Histórias do Futebol em Portugal (51)...
Prestes a
dar-se início à Era Jorge Jesus no comando da seleção nacional de Portugal, é
oportuno olhar para trás e recordar os antecessores daquele que será o 33.º Mestre da Tática da Equipa de Todos Nós, como um dia foi batizado o combinado nacional
pelo célebre jornalista Ricardo Ornelas. Uns mais conhecidos, outros menos, uns
mais vitoriosos, outros nem por isso, mas todos com a honra comum de terem
conduzido o nome de Portugal pelos relvados desse Mundo fora, fosse em jogos de
caráter particular fosse em grandes competições planetárias. Vamos, pois,
recordá-los, em breves registos biográficos individuais.

FERNANDO
SANTOS (103 JOGOS): Nos mais de 700 jogos que a Equipa das Quinas disputou até
ao dia de hoje, só um treinador se sentou no banco em mais de 100 ocasiões. E
olhando para o prisma do sucesso, essa figura é provavelmente o treinador que
mais contribuiu para o palmarés internacional – no patamar sénior, claro está –
da seleção nacional, a qual conta nas suas vitrinas com um Campeonato da Europa
e duas Ligas das Nações da UEFA. Falamos de Fernando Santos, o homem que em
setembro de 2014 assumiu o cargo mais desejado do futebol português e que seria
responsável nos oito anos seguintes por duas das maiores conquistas do futebol
luso além-fronteiras. Fernando Manuel Fernandes da Costa Santos nasceu em
Lisboa a 10 de outubro de 1954. A sua ligação ao futebol começou com apenas 40
dias de idade (!), quando deitado numa alcofa foi levado pela mãe à inauguração
do Estádio da Luz. Após percorrer alguns clubes de bairro da capital
portuguesa, chegou aos juvenis do Benfica com 17 anos, precisamente numa altura
em que acabara de entrar na universidade para cursar Engenharia Eletrónica e
Telecomunicações. Da boca do bi-campeão europeu (pelo Benfica) Ângelo Martins recebeu
o convite para ficar na Luz com a promessa de receber 1000 escudos por mês.
Fernando, correu a dar a notícia ao pai que de pronto lhe ordenou que fosse mas
é estudar. Lá chegou a um consenso com o seu progenitor, de que se chumbasse um
ano que fosse na universidade deixava o futebol. Não chumbou e não deixaria o
futebol, onde ao longo de 14 anos esteve na primeira linha da defesa do Estoril
Praia, o clube onde desenvolveu a maior parte da sua modesta carreira de futebolista. Na Amoreira, conciliou a atividade de jogador com o cargo de
diretor e chefe de manutenção no Hotel Palácio, precisamente localizado no Estoril. No clube
da Linha fez a transição de atleta para treinador, tendo iniciado uma brilhante
carreira de técnico em 1987. Nos sete anos seguintes levou o Estoril ao topo do
futebol português, isto é, à 1.ª Divisão, onde se manteve até 1994 a praticar
bom futebol com poucos recursos. O Estrela da Amadora viu nele a figura capaz para
cimentar a sua presença no escalão maior de Portugal, e durante quatro
temporadas manteve sem sobressaltos o clube da Reboleira lá em cima e sempre…
em crescendo de qualidade exibicional. Próximo do virar de século o então
presidente do FC Porto, Pinto da Costa, viu nele o homem certo para conduzir o
clube a algo então inédito, a algo que ainda hoje só foi alcançado pelo clube da
Cidade Invicta na história do futebol lusitano: o pentacampeonato. Nas Antas,
Fernando Santos confirmou a sua vocação de ser um especialista na formação de
equipas com aura vencedora. Dessa forma conduziu os portistas à vitória no
campeonato nacional, o quinto consecutivo, o penta, de tal modo que ainda hoje
é conhecido nos meandros futebolísticos como o Engenheiro do Penta, numa alusão
ao histórico e até hoje impar registo e à sua formação profissional. No Porto, onde
se manteve até 2001, venceu ainda duas Taças de Portugal e outras tantas
Supertaças Cândido de Oliveira. Nas três temporadas seguintes andou pela
Grécia, a sua segunda pátria, como um dia haveria de confessar, e por lá venceu
uma taça ao serviço do AEK de Atenas, antes de se transferir para o rival da
capital helénica, o Panathinaikos. Em 2003 regressa a Portugal para orientar
por uma temporada sem grande brilho o Sporting, regressando depois à Grécia a
ao AEK. Em 2006 faz história num novo regresso a Portugal. Aceita o convite do
Benfica, tornando-se assim no primeiro treinador português a orientar os
chamados Três Grandes (Benfica,
Sporting e FC Porto) de Portugal. Porém, e tal como havia acontecido no eterno
rival da Segunda Circular, Fernando Santos não teve sucesso na Luz e retoma à
Grécia para orientar ao longo de três épocas outro gigante daquele país, o Paok.
Mesmo treinando clubes distintos e rivais na nação helénica, Fernando Santos
granjeou uma enorme admiração do povo grego, facto que lhe abria as portas da
seleção da Grécia em 2012, substituindo no cargo o alemão Otto Rehhagel,
responsável pelo maior feito do futebol grego, a conquista do Europeu de 2004.
Aos comandos da seleção, o técnico luso marca presença na fase final do Euro
2012 e do Mundial de 2014, provas em que supera a fase de grupos, sendo que no
caso da segunda competição seria a primeira vez que a Grécia o fazia. Em quatro
ocasiões é rotulado como treinador do ano na Grécia, e em 2010 é-lhe atribuído
o prémio de treinador da década naquele país, cuja seleção comandou em 49
ocasiões. Uma das raras manchas da sua carreira aconteceu no Campeonato do
Mundo de 2014, quando no jogo dos oitavos-de-final diante da Costa Rica recebeu
ordem de expulsão por uma alegada conduta antidesportiva com os árbitros. Face
a isso, foi-lhe imposto pela FIFA um castigo de oito jogos de suspensão. Nem isso
impediu que o então presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Fernando
Gomes, endereçasse ao engenheiro o convite para suceder a Paulo Bento no cargo
de treinador da seleção nacional. Com a ajuda dos dirigentes da federação lusa,
Fernando Santos recorreu Tribunal Arbitral do Desporto para contestar o castigo
que lhe foi imposto pelo organismo máximo do futebol mundial, tendo em 2015
aquela entidade reduzido o castigo para quatro jogos, com dois deles cumpridos
com pena suspensa, pelo que o técnico falhou apenas dois jogos oficiais. A
estreia no banco português aconteceu a 11 de outubro de 2014, num particular
realizado no Stade de France, em Paris, ante a seleção francesa. O encontro
terminou com o triunfo gaulês por 2-1, mas conta-se que Fernando Santos terá de
imediato lançado a profecia de que a seleção nacional ali iria voltar para a
final do Euro 2016 e levar a taça para casa. Dito e feito. Na qualificação para
o Campeonato da Europa, o engenheiro somente cedeu um empate no primeiro jogo
da caminhada, ante a Dinamarca, sendo que posteriormente somou sete vitórias
noutros tantos jogos e carimbou o passaporte para França. Na fase final do
Euro, Portugal esteve longe de encantar, é certo, passando a fase de grupos
como um dos melhores terceiros classificados na sequência de três empates ante
seleções de menor calibre. Católico convicto, Fernando Santos respondeu às
duras críticas de que foi alvo após um dececionante empata a zero bolas com a
Áustria, na 2.ª jornada da fase de grupos, com uma nova profecia: «Vamos chegar
à final e vamos ganhá-la». E assim foi. 10 de julho de 2016 é provavelmente o
dia mais feliz da história do futebol português. Nessa tarde/noite, no mesmo
relvado onde cerca de dois anos antes se havia estreado aos comandos da
seleção, o engenheiro viveu o seu maior momento de glória ao guiar a Equipa das
Quinas ao título continental. Três anos volvidos, Fernando Santos atinge de
novo o Olimpo, após vencer com a seleção lusa a primeira edição da Liga das Nações da UEFA, cuja fase final se realizou em território português. Sob a sua
batuta, Portugal marcou ainda presença no Europeu de 2020 e nos Mundiais de
2018 e 2022, fazendo que deste modo seja hoje em dia o treinador com mais fases
finais de grandes competições internacionais ao serviço de Portugal. Fernando
Santos deixou a seleção após o Mundial do Catar, em 2022, com um total de 103
jogos realizados, contabilizando 63 vitórias, 23 empates e sete derrotas. Se
juntarmos a estes números os 382 jogos enquanto treinador na 1.ª Divisão Nacional portuguesa, 144 jogos no segundo escalão nacional luso, 41 partidas na
Taça de Portugal, sete na Supertaça Cândido de Oliveira, 31 encontros na Liga
dos Campeões, 40 encontros na Taça UEFA, os já referidos 49 jogos ao serviço da
seleção grega e 218 partidas no campeonato nacional grego, facilmente
verificamos que estamos perante um dos maiores Mestres da Tática da história do
futebol português.

LUIZ FELIPE
SCOLARI (74 jogos): Cara de sisudo e de personalidade brava – há quem diga que
demasiado agressiva – o segundo treinador que mais tempo – e por consequência mais jogos realizou –
esteve no comando técnico da seleção lusa veio do outro lado do Atlântico. Luiz
Felipe Scolari, gaúcho de nascimento (1948), chegou a Portugal com um rico
cartão de visita nos inícios de 2003. Era então e tão somente o técnico campeão
do Mundo, feito conquistado cerca de um ano ante no Japão, quando levou o seu
Brasil ao penta campeonato Mundial. Filipão, como era chamado no seu país
natal, vinha com a missão de levar Portugal à glória no Europeu que se iria
realizar precisamente em solo luso no ano de 2004. E quase o conseguiu. A
estreia com as quinas ao peito deu-se em Génova a 12 de fevereiro de 2003 ante
a Itália e saldou-se por uma derrota por 1-0. A primeira vitória aconteceu logo
no segundo encontro e teve um sabor especial para Filipão. Foi no antigo
Estádio das Antas, no Porto, onde sob forte intempérie Portugal derrotava o
Brasil por 2-1, com o tento da vitória a ser apontado pelo estreante
luso-brasileiro Deco. Um facto duplamente curioso: o então campeão do Mundo
Brasil era derrotado por dois conterrâneos seus: Deco e Scolari. Como país
anfitrião do Europeu, Portugal não precisou de fazer a fase de qualificação,
sendo que a estreia a doer para Scolari aconteceu curiosamente no Estádio das
Antas, na abertura do Euro, diante da Grécia, que para surpresa do Mundo
inteiro derrotou os portugueses por 2-1. Portugal corrigiu o mau arranque do
seu Europeu, e passo a passo foi subindo de patamar até atingir a final sonhada
onde viria a defrontar de novo os gregos. Liderada no campo por Figo, com a
ajuda de Deco, Costinha, Maniche, Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho, Pauleta e
um jovem chamado Cristiano Ronaldo que dava os primeiros passos na seleção, a
turma lusa chegava à final com o estatuto de favorita. Não só porque jogava num
Estádio da Luz lotado, diante do seu público, como também vinha apresentando um
bom futebol, mas acima de tudo porque tinha contas as ajustar com os helénicos.
Pois bem, mas a tragédia grega conheceu um segundo ato e Portugal inteiro
chorou uma impensável derrota (0-1) que adiou o sonho de conquistar uma grande
competição internacional no patamar sénior. Scolari
continuou ao leme da seleção, e a meta seguinte era o Mundial de 2006. Portugal
chegou à Alemanha – país onde se realizou o referido Campeonato do Mundo – de
forma imaculada, isto é, sem qualquer derrota na fase de qualificação. Na fase
final da prova, os lusos provaram o porquê de serem então uma das melhores
seleções do planeta, e na última dança de Figo na alta roda internacional os
lusos chegaram às meias-finais, onde perderam para a França, sendo que na luta
pelo pódio foram derrotados pelos anfitriões do torneio, fazendo com que aquela
fosse a segunda melhor presença de Portugal num Mundial, apenas superada pelo
terceiro lugar dos Magriços de Eusébio e companhia em 1966. A despedida de
Scolari da seleção aconteceu em Basileia, na Suíça, curiosamente contra a
Alemanha, que com um triunfo por 3-2 afastava Portugal nos quartos-de-final do
Euro 2008, a terceira fase final consecutiva de Filipão à frente da seleção. No
total, foram 74 jogos, entre 2003 e 2008, sendo que em 42 deles venceu, em 18
empatou, e foi derrotado em 14. Scolari fica ainda na história da seleção pelo
facto de no dia 20 de agosto de 2003 ter lançado num particular realizado em
Chaves um tal de… Cristiano Ronaldo, que então fazia a sua primeira aparição
com a camisola das quinas.

CARLOS
QUEIROZ (49 jogos): Quando em 1984 o ex-magriço José Augusto convidou um jovem
licenciado em Educação Física, com especialização em Futebol, pelo Instituto
Superior de Educação Física (ISEF) de Lisboa de nome Carlos Queiroz para os
quadros do setor de formação da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), estaria,
talvez, longe de imaginar que aquele seria o homem que iria revolucionar, no
bom sentido, o Desporto Rei português. Juntamente com o seu fiel escudeiro Nelo
Vingada, Queiroz foi o autor de um processo de transformação e reformulação do
futebol jovem luso que até hoje continua a dar frutos. A dupla chegou à FPF em
1984 e logo iniciou um trabalho intenso e meticuloso que dali a cinco anos iria
conhecer o primeiro grande momento de euforia: o título mundial de Riade. Queiroz e
Vingada traçaram as linhas mestras que (re)organizaram o departamento de
futebol juvenil da FPF, levando o futebol luso para patamares de excelência
nunca dantes vistos. 1989 é de facto o ano do boom do futebol de formação português. Ao título mundial de sub-20,
alcançado em 89, Portugal junta nesse mesmo ano seguinte o título de campeão da Europa de sub-16, e dois anos depois revalida o cetro Mundial de sub-20 em
casa. Nascia assim a Geração de Ouro, tendo Carlos Queiroz assinado esta obra
de arte, para muitos a melhor de sempre do futebol lusitano. Carlos Manuel Brito
Leal Queiroz nasceu a 1 de março de 1953, em Nampula (na então colónia
portuguesa Moçambique). O jovem Carlos apaixonou-se pelo futebol por influência
do pai, que ouvia religiosamente os relatos de Artur Agostinho na então
Emissora Nacional. Na sua curta incursão no futebol enquanto atleta, Carlos
Queiroz foi guarda-redes do Ferroviário. Com a Revolução do 25 de Abril de
1974, Carlos Queiroz e a sua família, como tantas outras famílias portuguesas
que viviam nas então colónias portuguesas, viram-se forçados a regressar a
Portugal. Em Lisboa, acaba tempos mais tarde por ingressar no ISEF, concluindo ali
o curso de Educação Física, com especialização em futebol. Começa então a fazer
preleções em formações ligadas ao treino e às Ciências do Desporto. José
Augusto era um dos seus pares nesses cursos de treinadores que eram ministrados
e por influência do ex-magriço acaba por ingressar na FPF para assumir as
seleções jovens, declinando o convite para continuar no Estoril, onde havia
sido adjunto de Mário Wilson. O estupendo trabalho realizado na formação levou
Carlos Queiroz a assumir a seleção principal em 1991, mas esta primeira
passagem não teve os resultados esperados e o técnico saiu de forma controversa
da FPF. Com um vasto leque de talentos – por si lapidados – ao dispor na equipa
principal, Queiroz falhou no objetivo de levar Portugal à fase final de
uma grande competição internacional. O verniz estalou no derradeiro jogo de
qualificação para o Mundial de 1994, em que Portugal tinha de vencer a Itália,
em Milão, para garantir a viagem até aos Estados Unidos da América. Com uma
seleção muito jovem e verde no patamar sénior, os portugueses caíram aos pés de
uma Squadra Azzurra muito mais experiente, onde pontificavam nomes como
Maldini, Baresi, Costacurta, Mancini, ou Roberto Baggio. A derrota por 1-0
significou o adeus ao Mundial e no final Queiroz explodiu ao proferir a célebre
declaração: «É preciso varrer a porcaria que há na federação portuguesa. Há
muita coisa para mudar». A polémica frase valeu-lhe um processo disciplinar e a
saída da FPF. Aproveitou o Sporting, que de imediato o foi contratar para
substituir Bobby Robson, mas em Alvalade, durante três anos, Queiroz só venceu uma
Taça de Portugal e ainda hoje é recordado por ter perdido em casa um campeonato
nacional ante o velho rival Benfica na sequência de uma estrondosa derrota por
3-6. Nos 10 anos que se seguiram à saída do Sporting, Queiroz foi um verdadeiro
globetrotter. Treinou em várias partes do globo: África do Sul, Estados Unidos
da América, Espanha, Japão, Emirados Árabes Unidos e Inglaterra. Neste último
país teria, talvez, o maior desafio da sua carreira: ser o adjunto principal de
Alex Ferguson, no Manchester United. O prestígio e conhecimentos acumulados em
Manchester fariam que após a saída de Scolari da seleção, em 2008, a FPF desse
a Queiroz uma nova oportunidade na seleção principal lusa. O objetivo era levar
Portugal o mais longe possível no Mundial de 2010. A qualificação para a prova
realizada na África do Sul não foi fácil. Só através de play-off os lusos lá
chegaram. A fasquia estava alta, até porque a seleção nacional vinha de um 4.º
lugar no Campeonato do Mundo anterior. O que é certo é que na África do Sul os
lusos desiludiram, sobretudo no embate contra a Espanha, nos oitavos-de-final,
em que apresentaram uma postura extremamente defensiva, a qual acabou por ditar
a eliminação e a rutura com a estrela-mor desta, Cristiano Ronaldo, que no final
do encontro criticou as escolhas do selecionador. Ainda assim, sob o comando de
Queiroz, Portugal bateu neste Mundial a Coreia do Norte por 7-0, na fase de
grupos, sendo este até à data o resultado mais expressivo obtido pelos lusos
numa fase final. Carlos Queiroz deixaria a seleção com um total de 49 jogos
realizados, traduzidos em 25 vitórias, 16 empates e oito derrotas. Após esta
segunda passagem pelo comando técnico da Equipa das Quinas, voltaria a
aventurar-se no estrangeiro. Orientou as seleções do Irão, do Egito, do Catar, da
Colômbia, de Omã e do Gana. É hoje o treinador português com mais presenças em
fases finais de Campeonatos do Mundo, palco onde esteve em cinco ocasiões. Uma
vez com Portugal (2010), três ocasiões com o Irão (2014, 2018 e 2022) e uma com o Gana (2026).

ROBERTO
MARTINEZ (45 jogos): Já diz o provérbio popular que “De Espanha nem bom vento,
nem bom casamento”, o qual bem se podia aplicar ao único técnico espanhol que
até hoje orientou a seleção nacional: Roberto Martinez. Nascido em Balaguer a
13 de julho de 1973, Martinez não foi um jogador de futebol de topo, muito
longe disso, pautando a sua carreira como médio em clubes de escalões
secundários em Espanha, Inglaterra, País de Gales e Escócia. Como treinador, a
história seria um pouco diferente, sobretudo a partir do momento em que em 2013
leva o Wigan Athletic à histórica conquista da Taça de Inglaterra. Dali em
diante foi sempre a subir degraus, passando depois pelo Everton e pela seleção
nacional da Bélgica. Teve nas mãos aquela que muitos definem como a melhor
geração belga de todos os tempos, mas ainda assim não fez melhor do que um
terceiro lugar no Mundial de 2018. Aos 49 anos, Martinez assumia a seleção portuguesa.
Estávamos na ressaca do Mundial de 2022, o qual havia colocado um ponto final
na Era Fernando Santos. O espanhol foi o terceiro estrangeiro a conduzir os
destinos da Equipa das Quinas, depois dos brasileiros Otto Glória e Luiz Felipe
Scolari. Martinez cumpriu os objetivos mínimos que lhe foram pedidos enquanto
selecionador nacional, isto é, a qualificação para as fases finais de Europeus
e Mundiais. Porém, a performance do combinado luso nessas grandes competições
esteve muito longe de convencer, como foi o caso do Europeu de 2024, onde
Portugal caiu aos pés da França nos quartos-de-final, mas com um futebol pobre,
com vitórias modestas e onde a luta de egos dentro do grupo sobressaiu pela
negativa. Apesar desta participação muito aquém das expectativas, Martinez
continuou ao leme da seleção e no ano de 2025 venceu o segundo título da Liga
das Nações para Portugal. Um mal menor numa caminhada que terminaria em 2026,
num Mundial em que Portugal se autointitulava candidato à vitória final, mas o
que se viu foi mais uma prestação que ficou muito longe do esperado, com
exibições a roçar a mediocridade e onde os egos mais uma vez falaram mais alto
que o grupo. Martinez saiu pela porta pequena e nem o título da Liga das Nações
parece prever que vá deixar saudades no futuro. Mesmo assim fica na história
como o treinador com melhor percentagem de vitórias na seleção: cerca de 69%.
No total, o espanhol fez 45 jogos, contabilizando 30 vitórias, nove empates e
seis derrotas.

ANTÓNIO
OLIVEIRA (44 jogos): Como jogador foi no mínimo um virtuoso com a bola nos pés.
Encantou plateias nos anos 70 e 80 com os seus dribles mágicos, passes precisos
e golos de levantar estádios que fizeram dele um dos mais brilhantes
futebolistas lusos de todos os tempos. Como treinador, os seus créditos de
génio também são evocados em vários capítulos importantes do Desporto Rei luso,
inclusive ao serviço da seleção nacional. O seu nome é António Oliveira, um artista
dos relvados que nasceu em Penafiel a 10 de junho de 1952, tendo com apenas 17
anos sido chamado à equipa principal do seu clube do coração, o FC Porto. A
camisola com o número 10 estampado nas costas, o dorsal atribuído aos craques,
assentou-lhe que nem uma luva e a meio da década de 70, com a chegada de José
Maria Pedroto ao leme do clube da Cidade Invicta, Oliveira arranca para a
consagração definitiva. Na condição de médio ofensivo criativo, ele foi a peça
fundamental para o fim de jejum (de 19 anos) de títulos de campeão nacional que
os portistas viveram em 1977/78. Os grandes do futebol europeu cobiçaram-no,
como foi o caso dos dois colossos de Madrid – Real e Atlético – mas seria mais
a sul do país vizinho que Oliveira iria assentar arraiais no final da década de
80. Em Sevilha foi recebido em apoteose pelos adeptos do Bétis, o que clube que
passou a representar em 79/80. As coisas não correram bem na Andaluzia, e pouco
depois regressa literalmente a casa, isto é, à sua terra natal onde defendeu as
cores do clube local como jogador e… treinador, alcançando resultados sensacionais
para um clube daquela (pequena) dimensão. Oliveira continuava no auge da
carreira, e em 81/82 assina pelo Sporting, onde nessa mesma época forma um dos
tridentes ofensivos mais mortíferos e inolvidáveis do futebol em Portugal.
Juntamente com Manuel Fernandes e Rui Jordão ajuda os leões a vencer tudo o que
havia para ganhar nessa temporada em Portugal. No Sporting volta a ser chamado
para a função de jogador–treinador na época seguinte, cenário que se iria
repetir na Madeira, onde Oliveira colocou o ponto final da carreira de
futebolista ao serviço do Marítimo. Abraçou posteriormente a carreira de
técnico a full time, passando por
clubes como a Académica, o Vitória de Guimarães, o Gil Vicente e Sporting de
Braga, deixando a sua marca de excelência nos ensinamentos do futebol. Após a
falhada qualificação para o Mundial de 94, a Federação Portuguesa de Futebol
convida António Oliveira para o cargo de selecionador nacional com a missão de
levar Portugal ao Europeu de 1996. Missão essa que seria cumprida com
brilhantismo. Recorrendo à Geração de Ouro do futebol luso (utilizando
jogadores como Figo, Rui Costa, Paulo Sousa, Fernando Couto, João Vieira Pinto,
ou Vítor Baía), que havia nascido pela mão de Carlos Queiroz no final da década
de 80, Oliveira colocou Portugal numa fase final 10 anos após o México 86, e o
que é certo é que no Euro inglês os lusos praticaram algum do melhor futebol
ali visto e que só seria parado pela República Checa nos quartos-de-final da
prova. Após esse Campeonato da Europa, Oliveira sai da seleção, com 22 jogos
realizados e com um saldo positivo de 13 vitórias, seis empates e apenas três
derrotas. Posto isto, o técnico não resiste ao apelo do coração e assume o
comando técnico do FC Porto nas duas épocas seguintes, onde alcança um objetivo
que há muitos anos o clube perseguia: vencer três campeonatos nacionais
consecutivos. Não só venceu o tri como também conquistaria o tetra, lançando
assim a semente para que Fernando Santos em 98/99 guiasse os portistas ao único
penta conquistado por um clube em Portugal. Após uma brilhante prestação do
Euro 2000 pela mão de Humberto Coelho, a seleção nacional volta a chamar
António Oliveira para tentar coroar a Geração de Ouro com um título de dimensão
internacional no patamar sénior. O Campeonato do Mundo de 2002 era esse sonho e
matéria prima para o alcançar não faltava, desde logo Portugal tinha aquele que
era por aqueles dias considerado o melhor jogador do Mundo, Luís Figo, que se
fazia acompanhar por (hoje) lendas como João Vieira Pinto, Pauleta, Vítor Baía,
Jorge Costa, Fernando Couto, Rui Costa, ou Sérgio Conceição. Um grupo orientado
por Oliveira e que não perdeu qualquer jogo na fase de qualificação para o
Mundial do Oriente. Na antecâmara do certame, Portugal era apontado como um dos
candidatos a chegar ao trono do futebol, mas as coisas acabaram por sair… ao
contrário. Desde o estágio (em Macau) até à performance em campo tudo correu
mal aos portugueses, que saíram de cena de forma prematura na fase de grupos do
campeonato. Além disso, ainda houve o triste episódio do murro de João Vieira
Pinto ao árbitro argentino Sanchez no jogo ante os coreanos. No regresso a
Portugal não faltaram críticas à delegação nacional, em especial a António
Oliveira, que após este fiasco sai da seleção pela porta pequena. No total, nas
duas passagens pelo comando técnico de Portugal, Oliveira fez 44 jogos, somando
26 vitórias, 10 empates e oito derrotas.

PAULO
BENTO (44 jogos): A par de Fernando Santos, Luiz Felipe Scolari e Roberto
Martinez, ele é um dos treinadores que teve o privilégio de treinar a seleção
portuguesa em mais do que uma fase final de uma grande prova internacional. Paulo
Bento é o seu nome. Lisboeta de nascimento (1969) ele começaria por dar nas
vistas como um médio centro de cariz defensivo pautado por um estilo certinho,
de jogador que sem fazer grandes exibições joga pelo certo e raramente
compromete. Características que terão agradado a João Alves, o famoso “Luvas
Pretas”, que no final da década de 80 o leva para o primo divisionário Estrela
da Amadora, onde Paulo Bento pegou de estaca e foi um dos esteios responsáveis pela maior conquista do emblema tricolor: a Taça de Portugal. Após
duas temporadas na Reboleira salta para o norte, mais precisamente para
Guimarães, onde continua em bom plano ao serviço do Vitória local, de tal modo
que o Benfica o contrata a meio da década de 90. O clube da Luz vivia uma crise
de resultados desportivos, de tal modo que nas duas temporadas em que vestiu a
camisola encarnada, Paulo Bento só conquistou uma Taça de Portugal. Saiu depois
para o estrangeiro, mais precisamente para o Real Oviedo, onde se afirmou como
um dos esteios da equipa naquele que era então o campeonato mais competitivo e
mediático da Europa, a Liga Espanhola. Após um brilhante Euro 2000 ao serviço
da seleção regressa a Portugal pela porta do Sporting, onde em quatro
temporadas vence o campeonato nacional, Taça de Portugal e Supertaça Cândido de
Oliveira. Penduradas as chuteiras seria precisamente em Alvalade que Paulo
Bento dá início à sua carreira de treinador, e logo no primeiro ano sentado no
banco vence o campeonato nacional de juniores, título que revalida na época
seguinte. Homem de forte personalidade, Paulo Bento foi a aposta do presidente
de então do Sporting, Soares Franco, para pôr cobro à crise de maus resultados
que o clube vinha tendo no patamar sénior. Rapidamente, Bento impôs a sua
filosofia, assente numa forte disciplina tática em que a equipa foi construída
de trás para a frente. Tal como era em campo, Paulo Bento revelou-se um líder
forte no banco e isso refletiu-se não só na maneira como o Sporting passou a
encarar todos os seus jogos, mas sobretudo na conquista de títulos, sendo que
nas cinco temporadas em que orientou o emblema leonino venceu duas Taças de
Portugal e outras tantas Supertaças Cândido de Oliveira. Teve o condão de ser o
primeiro técnico a qualificar o Sporting para a Liga dos Campeões em três
épocas consecutivas. Faltava, contudo, o título de campeão nacional, e terá
sido esse o motivo do divórcio com o clube de Alvalade em 2010, numa altura em
que os adeptos do clube começavam a perder a paciência com o técnico que mais
uma época voltava a falhar o assalto ao título de campeão nacional. Paulo Bento
saiu do Sporting em direção à seleção nacional, não tendo sido, porém, a
primeira escolha para o cargo por parte do então presidente da federação,
Gilberto Madaíl. A intenção era que José Mourinho assumisse o cargo de
selecionador, acumulando funções com a de técnico do Real Madrid, mas o
presidente do clube espanhol não terá autorizado a cedência de Mou à equipa
nacional e Paulo Bento foi a solução. Assinou contrato com a Federação
Portuguesa de Futebol (FPF) em setembro de 2010 com a missão de levar Portugal
ao Euro 2012. Objetivo cumprido apenas através de um play-off intenso com a
Bósnia Herzegovina. Na fase final do Europeu, realizado em conjunto pela
Ucrânia e pela Polónia, Portugal chegou até às meias-finais, sendo apenas
derrotado nas grandes penalidades pela melhor seleção do Mundo da altura, a
Espanha. O bom desempenho no Euro levou a FPF a dar um voto de confiança a
Paulo Bento com o objetivo de garantir a presença no Mundial de 2014. E mais
uma vez com recurso a um play-off, desta feita com a Suécia, o técnico levou os
lusos ao Brasil para ali… levar um banho de água gelada. A popularidade de
Bento à frente da seleção decaia de jogo para jogo e o facto de não ter passado
sequer a fase de grupos do Mundial do Brasil, fruto de exibições que ficaram
muito aquém do esperado, levaram a um divórcio anunciado. A consumação dessa
separação deu-se após uma derrota humilhante no reduto da modesta Albânia no
primeiro jogo da fase de apuramento para o Euro 2016. A Era de
Paulo Bento na seleção teve 24 vitórias, 11 empates e nove derrotas. Paulo
Bento ainda estaria presente noutro Campeonato do Mundo na condição de
selecionador, facto ocorrido em 2022, quando no Catar orientou a Coreia do Sul.

JUCA (40
jogos): Júlio Cernadas Pereira, imortalizado no futebol como Juca foi um
futebolista de renome nos anos 50. Nasceu em Moçambique, então colónia
portuguesa a 13 de janeiro de 1929, na cidade de Lourenço Marques (atual
Maputo), onde se destacou no Sporting local como um médio elegante, portador de
exímia visão de jogo e uma técnica refinada. Características que levaram o Sporting
Clube de Portugal a chamá-lo para a Metrópole. Fez a viagem de barco na
companhia de outro vulto do futebol luso nascido em África, Mário Wilson, tendo
ambos chegado a Lisboa no dia 10 de setembro de 1949. No Sporting, Juca
desenvolveu toda a sua carreira de futebolista. Foram 11 épocas de leão ao
peito, tendo contribuído para a conquista de cinco campeonatos nacionais e uma
Taça de Portugal. Como curiosidade, Juca esteve no pontapé de saída das
competições europeias de clubes. Facto ocorrido em 1955, no Estádio Nacional,
onde o Sporting mediu forças com o Partizan naquele que foi o primeiro jogo das
provas da UEFA. Após um brilhante percurso como jogador, Juca atingiu a
notoriedade como treinador. Iniciou a sua caminhada nos bancos nos juniores do seu
clube de sempre, o Sporting, fazendo saltar para a ribalta nomes como Vítor
Damas, Barão ou Barnabé. Saltou posteriormente para os seniores, onde começou
como adjunto de Mário Imbelloni, até que em 61/62 assume as lides da equipa
principal, onde venceria os campeonatos nacionais dessa mesma temporada e de
65/66. Pelo meio ganhou ainda a Taça de Portugal de 62/63, que abriria caminho
à única conquista europeia do Sporting até hoje, a Taça das Taças, em 1964.
Após sair de Alvalade, Juca comandou com brilho o Vitória de Guimarães, a
Académica de Coimbra – que conduziu numa épica campanha da Taça das Taças em
1969/70, onde alcançou os quartos-de-final –, o Barreirense – onde descobriu e
promoveu um tal de Fernando Chalana –, o Belenenses e o Sporting de Braga. Tudo
isto nos anos 70 e 80. Foi precisamente nestas décadas que Juca chega à seleção
nacional, ainda que inicialmente de forma intermitente e em dupla função. Isto
é, a acumular as funções de selecionador com as de treinador de clubes. A
estreia na equipa principal lusa acontece em dezembro de 1976, num particular
com a Itália, em Lisboa, que terminou com o triunfo português por 2-1. Comandou
a seleção em mais cinco encontros até 1978, até ser substituído no cargo pelo
seu companheiro de viagem – de Moçambique para Portugal – Mário Wilson. Lançou
para a ribalta com a camisola das quinas, nomes como Manuel Fernandes, ou
Chalana. Após a saída de Wilson em março de 80, Juca reassume a seleção até
1982, falhando a qualificação para o Mundial de 82. A terceira e última
passagem do técnico pelo banco da seleção aconteceu após um polémico e
desolador Mundial de 86, em que Portugal saiu pela “porta pequena”. Juca
reassumiu a seleção em Estocolmo, em 1987, num jogo de apuramento para o
Europeu de 1988, competição onde os lusos não iriam marcar presença fruto de um
empate (0-0) caseiro comprometedor com a Suíça e uma derrota clara (3-0) em
Milão frente à Itália. Juca ainda liderou os portugueses em mais um apuramento
falhado para uma fase final, neste caso a do Mundial de 90, tendo realizado o
seu último jogo no banco luso em Lisboa a 15 de novembro de 1989, ante a
Checoslováquia. Juca
orientou a seleção portuguesa em 40 partidas, tendo vencido 17, empatado nove e
perdido 14. Faleceu a 11 de outubro de 2007.

JOSÉ
MARIA ANTUNES (31 jogos): Hoje em dia é impensável alguém treinar –
profissionalmente – um clube ou uma seleção nacional de borla! Nada que no
passado não fosse comum. José Maria Antunes é um desses exemplos, em que a
paixão a uma causa, neste caso à seleção portuguesa, falou mais alto que o
dinheiro. Figura notável da Académica de Coimbra, José Maria Antunes nasceu em
1913 e foi um dos muitos exemplos de jogadores-doutores que brilharam com a
camisola da Briosa. Formou-se em Medicina, na área da pneumologia, numa altura
(1942) em que já havia deixado a sua marca de futebolista na história da
Académica, emblema cujas cores defendeu ao longo de nove anos, na condição de
robusto defesa direito. E fica ligado à história do emblema dos estudantes
porque em 1939 ele foi um dos jogadores que integrou a equipa academista que
venceu a primeira edição da Taça de Portugal. Treinaria ainda a sua Briosa em
1947, cerca de 10 anos antes de assumir o comando da seleção nacional. Fê-lo em
três períodos distintos, entre 1957 e 1969. Sempre de forma gratuita. No seu
percurso de selecionador destaca-se, por exemplo, o facto de ter conduzido
Portugal na fase de apuramento para o primeiro Campeonato da Europa da
história, ou de nomes icónicos do futebol luso como Coluna, José Torres,
Simões, ou José Augusto, terem-se estreado a marcar com a camisola das Quinas
sob as suas ordens. Orientou Portugal em 31 ocasiões, tendo somado nove
vitórias, quatro empates e 18 derrotas. José Maria Antunes foi o primeiro homem
a desempenhar o cargo de treinador num clube em simultâneo com o de
selecionador nacional. Tinha um amor profundo ao desporto de uma forma geral,
sendo que também se interessava por rugby, modalidade cuja federação portuguesa
o homenageou poucas horas antes de morrer a 23 de março de 1991, na cidade dos
seus amores, Coimbra.

CÂNDIDO
DE OLIVEIRA (30 JOGOS): Cândido de Oliveira não jogou apenas futebol, ele
desenhou a identidade do desporto em Portugal com a precisão de um mestre e a
paixão de um pioneiro. Sobre o Mestre Cândido já muito aqui escrevemos no Museu
Virtual do Futebol, referindo-nos por diversas vezes a ele como o “Homem dos 7
Ofícios”, ou como uma figura que viveu sempre à frente do seu tempo. Cândido
Fernandes Plácido de Oliveira (nasceu a 24 de setembro de 1896), é uma das
figuras mais marcantes da história do futebol em Portugal. Mestre Cândido foi o
primeiro grande estudioso do futebol em Portugal, responsável maior pelo
aparecimento da seleção nacional, trabalhador incansável no sentido de que o
futebol português se colocasse ao nível do que acontecia nos outros países da
Europa, sobretudo nas suas vertentes organizativas. Mas
Cândido de Oliveira foi mais ainda: grande figura humana, democrata convicto
que tomou desassombradas posições públicas contra os regimes de Hitler, de
Mussolini, de Franco e Salazar. A sua coragem intelectual só teve paralelo na
sua coragem física. Foi sujeito a um sem-número de prisões levadas a cabo pela
então PIDE; brutalmente torturado e espancado a ponto de lhe terem partido
todos os dentes; em 1942 é enviado para o campo de concentração do Tarrafal.
Sobre ele escreveu um livro chamado «Tarrafal – o pântano da morte», publicado
a título póstumo, após o 25 de Abril de 1974. Depois de ter sido demitido dos
correios telégrafos e telefones (CTT), onde trabalhara longos anos e atingira a
elevada função de inspetor de exploração, funda com Ribeiro dos Reis e Vicente
de Melo o jornal «A Bola». Nascido
em Fronteira, distrito de Portalegre, Cândido de Oliveira entrou para a Casa
Pia em 1905 e cedo mostrou capacidades inatas para a prática do futebol,
capacidades essas que o levaram ao Benfica a partir da época de 1914/15. Aí se
manteve até 1920, tendo saído para fundar o Casa Pia Atlético Clube. Apesar de
se ter destacado também como avançado, Cândido de Oliveira foi um excelente
médio centro, com uma capacidade de comando e de passe que fez dele um dos
grandes jogadores portugueses das primeiras duas décadas do século XX. Seria ele
o primeiro «capitão» da seleção nacional, no célebre jogo de Madrid, em 1921. Por
várias vezes ocupou o cargo de selecionador nacional – foi ele o responsável
pelo cargo no primeiro grande êxito da seleção nacional, os Jogos Olímpicos de Amesterdão, em 1928 -, tendo-se tornado num técnico sempre disponível para as
necessidades da «equipa de todos nós». Foi jornalista na «Stadium», diretor de
«Os Sports», «Diário de Notícias», «Diário de Lisboa» e «O Século» antes de
fundar o jornal «A Bola». Treinador do Sporting dos «Cinco Violinos», da
Académica, do Belenenses, do FC Porto e do Atlético, chegou também a orientar o
Flamengo, do Brasil, em 1950-51. Foi autor de vários livros sobre desporto e
tática no futebol, sofreu uma pneumonia enquanto cobria, como enviado-especial
de «A Bola», o Campeonato do Mundo de 1958, realizado na Suécia. Como
consequência, viria a falecer no dia 23 de junho desse ano. Enquanto
seleção, Cândido realizou 30 jogos entre 1926 e 1942, em três períodos distintos,
tendo somado oito triunfos, oito empates e 14 derrotas.

TAVARES
DA SILVA (30 jogos): Na história centenária da seleção nacional estão plasmados
alguns exemplos de vultos do jornalismo desportivo com queda para o treino,
isto é, com apetência para serem treinadores. Um dos casos mais sonantes é o
Tavares da Silva, um homem que nasceu em Estarreja, em 1903, e que na hora de
escolher um futuro profissional optou pelo Direito. Advogado de créditos
firmados seria então, abrindo um escritório na Rua Nova do Almada, em Lisboa, mas...
dentro de si algo mais forte se pronunciava em detrimento do Direito: o
futebol. Uma paixão avassaladora a quem deu sempre o que tinha e o que não
tinha de si. Foi jogador, treinador, árbitro, dirigente e “artista das letras”,
vulgo, jornalista. Um dos maiores legados de Tavares da Silva ao futebol terá
sido possivelmente a designação que “rotulou” uma das linhas avançadas mais
famosas de todos os tempos do futebol planetário. Uma linha que atuava no
Sporting Clube de Portugal e que era composta pelos magos Peyroteo, Travassos,
Jesus Correia, Albano, e Vasques, e que ficou mundialmente conhecida como os
“Cinco Violinos”. O autor desta designação? Tavares da Silva. Mas não
seria só desta forma que este homem do futebol ficaria ligado eternamente ao
clube lisboeta, pois na temporada de 1953/54 ele seria o treinador que
conduziria os “eões à célebre conquista do “treta-campeonato” (quatro
campeonatos nacionais consecutivos). Ainda como técnico passou pelos bancos do
Belenenses, Sporting da Covilhã, Lusitano de Évora, Académica, e da própria
Seleção Nacional, na qual o seu nome ficou igualmente gravado a letras de ouro
já que seria sob a sua batuta que Portugal venceria pela primeira vez na
história (corria o ano de 1947) a vizinha e rival Espanha. Seria ainda o
obreiro do triunfo inaugural da nossa seleção no estrangeiro, mais
concretamente na Irlanda (também em 1947). Treinou a seleção em quatro períodos
distintos da história. O primeiro em abril e maio de 1941, em que fez apenas
dois jogos; o segundo entre maio de 1945 e maio de 1947, em que realizou nove
encontros; o terceiro entre abril e junho de 1951; e a quarto e última – e que
seria a mais duradoura – entre maio de 1955 e junho de 1957. Curiosamente, só
nesta sua última incursão pela seleção é que teve jogos a “doer”, isto é, jogos
de qualificação para uma grande competição internacional, no seu caso para o
Mundial de 1958, já que nas outras três passagens só fez jogos particulares. No
total, Tavares da Silva orientou a seleção em 30 ocasiões, tendo vencido 10
jogos, empatado quatro e perdido 16. Viria a falecer precisamente em 1958 uma
altura em que era redator principal do “Norte Desportivo” e chefe da secção de
desporto do “Diário de Notícias”.

HUMBERTO
COELHO (24 jogos): A não qualificação para o Mundial de 98 fez com que a
Federação Portuguesa de Futebol (FPF) decidisse colocar um ponto final da Era de
Artur Jorge e dar o comando técnico da seleção a um homem que nasceu no norte
mas que se fez rei no sul. Humberto Coelho, lendário futebolista dos anos 70,
que nessa década chegou a ser considerado como o melhor defesa central do
futebol europeu. Nasceu no Porto, em 20 de maio de 1950 e começou a dar nas
vistas ao serviço do modesto Ramaldense, clube mais habituado a brilhar no
hóquei em campo do que no futebol. Ainda com idade de júnior muda-se para
Lisboa, mais concretamente para o Benfica, clube que ganhou a corrida ao seu
concurso. Na Luz acaba a sua formação, até que no final da década de 60
conquista um lugar no centro da defesa da equipa principal benfiquista, onde se
iria manter de pedra e cal até meados dos anos 70. Humberto Coelho era um
defesa elegante e inteligente, ao ponto de o capítulo ofensivo daquele Benfica
começar a ser escrito pelos seus pés desde o centro do setor recuado. Era,
pois, um defesa de fino recorte técnico, e prova disso é que gostava de sair a
jogar com a bola controlada ao invés de a pontapear para a frente. A Europa
começou a cobiçar Humberto, que em 1976 decide aventurar-se no estrangeiro. Foi
para França, para defender as cores do então recém-criado Paris Saint-Germain,
clube onde brilharia por duas temporadas. Após uma curta passagem pelo futebol
norte-americano regressa ao Benfica, onde se mantém até final da sua carreira,
em 1986, quando já era um dos mais afamados capitães de equipa da história do
emblema lisboeta. O seu percurso de treinador começa a norte, no Salgueiros,
passando depois pelo Braga. Após uma década de interregno em que não esteve ao
serviço de qualquer clube, eis que em 1998 a FPF o chama para selecionador com
o objetivo de qualificar Portugal para o Europeu de 2000. Competição esta em
que Portugal não só marcou presença como de igual forma brilhou pelo futebol
vistoso que apresentou nos relvados dos Países Baixos e da Bélgica, países onde
decorreu o Euro. Seleções poderosas como a Inglaterra e a Alemanha foram
humilhadas pelos lusos, que só viriam a cair nas meias-finais diante da França,
na sequência de um penalti polémico a castigar uma alegada mão de Abel Xavier
dentro de área. Há quem ainda hoje defenda que a par da seleção de 1966, o
conjunto nacional que esteve no Euro 2000 foi o melhor que Portugal alguma vez
apresentou numa fase final de uma grande competição. Essa seleção era integrada
maioritariamente por jogadores saídos da Geração de Ouro germinada nos anos 80,
e que atingiu a maturidade precisamente na segunda metade dos anos 90 e na
virada para o novo milénio. Em 24 partidas enquanto técnico da seleção,
Humberto Coelho venceu 16 jogos, empatou quatro e perdeu outros quatro. Depois
de deixar Portugal assumiu o cargo de selecionador de outras equipas nacionais
nos anos que se seguiram, como foi o caso de Marrocos, Coreia do Sul e Tunísia.
Na segunda década do novo milénio regressa à FPF na qualidade de dirigente, no
exercício das funções de vice-presidente da direção, cargo que desempenhou ao
longo de 14 anos. Humberto Coelho tem ainda a particularidade de ser um dos
nomes que representou a seleção nacional quer como jogador, quer como treinador,
sendo nesta condição de futebolistas que mais tarde seriam selecionadores
aquele que mais vezes vestiu a camisola das quinas: 64 ocasiões.

ARTUR
JORGE (20 jogos): Artur Jorge foi provavelmente o treinador português mais
mediático a nível internacional nos dos finais dos anos 80 e primeira metade
dos anos 90 do século passado. Foi o primeiro técnico luso a vencer a Taça dos
Campeões Europeus, em 1987, ao serviço do FC Porto, facto que lhe valeu a
abertura das portas do futebol internacional. Nascido no Porto, em 1946, Artur
Jorge construiu um currículo invejável no futebol, primeiro como jogador e mais
tarde como treinador. Como futebolista, foi um dos maiores e mais eficazes
avançados do futebol português - foi Bola de Prata (melhor marcador do
campeonato português) em duas épocas consecutivas: 1970/71 e 1971/72 –,
brilhando intensamente tanto na Académica como no Benfica. Em Coimbra
notabilizou-se como jogador-estudante, tendo ali concluído o curso de Filologia
Germânica. O início da carreira de treinador não começou da melhor maneira ao
serviço do Belenenses, mas depois de procurar um dos seus mestres no futebol,
José Maria Pedroto, Artur Jorge partiu em direção a uma carreira recheada de
êxitos. Foi adjunto de Pedroto no Vitória de Guimarães, e foi Pedroto que já no
leito da morte e numa altura em que era técnico do FC Porto, que indicou – ao presidente
portista de então, Pinto da Costa – Artur Jorge para seu sucessor no banco dos
portistas. O FC Porto continuou em boas mãos e o resto é a história que se
conhece. Com o sucesso conquistado na Cidade Invicta, Artur Jorge partiu para França,
onde iria orientar o Matra Racing, mas sem sucesso. Regressou ao FC Porto, onde
se reencontrou com os êxitos no início dos anos 90. E é nesta altura que
acumula a função de técnico dos azuis e brancos com a de selecionador nacional.
Nesta primeira passagem pelo banco nacional faz oito jogos, dando de seguida o
lugar a Carlos Queiroz. Regressa posteriormente à Cidade Luz, desta feita para
orientar o Paris Saint-Germain e desta vez consegue ser mais feliz, alcançando
um campeonato francês, uma Taça de França e uma supertaça. Ademais, brilhou com
os parisienses nas provas europeias, onde se bateu de igual para igual com
algumas das melhores equipas continentais. Em 1996 marca presença naquela que
foi a sua primeira e única grande fase final de uma prova internacional de seleção,
o Campeonato da Europa, competição onde orientou a seleção da Suíça. É após
este Euro que regressa pela segunda vez ao banco do combinado nacional
português, com a missão de guiar Portugal ao Mundial de 98. Objetivo que,
contudo, seria falhado, o que levou à saída do técnico. Nos 20 encontros
realizados ao serviço da seleção, Artur Jorge venceu nove, empatou oito e
perdeu três. Faleceu recentemente, a 22 de fevereiro de 2024.

MANUEL DA
LUZ AFONSO (20 jogos): É muitas vezes recordado como o pai dos “Magriços”, a
seleção que em 1966 encantou e surpreendeu o Mundo com o 3.º lugar no Mundial
desse ano. Ele, na condição de selecionador nacional, juntamente com Otto
Glória, na função de treinador de campo, foram os obreiros da melhor
classificação de sempre de Portugal num Campeonato do Mundo. Falamos de Manuel da
Luz Afonso, uma figura que nasceu em Loulé a 31 de janeiro de 1917 e que
começou a evidenciar-se no Planeta da Bola enquanto dirigente desportivo. Em
1958 aceitou o convite de Maurício Viera de Brito, então presidente do Benfica,
para dirigir o Departamento de Futebol do clube da Luz. Sob a sua gestão os
benfiquistas sagaram-se bi-campeões europeus e foi olhando para o trabalho que
ele desenvolveu nos encarnados, que em 1964 a Federação Portuguesa de Futebol o
convida para o cargo de selecionador nacional. Com Otto Glória na função de
treinador, a Era de Manuel Luz Afonso na seleção começou da melhor maneira em finais
de 1964 com um triunfo sobre os então campeões europeus de seleções, a Espanha,
por 2-1. Depois disso veio a brilhante fase de qualificação para o Mundial de
1966, onde se destacam importantes vitórias, como a que foi alcançada em casa
de uma das potências europeias de então, a Checoslováquia, que era tão só a
vice-campeã do Mundo da altura. Sob a batuta de Eusébio, em campo, Portugal
chegou ao Mundial pela primeira vez na história e o resto é… história. Após
esse épico Campeonato do Mundo, Manuel da Luz Afonso ainda realizou mais um
jogo aos comandos da seleção nacional no ano de 1966, deixando o cargo depois
disso, com um registo de 15 vitórias, dois empates e três derrotas. Manuel da
Luz Afonso viria a falecer em outubro de 2000.

JOSÉ
TORRES (17 jogos): «Deixem-me sonhar», a célebre frase proferida por aquele que foi um
dos mais brilhantes futebolistas de todos os tempos do futebol português ecoou
em outubro de 1985 na véspera de um importante desafio de qualificação para o
Mundial de 86, em que Portugal precisava de vencer em casa da poderosa
República Federal da Alemanha (RFA) para carimbar o passaporte para o México. Quem
a proferiu foi José Torres, que enquanto jogador brilhou com a camisola das
Quinas – com o ponto alto a acontecer no Mundial de 66 – mas como treinador
viveu um dos priores momentos da sua longa carreira desportiva. Logo após o
fantástico desempenho da seleção nacional no Europeu de 1984 os responsáveis
federativos ofereceram o cargo de selecionador ao “Bom Gigante” – como Torres
era popularmente conhecido devido à sua elevada estatura e à sua condição de
pessoa humilde e bondosa –, pedindo-lhe apenas que guiasse o combinado luso até
ao Mundial do México, em 1986. A tarefa era complicada, até porque no grupo de
Portugal estava a poderosa RFA e as sempre indesejadas Checoslováquia e Suécia.
Na entrada para a reta final da fase de qualificação os portugueses precisavam
de um milagre para alcançarem a qualificação para o México. E esse milagre
passava por uma vitória em solo germânico... Impossível, disseram muitos.
Perante o pessimismo que reinava entre o povo português José Torres lançou um
desabafo: «deixem-me sonhar...». E mais uma vez o sonho virou realidade. Em
Estugarda, no dia 16 de outubro de 1985, um golo solitário do pequeno médio
Carlos Manuel derrotava a forte RFA e levava pela segunda vez na história
Portugal a uma fase final de um Mundial. Só que chegados ao México os portugueses
viram-se a braços com uma série de problemas internos. Os jogadores abriram
guerra com a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) por causa dos prémios
relativos à sua presença na fase final. Convocaram greves, organizaram-se em
grupos, e com isto o plano desportivo passou definitivamente para segundo
plano. Saltillo - localidade mexicana onde a seleção ergueu o seu
quartel-general - é sinónimo de inúmeros escândalos, assinalando assim uma das
páginas mais negras da história do nosso belo jogo. Portugal ainda venceu a
Inglaterra no jogo de estreia (por 1-0), mas as derrotas com a Polónia (0-1) e
com Marrocos (1-3) trouxeram os portugueses mais cedo para casa. José Torres
foi uma vítima de Saltillo, como ele próprio confessou tantas e tantas vezes.
«Saltillo marcou-me o destino. Cinco meses antes organizei uma reunião com os
jogadores, na qual tive a preocupação de alertar para a necessidade de não se
formarem grupinhos, garanti-lhes que ninguém teria o estatuto de titular,
pedi-lhes única e simplesmente que fossem para o México para servir Portugal.
Por essa altura a FPF prometeu-me, igualmente, que resolvia o problema dos
dinheiros/prémios (para os jogadores), sabia bem que esse poderia ser o nosso
calcanhar de Aquiles, a promessa foi vã, quem tinha a responsabilidade de tudo
resolver agiu como Pilatos e foi o que foi, aconteceu o que se sabe, foi tudo
muito triste - e ninguém foi mais penalizado do que eu, apesar da minha
responsabilidade ser quase nula em toda aquela complicação». Dos 117 jogos
realizados à frente da seleção, Torres venceu oito, empatou um e perdeu outros
oito. Como treinador ainda trabalhou em clubes como o Boavista, Estoril,
Vitória de Setúbal, Estrela da Amadora, Varzim Portimonense, Vila Real de
Desportivo de Beja. Faleceu a 3 de setembro de 2010.

JOSÉ
MARIA PEDROTO (16 jogos): A morte levou demasiado cedo um homem que vivia à
frente do seu tempo. Era um visionário. Natural de Lamego, onde nasceu a 21 de
outubro de 1928, José Maria Pedroto começou por ser um jogador de boa categoria
e mais tarde treinador de créditos firmados. A sua primeira experiência
enquanto técnico seria logo coroada de êxito, o primeiro grande sucesso do
futebol português enquanto seleção alcançado em 1961: o Torneio Internacional de Juniores da UEFA, a prova que antecedeu ao atual Campeonato da Europa de
Sub-21. Desde esse momento que Pedroto vincou a sua veia de mestre, de
revolucionário - no bom sentido -, de exímio líder que aliava profundos
conhecimentos futebolísticos a um poder notável de motivação. Estes foram
alguns dos condimentos que fizeram de Pedroto um mestre da tática, um dos melhores
de todos os tempos do futebol português. Um vencedor, acima de tudo. Depois das
seleções jovens o Zé do Boné - como ficou eternizado graças à peculiar
indumentária habitual que usava no seu dia-a-dia - colocou a sua inteligência e
visão avançada no tempo ao serviço de emblemas como a Académica, o Leixões, o
Varzim, o Vitória de Setúbal, e o Boavista - sendo que nestes dois clubes
alcançou êxitos nunca dantes vividos por estes emblemas. Mas seria ao serviço
do clube do seu coração, o FC Porto, que atingiu o topo da montanha da glória.
Para os portistas Pedroto significou a viragem. Pedroto fez do FC Porto um
clube vencedor, criou uma mística que perdura até hoje na Invicta, uma mística
de conquistas, uma mística de glória. Pedroto abriu o caminho dos títulos ao
clube azul e branco, um caminho que idealizado juntamente com o seu grande
amigo Jorge Nuno Pinto da Costa, o homem que esteve mais de quatro décadas no
comando do clube. É justo dizer-se que Pedroto foi um dos arquitetos do FC
Porto dos dias de hoje, um clube de dimensão mundial. Na seleção principal de
Portugal, José Maria Pedroto estre entre 1973 e 1976, realizando 16 jogos, com
o saldo de seis triunfos, quatro empates e seis derrotas. Viria a falecer em janeiro
de 1985 quando o FC Porto moldado pelas suas mãos arrancava para a conquista de
grandes êxitos internacionais.

JOSÉ
AUGUSTO (14 jogos): Enquanto jogador chegou a ser considerado como o melhor
extremo direito do futebol europeu dos anos 60. Nascido a 13 de abril de 1937,
no Barreiro, ele foi um dos maiores ídolos do Benfica e da seleção nacional de todos
os tempos. José Augusto, o seu nome. Muito jovem começou a mostrar um talento
ímpar com a bola nos pés, e seria no clube da terra, o Barreirense, que começou
a jogar de forma oficial, destacando-se de pronto pela velocidade, técnica e
faro pelo golo. Não foi de estranhar que despertasse de pronto a cobiça de
clubes de maior dimensão e com apenas 21 anos ingressa no Benfica. Na Luz, José
Augusto entrou logo na equipa principal, juntando-se a uma geração lendária
onde pontificavam nomes como Coluna, José Águas, Germano, Cavém, Ângelo, ou
Costa Pereira, aos quais pouco mais tarde se juntariam Simões e Eusébio. Aquele
Benfica dominaria o futebol português e… europeu, na sequência da dupla
conquista da Taça dos Clubes Campeões Europeus no início da década de 60. Na
primeira campanha vitoriosa na prova maior de clubes da UEFA, José Augusto fez
sete golos, sendo apenas superado pelo homem-golo daquela equipa, José Águas,
com 11 golos. Foi dos jogadores mais completos do seu tempo. Brilhou de igual
modo com a camisola da seleção lusa, a qual defendeu em 45 ocasiões, tendo
feito nove golos. Foi peça fundamental da esplêndida campanha que Portugal
realizou no Mundial de 66, onde marcou três golos. Fez mais de 360 jogos pelo
Benfica e no final da década de 60 pôs ponto final à sua carreira de
futebolista, e logo na estreia como técnico vence a Taça de Portugal ao serviço
do seu Benfica. Após a sua saída da Luz ingressa na Federação Portuguesa de
Futebol (FPF), onde assume o comando da Equipa
das Quinas após a saída de José Gomes da Silva, em 1971. Ao longo de cerca
de ano e meio, entre 1972 e 1973, José Augusto efetua 14 jogos ao comando da
seleção portuguesa, com o foco a residir na qualificação para o Mundial de
1974. Na seleção treina antigos companheiros de campo, como por exemplo,
Eusébio, Jaime Graça, ou Simões. Apesar de ter falhado a qualificação para o
Mundial germânico em 74 e de ter saído da seleção em finais de 73, José Augusto
voltaria à FPF no início dos anos 80 para assumir as seleções mais jovens do país,
trazendo para os quadros federativos o homem que haveria de revolucionar o
futebol luso desde a base: Carlos Queiroz. Dos 14 encontros em que José Augusto
orientou a equipa principal de Portugal venceu nove, empatou três e foi
derrotado em dois.

JOSÉ
GOMES DA SILVA / SALVADOR DO CARMO (13 jogos): Ambos têm em comum o facto de
terem estado ligados ao Belenenses, enquanto dirigentes. Salvador do Carmo, por
exemplo, era dirigente deste clube quando em 1942 este venceu a sua primeira
Taça de Portugal. Na seleção estiveram ambos de forma intermitente, ou seja,
efetuaram passagens pelo banco nacional em alturas períodos distintos. Nos seus
13 jogos realizados, Salvador do Carmo venceu três, empatou cinco e perdeu outros
cinco; ao passo que José Gomes da Silva (na imagem) venceu cinco partidas, empatou quatro e
perdeu outras quatro.

MÁRIO
WILSON (10 jogos): Era, e é, carinhosamente apelidado como o “Velho Capitão”.
Alcunha que ganhou em Coimbra, na altura em que capitaneou a Académica desde o
centro da defesa, onde se impunha pela sua estampa física. Mário Wilson, o seu
nome. Desembarcou em Lisboa com a missão de substituir o voraz goleador
Fernando Peyroteo, no Sporting, mas o que é certo é que seria como médio centro
que se impôs na equipa leonina. Defendeu dos leões em apenas duas temporadas, o
suficiente para se sagrar campeão nacional em 50/51. Viajou depois para
Coimbra, para jogar à bola e… estudar. Na cidade do Mondego permaneceu ao longo
de onze épocas, e ali deu início a uma brilhante carreira de treinador. Na
Briosa, conquistou em 66/67 um inédito 2.º lugar, a apenas 3 pontos do campeão
Benfica, o clube onde iria fazer história. Na Luz foi campeão nacional em 75/76
e da sua boca saiu uma frase que ainda hoje perdura no tempo: «No Benfica,
qualquer treinador se arrisca a ser campeão». Fez história no clube da Luz ao
ser o primeiro técnico português a ser campeão nacional. Voltaria ao Benfica na
década de 90 mas sem o sucesso antes granjeado. Teve ainda passagens pelo
Alverca, Tirsense, Belenenses, Boavista, Vitória de Guimarães, Estoril,
Torreense, Louletano e Recreio de Águeda. Os seus conhecimentos foram colocados
ao serviço da seleção em finais da década de 70, altura em que dirigiu o
combinado nacional em 10 encontros, com a meta (falhada) de qualificar Portugal
para o Euro 80. Somou cinco triunfos (diante dos Estados Unidos da América,
Áustria, Escócia, e Noruega por duas ocasiões), dois empates (diante de Bélgica
e Espanha) e três derrotas (perante Áustria, Escócia e Bélgica). Viria a
falecer a 3 de outubro de 2016.

FERNANDO
CABRITA (9 jogos): O seu nome está ligado à brilhante campanha realizada pela
seleção no Europeu de 84. Após a saída do brasileiro Otto Glória em 1983 do
comando da equipa das Quinas, Fernando Cabrita conduziu a seleção à segunda
participação numa fase final de uma grande competição, após o Mundial de 66, e
a primeira presença num Campeonato da Europa. Juntamente com António Morais,
Toni e José Augusto, Cabrita constituiu um quarteto que alcançou três vitórias
em outros tantos jogos na reta final do apuramento para o Euro francês,
corrigindo assim o mau arranque da campanha sob a batuta de Otto. Como jogador,
Fernando Cabrita, passou por clubes como Olhanense, o Sporting da Covilhã, o
Portimonense e os franceses do Angers. Nascido em Lagos, em 1923, ele começou o
seu percurso de treinador na década de 50 pelo modesto Unhais da Serra. Antes
de chegar às reservas do Benfica, treinou o Portimonense e o Covilhã, sendo que
na Luz atingiu o seu momento de glória em 67/68, quando foi chamado à equipa
principal com a missão de substituir o chileno Fernando Riera, levando o clube
à conquista do campeonato nacional. Além do Benfica, treinou também o União de Tomar e o Beira-Mar, dois emblemas que conduziu à 1.ª Divisão, tendo ainda o
feito de levar o Boavista à Europa do futebol. Na fase final do Euro 84
registou empates com a RFA e a Espanha e um triunfo diante da Roménia, que
valeu a passagem às meias-finais da seleção portuguesa. Aí, ante a equipa da
casa, Portugal teve o pássaro nas mãos, mas a frieza de Platini e companhia fez
o sonho cair por terra. Fernando Cabrita faleceu em 22 de setembro de 2014.

OTTO
GLÓRIA (7 jogos): Ele foi o primeiro treinador estrangeiro a orientar a seleção
nacional. Estrangeiro, mas com linhagem portuguesa, já que o se avô paterno era
açoriano e o seu avô materno era de Vila Nova de Gaia. Nascido no Rio de
Janeiro, no dia 9 de Janeiro de 1917, este homem foi o treinador mais vitorioso
que passou pelo futebol português. Otto Martins Glória, ou simplesmente Otto
Glória, o seu nome. Conquistou cinco títulos de campeão nacional da 1.ª Divisão,
venceu cinco Taças de Portugal e deixou o seu nome eternamente ligado a uma das
páginas mais brilhantes da história da seleção: o 3.º lugar no Mundial de 1966.
Chegou a Portugal em 1954 e logo impôs uma profunda remodelação no futebol do
Benfica, o primeiro clube que aqui treinou. Além do Benfica, treinou ainda o
Belenenses, o FC Porto e o Sporting, tendo sido o único técnico estrangeiro a
orientar os chamados “3 Grandes” do futebol luso. No seu Brasil natal, começou
muito cedo a caminhada enquanto treinador. Tinha apenas 25 anos quando lhe
foram confiadas as equipas de formação do Vasco da Gama. Posteriormente, passou
para adjunto de Flávio Costa no clube da Cruz Maltina, passando pouco depois a
técnico principal do clube carioca. Treinou ainda o Américo do Rio de Janeiro,
e terá sido nesta condição que chegou à conversa com Joaquim Bogalho,
presidente do Benfica, que o convenceu a atravessar o Atlântico rumo a Lisboa
para orientar os encarnados. O resto é história. Os bons desempenhos de Otto
Glória ao serviço dos quatro maiores (na altura) clubes portugueses não
passaram despercebidos à Federação Portuguesa de Futebol, que em 1966 o
chamaria para treinar a seleção nacional (o selecionador português era Manuel
da Luz Afonso, sendo que Otto era, por assim, dizer o treinador de campo) que
nesse ano disputou o Mundial de Futebol. Portugal
escreveria neste Mundial a página mais bonita da sua história, classificando-se
num até hoje inigualável 3º lugar. Otto Glória assumiu no papel de selecionador
a seleção em sete ocasiões entre 1982 e 1983, com a missão de levar Portugal ao
Europeu de 84, mas saiu do cargo ainda antes da fase final com o saldo de três
vitórias, um empate e três derrotas (duas delas com o seu Brasil, que assim
vingou a humilhação sofrida em 1966). Otto treinou ainda em Espanha (Atlético
de Madrid), França (Marselha), México (Monterrey) e Nigéria, cuja seleção levou
à conquista da Taça das Nações Africanas em 1980. Morreria a 2 de setembro de
1986, no Rio de Janeiro, um dos mais brilhantes treinadores da história do
futebol português.

ARMANDO
FERREIRA (6 jogos): Ao longo de décadas a fio saíram do Barreiro inúmeros
talentos para o futebol português. Um desses exemplos é Armando Ferreira, que
ali nasceu em 23 de dezembro de 1919. Com 16 anos ingressou nas primeiras
categorias do Barreirense, onde deu nas vistas como um homem golo. Numa altura
em que o futebol ainda era pouco profissional em Portugal, formou-se em
engenharia. Nos finais dos anos 30 transferiu-se para o Sporting, onde venceu
seis campeonatos nacionais e três Taças de Portugal. Representou os leões em
142 ocasiões e apontou 55 golos, e só não foram mais porque a certa altura da
sua longa passagem por Alvalade – foram 11 temporadas de leão ao peito – teve a
concorrência dos… Cinco Violinos. Iniciou a carreira de treinador no clube da
sua terra, o Barreirense, tendo conduzido a equipa à 1.ª Divisão nacional na
época de 50/51. Treinou ainda os juniores do Sporting nos finais dos anos 50, e
em 1961 chega à seleção nacional, em cujo banco se sentou em seis ocasiões.
Iniciou a campanha de apuramento para o Mundial de 62, com uma vitória e um
empate, tendo sido substituído no cargo pelo seu antigo companheiro de equipa,
Fernando Peyroteo. Após a saída deste do cargo de treinador, Ferreira fez mais
três jogos com a seleção, dois deles no Brasil, ante a seleção bi-campeã do
Mundo, ambos concluídos com derrotas. No saldo final, Armando Ferreira somou
uma vitória, um empate e quatro derrotas à frente dos destinos da seleção. Armando
Félix Ferreira faleceu a 31 de julho de 2005.

RIBEIRO
DOS REIS (6 jogos): Ele foi o primeiro selecionador/treinador nacional. É um
vulto do futebol luso, nas suas mais variadas vertentes. Militar de profissão ele
teve um papel preponderante na formação do futebol em Portugal. Ele foi
jogador, treinador, árbitro, dirigente e jornalista desportivo. Um verdadeiro
homem dos 7 ofícios. António Ribeiro dos Reis nasceu em Lisboa a 10 de julho de
1896. Enquanto futebolista desenvolveu a sua carreira primeiro no Casa Pia,
passando depois pela equipa do Liceu Pedro Nunes, e posteriormente pelo
Benfica, cuja camisola passou a defender a partir da temporada de 1913/14 e que
envergou até final da sua carreira, em 1925. Foi precisamente em 1913 que
enverga pela primeira vez a camisola do Benfica, numa partida ante o
Sacavenense, em terceiras categorias. Contava então com apenas 16 anos!
Estreou-se nas primeiras categorias dos encarnados em 1914 e de lá saiu em
1925. Foi treinador e dirigente do clube encarnado, sendo que neste último
papel desempenhou, entre outras, funções de vice-presidente da Direção, e de
presidente da Assembleia Geral, tendo tido, por exemplo, um papel importante no
processo de construção do antigo Estádio da Luz. Enquanto treinador do Benfica,
Ribeiro dos Reis venceu o Campeonato de Portugal de 1930, o primeiro
conquistado pelo clube. 23 anos volvidos venceria a Taça de Portugal pelo
emblema ao qual sempre esteve ligado. Foi ainda figura de proa na criação da
seleção nacional, já que esteve presente na orientação do primeiro jogo da equipa das quinas em 1921, ante a Espanha. Nesse célebre encontro, além de ter
defendido a Equipa das Quinas na condição de avançado-centro, teve ainda de
fazer – no final – a crónica dos acontecimentos para o Sport de Lisboa, onde
era redator. Era um apaixonado pelo jornalismo, tendo a sua incursão nos
jornais tido início em 1914, precisamente no semanário Sport de Lisboa. Anos
mais tarde, juntamente com o seu bom amigo Cândido de Oliveira, fundou o jornal
A Bola, em cujas páginas também deixou um rico legado enquanto jornalista e
mestre do Belo Jogo. No jornal da Travessa da Queimada exercido funções de
redator principal e de diretor (entre 1951 e 1961). Os primeiros três jogos da
história da seleção nacional foram dirigidos por um comité, em que os jogadores
eram escolhidos por… voto, tendo em conta que esse mesmo comité era formado por
vários elementos ligados ao futebol de então. Até que em 1924 Ribeiro dos Reis
é convidado para selecionador/treinador nacional, O PRIMEIRO DA HISTÓRIA
CENTENÁRIA DA SELEÇÃO. Numa primeira passagem esteve quatro jogos nos comandos
do combinado nacional, todos eles de carater particular, realizados entre 1925
e 1926. Foi sob a sua batuta que neste período a seleção conquistou a sua
primeira vitória, facto ocorrido em 1925, ante a Itália. A sua segunda passagem
deu-se em 1934, e coincidiu com a primeira fase de apuramento da seleção para
um Mundial, neste caso o de Itália. Na eliminatória para o Itália 34, Portugal
defrontava a vizinha e poderosa Espanha, e o resultado foi uma catástrofe. No
primeiro jogo, em Madrid, 9-0 a favor dos espanhóis, ao passo que na segunda
mão, em Lisboa, os neustros hermanos
voltaram a ganhar, desta feita por 2-1. Portugal tinha saído humilhado desta
luta e a crítica de pronto lançou uma campanha a culpar o selecionador
nacional por tal desfecho. Ribeiro dos Reis diria após esta dupla derrota com
a Espanha que «tomou horror ao cargo (de selecionador», de maneira que saiu e
nunca mais voltou. Foi agraciado com a Comenda da Ordem Militar de Avis, a
Medalha de Mérito Desportivo, a Medalha de Mérito Internacional da Federação
Portuguesa de Futebol, a Medalha de Ouro da Comissão Central de Árbitro, e a
Medalha de Mérito da Associação de Futebol de Lisboa. Em 1995 foi agraciado a
título póstumo com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito. Foi pois em homenagem a esta
figura incontornável do futebol português que na temporada de 1961/62 a FPF
coloca em ação a Taça Ribeiro dos Reis, uma competição destinada às equipas
reservas do futebol português. Ribeiro dos Reis viria a falecer em 1961.

RUI
SEABRA (6 jogos): O Mundial do México em 1986 constituiu-se como um dos piores
pesadelos da história centenária da seleção nacional. Desde a polémica de
Saltilho, em que os jogadores selecionados se desentenderam com a Federação
Portuguesa de Futebol (FPF) em relação aos prémios de participação, até à
triste campanha dentro dos relvados mexicanos desenvolvida e que atirou os
lusos para fora do certame ainda na fase de grupos, tudo foi um pesadelo para o
selecionador de então, José Torres, que não resistiu aos tristes acontecimentos
e deixou a Equipa das Quinas. Para o seu lugar entrou de forma temporária Rui
Seabra, que não só acalmou os ânimos como ajudou a reconstruir a seleção. Na
verdade, pouca ou nenhuma experiência tinha de campo quando assumiu os destinos
da seleção no pós-Saltilho. Advogado de profissão, Rui Seabra tinha apenas
experiência no dirigismo desportivo, quando aceitou o cargo de selecionador. E
na verdade, nunca deu um único treino enquanto desempenhou a função! Verdade. O
seu braço direito, o homem que calçava as chuteiras, era Juca, que seria o
selecionador seguinte. A missão de Seabra era simples: curar as feridas de 86,
unir novamente a seleção e garantir a qualificação para o Euro 88. A escolha de
Rui Seabra para selecionador caiu mal na generalidade da comunicação social
portuguesa, desde logo porque não trazia nenhuma experiência de treino, mas
também porque era um cidadão com pensamentos de direita (esteve ligado ao
CDS-PP) e a maioria dos jornalistas de então eram de… esquerda. Mas Seabra fez-se rodear
de pessoas experientes na área do treino e da condução de jogadores, desde logo
Juca, mas as coisas não correram bem, já que nos quatro primeiros jogos de
apuramento para o Campeonato da Europa de 88 Portugal não ganhou um único encontro sob a liderança de Rui Seabra. Pior, empatou em casa com a modestíssima seleção
de Malta! Seabra só esteve nos comandos da seleção em seis encontros – dois
deles particulares. Numa entrevista dada ao site MaisFutebol, em 2016, Rui Seabra
faria um balanço desta sua curta passagem pela FPF, ao referir que «convém
sublinhar que os resultados eram secundários, atendendo às circunstâncias. Mas
consegui, na altura, aquela que era a segunda melhor série sem derrotas da
seleção. Só que não ganhava, empatava… Só ganhei à Bélgica (num particular) e
até empatei com Malta».

AGOSTINHO
OLIVEIRA (6 jogos): Após duas campanhas em Mundiais que ficaram muito aquém do
esperado, o nome de Agostinho Oliveira foi o escolhido para acalmar as águas na
seleção antes de se dar início a novos “mandatos” técnicos. Nascido a 5 de
fevereiro de 1947 na Póvoa de Lanhoso, Agostinho Vieira de Oliveira foi atleta
do Sporting de Braga, cujas cores defendeu na maior parte da sua modesta
carreira de futebolista. O seu nome saltou para a ribalta na década de 90, por
ter integrado a estrutura da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) no sentido
de dar seguimento ao excelente trabalho desenvolvido na formação pela dupla
Carlos Queiroz – Nelo Vingada. Passou quase duas décadas nas seleções mais
jovens, onde traçou campanhas dignas de registo em fases finais de Mundiais de Sub-20 ou em Europeus de Sub-21, de Sub-18 e de Sub-16. Foi uma espécie de
“bombeiro de serviço”, a primeira vez no pós-Mundial de 2002, onde a seleção
lusa dirigida por António Oliveira desiludiu tudo e todos ao não passar a fase
de grupos. Os portugueses haviam viajado para o Campeonato do Mundo realizado
na Coreia do Sul e no Japão com o estatuto de favoritos à conquista do título,
mas o que é verdade é que foi um autêntico desastre na sequência de duas
derrotas impensáveis (ante a Coreia do Sul e os Estados Unidos da América) e um
soco de João Vieira Pinto ao árbitro argentino Ángel Sanchez, um episódio que
manchou ainda mais a prestação lusa, deitou tudo a perder. Com a saída de António Oliveira, a FPF
entregou de forma interina a seleção principal a Agostinho Oliveira, que no
último trimestre de 2002 realizou quatro particulares (ante Inglaterra,
Tunísia, Escócia e Suécia) e não perdeu nenhum – duas vitórias e outros tantos
empates. A sua segunda passagem pelo comando da seleção AA foi mais curta, mas
resultou de um novo fiasco numa fase final de um Mundial. Em 2010, na África do
Sul Carlos Queiroz não conseguiu manter o nível exibido quatro anos antes no
Mundial da Alemanha, onde Portugal foi 4.º classificado. Mesmo com a super
estrela planetária Cristiano Ronaldo a comandar – dentro do campo – a seleção,
Queiroz jogou sempre à defesa e Portugal tombou com merecimento nos
oitavos-de-final diante da futura campeã mundial, a Espanha. Agostinho Oliveira
voltou a pegar na seleção, tendo realizado dois jogos no mês de setembro de
2010, ambos de carater oficial e com vista ao apuramento para o Europeu de
2012: um diante do Chipre (empate a quatro bolas) e outro ante a Noruega
(derrota por 0-1). Após a chegada de Paulo Bento ao banco da seleção, Oliveira
regressou à base, isto é, às seleções de formação, tendo saído dos quadros da
FPF em 2011.

LAURINDO
GRIJÓ (4 jogos): Após a saída do capitão (do exército) Maia Loureiro do cargo
de treinador, em finais da década de 20, o cargo foi ocupado por Laurino Grijó,
que em 1930 dirigiu o conjunto nacional em quatro ocasiões. Foi um período
conturbado em termos de seleção, já que um conflito entre a Associação de
Futebol de Lisboa e a Federação Portuguesa de Futebol escalou de tal modo que
vários jogadores lisboetas se recusaram a vestir a camisola das quinas neste
período. Ainda assim nada que impedisse Laurindo Grijó de entrar na história da
seleção, já que ele foi o primeiro técnico a iniciar o seu percurso de
selecionador/treinador com uma vitória. Antes dele, Cândido de Oliveira estreou-se
com um empate, Ribeiro dos Reis entrou com uma derrota e Maia Loureiro conheceu
um desaire no seu único jogo ao comando da equipa nacional. O triunfo aconteceu
num particular em Lisboa, a 12 de janeiro de 1930, diante da poderosa
Checoslováquia, por 1-0, graças a um tento do prodígio belenense Pepe.
«Vencemos. E quando todos esperavam que a nossa equipa sucumbisse à técnica, à
virtuosidade, à ciência fantástica dos profissionais checos, a vitória
apareceu-nos sem a mais pequena sombra, sem nada, absolutamente nada, a empanar
o brilho de um resultado tão lógico como foi o de ontem (12 de outubro de
1930). Dá gosto ver jogar assim». Estas foram palavras plasmadas na edição de
13 de outubro de 1930 do Diário de Lisboa a resumir a primeira da história dos lusos ante os
checoslovacos. Sob a batuta de Grijó, a seleção venceu ainda a França, no
Porto, por 2-0; e perdeu com a Bélgica em Antuérpia, por 1-2; e com a Espanha,
no Porto, por 0-1. Laurindo
Grijó era um homem do norte, tendo tido um papel muito ativo no associativismo
desportivo. O Vilanovense deve-lhe muito, clube que numa publicação aquando de
um aniversário seu nos anos 30 escreveu um texto onde evoca não só Laurindo
como também o seu irmão Joaquim, dois homens que passaram pela direção do clube
de Vila Nova de Gaia: «Laurindo e Joaquim Grijó deram ao Vilanovense Foot-ball
Club o melhor do seu cuidado e do seu esforço. Dirigiram e foram seus atletas;
representaram-no nos mais altos cargos do desporto nacional. A Laurindo e a
Joaquim Grijó deve Vilanovense e a sua falange de admiradores alguns dos
melhores momentos da sua carreira desportiva. E enquanto houver Vilanovense -
hão-de figurar nos seus arquivos dois nomes: Laurindo e Joaquim Grijó».
Laurindo desempenhou vários cargos associativos ao longo da sua vida, na Federação
Portuguesa de Futebol (em que foi diretor, delegado e membro do conselho
técnico), na Associação de Futebol do Porto (onde foi também diretor), na
Associação Portuense de Hóquei (da qual foi presidente), na Associação Portuense
de Basquetebol (onde foi vice-presidente), e na Associação Portuense de Atletismo
(onde também desempenhou funções de vice-presidente).

ARMANDO
SAMPAIO (4 jogos): Foi no Alentejo profundo que em 27 de junho de 1907 nasceu
Armando Francisco Coelho Sampaio, uma figura que como tantos outras que
passaram pela Universidade de Coimbra encarnou o estatuto de estudante-jogador
de futebol com mestria e dedicação. Nasceu em Beja, mas cedo foi para Lisboa
para estudar no Colégio Militar. Jogou duas temporadas nas 2.ª e 3.ª categorias
do Sporting na primeira metade dos anos 20, sendo que concluído o liceu parte
para Coimbra para estudar medicina. Representou então a Académica, primeiro
como jogador e depois como diretor. Isto, também nos anos 20. Após a conclusão
do curso regressa a Lisboa, onde nunca esqueceu o futebol, tendo em 1932 feito
parte do Conselho Técnico da seleção nacional e o Delegado da Direção do
Sporting, clube este do qual era o sócio n.º 49. Em 1936 regressa ao seu
Alentejo natal, mais concretamente para Portalegre, onde não só exerceu a
profissão de médico como também de dirigente e técnico do Grupo
Desportivo Portalegrense. Foi uma figura ligada ao Estado Novo, tendo entre
outros cargos desempenhado funções de Delegado Regional da Mocidade Portuguesa,
tendo nesta função promovido na região de Portalegre diversas modalidades
desportivas, entre outras, o voleibol, o atletismo, o aeromodelismo, a ginástica e o ténis de mesa. Esteve ainda ligado ao jornalismo, tendo colaborado, entre
outros títulos, com A Bola e a Voz Portalegrense, último jornal este do qual foi
diretor entre 1949 e 1965. Armando
Sampaio chegou ao comando da seleção nacional a 27 de fevereiro de 1949, num
jogo em Génova diante da Itália, que se saldou por uma vitória transalpina por
4-1. Realizou mais três jogos como selecionador, sendo um deles diante do País
de Gales, o primeiro entre ambas as seleções, com Portugal a vencer por 3-2.
Este encontro, realizado em Lisboa a 15 de maio de 1949, teve a curiosidade de
que um dos golos dos lusos ter sido apontado por outro alentejano, um
conterrâneo de Armando Sampaio, de nome Patalino, provavelmente, o melhor
futebolista que o Alentejo produziu em toda a sua história. Este foi, aliás, o
único golo apontado por Patalino com a camisola das quinas. Armando Sampaio
morreu em Portalegre a 12 de janeiro de 1982.

VIRGÍLIO
PAULA (3 jogos): A atividade da seleção nacional ao longo de toda a década de
40 é pautada por jogos de caráter particular, dada a ausência do Campeonato do
Mundo do calendário internacional em virtude da II Guerra Mundial. Foi um período em
que os lusos conheceram mais derrotas do que vitórias. Em 21 jogos realizados
nos anos 40, Portugal perdeu 10, empatou quatro e venceu sete. Na reta final
desta década, a Equipa das Quinas foi orientada por um dos pioneiros do futebol
em Portugal, alguém que como jogador esteve nos primeiros matchs disputados, nas primeiras competições realizadas. Em suma,
no tempo em que futebol português era ainda uma criança. Falamos de Virgílio
Paula. Nasceu a 3 de setembro de 1890 e diz-se que foi um avançado com talento
nos anos 10 do século passado. Atuou na equipa principal do Benfica entre 1909
e 1913, tendo neste espaço temporal ajudado os encarnados a vencer três
campeonatos de Lisboa. Era doente por futebol, segundo reza a história, tendo
sido peça preponderante para a organização do Benfica enquanto clube no plano
administrativo. Esteve ainda na génese do Clube de Futebol Os Belenenses, já
que em 1919 se juntou a Artur José Pereira para fundar este nobre emblema do
desporto nacional. Virgílio Paula é avô materno de José António Saraiva,
ilustre arquiteto, jornalista, cronista e autor português, e que entre outros
cargos foi diretor dos semanários «Expresso» e «Sol». Sobre o seu avô, este já
desaparecido vulto das letras portuguesas escreveu o seguinte texto: «Ele foi
dos portugueses que tiveram o privilégio de dar os primeiros pontapés na bola
em solo nacional: segundo a história que sempre ouvi na família, participou em
célebres desafios contra uma equipa formada por ingleses que estavam cá a montar
o Cabo Submarino. Este meu
avô era médico, chamava-se Virgílio Paula, e não se ficou pelos jogos iniciais:
esteve no núcleo que lançou o futebol em Portugal, com Ribeiro dos Reis,
Cândido de Oliveira e outros. Jogou a seguir no Benfica, onde conquistou vários
troféus, sendo um dos ‘dissidentes’ que decidiram sair para fundar o Belenenses
(tendo hoje o seu nome cravado em letras de bronze num dos pilares do Estádio
do Restelo)». Virgílio
Paula comandou a seleção nacional em três encontros no final da década de 40,
mais precisamente diante da França – derrota por 24, em Lisboa, no ano de 1947;
derrota em Madrid ante a Espanha, por 2-0, em 1948; e vitória perante a
República da Irlanda por 2-0, também em 1948 num jogo realizado em Lisboa.
Faleceu a 9 de outubro de 1951.

FERNANDO
PEYROTEO (2 jogos): Como futebolista, ele foi um dos maiores de sempre do
futebol em Portugal. O seu nome impõe respeito e atrai admiração de todos os
quadrantes desportivos. Foi um dos primeiros fenómenos do futebol lusitano e dá
pelo nome de Fernando Peyroteo. Nasceu a 10 de março de 1918, em Humpata,
Angola (na época colónia portuguesa) e desde cedo revelaria queda para a bola,
em especial para a arte de marcar golos. E começou a marcá-los, e muitos
diga-se passagem, ao serviço do Sporting Clube de Luanda. Aos 19 anos chegou a
Lisboa, mais precisamente no dia 26 de junho de 1937 e a partir daqui começou a
escrever história ao serviço do Sporting Clube de Portugal. No seu primeiro ano
de leão ao peito, ajudaria o clube a conquistar um Campeonato de Portugal. Este
foi aliás o único Campeonato de Portugal (a prova que deu origem à Taça de
Portugal) que conquistaria. Em termos de palmarés venceria ainda cinco
Campeonatos Nacionais da 1ª Divisão e quatro Taças de Portugal. Foi por seis
vezes o melhor marcador do Campeonato Nacional, prova em que apontou 331 golos
em 197 jogos, uma média de mais de 1,6 golos por jogo, média ainda hoje não
superada por nenhum jogador do mundo em jogos referentes aos “nossos”
campeonatos nacionais. No total foram 393 jogos com a camisola leonina (entre
1937 e 1949) tendo marcado 635 golos (média de 1,61 por jogo), sendo que a
totalidade de jogos disputados pelo Sporting e pela seleção nacional foi 432,
tendo marcado 700 golos (média de 1,62 por jogo). Sem dúvida um dos maiores
goleadores de sempre do futebol português e mundial com esta impressionante
média de golos por jogo. Pela
seleção nacional atuou por 20 ocasiões e apontou 14 golos. Peyroteo foi um
jogador que ao longo da sua brilhante carreira estabeleceu inúmeros recordes
pessoais, sendo um deles o facto de ser o jogador português que mais golos
marcou num só jogo em campeonatos nacionais, mais precisamente nove tentos contra o
Leça em 22 de fevereiro de 1942, jogo que o Sporting venceu por 14-0. Foi ainda
o jogador português que mais golos consecutivos marcou num só jogo a contar
para campeonatos nacionais: cinco ao Vitória de Guimarães a 8 de fevereiro de
1942. Foi o atleta com mais golos marcados ao Benfica, 64 em 55 jogos
(média de 1,2 por jogo), e ao FC Porto, 33 em 32 jogos (média de 1,02 por
jogo). Fernando Peyroteo era uma máquina de fazer golos, e foi um dos
integrantes do famoso quinteto sportinguista das décadas de 40 e 50 denominado
de Os Cinco Violinos, que para além
de Peyroteo era ainda composto por Jesus Correia, Albano, Travassos e Vasques.
Terminou a sua carreira aos 31 anos. Foi selecionador nacional entre 1961 e
1962, tendo como principal feito ao serviço da seleção das quinas o simples
facto de ter lançado um jovem chamado... Eusébio da Silva Ferreira. Um
acontecimento visto numa das derrotas (2-4) mais humilhantes da seleção lusa,
diante do modesto Luxemburgo, em 8 de outubro de 1961. O outro jogo de Fernando
Peyroteo enquanto treinador de Portugal saldou-se por nova derrota (0-2), desta
feita em Londres ante a poderosa Inglaterra, a 25 de outubro desse mesmo ano.
Faleceu em 28 de novembro de 1978, com apenas 60 anos.

NELO
VINGADA (2 jogos): Ao longo dos mais de 100 anos de história da equipa
nacional, foram alguns os técnicos que ocuparam o banco de forma interina, ou
em jeito de transição. Foi o caso de Nelo Vingada, um nome que para sempre irá
ficar ligado à história do futebol nacional, já que ele foi o fiel escudeiro de
Carlos Queiroz na restruturação do futebol luso na década de 80. Uma reforma
que aconteceu desde a base, isto é, desde os escalões da formação, e que teve uma
maior profundidade com a chegada à Federação Portuguesa de Futebol (FPF) no
início dos anos 80 do ex-magriço José Augusto, figura que haveria de ter um
papel preponderante na criação da geração de ouro. Foi ele que na primeira
metade da referida década chama para trabalhar na Praça da Alegria – a sede da
federação – uma dupla que haveria de revolucionar – no bom sentido da palavra –
o futebol português. Carlos Queiroz e Nelo Vingada. Foram estes homens os pais
da Geração de Ouro, foram eles os autores de um processo de transformação e
reformulação do futebol jovem que até hoje continua a dar frutos. Queiroz e
Vingada traçaram as linhas mestras que (re)organizaram o departamento de
futebol juvenil da FPF, levando o Desporto Rei luso para patamares de
excelência nunca dantes vistos. Antes de chegar aos quadros da FPF, Vingada –
que como jogador tinha sido um modesto médio em clubes da zona de Lisboa, como
o Atlético, Sintrense e o Vilafranquense – tinha trabalhado como treinador
principal precisamente em dois emblemas que havia representado como atleta, o
Sintrense e o Vilafranquense. Com Queiroz alcançou o Olimpo dos Deuses ao
sagrar-se bi-campeão mundial de sub-20 – em 1989 e em 1991 –, tendo acompanhado
o professor quando este transitou para a seleção principal em 1991. Nascido em
Serpa a 30 de março de 1952, Eduardo Manuel Martinho Vingada, o seu nome
completo, assumiu o comando da seleção nacional AA no período de transição
entre Carlos Queiroz e António Oliveira, em finais de 1993, após Portugal ter
falhado a qualificação para o Mundial de 94. Vingada orientou a seleção em dois
jogos particulares realizados além-fronteiras em janeiro e abril de 1994. O
primeiro em Vigo, diante da Espanha, saldado por um empate a duas bolas; e o
segundo em Oslo, ante a Noruega, que terminou com uma igualdade a zero. Nelo
Vingada fica ainda na história do futebol português pelo facto de ter alcançado
a melhor classificação de sempre da Equipa das Quinas em Jogos Olímpicos, o 4.º
lugar. Em 1996, em Atlanta, Portugal chegou às meias-finais do torneio
olímpico, tendo perdido a medalha de bronze para o Brasil de Ronaldo (Fenómeno)
e companhia. O percurso de Vingada como treinador conheceu inúmeros capítulos
na 1.ª Divisão Nacional ao serviço de Marítimo e Académica, dois dos muitos
clubes onde trabalhou. Após sair de Portugal, a sua carreira tem-se desviado
sobretudo com mais inclinação para o Médio Oriente, onde tem trabalhado quer em
clubes, quer em seleções.

FERNANDO
VAZ (1 jogo): Ter a honra de vestir o manto sagrado do nosso país no caso de um
jogador, ou de treinar a seleção no caso de um treinador nem que seja por uma
única ocasião é já por si um momento marcante. Bem o pode dizer Fernando Vaz,
que só se sentou no banco da Equipa das Quinas numa única ocasião. Nascido a 3
de agosto de 1918, em Benguela (Angola), Fernando Vaz foi, enquanto técnico, um
dos diamantes saídos da mina que era a Casa Pia de Lisboa, de onde havia saído
outro nome sonante do futebol luso, Cândido de Oliveira. Vaz nasceu na então
colónia lusa Angola e regressou a Portugal com pouco mais de um ano de idade
após a morte do seu pai. Ingressou na Casa Pia aos nove anos, como tanto outros
meninos órfãos, e lá se formou como homem e como futebolista. Ingressou na
primeira equipa dos casapianos com apenas 17 anos, tendo feito parte do conjunto que representou o clube na sua primeira aparição na 1.ª Divisão Nacional, em
38/39. E quando se previa uma carreira auspiciosa nos retângulos da bola
portugueses, eis que com apenas 22 anos de idade Fernando Vaz coloca um ponto
final no seu percurso de futebolista em virtude das exigências que o seu
estatuto de empregado bancário se lhe deparavam. Paralelamente ao emprego no
banco, Vaz era colaborador de vários jornais, a saber, o Diário de Lisboa, a
revista Stadium, ou o jornal A Bola, para onde havia sido convidado por Cândido
de Oliveira e onde chegou a ser chefe de redação. Era um homem do futebol e acima de tudo um exímio condutor de homens e profundo conhecedor
dos conceitos técnicos e táticos do jogo. Tais virtudes valeram-lhe o convite
do seu mestre, Cândido de Oliveira, para o coadjuvar no banco do Sporting, em
1947/48. Ali esteve como fiel escudeiro de Mestre Cândido ao longo de quatro
temporadas, coroadas com a conquista de três campeonatos nacionais e uma Taça
de Portugal. Na hora de soltar amarras, Fernando Vaz teve a bênção de Cândido
de Oliveira, que o recomendaria primeiro ao Belenenses e depois ao Sporting de
Braga no sentido de assumir as equipas principais destes clubes. Isto, na
década de 50. Foi precisamente nesta década, mais concretamente no dia 19 de
dezembro de 1954 que Fernando Vaz dirigiu pela primeira e única vez a seleção
nacional. Foi em Lisboa, diante da República Federal da Alemanha. Nesta altura,
Vaz treinava o Sporting de Braga, cuja equipa se passeava nos relvados (e
pelados) portugueses com um futebol de alto nível, facto que fez com que o
conjunto minhoto fosse rotulado de “Arsenal do Minho”. Voltando ao único jogo
de Vaz na seleção, ele terminou com a vitória por 3-0 dos alemães, um resultado
de mentira, como titulou o Dário de Lisboa, no sentido em que não fosse o
manifesto azar dos lusos o score podia ter sido muito bem ao contrário. O
Vitória de Setúbal é, provavelmente, a obra prima de Fernando Vaz enquanto
treinador de futebol. Na cidade do Sado esteve oito temporadas, onde construiu,
quiçá, os capítulos de maior requinte do emblema sadino, tanto a nível nacional
como a nível internacional. No Bonfim venceu duas Taças de Portugal. Treinou
ainda o Sporting – onde venceu um campeonato nacional e uma Taça de Portugal –,
o FC Porto, a CUF, o Atlético, o Beira-Mar, o Caldas, a Académica e o Marítimo.
Após deixar os bancos, no final da década de 70, dedicou-se não só ao
jornalismo – onde foi crítico de futebol – e ao dirigismo desportivo – foi,
entre outros, dirigente do sindicato de treinadores. Faleceu em 25 de agosto de
1986.

MAIA
LOUREIRO (1 jogo): Além de Fernando Vaz só outro homem orientou a seleção
nacional numa única ocasião. Maia Loureiro, o seu nome. Nascido nos finais do
século XIX (1897) o capitão Maia Loureiro teve uma brilhante carreira militar,
a sua principal atividade profissional, a qual desenvolveu a par com a paixão
pelo desporto, o futebol em particular. Foi futebolista no Sporting, clube
cujas cores defendeu nas 4.ª categorias, tendo ainda praticado atletismo no
emblema lisboeta. Finda a modesta (e amadora) carreira de desportista,
enveredou pelo dirigismo. Além de ter desempenhado cargos na direção, na
Assembleia Geral e no conselho fiscal do Sporting, Maia Loureiro esteve por
várias décadas ligado à Federação Portuguesa de Futebol (FPF), tendo sido
eleito pela primeira vez presidente deste organismo em 1951. Esteve no cargo
até 1954, sendo substituído por Ângelo Ferrari num curto período de três anos,
já que em 1957 Maia Loureiro foi reeleito presidente da FPF, lugar que ocupou
até 1960. Mas foi muito antes de se sentar na cadeira da presidência da federação,
que este oficial do exército se sentou no banco da seleção nacional. Facto
ocorrido em 1 de dezembro de 1929, em Milão, onde Portugal defrontou a Itália. 6-1
a favor dos italianos foi o resultado final num jogo em que a seleção não atuou
com os seus melhores jogadores, que se encontravam suspensos pela FPF que
alegadamente os considerou… profissionais! Tempos em que o amadorismo ditava
leis. Quanto ao match de Milão, este
decorreu num relvado transformado num pantanal de lama, em virtude das chuvas
torrenciais que assolaram a cidade italiana nos três dias anteriores. Esta
condicionante a juntar ao facto de a Squadra
Azzurra ser mais forte sob o ponto de vista individual e coletivo ajudaram
àquela que era então a maior derrota do combinado nacional numa partida
internacional. Apesar disso, Portugal soube jogar com brio, sobretudo no
primeiro tempo, onde foram perigosos no assédio à área local. Maia Loureiro
faleceu em setembro de 1965.

Nos
primeiros três jogos realizados, a seleção nacional foi orientada por um Comité
de Seleção. Partidas essas de caráter particular e todas elas realizadas diante
da Espanha, entre 1921 e 1923. Assim, o Comité da Seleção que realizou o
primeiro jogo da história, em 18 de dezembro de 1921 foi composto por Carlos
Vilar (na imagem), Pedro Del Negro, Reis Gonçalves, Virgílio Paula, Plácido Duro e Júlio de
Araújo. No segundo encontro, ocorrido a 17 de dezembro de 1922, o Comité da Seleção
foi composto por Reis Gonçalves, José Pereira Júnior, Joaquim Narciso Freire,
Guilherme Augusto Alves de Sousa e Raúl Nunes. Por fim, o Comité da Seleção
composto por Virgílio Paula, Ribeiro dos Reis e Raúl Nunes orientou o combinado
nacional no terceiro jogo de sempre realizado em 16 de dezembro de 1923. Todos
estes três encontros se saldaram por derrotas.
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