Mostrando postagens com marcador Competições jovens. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Competições jovens. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, junho 10, 2021

Histórias do Futebol em Portugal (32)...Foi há 30 anos que a Geração de Ouro do futebol português viveu o seu segundo capítulo de glória no Planeta da Bola

Neste mês de junho assinala-se o 30.º aniversário de um dos grandes momentos da história do futebol português, um capítulo que volvidas três décadas ainda vive na mente de todos os que amam o futebol. Um momento em que a Geração de Ouro, nascida nas areias do deserto das arábias em 1989, deu mais uma prova do seu valor e levou o país a chorar de alegria na hora de comemorar. E para gáudio de toda a nação lusa este foi um feito alcançado em solo nacional. Fazemos alusão ao título mundial de sub-20 conquistado em 1991, ou melhor, ao bi-campeonato mundial alcançado no dia 30 de junho de 1991, um dia inesquecível para o futebol português.

Orientada por Carlos Queiroz, a equipa das quinas repetiu o triunfo alcançado dois anos antes na Arábia Saudita e nomes como Figo, Rui Costa, Jorge Costa ou Abel Xavier, que na altura pouco ou nada diziam às pessoas, deram nesse ano os seus primeiros passos como grandes jogadores mundiais que viriam a ser no futuro imediato.

Ninguém pode esquecer o derradeiro capítulo desse mítico Mundial de 1991, a final no Estádio da Luz, entre Portugal e o Brasil, em que a velha catedral estava para lá de cheia com 127 mil almas a vibrar com um jogo que terminou ao fim 120 minutos com um nulo no marcador e que viria a confirmar nos penaltis Portugal como bi-campeão do Mundo.

Este título mostrou que Riade não havia sido obra do acaso, um mero golpe de sorte, mas antes a confirmação de que o nosso futebol estava a mudar. E para melhor. Mostrou-nos que tínhamos pela frente um futuro de que nos haveríamos de orgulhar, um futuro que haveria de fazer com que Portugal deixasse de ser o país do triste fado futebolístico para ser a potência que hoje em dia é do Belo Jogo a nível planetário.

A equipa de 1991 foi, digamos, que um prolongamento da Geração de Ouro que nasceu em Riade dois anos antes pela mão do grande revolucionário - no sentido mais positivo da palavra - do futebol nacional, Carlos Queirós. Desta geração de futebolistas portugueses brotaram novos valores que nos afirmaram no futebol mundial, casos dos já referidos Figo, Rui Costa, Jorge Costa, ou João Vieira Pinto. Aliás, do núcleo de 91 emergiu um futuro Bola de Ouro: Luís Figo. Esta vitória, ou melhor, estas vitórias, pois Riade não pode ser deixado de parte desta viagem ao passado, elevou o futebolista português à categoria de diamante raro e apetecível nas décadas que se seguiram. E 1991 confirmou também Portugal como uma nação que gosta de receber de braços abertos quem nos visita, que sabe organizar como poucos competições ou demais eventos com pompa e circunstância, como ficou provado com o facto de no final deste certame a FIFA ter classificado o Mundial de 91 como o melhor até então visto no que se refere ao escalão de sub-20.

Mas voltemos à fornada de 91, aos (bi)campeões do Mundo, uma seleção que anos mais tarde Carlos Queirós rotulou de ser mais virtuosa em comparação com a turma que em 89 conquistou pela primeira vez o Planeta da Bola na Arábia Saudita. Numa longa entrevista ao jornal A Bola, Queirós dizia que «a equipa de 1991 era mais virtuosa, mais atrevida, mais irreverente; às vezes punha a seleção de juvenis, com João Pinto, Figo, Rui Costa, contra a equipa dos mais velhos e quando lhes dava corda os miúdos eram danados; os mais velhos, a equipa do Filipe, do Tozé, do Hélio, aguentavam porque tinham muita disciplina. Mas precisavam de dar umas cacetadas para pôr os mais novos em sentido, enquanto não faziam isso os mais pequenos davam cabo deles. A equipa de 1989 foi construída da estrutura e do trabalho para a fantasia; a de 1991 foi ao contrário, veio da fantasia para a disciplina, teve de ser mais amarrada. A de 1989 era muito sólida, muito adulta, quando entravámos em campo sabíamos que podíamos não ganhar mas também dificilmente perdíamos. A de 1991 era muito mais criativa, era rebelde. Uma equipa que tinha de ser dominada. Mas só foi possível sermos campeões do Mundo não por termos junto uns talentos 10 dias antes do Mundial, mas porque essa equipa tinha cinco anos de trabalho. Talvez fosse até melhor para mim que soubesse apenas que tinha reunido os jogadores e, com um passe de mágica, conseguisse ser campeão do Mundo».

 

O título mundial provocou uma reviravolta no futebol português, e sendo verdade que dois anos antes Portugal se sagrara campeão mundial em Riade, o facto de esta conquista ter sido em Lisboa «obrigou as altas esferas do futebol a olharem-nos de outra maneira. Mostrámos que o futebol de formação e os jogadores portugueses tinham muita qualidade e deveriam ter acesso às equipas seniores», disse Tulipa, um dos 18 campeões do Mundo de 1991 anos depois numa entrevista ao Diário de Notícias (DN). Nessa mesma entrevista ao DN, Rui Bento, outro dos campeões de Lisboa, salienta a união invulgar que existia naquela seleção e que não parece compatível com o futebol moderno. «O grupo formou-se uns quatro/cinco anos antes e como passávamos largas temporadas em estágio, a união fortaleceu-se. Sabíamos as manias e virtudes de cada um e agíamos em conformidade, tendo-se criado laços de amizade eternos», salienta Bento. «O facto de o campeonato de 1991 se realizar em casa ajudou sobremaneira. O chamado 12.º jogador funcionou lindamente. O povo estava todo connosco e apesar de serem miúdos normais, aprenderam a respeitar, a serem rigorosos, disciplinados», contou o fiel adjunto de Queirós, Nelo Vingada, ao DN, acrescentando que «em comparação, a vitória em Lisboa foi muito mais fácil do que na Arábia Saudita, dois anos antes. Aqui estávamos em casa e naquele país árabe só dava para ligar para casa de dois em dois dias, através de uma cabina telefónica».

Os 18 heróis de Lisboa


Para este Mundial Carlos Queirós chamou dois jogadores que em 1989 tinham saboreado a então inédita conquista de Riade, nomeadamente João Vieira Pinto e Brassard. O primeiro havia sido peça preponderante na conquista de 89, sendo o único jogador luso a conquistar por duas vezes o Mundial de sub-20. Após a conquista de 1991 o menino de ouro, como ficou conhecido, disse ao jornal A Bola que «é espetacular o que sinto. Nunca imaginei ser campeão do mundial duas vezes. Vou ter de carregar este fardo durante toda a vida», e assim continua a ser.

Por sua vez, Fernando Brassard havia estado na Arábia Saudita na condição de suplente, sem ter feito um único minuto nessa campanha, sendo que por isso e apesar de ter feito parte do grupo de 89 não foi efetivamente campeão do Mundo, algo que só viria a alcançar dois anos depois em Lisboa quando assumiu a titularidade da baliza nacional.

E para conquistar o campeonato do Mundo de 1991 Carlos Queirós contou com o seguinte elenco (com os respetivos números que usaram nas camisolas durante esse Mundial e os clubes que representavam na altura): 1 - Brassard (Louletano); 2- Gil (Benfica); 3- Figo (Sporting); 4- Peixe (Sporting); 5- Rui Costa (Fafe); 6- Jorge Costa (Penafiel); 7- Abel Xavier (Estrela da Amadora); 8- Paulo Torres (Sporting); 9- Luís Miguel (Rio Ave); 10- Nélson (Salgueiros); 11- Rui Bento (Benfica); 12- Tó Ferreira (Famalicão); 13- Capucho (Gil Vicente); 14- João Vieira Pinto (Boavista); 15- Tulipa (FC Porto); 16- Cau (FC Porto); 17- João Oliveira Pinto (Sporting); 18- Toni (FC Porto).

Do Porto a Lisboa, o trajeto dos campeões

Foram cinco as cidades escolhidas para acolher este Mundial organizado por Portugal, nomeadamente Lisboa, Porto, Braga, Guimarães e Faro. Portugal iniciou a defesa do título conquistado em Riade a 14 de junho, no Estádio das Antas, no Porto, que registou uma lotação de 50.000 pessoas para presenciar o confronto ante a República da Irlanda, o primeiro adversário dos lusos. Irlandeses que não eram estranhos ao combinado luso, já que semanas antes ambos os conjuntos haviam-se defrontado em jogo de preparação para o Mundial, tendo então Portugal vencido por 1-0. Mas neste jogo a doer, só deu mesmo Portugal. Não foi um jogo complicado, muito pelo contrário, mostrou sim que os portugueses eram nitidamente superiores em todos os capítulos, e não foi de estranhar que cedo os lusos se adiantassem no marcador por intermédio de João Vieira Pinto, aos 17 minutos. O golo inaugural deste Mundial de 91 foi construído pelo tridente atacante de Portugal, constituído por João Vieira Pinto, Toni e Gil. Os irlandeses foram sempre presa fácil para os putos de Queirós, e raramente incomodaram o guardião Brassard, que foi quase um mero espectador. Os lusos dilataram o marcador na segunda parte, na sequência de um slalon de Capucho que rompeu desde o meio campo irlandês até à baliza de Connoly, à passagem do minuto 78. Estava consumada a vitória, a qual poderia ter sido ainda mais dilatada não tivesse Figo desperdiçado uma grande penalidade a castigar uma falta sobre Gil. Portugal entrava assim com o pé direito na defesa do ceptro.

Ante a Irlanda a seleção portuguesa jogou com: (1) Brassard; (7) Abel Xavier, (6) Jorge Costa, (11) Rui Bento e (8) Paulo Torres; (4) Peixe, (3) Figo e (5) Rui Costa ((13) Capucho, aos 68m); (2) Gil ((17) João Oliveira Pinto, aos 88m), (14) João Vieira Pinto e (18) Toni.

O duro jogo com a Argentina
Três dias depois, a seleção desceu até à capital, Lisboa, onde no velho Estádio da Luz defrontou o segundo adversário do grupo, a Argentina. Foi um jogo marcado pela positiva e pela negativa. Pela positiva porque assistimos a mais uma bela exibição dos lusos, ao passo que a parte negativa prende-se com a vincada indisciplina dos jovens argentinos a quem só a vitória interessava após uma surpreendente derrota ante a Coreia no primeiro encontro. A figura do jogo acabou mesmo por ser o árbitro, o belga Guy Goethals, obrigado a expulsar três jogadores sul-americanos que usaram e abusaram da indisciplina. Os golos surgiram na segunda parte, o primeiro apontado por Gil, aos 56 minutos, na sequência de uma arrancada desde o meio campo contrário que foi concluído com um potente remate à entrada da área e que ainda embateu no defesa Cocca, acabando por trair o guardião Díaz. No seguimento de um mau passe de Bacedas surgiu o segundo golo de Portugal, aos 78 minutos. João Vieira Pinto cruzou para a área onde Toni foi impedido por Pochettino de chegar à bola tendo o árbitro marcado de pronto a grande penalidade. Na conversão, o pé canhão da seleção portuguesa, Paulo Torres, não deu hipótese ao guardião das pampas e fez o 2-0. O 3-0 final surgiu por intermédio de Toni, que sozinho isolado à entrada da pequena área ante Díaz controla a bola com o peito para em seguida encher o pé que levou o esférico para o fundo das redes. Este triunfo gordo garantiu de pronto a passagem de Portugal à fase seguinte.

Ante a Argentina os lusos jogaram com: (1) Brassard; (7) Abel Xavier, (6) Jorge Costa, (11) Rui Bento e (8) Paulo Torres; (4) Peixe, (3) Figo e (5) Rui Costa ((13) Capucho, aos 70m); (2) Gil ((9) Luís Miguel, aos 78m), (14) João Vieira Pinto e (18) Toni.

Com o apuramento garantido Carlos Queirós fez cinco alterações no seu onze no jogo ante a Coreia, realizado no Estádio da Luz no dia 20 de junho. As mudanças não se fizeram notar, já que Portugal realizou outra exibição muito competente e convincente. O único golo do encontro surgiu na sequência de um livre indireto, ao minuto 42, a castigar o facto de o guardião coreano não ter libertado de imediato a bola e perdido mais tempo com ela nas mãos do que as leis permitem. Na conversão, o homem das bolas paradas da seleção lusa, Paulo Torres, não perdoou a enviou uma verdadeiro míssil para o fundo das redes asiáticas.

Este triunfo garantiu a Portugal o 1.º lugar do Grupo A deste Mundial. Neste derradeiro encontro da fase de grupos os portugueses jogaram com: (12) Tó Ferreira; (10) Nélson, (6) Jorge Costa, (11) Rui Bento e (8) Paulo Torres; (4) Peixe ((3) Figo, aos 46m), (16) Cau e (15) Tulipa; (17) João Oliveira Pinto, (14) João Vieira Pinto e (18) Toni ((9) Luís Miguel, aos 68m).

Figo e Rui Costa cantam o hino
Na fase a eliminar, isto é, nos quartos-de-final, Portugal enfrentou um osso duro de roer, o México. Na Luz, o muito público que lotou o recinto lisboeta teve razões para festejar logo aos 2 minutos. João Vieira Pinto é derrubado dentro da área e o árbitro assinala penalti. Na conversão Paulo Torres atirou a bola para um lado e o guarda-redes foi para o outro, apontando o primeiro golo dos lusos. Porém, este golo madrugador adormeceu os lusitanos, tendo os mexicanos reagido, e aos 35 minutos Mendoza empatou de cabeça. Este seria o primeiro e único golo sofrido por Portugal ao longo de todo o torneio. O resultado não se alterou até aos 90 minutos e foi necessário recorrer-se a um prolongamento, onde Portugal bebeu do instinto matador do ponta de lança Toni, que numa cabeçada vistosa fez o 2-1 que abriu a porta das meias-finais aos miúdos de Queirós. Neste jogo Portugal jogou com: (1) Brassard; (7) Abel Xavier, (11) Rui Bento, (6) Jorge Costa e (8) Paulo Torres; (4) Peixe, (3) Figo e (5) Rui Costa ((10 Nélson, aos 90+1m); (2) Gil, (14) João Vieira Pinto ((13 Capucho, aos 70m) e (18) Toni.

Faltava um pequeno passo para Portugal atingir a final, mas para isso tinha de se desenvencilhar da surpresa do torneio, a Austrália. Novamente num Estádio da Luz repleto (112.000 espectadores) assistiu-se a uma obra de arte daquele que um dia viria a ser conhecido como o maestro, um puro talento, de seu nome Rui Costa. O jovem jogador do Benfica pegou na bola ainda no meio campo australiano, e de fora da área disferiu um vistoso remate que só parou no fundo das redes de Bosnich. Este golo solitário, apontado a um minuto do intervalo, garantiu a segunda final de um Mundial de sub-20 a Portugal, quer atuou com: (1) Brassard; (7) Abel Xavier, (11) Rui Bento, (6) Jorge Costa e (8) Paulo Torres; (4) Peixe, (3) Figo e (5) Rui Costa; (2) Gil ((13 Capucho, aos 67m), (14) João Vieira Pinto e (18) Toni ((17) João Oliveira Pinto, aos 89m).

E eis que chegávamos ao dia 30 de junho, o dia da grande final, ante o poderoso Brasil, o eterno candidato a vencer todas as competições em que entra. Ainda antes da final ser jogada, Carlos Queirós levou os seus pupilos até à praia, segundo confessou Gil já em 2020 ao jornal Record. «Lembro-me que, um dia antes da final com o Brasil, o professor Queiroz levou-nos à praia do Guincho para nos motivar e ficámos só em cima das rochas a olhar para o mar. Ele pediu-nos para ficarmos lá a relaxar. Perguntou-nos o que estávamos a ver e nós dissemos que víamos uma parte calma das ondas mais para a frente e outra fase em que as ondas batiam nas rochas. Disse-nos ‘é assim que quero que vocês joguem amanhã!’. Ficámos a olhar uns para os outros a pensar ‘Como assim?’ e ele explicou o seguinte: ‘O que eu quero é que a defesa e o meio-campo estejam calmos como aquela fase do mar que veem mais perto do horizonte e que o ataque seja bravo como estas ondas que batem nas rochas’. Como jogadores inteligentes que éramos, tentámos colocar em prática aquilo que ele pediu».

O Estádio da Luz na maior enchente da sua história,
na tarde de 30 de junho de 1991

Com capacidade para 120.000 espectadores naquela tarde o velho Estádio da Luz albergou muito mais do que isso. Foram 127.000 almas que se acotovelaram para ver in loco mais um capítulo dourado da história do nosso futebol. Aquela imagem, do inferno da Luz a arrebentar pelas costuras, jamais se tinha visto num jogo da seleção nacional, prova de que o povo estava com os miúdos de Queirós. Bilhetes a 800 escudos que se venderam a 8 contos, segundo recorda o ilustre jornalista de A Bola, António Simões, anos mais tarde numa edição especial que o jornal da Travessa da Queimada publicou em jeito de homenagem à Geração de Ouro. Outra imagem marcante foi a cerimónia dos hinos, com as lágrimas de emoção de Peixe - que haveria de ser considerado o melhor jogador deste Mundial - a correrem o Mundo quando A Portuguesa entoou. Quanto ao jogo em si assistiu-se a um encontro de qualidade ao qual apenas faltaram os golos.

Figo em duelo com Roberto Carlos
Na primeira parte destaca-se uma perdida flagrante de Portugal, quando João Vieira Pinto atirou ao poste da baliza de Roger. Contudo, foram os brasileiros a dominar, apontando dois golos que no entanto seriam anulados pelo árbitro argentino Francisco Lamolina. O guarda-redes Roger, por exemplo, considerou os lances duvidosos, embora reconhecendo que Portugal tinha uma equipa qualificada, com nomes que fizeram história no país, posteriormente. Na segunda parte os portugueses corrigiram a sua postura, melhoraram muito nas transições para o ataque, tendo valido numa ou noutra ocasião a inspiração de Roger. Com 0-0 no final dos 90 minutos jogou-se um prolongamento, onde os portugueses foram melhores no aspeto físico. Neste período brilhou Brassard, que com um punhado de defesas evitou males maiores para Portugal. Ainda antes das grandes penalidades, Gil, de cabeça, teve uma oportunidade soberana para desfazer o nulo, mas a bola saiu um tudo ou nada acima da barra.

E eis que chegávamos aos mal fadados penaltis. Na fatídica decisão, Roger considera que a falta de experiência pesou na equipa brasileira, sendo que o centro-campista Marquinhos e o atacante Élber falharam as respetivas cobranças. O pontapé do título esteve nos pés de Rui Costa, que calmo e frio bateu Roger e fez de Portugal BI-CAMPEÃO DO MUNDO. A Luz veio abaixo com a onda de alegria que se gerou em seguida. E ainda mais alegre ficou quando o então Presidente da República, Mário Soares, entregou a taça de campeão mundial ao capitão João Vieira Pinto.

Na grande final Portugal jogou com: (1) Brassard; (10) Nélson ((15 Tulipa, aos 10m, (13) Capucho, aos 70m), (11) Rui Bento, (6) Jorge Costa e (8) Paulo Torres; (4) Peixe, (3) Figo e (5) Rui Costa; (2) Gil, (14 João Vieira Pinto e (18) Toni.

Gente feliz com lágrimas e o amuleto de Queirós na final


Esta vitória fez naturalmente transbordar de felicidade a nação lusitana. Exemplo disso era Eusébio, figura lendária do futebol luso, que no final do jogo não escondeu as lágrimas, afirmando ao jornal A Bola que «muitas pessoas julgaram que o Brasil iria ganhar, mas os miúdos nunca se intimidaram e venceram. Que espetáculo! Ah, mas para mim o mais bonito da festa foi a união de Portugal, acabaram-se as guerras entre clubes, ninguém era do Benfica, do FC Porto, ou do Sporting».

Quem igualmente se desfez em elogios à seleção portuguesa foi Joseph Blatter, dirigente da FIFA, que afirmaria a A Bola que «Carlos Queirós e os seus jogadores praticam o verdadeiro futebol do futuro, porque com eles é possível ver toda a gente em movimento, atletas de boa técnica a pensar no coletivo, rapidez e…golos».

E se uns choravam de alegria outros pareciam conformados com o resultado final, como foi o exemplo do selecionador brasileiro, Ernesto Paulo, que à reportagem de A Bola disse que «Portugal foi um justo vencedor mas estava escrito que os campeões tinham de ser os caras. Vi logo no primeiro remate a bola bateu na trave e ressaltou para dentro da nossa baliza».

Carlos Queirós
Carlos Queirós era igualmente um dos homens mais feliz naquela noite em Lisboa, afinal de contas tinha conseguido algo que meia dúzia de anos antes qualquer pessoa duvidaria: colocar Portugal no topo do Mundo em duas ocasiões consecutivas. Numa entrevista concedida ao jornal A Bola, anos mais tarde, contou a história do amuleto que lhe foi parar às mãos na final do Mundial de 1991. «Às duas por três vamos para a segunda parte do prolongamento, com o Brasil, o jogo estava difícil, muito fechado, com poucas oportunidades de golo, e das poucas uma ou outra de partir o coração, e eu tinha a perceção de que quem marcasse vencia. Falei com os meus jogadores e quando fui para me sentar no banco há uma pessoa, que julgo que era um bombeiro, que chega ao pé de mim e diz-me assim: “professor, agarre nisto, aperte com força que isto vai dar-lhe sorte”. Eu nem vi a cara da pessoa, para dizer a verdade, naquela altura tinha-me agarrado a qualquer coisa. Ele disse-me que daria sorte e apertei aquilo instintivamente. Dei só uma mirada muito rápida, antes do jogo recomeçar, era um vidrinho muito pequenino, parecia até uma turmalina, uma daquelas pedras semipreciosas, e fiz o resto do prolongamento sempre com aquilo na mão e nos penaltis então ainda apertei com mais força, e lembro-me de falar com os jogadores antes dos momentos decisivos com a mão direita fechada. Ganhámos».

Ambiente de descontração no seio da equipa de 1991

Muitos dos jogadores que integraram a Geração de Ouro do futebol luso – quer os de Riade, quer os de Lisboa - tiveram nos anos seguintes carreiras ao mais alto nível no futebol internacional, jogaram nos maiores clubes do Mundo e venceram troféus de alto gabarito no futebol sénior. Lembramo-nos de Luís Figo, Rui Costa, João Vieira Pinto, Fernando Couto, Paulo Sousa, ou Jorge Costa. Outros tiveram carreiras medianas, deambulando por clubes de média/pequena dimensão do nosso futebol, e outros simplesmente desapareceram. No entanto, uma coisa é certa: ninguém se esquece do que todos eles fizeram por Portugal.

A seleção lusa que (re)conquistou o Mundo em 1991

Entrevista com os campeões do Mundo Luís Miguel e Cau

Não quisemos deixar de passar este 30.º aniversário da conquista do bi-campeonato do Mundo de sub-20 sem falar com quem de perto viveu as emoções da conquista de 1991. E para isso convidámos a vir ao Museu Virtual do Futebol dois dos campeões de Lisboa. É verdade, tivemos o privilégio de abrir as portas do nosso Museu a dois dos 18 heróis que em 91 escreveram uma das mais brilhantes páginas do nosso futebol. Damos pois as boas vindas a Cau e a Luís Miguel, que nas próximas linhas falam das emoções vividas naquele célebre campeonato do Mundo.  

Cau segura a taça ao lado
de Gil e Tulipa
Museu Virtual do Futebol (MVF): Que recordações têm daquele Mundial de 91 e da forma como terminou, isto é, com o título de campeão do Mundo?

Luís Miguel: No meu caso, as recordações que me vêm logo à cabeça foi a grave lesão que me impediu de dar o contributo normal. Sem saber, fui campeão do Mundo com um pé partido (fratura do escafoide). Recordo-me também do último penalti, onde dei um sprint e somente dei conta que o pé me doía quando parei. No momento foi uma sensação incrível, jamais vivida.

Cau: Pessoalmente, ser campeão do Mundo além de ser um título duma grandeza universal, foi um marco histórico, além de me alimentar o ego irei sempre lembrar que um dia fui campeão do Mundo por um país com muita história.

MVF: Na antecâmara do Mundial de 1991 julgavam ser possível seguir as pisadas da equipa de Riade, que dois anos antes havia sido campeã do Mundo?

Luís Miguel: Sim. Até ao Mundial, e desde os sub-15, só tínhamos perdido um jogo no final dos anos 90. Por isso, sabíamos que erámos candidatos a lutar pelo título. Tínhamos um grupo fantástico, que já estava junto há imenso tempo e erámos treinados pelo melhor treinador na altura.

Cau: Sim, porque quando se entra numa competição como esta não há favoritos, mas há que respeitar equipas como o Brasil, a Argentina, etc. Só que tínhamos um grupo muito forte e determinado, todos tinham a ambição de vencer. Mas é lógico que olhando para os mundialistas de Riade nos deu mais convicção de que podíamos vencer o Mundial em Lisboa.

Luís Miguel com a medalha de campeão
do Mundo ao lado de Tulipa e Capucho
MVF: O que vos disse Carlos Queirós antes desse Mundial de 91, de que forma ele foi importante na criação de uma mentalidade ganhadora que a seleção viria a ter?

Luís Miguel: O professor acreditava e conhecia bem as nossas qualidades, quer no aspeto individual, quer no aspeto coletivo. Foram, salvo o erro, 6 semanas de trabalho que antecederam o primeiro jogo. Nesse período de estágio, lembro-me de o professor dizer várias vezes que Portugal iria revalidar o título.

Cau: O professor Carlos Queirós incutia-nos na mente que podíamos ganhar jogo a jogo, e que tínhamos todos os pergaminhos para o conseguir. Mas os virtuosos jogadores transmitiam a confiança para as vitórias, sem dúvida que era um grupo recheado só de grandes craques.

MVF: Jogar em casa, no nosso próprio país, também vos ajudou a conquistar esse título, certo?

Luís Miguel: Sim, o 12.º jogador teve um papel muito importante, embora jogando em casa e a jogar para defender o título poderia trazer uma pressão maior, mas com o decorrer do estágio somente nos focamos no jogo a jogo. Lembro-me do trajeto que fazíamos para os jogos do hotel até ao estádio, as ruas estavam repletas de adeptos a apoiar. Quando entrávamos no relvado até arrepiava.

Cau: Com o nosso primeiro jogo nas Antas, Estádio do F. C. Porto, na zona norte do país, logicamente que o público afeto à seleção nos deu força, incentivou-nos para o começo, e como tal os adeptos do norte são do outro Mundo, e a eles desejo um Mundo de gratidão.

Cau, o primeiro da esquerda para a direita,
na fila de baixo em 1991
MVF: Na vossa perspetiva qual foi o jogo mais difícil desse Mundial, aquele que mais trabalho vos deu e porquê?

Luís Miguel: Na minha opinião o jogo mais difícil foi nos quartos-de-final contra o México. Ganhámos no prolongamento, mas foi um jogo muito equilibrado em que qualquer um poderia ter vencido. O jogo da final, principalmente na 1.ª parte foi muito difícil. Fomos dominados pelo Brasil, mas com o decorrer do jogo crescemos e fomos melhores.

Cau: Sem termos tido jogos fáceis, penso que com a Argentina foi um jogo muito atrativo e muito agressivo, entre duas equipas muito bem equilibradas, com dinâmicas de competência futebolista. Depois aquela dolorosa final com o Brasil, que grande jogo, num estádio repleto de público, quase com 130 mil adeptos, foi e é de arrepiar. Muita emoção, alegria, adrenalina, crer, força, coragem, todos tínhamos aquela crença de que íamos vencer aquela final, que mudou o futebol português. Só agradeço ao povo português e das colónias pelos incentivos que chegavam de toda parte do Mundo, e em especial dos países da língua de Camões.

MVF: Aquela era uma seleção muito virtuosa, nas palavras do próprio Carlos Queirós, e ao mesmo tempo rebelde. Foi essa rebeldia aliada ao virtuosismo que vos levou ao título, por outras palavras, qual foi o segredo, ou a chave, do êxito?

Luís Miguel: Penso que em comparação com a seleção anterior, a nossa tinha mais qualidade a nível individual. Tínhamos jogadores que de um momento para o outro, resolviam os jogos. Mas penso que a chave do sucesso foi a qualidade do professor Carlos Queirós e o facto de estarmos juntos há 6 anos e de termos passado por várias finais (Sub-16 e Sub-18).

Cau
MVF: Surpreendeu-vos ver anos mais tarde jogadores como Figo, Rui Costa ou João Vieira Pinto atingirem o sucesso no patamar sénior? Ou pelo contrário, já estavam à espera que eles se afirmassem?

Luís Miguel: Em nada me surpreendeu. Tinham uma qualidade e uma mentalidade acima da média.

Cau: Todos acabaram por fazer carreira, sabendo que alguns colegas tiveram mais sucesso do que outros, mas a vida é mesma assim. Só tenho que agradecer aos demais amigos e colegas que fizeram história no futebol português. Fiz uma boa carreira como jogador, sabendo que a minha ambição nunca foi a de sair para equipas estrangeiras, por isso só tenho que agradecer o que a vida me deu.

MVF: E a final num estádio da Luz com 127.000 pessoas, ainda se lembram?

Luís Miguel: Claro que me lembro, jamais esquecerei. Eu estava no banco de suplentes ao lado do Capucho e tínhamos que gritar para falar um com o outro. Foram 70 pessoas da minha família ao jogo, em que levaram um cartaz bem grande que dizia “Luís Miguel amigo, a tua família está contigo”. Inesquecível.

Cau: A final foi marcante, o Mundo parou e quem ganhou foi o nosso Portugal. Foi arrepiante, nunca mais vimos um estádio repleto com aquela massa humana, quase 130 mil nas bancadas.

Luís Miguel
MVF: Qual foi para vocês o momento mais emocionante deste Mundial?

Luís Miguel: Foi aquele penalti batido pelo Rui Costa. A nossa seleção vinha de duas derrotas por grandes penalidades nos Europeus de Sub-16 e 18 e quando o árbitro apitou para o final do prolongamento veio à memória aquelas finais perdidas e de ter pensado: “hoje vamos ganhar”.

Cau: Considero que todos os momentos foram de emoção, mas ver o povo cabo-verdiano a vibrar, a minha família num delírio, vendo Portugal numa adrenalina contagiante, todos alegres, foram momentos de satisfação e de gratidão por tudo.


Vídeo: A música criada para este Mundial de 1991 e que foi cantada pelos jogadores da seleção portuguesa

Vídeo: O compacto de todos os jogos de Portugal neste trajeto de glória

quinta-feira, abril 22, 2021

Competições jovens (6)... Campeonato do Mundo de Sub-20/Chile 1987

Rotulados como os "brasileiros da Europa" os jugoslavos guardam na sua História grandes e memoráveis equipas de futebol, que nas suas diferentes eras maravilharam os adeptos do Belo Jogo. Combinados que ainda hoje permanecem na memória de muitos de nós graças à magia do seu futebol. Um desses casos é o da geração dourada do futebol jugoslavo que despontou em 1987 na 6.ª edição do Campeonato do Mundo de Sub-20, que nesse ano teve lugar no Chile. Prosinecki, Boban, Suker, Mijatovic, Lekovic, Stimac, Jarni, eram alguns dos prodígios que naquele ano encantaram o Planeta da Bola com a sua arte futebolística. Coletivamente forte, esta era uma equipa onde na qual todos se empenhavam nas tarefas de marcação, para posteriormente partir para o ataque a partir da recuperação da bola. Um conjunto que trabalhava bem os passes, e que também sabia jogar em velocidade e que deslumbrava a plateia pelas jogadas bem construídas, pelos lances plásticos, pelos muitos golos apontados. E de forma merecida aquele grupo acabou por sair do Chile com o título mundial no bolso. Porém, e poucos anos após esta conquista épica, este coletivo acabou por se desfragmentar, como consequência da guerra dos Balcãs, que acabou por retalhar a hoje ex-Jugoslávia. Individualmente muitos destes jogadores atingiram um nível de excelência e glória no patamar sénior, mas do ponto de vista coletivo viram-se obrigados a separarem-se e a deixar no imaginário de todos os que os viram atuar a questão de como seria aquela mágica Jugoslávia no patamar sénior na década de 90? É uma questão para a qual nunca teremos uma resposta...

Mas concentremo-nos em factos concretos, e no Mundial de juniores que em 1987 se realizou no Chile. Um total de 650.000 espectadores assistiram aos 32 jogos de um torneio que teve como palcos as cidades de Santiago, Concepción, Valparaíso e Antofagasta e onde o futebol de ataque foi uma evidência como comprovam os 86 golos apontados. Este Mundial teve ainda a particularidade de nenhum dos jogos ter terminado sem golos. O sorteio deste Campeonato do Mundo de juniores da FIFA foi transmitido em direto desde o Sheraton San Cristóbal Hotel, em Santiago, no dia 29

maio de 1987, tendo os 16 finalistas sido divididos em quatro grupos. O Chile voltava assim a realizar uma competição futebolística de âmbito planetário, 25 anos após o Campeonato do Mundo de 1962, sendo que o torneio juvenil da FIFA serviu pois para homenagear muitos jogadores da seleção chilena de 62 que alcançaram o terceiro lugar naquele Mundial que seria ganho pelo Brasil liderado por Mané Garrincha.

Grupo A: Arte jugoslava encanta Santiago

Chile-Jugoslávia
A capital do Chile, Santiago, sediou os jogos do Grupo A, que para além da equipa da casa contava ainda com o Togo, a Austrália e a Jugoslávia. Neste grupo, cujos jogos foram disputados no Estádio Nacional de Santiago, assistiu-se a diferentes estilos de jogo oriundos de várias partes do globo. Da Europa, viajaram os jugoslavos, que tão só foram 5.º classificados na fase de apuramento da UEFA, mas que assim chegados ao Chile de pronto o caso mudou de figura. A Jugoslávia não enviou a este Mundial os seus melhores jogadores, exemplo disso foi Aleksandar Djordjevic, capitão da seleção de sub-18, bem como Slaven Bilic, Igor Berecko, Dejan Vukicevic, Igor Pejovic e Seho Sabotic, todos eles lesionados, também não viajaram para o Chile. Por sua vez, Boban Babunski não seria convocado pelo facto de estar em litígio com o seu clube, o Vardar Skopje. A federação do país dos Balcãs preteriu inclusive Sinisa Mihajlovic, Vladimir Jugovic e Alen Boksic, três dos melhores jogadores desta geração, como aliás, haveria de ficar provado na década seguinte. Os dirigentes jugoslavos preferiram que este trio de artistas permanecesse nos seus respetivos clubes, para ganhar experiência no campeonato nacional. E para comandar o lote de craques que viajou para a América do Sul estava Mirko Josic, um treinador de 47 anos que tinha no seu currículo uma vasta experiência nas seleções mais jovens da Jugoslávia. Josic passou por todas os escalões de formação, dos sub-16 aos sub-21, acumulando 15 anos de trabalho para a federação  do seu país. Ele reuniu um conjunto de adolescentes ainda sem grande projeção no futebol, que estavam ainda no início das suas carreiras. Nomes como Robert Prosinecki, Davor Suker, Predrag Mijatovic, Zvonimir Boban, entre outros, figuravam na lista que viajou para o Chile. Não havia porém grande entusiasmo e acima de tudo confiança no grupo liderado por Josic. A provar isto o facto de apenas um jornalista ter viajado para a América do Sul para acompanhar a seleção nesta sua segunda participação num Mundial de juniores (a primeira havia sido em 1979). Toma Mihajlovic, o referido jornalista, disse anos mais tarde que «ninguém tinha quaisquer expetativas em relação à seleção. Nós pensámos que eles iam jogar os três jogos da fase de grupos e depois voltariam para casa. Mas quando chegaram ao Chile, os jogadores mudaram as suas expressões. Eles encontraram um ótimo país e boas acomodações em excelentes hotéis».

Togo-Chile
Para além dos europeus estava o Togo, vice-campeão de África, a Austrália, vencedor da zona de apuramento da Oceânia, e a seleção da casa, o Chile. O jogo de abertura foi entre o Chile e a Jugoslávia, e apesar de chuvas torrenciais que assolaram Santiago, o que tornou o relvado do Estado Nacional impraticável para o futebol, 60 000 espetadores presenciaram um bom encontro em que os europeus de leste venceram por 4-2. Neste belo jogo os jugoslavos fizeram bom proveito de alguns erros da defesa chilena. No outro jogo da 1.ª jornada do Grupo A Togo e Austrália tiveram um mau desempenho, sobretudo a seleção africana, que fez muitas faltas. Embora todos eles tivessem habilidade para fazer melhor, nenhum dos jogadores usou essas características técnicas nesta partida. Durante a primeira metade, os australianos ainda estiveram por cima dos acontecimentos, mas não conseguiram manter esta performance durante todo o jogo. Por sua vez, os africanos tiveram uma série de oportunidades para marcar, mas acabariam por ser desperdiçadas, falhando inclusive uma grande penalidade. No meio de tanto desperdício os golos acabariam por chegar para o lado australiano, que apontou dois, conquistando assim uma vitória descolorida.

Chile-Austrália

Na 2.ª jornada vitórias para o Chile sobre o Togo (3-0) e da Jugoslávia ante a Austrália (4-0). Tanto o Chile como o Togo apostaram tudo neste jogo, pois a derrota significaria a eliminação para um deles. Em termos técnicos e táticos este jogo ficou muito aquém das expetativas, valendo apenas a veia goleadora dos chilenos que assim continuavam a sonhar com o apuramento para a fase seguinte. Jogando mais uma vez debaixo de uma enorme tempestade, os jugoslavos tiveram um convincente desempenho contra os australianos, que por sua vez mostraram um potencial técnico considerável, mas não tiveram argumentos para travar a máquina de marcar golos em que se tornaram os europeus.

Chile

E para a derradeira jornada do grupo, nova goleada para a Jugoslávia (4-1). Apesar de uma marcação cerrada da defesa do Togo, os europeus mostraram-se claramente superiores, fazendo o natural pleno de vitórias na fase de grupo e garantindo assim a presença nos quartos-de-final. Na entrada para esta última jornada apenas uma dúvida permanecia, ou seja, quem iria acompanhar a Jugoslávia na passagem à fase a eliminar do Mundial. Apesar de três boas exibições, onde nas quais mostraram boa habilidade técnica e boa organização tática, os australianos fizeram as malas e regressaram a casa após uma derrota (0-2) com a seleção anfitriã. Antes deste decisivo jogo, era claro que  para os socceroos apenas uma vitória lhes daria uma vaga na próxima fase, sendo que por isso o técnico Les Scheinflug decidiu que a tática da equipe seria tenta estabelecer um domínio no meio do campo, e durante os primeiros 20 minutos do jogo com o Chile a Austrália fez isso no sentido de depois sair para o ataque e marcar um golo. Por seu turno, os chilenos foram pacientes, esperando que esta postura dos australianos acabasse para depois partir à procura da baliza contrária. Lentamente, os anfitriões começaram a assumir o controlo da partida, chegando então por duas vezes com êxito à baliza dos australianos. Pela vitória no grupo a Jugoslávia teve direito a permanecer em Santiago, ao passo que o segundo colocado, o Chile, teve de viajar para Concepción, para lutar com a Itália por uma vaga nas meias-finais.

Grupo B: Squadra Azzurra surpreende os campeões mundiais em título

Brasil-Nigéria
Concepción recebeu os jogos do Grupo B, que além dos campeões mundiais em título, o Brasil, contava ainda com a Itália, a Nigéria e o Canadá. Os italianos chegavam ao Chile com a patente de terem sido vice-campeões da Europa da categoria, ao passo que a Nigéria o fazia na condição de campeã africana. Por sua vez, os canadianos, eram os campeões da CONCACAF. Na bolsa de apostas o Brasil partia como favorito a conquistar o grupo, embora os italianos tivessem esperanças de destronar os bi-campeões mundiais. Os nigerianos, apelidados de Super Águias, pretendiam conquistar o mundo do futebol, enquanto os canadianos não estavam muito preocupados com as outras equipas, já que assumidamente vinham ao Chile apenas com a intenção de ganhar experiência no futebol a este nível. 

O jogo de abertura entre Brasil e Nigéria foi disputado diante de uma multidão de 27.000 pessoas, tendo ambas as equipas exibido um futebol de ataque desde cedo em busca de um golo logo no início. O futebol jogado foi excelente, com um perfeito controle de bola, passes subtis, velocidade e toques artísticos inesperados que se sucediam em catadupa. Aos 20 minutos Alcindo abriu a torneia para uma enxurrada de golos brasileiros. A partir do tento inaugural os campeões mundiais passaram a dominar os amadores africanos e o avolumar do marcador até aos 4-0 finais foi surgindo de forma natural. Os africanos perderam toda a sua coesão à medida que os brasileiros iam marcando golo atrás de golo.

Itália
O outro jogo desta 1.ª jornada, entre a Itália e o Canadá, era considerado uma mera formalidade para os europeus, mas os canadianos acabariam por se revelar uma verdadeira surpresa, pois realizaram inúmeros contra-ataques a partir de uma defesa sólida. Durante o primeiro tempo, os seus jogadores de meio-campo e os atacantes muito móveis surpreenderam os italianos, que se revelaram incapazes de encontrar o antídoto para anular a tática dos norte-americanos, chegando ao intervalo a perder por 0-2. Após o descanso, os italianos contra-atacaram com todas as suas forças e acabaram de certa forma por serem compensados com o empate a dois golos com que terminou o encontro. Do mal o menos.

Nos encontros seguintes, os brasileiros pareciam não se incomodar muito com os pontos fortes e fracos dos seus oponentes; já que continuaram a demonstrar combinações curtas e rápidas. Contra os italianos, vocacionados para uma postura mais defensiva, os artistas da América do Sul ficaram presos no seu próprio estilo. Enfrentando uma seleção extremamente defensiva o esforço brasileiro no setor ofensivo não deu frutos, não conseguindo o escrete penetrar na sólida muralha defensiva azzurra. No segundo tempo, um dos raros ataques transalpinos matou o jogo. Aos 60 minutos Rizzolo bateu o desamparado Ronaldo e fez o único tento do encontro, fazendo cair assim o poderoso Brasil.

De ponto em ponto seguia o Canadá, que no encontro contra a Nigéria voltou a repetir o resultado do encontro inaugural ante os italianos: 2-2.

Brasil
E chegados à derradeira e decisiva jornada do Grupo B, o Brasil entrava em campo a precisar de uma vitória ante o até então surpreendentemente e invencível Canadá para avançar para a fase seguinte. Os canadianos usaram a mesma tática que a Itália havia usado na vitória anterior contra os brasileiros, estratégia que parecia estar a dar certo até ao golaço de André Cruz a sensivelmente oito minutos do final. Por pouco o Canadá não provocava uma outra enorme surpresa, e no final saíram de cabeça erguida deste Mundial. Caso tivessem apostado tudo no ataque contra o Brasil os norte-americanos seriam goleados, tal foi a força ofensiva que o escrete implementou, assim, saíram derrotados pela margem mínima, ficando a prova de que o Brasil sentia grandes dificuldades perante equipas que atuassem numa tática mais defensiva.

Canadá
Depois de um empate a dois contra o Canadá a única esperança da Nigéria de avançar para a fase seguinte era vencer a Itália por uma margem mínima de três golos. Jogando mais com o coração do que com a cabeça, os africanos teimosamente bombeavam bolas para a grande área italiana, que iam sendo recolhidas sem grande perigo pelo guardião Limonta. Vendo que desta forma os seus adversários dificilmente iriam marcar, os azzurri saíram mais para o ataque e puniram as "super águias" com dois golos no espaço de um minuto. 2-0 o resultado final que qualificava a Itália e mandava para casa a Nigéria. O desempenho das quatro equipas em Concepción pode ser resumido da seguinte forma: a Itália provou que podia passar do ataque para a defesa ou vice-versa conforme a necessidade do momento de jogo; enquanto que os brasileiros ficaram presos ao seu estilo atraente, fosse qual fosse o momento do jogo e mostraram um futebol artístico e divertido. Os canadianos provaram que o estilo britânico ainda era uma força a contar; enquanto que os nigerianos foram uma deceção para todos. A falta de decisão da equipa e a sua incapacidade de realizar um plano tático de uma forma disciplinada, fê-los embarcar mais cedo para Lagos, enquanto que o Brasil foi para Santiago e a Itália ficou em Concepción para a próxima etapa do certame.

Grupo C: Campeões da Europa e da América do Sul com sortes diferentes

Colômbia-Barém
O Grupo C, sediado em Valparaiso, era tido como um dos mais difíceis, desde logo porque nele participam os campeões da Europa (a República Democrática da Alemanha) e da América do Sul (a Colômbia).

República Democrática da Alemanha (RDA) e a Escócia enfrentaram-se na 1.ª jornada do grupo, e com base no resultado com a partida terminou ambas as seleções foram capazes de ajustar as suas táticas e adequar o seu estilo de jogo para os dois jogos seguintes. O que foi decisivo para estas duas equipas foi o facto de que elas eram mais capazes de lidar com a tensão nervosa e a parte mental que um torneio do nível de um campeonato do Mundo exige do que as duas outras seleções do grupo, a Colômbia e o Barém. No encontro com os alemães de leste os escoceses marcaram primeiro, algo que lhe deu confiança para impor o seu estilo de jogo britânico, e nem mesmo o empate germânico os deitou abaixo. Os britânicos confiavam nas suas bem conhecidas qualidades de boa organização tática, bom preparo físico e superiores habilidades profissionais, especialmente no futebol jogado pelo ar, ao passo que a equipa da RDA também se organizou depois de um período em que esteve desencontrada em campo. No entanto, a sua estratégia nunca foi realmente capaz de moldar o jogo e partir para um resultado positivo. A sua superioridade era apenas uma ilusão, e embora os escoceses tivessem menos oportunidades eram mais perigosos na frente da baliza, acabando por ganhar a partida por 2-1.

No outro encontro do grupo a Colômbia conseguiu uma triste vitória diante do desconhecido Barém, por 1-0, facto que a fazia sonhar com um apuramento que não viria a acontecer. Os europeus acabariam por dominar o grupo, graças ao seu futebol de passes longos, ataque pelos flancos, e força no futebol aéreo,  tanto na defesa como no ataque, ao passo quer os representantes do sul da América como da Ásia denotaram muitas dificuldades para lidar com este tipo de jogo. A Colômbia e o Barém exibiram um estilo de jogo mais individual, onde os seus jogadores optaram mais pelo drible do que pela procura do passe para desbravar o caminho das balizas contrárias. Porém, em comum as quatro equipas tinham como fraqueza a finalização: após um bom trabalho no meio-campo ou nas laterais os atacantes na maior parte das vezes falhavam golos de forma escandalosa. Nenhuma equipa teve um trabalho realmente criativo, um estilo de jogo pensador, capaz de moldar o curso de um jogo, e nenhuma foi capaz de mostrar muito no sentido de obter um padrão coeso entre defesa, meio-campo e o ataque.

Grupo D: Disciplina foi a nota de realce

RFA-Estados Unidos da América
No Grupo D um facto veio ao de cima: a disciplina. As quatro seleções que fizeram parte deste grupo sediado em Antofagasta estiveram imaculadas no que diz respeito ao comportamento dentro do campo. Ninguém foi expulso, não houve incidentes ou  irritações verbais, e as decisões dos árbitros foram sempre aceites e sem críticas. Durante as duas semanas de competição todas as seleções focaram alojadas no mesmo hotel, construindo desta forma uma atmosfera amigável que se estendeu dentro do relvado. Sobretudo os sauditas, que com os seus costumes contribuíram muito para que obtivesse esse espírito de camaradagem e foi uma pena que não tivessem somado qualquer ponto nos três jogos realizados. Os resultados em todos os jogos do grupo correram exatamente de acordo com as previsões, e a classificação final é um verdadeiro reflexo de como as quatro equipas foram olhadas/analisadas antes de a bola rolar. A favorita era, e foi, a República Federal da Alemanha (RFA), e bastou o primeiro jogo, ante a Arábia Saudita, para que todos vissem não apenas o poderio físico dos alemães mas também a apurada habilidade técnica dos seus jogadores. Sem grandes dificuldades a RDA bateu os sauditas por 3-0 e repetiu o resultado no encontro seguinte ante a Bulgária onde pontificava a estrela Emil Kostadinov. Com o lugar na próxima fase garantido, os alemães abrandaram um pouco no terceiro jogo da fase de grupos, ante a bem organizada equipa dos Estados Unidos da América, vencendo por 2-1. A equipa norte-americana foi uma das boas surpresas deste grupo, isto se considerando o então estado frágil do futebol yankee. A equipa foi melhorando de jogo para jogo, não apenas em termos de desempenho individual, mas também no que respeita à autoconfiança de toda o conjunto. Não lograriam porém a qualificação para a fase seguinte, a qual ficou na posse da Bulgária, que mesmo não apresentando um futebol convincente acabou por fazer companhia à RFA na passagem à fase seguinte. O jogo dos búlgaros não foi espetacular, mas foi bom o suficiente para garantir a qualificação. Quanto à Arábia Saudita só a simpatia dos seus jogadores sobressaiu numa equipa demasiado fraca.

Jugoslavos derrubam campeão e arrancam para a glória

Brasil-Jugoslávia
Santiago acolheu o primeiro encontro dos quartos-de-final, um duelo de "brasileiros", os da Europa (Jugoslávia) e os autênticos (Brasil). Foi um jogo em que a luta pelo domínio do meio de campo foi uma constante e que tornou este num grande jogo de futebol. Enquanto Bismarck e William dominaram o setor do miolo para os brasileiros, Boban e Mijucic faziam-no na mesma zona do terreno mas pelo lado direto para os jugoslavos , causando todo tipo de problema para a defesa brasileira com a sua inteligência e a sua velocidade, em especial na segunda parte. Nos primeiros minutos do jogo os jugoslavos pressionaram muito o seu rival, com Suker posicionado em zona de tiro no meio da defesa brasileira, enquanto Stimac, Prosinecki e Pavlovic tentavam assumir o comando no meio de campo e quando conseguiam isso lançavam a sua equipa para o ataque. Por sua vez, os brasileiros esforçaram-se para restabelecer o equilíbrio, desenhando algumas jogadas que tentavam levar perigo à baliza de Lekovic. No entanto, o guardião dos Balcãs estava em grande forma, e com as suas excelentes intervenções transmitiu calma e confiança aos seus colegas de campo. Contudo, um minuto antes do intervalo não conseguiu evitar o golo de Alcindo, que colocava o Brasil na frente.

Para a segunda parte o treinador jugoslavo Mirko Josic fez entrar Mijucic, como avançado, para o lugar de Pavlovic. O principal efeito dessa substituição foi o fortalecimento do flanco direito, onde Mijucic e Boban venceram praticamente todos os confrontos com os defesas brasileiros. Num desses ataques, Mijucic só pôde ser travado em falta e na cobrança do livre Boban centrou para Mijatovic cabecear com precisão para o empate. De novo o jogo ficou equilibrado, principalmente porque os jugoslavos abrandaram o ritmo. E quando já todos esperavam mais meia hora de prolongamento, eis que o golo decisivo foi apontado pelos jugoslavos. O líbero Jankovic fez uma corrida inesperada com a bola em direção à área brasileira, sendo que apenas uma falta à entrada da área interrompeu a sua caminhada. Na marcação do livre Prosinecki não deu hipóteses a Ronaldo e assim a Jugoslávia venceu um jogo que foi digno de uma final.

Chile-Itália
35.000 almas lotaram o estádio de Concepción para ver o Chile enfrentar a Itália. Foi um jogo emocionante, em que o resultado final foi decidido por uma muito discutida grande penalidade a favor da turma da casa. Camilo Pino converteu aos 73 minutos o castigo máximo que deu a vitória e o apuramento ao Chile, um triunfo celebrado durante toda a noite nas ruas do país. De forma geral os italianos foram melhores neste duelo, mas os chilenos foram mais decisivos e por isso avançaram para as meias-finais.

Em Valparaíso defrontaram-se Bulgária e a RDA, duas seleções que deram início a esta partida de uma forma controlada, ambas jogando com um libero para reforçar o setor defensivo. Com os alemães a jogarem a favor do vento as formações atuaram num 4-4-2 que não deixou muito espaço para rasgos individuais, tendo imperado o jogo coletivo. No início faltou inspiração e criatividade ao jogo; passes pobres e perdas constantes de bola eram lances frequentes numa partida então monótona. A meio do primeiro tempo o jogo ganhou algum interesse por intermédio dos búlgaros que criaram algumas oportunidades, sobretudo através das investidas de Kiriakov pelo flanco esquerdo, as quais representaram um problema para a defesa alemã. Por sua vez, a RDA jogava bem na retaguarda e optou por fazer um jogo de espera, tentando o sucesso ofensivo através de passes longos. Por várias ocasiões a RDA esteve em vias de ver as suas redes violadas, graças aos endiabrados Kostadinov e Slavtchev, valendo sempre a inspiração do guardião Saager. O segundo tempo começou com as duas equipas a neutralizarem-se mutuamente, embora a Bulgária tivesse atacado um pouco mais. Contudo, o golo que lhe daria algum conforto tardava em chegar. Até que num dos raros contra-ataques alemães o médio Matthias Sammer, que chamou à atenção neste Mundial pelas suas boas exibições, foi derrubado dentro da área, tendo Steinmann convertido com êxito o castigo máximo. Não era um resultado justo pelo que até então se via, mas o que é certo é que nos minutos seguinte os búlgaros continuavam a não traduzir em golo as incursões que faziam até à área germânica. A tarefa começou a ficar cada vez mais complicada para a Bulgária, até que a sete minutos do final, Wosz foi soberbamente servido por Sammer na sequência de um contra-ataque, deixando toda a defesa búlgara para à espera que o árbitro apitasse para um eventual fora de jogo, situação que não aconteceu e permitiu então a Wosz fazer o 2-0 final.

RFA-Escócia

O último jogo destes quartos-de-final decorreu em Antofagasta e colocou frente a frente a RFA e a Escócia. Este foi um jogo realmente bom para assistir, quer do ponto de vista desportivo, quer do ponto de vista técnico/tático e emocional. Foi uma verdadeira batalha, travada em todas as zonas do campo, com boas combinações, com ataques e respostas a acontecerem em rápida catadupa. Tanto equilíbrio só seria desfeito no desempate por grandes penalidades, tendo a sorte sorrido aos alemães.

 Jugoslavos vingam derrota no Europeu

RDA-Jugoslávia
A meia-final entre a Jugoslávia e a RDA foi uma repetição de uma partida dos quartos-de-final do último Campeonato da Europa de juniores, que havia terminado com a vitória dos alemães por 2-0. Estava pois em jogo uma possível vingança dos jogadores balcãs, mas o que se assistiu ao longo de 90 minutos foram duas equipas a quererem resolver as coisas dentro dos 90 minutos. Os jogadores de Mirko Josic dominaram a primeira parte em praticamente todos os aspectos. O libero jugoslavo Pavlicic, o centro campista Boban e os dois atacantes, Mijatovic e Suker, formaram um corredor que ofuscou a equipa alemã. A RDA tentou contrariar a evidente supremacia contrária, mas só teve sucesso nas raras ocasiões em que Sammer era lançado pelos seus companheiros com passes profundos, que no entanto raramente causaram perigo à muralha jugoslava.

Foi preciso esperar 30 minutos para ver o golo inaugural da partida: na sequência de um livre a bola foi parar aos pés de Simac, na zona de pénalti, tendo este não desperdiçado a oportunidade para bater Saager. Os restantes minutos da primeira parte foram mais equilibrados, mas a velocidade dos jugoslavos ainda lhes dava uma ligeira vantagem na balança do encontro. O treinador germânico alterou o seu xadrez na segunda parte, reforçando o ataque, decisão que foi recompensada logo aos 49 minutos, com Sammer a restabelecer a igualdade. 

Jugoslávia celebra passagem à final
A partir de então foi a RDA a mandar no jogo, um esforço que no entanto não seria compensado com golos, pois aos poucos o cansaço começou a fazer-se sentir na turma alemã, em particular a Sammer, o estratega da equipa. Ele que anos mais tarde iria vencer uma Bola de Ouro ao tornar-se num dos melhores médios do Mundo na década de 90. Por seu turno, os jugoslavos pareciam mais à vontade no jogo, mantendo a bola em constante movimento e assim cansar ainda mais os fatigados adversários. Não foi pois com surpresa que aos 70 minutos a Jugoslávia voltasse a assumir a liderança no marcador, na sequência de um cruzamento para a área onde apareceu Suker a não dar hipóteses de defesa a Saager. Faltavam 20 minutos para o fim do encontro, e a RDA fez jus das poucas forças que lhe restavam para efetuar uma série de rápidos ataques, que na verdade morreram nos pés da bem posicionada e segura defesa balcã. A Jugoslávia teve de sofrer a partir de então, sobretudo com depois da expulsão de Mijatovic, aos 76 minutos, jogando com 10 homens até ao fim, mas mesmo com um jogador a mais os alemães orientais não conseguiram chegar à igualdade. Os jugoslavos haviam assim atingido a final, mas tinham uma série de problemas pela frente, pois não iriam poder contar com Mijatovic (expulso), Stimac (por acumulação de cartões amarelos) e o seu jogador mais importante, Prosinecki (também por acumulação de amarelos) para o jogo mais desejado deste Mundial.

RFA-Chile

Após o desempenho do Chile contra a Itália nos quartos-de-final parecia claro que apenas com a ajuda de um milagre os anfitriões poderiam bater a RFA. E na verdade esse milagre não aconteceu, pois o que se viu na outra meia-final deste campeonato foi uma verdadeira aula de futebol ministrada pelos alemães sobre técnica, tática e condicionamento. Os chilenos fizeram um jogo agitado, de passes curtos, que no entanto não alcançaram muita penetração na defesa contrária. A equipa nunca funcionou como uma unidade e diante de uma oposição tão pobre os alemães tiveram vida fácil, não sendo realmente desafiados durante toda a partida. Com tanta superioridade, não foi surpresa que logo aos oito minutos os alemães se adiantassem no marcador, por intermédio de Eichenauer. Minutos mais tarde um frango de Velasco permitiu a Dammeier fazer o 2-0, e ainda antes do intervalo Witeczek fez o 3-0 que praticamente sentenciou a partida. Este mesmo jogador apontaria o 4-0 final com que a RDA acabou com o sonho dos anfitriões em atingir a final.

O Chile contudo teve uma pequena vitória neste seu Mundial, ao classificar-se na 3.ª posição, depois de bater a RDA nas grandes penalidades.

Jugoslávia vence a lotaria (dos pénaltis) e sagra-se campeã mundial

RFA-Jugoslávia

E eis que chegamos ao dia 25 de outubro de 1987. Data da grande final que teve como palco o pomposo Estádio Nacional, em Santiago, lotado com 65.000 espectadores que queriam ver in loco quem iria suceder ao Brasil no trono planetário do futebol juvenil.

Ao seu lado a Jugoslávia tinha a maior parte dos adeptos chilenos, já que a carrasca de La Roja nas meias-finais havia sido precisamente a RDA.

Jugoslávia é campeã do Mundo

Sem três dos seus principais jogadores, Mirko Jozic teve de tirar um coelho da cartola para a final. E Mijucic foi esse coelho. Ao lado de Suker no ataque ele causou perigo na defesa alemã em diversas ocasiões. Enquanto isso, no meio campo a ação de Boban era preponderante para a Jugoslávia se manter viva nesta final. Isto, juntamente com o apoio do público, tornou a vida dos alemães num inferno. A Jugoslávia conseguia ditar o ritmo do jogo no meio-campo, e os alemães não conseguiam parar o carrossel de futebol dos balcãs. A sorte da RFA é que esta evidente supremacia dos jugoslavos não tinha efeitos de perigo junto da baliza de Brunn. A primeira parte foi por isso parca em oportunidades de golo, um cenário que na segunda parte foi alterado logo nos minutos iniciais na sequência de um cabeceamento de Suker à trave. Até que na entrada do último quarto de hora os jogadores dos Balcãs impuseram de novo a sua superioridade em campo, postura premiada com um golo de Boban aos 85 minutos. O público vibrou com um golo que parecia dar aos jugoslavos a taça, porém, dois minutos volvidos a RFA ainda foi buscar forças para chegar ao empate, na sequência de uma grande penalidade. Foi então necessário um prolongamento de 30 minutos onde nada se alterou o que fez com o título tivesse de ser decidido nos pénaltis. Coube a Boban apontar o golo que daria o título à Jugoslávia, a coroa de glória para uma das melhores gerações que o futebol juvenil planetário viu desabrochar e que a guerra destruiu.

A figura: Robert Prosinecki

Foram vários os jogadores que saíram desta jovem seleção jugoslava rumo ao estrelato no patamar sénior. Boban, Suker, Stimac, Jarni, ou Mijatovic, todos eles se tornaram reconhecidos craques da bola assim que saltaram para o futebol profissional, representando clubes como o Barcelona, Real Madrid, Milan, entre outros emblemas de nomeada no futebol internacional. Porém, houve um que neste Mundial jovem da FIFA brilhou mais do que os seus companheiros e nesse sentido foi brindado com a Bola de Ouro do torneio. O seu nome é Robert Prosinecki. Nasceu a 12 de janeiro de 1969 em Villingen-Schwenningen, na Alemanha Ocidental, no seio de uma família de imigrantes croatas, tendo começado a dar nas vistas no BSV Schwenningen, dando posteriormente o salto para o Stuttgarter Kickers. Ainda com tenra idade regressou com a família para a então Jugoslávia, mais concretamente para Zagreb, tendo ingressado nas fileiras do Dínamo local, clube em que chegou à equipa principal em 1986, com apenas 17 anos. Médio talentoso, ele tornar-se-ia num dos esteios do Dínamo e das jovens seleções da Jugoslávia, não sendo surpresa a sua convocatória para o Mundial do Chile em 87. Após a conquista do título planetário na América do Sul, o jovem Robert decide mudar de ares, viajando de Zagreb para Belgrado, onde passou a representar o Estrela Vermelha. Seria ao serviço desta equipa que em 1991 conquistaria o seu primeiro grande título no futebol sénior, a Taça dos Clubes Campeões Europeus. Ele foi um dos protagonistas nessa célebre conquista, tendo feito um quinteto mágico ao lado de Darko Pancev, Vladimir Jugovic, Sinisa Mihajlovic e Dejan Savicevic. Um ano antes ele atuou pela Jugoslávia no Mundial de 1990, que se jogou em Itália. Entretanto, veio a guerra dos Balcãs, e a Croácia tornou-se independente. Ora, um croata em Belgrado não era visto com bons olhos, e Robert muda-se para Madrid onde à sua espera tinha o Real. Ao serviço do colosso espanhol não foi muito feliz nos três anos em que ali esteve, muito por culpa das lesões e do poderoso Dream Team montado por Cruyff em Barcelona na primeira metade dos anos 90. Reencontrou a felicidade m Oviedo, onde apenas esteve um ano antes de assinar pelo... Barcelona. Na Catalunha voltou a não ter sorte, jogando ainda no Sevilha antes de voltar à sua Croácia para representar o Dínamo. Mais sorte teve com a icónica camisola da seleção croata, a qual envergou no Europeu de 96 e no Mundial de 98, onde conquistou o 3.º lugar. Prosinecki é aliás dos poucos jogadores a nível mundial que representou duas seleções distintas (Jugoslávia e Croácia) em fases finais de campeonatos do Mundo. Depois de breves passagens pela Bélgica (ao serviço do Standard), Inglaterra (Portsmouth) e Eslovénia (Olimpija), Robert pendurou as botas no início do novo milénio.

Nomes e números:

Grupo A

1.ª jornada

 

Chile - Jugoslávia: 2-4

(Boban, aos 14m, Stimac, aos 19m, Suker, aos 61m, Suker, aos 63m)

(Tudor, aos 17m, Pino, aos 67m)

 

Togo - Austrália: 0-2

(Edwards, aos 7m, Reynolds, aos 13m)

 

2.ª jornada

 

Chile - Togo: 3-0

(Pino, aos 8m, Tudor, aos 32m, Tudor, aos 75m)

 

Jugoslávia - Austrália: 4-0

(Brnovic, aos 7m, Suker, aos 22m, Boban, aos 67m, Suker, aos 71m)

 

3.ª jornada

 

Chile - Austrália: 2-0

(Pino, aos 22m, Pino, aos 52m)

 

Jugoslávia - Togo: 4-1

(Mijatovic, aos 20m, Mijatovic, aos 33m, Zirojevic, aos 53m, Suker, aos 84m)

(Ali, aos 75m)

 

Classificação:

1- Jugoslávia: 6 pontos

2- Chile: 4 pontos

3- Austrália: 2 pontos

4- Togo: 0 pontos

 

Grupo B

 

1.ª jornada

 

Brasil - Nigéria: 4-0

(Alcindo, aos 20m, André Cruz, aos 29m, William, aos 35m, William, aos 62m)

 

Itália - Canadá: 2-2

(Impallomeni, aos 50m, Melli, aos 82m)

(Grimes, aos 9m, Mobilio, aos 44m)

 

2.ª jornada

 

Brasil - Itália: 0-1

(Rizzolo, aos 60m)

 

Nigéria - Canadá: 2-2

(Effa, aos 5m, Adekola, aos 44m)

(Jansen, aos 6m, Domezetis, aos 88m)

 

3.ª jornada

 

Brasil - Canadá: 1-0

(André Cruz, aos 82m)

 

Nigéria - Itália: 0-2

(Carrara, aos 23m, Melli, aos 24m)

 

Classificação:

 

1- Itália: 5 pontos

2- Brasil: 4 pontos

3- Canadá - 2 pontos

4- Nigéria: 1 ponto

 

Grupo C

 

1.ª jornada

 

RDA - Escócia: 1-2

(Prasse, aos 32m)

(McLeod, aos 30m, Butler, aos 36m)

 

Colômbia - Barém: 1-0
(Trellez, aos 10m)

 

2.ª jornada

 

RDA - Colômbia: 3-1

(Sammer, aos 9m, Sammer, aos 30m, Sammer, aos 70m)

(Trellez, aos 90m)

Escócia

Escócia - Barém: 1-1

(Nisbet, aos 76m)

(Al Kharraz, aos 24m)

 

3.ª jornada

 

RDA - Barém: 2-0

(Liebers, aos 78m, Wosz, aos 83m)

 

Escócia - Colômbia: 2-2

(Wright, aos 61m, McLeod, aos 74m)

(Guerrero, aos 48m, Guerrero, aos 58m)

 

Classificação:

 

1- RDA: 4 pontos

2- Escócia: 4 pontos

3- Colômbia: 3 pontos

4- Barém: 1 ponto

 

Grupo D

 

1.ª jornada

 

Estados Unidos da América - Bulgária: 0-1

(Vassilev, aos 26m)

 

Arábia Saudita - RFA: 0-3

(Epp, aos 6m, Strehmel, aos 27m, Witeczek. aos 31m)

 

2.ª jornada

 

Estados Unidos da América - Arábia Saudita: 1-0

(Unger, aos 73m)

 

Bulgária - RFA: 0-3

(Witeczek, aos 50m, Witeczek, aos 53m, Reinhardt, aos 59m)

 

3.ª jornada

 

Estados Unidos da América - RFA: 1-2

(Constantino, aos 44m)

(Witeczek, aos 36, Moller, aos 73m)

 

Bulgária - Arábia Saudita: 2-0

(Slavtchev, aos 31m, Kalaydijev, aos 37m)

 

Classificação:

 

1- RFA: 6 pontos

2- Bulgária: 4 pontos

3- Estados Unidos da América: 2 pontos

4- Arábia Saudita: 0 pontos

 

Quartos-de-final

 

Jugoslávia - Brasil: 2-1

(Mijatovic, aos 52m, Prosinecki, aos 89m)

(Alcindo, aos 44m)

 

Chile - Itália: 1-0

(Pino, aos 73m)

RDA

RDA - Bulgária: 2-0

(Steinmann, aos 70m, Wosz, aos 83m)

 

RFA - Escócia: 1-1 (4-3 nas grandes penalidades)

(Reinhardt, aos 8m)

(Nisbet, aos 45m)

 

Meias-finais

 

Jugoslávia - RDA: 2-1

(Stimac, aos 30m, Suker, aos 70m)

(Sammer, aos 49m)

RFA

RFA - Chile: 4-0

(Eichenauer, aos 9m, Dammeier, aos 15m, Witeczek, aos 36m, Witeczek, aos 69m)

 

Jogo de atribuição dos 3.º e 4.º lugares

 

Chile - RDA: 1-1 (3-1 nas grandes penalidades)

(Gonzalez, aos 84m)

(Kracht, aos 73m)

Jugoslávia
 

Final

Jugoslávia - RFA: 1-1 (5-4 nas grandes penalidades)

Data: 25 de outubro de 1987

Local: Estádio Nacional, em Santiago

Árbitro: Juan Loustau (Argentina)

Jugoslávia: Lekovic, Jankovic, Brnovic, Pavlicic, Jarmi, Pavlovic (88 min, Zirojevic), Boban, Petric, Skoric, Mijucic, Suker. Treinador: Mirko Jozic.

RFA: Brunn, Luginger, Metz, Strehmel, Spyrka, Schneider, Reinhardt, Moller,  Dammeier (106 min, Heidenreich), Eichenauer (74 min, Epp), Witeczek.

Golos: 1-0 (Boban, aos 85m), 1-1 ( Witeczek, aos 87m).

 Vídeo: Jugoslávia - RFA