronze das três primeiras edições do Torneio Olímpico, a Holanda, ante a estreante Roménia. Duelo sem história conforme traduz o resultado de 6-0 a favor dos holandeses, com destaque para o poker (4 golos) apontado por Cornelis Pijl. No outro jogo do dia o Stade de Paris (um dos quatro estádios da capital gaulesa onde foram disputados os encontros do Torneio Olímpico) engalanou-se para receber a seleção da casa, a França, que partia com a ambição de dar uma alegria ao seu povo, apresentando na competição alguns dos seus melhores atletas de então, casos de Paul Nicolas, Henri Bard, ou Jean Boyer. E a caminhada gaulesa até nem começou mal, muito pelo contrário, com a estreante Letónia a ser esmagada por 7 golos sem resposta. No dia seguinte mais duas seleções fizeram a sua estreia, casos da Bulgária e da República da Irlanda, as quais mediram forças entre si, acabando o triunfo por pender para os irlandeses por 1-0. Equilibrado seria o confronto entre a Suiça e a Checoslováquia, uma antevisão impensável à partida para este encontro, mesmo tendo em conta a veia goleadora dos helvéticos na 1ª eliminatória, uma vez que os checoslovacos eram tidos como uma das grandes equipas do futebol de então. Os suíços não se amedrontaram, e no final dos 90 minutos o resultado era de 1-1, para espanto dos presentes, tendo havido a necessidade de ser disputado um jogo de desempate a acontecer dois dias mais tarde.
Antes disso, e no dia 29, escândalo foi a palavra que pairou com maior intensidade sobre o Torneio Olímpico. A campeã olímpica em título, a Bélgica, entrava em campo determinada a repetir o feito conquistado quatro anos antes, contando para isso com a maior parte dos heróis de Antuérpia. O oponente até nem era dos mais poderosos, já que dava pelo nome de Suécia. Porém, da teoria à prática o caminho é distante e muitas vezes sinuoso... como traduz o impensável resultado de 8-1 a favor dos suecos! Os campeões haviam sido humilhados e nem a sua estrela principal, o temível avançado Robert "canhão" Coppée, lhes valeu. Pela segunda vez consecutiva aparecia no evento o Egito, o único representante do continente africano, que em Paris alcançava a sua primeira vitória olímpica depois de ter batido a Hungria por 3-0. No Stade Pershing, situado no famoso bosque de Vincennes, a Itália de Vittorio Pozzo despachava o modesto Luxemburgo por 2-0, com destaque para a exibição do célebre avançado do Bolonha Giuseppe Della Valle, autor de um dos tentos da azzurra. E no derradeiro encontro do dia 29 de junho a magia voltou a estar à solta em Paris. Com uma curiosidade redobrada na sequência dos ecos lançados pela imprensa francesa após a deslumbrante exibição diante da Jugoslávia, 10 000 espetadores deslocaram-se ao Stade Bergeyre para ver in loco os artistas vindos do Uruguai. O entusiasmo em torno do conjunto sul-americano era enorme por parte dos parisienses, e em especial sobre o negrito Andrade, o homem que bailava com a bola nos pés. E quem teve o privilégio de marcar presença em Bergeyer não se terá arrependido, muito longe disso, já que os mágicos uruguaios realizariam mais uma exibição de luxo ante os Estados Unidos da América, culminada com uma inequivoca vitória por 3-0, com dois tentos do goleador Pedro Petrone e um do polivalente - atuava em qualquer zona do terreno ! - Hector Scarone, um homem cuja lenda diz que cantava enquanto jogava! Neste mesmo estádio, e no dia seguinte, a Suíça voltava a surpreender os amantes do futebol. Graças a mais uma ótima atuação voltou a fazer a vida negra aos favoritos checoslovacos no jogo de desempate entre as duas equipas, acabando por vencer por 1-0 e seguir desta forma para os quartos-de-final... contra todas as previsões iniciais.

Gauleses rendidos ao encanto uruguaio... mais uma vez

Após um dia de descanso a bola voltou a rolar no dia 1 de junho para o pontapé de saída dos quartos-de-final, e logo com uma espécie de final antecipada, um encontro que colocou frente a frente a seleção da casa a um dos conjuntos sensação do torneio, o Uruguai. A espetativa em torno do duelo era enorme, podendo mesmo dizer-se que Paris parou nessa tarde, tendo os Colombes registado a sua maior enchente até então: 30 000 espetadores! 30 000 almas divididas entre o patriotismo francês e o fascínio pelo jogo sul-americano. A habilidade uruguaia levaria a melhor conforme explica o expressivo resultado de 5-1 a seu favor na sequência de mais um memorável bailado futebolístico de jogadores como Scarone, Petrone (ambos com 2 golos cada na conta pessoal deste encontro) Romano, Cea, ou Andrade, último jogador este que despertava cada vez mais paixões dentro e fora do campo, neste último aspeto pelas damas parisienses, cujos suspiros pelo invulgar corpo musculado "pintado" em tons de negro subiam de intensidade sempre que com ele se cruzavam nas míticas e encantadoras artérias da "cidade luz". No mesmo dia a Suécia voltava a evidenciar o seu poder de fogo, após aplicar uma nova goleada, desta feita ao Egito por 5-0. No dia 2 de junho a experiente - em andanças olímpicas - Holanda sentiu grandes dificuldades para derrotar o exêrcito irlandês. Seria só no prolongamento que Ocker Formanoij carimbaria o passaporte das tulipas - ao fazer o 2-1 final - para a 4ª meia final consecutiva em torneios olímpicos. E como não há duas sem três a Suíça voltou a fazer das suas no derradeiro encontro dos quartos-de-final. Desta feita as vitimas foram os italianos, os quais sucumbiam por 1-2 ante Max Abegglen - autor de um golo - e companhia.

Vitórias suadas das duas surpresas do torneio

Um jogo intenso e deveras duro, assim pode ser caracterizado o último obstáculo do Uruguai rumo à final olímpica. A Holanda fez o que pôde para contrariar o talento dos sul-americanos, jogando nos limites da dureza, em alguns momentos do encontro, para impedir o óbvio: a passagem uruguaia ao jogo decisivo. Facto que acabaria por acontecer a 6 de junho, graças a um golo apontado por Scarone na conversão de uma grande penalidade aos 81 minutos. Isto depois de as tulipas terem estado em vantagem no marcador! Pedro Cea empatou aos 62 e Scarone fez então o 2-1 final a menos de 10 minutos do apito final do francês Georges Vallat. Após o encontro os holandeses protestaram contra a grande penalidade que deu o triunfo aos sul-americanos, protesto esse que no entanto de nada valeu.
Intenso e equilibrado havia sido igualmente o encontro da véspera, que opôs os surpreendentes suíços aos mortíferos suecos. O resultado foi idêntico, 2-1, a favor dos helvéticos, que bem puderam agradecer à sua estrela-mor Max Abegglen, autor dos dois remates certeiros da sua equipa. O que é certo é que as duas equipas surpresa do torneio estavam na final... contra todas as previsões iniciais, inclusive as dos próprios suíços, cuja viagem de regresso a casa havia sido marcada para alguns dias antes da final! Não acreditando que a sua equipa podia avançar mais do que uma eliminatória, na melhor das hipóteses, os dirigentes helvéticos prepararam o seu orçamento para apenas 10 dias de estadia, precisamente o tempo de validade da passagem de comboio adquirida antes da partida para Paris. Ora, como a aventura do país neutral em terras gaulesas demorou bem mais do que esse período o jornal Sport efetuou uma petição junto dos seus leitores para que pudessem ajudar a custear as despesas da delegação suíça por mais alguns dias, uma vez que federação daquele país há muito que havia esgotado os seus parcos recursos financeiros. A dita petição foi concluída com sucesso, e os pupilos do inglês Edward Duckworth puderam sonhar por mais alguns dias com o título de campeões... do Mundo.

Uruguai sobe ao trono do futebol mundial com naturalidade

No futebol o amor e ódio são dois sentimentos que caminham muitas vezes de mãos dadas, e na final olímpica de 9 de junho de 1924 esta "parelha" esteve bem vincada. O futebol arte dos uruguaios podia despertar os corações de muito boa gente, mas também não é menos certo que a campanha triunfal dos suíços havia granjeado a simpatia de muitos parisienses. Era pois com um sentimento dividido que muitos dos mais de 40 000 espetadores que lotaram as bancadas do Stade des Colombes - diz-se que cerca de 10 000 pessoas ficaram às portas do estádio sem terem conseguido bilhete ! - visionaram a final dos Jogos Olímpicos de 1924. Os sul-americanos cedo impuseram o seu futebol-arte sobre o bem tratado relvado parisiense, colocando em ação um sufucante ritmo ofensivo suportado por uma sedutora combinação de passes a meio campo e uma eficaz segurança defensiva, no fundo a essência do invulgar estilo que os uruguaios haviam apresentado à Velha Europa, um continente habituado ao jogo físico e bolas pelo ar! Com um toque de bola rápido e de beleza ímpar acompanhado de dribles mágicos, rapidamente a multidão parisiense ficou rendida - uma vez mais - à arte uruguaia, que com toda a naturalidade do Mundo chegou à vantagem logo aos 6 minutos, por intermédio de Petrone, jogador que com este tento aumentava para 8 o número total de remates certeiros em todo o Torneio Olímpico, selando difinitivamente a conquista do título de rei dos goleadores. Na segunda parte Pedro Cea ampliou a vantagem ao minuto 65, e El Loco Romano fecharia a contagem aos 82. 3-0, resultado final que permitia ao Uruguai ascender ao trono do futebol mundial pela primeira vez. O futebol arte havia triunfado com justiça, um novo estilo de interpretar o jogo que faria escola dali em diante, e que seria adotado por muitas outras seleções, pese embora sem o perfume dos uruguaios. Após a histórica conquista a festa estoirou entre a comitiva sul-americana, tendo a modesta unidade hoteleira onde os charrúas estavam instalados oferecido um jantar aos novos campeões... mundiais. Tal como nos relvados José Leandro Andrade foi o centro das atenções na festa de consagração, das atenções e dos olhares femininos que seguiam com precisão os dotes de exímio bailarino do primeiro grande jogador negro da história do futebol.
Quanto à medalha de bronze essa ficou na posse dos suecos, que foram obrigados a horas extras para retirar aos holandeses uma medalha que estes ostentavam há já três Olimpiadas consecutivas. Depois de um empate a uma bola no primeiro jogo os suecos venceram por 3-1 no encontro de desempate, subindo desta forma ao último lugar do pódio de um torneio histórico, um torneio que revelou ao Mundo uma das mais brilhantes e vibrantes equipas de todos os tempos: os magos do Uruguai.

A figura: José Leandro Andrade

Paris vivia sob a influência dos loucos anos 20, no rescaldo da Belle Époque, que atraiu à "cidade luz" um elevado número de artistas de diferentes áreas, na procura de um estilo de vida desprendido assente na cultura e no devertimento sem barreiras. Em Paris não havia limites, viver, no verdadeiro significado da palavra, era a única regra. O estilo de vida mundano era adotado sem limites pelos parisienses em geral, que procuravam o prazer - visual, pelo menos para a maior parte deles - nas curvas sensuais da bela Josephine Baker, uma negra norte-americana que fazia as delícias dos frequentadores dos cabarets do Pigale graças aos seus sensuais espetáculos de striptease. Josephine Baker foi de facto a primeira negra a seduzir Paris, mas não seria a única. Em 1924 a "cidade luz" rendeu-se a um outro negro, um talentoso futebolista que brilhou no Torneio Olímpico desse ano, José Leandro Andrade era o seu nome. Sobre ele o Museu Virtual do Futebol já dedicou um capítulo mais detalhado aquando de uma visita à vitrina onde repousam as grandes lendas do futebol, pelo que neste capítulo dedicado aos Jogos de 1924 iremos apenas recordar em linhas gerais quem foi o primeiro astro negro do futebol planetário.
José Leandro Andrade nasceu a 3 de Outubro de 1901 em Salto, começando a dar os primeiros pontapés na bola no bairro de Palermo. Atuava tanto como médio defensivo como defesa (direito ou esquerdo) e cativou o mundo com a sua eficácia, elegância, inteligência e técnica de jogar futebol. Mais parecendo um felino com a bola nos pés iniciou a sua carreira no Misiones, passando depois pelo Bella Vista, Nacional, Penharol e Wanderers, todos emblemas uruguaios. Seria no Nacional que viveria alguns dos anos mais felizes da sua carreira, vencendo os campeonatos do seu país de 1922 e 1924. Pelo emblema de Montevideu participou em várias digressões pela Europa e pelos Estados Unidos da América, e reza a lenda que o famoso intérprete de jazz norte-americano Louis Armstrong ter-se-á inspirado no “Pelé dos anos 20” (como Andrade foi um dia apelidado) para criar o seu estilo artístico. Seria no entanto ao serviço da seleção do Uruguai que Andrade atingiu a fama planetária que fez dele um dos maiores jogadores de futebol da história. História que começou precisamente nas Olimpiadas de 1924, o certame onde se daria a conhecer ao Mundo. No meio dos artistas uruguaios ele foi a atração principal, com o seu estilo muito próprio e sedutor de acariciar e conduzir a bola. Nunca a Europa havia visto um negro jogar futebol, muito menos com a qualidade patenteada por Andrade. Na sequência das suas épicas exibições os jornalistas franceses logo o trataram de batizar de... Maravilha Negra. E assim nascia oficialmente a lenda. Mesmo não sendo fervorosos adeptos do futebol os franceses de então renderam-se por completo ao artista sul-americano, que nas ruas parisienses era tratado como um rei pelos homens que viam, ou liam, as suas façanhas no Torneio Olímpico e desejado pelas mais finas damas que perdiam os seus olhares nas curvas do seu atlético corpo.
Em 1930 o Uruguai organizou o primeiro Campeonato do Mundo da história. Uma espécie de presente da FIFA ao país que praticava o melhor futebol do planeta. Na qualidade de bi-campeã olímpica - o Uruguai venceria ainda os Jogos Olímpicos de 1928 - a equipa da casa partia assim como favorita a levantar a primeira taça do Mundo da FIFA. Já em final de carreira, e castigo por lesões crónicas, Andrade foi mesmo assim chamado para integrar a equipa uruguaia que disputou esse Mundial. A sua experiência e qualidade eram fundamentais para o triunfo da celeste. Ao lado de jogadores como Cea, Castro, Nasazzi e Scarone, Andrade venceria o Campeonato do Mundo, após a sua seleção ter derrotado na final os grandes rivais da Argentina por 4-2. Pelo Uruguai alinhou 43 vezes (só perdeu três jogos) e marcou um golo. Além de um fabuloso futebolista José Leandro Andrade era um não menos fabuloso bailarino, sendo que por diversas vezes integrou cortejos carnavalescos no seu país. Após a sua retirada dos relvados partiu (na década de 30) para Paris, a cidade que o corou no reino futebolísitco, onde se tornou um célebre bailarino de cabarets, partilhando as luzes da ribalta da sociedade cultural parisiense com nomes como Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, James Joyce, Pablo Picasso, Salvador Dali, ou a adorada Josephine Baker. Adorava a folia e a vida boémia. Regressou anos mais tarde a Montevideu, onde morreu só e na miséria em 1957.

Resultados

1ª Eliminatória

25 de maio de 1924

Itália - Espanha: 1-0
(Vallana, na própria baliza aos 84m)

Suíça - Lituânia: 9-0
(Sturzenegger, aos 2m, 43m, 68m, 85m; Abegglen, aos 41m, 50m, 58m; Dietrich, aos 14m; Ramseyer, aos 63m)

Turquia - Checoslováquia: 2-5
(Refet, aos 63m, 82m)
(Sedlacek, aos 28m, 37m; Sloup, aos 21m; Novak, aos 64m; Capek, aos 74m)

Estados Unidos da América - Estónia: 1-0
(Stradan, aos 15m)

26 de maio de 1924

Jugoslávia - Uruguai: 0-7
(Petrone, aos 35m, 61m; Cea, aos 50m, 80m; Scarone, aos 23m; Vidal, aos 20m; Romano, aos 58m)

Hungria - Polónia: 5-0
(Hires, aos 51m, 58m; Opata, aos 70m, 87m; Eisenhoffer, aos 14m)

2ª Eliminatória

27 de maio de 1924

Holanda - Roménia: 6-0
(Pijl, aos 32m, 52m, 66m, 68m; Hungronje, aos 8m; De Natris, aos 69m)

França - Letónia: 7-0
(Crut, aos 17m, 28m, 55m; Boyer, aos 71m, 87m; Nicolas, aos 25m, 50m)

28 de maio de 1924

Bulgária - Irlanda: 0-1
(Duncan, aos 75m)

Suíça - Checoslováquia: 1-1
(Dietrich, aos 79m)
(Sloup, aos 21m)

29 de maio de 1924

Suécia - Bélgica: 8-1
(Kock, aos 8m, 24m, 77m; Rydell, aos 20m, 61m, 83m; Brommesson, aos 30m; Keller, aos 46m)
(Larnoe, aos 67m)

Itália - Luxemburgo: 2-0
(Baloncieri, aos 20m; Della Valle, aos 38m)

Uruguai - Estados Unidos da América: 3-0
(Petrone, aos 10m, 44m; Scarone, aos 15m)

Egito - Hungria: 3-0
(Yakan, aos 4m, 58m; Hegazi, aos 40m)

30 de maio de 1924

Suiça - Checolováquia: 1-0 (desempate)
(Pache, aos 87m)

Quartos-de-final

1 de junho de 1924

França - Uruguai: 1-5
(Nicolas, aos 12m)
(Scarone, aos 2m, 24m; Petrone, aos 58m, 68m; Romano, aos 83m)

Suécia - Egito: 5-0
(Brommesson, aos 31m, 34m; kaufeldt, aos 5m, 71m; Rydell, aos 49m)

2 de junho de 1924

Holanda - Irlanda: 2-1
(Formanoij, aos 7m, 104m)
(Farrell, aos 33m)

Suíça - Itália: 2-1
(Sturzenegger, aos 47m; Abegglen, aos 60m)
(Della Valle, aos 52m)

Meias-finais

5 de junho

Suíça - Suécia: 2-1
(Abegglen, aos 15m, 77m)
(Kock, aos 41m)

6 de junho

Holanda - Uruguai: 1-2
(Pijl, aos 32m)
(Cea, aos 62m; Scarone, aos 81m)

Jogo de atribuição da medalha de bronze

8 de junho

Holanda - Suécia: 1-1
(Le Fevre, aos 77m)
(Kaufeldt, aos 44m)

9 de junho

Holanda - Suécia: 1-3 (desempate)
(Formanoij, aos 43m)
(Rydell, aos 34m, 77m; Lundquist, aos 42m)

Final

9 de junho de 1924

Uruguai - Suíça: 3-0

Estádio: des Colombes

Árbitro: Marcel Slawick (França)

Uruguai: Mazzali, José Nasazzi, Arispe, José Leandro Andrade, Vidal, Ghierra, Urdinaran, Héctor Scarone, Petrone, Cea, Ángel Romano.

Suíça: Pulver, Reymond, Ramseyer, Oberhauser, Schmiedlin, Pollitz, Ehrenbolger, Pache, Dietrich, Abegglen, Fassler.

Golos: 1-0 (Peteone, aos 6m), 2-0 (Cea, aos 65m), 3-0 (Romano, aos 82m)



 Vídeo: URUGUAI - SUÍÇA


Legenda das fotografias:
1-Cartaz ofiacial dos Jogos Olímpicos de Paris em 1924
2-Jogadores do Uruguai posam para a fotografia com as bandeiras do seu país e da França após o triunfo final sobre a Suíça
3-Fase do encontro entre suíços e checoslovacos
4-O mítico Stade des Colombes, construído propositadamente para as Olimpiadas de 1924
5-A estrela suíça, Max Abegglen
6-Imagem da final entre Uruguai e Suíça
7-A figura do torneio: José Leandro Andrade
8-Lance do equilibrado encontro inaugural do certame entre Espanha e Itália
9-A estreante seleção dos Estados Unidos da América...
10-A equipa jugoslava que foi esmagada pelos futuros campeões olímpicos de 1924
11-... e a talentosa "squadra azzurra" de Vittorio Pozzo
12-Imagem do duro jogo entre Estados Unidos da América e Uruguai
13-O artilheiro da competição: Pedro Petrone
14-Seleção da Irlanda
15-Uruguaios dão a volta ao relvado após a conquista do título, um gesto que ficaria conhecido para sempre como a volta olímpica, e que seria repetido dali em diante por centenas de equipas
16-A histórica seleção do Uruguai, campeã dos Jogos Olímpicos de 1924, uma das melhores equipas da história do futebol