sexta-feira, agosto 28, 2026

Flashes Biográficos (19)... Dulce Rosalina

DULCE ROSALINA (Brasil): Não é só dentro das quatro linhas que o futebol tem os seus encantos. Fora delas, o mesmo será dizer nas bancadas, ele ganha alma e paixão genuína através dos adeptos que transformam os estádios em verdadeiros palcos de emoção. A envolvência das bancadas dita o ritmo do jogo e cria uma atmosfera única. Vem isto a propósito da nossa estrela de hoje, que não só fez história ao imprimir um novo estilo de apoio nas bancadas, como e acima de tudo derrubou a barreira do preconceito em relação à presença e liderança feminina num espaço onde predominava – e ainda predomina maioritariamente – o sexo masculino. A nossa revolucionária é Dulce Rosalina, a carioca que há 70 ANOS ATRÁS se tornou na primeira mulher a líder uma claque – ou torcida – no Brasil… e no resto do Mundo. Nascida no Rio de Janeiro, em 1935, Dulce era filha de um imigrante português fanático pelo Vasco da Gama. Estabelecido no Bairro da Saúde, zona portuária que contava com uma massiva comunidade portuguesa com fortes ligações ao emblema da Cruz Maltina, o pai de Dulce foi a maior influência para que desde muito cedo a menina também ela se tornasse numa fervorosa adepta dos vascaínos. Mas não foi só a paixão pelo Vasco que este estivador de profissão transmitiu à sua filha. A defesa dos direitos humanos foi um dos ensinamentos que este homem sempre procurou transmitir à sua descendente, sobretudo no que concerne à abolição do preconceito racial. Ora, sendo o Vasco da Gama um dos clubes pioneiros no que diz respeito à integração de jogadores negros e operários nas suas equipas, deu-se aqui o casamento perfeito entre Dulce e o Gigante da Colina. Foi neste ambiente que Dulce Rosalina cresceu, até que aos 22 anos o seu nome entra na história do desporto. Estávamos em 1956, ano em que esta carioca assume a presidência da Torcida Organizada do Vasco, isto é, a maior claque da época do emblema de São Januário. Estava derrubada desta forma a barreira do preconceito em relação à mulher não só como adepta do futebol, como em relação à mulher no papel de líder de algo relacionado com esta modalidade, neste caso de uma claque organizada. Dulce Rosalina revolucionaria de imediato também o modo de apoio a um clube, ao trazer para os jogos confetis – ou papel picado – e tambores que até então só se viam e utilizavam em escolas de samba. Dulce rapidamente se tornou numa referência dentro do próprio clube, tendo o privilégio de conviver de perto e com frequência com alguns dos ídolos de então do Vasco, casos de Bellini ou Vavá. A sua popularidade seria reconhecida a nível nacional em 1960, quando a Revista do Esporte a distingue com o prémio de Melhor Torcedor do Brasil. Ela comandou a principal torcida do Vasco da Gama em vários estádios do Brasil, já que fazia questão de acompanhar o clube para onde quer que fosse. Esta acérrima paixão também lhe causou alguns momentos de sofrimento, como aquele que aconteceu em 1968, quando numa deslocação a São Paulo o autocarro em que a claque seguia teve um acidente, causando alguns ferimentos àquela que era já conhecida como a Primeira Dama do Vasco da Gama. Em 1977 ela desvincula-se da Torcida Organizada do Vasco, alegando divergências políticas com os dirigentes da época do clube. Porém, este divórcio esteve longe de significar o fim da sua relação com o clube o seu coração, já que logo depois fundou uma nova claque, a Renovascão. Foi casada com o jogador de futebol Norival Ponce de León e reza a história que sempre que o seu esposo jogava contra o Vasco, a Dona Dulce avisava-o de que ele tinha duas opções: perder o jogo ou não voltar para casa. Com o avançar da idade e o aparecimento dos problemas de saúde, Dulce Rosalina foi-se afastando dos estádios de futebol. Viria a falecer em 2004. Em jeito de homenagem, a Prefeitura – Câmara Municipal – do Rio de Janeiro atribuiu o seu nome a uma rua da cidade próxima ao Estádio de São Januário. 

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