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terça-feira, janeiro 06, 2015

Nomes e números da Taça Intercontinental (35)... 1996

TAÇA INTERCONTINENTAL

Ano de 1996
Onze anos depois a Juventus voltava a Tóquio para disputar o título mundial de clubes, e de novo contra um clube argentino, desta feita um River Plate recheado de jovens promessas, casos de Marcelo Salas, Ariel Ortega, ou Julio Cruz. Estrelas era coisa que também não faltava à Vechia Signora, tendo uma delas, Alessandro Del Piero, oferecido a segunda Taça Intercontinental ao emblema de Turim. Este foi também um duelo muito especial para o genial Zidane, que do outro lado encontrou o seu ídolo de infância, Enzo Francescoli.
Juventus (Itália) - River Plate (Argentina): 1-0

Data: 26 de novembro de 1996
Estádio: Nacional de Tóquio (Japão)
Árbitro: Márcio Rezende de Freitas (Brasil)

Juventus: Peruzzi, Torricelli, Ferrara, Montero, Sergio Porrini, Deschamps, Vladimir Jugovic, Di Livio, Zinedine Zidane (Tachinardi, aos 78m), Del Piero, Boksic. Treinador: Marcello Lippi.

River Plate: Roberto Bonano, Hernán Edgardo Díaz, Roberto Ayala, Eduardo Berizzo, Juan Pablo Sorin, Roberto Carlos Monserrat, Leonardo Rubén Astrada, Sergio Ángel Berti (Leonel Fernando Gancedo, aos 62m), Ariel Ortega, Enzo Francescoli, Julio Cruz (Marcelo Salas, aos 72m). Treinador: Ramón Diaz.

Golo: 1-0 (Del Piero, aos 81m).
Em cima, da esquerda para a direita: Torricelli, Ferrara, Porrini, Boksic, Peruzzi, e Montero. Em baixo, pela mesma ordem: Zidane, Del Piero, Deschamps, Di Livio, e Jugovic. 

Vídeo: JUVENTUS  - RIVER PLATE

quarta-feira, agosto 13, 2014

Competições jovens (3)... Campeonato do Mundo de Sub-20/Austrália 1981

Cartaz oficial
do Austrália 1981
Fazendo jus ao chavão "por mares nunca dantes navegados" a FIFA atraca a terceira edição do seu Campeonato do Mundo de Sub-20 na longínqua Austrália, país que naquele ano de 1981 ainda olhava o soccer - como o desporto rei por lá é denominado - com algum desinteresse, como facilmente poderá comprovar o facto deste ter sido o Mundial que menos espetadores atraiu! Sem qualquer tradição no planeta da bola - a exceção à regra havia sido uma fugaz aparição da seleção principal no Campeonato do Mundo de 1974 - a nação australiana encaixava como tal na perfeição num dos principais objetivos de João Havelange assim que havia chegado à presidência da FIFA: desenvolver o jogo nos quatro cantos do globo, sobretudo naqueles locais onde a popularização e a prática da modalidade apresentassem níveis extremamente baixos, como era claramente o caso da Austrália. Este torneio era pois encarado pelos responsáveis do soccer australiano como uma oportunidade para despertar nos jovens da Grande Ilha a curiosidade para uma modalidade que há largas décadas era já idolatrada na maior parte do globo terrestre. Para cativar um povo cujo coração palpitava mais depressa por um bom jogo de futebol australiano ou de críquete, a Australian Soccer Federation (sobretudo através do seu presidente, Sir Arthur George, uma das figuras que mais trabalhou junto da FIFA para que a competição fosse realizada no hemisfério sul) publicitava este Mundial de Juniores como o maior evento futebolístico alguma vez realizado na terra dos cangurus, um evento que iria reunir alguns dos melhores intérpretes do futebol à escala planetária, casos da Argentina, do Brasil, ou da Itália. O cartaz era de facto apelativo, mas a julgar não só pela afluência de público aos estádios que acolheram os 32 jogos da fase final, mas sobretudo pelo fraco impacto que o soccer teve no país nos anos que se seguiram, o Austrália 1981 esteve longe de poder ser considerado um sucesso! Mesmo em termos de jogadores que mais tarde iriam percorrer os caminhos da fama e da glória no patamar sénior este torneio ficou - olhando hoje para trás - aquém do esperado, não sendo necessário mais do que uma mão cheia para recordar os nomes dos meninos que iriam singrar no futebol adulto, casos dos argentinos Jorge Burruchaga e Sergio Goycochea, dos brasileiros Mauro Galvão e Josimar, ou do uruguaio Enzo Francescoli.

Lance da final de Sydney, marcada
por uma chuva torrencial
Este pode ser, aliás, olhado como o Mundial dos outsiders, o torneio onde seleções menos cotadas internacionalmente brilharam intensamente, casos da Roménia, do Egito, ou do Catar, sobretudo deste pequeno emirado do Médio Oriente, que contrariando a teoria chegou à final de Sydney onde apenas seria travado pela força e organização tática da República Federal da Alemanha (RFA). Seis foram as cidades escolhidas para dar vida a um torneio que - nunca é demais sublinhar - ficou abaixo das espetativas iniciais: Melbourne, Adelaide, Brisbane, Newcastle, Camberra, e Sydney. No plano geográfico não deixa de ser curioso que na principal cidade australiana, Sydney, o evento tenha passado quase despercebido, muito por culpa de um torneio de ténis, que ao que rezam as crónicas captou as atenções não só dos curiosos do fenómeno desportivo, mas também dos meios de comunicação social, com a televisão à cabeça, que optou por fazer uma cobertura intensiva ao ténis em detrimento do futebol, passando na TV os jogos - em diferido - do Mundial em horários pouco convidativos - princípios da manhã ao final do dia (!), longe, dos olhares do grande público. Em Sydney, na verdade, tudo correu mal.

O Sydney Cricket Ground e o seu "parceiro"
do lado, o Sydney Sports Ground
Para além da falta de público, a organização, ainda antes do pontapé de saída do torneio - dado a 3 de outubro - deparou-se com problemas infraestruturais inesperados no principal recinto do Mundial, o Sydney Cricket Ground, facto que fez com que os jogos a realizar naquela cidade tivessem de ser transferidos para o vizinho do lado, o Sydney Sports Ground, bem mais pequeno em termos de lotação. No que diz respeito a conforto, foram inúmeras as queixas oriundas das várias delegações participantes quanto à qualidade das infraestruturas do Mundial. Desde logo os relvados, péssimos para treinar e para jogar na opinião da maior parte das equipas, facto que aliado ao enorme fosso do fuso horário que separa a Austrália (quase que) do resto do Mundo explica de certo modo o insucesso de seleções teoricamente mais fortes, como a Espanha, a Itália, ou a campeã do Mundo em título, a Argentina. Houve quem no entanto, e previamente, se tivesse preparado condignamente para o sem número de dificuldades que iria encontrar na Austrália. Neste ponto algumas seleções levaram - aparentemente - a sua presença no terceiro Mundial de juniores muito a sério, tendo feito a preparação para o torneio muito antecipadamente. Foi o caso do próprio Catar, seleção liderada tecnicamente pelo brasileiro Evaristo de Macedo que levou por diante um extenso programa de preparação, tendo inclusive realizado um mês de estágio no Brasil, onde defrontou uma dezena de equipas - clubes - daquele país. Os próprios Estados Unidos da América (EUA) - que à semelhança do Catar também faziam a sua estreia num Campeonato do Mundo de Sub-20 - fizeram uma preparação exaustiva, agendando uma série de jogos com outras seleções antes da participação no certame da FIFA. O Egito - com um estágio de dois meses antes da partida para a Austrália onde foi incluída uma mini digressão pela Alemanha, onde jogou com uma mão cheia de equipas profissionais -, os Camarões - que muito antes do torneio ter início chegaram ao território australiano para se adaptaram às condições naturais ali existentes - ou a Roménia - com 10 jogos de carater particular no mês de estágio que antecedeu a partida para o outro lado do Mundo - foram outras das seleções que fizeram um (bom) trabalho de casa que acabou por dar os seus frutos, como iremos ver mais à frente.
Em sentido contrário estiveram as chamadas grandes seleções, sobretudo as europeias, com a Itália e a Espanha à cabeça, que desde logo se viram a braços com uma guerra desencadeada pelos clubes das suas federações, os quais se recusavam em ceder os seus futebolistas às seleções para uma viagem tão longo, já que a época desportiva na maior parte dos países da Europa Ocidental tem início em finais de agosto, ou o mais tardar, em meados de setembro. E uma vez que o Mundial australiano se iria desenrolar entre 3 e 18 de outubro não convinha nada a muitos emblemas perder as suas promissoras jóias.

Catar surpreende em Brisbane

O brasileiro Evaristo de Macedo,
responsável pela página mais brilhante
da história do futebol do Catar
O Grupo A do Campeonato do Mundo de Sub-20 de 1981 ficou instalado em Brisbane. No Lang Park evoluíram as seleções dos EUA, Polónia, Uruguai, e Catar. Favoritos a passar aos quartos-de-final eram teoricamente os uruguaios e os polacos, duas seleções com pergaminhos no Mundo do futebol, e com alguma experiência na ainda curta história de vida do Mundial de juniores, já que os sul-americanos participaram na edição inaugural, em 1977, ao passo que os europeus estiveram no Japão dois anos mais tarde. Impedidos à última da hora de contar com três dos seus mais talentosos artistas - chamados de emergência à seleção principal para um confronto decisivo no apuramento para o Campeonato do Mundo de 1982 - os polacos foram as primeiras vítimas do surpreendente Catar. Praticando um futebol de ataque, tal como o seu treinador gostava, os cataris procuravam de pronto a baliza contrária sempre que a bola estivesse na sua posse. Com passes rápidos e longos para as costas dos seus avançados a seleção do brasileiro Evaristo de Macedo chegou ao golo ao minuto 37, por intermédio de Badir Beleal. E se o ataque era perigoso a defesa era cerebral, ao ponto de aplicar na perfeição a armadilha do fora de jogo em que os adversários caíram vezes sem conta ao longo dos 90 minutos. A tarefa polaca mais complicada ficou quando na segunda parte Latka foi expulso pelo árbitro australiano Tony Boskovic. 1-0 para o Catar e estava assim consumada a primeira grande surpresa do Mundial.

Enzo Francescoli
No outro jogo da jornada inaugural do Grupo A o Uruguai bateu por 3-0 os EUA. Os charrúas apresentavam-se na Austrália como campeões do Campeonato Sul-Americano de Sub-20, com uma seleção tecnicamente evoluída - à boa maneira sul-americana - e taticamente disciplinada. Antes os norte-americanos alguns jogadores da celeste evidenciaram o seu talento no manuseamento do esférico, nomeadamente Alexis Noble, Jorge da Silva, Carlos Aguilera, e um tal de Enzo Francescoli. Rápidos e hábeis na condução do esférico estes atletas foram uma ameaça constante à baliza de Craig Scarpelli, que à sua frente tinha uma linha defensiva forte - fisicamente - que pecava pela lentidão, o que pode explicar o golo madrugador - aos 5 minutos - uruguaio apontado por Lopez Baez.  
Na 2ª jornada o Uruguai não só carimbou o seu passaporte para os quartos-de-final como também ofereceu aos polacos o bilhete de regresso a casa mais cedo do que estes haviam previsto. Acima de tudo foi mais uma grande exibição dos sul-americanos, em especial de Francescoli, um mestre na arte de driblar. 1-0 foi o resultado final - com um golo de Da Silva, mas o score até poderia ter sido mais volumoso, se atendermos ao facto de os selecionados de Raul Bentancor terem efetuado um total de 27 remates à baliza (!) contra apenas 11 dos polacos. No outro encontro os EUA beneficiariam durante a primeira parte de um erro - quiçá o primeiro deste Mundial - da defesa catari para abrir o marcador por intermédio de Mark Devey. O tento do empate - final - chegou na sequência de um golo polémico, já que os norte-americanos juraram a pés juntos que a bola cabeceada por Beleal não havia cruzado na totalidade a linha de golo na altura em que foi agarrada pelo guarda-redes. Polémica à parte o que é certo é que o tento foi validado, e perante este resultado o pequeno e desconhecido Catar estava com um pé na fase seguinte, sendo que para os EUA ainda restava uma ponta de esperança com vista a uma eventual classificação, precisando para isso não só de um triunfo sobre a Polónia como também de uma derrota dos cataris ante o já qualificado Uruguai.
E os charruás até deram a tal ajuda que os yankees necessitavam, e mesmo com Francescoli e Aguilera no banco - certamente a pensar no embate dos quartos-de-final - o Uruguai venceu por 1-0, graças a um tento de Villazan. No (seu) jogo do tudo ou nada os norte-americanos trabalharam muito para alcançar o milagre da qualificação, mas uma equipa polaca que despertou da mediocridade patenteada nos dois primeiros encontros tratou de mandar os soccer boys para casa no seguimento de uma goleada por 4-0... e oferecer deste modo o bilhete para os quartos-de-final aos cataris.

Squadra Azzura foi o bombo da festa em Melbourne

Italo Acconcia, teve
poucas razões para
sorrir na Austrália
Pelo seu historial - no futebol sénior - a Itália era - à partida - olhada como uma das principais candidatas à conquista do ceptro. Até porque havia terminado o Campeonato da Europa de Esperanças - prova onde os seis melhores colocados garantiam um lugar na fase final do Mundial de Sub-20 - em terceiro lugar, sofrendo apenas uma derrota - diante da Polónia - nos sete encontros disputados. Contudo, a Squadra Azzurra foi uma das seleções que mais sofreu com o facto dos clubes - neste caso os italianos - negarem a cedência dos seus jogadores à seleção, pois, como já foi dito inicialmente, a temporada europeia - campeonatos nacionais e eurotaças - coincidia com a ocorrência de uma prova que se realizava no outro lado do Mundo. O selecionador transalpino, Italo Acconcia, viu-se pois forçado a levar por diante uma verdadeira revolução nas vésperas da partida para a Austrália. Dez - dos principais - atletas que haviam ajudado a Itália a ficar em terceiro lugar no Europeu de Esperanças não fizeram a longa viagem para a Oceânia, tendo sido substituídos por... segundas alternativas. O braço de ferro entre clubes e federação pela cedência, ou não, de atletas acabou por condicionar - e de que maneira! - o desempenho da Azzurra na terra dos cangurus. Desde logo a preparação para o torneio foi feita em cima do joelho, com Acconcia a reunir o grupo nas vésperas da partida para a Austrália, tendo apenas realizado um encontro de preparação ante a equipa juvenil de um clube da Serie A. Colocando no retângulo de jogo o seu típico esquema tático altamente defensivo, a Itália teve uma estreia catastrófica ante a Coreia do Sul. No Olympic Park de Melbourne os italianos andaram à deriva, e ainda o relógio não havia atingido a meia hora inicial e já os coreanos venciam por 3-0! De nada valeria o golo tardio de Pietro Mariani (aos 83 minutos), já que os italianos saíram do relvado vergados a uma pesada derrota (1-4).

A seleção brasileira que esteve na Austrália
A outra superpotência futebolística inserida neste grupo dava pelo nome de Brasil. O selecionado dirigido pelo antigo jogador Vavá - bi-campeão do Mundo, em 1958 e 1962 - cedo viajou para a Austrália, no sentido de se adaptar às condições climatéricas e ao fuso horário. No entanto, a estreia, diante da Roménia, foi tudo menos positiva. Os europeus massacraram a baliza de Pereira com um total de nove remates que levaram selo de golo, contra apenas quatro dos canarinhos. 1-1 foi o resultado final, que pelo que se passou em campo acabou por deixar mais felizes os sul-americanos do que os jogadores do leste europeu.
Na 2ª ronda Melbourne foi palco de um clássico do futebol internacional, um Brasil-Itália. Fazendo uso do seu habitual futebol rendilhado - vistoso sob o ponto de vista técnico - os brasileiros dominaram o meio campo, superioridade que no entanto não se traduziu na obtenção de mais do que um simples golo, da autoria de Djalma Baía, à passagem do minuto 56. Foi, contudo, notória a subida de rendimento dos brasileiros em relação ao jogo de estreia. Quanto à Squadra Azzura dizia de forma inglória adeus ao Mundial, já que na véspera a Roménia havia batido por 1-0 a Coreia do Sul, graças a um tento de Sertov, que foi suficiente para traduzir a supremacia dos europeus ao longo de todo o encontro.

Romulus Gabor, o romeno que foi
considerado o melhor jogador
do Austrália 1981
Já qualificados para os quartos-de-final foi com uma natural descontração que os romenos enfrentaram a Itália no derradeiro encontro da fase de grupos. Foi o encontro onde surgiu a grande estrela do torneio, Romulus Gabor, jovem atacante que atuava - na época - no modesto Corvinul Hunedoara, e que neste duelo ante os transalpinos marcou o tento solitário no Olympic Park. Neste jogo a Roménia mostrou uma vez mais a sua solidez defensiva, barrando tranquilamente as parcas iniciativas da Itália em alcançar a baliza de Lovas.
Squadra Azzurra que poucas ou nenhumas recordações - boas, claro está - deixou na Austrália. Uma geração que falhou redondamente a entrada no grande palco do futebol internacional, sendo a exceção o defesa Riccardo Ferri, que haveria de exibir-se a elevado nível até ao final da década com as cores do Inter de Milão e da principal seleção italiana, tendo marcado presença no Campeonato da Europa de 1988 e no Mundial de 1990.
Na outra partida o Brasil não teve grandes dificuldades em derrotar os coreanos por 3-0. Na primeira parte a boa atuação da defesa canarinha contrastou com o seu apagado ataque. A zaga do Brasil deu nas vistas durante os primeiros 45 minutos, ao parar com eficiência os rápidos ataques coreanos. Na etapa complementar foi a vez do até então apático ataque canarinho brilhar. Levando (quase sempre) a melhor nos duelos de um para um os jogadores mais ofensivos do Brasil não deram descanso ao guardião In Young Choi, que na primeira parte apenas havia feito uma defesa digna de registo! Paulo Roberto aos 48 minutos abriu um marcador que seria fechado a cerca de 10 minutos do fim com um autogolo de Jong Son Jun, sendo que pelo meio Ronaldo Marques também fez o gosto ao pé naquela que foi a vitória mais expressiva dos brasileiros em terras australianas. Na retina dos especialistas começavam já a evidenciar-se os nomes do defesa - e capitão de equipa - Mauro Galvão, do lateral Josimar, ou do também defesa central Júlio César, três nomes que escassos anos mais tarde sobressaíram no plano internacional com a camisola da principal seleção brasileira - jogaram juntos o Mundial do México, em 1986, por exemplo.

De repescados a... campeões!

Ralf Loose, um dos melhores
marcadores deste Mundial
Em Adelaide e Camberra ficou instalado o Grupo C, integrado pelo Egito, México, Espanha, e pela República Federal da Alemanha (RFA). Germânicos que nem eram para ter ido à Austrália, já que no Campeonato da Europa de Esperanças de 1980 ficaram fora dos lugares de qualificação para o Mundial. No entanto, a desistência - à última da hora - da Holanda reabriu as portas da Austrália aos... futuros campeões do Mundo. Comandados por Dietrich Weise, os jovens alemães pouco tempo tiveram para preparar a participação na terceira edição do Campeonato do Mundo de Sub-20. Um pouco à pressa realizaram quatro jogos amigáveis antes de fazer a grande viagem até ao outro lado do planeta. Contudo, e contrariamente à Itália, por exemplo, o pouco tempo de preparação não se fez notar na turma da RFA... pelo menos no que a resultados diz respeito, pois ao nível de exibições - sobretudo na fase de grupos - a conversa é outra! No primeiro encontro os alemães mediram forças com o México, no Hindmarsh Stadium. Frente a frente dois estilos de jogos completamente distintos, de um lado a aliança entre a força física e a rigidez da tática germânica, enquanto que do outro estava a virtuosismo técnico dos mexicanos que chegavam a este Mundial juvenil com a moral em alta, depois de terem conquistado no ano anterior o título de campeões da CONCACAF frente aos vizinhos e rivais dos EUA... em solo yankke. Alfonso Portugal, o selecionador mexicano, montou cuidadosamente um grupo forte sob o ponto de vista mental, incutindo desde cedo na mente de cada um dos 18 selecionados que a meta a atingir era pelo menos igualar a prestação da seleção tricolor na primeira edição do Mundial de Sub-20, em 1977, onde foram vice campeões, caindo aos pés da antiga União Soviética. Na Austrália os mexicanos podem queixar-se de alguma falta de sorte, já que no embate ante o futuro campeão um erro de Aguirre logo aos dois minutos sentenciou uma partida equilibrada. Ralf Loose aproveitou da melhor maneira o erro do defesa mexicano para fazer o único tento de uma partida que na etapa complementar foi farto em oportunidades de golo, sobretudo para os centro-americanos, que por 18 ocasiões alvejaram a baliza de Vollborn - contra apenas 11 remates dos germânicos. Porém, a solidez defensiva dos europeus segurou a magra mas preciosa vitória. Estava assim dado o primeiro passo para uma caminhada gloriosa.

Chano, o destaque
de uma pobre Espanha
No outro encontro surgiu a equipa sensação deste grupo, o Egito. Qualificados para o Mundial após terem vencido o Taça de África das Nações para jovens - derrotaram na final os Camarões - os faraós prepararam-se atempadamente para o torneio, com um estágio de dois meses, o qual incluiu uma pequena digressão pela RFA, onde foram efetuados uma mão cheia de jogos amigáveis ante equipas profissionais locais. Constituída por jogadores com experiência no principal escalão do futebol egípcio, a seleção africana começou a sua participação no Mundial australiano com um empate a duas bolas ante a Espanha. Atuando num sistema de 4-3-3 os egípcios cedo patentearam a sua confiança na obtenção de um resultado positivo, encostando os europeus à sua zona defensiva durante quase toda a primeira parte, graças a habilidosas investidas pelos flancos. Logo aos seis minutos Abouzeid abriu o marcador para o Egito, combinado que até final dos primeiros 45 minutos dispôs de mais algumas oportunidades para bater o portero Fernando Peralta. No entanto, a superioridade dos faraós foi eclipsada pelo autêntico dilúvio que se abateu sobre o Hindmarsh Stadium. Incapazes de contornar as adversidades climatéricas os egípcios entregaram o leme do jogo à Roja, seleção que aos 65 minutos empata a contenda graças a um golo do defesa Chano, jogador que na época vestia a camisola do Cádiz e que se iria revelar como um dos - poucos - bons valores desta equipa orientada por Jesus María Pereda. A um quarto de hora do final Sebastian Nadal fez o 2-1 para os europeus, e muitos julgariam que a vitória estaria entregue perante a passividade dos faraós. Puro engano. Quatro minutos volvidos Abouzeid restabelece a igualdade na sequência de um eficaz e belo remate de vólei, selando o resultado final em 2-2.

Abouzeid
E se este empate ante a Espanha foi meia surpresa o resultado seguinte pasmou - os poucos - interessados neste Mundial jovem. Contrariamente ao esperado foram os africanos a assumir as despesas do encontro desde cedo, criando uma série de lances perigosos junto à baliza de Vollborn, muito por influência do talentoso playmaker egípcio Alaa Mayhoub, que assinou uma exibição soberba. A avalanche africana deu frutos à passagem do minuto 31, altura em que Helmi inaugurou o marcador. Tento que acordou - ainda que por instantes - os germânicos, já que quatro minutos volvidos Ralf Loose igualou a partida. Ainda o relógio não havia indicado dez minutos jogados no segundo tempo quando o goleador egípcio Abouzeid fez o 2-1 final, num jogo que mais do que uma surpresa - vitória inesperada do Egito - seria posteriormente considerado um dos mais bem jogados deste campeonato. Mérito para os faraós.
Na outra partida a Espanha cedeu um novo empate, desta feita a uma bola diante do México, um resultado com um trago de alguma injustiça para os centro-americanos, não só pelo futebol ofensivo que apresentaram mas sobretudo pelo paupérrimo jogo dos espanhóis, cuja lentidão e agressividade - foram várias as placagens violentas que os castelhanos aplicaram durante o jogo aos habilidosos mexicanos - eram factos merecedores de outro resultado que não este 1-1. Espanha que até esteve a vencer, quando em cima do intervalo o defesa goleador Chano abriu o ativo. Coss, aos 75 minutos, restabeleceu então uma igualdade com sabor a derrota para um México que com este resultado estava em maus lençóis no que dizia respeito a possibilidades de seguir em frente. Quanto à Espanha, mesmo a desiludir continuava na corrida pelo apuramento, bastando para o alcançar uma vitória ante a RFA.


Michael Zorc, em 1981, com as cores
do único clube que representou
ao longo da sua carreira,

o Borussia Dortmund
Mas tal não viria a suceder, pois na jornada de todas as decisões deste Grupo C os germânicos fizeram um jogo - disputado no Bruce Stadium, em Camberra - perfeito sob o ponto de vista tático. Sólidos na defesa, criativos no meio campo - com Michael Zorc e o goleador Ralf Loose em sintonia perfeita - e demolidores no ataque, os jogadores de Dietrich Weise golearam a melhor Espanha deste Mundial por 4-2 e garantiram a presença nos quartos-de-final, juntando-se ao surpreendente Egito que protagonizou diante do México um duelo onde a festa do golo foi de arromba! 3-3, resultado final que até poderia ter sido mais volumoso, já que foram várias as situações de golo para ambos os lados ao longo da partida. Com este empate o México disse adeus à competição, um adeus algo injusto, há que dizê-lo, já que além de bom futebol os mexicanos apresentaram-se na Austrália como uma equipa adulta, recheada de bons talentos, a quem a sorte... abandonou.
Quanto ao Egito, a aventura continuava... contra todas as espectativas iniciais.

Desconhecidos socceroos deram boa conta de si

Captain Australia,
a mascote dos socceroos
Face ao seu percurso discreto na história do futebol internacional, era com alguma curiosidade - e porque não dizer descrença - que os olhares deste campeonato se direcionavam para a equipa da casa. A julgar pelo pobre cartão de visita do soccer australiano além fronteiras - a única, e fugaz, aparição dos socceroos (como é conhecida a seleção nacional australiana) num grande palco internacional havia sido no Campeonato do Mundo de 1974 - os críticos da modalidade não enjeitavam em apontar a Austrália como o bombo da festa do Grupo D, o qual juntava os vice campeões de África, os Camarões, a poderosa Inglaterra, e os campeões do Mundo de Sub-20 em título, a Argentina. No entanto, os australianos queriam mostrar que nem sempre a teoria se confirma na prática, por outras palavras, que também sabiam jogar à bola. E como jogaram! Com o intuito de preparar condignamente a participação no Mundial de Sub-20 o selecionador Les Scheinflug levou por diante uma série de treinos de captações um pouco por todo o país, no sentido de encontrar os melhores jogadores para vestir a camisola amarela da gigante nação da Oceânia. Após ter construído o seu grupo de trabalho final, Scheinflug efetuou uma longa maratona de preparação, agendando inúmeros encontros amigáveis ante seleções vizinhas, como a Indonésia, Hong Kong, Taiwan, ou Surabaya, no sentido não só de formar uma equipa capaz de enfrentar fosse qual fosse o oponente, mas igualmente com o objetivo de criar um estilo de jogo. Nada faltou à jovem seleção australiana na antecâmara para o seu Mundial. A Australian Soccer Federation disponibilizou todos os meios possíveis aos jogadores e staff técnico para que o desempenho dos socceroos fosse memorável... e para o ser o mínimo exigido era passar aos quartos-de-final. Tarefa complicada, mas Les Scheinflug havia conseguido incutir no seu jovem e inexperiente grupo uma forte dose de motivação.

Les Scheinflug
Que o diga a Argentina, o primeiro oponente da Austrália neste Mundial, que em Sydney - que juntamente com Newcastle foi a sede dos jogos do Grupo D - foi vítima do espírito otimista e guerreiro dos jovens socceroos. Cedo os australianos atacaram a baliza de Sergio Goycochea, com determinação e sobretudo sem receio de pela frente ter nada mais nada menos do que um dos principais favoritos à (re)conquista do ceptro. O meio campo dos rapazes da casa intercetou bolas atrás de bolas, eclipsando por completo o jogo mais refinado - sob o ponto de vista técnico - dos sul-americanos, lançando em seguida o esférico para a mexida dupla atacante composta por David Mitchell e Mark Koussas. O espanto tomava conta dos pouco mais de 15 000 espetadores presentes no Sydney Sports Ground, que esperavam tudo menos um nulo na saída para o descanso, e acima de tudo não contavam com uma Austrália que aniquilou por completo a campeã do Mundo, a Argentina. No reatamento os australianos foram ainda mais atrevidos, desgastando por completo a equipa das pampas, sendo que por vezes os socceroos apareciam na área argentina com cinco ou seis jogadores (!) em posição de fuzilar o atarefado Goycochea. No entanto, e apesar de deter o controlo do encontro, a Austrália foi surpreendida ao minuto 66 por um golo contra a corrente, da autoria de Claudio Morresi. o homem que herdara a camisola número 10 de um tal de Diego Armando Maradona. Com um enorme coração os australianos não baixaram os braços, afinal, eram eles que mandavam no jogo, e nos últimos quinze minutos assistiu-se a uma verdadeira avalanche junto da baliza forasteira. Aos 79 minutos Koussas- descendente de gregos - igualou, e a um minuto dos 90 Ian Hunter deu o melhor seguimento a um cruzamento de Mitchell para selar uma justa vitória de uma equipa que apaixonou... à primeira vista quem a viu atuar. Dúvidas pareciam não existir que Les Scheinflug estava a realizar um grande trabalho à frente dos socceroos.

Sergio Goycochea, guarda-redes
argentino que iria destacar-se no patamar
sénior durante do Mundial de 1990
A Inglaterra surgia neste torneio como campeã da Europa de Esperanças, título alcançado um ano antes. Porém, e à semelhança do que havia acontecido com a seleção italiana, grande parte dos clubes ingleses recusaram-se a ceder os seus jogadores à seleção dos Três Leões para disputar uma competição do outro lado do Mundo. Desta forma, o selecionador John Cartwright apenas pôde contar com quatro dos campeões da Europa de 1980 em terras australianas, mas mesmo assim não se saiu nada mal, como iremos constatar. Porém, os ingleses estiveram longe de encantar no jogo de estreia ante o bem organizado conjunto dos Camarões. Defensivamente os africanos estiveram imperiais, dificultando ao máximo a vida a uma Inglaterra que visivelmente ainda estava longe de patentear o melhor entrosamento entre as suas unidades. Na etapa inicial a Inglaterra pôde agradecer aos deuses o facto da sua baliza ter chegado ao intervalo intacta. Com uma defesa frágil os britânicos foram bafejados pela sorte... e pelo facto dos avançados camaroneses serem tudo menos hábeis na arte de rematar à baliza. No segundo tempo os europeus surgiram em campo um pouco melhor, e tirando partido de jogaram a favor do vento atacaram com êxito a baliza africana à passagem do minuto 57, altura em que Tony Finnigan fez o primeiro golo. Facto que desorientou por completo a até então segura defesa africana, que depois disto consentiu que os inexperientes - enquanto conjunto - ingleses se aproximassem mais vezes da baliza à guarda de Yombo. Num desses assaltos Dey fez os 2-0 final, aos 78 minutos, confirmando um triunfo... abençoado pela sorte. Mas como diz o ditado: não há campeões sem sorte.
Na segunda jornada os argentinos fizeram praticamente as suas despedidas do certame, na sequência de um empate a uma bola diante da Inglaterra. Um encontro onde os guarda-redes brilharam, pelo que os golos ficaram a dever-se mais ao fator sorte do que mérito dos seus autores.


Mark Koussas,
na atualidade
Em Newcastle as expectativas eram altas em torno da seleção da Austrália, a qual voltou a entrar a todo o gás, sufocando os Camarões com sucessivos ataques durante o primeiro quarto de hora. Numa dessas investidas David Mitchell inaugurou o marcador. Contudo, e de forma surpreendente - em face do que os socceroos haviam feito ante os argentinos - os Camarões conseguiram inverter o marcador a seu favor para 3-1 (!) à passagem do minuto 52. Porém, nos minutos que se seguiram surgiu em campo o instinto matador de Mark Koussas, que haveria de sagrar-se como um dos melhores marcadores da competição. Com dois golos, um deles na conversão de uma polémica grande penalidade, já que os africanos juraram a pés juntos que a falta foi cometida fora da área, Koussas foi o herói da partida, oferecendo um precioso ponto a uma Austrália que desta forma estava praticamente qualificada para a fase seguinte.
Face a esta conjugação de resultados um empate - entre si - bastaria a australianos e a britânicos para seguir em frente. Mark Koussas voltou a estar em evidência nos primeiros minutos do embate ante a armada inglesa, tendo - aos sete minutos - colocado a sua equipa em vantagem. Koussas - que atuava no Sydney Olympic - apontava assim o seu quarto tento no Mundial. A Inglaterra tremeu, mas não desarmou, e até ao fim atacou a baliza de Glen Ahearn para pelo menos chegar ao desejado empate que a qualificaria em primeiro lugar do grupo. Até porque no outro jogo a Argentina já vencia os Camarões desde o minuto seis, graças a um golo de Cecchi, precisando apenas de mais um para afastar os ingleses da corrida pelos quartos-de-final. Mas, eis que aos 82 minutos Michael Small (pequeno) foi grande, e fez o 1-1 final que qualificou ingleses e australianos, em detrimento de uma Argentina que pelo estatuto com que chegou à Oceânia podia, e devia, ter feito muito melhor.

Catar sambou à custa do Brasil!

Neil Webb, com três golos foi a figura da Inglaterra
no encontro diante do Egito
No dia 11 de outubro decorreram as quarto partidas alusivas aos quartos-de-final do torneio. Em Melbourne o talentoso Uruguai media forças com a surpreendente Roménia liderada pelo pequeno mago Gabor. Com uma defesa compacta e com os seus jogadores a atacar de imediato a bola assim que a perdiam, foi com naturalidade que a Roménia chegou à vantagem à passagem do minuto 25. Apesar de dominado sob o ponto de vista tático pelo conjunto europeu os futebol rendilhado do Uruguai daria os seus frutos no segundo tempo, aos 60 minutos, altura em que Burruetta aproveitou da melhor maneira uma defesa incompleta de Lovas para restabelecer a igualdade. Sol de pouca dura, já que aproximadamente um quarto de hora volvido o defesa Fisic abriu as portas das meias-finais à talentosa Roménia.
Em Sydney, perante as bancadas semi despedidas do Sports Ground a Inglaterra voltou a dar meia parte de vantagem ao adversário. O Egito não se fez rogado e aproveitou duas das muitas ofertas de uma débil defesa britânica para sair para o descanso com uma vantagem de dois golos. No reatamento o típico futebol direto dos ingleses inverteu o marcador. Apostando em ataques pelos flancos a Inglaterra furou as redes de Ashour por quatro ocasiões, com destaque para o médio Neil Webb - que enquanto sénior iria brilhar ao serviço de clubes como o Nottingham Forest e o Manchester United - autor de três golos. Segundo a crítica, este havia sido o pior dos jogos que os egípcios efetuaram na terra dos cangurus, quiçá afetados pela trágica notícia do assassinato do seu presidente, Anwar Sadat. No entanto, e para a história, fica a imagem de uma equipa que perpetuou nos relvados australianos momentos de alegre futebol ofensivo.

Wohlfarth
No Bruce Stadium, de Camberra, entravam em cena a RFA e a turma da casa. A Argentina tinha caído, e a Inglaterra por pouco não seguiu o exemplo dos campeões do Mundo diante de uma Austrália até então desconhecida, e... seriam os socceroos capazes de provocar mais uma surpresa? Estiveram quase. Motivados pela brilhante carreira que os havia levado até ali - contra os prognósticos iniciais de muita gente - os australianos venderam cara a derrota (0-1) diante dos germânicos. Taticamente perfeitos os jogadores da casa dispuseram de algumas oportunidades claras para bater Vollborn ao longo do encontro, tendo inclusive desperdiçado uma grande penalidade através do seu homem-golo, Koussas. Há quem diga que faltou sorte neste jogo a uma equipa que dignificou um país mais familiarizado com o cricket ou o rugby. Esta excelente - e impensável - performance dos jovens socceroos não teve contudo um seguimento no patamar sénior, já que a maior parte destes jovens acabou por se render ao anonimato internacional nos anos seguintes. Alguns deles foram desaparecendo a pouco e pouco no desconhecido campeonato australiano, casos do goleador Mark Koussas - que a par dos alemães Loose e Wohlfarth foi o melhor marcador do torneio, com quatro golos - que preferiu continuar na sua cidade de Sydney a trabalhar como programador de computadores - em simultâneo com um lugar no onze do Sydney Olympic -, ao invés de aceitar propostas de clubes como o Ipswich Town ou o Manchester United para desenvolver o seu talento com o esférico. Uma palavra para o técnico Les Scheinflug - descendente de alemães - que nas décadas seguintes continuou a levar por diante um excelente trabalho ao nível da formação, e a prova disso é que até hoje a Austrália é cliente habitual dos Mundiais de Sub-20, sendo que por sete ocasiões foi ali conduzida por Scheinflug. É obra.

Brasil
Mas a grande surpresa chegou de Newcastle, onde o favorito Brasil tombou diante do surpreendente Catar. Foi na realidade um grande encontro de futebol entre duas equipas tecnicamente bastante apuradas, com o Brasil a superiorizar-se nos primeiros 45 minutos a um Catar que demonstrou um enorme respeito pelo seu oponente, conforme explica o facto do treinador Evaristo de Macedo ter apresentado uma defesa composta por cinco homens. Mesmo assim foram os cataris a adiantar-se no marcador por intermédio daquele que viria a ser considerado o homem do jogo, Khalid Al Mohamedi. Ronaldo Marques empatou aos 27 minutos, resultado (1-1) com que se viria a atingir o intervalo. No reatamento o Catar arriscou um pouco mais, e com o vento a seu favor importunou mais vezes uma defesa canarinha que esteve uns furos abaixo do que havia sido habitual. À passagem do minuto 54 Al Mohamedi recolocou os cataris em vantagem, para Ronaldo Marques voltar a faturar cerca de 20 minutos volvidos. O jogo estava aberto, e qualquer uma das seleções podia voltar a fazer balançar as redes. Fê-lo o Catar, e de novo por intermédio de Khalid Al Mohamedi, na sequência de uma grande penalidade cavada a três minutos dos 90. Estava consumada uma enorme surpresa... ou não, já que até ali o Catar tinha produzido algum do melhor futebol que se tinha visionado em terras australianas, um futebol com um sabor a... Brasil! O Catar de 1981 foi para muitos uma cópia do estilo de jogo que se pratica em Terras de Vera Cruz. Quanto ao Brasil, o verdadeiro escrete canarinho, teve apontamentos de profundo encanto ao longo deste campeonato, tendo apenas tido o azar de esbarrar no... seu clone!

Gabor e companhia foram osso duro de roer para os futuros campeões

 Sydney Cricket Ground
Já com o Sydney Cricket Ground apto a receber jogos de futebol, 14 de outubro foi o dia escolhido para... escolher os finalistas do torneio. Em Melbourne mediam forças a Roménia e a RFA, duas nações que se conheciam bem das batalhas das competições continentais. Na verdade, este foi o encontro mais difícil da caminhada germânica rumo ao título, um jogo onde a RFA sofreu a bom sofrer para parar as constantes investidas dos romenos à sua área, sobretudo na segunda metade, onde o golo dos europeus de leste não surgiu por muito pouco. Houve então a necessidade de se jogar um prolongamento, injusto para os romenos, há que dizê-lo, pois pelo que haviam feito ao longo dos 90 minutos eram merecedores da final. Mas no futebol nem sempre vence quem merece, ou quem melhor interpreta o jogo, e foi o que aconteceu no relvado do oval Sydney Cricket Ground, quando aos 103 minutos do tempo extra o defesa Alfred Schon foi lá à frente fazer o que os seus companheiros de ataque não haviam conseguido fazer: golos. Na sequência de um pontapé de canto Schon saltou mais alto que a até então impenetrável defensiva romena para fazer o único golo da partida.
E em Melbourne o Catar continuava a viver um sonho. Depois do Brasil foi a vez da Inglaterra ser surpreendida pelos abrasileirados cataris. Evaristo de Macedo voltou a usar neste jogo a armadilha do fora de jogo, que tão boa conta de si havia dado no encontro diante da Polónia, ainda na fase de grupos. Por mais de 20 ocasiões (!) os ingleses caíram nessa armadilha, enquanto que na frente o futebol técnico dos asiáticos causava problemas à defesa europeia. Aos 12 minutos Belael marcou um golaço, e aos 62 Al Sadah carimbou o passaporte para uma impensável final. Small ainda reduziu para os britânicos aos 70 minutos, mas face ao que se passava no relvado era já tarde para aspirar a dar o passo rumo ao jogo mais desejado do torneio.
Os ingleses fizeram inúmeras alterações no jogo de atribuição dos terceiro e quarto lugares diante da Roménia, realizado em Adelaide. Partida onde Gabor esteve soberbo, guiando - através de dribles desconcertantes - a sua equipa até à vitória, sendo, aliás, da sua autoria o único golo da contenda. Este quarto lugar acaba por ser um resultado para lá de satisfatório para uma Inglaterra construída em cima do joelho, sem entrosamento, e com (vários) momentos de futebol triste.
Já para os romenos, o terceiro lugar é um prémio que acaba por saber a pouco para uma equipa onde se destacou uma defesa de ferro, um meio campo mágico, e um ataque venenoso onde se destacava  Romulus Gabor.

Sonho catari afundou no dilúvio que marcou a final de Sydney

A equipa da República Federal da Alemanha que venceu a terceira edição do Mundial de Sub-20 da FIFA
18 de outubro de 1981. Dia que nasceu cinzento para os lados de Sydney, a cidade que nesse dia iria acolher a final do Mundial de Sub-20. Com o passar das horas o cenário piorou com a forte chuva que caiu sobre a cidade mais populosa da Austrália. E se o torneio havia atraído os olhares de uma pequena fração da população de Sydney, neste dia ainda menos atenções teve, como demonstra o facto do Sydney Cricket Ground apresentar apenas meia casa (cerca de 18 000 espetadores)! Com o relvado transformado numa autêntica piscina (!) os cataris tiveram imensas dificuldades para exibir o seu futebol mais técnico. Por seu turno, a RFA usou o estilo de futebol direto, com passes longos a rasgar a defensiva do Catar. E foi desta maneira que por quatro ocasiões bateram o guardião Ahmed, garantindo uma vitória justa - pelo que fez neste jogo, e pelo o que o Catar não fez! - que assegurou a conquista do título mundial. Pese embora tenha sido copiosamente derrotado na final de Sydney, o Catar foi amplamente considerado pela crítica como a equipa sensação deste torneio, uma seleção dinâmica e bela sob o ponto de vista técnico, com uma defesa inteligente, um meio campo criativo, e um ataque pleno de oportunismo - tirando a exibição da final, claro está - fizeram desta uma das melhores recordações do Austrália 1981.

A figura: Romulus Gabor

Ao longo da história dos Mundiais de Sub-20 foram muitos os jogadores que no escalão sénior não deram seguimento ao talento evidenciado nos escalões de formação. Foi o caso do romeno Romulus Gabor, considerado pela FIFA como o melhor jogador do Austrália 1981. Romica, o diminutivo pelo qual era conhecido nos retângulos de jogo foi um dos maiores talentos produzidos pelo futebol romeno que se perdeu pelos caminhos secundários do planeta do futebol. Nasceu em Pui, a 14 de outubro de 1961, dando os primeiros passos no desporto rei no clube local, o Corvinul Hunedoara, em meados da década de 70. Gabor era um atleta de fino recorte técnico, elegante e habilidoso, um maestro que dirigia a sua orquestra desde o meio campo ofensivo (atuava tanto como avançado, como número 10). A isto aliava uma invulgar rapidez de raciocínio, capaz de criar um lance de perigo numa fração de segundo. Eximia, era igualmente a sua forma de cobrar livres, que causou inúmeros calafrios aos guarda-redes que com ele se depararam ao longo de uma carreira desenvolvida no modesto Corvinul! Propostas para sair deste clube não faltaram, mas o amor ao emblema e à cidade que o viu nascer pesou sempre na hora de decidir. A estrela de Gabor acabou por se eclipsar no medíocre clube, perdendo o comboio que levou outros craques do seu tempo - como o genial Gica Hagi - ao patamar da fama internacional. A Bola de Ouro do Mundial de Sub-20 de 1981 foi um prémio menor para um astro que permaneceu no Corvinul até 1991, altura em que importunado por uma série de lesões tentou uma curta aventura na Hungria, ao serviço do Diosgyori. Regressou quase como um relâmpago ao seu país, onde até 1997 deambulou por uma série de clubes pequenos, pouco condizentes com o talento que outrora exibira.
Pela seleção principal da Roménia atuou em 35 ocasiões, duas delas durante a fase final do Euro 1984 - jogou frente a Portugal.

Nomes e números:

Grupo A

1ª Jornada

Polónia - Catar: 0-1
(Beleal, aos 37m)

Estados Unidos da América - Uruguai: 0-3
(Lopez Baez, aos 5m, Aguilera, aos 60m, Da Silva, aos 67m)

2ª Jornada

Estados Unidos da América - Catar: 1-1
(Devey, aos 43m)
(Beleal, aos 56m)

Uruguai - Polónia: 1-0
(Da Silva, aos 58m)

3ª Jornada

Catar - Uruguai: 0-1
(Villazan, aos 52m)

Polónia - Estados Unidos da América: 4-0
(Dziekanowski, aos 65m, aos 67m, Rzepka, aos 17m, Kowalik, aos 18m)

Classificação:

1-Uruguai: 6 pontos
2-Catar: 3 pontos
3-Polónia: 2 pontos
4-Estados Unidos da América: 1 ponto

Grupo B

1ª Jornada

Itália - Coreia do Sul

Itália - Coreia do Sul: 1-4
(Mariani, 83m)
(Choi, aos 12m, aos 29m, Kwak, aos 7m, Lee, aos 88m)

Roménia - Brasil: 1.1
(Zamfir, aos 82m)
(Leomir, aos 67m)

2ª Jornada

Roménia - Coreia do Sul: 1-0
(Sertov, aos 5m)

Brasil - Itália

Brasil - Itália: 1-0
(Djalma Baía, aos 56m)

3ª Jornada

Coreia do Sul - Brasil: 0-3
(Paulo Roberto, aos 48m, Ronaldo Marques, 61m, Jun, na própria baliza, aos 79m)

Itália - Roménia: 0-1
(Gabor, aos 56m)

Classificação:

1-Brasil: 5 pontos
2-Roménia: 5 pontos
3-Coreia do Sul: 2 pontos
4-Itália: 0 pontos

Grupo C

1ª Jornada

Espanha - Egito

Espanha - Egito: 2-2
(Chano, aos 65m, Nadal, aos 74m)
(Abouzeid, aos 6m, aos 78m)

RFA - México: 1-0
(Loose, aos 2m)

2ª Jornada

RFA - Egito: 1-2
(Loose, aos 35m)
(Helmi, aos 31m, Abouzeid, aos 54m)

México - Espanha: 1-1
(Coss, aos 75m)
(Chano, aos 45m)

3ª Jornada

Egito -México: 3-3
(Saleh, aos 64m, aos 71m, Guillen, na própria baliza, aos 33m)
(Vaca, aos 18m, Farfan, aos 28m, Rios, aos 69m)

Espanha - RFA: 2-4
(Lopez, aos 72m, Fabregat, aos 78m)
(Wohlfarth, aos 47m, aos 85m, Trieb, aos 29m, Anthes, aos 55m)

Classificação:

1-RFA: 4 pontos
2-Egito: 4 pontos
3-México: 2 pontos
4-Espanha: 2 pontos

Grupo D

1ª Jornada

Inglaterra - Camarões: 2-0
(Finnigan, aos 57, Dey, aos 78m)

Austrália - Argentina

Austrália - Argentina: 2-1
(Koussas, aos 79m, Hunter, aos 89m)
(Morresi, aos 66m)

2ª Jornada

Austrália - Camarões

Austrália - Camarões: 3-3
(Mitchell, aos 9m, Koussas, aos 53m, aos 78m)
(Olle Olle, aos 17m, Djonkep, aos 35m, aos 52m)

Inglaterra - Argentina: 1-1
(Small, aos 79m)
(Urruti, aos 57m)

3ª Jornada

Camarões - Argentina: 0-1
(Cecchi, aos 6m)

Inglaterra - Austrália: 1-1
(Small, aos 82m)
(Koussas, aos 7m)

Classificação:

1- Inglaterra: 4 pontos
2-Austrália: 4 pontos
3-Inglaterra: 3 pontos
4-Camarões: 1 ponto

Quartos-de-final

Uruguai - Roménia: 1-2
(Berruetta, aos 60m)
(Eduard, aos 25m, Fisic, aos 84m)

Brasil - Catar: 2-3
(Ronaldo Marques, aos 27m, aos 78m)
(Al Mohamedi, aos 10m, aos 54m, aos 87m)

RFA - Austrália: 1-0
(Wohlfarth. aos 69m)

Inglaterra - Egito: 4-2
(Webb, aos 41m, aos 64m, aos 82m, Cooke, aos 60m)
(Abouzeid, aos 28m, Saleh, aos 40m)

Meias-finais

Roménia - RFA: 0-1
(Schoen, aos 103m)

Catar - Inglaterra: 2-1
(Beleal, aos 12m, Al Sadah, aos 62m)
(Small, aos 70m)

Jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares

Roménia - Inglaterra: 1-0
(Gabor, aos 36m)

Final

RFA - Catar: 4-0

Data: 18 de outubro de 1981
Árbitro: Arnaldo Coelho (Brasil)
Estádio: Sydney Cricket Ground

RFA: Vollborn, Winklhofer, Schmidkunz, Trieb, Zorc, Anthes, Loose, Schoen, Sievers (Brunner, aos 67m), Wohlfarth, e Brummer (Herbst, aos 84m). Treinador: Dietrich Weiss.

Catar: Ahmed, Al Sowaidi, Malalla, Almas, Beleal, Salem, Al Sadah, Maayouf, Mohamadi (Sowaidi, aos 58m), e Al Mohamedi. Treinador: Evaristo de Macedo-

Golos: 1-0 (Loose, aos 28m), 2-0 (Wohlfarth, aos 42m), 3-0 (Loose, aos 66m), 4-0 (Anthes, aos 86m)

Vídeo: RFA - Catar

sexta-feira, abril 13, 2012

Emblemas históricos (10)... Racing Club de Paris


De distinto membro da nobreza no passado a (quase) ignorado mendigo no presente, uma frase que poderia muito bem caracterizar a linha da vida do histórico emblema que hoje visitamos: o Racing Club de France. Recorda-lo faz-nos viajar até umas das cidades mais deslumbrantes do Mundo, Paris, a bela e sedutora Paris, eterna “mademoiselle” repleta de “glamour” que fez despoletar paixões arrebatadoras a grande parte dos comuns mortais que um dia (nem que fosse por um simples minuto) tiveram a fortuna de contempelar de perto da sua beleza, de sentir o seu inigualável perfume, e de se deixar cair nos seus sensuais braços.
Paris guarda um tesouro de histórias várias, da arte à literatura, passando pela pintura, pela ciência, pela política ou pela História, Paris é uma enciclopédia deliciosa. Foram muitos os artistas que por ela se enamoraram, assim à primeira vista lembramo-nos da Geração Perdida, composta por um leque de (hoje) celebridades literárias que nos anos 20 e 30 do século passado teve em Paris a sua principal fonte de inspiração para criar algumas das mais emblemáticas obras de arte literária do planeta. Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Ezra Pound, T. S. Eliot, ou James Joyce, todos eles se tornaram filhos adotivos desta cidade naquele período dourado. Mas também o futebol viveu tempos inolvidáveis naqueles “loucos” anos 20 e 30.
Foi em Paris que o Mundo ficou a conhecer a “Maravilha Negra” José Leandro Andrade, futebolista uruguaio que em 1924 deslumbrou os parisienses com a magia do seu futebol no Torneio Olímpico que coroou o Uruguai como... campeão do Mundo. Por esta altura Paris era habitada por um nobre do futebol francês, uma figura aristocrata que honraria nestes anos o já de si pomposo nome do seu berço, nobre esse batizado de Racing Club de France.
Nascera em 1882, em berço de ouro, concebido por membros da alta sociedade parisiense que dentro de si traziam a ambição de dar a Paris um clube condizente com a sua grandeza. Mas queriam fazê-lo... no atletismo. É verdade, o atletismo foi a razão do nascimento do Racing, que só em 1886 decidiu abraçar o futebol. E em boa hora o fez pois desde cedo fez parte do pelotão da frente do futebol francês, tendo sido um dos membros fundadores da 1ª Divisão gaulesa. Tal e qual um camaleão o Racing teve várias “peles” ao longo da sua existência, o mesmo será dizer várias designações, mas sempre a mesma ambição de vencer... nem sempre conseguida, como mais à frente veremos.
Precisamente no ano que o “desporto rei” passou a fazer parte do ADN do clube, este fundiu-se com o Stade Français, tendo sido um dos criadores da União de Sociedades Francesas Desportivas e Atléticas (USFDA). Entidade esta da qual saiu a já citada 1ª Divisão francesa, o primeiro campeonato (ainda que não oficial) daquele país. O Racing participou pela primeira vez nesta competição em 1889 e em 1907 obteve a sua primeira coroa de glória, o título de campeão do certame organizado pela USFDA.
Uma curiosidade na história do clube reside no facto de que este sempre viveu em “mansões” de luxo e carregadas de misticismo para o desporto mundial. O primeiro lar do Racing, o estádio Croix-Catelan, recebeu vários eventos desportivos alusivos aos Jogos Olímpicos de 1900, ao passo que a sua segunda casa, esta bem mais ilustre, guarda inúmeras páginas de ouro do futebol mundial, falamos do Stade des Colombes.
Nos anos que se seguiram ao campeonato da USFDA títulos oriundos de torneios de menor dimesão enfeitaram as vitrinas do Racing. Até que eclodia a I Grande Guerra Mundial e o futebol ficava paralizado.
Em 1917 o Racing é um dos integrantes da 1ª edição da Taça de França numa altura em que o profissionalismo começava a ditar leis. Sonhado e criado sob os ideais do amadorismo o clube começava a sentir dificuldades para fazer frente aos ventos do profissionalismo.

A gloriosa década de 30

Em 1932 a Federação Francesa de Futebol leva a cabo o primeiro campeonato profissional, e os amadores do Racing tiveram de repensar a sua existência. Foi então que surgiram com uma nova identidade, quase como um novo clube, distinto do amador Racing Club de France, com o nome de Racing Club de Paris. E seria precisamente com esta identidade que o clube iria viver os melhores anos da sua vida. Construindo um “exército” capaz de lutar de igual para igual contra os melhores o clube parisiense destacou-se nos patamares mais altos do futebol gaulês. Com jogadores lendários como o temível avançado Roger Couard ou o guarda redes da “equipa maravilha” da Áustria treinada por Hugo Meisl, Rudolf Hiden, o Racing atingiu a sua maior glória na época de 1935/36 com a conquista de uma histórica “dobradinha”, isto é, o campeonato e a taça. O único título de campeão nacional foi conquistado com um total de 44 pontos, apenas mais 3 que o vice campeão Lille, enquanto que na final da “Coupe de France” os parisienses batiam o Charleville por uma bola a zero, com um tento do inevitável Couard, num duelo ocorrido na então catedral do futebol francês, o Stade des Colombes, que então era já a casa do próprio Racing.
Até ao final da década mais duas taças francesas seriam guardadas nas vitrinas do clube, a de 1939 na sequência de uma vitória deslumbrante sobre o Lille por 3-1, com golos do argentino José Perez, de Emile Veinante, e do lendário franco-húngaro Jules Mathé, ao passo que na época seguinte a vítima foi o Marselha que na catedral des Colombes foi vergado por um super Racing por 2-1.
Na década seguinte o clube continuou a passear classe pelos campos de futebol da França, sendo que em termos desportivos mais duas taças gaulesas viajariam para Paris pelas mãos do Racing. A primeira delas em 1945, mais uma vez nos Colombes, perante o olhar de 50 000 pessoas, o Lille voltaria a sair da capital humilhado, desta feita por 3-0. Em 1949 foi arrecadada a quinta Taça de França, a última coroa de glória para o emblema parisiense. Depois disto o Racing entrou numa autêntica montanha russa, com mais “baixos” do que “altos”.

Declínio... ascenção... declínio

Quatro anos depois de vencer a sua última Taça de França o Racing batia no fundo com a despromoção à 2ª Divisão. A garra e o orgulho do seu recente passado foram no entanto atributos suficientes para que rapidamente o emblema voltasse ao convívio entre os grandes, e as luzes da ribalta se acendessem novamente perante a sua passagem na década de 60. Em 61/62 estão perto de somar o seu segundo título de campeão nacional, aliás, muito perto, já que este foi perdido para o Stade Reims apenas pela diferença... de golos marcados e sofridos!
Nesta altura a estrela da equipa era o polaco Thadée Cisowski, uma autêntica máquina de fazer golos que nas 8 temporadas em que vestiu a mítica camisola do clube fez 167 golos! Duas épocas mais tarde o Racing de Paris estreia-se oficialmente na Europa, o mesmo é dizer, nas provas da UEFA, uma presença há muito merecida para um emblema que havia já atraído até si... fama internacional pelas suas exibições dentro de portas num passado não muito longínquo. Seria no entanto uma aventura curta, já que na 1ª eliminatória da antiga Taça das Cidades com Feira (antecessora da Taça UEFA) o Racing seria eliminado pelo Rapid de Viena. Seguiu-se mais uma vez o declínio, e a consequente queda à 2ª Divisão. Problemas financeiros estiveram na origem desta nova descida ao inferno. No final da década de 60 o Racing Club de Paris morria, e no seu lugar surgia o Racing France que se viu obrigado a recomeçar do zero, isto é, nos escalões amadores (!), onde permaneceu durante 15 anos consecutivos.

Um desejo milionário pouco durador

Na década de 80 os clubes de futebol começavam cada vez mais a ser alvo apetecível para grandes magnatas ou megas empresas multinacionais. A Matra era por aqueles dias uma milionária empresa ligada à indústria automóvel, liderada pelo magnata Jean-Luc Lagardère, que em 1982 compra o clube com o objetivo de o fazer regressar aos velhos tempos de glória, sonhando fazer dele aquilo o que os seus fundadores haviam idealizado nos finais do século XIX: um clube de renome internacional. Para isso não se poupou a esforços, ou melhor a trocos, contratando uma série de notáveis jogadores que haveriam de recolocar o Racing entre os maiores do futebol francês. Entretanto, mais uma vez o clube era rebatizado, passando a partir daqui a chamar-se de Matra Racing. Nada mais natural. O argelino Rabah Madjer, que havia brilhado com intensidade no Mundial de 82, é a estrela da companhia de Lagardère, que num curto espaço de tempo quer recolocar Paris no mapa do futebol internacional pela mão do seu Matra.
Convém dizer que por esta altura dava os primeiros passos um promissor projeto futebolístico que tinha uma meta muito semelhante à de Lagardère, projeto esse que dava pelo nome de Paris Saint-Germain.
Os esforços do rico empresário francês deram frutos em 1984, altura em que o Matra Racing voltou à 1ª Divisão. A euforia foi grande e Lagardère voltou a abrir os cordões à bolsa nos anos seguintes, contratando estrelas de topo mundial como o alemão Littbarski, os internacionais franceses Pascal Olmeta e Maxime Bossis, o holandês Sonny Siloy, ou o “príncipe” uruguaio Enzo Francescoli. E para comandar uma constelação de estrelas ninguém melhor que o treinador que em 1987 chocou a Europa após ajudar o FC Porto a conquistar diante do poderoso Bayern de Munique a Taça dos Clubes Campeões Europeus, Artur Jorge. Os resultados obtidos foram... medianos, um pouco longe da meta sonhada por Lagardère, já que o meio da tabela era o habitat natural do milionário Matra. Isto levou a que a pouco e pouco o entusiasmo do milionário empresário em volta do clube começasse a arrefecer, e a última grande aparição do emblema foi na final da Taça de França de 1990, perdida para o Montepellier.
Depois disto nova queda à 2ª Divisão e Lagardère desapareceu de vez, deixando o Racing – que com a “fuga” do seu rico proprietário deixará de ser Matra – orfão e de volta aos tempos de penúria. Falido o clube começou a cair a pique pelos escalões secundários do futebol francês nos anos seguintes. Fizeram-se várias tentativas para o recolocar em patamares mais altos, mas em vão. Os campeonatos amadores seriam o cruel destino do emblema parisiense.
Em 2009 é feito um novo acordo, desta feita com a cidade de Levallois, cuja câmara municipal aceita ajudar o clube a combater as inúmeras dificuldades financeiras que vão surgindo pelo caminho. Dá-se então nova mudança de nome no “bilhete de identidade”: Racing Club de France - Levallois 92. E é desta forma que este nobre emblema continua a (sobre)viver... na 2ª Divisão do futebol amador de França. 

Legenda das fotografias:
1-Emblema do RCP
2-A histórica equipa que em 36 conquistou a Taça e o Campeonato de França
3-O lendário guarda redes austriaco Rudolf Hiden
4-Um dos primeiros grupos do milionário Matra Racing onde pontificava a estrela Rabah Madjer
5-O príncipe uruguaio Enzo Francescoli
6-O Matra liderado pelo português Artur Jorge em 1987/88

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Grandes lendas do futebol mundial (4)... Enzo Francescoli - O príncipe herdeiro da garra charrúa

Sabe quem foi o ídolo do francês Zinedine Zidane? O jogador que inspirou este famoso gaulês a tornar-se no grande futebolista que todos o conhecemos? A resposta é... Enzo Francescoli.
Isso mesmo, el príncipe do futebol uruguaio, é o génio que hoje vamos visitar na vitrina das grandes lendas do futebol mundial.
Nasceu em Montevideu, no dia 12 de Novembro de 1961, e foi um dos mais brilhantes futebolistas da década de 80 do século passado. Ele foi o sucessor de outros génios uruguaios, como as lendas das décadas de 20 e 30 José Leandro Andrade (de quem aqui já falámos), Scarone, ou Nasazzi, ou os heróis da década de 50 Varela, Maspoli, Ghiggia e Schiaffino.
Foi uma lenda não só no seu país como também na Argentina, onde jogou grande parte da sua carreira. Este é aliás um facto curioso, ou seja, o povo argentino idolatrar um uruguaio, sabendo nós da rivalidade quase de morte existente entre os dois países.
Embora sempre se tenha declarado como adepto incondicional do Peñarol, revelou-se no modesto Wanderers, o único clube que representou no seu país. Neste emblema da capital uruguaia Enzo disputou 74 jogos e apontou 20 golos entre 1980 e 1882. No ano de 1981 ele ajudou a selecção de júniores do Uruguai a conquistar o campeonato sul-americano da categoria, realizado no Equador, tendo sido eleito o melhor jogador da competição.

O futebol elegante, habilidoso e clássico deste avançado (posição onde actuou em grande parte da sua carreira) chamou à atenção dos grandes clubes sul-americanos, e em 1983 o River Plate, da Argentina, contratou-o por 360 mil dólares, naquele que ainda hoje é considerado como um dos melhores negócios da história do clube de Buenos Aires.
Nesta sua primeira passagem pelo River Francescoli jogou até 1986, tendo vencido o Campeonato Nacional Argentino de 1986. No River Plate atingiu um estatuto e reconhecimento quase sem paralelo, sendo respeitado por todo um país, independentemente das cores clubísticas, muito por força do seu perfil de caballero.
A Europa chamou então por si, e o primeiro emblema a contar com os seus préstimos foi o Matra Racing de Paris, na altura orientado pelo português Artur Jorge, onde jogaria até 1989. Considerado como um dos melhores futebolistas do campeonato francês não foi com estranheza que Enzo se mudaria na temporada de 1989/90 para o gigante Olympique de Marselha, onde na altura pontificavam estrelas como o inglês Chris Waddle, o francês Jean Tigana e as então promessas do futebol gaulês Didier Deschamps e Jean-Pierre Papin. Esteve somente uma temporada no poderoso e popular clube do sul de França, o suficiente para se tronar também ali num ídolo, tendo ajudado a equipa a vencer o campeonato dessa época. Ao serviço do Marselha foi considerado o melhor jogador estrangeiro a actuar em França. Neste país realizou 117 jogos e apontou 43 golos.
Mas o paraíso dos melhores futebolistas do planeta nestas décadas era a Itália. País cujo poderoso campeonato ficou enriquecido com a chegada de Enzo Francescoli, em 1990/91, para defender as cores do Cagliari onde esteve três anos. Mudar-se-ia em seguida para o Torino, em 1993/94, onde não seria feliz. Em Itália disputou 122 jogos e marcou 20 golos, uma prestação menos feliz do que aquela que havia tido em França.
Em 1994 regressaria à Argentina para voltar a defender as cores do seu River Plate, tendo ajudado o clube a vencer o Torneio Abertura de 1994, 1996 e 97, o Torneio Clausura de 1997, e o título mais importante da sua carreira ao nível de clubes a Taça Libertadores da América de 1996 (a primeira da história do River). Venceria ainda em 1997 a Supercopa Libertadores. Com a camisola do River efectuou um total de 197 jogos e apontou 115 golos.
Cada vez que ele entrava em campo, a claque do River Plate cantava: "U-ru-guayo!". Vindo de argentinos, não podia haver maior homenagem. Ao deixar o futebol, no início de 1998 (ano em que recusou uma proposta de 1 milhão de dólares para continuar), Francescoli já estava consagrado como o maior jogador do Uruguai da sua geração.
Quando deixou de jogar o seu rosto foi estampado numa bandeira da claque do River, ao lado de lendas como Di Stefano e Labruna, entre outros. Depois de ter abandonado o futebol, o River deixou de ser temido como antes...


A excepção de uma geração perdida

Apelidado de El Príncipe, Francescoli foi o ídolo do seu país numa época em que o futebol uruguaio estava em nítida decadência. Nesta época a selecção do Uruguai estava muito, mas mesmo muito, longe das poderosas equipas que venceram os Mundiais de 30 e 50. Era uma selecção algo fraca, mas que no entanto alcançou três Copas Américas no espaço de 12 anos! O grande responsável por este feito? Pois claro, Enzo Francescoli. Envergando a mítica camisola 10 azul celeste Enzo carregou a equipa às costas nas grandes competições em que participou. As principais vitórias foram, como já vimos, as conquistas da Copa América de 1983, 1987 e 1995 (cujas fases finais foram realizadas respectivamente no Uruguai, Argentina, e Uruguai). Na de 1987, brilhou na meia-final contra a Argentina, em pleno Monumental de Núñez, em Buenos Aires. Das quatro Copas Américas que disputou perdeu apenas uma, a de 1989, ante o Brasil.
Contudo, não seria feliz nas suas duas únicas participações em fases finais de Campeonatos do Mundo, no fundo o principal sonho de qualquer jogador do planeta. Não teve boas prestações e consequentemente o Uruguai seria eliminado nos oitavos-de-final em ambas as ocasiões, mais precisamente no México 86 e no Itália 90. Marcou um golo em fases finais do Mundiais, mais concretamente em 1986, diante da Dinamarca. Com a camisa do Uruguai disputou 68 jogos e marcou 17 golos.

O ídolo de Zidane
Durante a sua breve passagem por Marselha Francescoli tinha nas bancadas do Estádio Vélodrome ( o recinto deste clube do sul de França) um pequeno adepto marselhês que o idolatrava. Um jovem que se deslocava ao Vélodrome apenas para ver a magia do futebol de Enzo. Esse jovem chamava-se Zinedine Zidene, e anos mais tarde seria ele próprio um génio do futebol mundial. Francescoli foi o ídolo, a inspiração, de Zidane como o francês um dia confessou. Diz a lenda que Zidane, nos idos tempos em que jogava no Marselha, usava uma camisa do River Plate (que havia pertencido a Enzo) por baixo da sua camisola. Quando nasceu o seu primeiro filho, Zidane colocou-lhe o nome de Enzo, em jeito de homenagem ao seu ídolo.

Legenda das fotografias:
1- Enzo Francescoli com a camisola do seu país
2- Actuando pelo seu clube de sempre, o River Plate
3- Oferecendo a camisola do River a Bono aquando da passagem dos U2 por Buenos Aires para um concerto no Estádio Monumental no ano de 2005
4- Erguendo a Copa América de 95, conquistada ao Brasil no Estádio Centenário, em Montevideo
5- A poderosa equipa do Marselha de que Enzo fez parte na época 1989/90