quinta-feira, junho 10, 2021

Histórias do Futebol em Portugal (32)...Foi há 30 anos que a Geração de Ouro do futebol português viveu o seu segundo capítulo de glória no Planeta da Bola

Neste mês de junho assinala-se o 30.º aniversário de um dos grandes momentos da história do futebol português, um capítulo que volvidas três décadas ainda vive na mente de todos os que amam o futebol. Um momento em que a Geração de Ouro, nascida nas areias do deserto das arábias em 1989, deu mais uma prova do seu valor e levou o país a chorar de alegria na hora de comemorar. E para gáudio de toda a nação lusa este foi um feito alcançado em solo nacional. Fazemos alusão ao título mundial de sub-20 conquistado em 1991, ou melhor, ao bi-campeonato mundial alcançado no dia 30 de junho de 1991, um dia inesquecível para o futebol português.

Orientada por Carlos Queiroz, a equipa das quinas repetiu o triunfo alcançado dois anos antes na Arábia Saudita e nomes como Figo, Rui Costa, Jorge Costa ou Abel Xavier, que na altura pouco ou nada diziam às pessoas, deram nesse ano os seus primeiros passos como grandes jogadores mundiais que viriam a ser no futuro imediato.

Ninguém pode esquecer o derradeiro capítulo desse mítico Mundial de 1991, a final no Estádio da Luz, entre Portugal e o Brasil, em que a velha catedral estava para lá de cheia com 127 mil almas a vibrar com um jogo que terminou ao fim 120 minutos com um nulo no marcador e que viria a confirmar nos penaltis Portugal como bi-campeão do Mundo.

Este título mostrou que Riade não havia sido obra do acaso, um mero golpe de sorte, mas antes a confirmação de que o nosso futebol estava a mudar. E para melhor. Mostrou-nos que tínhamos pela frente um futuro de que nos haveríamos de orgulhar, um futuro que haveria de fazer com que Portugal deixasse de ser o país do triste fado futebolístico para ser a potência que hoje em dia é do Belo Jogo a nível planetário.

A equipa de 1991 foi, digamos, que um prolongamento da Geração de Ouro que nasceu em Riade dois anos antes pela mão do grande revolucionário - no sentido mais positivo da palavra - do futebol nacional, Carlos Queirós. Desta geração de futebolistas portugueses brotaram novos valores que nos afirmaram no futebol mundial, casos dos já referidos Figo, Rui Costa, Jorge Costa, ou João Vieira Pinto. Aliás, do núcleo de 91 emergiu um futuro Bola de Ouro: Luís Figo. Esta vitória, ou melhor, estas vitórias, pois Riade não pode ser deixado de parte desta viagem ao passado, elevou o futebolista português à categoria de diamante raro e apetecível nas décadas que se seguiram. E 1991 confirmou também Portugal como uma nação que gosta de receber de braços abertos quem nos visita, que sabe organizar como poucos competições ou demais eventos com pompa e circunstância, como ficou provado com o facto de no final deste certame a FIFA ter classificado o Mundial de 91 como o melhor até então visto no que se refere ao escalão de sub-20.

Mas voltemos à fornada de 91, aos (bi)campeões do Mundo, uma seleção que anos mais tarde Carlos Queirós rotulou de ser mais virtuosa em comparação com a turma que em 89 conquistou pela primeira vez o Planeta da Bola na Arábia Saudita. Numa longa entrevista ao jornal A Bola, Queirós dizia que «a equipa de 1991 era mais virtuosa, mais atrevida, mais irreverente; às vezes punha a seleção de juvenis, com João Pinto, Figo, Rui Costa, contra a equipa dos mais velhos e quando lhes dava corda os miúdos eram danados; os mais velhos, a equipa do Filipe, do Tozé, do Hélio, aguentavam porque tinham muita disciplina. Mas precisavam de dar umas cacetadas para pôr os mais novos em sentido, enquanto não faziam isso os mais pequenos davam cabo deles. A equipa de 1989 foi construída da estrutura e do trabalho para a fantasia; a de 1991 foi ao contrário, veio da fantasia para a disciplina, teve de ser mais amarrada. A de 1989 era muito sólida, muito adulta, quando entravámos em campo sabíamos que podíamos não ganhar mas também dificilmente perdíamos. A de 1991 era muito mais criativa, era rebelde. Uma equipa que tinha de ser dominada. Mas só foi possível sermos campeões do Mundo não por termos junto uns talentos 10 dias antes do Mundial, mas porque essa equipa tinha cinco anos de trabalho. Talvez fosse até melhor para mim que soubesse apenas que tinha reunido os jogadores e, com um passe de mágica, conseguisse ser campeão do Mundo».

 

O título mundial provocou uma reviravolta no futebol português, e sendo verdade que dois anos antes Portugal se sagrara campeão mundial em Riade, o facto de esta conquista ter sido em Lisboa «obrigou as altas esferas do futebol a olharem-nos de outra maneira. Mostrámos que o futebol de formação e os jogadores portugueses tinham muita qualidade e deveriam ter acesso às equipas seniores», disse Tulipa, um dos 18 campeões do Mundo de 1991 anos depois numa entrevista ao Diário de Notícias (DN). Nessa mesma entrevista ao DN, Rui Bento, outro dos campeões de Lisboa, salienta a união invulgar que existia naquela seleção e que não parece compatível com o futebol moderno. «O grupo formou-se uns quatro/cinco anos antes e como passávamos largas temporadas em estágio, a união fortaleceu-se. Sabíamos as manias e virtudes de cada um e agíamos em conformidade, tendo-se criado laços de amizade eternos», salienta Bento. «O facto de o campeonato de 1991 se realizar em casa ajudou sobremaneira. O chamado 12.º jogador funcionou lindamente. O povo estava todo connosco e apesar de serem miúdos normais, aprenderam a respeitar, a serem rigorosos, disciplinados», contou o fiel adjunto de Queirós, Nelo Vingada, ao DN, acrescentando que «em comparação, a vitória em Lisboa foi muito mais fácil do que na Arábia Saudita, dois anos antes. Aqui estávamos em casa e naquele país árabe só dava para ligar para casa de dois em dois dias, através de uma cabina telefónica».

Os 18 heróis de Lisboa


Para este Mundial Carlos Queirós chamou dois jogadores que em 1989 tinham saboreado a então inédita conquista de Riade, nomeadamente João Vieira Pinto e Brassard. O primeiro havia sido peça preponderante na conquista de 89, sendo o único jogador luso a conquistar por duas vezes o Mundial de sub-20. Após a conquista de 1991 o menino de ouro, como ficou conhecido, disse ao jornal A Bola que «é espetacular o que sinto. Nunca imaginei ser campeão do mundial duas vezes. Vou ter de carregar este fardo durante toda a vida», e assim continua a ser.

Por sua vez, Fernando Brassard havia estado na Arábia Saudita na condição de suplente, sem ter feito um único minuto nessa campanha, sendo que por isso e apesar de ter feito parte do grupo de 89 não foi efetivamente campeão do Mundo, algo que só viria a alcançar dois anos depois em Lisboa quando assumiu a titularidade da baliza nacional.

E para conquistar o campeonato do Mundo de 1991 Carlos Queirós contou com o seguinte elenco (com os respetivos números que usaram nas camisolas durante esse Mundial e os clubes que representavam na altura): 1 - Brassard (Louletano); 2- Gil (Benfica); 3- Figo (Sporting); 4- Peixe (Sporting); 5- Rui Costa (Fafe); 6- Jorge Costa (Penafiel); 7- Abel Xavier (Estrela da Amadora); 8- Paulo Torres (Sporting); 9- Luís Miguel (Rio Ave); 10- Nélson (Salgueiros); 11- Rui Bento (Benfica); 12- Tó Ferreira (Famalicão); 13- Capucho (Gil Vicente); 14- João Vieira Pinto (Boavista); 15- Tulipa (FC Porto); 16- Cau (FC Porto); 17- João Oliveira Pinto (Sporting); 18- Toni (FC Porto).

Do Porto a Lisboa, o trajeto dos campeões

Foram cinco as cidades escolhidas para acolher este Mundial organizado por Portugal, nomeadamente Lisboa, Porto, Braga, Guimarães e Faro. Portugal iniciou a defesa do título conquistado em Riade a 14 de junho, no Estádio das Antas, no Porto, que registou uma lotação de 50.000 pessoas para presenciar o confronto ante a República da Irlanda, o primeiro adversário dos lusos. Irlandeses que não eram estranhos ao combinado luso, já que semanas antes ambos os conjuntos haviam-se defrontado em jogo de preparação para o Mundial, tendo então Portugal vencido por 1-0. Mas neste jogo a doer, só deu mesmo Portugal. Não foi um jogo complicado, muito pelo contrário, mostrou sim que os portugueses eram nitidamente superiores em todos os capítulos, e não foi de estranhar que cedo os lusos se adiantassem no marcador por intermédio de João Vieira Pinto, aos 17 minutos. O golo inaugural deste Mundial de 91 foi construído pelo tridente atacante de Portugal, constituído por João Vieira Pinto, Toni e Gil. Os irlandeses foram sempre presa fácil para os putos de Queirós, e raramente incomodaram o guardião Brassard, que foi quase um mero espectador. Os lusos dilataram o marcador na segunda parte, na sequência de um slalon de Capucho que rompeu desde o meio campo irlandês até à baliza de Connoly, à passagem do minuto 78. Estava consumada a vitória, a qual poderia ter sido ainda mais dilatada não tivesse Figo desperdiçado uma grande penalidade a castigar uma falta sobre Gil. Portugal entrava assim com o pé direito na defesa do ceptro.

Ante a Irlanda a seleção portuguesa jogou com: (1) Brassard; (7) Abel Xavier, (6) Jorge Costa, (11) Rui Bento e (8) Paulo Torres; (4) Peixe, (3) Figo e (5) Rui Costa ((13) Capucho, aos 68m); (2) Gil ((17) João Oliveira Pinto, aos 88m), (14) João Vieira Pinto e (18) Toni.

O duro jogo com a Argentina
Três dias depois, a seleção desceu até à capital, Lisboa, onde no velho Estádio da Luz defrontou o segundo adversário do grupo, a Argentina. Foi um jogo marcado pela positiva e pela negativa. Pela positiva porque assistimos a mais uma bela exibição dos lusos, ao passo que a parte negativa prende-se com a vincada indisciplina dos jovens argentinos a quem só a vitória interessava após uma surpreendente derrota ante a Coreia no primeiro encontro. A figura do jogo acabou mesmo por ser o árbitro, o belga Guy Goethals, obrigado a expulsar três jogadores sul-americanos que usaram e abusaram da indisciplina. Os golos surgiram na segunda parte, o primeiro apontado por Gil, aos 56 minutos, na sequência de uma arrancada desde o meio campo contrário que foi concluído com um potente remate à entrada da área e que ainda embateu no defesa Cocca, acabando por trair o guardião Díaz. No seguimento de um mau passe de Bacedas surgiu o segundo golo de Portugal, aos 78 minutos. João Vieira Pinto cruzou para a área onde Toni foi impedido por Pochettino de chegar à bola tendo o árbitro marcado de pronto a grande penalidade. Na conversão, o pé canhão da seleção portuguesa, Paulo Torres, não deu hipótese ao guardião das pampas e fez o 2-0. O 3-0 final surgiu por intermédio de Toni, que sozinho isolado à entrada da pequena área ante Díaz controla a bola com o peito para em seguida encher o pé que levou o esférico para o fundo das redes. Este triunfo gordo garantiu de pronto a passagem de Portugal à fase seguinte.

Ante a Argentina os lusos jogaram com: (1) Brassard; (7) Abel Xavier, (6) Jorge Costa, (11) Rui Bento e (8) Paulo Torres; (4) Peixe, (3) Figo e (5) Rui Costa ((13) Capucho, aos 70m); (2) Gil ((9) Luís Miguel, aos 78m), (14) João Vieira Pinto e (18) Toni.

Com o apuramento garantido Carlos Queirós fez cinco alterações no seu onze no jogo ante a Coreia, realizado no Estádio da Luz no dia 20 de junho. As mudanças não se fizeram notar, já que Portugal realizou outra exibição muito competente e convincente. O único golo do encontro surgiu na sequência de um livre indireto, ao minuto 42, a castigar o facto de o guardião coreano não ter libertado de imediato a bola e perdido mais tempo com ela nas mãos do que as leis permitem. Na conversão, o homem das bolas paradas da seleção lusa, Paulo Torres, não perdoou a enviou uma verdadeiro míssil para o fundo das redes asiáticas.

Este triunfo garantiu a Portugal o 1.º lugar do Grupo A deste Mundial. Neste derradeiro encontro da fase de grupos os portugueses jogaram com: (12) Tó Ferreira; (10) Nélson, (6) Jorge Costa, (11) Rui Bento e (8) Paulo Torres; (4) Peixe ((3) Figo, aos 46m), (16) Cau e (15) Tulipa; (17) João Oliveira Pinto, (14) João Vieira Pinto e (18) Toni ((9) Luís Miguel, aos 68m).

Figo e Rui Costa cantam o hino
Na fase a eliminar, isto é, nos quartos-de-final, Portugal enfrentou um osso duro de roer, o México. Na Luz, o muito público que lotou o recinto lisboeta teve razões para festejar logo aos 2 minutos. João Vieira Pinto é derrubado dentro da área e o árbitro assinala penalti. Na conversão Paulo Torres atirou a bola para um lado e o guarda-redes foi para o outro, apontando o primeiro golo dos lusos. Porém, este golo madrugador adormeceu os lusitanos, tendo os mexicanos reagido, e aos 35 minutos Mendoza empatou de cabeça. Este seria o primeiro e único golo sofrido por Portugal ao longo de todo o torneio. O resultado não se alterou até aos 90 minutos e foi necessário recorrer-se a um prolongamento, onde Portugal bebeu do instinto matador do ponta de lança Toni, que numa cabeçada vistosa fez o 2-1 que abriu a porta das meias-finais aos miúdos de Queirós. Neste jogo Portugal jogou com: (1) Brassard; (7) Abel Xavier, (11) Rui Bento, (6) Jorge Costa e (8) Paulo Torres; (4) Peixe, (3) Figo e (5) Rui Costa ((10 Nélson, aos 90+1m); (2) Gil, (14) João Vieira Pinto ((13 Capucho, aos 70m) e (18) Toni.

Faltava um pequeno passo para Portugal atingir a final, mas para isso tinha de se desenvencilhar da surpresa do torneio, a Austrália. Novamente num Estádio da Luz repleto (112.000 espectadores) assistiu-se a uma obra de arte daquele que um dia viria a ser conhecido como o maestro, um puro talento, de seu nome Rui Costa. O jovem jogador do Benfica pegou na bola ainda no meio campo australiano, e de fora da área disferiu um vistoso remate que só parou no fundo das redes de Bosnich. Este golo solitário, apontado a um minuto do intervalo, garantiu a segunda final de um Mundial de sub-20 a Portugal, quer atuou com: (1) Brassard; (7) Abel Xavier, (11) Rui Bento, (6) Jorge Costa e (8) Paulo Torres; (4) Peixe, (3) Figo e (5) Rui Costa; (2) Gil ((13 Capucho, aos 67m), (14) João Vieira Pinto e (18) Toni ((17) João Oliveira Pinto, aos 89m).

E eis que chegávamos ao dia 30 de junho, o dia da grande final, ante o poderoso Brasil, o eterno candidato a vencer todas as competições em que entra. Ainda antes da final ser jogada, Carlos Queirós levou os seus pupilos até à praia, segundo confessou Gil já em 2020 ao jornal Record. «Lembro-me que, um dia antes da final com o Brasil, o professor Queiroz levou-nos à praia do Guincho para nos motivar e ficámos só em cima das rochas a olhar para o mar. Ele pediu-nos para ficarmos lá a relaxar. Perguntou-nos o que estávamos a ver e nós dissemos que víamos uma parte calma das ondas mais para a frente e outra fase em que as ondas batiam nas rochas. Disse-nos ‘é assim que quero que vocês joguem amanhã!’. Ficámos a olhar uns para os outros a pensar ‘Como assim?’ e ele explicou o seguinte: ‘O que eu quero é que a defesa e o meio-campo estejam calmos como aquela fase do mar que veem mais perto do horizonte e que o ataque seja bravo como estas ondas que batem nas rochas’. Como jogadores inteligentes que éramos, tentámos colocar em prática aquilo que ele pediu».

O Estádio da Luz na maior enchente da sua história,
na tarde de 30 de junho de 1991

Com capacidade para 120.000 espectadores naquela tarde o velho Estádio da Luz albergou muito mais do que isso. Foram 127.000 almas que se acotovelaram para ver in loco mais um capítulo dourado da história do nosso futebol. Aquela imagem, do inferno da Luz a arrebentar pelas costuras, jamais se tinha visto num jogo da seleção nacional, prova de que o povo estava com os miúdos de Queirós. Bilhetes a 800 escudos que se venderam a 8 contos, segundo recorda o ilustre jornalista de A Bola, António Simões, anos mais tarde numa edição especial que o jornal da Travessa da Queimada publicou em jeito de homenagem à Geração de Ouro. Outra imagem marcante foi a cerimónia dos hinos, com as lágrimas de emoção de Peixe - que haveria de ser considerado o melhor jogador deste Mundial - a correrem o Mundo quando A Portuguesa entoou. Quanto ao jogo em si assistiu-se a um encontro de qualidade ao qual apenas faltaram os golos.

Figo em duelo com Roberto Carlos
Na primeira parte destaca-se uma perdida flagrante de Portugal, quando João Vieira Pinto atirou ao poste da baliza de Roger. Contudo, foram os brasileiros a dominar, apontando dois golos que no entanto seriam anulados pelo árbitro argentino Francisco Lamolina. O guarda-redes Roger, por exemplo, considerou os lances duvidosos, embora reconhecendo que Portugal tinha uma equipa qualificada, com nomes que fizeram história no país, posteriormente. Na segunda parte os portugueses corrigiram a sua postura, melhoraram muito nas transições para o ataque, tendo valido numa ou noutra ocasião a inspiração de Roger. Com 0-0 no final dos 90 minutos jogou-se um prolongamento, onde os portugueses foram melhores no aspeto físico. Neste período brilhou Brassard, que com um punhado de defesas evitou males maiores para Portugal. Ainda antes das grandes penalidades, Gil, de cabeça, teve uma oportunidade soberana para desfazer o nulo, mas a bola saiu um tudo ou nada acima da barra.

E eis que chegávamos aos mal fadados penaltis. Na fatídica decisão, Roger considera que a falta de experiência pesou na equipa brasileira, sendo que o centro-campista Marquinhos e o atacante Élber falharam as respetivas cobranças. O pontapé do título esteve nos pés de Rui Costa, que calmo e frio bateu Roger e fez de Portugal BI-CAMPEÃO DO MUNDO. A Luz veio abaixo com a onda de alegria que se gerou em seguida. E ainda mais alegre ficou quando o então Presidente da República, Mário Soares, entregou a taça de campeão mundial ao capitão João Vieira Pinto.

Na grande final Portugal jogou com: (1) Brassard; (10) Nélson ((15 Tulipa, aos 10m, (13) Capucho, aos 70m), (11) Rui Bento, (6) Jorge Costa e (8) Paulo Torres; (4) Peixe, (3) Figo e (5) Rui Costa; (2) Gil, (14 João Vieira Pinto e (18) Toni.

Gente feliz com lágrimas e o amuleto de Queirós na final


Esta vitória fez naturalmente transbordar de felicidade a nação lusitana. Exemplo disso era Eusébio, figura lendária do futebol luso, que no final do jogo não escondeu as lágrimas, afirmando ao jornal A Bola que «muitas pessoas julgaram que o Brasil iria ganhar, mas os miúdos nunca se intimidaram e venceram. Que espetáculo! Ah, mas para mim o mais bonito da festa foi a união de Portugal, acabaram-se as guerras entre clubes, ninguém era do Benfica, do FC Porto, ou do Sporting».

Quem igualmente se desfez em elogios à seleção portuguesa foi Joseph Blatter, dirigente da FIFA, que afirmaria a A Bola que «Carlos Queirós e os seus jogadores praticam o verdadeiro futebol do futuro, porque com eles é possível ver toda a gente em movimento, atletas de boa técnica a pensar no coletivo, rapidez e…golos».

E se uns choravam de alegria outros pareciam conformados com o resultado final, como foi o exemplo do selecionador brasileiro, Ernesto Paulo, que à reportagem de A Bola disse que «Portugal foi um justo vencedor mas estava escrito que os campeões tinham de ser os caras. Vi logo no primeiro remate a bola bateu na trave e ressaltou para dentro da nossa baliza».

Carlos Queirós
Carlos Queirós era igualmente um dos homens mais feliz naquela noite em Lisboa, afinal de contas tinha conseguido algo que meia dúzia de anos antes qualquer pessoa duvidaria: colocar Portugal no topo do Mundo em duas ocasiões consecutivas. Numa entrevista concedida ao jornal A Bola, anos mais tarde, contou a história do amuleto que lhe foi parar às mãos na final do Mundial de 1991. «Às duas por três vamos para a segunda parte do prolongamento, com o Brasil, o jogo estava difícil, muito fechado, com poucas oportunidades de golo, e das poucas uma ou outra de partir o coração, e eu tinha a perceção de que quem marcasse vencia. Falei com os meus jogadores e quando fui para me sentar no banco há uma pessoa, que julgo que era um bombeiro, que chega ao pé de mim e diz-me assim: “professor, agarre nisto, aperte com força que isto vai dar-lhe sorte”. Eu nem vi a cara da pessoa, para dizer a verdade, naquela altura tinha-me agarrado a qualquer coisa. Ele disse-me que daria sorte e apertei aquilo instintivamente. Dei só uma mirada muito rápida, antes do jogo recomeçar, era um vidrinho muito pequenino, parecia até uma turmalina, uma daquelas pedras semipreciosas, e fiz o resto do prolongamento sempre com aquilo na mão e nos penaltis então ainda apertei com mais força, e lembro-me de falar com os jogadores antes dos momentos decisivos com a mão direita fechada. Ganhámos».

Ambiente de descontração no seio da equipa de 1991

Muitos dos jogadores que integraram a Geração de Ouro do futebol luso – quer os de Riade, quer os de Lisboa - tiveram nos anos seguintes carreiras ao mais alto nível no futebol internacional, jogaram nos maiores clubes do Mundo e venceram troféus de alto gabarito no futebol sénior. Lembramo-nos de Luís Figo, Rui Costa, João Vieira Pinto, Fernando Couto, Paulo Sousa, ou Jorge Costa. Outros tiveram carreiras medianas, deambulando por clubes de média/pequena dimensão do nosso futebol, e outros simplesmente desapareceram. No entanto, uma coisa é certa: ninguém se esquece do que todos eles fizeram por Portugal.

A seleção lusa que (re)conquistou o Mundo em 1991

Entrevista com os campeões do Mundo Luís Miguel e Cau

Não quisemos deixar de passar este 30.º aniversário da conquista do bi-campeonato do Mundo de sub-20 sem falar com quem de perto viveu as emoções da conquista de 1991. E para isso convidámos a vir ao Museu Virtual do Futebol dois dos campeões de Lisboa. É verdade, tivemos o privilégio de abrir as portas do nosso Museu a dois dos 18 heróis que em 91 escreveram uma das mais brilhantes páginas do nosso futebol. Damos pois as boas vindas a Cau e a Luís Miguel, que nas próximas linhas falam das emoções vividas naquele célebre campeonato do Mundo.  

Cau segura a taça ao lado
de Gil e Tulipa
Museu Virtual do Futebol (MVF): Que recordações têm daquele Mundial de 91 e da forma como terminou, isto é, com o título de campeão do Mundo?

Luís Miguel: No meu caso, as recordações que me vêm logo à cabeça foi a grave lesão que me impediu de dar o contributo normal. Sem saber, fui campeão do Mundo com um pé partido (fratura do escafoide). Recordo-me também do último penalti, onde dei um sprint e somente dei conta que o pé me doía quando parei. No momento foi uma sensação incrível, jamais vivida.

Cau: Pessoalmente, ser campeão do Mundo além de ser um título duma grandeza universal, foi um marco histórico, além de me alimentar o ego irei sempre lembrar que um dia fui campeão do Mundo por um país com muita história.

MVF: Na antecâmara do Mundial de 1991 julgavam ser possível seguir as pisadas da equipa de Riade, que dois anos antes havia sido campeã do Mundo?

Luís Miguel: Sim. Até ao Mundial, e desde os sub-15, só tínhamos perdido um jogo no final dos anos 90. Por isso, sabíamos que erámos candidatos a lutar pelo título. Tínhamos um grupo fantástico, que já estava junto há imenso tempo e erámos treinados pelo melhor treinador na altura.

Cau: Sim, porque quando se entra numa competição como esta não há favoritos, mas há que respeitar equipas como o Brasil, a Argentina, etc. Só que tínhamos um grupo muito forte e determinado, todos tinham a ambição de vencer. Mas é lógico que olhando para os mundialistas de Riade nos deu mais convicção de que podíamos vencer o Mundial em Lisboa.

Luís Miguel com a medalha de campeão
do Mundo ao lado de Tulipa e Capucho
MVF: O que vos disse Carlos Queirós antes desse Mundial de 91, de que forma ele foi importante na criação de uma mentalidade ganhadora que a seleção viria a ter?

Luís Miguel: O professor acreditava e conhecia bem as nossas qualidades, quer no aspeto individual, quer no aspeto coletivo. Foram, salvo o erro, 6 semanas de trabalho que antecederam o primeiro jogo. Nesse período de estágio, lembro-me de o professor dizer várias vezes que Portugal iria revalidar o título.

Cau: O professor Carlos Queirós incutia-nos na mente que podíamos ganhar jogo a jogo, e que tínhamos todos os pergaminhos para o conseguir. Mas os virtuosos jogadores transmitiam a confiança para as vitórias, sem dúvida que era um grupo recheado só de grandes craques.

MVF: Jogar em casa, no nosso próprio país, também vos ajudou a conquistar esse título, certo?

Luís Miguel: Sim, o 12.º jogador teve um papel muito importante, embora jogando em casa e a jogar para defender o título poderia trazer uma pressão maior, mas com o decorrer do estágio somente nos focamos no jogo a jogo. Lembro-me do trajeto que fazíamos para os jogos do hotel até ao estádio, as ruas estavam repletas de adeptos a apoiar. Quando entrávamos no relvado até arrepiava.

Cau: Com o nosso primeiro jogo nas Antas, Estádio do F. C. Porto, na zona norte do país, logicamente que o público afeto à seleção nos deu força, incentivou-nos para o começo, e como tal os adeptos do norte são do outro Mundo, e a eles desejo um Mundo de gratidão.

Cau, o primeiro da esquerda para a direita,
na fila de baixo em 1991
MVF: Na vossa perspetiva qual foi o jogo mais difícil desse Mundial, aquele que mais trabalho vos deu e porquê?

Luís Miguel: Na minha opinião o jogo mais difícil foi nos quartos-de-final contra o México. Ganhámos no prolongamento, mas foi um jogo muito equilibrado em que qualquer um poderia ter vencido. O jogo da final, principalmente na 1.ª parte foi muito difícil. Fomos dominados pelo Brasil, mas com o decorrer do jogo crescemos e fomos melhores.

Cau: Sem termos tido jogos fáceis, penso que com a Argentina foi um jogo muito atrativo e muito agressivo, entre duas equipas muito bem equilibradas, com dinâmicas de competência futebolista. Depois aquela dolorosa final com o Brasil, que grande jogo, num estádio repleto de público, quase com 130 mil adeptos, foi e é de arrepiar. Muita emoção, alegria, adrenalina, crer, força, coragem, todos tínhamos aquela crença de que íamos vencer aquela final, que mudou o futebol português. Só agradeço ao povo português e das colónias pelos incentivos que chegavam de toda parte do Mundo, e em especial dos países da língua de Camões.

MVF: Aquela era uma seleção muito virtuosa, nas palavras do próprio Carlos Queirós, e ao mesmo tempo rebelde. Foi essa rebeldia aliada ao virtuosismo que vos levou ao título, por outras palavras, qual foi o segredo, ou a chave, do êxito?

Luís Miguel: Penso que em comparação com a seleção anterior, a nossa tinha mais qualidade a nível individual. Tínhamos jogadores que de um momento para o outro, resolviam os jogos. Mas penso que a chave do sucesso foi a qualidade do professor Carlos Queirós e o facto de estarmos juntos há 6 anos e de termos passado por várias finais (Sub-16 e Sub-18).

Cau
MVF: Surpreendeu-vos ver anos mais tarde jogadores como Figo, Rui Costa ou João Vieira Pinto atingirem o sucesso no patamar sénior? Ou pelo contrário, já estavam à espera que eles se afirmassem?

Luís Miguel: Em nada me surpreendeu. Tinham uma qualidade e uma mentalidade acima da média.

Cau: Todos acabaram por fazer carreira, sabendo que alguns colegas tiveram mais sucesso do que outros, mas a vida é mesma assim. Só tenho que agradecer aos demais amigos e colegas que fizeram história no futebol português. Fiz uma boa carreira como jogador, sabendo que a minha ambição nunca foi a de sair para equipas estrangeiras, por isso só tenho que agradecer o que a vida me deu.

MVF: E a final num estádio da Luz com 127.000 pessoas, ainda se lembram?

Luís Miguel: Claro que me lembro, jamais esquecerei. Eu estava no banco de suplentes ao lado do Capucho e tínhamos que gritar para falar um com o outro. Foram 70 pessoas da minha família ao jogo, em que levaram um cartaz bem grande que dizia “Luís Miguel amigo, a tua família está contigo”. Inesquecível.

Cau: A final foi marcante, o Mundo parou e quem ganhou foi o nosso Portugal. Foi arrepiante, nunca mais vimos um estádio repleto com aquela massa humana, quase 130 mil nas bancadas.

Luís Miguel
MVF: Qual foi para vocês o momento mais emocionante deste Mundial?

Luís Miguel: Foi aquele penalti batido pelo Rui Costa. A nossa seleção vinha de duas derrotas por grandes penalidades nos Europeus de Sub-16 e 18 e quando o árbitro apitou para o final do prolongamento veio à memória aquelas finais perdidas e de ter pensado: “hoje vamos ganhar”.

Cau: Considero que todos os momentos foram de emoção, mas ver o povo cabo-verdiano a vibrar, a minha família num delírio, vendo Portugal numa adrenalina contagiante, todos alegres, foram momentos de satisfação e de gratidão por tudo.


Vídeo: A música criada para este Mundial de 1991 e que foi cantada pelos jogadores da seleção portuguesa

Vídeo: O compacto de todos os jogos de Portugal neste trajeto de glória

terça-feira, junho 08, 2021

Histórias do Futebol em Portugal (31)... Ainda antes dos Cinco Violinos brilharem já os Cinco Torpedos encantavam vestindo a pele do leão

Os Cinco Torpedos
Os Cinco Violinos foram com toda a certeza não só o quinteto ofensivo mais virtuoso da história do futebol português como também uma das linhas avançadas mais célebres e poderosas do futebol internacional da década de 40 do século passado.

Defendendo as cores do Sporting Clube de Portugal, Fernando Peyroteo, Vasques, Albano, Jesus Correia e José Travassos são os cinco famosos violinistas dessa memorável orquestra que entre 1946 e 1949 tornou o leão num animal impossível de domar. Porém, muitos antes deste quinteto dar nas vistas um outro núcleo de cinco jogadores brilhou com o manto sagrado do Sporting vestido. Um quinteto de despoletou nos primórdios do clube fundado por José Holtreman Roquette (Alvalade), em 1906, e que pelo seu talento escreveu uma página digna de registo na extensa e gloriosa história do emblema leonino. Ainda que pouco conhecido por parte do grande público afeto ao Belo Jogo se comparado com os Cinco Violinos, este quinteto marcou os primeiro anos de vida do Sporting numa época em que as competições futebolísticas a nível nacional eram ainda muito escassas. Sem mais demoras vamos embarcar na Máquina do Tempo para conhecer os Cinco Torpedos.

E para isso viajemos até à década de 10 dos século XX, altura em que o epicentro do futebol em Portugal estava na capital, que vivia então o fervor dos primeiros campeonatos de Lisboa, que faziam desenvolver a modalidade não só na região mas também no resto do país. O Sporting era então um jovem clube, rico, é certo, já que detinha as melhores condições do futebol lisboeta, fazendo assim jus ao objetivo do seu criador, José de Alvalade, aquando da fundação: fazer do Sporting Clube de Portugal "um grande clube tão grande como os maiores…”.

O país de então vivia a febre do futebol, cujo aumento da popularidade era um facto indesmentível, sendo que os matches atraíam a si assistências bastante consideráveis. O panorama futebolístico da capital era dominado então pelos ingleses do Carcavelos, que haviam vencido as três primeiras edições do Campeonato de Lisboa. Apesar de não lograr alcançar qualquer título até então, o Sporting era uma das equipas mais fortes e virtuosas do futebol daqueles anos, um team muito  respeitado pelos adversários, graças a um conjunto de grandes jogadores. Muitos destes atletas deram início a uma rivalidade que ainda hoje se mantém com os vizinhos do Sport Lisboa (hoje Benfica), e que teve início em 1907 quando oito jogadores dos encarnados resolvem mudar-se para o clube de José de Alvalade, o qual oferecia banhos quentes e demais privilégios aos atletas, então coisa rara no futebol. Entre esses desertores estavam os irmãos Catatau, mais precisamente Cândido Rosa Rodrigues e António Rosa Rodrigues. A estes, já no final da primeira década do século XX, junta-se no Sporting outra dupla de irmãos, os Stromp, nomeadamente Francisco Stromp e António Stromp.

As condições de excelência do Sporting atraíam como já dissemos os melhores jogadores do futebol lisboeta daquele tempo, sendo que outro dos craques de então era o virtuoso avançado João Bentes, que rapidamente se tornou num dos atletas mais importantes do clube, sendo que na passagem para a década de 10 seria eleito o capitão de equipa. Ora, estes cinco nomes que acabamos de mencionar formaram aquela que foi rotulada na altura como a linha avançada mais poderosa e virtuosa do futebol lisboeta daqueles anos, e que ficaria conhecida como os Cinco Torpedos.

Juntos, é certo, que não arrecadaram nenhum título para o Sporting, embora naquele tempo a única competição que existia fosse o Campeonato de Lisboa, mas lograram alcançar exibições fantásticas que ficaram eternizadas nos jornais da época. Atuaram juntos durante quatro temporadas, mais concretamente em 1909/19, 1910/11, 1911/12 e 1912/13. A melhor classificação obtida pelos Cinco Torpedos foi precisamente na última época em que jogaram juntos, tendo o Sporting ficado em 2.º lugar no Campeonato de Lisboa, a quatro pontos do campeão Benfica.  

O 11 da seleção de Lisboa vestindo à Sporting que foi a Huelva bater o Recreativo

Quatro dos Cinco Torpedos entraram em 1910 para a história não só do Sporting como do próprio futebol luso pelo facto de terem participado no primeiro jogo internacional daquela que pode ser considerada a primeira seleção portuguesa a atuar no estrangeiro. Foi a 27 de agosto de 1910, data que um misto de jogadores de três equipas de Lisboa, nomeadamente o Sporting, o Benfica e o Sport União Belenese, se deslocou a Espanha para jogar com o Recreativo de Huelva. Atuando com o equipamento do Sporting a seleção lisboeta, ou o Sporting reforçado com três jogadores do Benfica - entre os quais pontificava Cosme Damião - e um do Sport União Belenese - segundo muitos historiadores, venceu por 4-0 os espanhóis. Como já vimos, este misto foi integrado por quatro dos Cinco Torpedos, nomeadamente António Stromp, António Rosa Rodrigues, Francisco Stromp e João Bentes, sendo que este último foi o capitão desta equipa que fez a longa viagem desde Lisboa até Huelva de comboio, isto é, os jogadores apanharam o comboio no Barreiro, no dia 25 às 18H30 e chegaram à cidade espanhola no dia seguinte quando já passava das 20H00. Os golos foram marcados pelo benfiquista Luís Vieira e pelos torpedos António Rosa Rodrigues e Francisco Stromp, sendo que este último fez o gosto ao pé em duas ocasiões. De acordo com os jornais da época terão assistido ao encontro cerca de oito mil espectadores e a Banda Municipal de Huelva tocou os hinos português e espanhol, sendo que à noite houve um banquete de confraternização.

Quem eram os Cinco Torpedos?

João Bentes
Como já vimos os Cinco Torpedos eram constituídos por uma mão cheia de virtuosos avançados, comandados pelo capitão de equipa João Bentes. Nascido em Lisboa, Bentes integrou ainda muito jovem as equipas do Sporting, clube do qual se fez associado apenas um ano após a fundação do clube. Subiu à primeira categoria em 1910. Alinhava como extremo-esquerdo, assumindo a titularidade precisamente na temporada de 1909/10. Destacava-se por ser um atleta polivalente, diz-se que jogava em qualquer posição do terreno, exceto na de guarda-redes. Diz-se que foi ele o encarregado por Eduardo Pinto Basto, capitão do CIF, de escolher a equipa que no tal ano de 1910 foi a Huelva disputar com o Recreativo local o tal jogo internacional que acima recordarmos, isto porque o CIF, já tinha disputado um desafio em Madrid em 1907, tendo sido três anos mais tarde convidado para jogar em Huelva. No entanto, Eduardo Pinto Basto achou que o seu clube não tinha condições para isso e propôs o Sporting para ir em seu lugar. João Bentes, o capitão leonino, encarregou-se a pedido de Pinto Basto de organizar uma equipa para viajar até Espanha, tendo então convidado Cosme Damião, Luís Vieira e António Costa, todos do Benfica, e Francisco Bellas, do Sport União Belenense, para se juntarem aos jogadores do Sporting. No total, Bentes atuou durante 9 temporadas na equipa principal do Sporting, tendo sido uma das figuras destacadas nos primeiros anos de vida do clube, sendo-lhe reconhecida a mentalidade de um líder e de alguém que estava sempre disposto a tudo para triunfar. O seu momento de glória de verde-e-branco equipado terá sido na temporada de 1914/15, altura em que os leões venceram o seu primeiro Campeonato de Lisboa.

Os irmãos Catatau,
Cândido e António Rosa Rodrigues
Cândido Rosa Rodrigues, um dos irmãos Catatau que na boca dos benfiquistas foi um dos traidores que em 1907 trocou o Sport Lisboa pelo Sporting em busca de melhores condições de treino. Nasceu em Lisboa, pela uma da manhã, no primeiro andar do número 144 da rua direita de Belém, e os amigos chamava-lhe Candinho, e juntamente com os seus irmãos António, José e Jorge ficou conhecido por fazer parte dos irmãos Catatau. Em 1904 ele foi um dos 24 fundadores do Grupo Sport Lisboa onde esteve durante três temporadas. Vivendo em Belém ele era um dos principais dinamizadores no início do clube, sendo dos mais assíduos nos treinos. No verão de 1907 ele e mais sete jogadores do Sport Lisboa decidiram então rumar ao recém fundado Sporting Clube de Portugal, atraído pelas melhores condições proporcionadas pelo clube leonino. Cândido rapidamente deu nas vistas no Sporting, jogando a interior-direito. Ele entrou na história do clube leonino por ter sido o autor do primeiro golo da história dos dérbis da capital, isto é, entre sportinguistas e benfiquistas, facto ocorrido a 1 de dezembro de 1907, data em que se disputou o primeiro Derbi Eterno. Jogou no Sporting durante sete temporadas, e dos Cinco Torpedos foi o único que não conquistou qualquer título ao serviço dos leões, retirando-se do clube precisamente na época anterior à conquista do primeiro Campeonato de Lisboa. Foi ainda dirigente do Sporting quando fez parte da segunda Direcção de Caetano Pereira durante a Gerência 1912/13.

António Rosa Rodrigues, também conhecido por Neco, era outro dos irmãos Catatau que em 1907 trocou o Sport Lisboa pelo Sporting. Considerado um dos melhores avançados da sua época esteve 10 temporadas no Sporting, tendo feito parte da equipa que ganhou o primeiro Campeonato de Lisboa da história do clube. Foi um dos sete jogadores do Sporting que integraram a seleção de Lisboa que em 1910 se deslocou a Huelva para defrontar e vencer o Recreativo. Atuando como extremo-direito, na maior parte da sua carreira, viveu outros momentos de grande glamour com a camisola verde-e-branca, sendo de recordar entre muitos exemplos o facto de em 1914 ter vencido o primeiro título de âmbito mais nacional pelo Sporting, os Jogos Olímpicos Nacionais, após ter vencido na final o Império por 5-1. Atuou durante 9 temporadas no Sporting, tendo realizado mais de 60 jogos de leão ao peito.

Francisco Stromp
Verdadeiros ícones da história do Sporting foram os irmãos Stromp. Francisco nasceu no dia 21 de maio de 1892, em Lisboa, e foi um dos primeiros grandes símbolos do clube. Com apenas 16 anos estreou-se na equipa principal do Sporting, emblema cujo manto sagrado defendeu entre 1908 e 1924. Disputou mais de 100 jogos com a camisola verde-e-branca tendo sido por quatro ocasiões campeão de Lisboa (14/15, 18/19, 21/22 e 22/23). Seria aliás na temporada de 22/23 que conquistaria o seu título mais importante durante a passagem pelo clube, o Campeonato de Portugal. Capitaneou a equipa vários anos, sendo que em 1922/23, depois de Augusto Sabbo se ter demitido de treinador, coube-lhe assumir a função de timoneiro, isto é, de treinador, sendo desta forma a sua importância ainda maior na conquista da 2.ª edição do Campeonato de Portugal. Dentro de campo ocupou as posições de médio-direito e avançado-centro, destacando-se pela sua entrega. Para além do futebol, Francisco foi ainda campeão no lançamento de Disco e na estafeta dos 3x100m, tendo também praticado ténis, cricket e rugby. Desempenhou várias funções na qualidade de dirigente leonino, desde funções na Mesa da Assembleia Geral presidida pelo Visconde de Alvalade, até à passagem pelas Gerências de Queirós dos Santos e da Direção de Soares Júnior na Gerência de 1918, chegando a ocupar a vice-presidência da Direção, entre 19 de fevereiro de 1925 e 23 de fevereiro de 1926. Francisco Stromp amava o Sporting, viveu toda a vida para o clube, e a prova disso é que escolheu a data da sua morte no dia em que os leões festejavam o seu 24.º aniversário. A sífilis, doença de que padecia, seria a causa da sua morte, isto porque no dia 1 de julho de 1930 decidiu pôr termo à vida, atirando-se para a frente de um comboio na Estação de Sete-Rios. O seu nome é hoje em dia associado ao mais alto galardão atribuído pelo Sporting, os prémios Stromp, que distinguem entre outros o melhor atleta, treinador, dirigente e futebolista.

António Stromp
Francisco não era tão eclético quando o seu irmão António, um autêntico atleta multifacetado. Nascido em Lisboa em dia de Santo António (13 de junho de 1894), António contava apenas 15 anos quando em 1909 alinhou na 1.ª equipa de futebol do Sporting, ocupando a posição de extremo, preferencialmente à direita. Era dotado de estupendas qualidades físicas que aliadas à técnica fizeram dele não só um grande futebolista como também um virtuoso praticante de ténis, esgrima e cricket. Em 1913, numa viagem ao Brasil ao serviço da seleção de Lisboa, destacou-se de tal maneira que foi alvo de várias condecorações, as quais foram por ele recusadas, prova da sua humildade. Foi uma das peças preponderantes na conquista do primeiro título de campeão de Lisboa por parte do Sporting, tendo marcado um golo na vitória que conferiu o título aos leões no encontro ante o eterno rival Benfica. 

Mas seria no atletismo que a estrela de António iria brilhar mais alto. Em 1910 participou nos Jogos Olímpicos Nacionais, tendo sido um dos grandes destaques da competição ao vencer a prova de salto à vara. Um ano mais tarde venceu a prova dos 100m com um impressionante registo de 12 segundos, registando desta forma um novo recorde nacional naquela categoria. Mas 1912 seria um ano memorável para António no âmbito do atletismo. Para além de ter vencido os 100m e os 200m metros a nível nacional, foi um dos seis atletas que integrou a primeira comitiva portuguesa a marcar presença nos Jogos Olímpicos. Em Estocolmo, porém, António não fez jus às suas qualidades de velocista, não passando das eliminatórias da  prova dos 100m. No ano seguinte voltaria a triunfar nas pistas, sagrando-se campeão nacional dos 100m. Tal como seu irmão Francisco teve o infortúnio de lhe ser diagnosticada sífilis, terrível doença que o fez deixar o desporto e o levaria à morte a 6 de julho de 1921.

segunda-feira, junho 07, 2021

sexta-feira, junho 04, 2021

Flashes do Hungria-Eslovénia 2021/Europeu de Sub-21 (30)...

Meias-finais

Alemanha - Holanda: 2-1

Golos: Wirtz (2) / Schuurs

Alemanha supera vizinhos da Holanda e alcança a desejada final...

Flashes do Hungria-Eslovénia 2021/Europeu de Sub-21 (29)...

Meias-finais

Portugal - Espanha: 1-0

Golo: Cuenca (a.g.)

Com alguma ponta de sorte Portugal vence duelo ibérico e avança para o jogo decisivo...


terça-feira, junho 01, 2021

Flashes do Hungria-Eslovénia 2021/Europeu de Sub-21 (28)...

Quartos-de-final

Holanda - França: 2-1

Golos: Boadu (2) / Upamecano

Surpresa das surpresas: Les Blues estão fora do Euro!... 

Flashes do Hungria-Eslovénia 2021/Europeu de Sub-21 (27)...

Quartos-de-final

Espanha - Croácia: 2-1 (após prolongamento)

Golos: Puado (2) / Ivanusec

La Rojita precisou de tempo extra para bater combativos croatas...

Flashes do Hungria-Eslovénia 2021/Europeu de Sub-21 (26)...

Quartos-de-final

Dinamarca - Alemanha: 2-2 (5-6 nas grandes penalidades)

Golos: Faghir, Nelsson / Nmecha, Burkardt

Equipa sensação do Euro só foi derrubada no tiro ao alvo... 

Flashes do Hungria-Eslovénia 2021/Europeu de Sub-21 (25)...

Quartos-de-final

Portugal - Itália: 5-3 (após prolongamento)

Golos: Dany Mota (2), Gonçalo Ramos, Jota, Francisco Conceição / Pobega, Scamacca, Cutrone

Emoção e incerteza num jogo em que os guerreiros lusitanos precisaram de tempo extra para bater os azzurrini...

sexta-feira, maio 28, 2021

Arquivos do Futebol Português (15)...

O primeiro troféu internacional conquistado por um clube português

Clube Internacional de Futebol, popularmente designado por CIF, tornou-se em 1907 na primeira equipa portuguesa a atuar fora de portas, facto ocorrido em janeiro desse ano, quando os lisboetas se deslocaram ao reduto do Madrid FC (futuro Real Madrid). O CIF, reforçado com alguns craques ingleses do Carcavellos Club, venceu este jogo por 2-0, tendo este feito sido muito celebrado pelos jornais da época. Não demorou mais de dois anos a que o clube dos Pinto Basto voltasse a receber um convite de nuestros hermanos para voltar ao país vizinho para um novo match, desta feita em Badajoz. Pela frente os portugueses tiveram o Sport Club Bacense, com a particularidade de em jogo estar a disputa de um troféu oferecido pelo município de Badajoz. Com as suas camisolas de listas verticais pretas e brancas, o Internacional era um clube que tinha nascido prestigiado, já que tinha sido fundado pela reunião de vontades de alguns dos mais destacados pioneiros do futebol em Portugal, com destaque para a família Pinto Basto. 
Com um misto de jogadores portugueses e ingleses, o CIF era um emblema elitista e, a par dos ingleses do Carcavellos Club, tinha um prestígio inatacável. 
Rezam as poucas crónicas existentes sobre este encontro que 4000 pessoas terão assistido ao duelo entre espanhóis e portugueses, e que o CIF terá apresentado no retângulo de jogo os seguintes jogadores: Gastão Pinto Basto, Merik Barley, Sidney Mascarenhas, João Figueiredo, Augusto Sabbo, Eduardo Luiz Pinto Basto, Luís Kruss Gomes, Carlos Sobral, Vieira da Silva, A. Barreto e Cecil Barley. 
Quanto ao jogo consta que os portugueses estiveram sempre por cima, foram sempre superiores, impressionando a assistência com a sua técnica e complacência física. O resultado do jogo cifrou-se em 3-0 a favor dos lusos, graças a golos de Vieira da Silva, Luís Kruss Gomes e Augusto Sabbo, sendo que este último foi considerado como o homem do jogo, graças à sua apetência para organizador e condutor de jogo. 
Augusto Sabbo
Augusto Sabbo nasceu em Lisboa a 27 de março de 1887 e tinha ascendência germano-húngara. Estudou na Alemanha, onde chegou a praticar futebol de forma oficial, tendo ainda passado algum tempo na Áustria e na Hungria, locais onde colheu muitos ensinamentos sobre o jogo. Na Alemanha estudou engenharia, sendo que no regresso a Portugal foi um dos responsáveis pela montagem da rede de tração elétrica em Coimbra, entre outras obras. No futebol, os tempos eram ainda muitos verdes em Portugal, praticava-se um estilo de jogo algo rudimentar ainda, e Sabbo viria a tornar-se uma espécie de joia rara no Planeta da Bola luso, já que possuía conhecimentos profundos do jogo e ademais era um visionário. Em Portugal, Sabbo iniciou-se no CIF como jogador, ali deu nas vistas, mas seria já como treinador nos anos 20 que ficaria imortalizado como um dos grandes nomes do nosso futebol. Dirigiu o futebol do Sporting em 1922/23 (quando os leões conquistaram o seu primeiro campeonato de Portugal), sendo que sensivelmente um ano antes, em 1921, foi escolhido para ser o cargo de primeiro seleccionador nacional. Porém, os jogadores não gostaram da dureza dos seus métodos e ele acabou por não orientar nenhum jogo da seleção. Em 1926 tornando-se no primeiro treinador remunerado ao serviço do Sporting, clube onde aplicou toda a sua sabedoria. Em 1923, Sabbo editou em Lisboa um minucioso manual de 75 páginas, intitulado Football (Técnica e Didáctica de Jogo), sobre todos os aspectos importantes do futebol. Para além de jogador e treinador disso foi árbitro e fez ainda parte das primeiras equipas de râguebi do Sporting. Faleceu a 30 de outubro de 1971.

quinta-feira, maio 27, 2021

Emblemas históricos (15)... Luso Atlético Club

Emblema do Luso Atlético Club

Existem surpresas que nos deixam boquiabertos e ao mesmo tempo deliciados. Esta foi sem dúvida uma delas. No âmbito de uma visita à sala de troféus do Académico Futebol Clube fomos presenteados com um trabalho de investigação que nos levou à descoberta de uma verdadeira relíquia já desaparecida do nosso presente.
Na verdade, trata-se de um emblema que assumiu uma importância de relevo no futebol popular/amador portuense dos anos 20 e 30 do século passado e que hoje não passa de uma quase desconhecida recordação. É nesse sentido que abrimos hoje as nossas portas para lembrar o Luso Atlético Club.
E para contar a história deste hoje extinto clube vamos apoiar-nos na tal prenda que nos foi oferecida, mais concretamente o trabalho académico desenvolvido por Lívio Correia no âmbito do III Congresso de História da Santa Casa da Misericórdia do Porto, que decorreu  nos dias 13, 14 e 15 de novembro de 2014 na Casa da Prelada (Porto), obra essa intitulada de “António da Silva Moreira – Mecenas do Luso Atlético Club”.

A obra foca precisamente o mentor deste clube constituído a 14 de abril de 1924 num terreno inserido na Quinta do Lima. Foi nesta extensa área agrícola que, recorde-se, o Académico Futebol Clube viria a construir o primeiro grande e amplo estádio do país, o Estádio do Lima.
António da Silva Moreira
Apraz-nos a este propósito recordar um pouco da história deste complexo desportivo, que tem início nos anos 20, uma década em que o fenómeno desportivo fervilhava em todo o país. A este propósito Lívio Correia recorda no trabalho académico que nos veio parar às mãos que «em Portugal uma elite empresarial patrocinava a prática do desporto amador, como terapia de ocupação dos tempos livres, de uma juventude ociosa».
E a nossa história começa um pouco antes, em 1917, quando após a morte de Luzia Joaquina Bruce o testamento desta benfeitora da Cidade do Porto foi aberto e decretado que o seu património – herdado do seu companheiro de vida, o empresário João António Lima – seria doado à Santa Casa da Misericórdia do Porto. Lívio Correia recorda que esta doação foi um processo rocambolesco, que fez correr muita tinta então, mas que em 1923 após a Santa Casa tomar posse deste vasto património, que era constituído pela já referida Quinta do Lima, e ainda por um senhorial palacete situado na Rua de Costa Cabral, denominado de palacete do Lima, arrenda ao Académico FC não só o palacete – onde hoje funciona a sede e se encontra instalada a vistosa sala de troféus deste emblema portuense – mas também o terreno anexo para que ali o clube desenvolvesse a sua prática desportiva. 

É nos terrenos agrícolas da Quinta do Lima que os academistas iriam erguer o majestoso Estádio do Lima, como já vimos, que cedo se manifestou insuficiente para a oferta desportiva na cidade, dada a elevada procura de praticantes interessados nas várias modalidades que ali se podiam desenvolver. É então que em 1924 nasce naquele meio um novo clube, o Luso Atlético Club. Esta associação irá instalar nos terrenos acidentados situados no extremo nascente da Quinta do Lima um eclético terreno de jogos, segundo nos dá conta Lívio Correia, e cuja principal modalidade praticada seria o futebol. Esse campo foi batizado de Campo do Luso. Localizado paralelamente ao Estádio do Lima este recinto nasceu muito pela vontade férrea do grande mentor do Luso Atlético Club, o abastado comerciante portuense António da Silva Moreira.
Nascido a 28 de janeiro de 1876, este filho de abastados lavradores da freguesia de Silva Escura, na Maia, explorou várias empresas ligadas a diversos ramos de atividades comerciais, mas a sua empresa mais importante terá sido um armazém têxtil situado no edifício do Convento da Trindade, no Porto.
Cartão de associado do Luso Atlético Club

Ficou conhecido nos meandros dos negócios como uma pessoa cortês e prestativa, sendo que do ponto de vista pessoal era tido como alguém sempre pronto a ajudar, uma espécie de mecenas. Era uma figura com interesses culturais, sendo um habitual frequentador do cinema Júlio Dinis. Era igualmente um apaixonado pela atividade desportiva, e foi um dos principais incentivadores da prática do desporto amador na cidade em várias modalidades, sendo o futebol uma delas.

Nessa condição financiou um clube amador então existente na urbe portuense, a União Desportiva Lusitana, com sede na sua residência, a Rua Visconde de Setúbal. Tempos mais tarde este clube extinguiu-se para dar então lugar ao Luso Atlético Club.
Desde a nascença que o Luso foi um clube estritamente de cariz popular, virado para o desporto amador, sendo que António da Silva Moreira foi desde o início o seu principal financiador, o seu principal rosto, tendo naturalmente desempenhado o cargo de presidente.  O símbolo do clube reflete a exaltação nacionalista da época ao apresentar uma águia voante enquanto símbolo da moda na heráldica desportiva.
Planta do Campo do Luso

António da Silva Moreira viria a empenhar-se na construção do Campo do Luso, o palco onde o clube desenvolvia toda a sua atividade desportiva, com o futebol como cabeça de cartaz. No belo jogo o Luso Atlético Club atingiu projeção nos escalões secundários do futebol portuense, embora são poucos os registos que retratam a atividade desportiva do clube nos retângulos do jogo.
Equipa do Luso que se sagrou campeã
de reservas da 2.ª divisão da AFP em 32/33
Regista-se porém a temporada de 32/33 quando a equipa foi campeã de reservas da 2.ª divisão da Associação de Futebol do Porto (AFP), sendo que nesta equipa atuavam três dos seis filhos de António da Silva Moreira, nomeadamente Abílio, Ângelo e José. Nos arquivos da AFP encontram-se alguns dados relativamente à atividade do Luso, sabendo-se que esteve filiado neste órgão nas temporadas de 28/29, 29/30, 30/31, 32/33, 33/34, 34/35 e 35/36. Na época de 33/34 competiu com duas equipas na 2.ª divisão do concelho do Porto. Na temporada de 28/29 sabe-se que o Luso cedeu dois jogadores à seleção portuense que competiu no I Porto-Lisboa Promocionário, nomeadamente os atletas Manuel Gomes e Carlos Lima, que contribuíram para o empate final a duas bolas entre os dois combinados distritais. No Campeonato de Promoção dessa época o Luso participou com quatro categorias, tendo sido 1.º classificado na 3.ª e 4.ª categorias. Nesta mesma temporada participou na prova mais importante do futebol nacional de então, o Campeonato de Portugal, tendo sido eliminado pelo Sporting Clube da Cruz, por 1-2, logo na 1.ª eliminatória. 

A época de glória terá sido então vivida em 32/33 quando o Luso foi campeão de reservas da 2.ª divisão da AFP, ficando à frente do Clube Desportivo de Portugal, do Clube Desportivo do Porto, do Estrela e Vigorosa Sport, do Ramaldense Futebol Clube, do Sporting Clube da Cruz e do Majestic Sport Clube. Esta conquista do Luso foi tida uma proeza notável tendo sido inclusive cantada em verso por um adepto do clube, de seu nome Joaquim Matinha.

O complexo habitacional do Luso onde
outrora estava instalado o campo de jogos
Com mais algumas participações nos campeonatos amadores da AFP o Luso Atlético Clube extinguiu-se a 16 de novembro de 1941. Sabe-se pelos jornais da época que além do futebol o clube praticou durante as suas quase duas décadas de vida o basquetebol, não tendo contudo sido filiado na associação que dirige esta modalidade. 
O Luso morreu no início da década de 40, mas o seu campo de jogos viveu durante mais alguns anos, tendo sido utilizado pelo Sport Clube do Porto para a prática de andebol, bem como de outras associações de bairro e funcionários de empresas que ali apuravam o físico. O Campo do Luso com o passar dos anos foi envelhecendo e perdendo atividade, até que a Santa Casa da Misericórdia do Porto mandou erguer naquele espaço um complexo de prédios que deu o nome de Parque Residencial do Luso. E assim o mítico campo desaparecia. Quanto a António da Silva Moreira faleceu a 15 de outubro de 1964, na sua residência situada na Rua Visconde de Setúbal, ao passo que sobre o Luso Atlético Club a sua memória sobrevive hoje muito devido às referidas torres habitacionais que ainda hoje existem nos terrenos onde outrora se exibiu o Campo do Luso. (Nota: Este texto é baseado em factos retirados do referido trabalho de Lívio Correia, “António da Silva Moreira – Mecenas do Luso Atlético Club”). 

quinta-feira, maio 20, 2021

Arquivos do Futebol Português (14)...

1 de dezembro de 1907 é uma data que se encontra impressa a letras de ouro na história do futebol português. Neste dia o Campo da Quinta Nova, em Carcavelos, é o palco da primeira batalha entre dois “recém nascidos” que com o passar dos anos se tornaram em gigantes do desporto mundial. Os seus nomes? Sport Lisboa e Benfica (que ainda não era assim designado) e Sporting Clube de Portugal.

Nesse dia tinha início o primeiro capítulo de uma rivalidade desmedida e apaixonante que todos os anos – pelos menos em duas ocasiões – divide a Cidade de Lisboa em duas barricadas, uma verde e outra vermelha. É o grande derby do futebol português, e um dos mais intensos do “desporto rei” a nível global, é o “derby eterno” como assim ficou eternamente popularizado.

E derby não é derby sem uma pitada de picardia para aguçar ainda mais o apetite da rivalidade, e desde a primeira hora que um Benfica – Sporting, ou vice-versa, foi envolto em polémicas. Neste primeiro confronto, referente à 3ª jornada do Campeonato Regional de Lisboa, o Sporting entrou em campo com oito ex-benfiquistas no seu “onze” (!), nomeadamente José da Cruz Viegas, Emílio de Carvalho, Albano dos Santos, António Couto, António Rosa Rodrigues, Daniel Queirós dos Santos, Henrique Costa, e Cândido Rosa Rodrigues. Ao que parece o Sporting terá oferecido a estes jogadores condições de higiene, digamos assim, que não existiam na casa do rival, tais como um banho quente no final da cada jogo e camisolas limpas no intervalo dos mesmos!

E seria curiosamente um dos ”traidores” – na boca dos benfiquistas – , mais precisamente Cândido Rosa Rodrigues, a entrar definitivamente para a história dos “derby's eternos” já que é da sua autoria o primeiro golo do duelo entre os dois rivais lisboetas. Cândido Rosa Rodrigues é um dos irmãos "catatau" que esteve na génese da fundação do Grupo Sport Lisboa. Ele pertencia ao Grupo de Futebol Lisbonense que se juntou à Associação do Bem (de Cosme Damião), constituída por ex-alunos da Casa Pia, para formar então o Grupo Sport Lisboa, no dia 28 de fevereiro de 1904.

Cândido Rosa Rodrigues
Mas centremo-nos mais ao pormenor na figura do autor do primeiro golo do "derby eterno". Cândido Rosa Rodrigues nasceu em Lisboa, pela uma da manhã, no primeiro andar do número 144 da rua direita de Belém, e os amigos chamava-lhe Candinho, e juntamente com os seus irmãos António, José e Jorge ficou conhecido por fazer parte dos irmãos "catatau". Em 1904 ele foi um dos 24 fundadores do Grupo Sport Lisboa onde esteve assiduamente durante três temporadas. Vivendo em Belém ele era um dos principais dinamizadores no início do clube, sendo dos mais assíduos nos treinos. No verão de 1907 ele e mais sete jogadores do Sport Lisboa decidiram rumar ao recém fundado Sporting Clube de Portugal, atraído pelas melhores condições proporcionadas pelo clube leonino. Cândido rapidamente deu nas vistas no Sporting, jogando a interior-direito. Esteve presente em muitos dos marcos importantes do início da vida do emblema leonino, como por exemplo na inauguração do primeiro estádio sportinguista, a 3 de dezembro de 1912, ante o Boavista, em que marca 3 dos 12 golos com os leões bateram os portuenses; ou no golo que marcou no primeiro jogo internacional do Sporting, diante do Madrid FC (futuro Real Madrid), em 24 de janeiro de 1913. Esteve sete épocas de verde-e-branco vestido, fazendo mais de 50 jogos oficiais. Faleceu aos 89 anos, de enfarte do miocárdio, tendo sido sepultado no jazigo da família no cemitério dos Prazeres, em Lisboa, onde repousam três dos 24 fundadores do Grupo Sport Lisboa.

Mas voltando ao primeiro duelo entre os dois rivais de Lisboa para recordar um episódio caricato, que foi o facto de minutos após Corga ter restabelecido a igualdade no marcador os jogadores do Sporting terem abandonado o terreno de jogo devido aos fortes aguaceiros que se abateram sobre Carcavelos, tendo voltado ao “campo de batalha” apenas por imposição do árbitro da contenda, o inglês Burtenshaw. E voltariam para festejar de novo na sequência de um lance infortúnio do lendário capitão benfiquista Cosme Damião que ao introduzir a bola na sua própria baliza oferece o triunfo – por 2-1 – aos leões. Segunda as crónicas a altura este foi um jogo intenso, rijamente disputado, onde se sentiu o clima de tensão entre os dois clubes devido à "traição" dos oito desertores do Sport Lisboa para o Sporting

Equipa do Sporting na temporada de 1907/08

Para a eternidade ficam os nomes dos guerreiros da primeira de muitas e intensas batalhas pintadas em tons de verde e vermelho:

Benfica: Persónio, Luís Vieira, Leopoldo Mocho, Alves, Cosme Damião, Bragança, Bermudes, António Costa, Corga, António Meireles, e França.

Sporting: Emílio de Carvalho, Queirós dos Santos, Belo, Albano dos Santos, Couto, Nóbrego de Lima, António Rodrigues, Eagleson, Viegas, Cândido Rosa Rodrigues, e Henrique Costa.

Nesta temporada (07/08) os ingleses do Carcavelos voltaram a ser campeões de Lisboa, e desta feita invictos, isto é, em 10 jogos disputados somaram 10 triunfos, marcaram 61 golos e sofreram apenas seis. Seguiram-se na classificação final o Sporting (14 pontos), o Sport Lisboa (10 pontos), o Lisbon Cricket (9 pontos), o CIF 84 pontos) e o Cruz Negra (3 pontos).

A 13 de setembro de 1908 dá-se um acontecimento importante com o surgimento do Sport Lisboa e Benfica. O Sport Lisboa despede-se do bairro de Belém indo fundir-se com o Grupo Sport Benfica, que detinha um terreno de jogo naquele local.

Emblema do OCC
Mas era a norte que estava por aqueles dias uma das maiores potências futebolísticas de Portugal, o Oporto Cricket Club. Foi constituído originalmente em 1855, estando sediado na zona do Campo Alegre. É a mais antiga instituição desportiva da cidade do Porto e que está ligada à elite britânica. É mesmo esta comunidade que instaura a prática desportiva na cidade e que promovem as primeiras competições desportivas no Porto de várias modalidades. Assim os portuenses começam a praticar desporto e como não podia deixar de ser, o futebol. E porque no início dissemos que o Oporto Cricket Club (OCC) era uma das potências do futebol daquele tempo? Porque em dezembro de 1908 o clube faz uma digressão pela capital do país, tendo defrontado por exemplo o CIF e o Carcavelos, obtendo, respetivamente, vitórias por 2-1 e 3-0. Impressionou sobretudo a vitória sobre o Carcavelos, os campeões de Lisboa, e uma das equipas mais fortes do país. O Sports escrevia que o OCC era uma equipa exemplar, e uma das mais fortes da Península Ibérica de então.

terça-feira, maio 18, 2021

Grandes Mestres do Jornalismo Desportivo (18)... Vítor Santos

Contam-se pelos dedos de uma só mão os jornalistas desportivos que graças ao seu talento e profissionalismo contribuíram para que os órgãos de comunicação social cuja camisola envergaram se tornassem referências tanto a nível nacional como internacional. Um desses exemplos é Vítor Santos, um dos maiores jornalistas de sempre da imprensa desportiva nacional e um ícone do seu jornal de sempre, A Bola.

Nascido a 31 de maio de 1923, na freguesia de Triana (Alenquer), Vítor Gonçalves dos Santos fez todo o seu percurso profissional no jornal da Travessa da Queimada, para onde entrou em 1950 como colaborador.

Embora não tivesse feito parte dos fundadores de A Bola, ele foi um dos grande impulsionadores para o prestígio do jornal. Reza a história que a entrada para este jornal se deu a 1 de novembro de 1950 e que o seu primeiro trabalho terá sido a crónica de um Benfica - Oriental. Quatro anos depois passa a redator, facto que faz com que abandone o 3.º ano da licenciatura no Instituto Superior de Agronomia.

Cândido de Oliveira, figura maior de A Bola naqueles dias, cedo percebe as qualidades de Vítor Santos, convidando-o a assumir o cargo de chefe de redação. Sob a batuta do jornalista de Alenquer o jornal vive alguns dos seus melhores anos de vida, tornando-se uma referência na imprensa desportiva nacional e internacional.

Vítor Santos fundou ainda juntamente com outros vultos do jornalismo desportivo português, como Alves dos Santos, Artur Agostinho, Mário Zambujal, Fernando Soromenho, Manuel Mota, Vítor Sérgio, Mário Cília, Vasco Resende, Carlos Pinhão, e, Aurélio Márcio, em 1966, o CNID – Clube Nacional de Imprensa Desportiva, que institui um prémio com o seu nome para distinguir uma jovem promessa da imprensa escrita desportiva. A mestria e profissionalismo de Vítor Santos valeram-lhe inúmeras distinções ao longo de uma carreira desenrolada somente ao serviço da sua amada A Bola. Entre os muitos prémios que recebeu destacam-se o facto de em 1886 ter sido distinguido pelo Presidente da República com a Medalha de Mérito Desportivo e em 1990 com a Comenda da Ordem do Infante. Foi ainda distinguido pela FIFA com a Bola de Ouro, troféu cultural que distingue os principais nomes do jornalismo.

Viria a falecer a 21 de dezembro de 1990 e dele outro vulto do jornalismo desportivo português, Alfredo Farinha, disse um belo dia: "Vítor Santos está para A Bola como São Pedro está para a Igreja Católica". Palavras para quê?

O nome de Vítor Santos faz parte da toponímia de: Lisboa (Freguesia de Carnide, ex- Rua B da Urbanização da Horta Nova); Sintra (Freguesia de Algueirão-Mem Martins).

Seria ainda homenageado pela sua terra natal, que a 30 de junho de 1995 descerrava a placa do Complexo Municipal de Piscinas Vítor Santos. 

domingo, maio 09, 2021

Museus REAIS do Futebol - Sala de Troféus do Leixões Sport Clube

Sem contar, um dia destes os caminhos profissionais levaram-se a travar conhecimento com uma pequena mas encantadora sala de troféus de um dos mais populares clubes de Portugal, o Leixões Sport Clube. Esta agremiação desportiva de Matosinhos foi fundada em 1907 e ao longo de mais de um século de história arrecadou algumas centenas de troféus, não só no futebol, a modalidade rainha do clube, como igualmente em modalidades como o voleibol, o andebol, o atletismo, o ciclismo, o bilhar, o hóquei em patins, entre outras. Troféus esses que estão religiosamente guardados no Estádio do Mar, a casa dos leixonenses. Trata-se de uma grande vitrina em formato de escada situada no auditório do clube, onde habitualmente se realizam as conferências de imprensa.


À parte da vitrina principal encontra-se guardado quiçá o troféu mais importante da história do clube, a Taça de Portugal em futebol. Título conquistado em 1961, quando o Leixões venceu por 2-0 o FC Porto em pleno Estádio das Antas. Pela importância que tem este troféu está guardado na redoma quadrada (imagem anterior), posicionado de uma forma relevante e em frente da vitrina principal. Um pouco afastado desde local encontram-se algumas fotografias em tamanho gigante do maior feito desportivo do clube, mais concretamente, com a foto da equipa vencedora da taça e do capitão leixonense a carregar o troféu. 



Pequena, como já referimos, mas ao mesmo tempo rica, ou não guardasse alguma da história de um emblema que esteve por mais de duas dezenas de ocasiões na I Divisão Nacional e que por quatro vezes participou nas competições europeias de futebol, assim podemos classificar a sala de troféus do Leixões.