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terça-feira, agosto 25, 2026

Copa América (10)... Chile 1926


A seleção uruguaia que em 1926 recuperou 
o título de campeão das américas

Em 1926 o então denominado Campeonato Sul-Americano de Futebol dava as boas vindas ao seu sexto integrante da história, a Bolívia. Foi no Chile, mais precisamente na capital Santiago, que La Verde – que na altura até vestia de branco – deu há um século atrás a esta parte o pontapé de saída da sua história no Planeta da Bola.  Facto ocorrido a 17 de outubro de 1926, quando no Campos de Sports de Ñuñoa, a Bolívia entrou em campo pela primeira vez, na abertura da 10.ª edição da maior competição de seleções do continente americano. Mas puxemos a fita atrás, mais concretamente até ao dia 18 de agosto desse ano, altura em que a Federação Boliviana de Futebol – que havia sido fundada apenas um ano antes – decide aceitar o convite da sua congénere chilena para integrar o lote de seleções do 10.º Campeonato Sul-Americano. Estávamos a dois meses do início da competição, e os dirigentes bolivianos nem sequer tinham ainda uma seleção nacional montada, mas mesmo assim arriscaram participar com o argumento da visão de integrar o país no Mundo do futebol. 

Job De La Cerda

Foi de pronto nomeada uma comissão técnica, a qual foi liderada por Job de la Cerda, um dos pioneiros do futebol boliviano que começou a sua carreira de futebolista e mais tarde de dirigente na Argentina, para onde se havia mudado com apenas 10 anos de idade. Assim que chegou ao comando da seleção boliviana, Cerda realizou um torneio nacional com equipas das várias regiões do país no sentido de escolher os melhores que iria levar ao Chile. No rescaldo deste torneio de captação, digamos, foram selecionados 17 jogadores originários dos estados/províncias de La Paz, Oruro, Sucre, Potosí, Cochabamba e Uyuni. Escolhidos os jogadores, a seleção reuniu-se a 13 de setembro em Cochabamba, cidade que tinha um clima mais aproximado do que se verificava em Santiago do Chile, até que a 1 de outubro a delegação da Bolívia inicia a viagem de comboio até Antofagasta, onde iria pernoitar antes de apanhar o barco para Valparaíso e dali novamente de comboio até Santiago. Foram três esgotantes dias de viagem para a estreante seleção, que assim que chegou à capital chilena recebeu inúmeras manifestações de carinho, quer por parte das autoridades do Chile, quer da própria imprensa local. Sem tempo para treinar ou para se ambientar ao clima da capital chilena, os bolivianos entraram em campo diante da seleção anfitriã no dia 12 de outubro de 1926, uma data histórica, já que este foi o PRIMEIRO JOGO DE SEMPRE do combinado nacional da Bolívia. No Campos de Sports de Ñuñoa – onde anos mais tarde seria edificado o atual Estádio Nacional de Santiago – La Verde seria goleada por 7-1, um resultado que mostrava a clara inexperiência do futebol boliviano nestas andanças internacionais. Ainda assim, a equipa mostrou coragem e algum atrevimento ofensivo, como atestam as crónicas de então, facto que mereceu aplausos do público chileno. Do lado da La Roja sul americana um homem sobressaiu não só neste encontro como no resto do campeonato: David Arellano. O avançado do recém-criado Colo Colo – clube fundado um ano antes – foi autor de quatro golos neste match de estreia, ele que haveria de ficar famoso mundialmente – sim, mundialmente – por alegadamente ter sido o inventor da chilena, a designação que na América do Sul se dá ao pontapé de bicicleta. E dizemos alegadamente porque ainda hoje há uma disputa entre brasileiros e chilenos sobre quem terá sido o criador deste famoso gesto técnico, se Arellano ou Leônidas da Silva. Os chilenos dizem que foi o primeiro, enquanto que os brasileiros juram a pés juntos que o foi o seu Diamante Negro
Chile - Bolívia
Bom, mas voltando ao Sul Americano de 26, dizer que além de Chile e Bolívia a competição foi integrada ainda pela Argentina, pelo Paraguai e pelo Uruguai, seleção esta que estava de volta à Copa após ausência na edição anterior. Os campeões em título, os argentinos entraram em campo neste torneio precisamente diante da estreante Bolívia, que para espanto de muitos dos 8000 espectadores presentes no Campos de Sports de Ñuñoa realizaram uma primeira parte equilibrada, apesar de sair para o intervalo com uma desvantagem de quatro golos. Porém, a força e maior experiência argentina veio ao de cima no segundo tempo, tendo o marcador sido fechado em 5-0 a favor dos campeões. 

Chile - Uruguai

A 17 de outubro entravam em campo os campeões do Mundo, o Uruguai. Sim, campeões mundiais, atendendo a que naquela altura os campeões olímpicos eram assim denominados. Dois anos antes, nas Olimpíadas de Paris, os uruguaios haviam subido ao trono do Planeta da Bola. A equipa base era muito semelhante à que alcançou o ouro na capital francesa, destacando-se nomes como Andrés Mazali, José Nasazzi, José Leandro Andrade, Alfredo Ghierra, Santos Urdinarán, Ángel Romano, Zoilo Saldombide e Hector Scarone. Este último havia feito a longa travessia no Atlântico apenas um mês antes da Copa de 26 única e exclusivamente para voltar a vestir a camisola da Celeste, ele que então havia tido uma curta incursão no Barcelona e desta forma estava de regresso à América do Sul. Tal como em Paris, o Uruguai voltou a mostrar um futebol de alto nível técnico, e logo na estreia venceu com mérito os anfitriões por 3-1, dando assim o primeiro passo na tentativa de resgatar o título das américas das mãos dos vizinhos e eternos rivais argentinos. Neste encontro com os chilenos um dos golos seria apontado por Hector Castro, ou El Manco Castro, como ficou imortalizado pelo facto de não ter metade do braço direito na sequência de um acidente com uma serra elétrica quando tinha 13 anos. 
Seleção chilena saúda o seu público no Campos de Sports de Ñuñoa

Numa competição que continuava a ser disputada em forma de campeonato, em que o campeão seria a seleção que somasse mais pontos, a Argentina amealha mais uma vitória no encontro diante do Paraguai na sequência de uma goleada de 8-0, com destaque para o poker de Gabino Sosa. Diga-se de passagem, que na altura este foi o campeonato sul-americano que mais golos iria produzir: 55. Uma média de 5,5 golos nos 10 encontros realizados. Um dos jogos com menos golos foi precisamente o escaldante duelo entre argentinos e uruguaios, o grande clássico de então na América do Sul. 15.000 espectadores lotaram o Campos de Sports de Ñuñoa e presenciaram um jogo onde o Uruguai provou o porquê de ser a melhor seleção do planeta, vencendo por 2-0. No jogo seguinte Hector Scarone fez história não só na competição da CONMEBOL como da própria seleção uruguaia. Ao apontar cinco dos seis golos sem resposta com que o Uruguai bateu a Bolívia, Scarone tornou-se no primeiro jogador da competição a alcançar esta marca. Esta manita confere ainda a Scarone até aos dias de hoje o recorde de único jogador com maior número de golos num só jogo pela seleção uruguaia. 

A entrada em campo da Argentina
Se por um lado este avolumado score abria as portas da reconquista do título ao Uruguai, por outro encerrava a participação da Bolívia na Copa, uma presença que apesar dos avultados resultados negativos mostrou uma equipa que representou o país de forma digna, ainda que a absoluta falta de experiência competitiva aliada às pobres condições de preparação para uma competição deste género, sobressaíssem e servissem de exemplo para futuros torneios. O título dos uruguaios ficaria matematicamente selado após o confronto entre chilenos e argentinos, o qual se saldou por um empate a uma bola. A precisar de vencer para manter esperanças na renovação do cetro, a Argentina baqueou perante os anfitriões e entregou o título aos rivais do Rio da Prata. Deste modo, a vitória do Uruguai diante do Paraguai por 6-1 – com um poker de El Manco Castro – serviu para não só cumprir calendário como de igual modo celebrar o 6.º título de campeão das américas por parte da seleção celeste. Este triunfo daria origem a um famoso hino popular dedicado à seleção do Uruguai, o qual seria composto por Omar Odriozola e eternizada por José Ministeri "Pepino", e que versa o seguinte:

 “Invicto na Europa, invicto na América,

 Eles são campeões do mundo, são campeões da América.

 O mesmo que em Colombes, nos campos de Nuñoa

 Eles desfilaram vitoriosamente com a bandeira nacional.

 A equipe argentina e a equipe chilena,

 O boliviano e o paraguaio

 Eles foram derrotados pela equipe uruguaia, que estava invicta.

 Uruguaios, campeões da América e do mundo,

 Atletas esforçados que acabaram de triunfar,

 As cornetas que tocaram o toque de alvorada em Colombes,

 Para além dos Andes, eles soaram novamente.

 O povo da França nos Jogos Olímpicos

 Ele aplaudiu com entusiasmo seu triunfo mundial.

 E hoje é a América do Sul que se alegra.

 Admire a glória da equipe do leste”.

Arellano 

O Chile acabou este torneio no segundo lugar ex-áqueo com os argentinos após esmagar o Paraguai por 5-1, com destaque para os três golos da estrela David Arellano, um futebolista nascido em Santiago, em 1902, e que revolucionou o futebol no país no começo do século XX. Fundador, capitão e primeiro ídolo do Colo Colo, ele teria um final trágico um ano após a realização deste Campeonato Sul-Americano. 
Em 1927 a Federação de Futebol do Chile escolheu o Colo Colo para representar o país numa série de jogos particulares na Península Ibérica. Diz a história, que foi Arellano que no âmbito dessa digressão apresentou à Europa a famosa chilena, ou pontapé de bicicleta. Seria este gesto técnico em parte o responsável pela morte de David Arellano a 3 de maio daquele ano de 1927. Em Valladolid, o Colo Colo defrontou nessa tarde o Real Unión e ao tentar executar uma das suas famosas chilenas, Arellano caiu ao mesmo tempo que o seu marcador direto nesse lance, o espanhol Hornia, o qual caiu em simultâneo com o joelho em cima do peito do avançado chileno. A pancada provocou um abscesso intra-abdominal, levando à morte de um jogador que estava no auge da sua carreira. Voltando à Copa América de 26 para dizer que Arellano foi o melhor marcador do torneio, com sete remates certeiros. Esta edição do torneio marcou ainda o início da longa travessia da ausência do Brasil da competição. Conflitos entre várias federações estaduais, sobretudo entre as do Rio de Janeiro e de São Paulo, deram origem a que os brasileiros não só não marcassem presença nesta edição como nos restantes torneios da década de 20 e boa parte da década de 30. O Brasil só voltaria a disputar um Campeonato Sul Americano em 1937.

Nomes e números:

12 de outubro de 1926

Chile – Bolívia: 7-1

(Arellano, 15’, 41’, 80’, 84’; Ramirez, 10’; Subiabre, 14’, Moreno, 47’)

(Aguilar, 62’)

 

16 de outubro de 1926

Argentina – Bolívia: 5-0

(Cherro, 9’ e 19’; Sosa, 31’; Delgado, 43’; De Miguel, 74’)

 

17 de outubro de 1926

Uruguai – Chile: 3-1

(Borjas, 22’; Castro, 32’; Scarone, 55’)

(Subiabre, 65’)

 

20 de outubro de 1926

Argentina – Paraguai: 8-0

(Sosa, 11’, 32’, 59’, 87’; Delgado, 40’, 42’; Cherro, 16’; De Miguel, 52’)

 

23 de outubro de 1926

Paraguai – Bolívia: 6-1

(Ceferino Ramirez, 68’, 72’, 88’; Julio Ramirez, 76’; López, 57’, 81’)

(Soto, 15’)

 

24 de outubro de 1926

Uruguai – Argentina: 2-0

(Borjas, 22’; Castro, 73’)

 

28 de outubro de 1926

Uruguai – Bolívia: 6-0

(Scarone, 9’, 12’, 28’, 39’, 81’; Romano, 67’)

 

31 de outubro de 1926

Chile – Argentina: 1-1

(Saavedra, 25’)

(Tarasconi, 42’)

 

1 de novembro de 1926

Uruguai – Paraguai: 6-1

(Castro, 16’, 23’, 32’, 72’; Saldombide, 47’, 82’)

(Fretes, 41’)

 

3 de novembro de 1926

Chile – Paraguai: 5-1

(Arellano, 21’, 64’, 71’; Ramirez, 42’, 82’)

(Peña, 40’)

 

Classificação:

1.º Uruguai: 8 pts.

2.º Argentina: 5 pts.

3.º Chile: 5 pts.

4.º Paraguai: 2 pts.

5.º Bolívia: 0 pts.


sexta-feira, setembro 11, 2015

Copa América (5)... Argentina 1921

Uma revista da época retratando o feito alvi-celeste
1921 é um ano especial para o povo argentino. Pela primeira vez a seleção das pampas subia ao trono do futebol sul-americano após arrebatar a coroa de campeão continental. Um feito alcançado em Buenos Aires, o mesmo local onde cinco anos antes havia sido dado o pontapé de saída para aquela que é hoje a maior competição de seleções de todo o continente americano, a Copa América. Para a quinta edição do então denominado Campeonato Sul-Americano de Futebol uma novidade saltou à vista: a estreia do Paraguai. Orientados por um argentino, de nome José Durand Laguna, os paraguaios - que neste preciso ano de 1921 acabavam de filiar-se na FIFA - juntavam-se aos habituais Brasil, Uruguai e Argentina, substituindo a seleção do Chile, que devido a problemas internos na sua federação esteve ausente do campeonato. Paraguai que teve uma estreia de sonho na copa, já que no Estádio do Club Sportivo Barracas, o palco com capacidade para 30.000 pessoas que acolheu os seis encontros do certame, bateu por 2-1 nada mais nada menos do que os campeões em título, o Uruguai. Um dos responsáveis por esta autêntica surpresa foi um niño de 16 anos, Gerardo Rivas, que apesar da sua tenra idade assumia já o estatuto de grande estrela do selecionado paraguaio. Foi ele que aos 9 minutos abriu um marcador que seria ampliado já na etapa complementar por intermédio de Ildefonso López. O máximo que os atordoados uruguaios conseguiram fazer foi reduzir a desvantagem, através de um dos seus jogadores mais virtuosos, José Piendibene. 


Jogo inaugural da Copa de 1921,
entre a Argentina e o Brasil

O certame havia sido aberto no dia 2 de outubro desse longínquo ano de 1921 pelos combinados da Argentina e do Brasil. Esta última seleção viajou para Buenos Aires desfalcada dos seus melhores futebolistas, desde logo a grande estrela do futebol brasileiro de então, Arthur Friedenreich, que não participou na copa por ser... mestiço! Mais uma vez o racismo voltava a evidenciar-se nas canchas do futebol sul-americano. A recusa do Brasil em levar alguns dos seus melhores jogadores, grande parte deles de origem negra, surgia como consequência de um cartoon que um jornal de Buenos Aires havia feito em 1916, por alturas da primeira edição do Campeonato Sul-Americano, em que os futebolistas brasileiros eram representados por macacos magricelas a saltar de galho em galho a fazer piruetas! Uma caracterização que ganhou fama, sendo que a partir de então os brasileiros passaram a ser apelidados de macaquinhos. Cinco anos volvidos, e preocupados com a imagem que o país passou a deter no exterior na sequência desta caracterização, o presidente da República de então, Epitácio Pessoa, convocou uma reunião com a Confederação Brasileira de Desportos onde recomendou que apenas poderiam representar a nação os futebolistas das famílias mais abastadas economicamente, e que fossem de pele clara e de cabelos lisos! É caso para dizer que não sabe quem era mais racista, se os argentinos ou se o próprio chefe da nação brasileira! De nada valeram os protestos da sociedade do Brasil, onde se destacou a voz do escritor Lima Barreto, também ele mestiço, sendo que a seleção ao ficar privada dos seus craques não fez uma grande figura na capital argentina. Ante a equipa da casa o Brasil sucumbiu por 1-0, com o tento dos alvi-celestes a ser apontado por aquele que viria a ser o melhor marcador e grande figura do torneio, Julio Libonatti. Neste encontro de estreia os comandados de Ferreira Vianna Netto atuaram durante 80 minutos com menos um homem, já que logo aos 10 minutos o avançado Nonô teve de sair do relvado por motivo de lesão. 


Paraguaios não tiveram argumentos
para derrotar a turma da casa
Dez dias mais tarde o Brasil voltou a entrar em campo, desta feita para defrontar os caloiros do Paraguai. Mesmo sem realizar uma exibição convincente o escrete esmagou os paraguaios por 3-0, com golos de Machado (2) e Candiota, todos eles na primeira parte. 
Por sua vez, o Paraguai mostrou que a surpreendente vitória de estreia ante o poderoso Uruguai havia sido, quiçá, um mero golpe de sorte, pois à má performance obtida diante do Brasil seguiu-se uma nova e modesta atuação ante os anfitriões. Libonatti, aos 43 minutos, abriu o caminho de uma vitória fácil por 3-0 dos argentinos que desta forma estavam a um pequeno passo de entrar para a história. Mas para o fazer a equipa do jogador/treinador Pedro Fournol precisa de vencer o vizinho e eterno inimigo da outra margem do Rio da Prata, o Uruguai, seleção que se recompôs da derrota inaugural com um triunfo curto mas importante sobre o Brasil. Dois golos de Ángel Romano, um dos principais jogadores dos charrúas, contra apenas um dos brasileiros, deram aos campeões em título um novo alento quanto a uma possível renovação do ceptro. Quanto ao Brasil despedia-se sem honra nem glória, ficando somente para a história as heróicas atuações do seu guarda-redes, Júlio Kuntz, performance que levou a que o maestro Francisco Canaro tivesse composto um tango em homenagem ao goleiro do Flamengo. 


Libonatti marca o golo (contra o Uruguai)
que consagrou a Argentina
como campeã das américas
E no dia 30 de outubro o Estádio do Club Sportivo Barracas encheu para ver o encontro decisivo da copa. Aos argentinos um empate bastaria para celebrar o primeiro título continental da sua história, ao passo que uma derrota poderia dar o tetra à celeste. Contudo, os argentinos estavam dispostos a mudar o rumo da história, além de que contavam com um goleador em grande forma, Julio Libonatti, que aos 57 minutos apontou o único golo do encontro para gáudio do 30.00o espetadores presentes. Pelos seus golos Libonatti pode ter sido para muitos a chave do êxito argentino nesta competição, mas há que fazer igualmente uma referência ao guarda-redes alvi-celeste, Américo Tesoriere, que ao manter a sua baliza inviolável (!) deu um forte contributo para a conquista do título. Para a história do futebol argentino ficam os nomes de Florindo Bearzotti, Américo Tesoriere, Pedro Calomino, Aldolfo Celli, Jaime Chavín, Miguel Dellavalle, Raúl Echeverría, Alfredo Elli, José López, Vicente González, Julio Libonatt, Ernesto Kiessel, Juan Presta, Blas Saruppo, Emilio Solari e Gabino Sosa. Contudo, esta quinta edição ficou igualmente marcada pelo reduzido poder de finalização das quatro seleções em prova, já que somente 14 golos foram apontados em seis partidas.  

A figura: Julio Libonatti


Julio Libonatti com a camisola
da Argentina
Reza a lenda que mal o árbitro brasileiro Pedro Santos apitou para o final do decisivo Argentina - Uruguai os hinchas locais correram para agarrar Julio Libonatti, pegando nele e levando-o em ombros até à Plaza de Mayo! Ainda hoje, recordar o primeiro título do futebol argentino no que a seleções diz respeito obriga a proferir o nome de Libonatti, o herói da copa de 1921. Este atacante nasceu em Rosário a 5 de julho de 1901 tendo iniciado o seu percurso futebolístico num dos clubes locais, neste caso o Newell's Old Boys. Ao serviço deste emblema deu nas vistas durante os oito anos em que vestiu o seu manto sagrado, essencialmente devido aos seus atributos de temível matador, o mesmo será dizer, de homem-golo. A estas características não ficaram indiferentes os responsáveis pela seleção argentina, os quais em 1919 chamam Libonatti pela primeira vez. Um ano depois integrou o grupo que defendeu a Argentina no Campeonato Sul-Americano de 1920, vencido, como se sabe, pelo Uruguai, Em 1921 foi então uma peça fundamental, para muitoa foi mesmo a peça fundamental, do êxito alvi-celeste, ao apontar três golos decisivos para a conquista do primeiro título continental para aquela nação. A sua fama subiu pois em flecha, sendo que quatro anos mais tarde do outro lado do Atlântico chegou-lhe um convite para exibir o seu talento em terras italianas. O convite surgiu da parte do Torino, e Libonatti - descendente de italianos - não recusou, entrando para a história como o primeiro jogador sul-americano a atuar no Velho Continente. Em Turim continuou a fazer o que melhor sabia, isto é, golos. Juntamente com Gino Rossetti e Adolfo Baloncieri formou um trio mortífero para os rivais do Toro, de tal modo que a imprensa italiana o batizou de trio maravilha. Durante os nove anos em que defendeu as cores do Torino Libonatti apontou mais de 150 golos, tendo tido um papel preponderante na conquista de dois scudettos por parte do clube. Pelo facto de ter descendência italiana Julio Liboantti defendeu em 17 ocasiões as cores da Squadra Azzurra - seleção nacional - tendo sido o primeiro oriundi - descendente - a fazê-lo. Na reta final da sua carreira ficou-se por Itália, onde defendeu ainda os emblemas do Génova e do Rimini. Ao serviço deste último clube teve a sua curta experiência como treinador - em 1936. Viria a falecer a 9 de outubro de 1981, com 80 anos de idade. 

Números e nomes: 

2 de outubro de 1921

Argentina - Brasil: 1-0
(Libonatti, aos 27m)
A seleção do Paraguai que em 1921 participou pela primeira vez na Copa América
9 de outubro 1921

Paraguai - Uruguai: 2-1
(Rivas, aos 9m, López, aos 66m)
(Piendibene, aos 83m)
Um ângulo da bancada e da tribuna central do Estádio do Club Sportivo Barracas,
onde decorreu o campeonato sul-americano de 1921
12 de outubro de 1921

Brasil - Paraguai: 3-0
(Machado, aos 21m, aos 44m, Candiota, aos 45m)

16 de outubro de 1921
Capitães do Paraguai e da Argentina cumprimentam-se antes do duelo travado entre si
Argentina - Paraguai: 3-0
(Libonatti, aos 43m, Saruppo, aos 71m, Echeverría, aos 76m)

23 de outubro de 1921

Uruguai - Brasil: 2-1
(Romano, ao 1n, aos 8m)
(Zézé, aos 53m)

30 de outubro de 1921

Argentina - Uruguai: 1-0
(Libonatti, aos 57m)

Classificação

1-Argentina: 6 pontos
2-Brasil: 2 pontos
3-Uruguai: 2 pontos
4-Paraguai: 2 pontos
A célebre seleção argentina que em 1921 alcançou o seu primeiro título oficial

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Copa América (4)... Chile 1920

Uma multidão aguarda no Porto de Valparaíso a chegada
do navio que transportou as delegações do Brasil,
Uruguai, e Argentina, para a 4ª edição
Campeonato Sul-Americano
Setembro acabara de se iniciar naquele longínquo ano de 1920, para gáudio da população de Valparaíso, pitoresca cidade costeira situada no Chile, e que acolheu a quarta edição do então denominado Campeonato Sul-Americano de Futebol. Atraído por aquela jovem e encantadora modalidade que pouco mais do que um par de décadas antes havia desembarcado naquela região do continente americano, o povo de Valparaíso mostrou todo o seu entusiasmo ainda antes de ter sido dado o pontapé de saída do torneio, quando em massa se deslocou ao porto da cidade para receber em euforia as três seleções que juntamente com o Chile iriam dar vida ao certame. Argentina, Uruguai, e Brasil, eis os ilustres convidados recebidos no porto de Valparaíso como verdadeiros reis do futebol continental. Reis, ou astros da bola, neste caso, que na verdade foram muito poucos no Campeonato Sul-Americano de 1920, uns porque, entretanto, haviam feito a sua retirada da alta competição, caso do mago uruguaio Isabelino Gradín, outros por desavenças entre organismos internos, casos dos brasileiros Arthur Friedenreich, Neco, Marcos de Mendonça, Haroldo, ou Píndaro de Carvalho - cinco pedras basilares na conquista do título por parte do escrete (que ainda não era canarinho) um ano antes. E foi precisamente um Brasil composto por jogadores reservistas que juntamente com a seleção da casa deu a 11 de setembro o pontapé de saída de um torneio que à semelhança dos três anteriores iria ser desenrolado em sistema de poule, onde todos jogariam contra todos a uma só volta, sendo o campeão o país que somasse o maior número de pontos.

Alvariza, autor do único
golo brasileiro em Valparaíso
As guerrilhas internas entre as federações paulista e carioca privou então a seleção brasileira de defender o título com os seus melhores intérpretes, tendo o selecionador Oswaldo Gomes não tido outro remédio senão levar alguns jogadores de segundo plano internacional, casos do defesa Telefone - alcunha curiosa do cidadão José Almeida Netto - João de Maria, Sisson, Fortes, Zézé, Junqueira, ou Ismael Alvariza. Seria este último jogador que no relvado do Valparaíso Sporting Club - o recinto que serviu de palco aos seis encontros deste campeonato - apontou o único golo da vitória sobre um Chile em reconstrução, uma seleção moldada pelo conceituado treinador uruguaio Juan Carlos Bertone com uma mescla de experiência - com futebolistas como Manuel Guerrero, Alfredo France, ou Horacio Muñoz - e juventude - casos de Pedro Vergara, Víctor Toro, Victor Varas, ou Humberto Elgueta - e que sobretudo deixou uma imagem bem mais positiva em relação aos três torneios anteriores. Um dia mais tarde entraram em campo os velhos inimigos do rio da Prata, Argentina e Uruguai, seleções que disputaram uma partida intensa e em certos períodos desenrolada nos limites da agressividade. 1-1 foi o resultado final deste clássico das américas onde sobressaiu o génio de uma das maiores estrelas do selecionado uruguaio orientado por Ernesto Figoli, José Piendibene de seu nome. El Maestro, como era conhecido, realizou uma soberba exibição, a qual seria coroada com um golo, o primeiro desse encontro, apontado aos 10 minutos. Porém, Raul Echevarría igualou a contenda no segundo tempo quando o relógio marcava 75 minutos. Com este resultado o Brasil era líder isolado ao final da 1ª jornada, dependendo apenas de si para revalidar o título conquistado um ano antes no Rio de Janeiro, mas... do céu ao inferno o trajeto foi curto para os brasileiros nesta Copa de 1920.

Brasil sofre humilhação histórica

El Loco Romano
Após cinco dias de descanso a competição voltou a entrar em ação no dia 18 de setembro. Frente a frente as duas seleções que haviam disputado o jogo final da edição anterior, o Brasil e Uruguai. O duelo disputado no Valparaíso Sporting Club teve um desfecho trágico para os campeões em título, já que um autêntico vendaval celeste varreu com os brasileiros do mapa do campeonato. 6-0, uma goleada que até há bem pouco tempo era a maior derrota averbada pela seleção do Brasil ao longo da sua centenária história, um recorde - negativo - que seria batido em 2014, altura em que a canarinha foi humilhada (7-1) em casa pela Alemanha, nas meias-finais do Campeonato do Mundo. Mas voltando a 1920, e a Valparaíso, para recordar que a avalanche ofensiva dos uruguaios teve início aos 23 minutos, quando Ángel Romano, mais conhecido como El Loco Romano, bateu pela primeira vez o infeliz Júlio Kuntz, goleiro que na época atuava no Flamengo. Três minutos volvidos Urdinarán, na conversão de uma grande penalidade, aumentou a vantagem, sendo que ainda antes da saída para o intervalo o centro-campista José Pérez fez o terceiro. Nada corria bem a um Brasil muito desfalcado das suas grandes estrelas da altura, e logo no reatamento da partida Antonio Campolo faria o quarto da tarde. O pesadelo ganhou contornos mais vincados quando à passagem do minuto 60 El Loco Romano voltou a bater Kuntz, que não iria para o duche sem antes ir buscar por uma última vez a bola ao fundo da sua baliza, desta feita enviada, de novo, por José Pérez. Exibição de gala do Uruguai, que provou no Chile que a derrota no Campeonato Sul-Americano de 1919 não havia sido senão um mero acidente de percurso, já que era evidente que continuava a ser a mais virtuosa e letal seleção da América do Sul.
No dia 20 de setembro o Valparaíso Sporting Club encheu para ver a seleção da casa defrontar a Argentina. Contando com o apoio maciço dos seus hinchas, a seleção chilena fez - segundo rezam as poucas crónicas de então - o seu melhor jogo do torneio, culminado com um impensável empate a um golo que deixava a Argentina em maus lençóis quanto à questão do título. Ainda em relação ao Chile, uma particularidade saltou à vista neste torneio, a qual prendeu-se com a cor da camisola usada pela seleción. Pela primeira vez a seleção chilena vestiu a camisola vermelha - nos primeiros anos de vida aquele combinado nacional vestiu-se de branco -, indumentária que persiste até aos dias de hoje, como se sabe.

O nascimento da relação amor/ódio entre argentinos e brasileiros

A principal bancada do Valparaíso Sporting Club,
estádio onde decorreram os seis jogos
da Copa de 1920
A 25 de setembro Argentina e Brasil disputaram o jogo do tudo ou nada. Ambas as seleções precisavam de uma dupla vitória para garantir o título, ou seja, precisavam não só de vencer este jogo como esperar que o anfitrião Chile derrotasse uma semana mais tarde o Uruguai. Os brasileiros, mais uma vez, voltaram a demonstrar que não estavam à altura da seleção que em 1919 havia guiado o país à sua primeira grande conquista internacional, como comprovou o resultado de 2-0 favorável aos argentinos. O Brasil saia sem honra nem glória da Copa do Chile. Quanto aos argentinos, um milagre era aquilo por que suspiravam para o último jogo da competição, que iria decorrer no dia 3 de outubro, e no qual estariam frente a frente chilenos e uruguaios. Antes de passarmos aos factos deste encontro decisivo para as contas finais do torneio importa sublinhar que foi no seguimento do Brasil-Argentina do Campeonato Sul-Americano de 1920 que nasceu a acérrima rivalidade entre os dois países, no que a futebol diz respeito. Até então as duas nações viviam uma relação cordial, a qual mudou como da água para o vinho precisamente depois de um artigo escrito pelo jornalista uruguaio Antonio Palacio Zino ser publicado no jornal argentino "Crítica", onde além de tecer severas... críticas aos jogadores brasileiros ainda os apelidou de macacos. O texto foi o embrião para o nascimento da relação de amor e ódio entre os dois povos, sendo que o aspeto mais curioso nesta bipolaridade sentimental é o facto dela ter sido criada por um uruguaio!

O árbitro do jogo decisivo,
o chileno Carlos Fanta
Voltemos à ação, ao campo de batalha, ao derradeiro dia da prova para nos centramos no confronto entre Chile e Uruguai. Apesar de técnica e taticamente superiores, os uruguaios não tiveram tarefa fácil diante de uma aguerrida seleção do Chile que contou com o apoio frenético de 16 000 espetadores ao longo dos 90 minutos. Uruguai que antes da partida torceu o nariz à nomeação do árbitro do jogo, Carlos Fanta, do... Chile! Contudo, a atuação do juiz chileno, considerado um dos melhores daqueles anos, foi impecável, facto que fez esquecer a todos os presentes que o seu coração batia pela sua pátria. A muralha chilena apenas seria derrubada já muito próximo do intervalo, altura em que El Loco Romano inaugurou o marcador para a celeste. No segundo tempo a multidão presente num estádio que nos dias hoje acolhe corridas de cavalo (!) entrou em delírio, por culpa de Aurelio Dominguez, que aos 60 minutos igualou a contenda. Sol de pouca dura, já que cinco minutos volvidos José Pérez voltou a colocar o Uruguai em vantagem, a qual não mais seria perdida até final, e que mais do que garantir a segunda vitória dos charrúas no torneio assegurou a conquista do terceiro Campeonato Sul-Americano em quatro edições realizadas! A melhor equipa da América do Sul era de novo a rainha do continente.

A figura: José Piendibene

El maestro Piendibene, com
as cores do seu Peñarol
Ángel El Loco Romano e José Pérez sagraram-se os melhores marcadores deste 4º Campeonato Sul-Americano, mas a estrela que mais brilhou ao longo do torneio foi a de José Piendibene. El maestro, como era conhecido, pela forma como pautava o jogo da sua equipa, era um avançado alto, portador de uma qualidade técnica apurada, a qual encantou os adeptos sul-americanos ao longo das décadas em que defendeu com brio as camisolas do Uruguai e do seu amado Peñarol de Montevidéu. José Antonio Piendibene nasceu na capital uruguaia, a 10 de junho de 1890, sendo que com apenas 17 anos vestiu pela primeira vez o manto sagrado da primeira equipa do Peñarol num jogo ante o French, em 1908, e onde no qual o jovem oriundo do bairro de Pocitos maravilhou o público com a marcação de dois golos e uma exibição deslumbrante. A partir dai não mais largou a titularidade no emblema de Montevidéu, tendo chegado à seleção em 1911. A estreia pela celeste deu-se diante do inimigo do outro lado do rio da Prata, a Argentina, tendo a alcunha de maestro nascido precisamente no rescaldo desse encontro, já que de acordo com a história, no final do duelo, o defesa argentino Alumni terá proferido o seguinte elogio ao jovem José Piendibene: «Usted es un maestro, muchacho...». E a alcunha ficou para o resto da sua vida. Ao serviço do Peñarol atuou em mais de meia centena de ocasiões - 506, para sermos mais precisos - tendo apontado 253 golos, registo que faz dele uma lenda eterna do clube aurinegro. Venceu seis campeonatos uruguaios (1911, 1918, 1921, 1924, 1926, e 1928), e em 1916 entrou para a história do Campeonato Sul-Americano de Futebol após ter marcado o primeiro golo da história daquela que hoje em dia é conhecida como Copa América. Fê-lo diante do Chile, a 2 de julho desse longínquo ano de 1916.

Este primeiro Campeonato Sul-Americano seria conquistado, como nunca é demais recordar, pelo Uruguai, tendo este sido o primeiro dos dois títulos continentais - esteve ausente na caminhada triunfal do Uruguai na segunda edição do certame - que Piendibene conquistou ao serviço da seleção celeste, a qual defendeu por 56 ocasiões, tendo apontado 26 golos. Outro recorde que ainda hoje predura prende-se com o facto de Piendibene ser o jogador que mais golos marcou no clássico do rio da Prata, o qual opõe a Argentina ao Uruguai, tendo o jogador do bairro de Pocitos apontado 17 tentos. O reinado do poderoso avançado no seio da seleção terminou nas vésperas de o Uruguai conquistar o Mundo, o mesmo é dizer, os Jogos Olímpicos de 1924. Piendibene só não fez parte dessa célebre equipa onde pontificavam nomes como José Nasazzi, Pedro Cea, Ángel Romano, Pedro Petrone, Héctor Scarone, ou a maravilha negra José Leandro Andrade porque o seu clube estava de candeias às avessas com a Associação Uruguaia de Futebol, e como tal proibiu os seus futebolistas de envergarem o manto celeste nas Olimpíadas de Paris. Nesse mesmo ano de 1924 foi atribuído a José Piendibene o título de sócio honorário do Peñarol. Antes de ser um exímio futebolista ele era um perfeito cavalheiro nas canchas em que passeou a sua classe, já que reza a lenda que sempre que marcava um golo nunca o festejava, em sinal de respeito para com o seu adversário. Faleceu em 1969, na sua cidade natal, Montevidéu.

Nomes e números:

11 de setembro de 1920

A desoladora seleção do Brasil que marcou presença no Chile, em 1920
Brasil - Chile: 1-0
(Alvariza, aos 53m)

12 de setembro de 1920

Uruguai - Argentina: 1-1
(Piendibene, aos 10m)
(Echeverría, aos 75m)

18 de setembro de 1920

Uruguai - Brasil: 6-0
(Ángel Romano, aos 23m, aos 60m, José Pérez, aos 29m, aos 65m, Antonio Urdinarán, aos 26m, Antonio Campolo, aos 48m)

20 de setembro de 1920
A equipa da casa, que pela primeira vez vestiu de vermelho
Argentina - Chile: 1-1
(Dellavale, aos 13m)
(Bolados, aos 30m)

25 de setembro de 1920

Argentina - Brasil: 2-0
(Echeverría, aos 40m, Libonatti, aos 73m)

3 de outubro

Chile - Uruguai: 1-2
(Aurelio Dominguez, aos 60m)
(Ángel Romano, aos 37m, José Pérez, aos 65m)

Classificação

1- Uruguai: 5 pontos
2- Argentina: 4 pontos
3- Brasil: 2 pontos
4- Chile: 1 ponto
A celeste uruguaia, que em terras chilenas alcançou o seu terceiro título de campeão das américas

sexta-feira, maio 03, 2013

Copa América (2)... Uruguai 1917


Por estes longínquos dias de 1917 grande parte da América do Sul andava verdadeiramente louca com o futebol! O caudal de desafios era cada vez maior - sobretudo no plano interno - não sendo de estranhar que a recém nascida CONMEBOL (Confederação Sul-Americana de Futebol) decidisse no citado ano dar continuidade ao sucesso granjedado em 1916 pelo também recém edificado Campeonato Sul-Americano, ao nomear o Uruguai como anfitrião da segunda edição do certame. E para este segundo Campeonato Sul-Americano de Futebol uma novidade saltou de imediato à vista de todos: o troféu que iria - dali em diante - coroar o rei das américas.
Se na edição inaugural, ocorrida um ano antes, recorde-se, na Argentina, a organização não atribuiu qualquer troféu ao campeão continental - o Uruguai -, em 1917 foi apresentada uma deslumbrante taça concebida em prata, sobre uma base em madeira, comprada numa joalharia (!) de origem francesa localizada em Buenos Aires pelo preço de 3000 francos suíços. O troféu fez então a viagem para Montevidéu, a capital uruguaia, escolhida para palco da edição de 1917 do Campeonato Sul-Americano. Os convidados para dar vida à grande festa do futebol continental foram os mesmos que um ano antes estiveram em Buenos Aires, isto é, Chile, Brasil, Argentina, e a seleção da casa, e campeã em título, o Uruguai.
Pomposo - pelo menos assim era visto naquela época - era também o Parque Pereira, o recinto mandado construir pela Asociación Uruguaya propositadamente para acolher os seis encontros do torneio. Um estádio edificado em madeira (!) com capacidade para 40 000 espetadores que teria vida curta, já que pouco depois do torneio seria demolido para em seu lugar ser construída uma pista de atletismo! Facto curioso é que o Parque Pereira foi edificado a pouquíssimos metros do local onde 13 anos mais tarde seria erguido o majestoso Estádio Centenário, o palco principal do primeiro Campeonato do Mundo da FIFA. 

De 30 de setembro a 14 de outubro de 1917 Montevidéu parou para assistir ao desenlace do Campeonato Sul-Americano. Favoritos à vitória? Talvez a equipa da casa, não só porque atuava diante do seu fervoroso público, mas porque continuava a agregar alguns dos melhores intérpretes do belo jogo da altura. O Uruguai era naqueles dias um autêntico viveiro de craques, e a prova disso é que mesmo a ausência das lendas responsáveis pela primeira conquista continental, Isabelino Gradín, José Piendibene, e Juan Delgado, impediu a celeste de continuar a ter um certo ascendente sobre os seus rivais. Gradín, Piendibene e Delgado deram lugar a outros astros que iriam marcar para sempre a história da modalidade, casos de Héctor Scarone ou Ángel Romano, homens que viriam a ser as duas grandes figuras - ligadas ao Nacional de Montevidéu - deste segundo torneio... e de outras futuras conquistas uruguais, algumas delas bem mais pomposas que o certame da CONMEBOL.

A 30 de setembro de 1917 é dado então o pontapé de saída de uma competição que à semelhança do ano anterior era disputada num sisteme de poule, onde todos jogavam contra todos, e o campeão seria o conjunto que somasse mais pontos.
Ao relvado do Parque Pereira subiram Uruguai e Chile. Diante de 22 000 espetadores, e sob a arbitragem do argentino Germán Guassone os uruguaios não tiveram grande dificuldade em esmagar o conjunto chileno por 4-0, com o destaque a pairar sobre os atacantes Ángel Romano e Carlos Scarone. Aos 20 minutos o irmão mais velho de Héctor Scarone batia o desampardo Manuel Guerrero pela primeira vez na tarde, para um minuto antes do intervalo Romano ampliar para dois golos a vantagem charrúa. A etapa complementar teve os mesmo protagonistas. À passagem do minuto 62, na transformação de uma grande penalidade, Carlos Scarone faz o 3-0, e aos 75 Ángel Romano fecha as contas em 4-0. Romano e (Carlos) Scarone teriam sortes distintas no futebol. Carlos, apesar de ter ficado na história como um excelente atleta viveu sempre na sombra do seu talentoso irmão mais novo, Héctor, enquanto que El Loco Romano cedo se tornou num dos jogadores mais queridos da afición uruguaia, muito graças à sua multifacetada maneira de estar em campo. Ao apurado sentido pelo golo o homem que fazia todas as posições de ataque da sua equipa (!), nascido em Montevidéu a 2 de agosto de 1893, era igualmente um talentoso organizador de jogo, rápido e preciso. Jogou quase 400 jogos (388 para sermos mais precisos) e marcou 164 golos até 1930, ano em que se retirou, ano este que coincidiu com a conquista do primeiro Campeonato do Mundo pelos charrúas. Ser campeão mundial teria sido o merecido prémio de uma brilhante carreira para El Loco Romano, uma lenda que ao lado de José Leandro Andrade, Héctor Scarone, Héctor Castro, ou José Nasazzi escreveu as páginas mais belas da... encantadora história do futebol uruguaio. Na ausência do título mundial o currículo de Ángel Romano é abrilhantado com os dois títulos olímpicos da década de 20 (1924 e 1928), que na altura eram equiparados... ao ceptro mundial. 

Três dias mais tarde, no mesmo cenário, Brasil e Argentina lutaram entre si. Os brasileiros partiram para a capital uruguaia com baixas de vulto no seu grupo em relação ao que se havia passado em 1916. Desde logo a ausência mais notada foi a do melhor jogador brasileiro daquele tempo, Arthur Friedenreich. Como parecia ser tradição não faltaram confusões na hora do embarque da seleção rumo a Montevidéu. A mais conflituosa terá sido a da escolha do treinador. A Confederação Brasileira dos Desportos (CBD) formou uma comissão técnica para liderar a equipa, comissão essa que seria encabeçada por Mário Pollo (dirigente da Liga Metropolitana, do Rio de Janeiro) e R. Cristófaro (dirigente da APEA). Além de escolher os jogadores que iriam representar o país esta comissão tinha por missão eleger o capitão de equipa, posto para o qual foi nomeado o atleta do Fluminense Chico Netto. Como as guerras entre Rio de Janeiro e São Paulo eram na época bem acesas alguns dirigentes paulistas não terão gostado da escolha, e indicaram Sílvio Lagreca para o posto. A CBD manteve a sua posição, e Chico Netto continuou capitão, mas em contrapartida Lagreca assumiu a função de treinador! E foi com Sylvio Lagreca como jogador/treinador que o Brasil defrontou a armada Argentina a 3 de outubro, encontro este que até começou da melhor forma para os brasileiros, que logo aos oito minutos inauguraram o marcador, por intermédio de Neco. 

Outra ausência de vulto no combinado de Lagreca era a do guarda-redes do Fluminense, Marcos Carneiro de Mendonça, o primeiro grande keeper canarinho. Para o seu lugar foi convocado o português Casemiro do Amaral - que já tinha participado no Campeonato Sul-Americano de1916. Aos 15 minutos Pedro Calomico empata o jogo, e a partir daqui o que se viu foi uma atuação... verdadeiramente desastrosa do guardião nascido em Lisboa ao serviço do Brasil. Seleção que no entanto iria para o descanso em vantagem, já que ao minuto 39 o jogador/treinador Lagreca converteu com êxito uma grande penalidade. No segundo tempo a Argentina aproveitaria então o desnorte de Casemiro do Amaral para dar a volta ao marcador. Sucessivas falhas do goleiro fizeram com que o Brasil fosse derrotado por claros 4-2 e hipotecasse - praticamente - desde logo as aspirações quanto à vitória final na competição. Quem disse definitivamente adeus ao título seria o frágil Chile, que no dia 6 de outubro perdeu por 0-1 precisamente ante a Argentina, graças a um lance infeliz de Luis Garcia, que aos 76 minutos apontaria um golo na baliza errada! Chile de regresso a casa - embora ainda faltasse disputar um encontro - e a Argentina em estado de graça com duas vitórias noutros tantos jogos realizados e com francas possibilidades de destronar o Uruguai como campeão das américas. Mas não iria ser bem assim, como mais à frente iremos poder constatar.  

E por falar em Uruguai, na tarde de 7 de outubro 21 000 aficionados celestes foram à loucura com mais uma exibição de gala da sua seleção. Os brasileiros foram despachados com a mesma chapa que uma semana antes haviam sido os chilenos, isto é, 4-0! Héctor Scarone aos oito minutos inaugurou a goleada. Veloz, tecnicamente bastante evoluído, exímio cabeceador, e de relação próxima com o golo o mais novo dos irmãos Scarone foi um dos grandes nomes do futebol uruguaio das décadas de 10 e 20, tendo sido preponderante não só na conquista deste mas de outros títulos que hoje em dia enchem de orgulho o povo charrúa pelo seu glorioso passado futebolístico.
Voltando ao relvado do Parque Pereira a magia uruguaia não se ficaria por ali. El Loco Romano ampliou a vantagem aos 17 minutos, sendo que já na segunda parte - ao minuto 77 - o mesmo Romano bisou na partida, fazendo desta forma o seu quarto golo na competição, o tento que o iria coroar como o rei dos goleadores deste segundo Campeonato Sul-Americano. Ainda antes do apito final do argentino Guassone o mais velho dos hermanos Scarone, Carlos, faria o 4-0 final, numa altura em que o relógio marcava 86 minutos.
Perante este resultado o cenário de 1916 voltava a repetir-se, ou seja Uruguai e Argentina iriam no derradeiro jogo da prova lutar pelo título de campeão. A final, assim era encarado esse encontro, estava marcada para 14 de outubro, mas antes disso, dois dias antes o Brasil fazia história. Diante de 10 000 pessoas os pupilos de Sílvio Lagreca esmagavam o Chile por 5-0, conquistando desta forma não só o terceiro lugar da copa mas acima de tudo a sua primeira vitória na ainda curta história de vida do certame continental.

Neste encontro um episódio curioso ocorreu. Quer Brasil quer Chile usavam camisola branca. Assim sendo os brasileiros foram obrigados a arranjar uma indumentária de outra cor, mas como na época as equipas/seleções não tinham mais do que um equipamento - e às vezes nem isso! - os brasileiros foram obrigados a ir a uma loja de material desportivo em Montevidéu comprar camisolas de outra cor. Vermelho foi a cor encontrada, e de vermelho vestido a seleção alcançaria então o seu primeiro triunfo na história da copa.
Com o terceiro lugar entregue ao Brasil as atenções focaram-se na final do dia 14. Mas antes disso um outro episódio caricato ocorreu na história deste campeonato de 1917. Amadores de alma e coração - o profissionalismo ainda só existia em Inglaterra - grande parte dos atletas que faziam parte do grupo argentino que se deslocou a Montevidéu teve de regressar a Buenos Aires para os... seus respetivos empregos! O futebol era tão somente uma paixão, e não o ganha pão do dia a dia, e como tal muitos dos craques das pampas tiveram de apanhar o barco de regresso à capital do seu país, deixando para trás o encontro decisivo do certame.


Perante isto a tarefa dos anfitriões ficou ainda mais facilitada. No derradeiro jogo da competição 40 000 pessoas lotaram por completo o Parque Pereira. 40 000 fervorosas almas que viram a estrela Héctor Scarone oferecer o título à celeste quando estavam decorridos 60 minutos de jogo. 
Um simples tento que deu o bi-campeonato sul-americano a um pequeno país cujo talento no futebol parecia ser inesgotável. Não estavam Gradín, Piendibene, ou Delgado, mas estavam outros capazes de continuar a caminhada triunfal que marcou a época dourada do futebol uruguaio. 
Na final outro episódio curioso ocorreu. Numa época em que não eram permitidas substituições o guarda-redes da casa, Saporitti, sofreu uma lesão a meio da contenda, tendo sido substituído pelo jogador de campo Manuel Varela, que até final se portou muito bem na posição de portero
O Uruguai terminava assim a competição invicto... e sem golos sofridos! 
Depois do último apito do chileno Juan Livingstone o Parque Pereira explodiu - naturalmente - de alegria.

 

Números e nomes:

30 de setembro de 1917

Uruguai - Chile: 4-0
(Carlos Scarone, aos 20m, aos 62m, Ángel Romano, aos 44m, aos 75m)

3 de outubro de 1917

Argentina - Brasil: 4-2
(Ohaco, aos 56m, aos 58, Calomino, aos 15m, Blanco, aos 80m)
(Neco, aos 8m, Lagreca, aos 39m)

6 de outubro de 1917

Argentina - Chile: 1-0
(Luis Garcia (p.b.), aos 76m)

7 de outubro de 1917
Uruguai - Brasil: 4-0
(Ángel Romano, aos 17m, aos 77m, Héctor Scarone, aos 8m, Carlos Scarone, aos 86m)

12 de outubro de 1917

Brasil - Chile: 5-0
(Haroldo, aos 26m, aos 59m, Caetano, aos 21m, Neco, aos 23m, Amilcar, aos 41m)

14 de outubro de 1917

Uruguai - Argentina: 1-0
(Héctor Scarone, aos 60m)

Classificação

1-Uruguai: 6 pontos
2-Argentina-4 pontos
3-Brasil: 2 pontos
4-Chile: 0 pontos

Legenda das fotografias:

1-O troféu instituído em 1917 que coroa - até aos dias de hoje, os vencedores do Campeonato Sul-Americano/Copa América
2-O Parque Pereira (estádio já desaparecido) onde decorreu toda a ação do certame de 1917
3-Ángel El Loco Romano, o melhor marcador da copa
4-Fase do duelo entre Argentina e Brasil
5-O português Casemiro do Amaral, que ocupou o posto de goleiro da seleção brasileira neste campeonato
6-Héctor Scarone, uma das estrelas do torneio
7-Amilcar, faz um dos cinco golos com que o Brasil - vestido de vermelho! - bateu o Chile
8-Seleção da Argentina
9-Héctor Scarone
10-Seleção brasileira
11-Fase do encontro entre chilenos e brasileiros
12-A seleção do Uruguai, bi-campeã das américas