quinta-feira, outubro 08, 2026

Os Reis da antiga 2.ª Divisão Nacional: Anos 30

A extinta 2.ª Divisão Nacional foi durante seis décadas (entre 1934 e 1990) o palco onde dezenas de emblemas históricos viveram o seu maior momento de glória, gravando ali os seus nomes na história do futebol em Portugal. Ofuscado pelo brilho da 1.ª Divisão Nacional, o escalão secundário é rico em momentos épicos que fizeram parar vilas e cidades de norte a sul do país como consequência de um título conquistado por clubes que estavam (e alguns ainda estão) longe da esfera dos chamados Grandes do Futebol Português. É para recordar, mas acima de tudo homenagear não só jogadores e treinadores desconhecidos que se tornaram lendas locais, mas também pequenos grandes clubes que atingiram a gloria, que hoje damos início a uma nova rubrica intitulada “OS REIS DA ANTIGA 2.ª DIVISÃO NACIONAL”. Nesta série de seis artigos iremos lembrar cada um destes campeões hoje quase esquecidos (?), mas de forma mais precisa recordar como alcançaram a glória secundária do Desporto Rei nacional.

1935: Carcavelinhos, o primeiro campeão numa final em dois atos

Campo do Arnado
E começamos este roteiro nostálgico pela década de 30, precisamente quando a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) cria em simultâneo o Campeonato da Liga da 1.ª Divisão e o Campeonato da Liga da 2.ª Divisão. O pontapé de saída das duas novas provas nacionais aconteceu na temporada de 1934/35, sendo que no caso do segundo escalão 32 foram os clubes de norte a sul do país que lutaram entre si pelo título de campeão nacional. 32 emblemas que foram divididos numa 1.ª fase em oito grupos, cujos vencedores avançavam para uma 2.ª fase – uma espécie de quartos-de-final – e posteriormente seguiam-se as meias-finais e por fim a final. E na 1.ª edição daquela que com o passar dos anos ficou popularizada como 2.ª Divisão, o vencedor seria um histórico do futebol luso. Um emblema que nos anos 20 havia feito das suas ao vencer a então principal – e então única – competição nacional, o Campeonato de Portugal. Esse histórico foi o Carcavelinhos, que precisou de fazer horas extras para conquistar aquele que seria o segundo cetro nacional da sua existência. Após terem vencido (com cinco vitórias e uma derrota) o Grupo 7 da 1.ª fase e de ter ultrapassado na fase a eliminar o Olhanense (1-4 e 5-0) e o Barreirense (3-2) os rapazes de Alcântara tiveram pela frente o Boavista, clube que reaparecia nas competições oficiais após um ano de castigo imposto pela FPF depois de em 1933 ter-se apresentado num jogo diante do Benfica com uma equipa assumidamente profissional… numa altura em que o profissionalismo era proibido e Portugal. Boavisteiros que na sua frente de ataque tinham um nome sonante que viria a dar cartas no vizinho e rival da Constituição: Costuras. Mas não era só José Monteiro – o nome oficial do matador Costuras – que dava nas vistas no xadrez. Vítor Guilhar, Janos Biri, ou César Machado, faziam dos axadrezados um rival de peso, como se veio a confirmar. Coimbra e o mítico Campo do Arnado foram o cenário escolhido pela FPF para a primeira decisão da 2.ª Divisão. Reza a crónica do Diário de Lisboa (DL) que os lisboetas contaram com mais apoio nas bancadas e que as duas equipas recearam-se em demasia nos minutos iniciais da partida. Receosas, mas entusiasmadas, assim eram descritas os dois conjuntos. Até que ao minuto 12 os nortenhos chegam ao golo por intermédio de Machicha, na sequência de um ataque pelo flanco direito. O Carcavelinhos não desanimou e pouco depois dispôs de uma soberana oportunidade para chegar ao empate: Óscar de Carvalho comete falta dentro da área e o árbitro Santos Farinha (de Santarém) não tem dúvidas em assinalar o castigo máximo. Porém, Oliveira e Silva desperdiça a oportunidade. O match entra então num período de menor beleza, com os jogadores de ambos os lados a usarem e abusarem da dureza. Até que aos 28 minutos, Tomás Rodrigues restabeleceu o justo empate face ao que se verificava no Campo do Arnado. Na segunda parte os lisboetas ganham ascendente. No espaço de cinco minutos constroem três oportunidades de golo que com um pouco mais de precisão poderiam ferir a pantera. Após este início avassalador do Carcavelinhos o Boavista acordou e poderia ter ficado em vantagem numérica caso o juiz do encontro não tivesse feito vista grossa a uma agressão clara de Oliveira e Silva a um adversário. Este lance aqueceu os ânimos, e até final dos 90 minutos assistem-se a mais algumas picardias entre os jogadores de ambos lados. O jogo vai para prolongamento. O cansaço começa a fazer-se notar no campo de batalha, mas ainda assim é o Carcavelinhos a estar mais perto do golo, não fosse Biri estar à altura ao negar o festejo com uma estupenda parada. Com o empate a persistir, os regulamentos indicavam que Boavista e Carcavelinhos teriam de disputar um novo jogo dali a cerca de um mês e meio!

De novo no Campo do Arnado, que desta feita apresentava uma baixa assistência, as equipas voltam a medir forças. O Carcavelinhos entra melhor, desenvolve o seu jogo no meio campo do adversário, que por sua vez na primeira jogada em que consegue invadir o meio campo contrário fez golo: Justo de Pinho mete a mão na bola dentro da área e o juiz Natividade e Silva (de Aveiro) assinala penalty. O matador Costuras não perdoa e abre o marcador. Este golo surgiu contra a corrente, já que os lisboetas impunham melhor o seu jogo e sem se deixarem abater pelo tento axadrezado atacam com rapidez a baliza de Biri, que por diversas vezes se encontra em apuros. Num desses lances, o guardião húngaro é traído por um colega seu que no meio de uma confusão na área comete a infelicidade de oferecer o empate aos lisboetas. O Boavista só aos 20 minutos consegue sacudir um pouco a pressão do seu oponente. Mas seria de novo o Carcavelinhos que ainda antes do intervalo se coloca novamente em vantagem: Quirino recolhe um passe de Pratas e já dentro da área fuzila Biri. Vantagem justa ao intervalo. No segundo tempo o jogo inicia-se numa toada menos veloz em relação aos primeiros 45 minutos, e disso aproveita-se o Boavista que passa a chamar a si o domínio. O lance polémico acontece já muito perto do fim, quando no seguimento de uma rápida jogada do Boavista o guardião lisboeta Medueño deixa escapar a bola das mãos, tendo esta ressaltado aparentemente para lá da linha de golo. O árbitro assim não entende, e os jogadores do Bessa protestam veemente com Natividade e Silva. A revolta estende-se às bancadas, sendo que nos últimos minutos vislumbram-se mais picardias do que futebol. Chegado o apito final o Carcavelinhos vence e torna-se assim no primeiro campeão da 2.ª Divisão. Madueño, Vergilésio, Justo, Marques Pereira, Esteves, Prazeres, Quirino, Pratas, Álvaro Sousa, Oliveira e Silva e Humberto Sousa são os onze heróis que entram na história do popular clube de Alcântara.

1936: Olhanense junta título da 2.ª Divisão à glória do Campeonato de Portugal de 1924

Os campeão do Algarve e da 2.ª Divisão Nacional de 36
Na época seguinte a fórmula de disputa da 2.ª Divisão sofre uma pequena alteração: ao invés de oito grupos/séries a prova desenrola-se em sete grupos/séries. E na final surge pelo segundo ano consecutivo um clube da Cidade Invicta, neste caso o Salgueiros, que pela frente terá o Olhanense. Para chegarem às Amoreiras – recinto do Estoril onde se realizou a final de 36 – os algarvios venceram a sua série da 1.ª fase com um registo de seis vitórias e uma derrota, sendo que na fase a eliminar deixaram por terra o Barreirense (5-1 e 1-0) e o União de Lisboa (2-1). Perante uma reduzida assistência – na sua maioria afeta ao Salgueiral, e que viajou para a capital em comboios especiais – os algarvios fizeram da experiência a arma para levar a taça para casa. Na visão do jornalista do DL que acompanhou o desafio, o Olhanense «mais habituado a lutas decididas, impõe-se como o melhor conjunto», ante um Salgueiros que «tem um grupo de gente moça, que se encontra progredindo». A grande final teve uma primeira parte enérgica, em que se praticou «um football digno dos campos lisboetas». O primeiro festejo da tarde pertenceu aos portuenses. Estavam decorridos 38 minutos quando no seguimento de uma jogada desenhada pelo flanco direito, Pepe, de cabeça, coloca o Salgueiros na frente. O segundo tempo terá sido menos agradável de ser visto, com o esforço físico despendido nos primeiros 45 minutos a fazer-se notar em ambos os lados. Ainda assim o Olhanense esteve melhor, e com 55 minutos jogados Norberto Cavém restabelece a igualdade ao aproveitar uma indecisão do setor recuado dos portuenses. A desatenção dos defesas salgueiristas iria acabar por ditar o desfecho desta final, já que dez minutos volvidos um novo deslize sentenciou o jogo: Bengala fez o 2-1 final e levou o título para Olhão. Este era então o segundo título nacional conquistado pelos olhanenses, que 12 anos antes haviam arrecadado aquele que ainda hoje é o cetro mais importante da sua história: o Campeonato de Portugal.

1937: Título à segunda tentativa – Boavista conquista 2.ª Divisão após ano difícil

Xeque mate boavisteiro em 37
Na 3.ª edição do Nacional da 2.ª Divisão a FPF introduziu algumas mudanças no figurino da competição. A 1.ª fase passou a ser disputada em 10 séries/grupos de norte a sul do país, sendo que os vencedores de cada uma delas avançavam para uma fase a eliminar que iria ser concluída com a final. E pela primeira vez na ainda curta história da competição o título viajou para o norte, pela mão de um dos seus mais populares emblemas: o Boavista. Os axadrezados atingiram pela segunda vez a final da 2.ª Divisão, após terem vencido a Série 2 da 1.ª fase com 9 pontos e eliminado o Vila Real (7-0 e 7-3), o Académico do Porto (4-2 e 2-2) e o Marinhense (9-0) na 2.ª fase. Na final – disputada no Campo do Arnado, em Coimbra – os boavisteiros encontraram o União de Lisboa. Esta foi uma temporada difícil para os portuenses, já que um ano antes haviam sido despromovidos para o segundo escalão pela via da secretaria, isto é, o alegado facto de terem inscrito de forma irregular um jogador num desafio ante a Académica fez com que a FPF lhes aplicasse a despromoção de divisão como castigo. A juntar a isto, o emblema do Bessa viveu ano atribulado no que ao comando da sua equipa principal dizia respeito, pois pelo banco dos axadrezados passaram quatro técnicos! O antigo guarda-redes húngaro Biri foi o primeiro timoneiro, mas os maus resultados inicialmente averbados deram lugar ao despedimento. Seguiu-se no cargo a antiga estrela dos anos 20 do vizinho FC Porto, Alexandre Cal, mas os bons resultados tardavam em aparecer pelo que o caminho da rua foi apontado ao ex-portista. Da Constituição chegou o terceiro treinador da época, Joseph Szabo, mas o chamamento do Sporting, onde faria história, falou mais alto e pouco tempo teve para aquecer o banco do Bessa. Perante esta rápida partida do húngaro, a direção do Boavista decidiu entregar o comando técnico da sua equipa principal a Alberto Simões, que teve o condão de guiar o conjunto àquele que viria a ser o seu primeiro título nacional. Uma conquista que teve um certo sabor a justiça, desde logo por tudo o que o clube tinha vivido ao longo de uma época atribulada. E para Coimbra, deslocaram-se cerca de 7000 boavisteiros (!), num comboio especial, que foi fretado, digamos, pelo jornal Sporting, que era propriedade do dedicado dirigente do clube, Artur d'Oliveira Valença. Para dar mais vida ao acontecimento, o citado jornal distribuiu a cada adepto que fez a viagem até ao centro do país uma bandeirinha afeta ao clube portuense. Boavista e União de Lisboa subiam ao Campo do Arnado ao final da manhã do dia 2 maio, e ainda mal os boavisteiros haviam “ligado os motores” e já os lisboetas faziam a festa por intermédio de Saraiva, que aos 3 minutos recebe uma bola centrada por Gonçalves sob a linha de fundo para abrir o marcador. Mas rapidamente, o Boavista se refez do susto madrugador. Não só impõe o seu jogo, como obriga o guarda-redes contrário, Tavira, a aplicar-se a fundo. Por sua vez, os unionistas respondem ao melhor futebol dos axadrezados com tímidos contra-ataques. O fulgor dos nortenhos seria premiado aos 26 minutos, quando Humberto às “três tabelas” traiu Tavira na sequência de um forte remate de Peseta. 

Peseta
A propósito de Peseta, cujo nome de batismo era Augusto Domingues, nesta mesma época de 36/37 ele é personagem de mais um caso de profissionalismo encapotado que vigorava no futebol luso daquele tempo. Diz a história que Peseta não compareceu no arranque dos trabalhos da nova temporada, vindo-se posteriormente a saber que o jogador tinha arranjado um emprego na repartição de Finanças de Valença, localidade onde residia. Ora, não querendo abrir mão deste craque, os dirigentes boavisteiros resolveram o assunto ao atribuir ao futebolista um subsídio de 200 escudos por cada deslocação que este fizesse entre Valença e o Porto. Mas voltando à final de 1937, ainda antes do intervalo, um potente disparo de Ferraz de fora da área bate Tavira e coloca o Boavista em vantagem. Os lisboetas atónitos não têm outro remédio senão parar o carrossel boavisteiro com entradas mais duras, sendo que num desses lances Manuel Silva comete penalty. Na conversão, Costuras faz o 3-1 com que se atingiu o descanso. A segunda metade não mais foi do que una demonstração evidente da superioridade do Boavista. O 4-1 surgiu na sequência de uma veloz investida protagonizada por Costuras que à saída de Tavira atirou sem piedade para o fundo das redes. Os nortenhos não queriam ficar por aqui, e já perto dos 90 minutos Antero aproveitou um bom passe de Laguna para fechar o marcador em 5-1. «A vitória dos portuenses foi merecida absolutamente e o resultado de 5-1 expressa-a com fidelidade. O Boavista, finalista pela segunda vez, jogou da melhor maneira, fazendo uma exibição convincente», assim resumia o DL. 

Pelas 21H30 o comboio especial que o jornal Sporting tinha fretado para levar a “família” boavisteira a Coimbra, chega à Estação de S. Bento (no Porto), trazendo a bordo os novos campeões nacionais da 2.ª Divisão: Pesqueira, Humberto, Cortês, Reis, Monteiro, Sena, Antero, Peseta, Costuras, Ferraz e Laguna.

1938: Dois golos de rajada deitam por terra o sonho do União de Lisboa na segunda final consecutiva

A Armada do Mar campeã em 1938
O União de Lisboa tornou-se na temporada de 37/38 no primeiro clube a lograr atingir em duas ocasiões consecutivas a final da 2.ª Divisão e de em ambas ter saído derrotado. E de novo por uma equipa do norte, neste caso o Leixões. Vencedores da série 2 da 1.ª fase de forma invicta, os matosinhenses atingiram a final após eliminarem na 2.ª fase o Vila Real (5-0), o Boavista (também por 5-0) e o Marinhense (4-1). E fizeram-no com base num ataque deveras produtivo (35 golos) e uma defesa de betão (apenas três golos sofridos). Mais uma vez, o Campo do Arnado foi o cenário para onde a FPF levou a final do escalão secundário, realizada a 8 de maio de 1938. E tal como na final transata, o União de Lisboa teve um melhor arranque que o adversário, ocupando o meio campo contrário com base num jogo de passes curtos na tentativa de adormecer os nortenhos. Mas esta toada seria "sol de pouca dura", já que como quem não quer a coisa – ou que a quer, na verdade – o Leixões passou a assumir as rédeas do encontro, não sendo de estranhar que aos 7 minutos, Mano tivesse inaugurado o marcador para a Armada do Mar após receber um passe açucarado de Mitra. O mesmo jogador estava de pé quente e mal a bola tinha sido reposta em jogo já estava outra vez a fazê-la entrar na baliza lisboeta pela segunda vez no espaço de pouco mais de um minuto! O Leixões estava em modo diabólico, um verdadeiro quebra-cabeças para a equipa do União de Lisboa que dava mostras de um completo desnorte em campo. A avalanche dos nortenhos durou até aos 20 minutos, altura em que os lisboetas se começam a libertar das amarras e a tentar subir no terreno. Tentativas estas que iam sendo travadas pela defesa leixonense, que fazia da rapidez a arma para se antecipar aos lances de ataque contrários. Na segunda parte o União surge mais entusiasmado, e aos 50 minutos essa postura seria premiada com o golo de Salvaterra, que após receber um passe de Marques rematou sem hipótese para Álvaro. O empate pairou no ar num par de vezes, não fosse a falta de pontaria de Valentim. A partir dos 65 minutos o jogo conhece a sua fase mais sombria, com os jogadores das duas equipas a travarem-se de razões: Viriato e Mitra são expulsos e logo de seguida Salvaterra vai pelo mesmo caminho após discutir com o árbitro Álvaro Santos (de Coimbra). Mesmo a jogar com nove elementos – contra 10 – o União de Lisboa nunca desiste de atacar a baliza de Álvaro, enquanto que os nortenhos optam por jogar à defesa na tentativa de segurar a magra vantagem. E assim foi, 2-1 foi o resultado final com o título a viajar para Matosinhos, mas pelo que viu na etapa complementar também poderia muito bem ter ido para Lisboa que não teria ficado mal. Mas a história assim não quis e para a eternidade ficam os nomes de Álvaro, João Fernandes, Henrique, Quelhas, Minhoto, Lino, Mário Sarria, Mitra, Silveira e Mano, os campeões nacionais da 2.ª Divisão de 1938.

1939: Segunda coroa para o Carcavelinhos numa final em que o Centro do país aparece pela primeira no mapa das decisões

Os campeões de 1939
Em 1938/39 surgem novas mudanças no figurino da 2.ª Divisão. As equipas passam a estar dispostas em séries/grupos de acordo com a sua localização geográfica. Isto é, passa a haver a Série Minho (para equipas daquela região), a Série Alto Douro (idem aspas), Série Douro Litoral (idem idem aspas apas) e por aí abaixo no território continental. O Carcavelinhos ao vencer a Série Estremadura 1 garantiu a qualificação para a 2.ª fase onde eliminou o União de Lisboa (1-0), a Académica de Santarém (1-0) e o Farense (3-0), atingindo assim a final onde pela frente encontrou o Sporting da Covilhã, emblema este que assim se tornou na primeira equipa do centro do país a chegar ao jogo decisivo do segundo escalão nacional. As duas equipas mediram forças a 30 de abril de 1939, em Santarém, no Campo Alfredo Aguiar, que nesse dia recebeu um elevado número de entusiastas adeptos dos dois lados que para ali se deslocaram de comboio e/ou de camioneta. Conta o DL, que antes do apito inicial do árbitro Santos Palma (de Santarém) vislumbravam-se nas bancadas repletas muitas senhoras «que com a sua presença emprestam um ar festivo»! Ora aqui está uma prova de que já nos anos 30 o futebol não era uma paixão exclusivamente masculina. Assim que a bola foi posta a rolar percebe-se algum nervosismo da parte do guarda-redes do Covilhã, Júlio de Almeida: «mostra-se hesitante, tanto pior para ele, pois a bola ameaça-o constantemente e numa dessas vezes só por muita sorte é que os covilhanenses evitaram ser batidos», contava o enviado especial do DL a Santarém. 

Artur 
Baeta
Os lisboetas mostravam-se superiores, conduzindo a bola com velocidade até à área contrária, ao passo que os serranos só de vez em quando esboçam inofensivas reações ao domínio contrário. Foi, pois, de elementar justiça que à passagem do minuto 36 o remate fraco mas bem direcionado de Tomás Rodrigues levasse como destino o fundo da baliza de Júlio de Almeida. Na segunda parte, o Covilhã acorda e surge mais ameaçador, mas o Carcavelinhos não vai na conversa e continua a galopada ofensiva que vinha fazendo desde o apito inicial de Santos Palma. A partida ganha assim um interesse redobrado, com “bola cá, bola lá”, sendo que a luta se intensifica no último quarto de hora do match, mas sem que o resultado sofresse mais alterações. Para o DL venceu o melhor “team” no terreno, que desta forma levava pela segunda vez para Alcântara e no curto espaço de quatro anos o título nacional da 2.ª Divisão. Francisco Lopes, Artur Baeta, Vergilésio, José Lopes, Vitoriano, França, Pratas, Abrantes Mendes, Tomás Rodrigues, Quirino e Ferreira Lopes, compõem o team campeão. Deste naipe de futebolistas dois saltam à vista: Artur Baeta e Abrantes Mendes. O primeiro foi uma figura incontornável do futebol português, sobretudo enquanto treinador, tendo sido um visionário no que ao futebol de formação diz respeito, onde não se limitou a ser um condutor de jovens futebolistas, mas de igual modo um mestre na vertente dos ensinamentos cívicos, um pedagogo de excelência, que aliou o desenvolvimento do jovem futebolista quer enquanto atleta, mas sobretudo, quer enquanto futuro homem, enquanto cidadão. O segundo elemento ficou eternizado como o "avançado doutor", já que se formou em Direito ao mesmo tempo que desenvolveu a sua carreira de futebolista. O Sporting foi o clube que o formou e catapultou para o Planeta da Bola, jogando pelos leões entre 1926 e 1939, sendo que neste último ano tem uma breve incursão junto do Carcavelinhos onde termina a sua carreira de forma feliz: com o título de campeão nacional da 2.ª Divisão.

(continua)

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