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quinta-feira, maio 27, 2021

Emblemas históricos (15)... Luso Atlético Club

Emblema do Luso Atlético Club

Existem surpresas que nos deixam boquiabertos e ao mesmo tempo deliciados. Esta foi sem dúvida uma delas. No âmbito de uma visita à sala de troféus do Académico Futebol Clube fomos presenteados com um trabalho de investigação que nos levou à descoberta de uma verdadeira relíquia já desaparecida do nosso presente.
Na verdade, trata-se de um emblema que assumiu uma importância de relevo no futebol popular/amador portuense dos anos 20 e 30 do século passado e que hoje não passa de uma quase desconhecida recordação. É nesse sentido que abrimos hoje as nossas portas para lembrar o Luso Atlético Club.
E para contar a história deste hoje extinto clube vamos apoiar-nos na tal prenda que nos foi oferecida, mais concretamente o trabalho académico desenvolvido por Lívio Correia no âmbito do III Congresso de História da Santa Casa da Misericórdia do Porto, que decorreu  nos dias 13, 14 e 15 de novembro de 2014 na Casa da Prelada (Porto), obra essa intitulada de “António da Silva Moreira – Mecenas do Luso Atlético Club”.

A obra foca precisamente o mentor deste clube constituído a 14 de abril de 1924 num terreno inserido na Quinta do Lima. Foi nesta extensa área agrícola que, recorde-se, o Académico Futebol Clube viria a construir o primeiro grande e amplo estádio do país, o Estádio do Lima.
António da Silva Moreira
Apraz-nos a este propósito recordar um pouco da história deste complexo desportivo, que tem início nos anos 20, uma década em que o fenómeno desportivo fervilhava em todo o país. A este propósito Lívio Correia recorda no trabalho académico que nos veio parar às mãos que «em Portugal uma elite empresarial patrocinava a prática do desporto amador, como terapia de ocupação dos tempos livres, de uma juventude ociosa».
E a nossa história começa um pouco antes, em 1917, quando após a morte de Luzia Joaquina Bruce o testamento desta benfeitora da Cidade do Porto foi aberto e decretado que o seu património – herdado do seu companheiro de vida, o empresário João António Lima – seria doado à Santa Casa da Misericórdia do Porto. Lívio Correia recorda que esta doação foi um processo rocambolesco, que fez correr muita tinta então, mas que em 1923 após a Santa Casa tomar posse deste vasto património, que era constituído pela já referida Quinta do Lima, e ainda por um senhorial palacete situado na Rua de Costa Cabral, denominado de palacete do Lima, arrenda ao Académico FC não só o palacete – onde hoje funciona a sede e se encontra instalada a vistosa sala de troféus deste emblema portuense – mas também o terreno anexo para que ali o clube desenvolvesse a sua prática desportiva. 

É nos terrenos agrícolas da Quinta do Lima que os academistas iriam erguer o majestoso Estádio do Lima, como já vimos, que cedo se manifestou insuficiente para a oferta desportiva na cidade, dada a elevada procura de praticantes interessados nas várias modalidades que ali se podiam desenvolver. É então que em 1924 nasce naquele meio um novo clube, o Luso Atlético Club. Esta associação irá instalar nos terrenos acidentados situados no extremo nascente da Quinta do Lima um eclético terreno de jogos, segundo nos dá conta Lívio Correia, e cuja principal modalidade praticada seria o futebol. Esse campo foi batizado de Campo do Luso. Localizado paralelamente ao Estádio do Lima este recinto nasceu muito pela vontade férrea do grande mentor do Luso Atlético Club, o abastado comerciante portuense António da Silva Moreira.
Nascido a 28 de janeiro de 1876, este filho de abastados lavradores da freguesia de Silva Escura, na Maia, explorou várias empresas ligadas a diversos ramos de atividades comerciais, mas a sua empresa mais importante terá sido um armazém têxtil situado no edifício do Convento da Trindade, no Porto.
Cartão de associado do Luso Atlético Club

Ficou conhecido nos meandros dos negócios como uma pessoa cortês e prestativa, sendo que do ponto de vista pessoal era tido como alguém sempre pronto a ajudar, uma espécie de mecenas. Era uma figura com interesses culturais, sendo um habitual frequentador do cinema Júlio Dinis. Era igualmente um apaixonado pela atividade desportiva, e foi um dos principais incentivadores da prática do desporto amador na cidade em várias modalidades, sendo o futebol uma delas.

Nessa condição financiou um clube amador então existente na urbe portuense, a União Desportiva Lusitana, com sede na sua residência, a Rua Visconde de Setúbal. Tempos mais tarde este clube extinguiu-se para dar então lugar ao Luso Atlético Club.
Desde a nascença que o Luso foi um clube estritamente de cariz popular, virado para o desporto amador, sendo que António da Silva Moreira foi desde o início o seu principal financiador, o seu principal rosto, tendo naturalmente desempenhado o cargo de presidente.  O símbolo do clube reflete a exaltação nacionalista da época ao apresentar uma águia voante enquanto símbolo da moda na heráldica desportiva.
Planta do Campo do Luso

António da Silva Moreira viria a empenhar-se na construção do Campo do Luso, o palco onde o clube desenvolvia toda a sua atividade desportiva, com o futebol como cabeça de cartaz. No belo jogo o Luso Atlético Club atingiu projeção nos escalões secundários do futebol portuense, embora são poucos os registos que retratam a atividade desportiva do clube nos retângulos do jogo.
Equipa do Luso que se sagrou campeã
de reservas da 2.ª divisão da AFP em 32/33
Regista-se porém a temporada de 32/33 quando a equipa foi campeã de reservas da 2.ª divisão da Associação de Futebol do Porto (AFP), sendo que nesta equipa atuavam três dos seis filhos de António da Silva Moreira, nomeadamente Abílio, Ângelo e José. Nos arquivos da AFP encontram-se alguns dados relativamente à atividade do Luso, sabendo-se que esteve filiado neste órgão nas temporadas de 28/29, 29/30, 30/31, 32/33, 33/34, 34/35 e 35/36. Na época de 33/34 competiu com duas equipas na 2.ª divisão do concelho do Porto. Na temporada de 28/29 sabe-se que o Luso cedeu dois jogadores à seleção portuense que competiu no I Porto-Lisboa Promocionário, nomeadamente os atletas Manuel Gomes e Carlos Lima, que contribuíram para o empate final a duas bolas entre os dois combinados distritais. No Campeonato de Promoção dessa época o Luso participou com quatro categorias, tendo sido 1.º classificado na 3.ª e 4.ª categorias. Nesta mesma temporada participou na prova mais importante do futebol nacional de então, o Campeonato de Portugal, tendo sido eliminado pelo Sporting Clube da Cruz, por 1-2, logo na 1.ª eliminatória. 

A época de glória terá sido então vivida em 32/33 quando o Luso foi campeão de reservas da 2.ª divisão da AFP, ficando à frente do Clube Desportivo de Portugal, do Clube Desportivo do Porto, do Estrela e Vigorosa Sport, do Ramaldense Futebol Clube, do Sporting Clube da Cruz e do Majestic Sport Clube. Esta conquista do Luso foi tida uma proeza notável tendo sido inclusive cantada em verso por um adepto do clube, de seu nome Joaquim Matinha.

O complexo habitacional do Luso onde
outrora estava instalado o campo de jogos
Com mais algumas participações nos campeonatos amadores da AFP o Luso Atlético Clube extinguiu-se a 16 de novembro de 1941. Sabe-se pelos jornais da época que além do futebol o clube praticou durante as suas quase duas décadas de vida o basquetebol, não tendo contudo sido filiado na associação que dirige esta modalidade. 
O Luso morreu no início da década de 40, mas o seu campo de jogos viveu durante mais alguns anos, tendo sido utilizado pelo Sport Clube do Porto para a prática de andebol, bem como de outras associações de bairro e funcionários de empresas que ali apuravam o físico. O Campo do Luso com o passar dos anos foi envelhecendo e perdendo atividade, até que a Santa Casa da Misericórdia do Porto mandou erguer naquele espaço um complexo de prédios que deu o nome de Parque Residencial do Luso. E assim o mítico campo desaparecia. Quanto a António da Silva Moreira faleceu a 15 de outubro de 1964, na sua residência situada na Rua Visconde de Setúbal, ao passo que sobre o Luso Atlético Club a sua memória sobrevive hoje muito devido às referidas torres habitacionais que ainda hoje existem nos terrenos onde outrora se exibiu o Campo do Luso. (Nota: Este texto é baseado em factos retirados do referido trabalho de Lívio Correia, “António da Silva Moreira – Mecenas do Luso Atlético Club”). 

quinta-feira, março 08, 2018

Emblemas históricos (14)... Bethlehem Steel Football Club



A histórica equipa do Bethlehem Steel que logrou vencer o seu primeiro título nacional em 1915

Não é possível caminhar no presente rumo ao futuro sem olhar para o passado, sem recordar o que nos trouxe até aqui e que irá nos transportar até mais além. A História - seja ela feita de boas ou de más memórias - é por demais importante para dizermos hoje quem somos e onde queremos estar amanhã. Ninguém é o que é no presente sem ter feito um percurso para ali chegar, e é aqui, neste ponto, que o passado ganha vida ao ser evocado. Bom, esta visão (pessoal) confere vida à nossa história de hoje, à história do Bethlehem Steel Football Club, ou recorrendo a linguagem metafórica, a raíz da popularidade do soccer norte-americano. Contrariamente ao que muitos historiadores, jornalistas ou simples entusiastas do belo jogo pensam, o futebol em Terras do Tio Sam não nasceu com a contratação de Pelé por parte do New York Cosmos na década de 70, nem com a atual projeção internacional da Major League Soccer, nem mesmo com a escandalosa vitória da modesta (e amadora) seleção yankee no Mundial de 50 às custas da então super-potência planetária Inglaterra, ou com o histórico terceiro lugar obtido pelo combinado norte-americano no primeiro Campeonato do Mundo da FIFA, realizado em 1930 no Uruguai.



A fábrica Bethlehem Steel
que construiu a América!
O soccer notabilizou-se muito antes de tudo isto, e muito por influência do Bethlehem Steel Football Club, considerado como a primeira potência clubística do futebol estado-unidense. Falar deste emblema implica abordar temas como a industrialização e a imigração, e é aqui que entra o nome da Bethlehem Steel, outrora, e também ela, uma super-potência da indústria norte-americana, e um símbolo do poderio industrial da nação yankee a nível internacional. Situada em Bethlehem esta empresa transformou por completo a pequena cidade do Estado da Pensilvânia, que sensivelmente a meio do século XIX deixou de lado a sua pacatez para passar a ser uma movimentada urbe, quadriplicando nas décadas seguintes a sua população. Com o seu vincado crescimento e consequente importância na economia norte-americana, a Bethlehem Steel passou a ser vista por cidadãos de vários pontos do globo como o passaporte para o sonho americano, como o veículo rumo à conquista de uma vida melhor numa nação que abria as suas portas ao Mundo. Fundada em 1857 esta empresa tornou-se simultaneamente num curto espaço de tempo no maior construtor naval e no segundo maior produtor de aço do país. Não é à toa que inúmeros historiadores se referem aos milhares de operários que passaram pela Bethlehem Steel como "o povo que ajudou a construir a América". Esta frase é sintomática da importância da fábrica que durante décadas foi a responsável pela produção dos rails para a construção das linhas de caminho de ferro de todo o país; pela construção de navios e aviões usados, respetivamente, pela Marinha e Força Aérea norte-americanas nas duas Grandes Guerras, ou pelo fabrico do ferro usado na construção de tantos e tantos arranhas céus hoje tão comuns em qualquer grande cidade norte-americana. O tal "povo que ajudou a construir a América" era composto por cidadãos forasteiros, imigrantes à procura de um futuro risonho, provenientes na sua maioria da Europa, e das ilhas britânicas muito em particular. Durante a semana o trabalho era duro, muito duro, mas ao fim de semana tempo havia para a diversão, para o convívio, e aí... entrava em ação o soccer! Entre a classe operária sobressaiam, nos tempos livres, os cidadãos de origem britânica, que entre si matavam saudades das suas terras natais dando vida àquele objeto mágico que com eles havia feito a longa travessia no Atlântico: a bola de futebol. Os animados duelos futebolísticos sucediam-se fim-de-semana após fim-de-semana na capital do ferro, não sendo de causar estranheza que em 1907 os operários da fábrica tivessem fundado o Bethlehem Football Club. 



O símbolo dos progenitores
do futebol nos EUA
Estes homens defenderam o recém criado emblema de forma totalmente amadora nos primeiros anos de atividade oficial, por assim dizer, disputando acesos duelos contra outras equipas amadoras locais. Será imperativo dizer que naqueles dias o profissionalismo ainda não havia visto a luz do dia no universo do soccer norte-americano. O grande ponto de viragem na história do clube acontece em 1914, quando a Bethlehem Steel Corporation decide tomar as rédeas da sua equipa, sobretudo ao nível financeiro, injetando nesta capital suficiente para a tornar no primeiro grande nome do futebol da América do Norte. O clube passa então a chamar-se Bethlehem Steel Football Club. Muitos dos imigrantes que tentaram naqueles dias a sua sorte no norte do continente americano eram igualmente grandes artistas da bola, sobretudo os que viajavam de Inglaterra, a pátria do futebol moderno, tendo a Bethlehem Steel Corporation iniciado a partir de então um recrutamento minucioso no sentido de captar os melhores futebolistas para a sua equipa. Aos atletas eram-lhes oferecidos bons empregos na fábrica, na qual trabalhavam de segunda a sexta-feira, deixando o fim-de-semana para fazer aquilo para o qual haviam sido contratados: jogar o melhor futebol que sabiam. 



O primeiro estádio construído na América
única e exclusivamente para o soccer
A paixão em torno do soccer crescia a olhos vistos na nação yankee nos anos 10, de tal forma que a modalidade ascende à elite do desporto norte-americano a par do baseball ou do american football. Esse aumento de popularidade do belo jogo entre o povo, fez com que Bethlehem Steel Corporation construísse o primeiro estádio destinado única e exclusivamente à prática do futebol: o Bethlehem Steel Athletic Field, com capacidade para cerca de 2400 pessoas - hoje em dia propriedade do Moravian College, que o destina para os jogos da sua equipa de futebol americano. A glória desportiva não tardou a chegar à cidade de Bethlehem, que na temporada de 1914/15 vê a sua equipa vencer a American League of Philadelphia, uma espécie de liga regional. Mas o ponto alto dessa temporada aconteceu na então competição rainha do soccer estado unidense, a U.S. National Challenge Cup - atual US Open Cup, ou Taça dos Estados Unidos da América. Foi a primeira grande competição futebolística da nação norte-americana, e vencê-la era o equivalente a conquistar a América! Na final, o Bethlehem Steel derrotou os Brooklyn Celtic por 3-1, numa partida realizada no Taylor Stadium, na Pensilvânia. Nesse encontro brilharam algumas das primeiras grandes estrelas da história do Bethlehem Steel FC, cidadãos de origem britânica que haviam chegado aos Estados Unidos com a missão de colocar o clube no topo da América, no que a futebol diz respeito. Tommy Fleming, autor de um golo nessa final e um dos jogadores mais preponderantes na conquista desse primeiro êxito, foi uma dessas primeiras estrelas. Nascido na Escócia, Fleming havia tido uma primeira incursão no futebol dos States na primeira década do século XX, ao serviço do Fore River, de Massachusetts, antes de regressar ao seu país para representar o Morton. Ele foi uma das primeiras contratações da Bethlehem Steel Corporation para defender as cores da sua equipa, tendo-o feito até 1924. É considerado pelos historiadores do futebol estado unidense como um dos primeiros grandes extremos daquele país. Ao lado de Fleming no campo de batalha estavam ainda nomes como John "Jock" Ferguson, Robert Millar e Robert Morrison, também eles escoceses de berço e contratados especificamente para ajudar o clube a encontrar o caminho da glória. Ferguson, por exemplo, era um experiente lateral esquerdo que havia atuado no Leeds City - a semente do atual Leeds United -, ao passo que Millar – um avançado - chegou à América proveniente do St. Mirren em 1911, tendo em 1915 apontado uns impressionantes 54 golos em 33 jogos ao serviço do clube de Bethlehem. Quinze anos mais tarde, e já na qualidade de treinador, Robert Millar liderou a seleção dos Estados Unidos da América no primeiro Mundial FIFA, realizado no Uruguai, onde aí conquistou um brilhante terceiro lugar, a melhor classificação obtida até hoje pela nação yankee em Mundiais. No centro do terreno atuava Robert Morrison, outro craque proveniente das Highlands, e que antes de chegar ao continente americano havia defendido por uma ocasião as cores da Escócia numa partida internacional contra a vizinha e inimiga Inglaterra.
O cortejo pelas ruas da cidade após a conquista da American Cup
Estes foram alguns dos craques que iniciaram o percurso vitorioso do Bethlehem Steel FC ao longo da década de 10, e que culminou com mais três triunfos na U.S. National Challenge Cup – nos anos de 1916 (vitória por 1-0 sobre o Fall River Rover), de 1918 (triunfo novamente alcançado diante do Fall River Rover, por 3-1) e de 1919 (vitória sobre o Paterson, por 2-0). Paralelamente a estas conquistas o conjunto de Bethlehem somou ainda os títulos da American Cup – em 1916, 1917, 1918 e 1919 –, outra competição de nível elevado no plano nacional do emergente soccer norte-americano. Encontramos aqui muitas “dobradinhas”, ou seja, o clube dominou em diversos anos as duas maiores competições do país. Por estes dias o Bethlehem Steel FC era indiscutivelmente a maior potência do futebol da América, fruto do grande investimento financeiro que a empresa que lhe dava o nome fazia ano após ano, recrutando no Reino Unido matéria prima de qualidade que acabaria por ter um papel preponderante não só no incremento da popularidade do futebol em Terras do Tio Sam como também, e sobretudo, na abertura dos caminhos do profissionalismo. Prova da grandiosidade do clube é o facto de 15 jogadores que integraram a equipa ao longo da década de 10 foram nomeados para o Hall of Fame do futebol dos EUA, a maior distinção que um atleta pode ter na sua carreira.


Reconhecimento internacional



A equipa que esteve em digressão pela Suécia e Dinamarca em 1919
Dentro de portas o prestígio do Bethlehem Steel FC brilhava com uma intensidade crescente. Brilho esse que no final da década começava a transpor as fronteiras do continente americano rumo à Europa. Em 1919 o clube escreve mais uma página histórica, não só da sua existência como do próprio soccer dos EUA, ao tornar-se na primeira equipa profissional daquele país a atuar no Velho Continente. Quando a federação sueca enviou o convite à United Soccer Football Association para esta enviar a terras nórdicas uma equipa, a escolha do organismo norte-americano foi unânime: o Bethlehem Steel FC. Em Gotemburgo, Helsinburgo, Estocolmo e Copenhaga (na Dinamarca) a equipa efetuou vários jogas contra combinados locais, tendo vencido sete, empatado dois e perdido cinco. Os grandes campeões dos EUA, como foram anunciados aos quatro ventos pela Suécia e Dinamarca, jogaram para estádios repletos de curiosos entusiastas em ver em ação o popular clube de Bethlehem. Mais um facto que atesta a grandeza deste clube.

Archie Stark: o bombardeiro do soccer estado-unidense

Archie Stark
Já aqui foi dito que o crescimento do Bethlehem Steel FC foi concretizado graças ao dinheiro da Bethlehem Steel Corporation, que contratou em Inglaterra e Escócia – sobretudo neste último país – jogadores de elevada qualidade que conduziram este emblema à glória e fama internacional. Glória e fama que continuaram, de certa forma, a pairar sobre os céus de Bethlehem na década de 20, embora com menos intensidade do que nos anos 10. A explicação alude ao facto de a Bethlehem Steel Corporation ter começado a enfrentar alguns problemas financeiros no que ao investimento da sua equipa de futebol dizia respeito. Embora também, e há que frisá-lo, este abrandamento do clube no trilho das grandes conquistas nacionais tenha acontecido porque outros emblemas um pouco por toda a América começavam também eles a abraçar o profissionalismo e a contratar jogadores de referência que os conduzisse ao patamar da glória e fama que era habitado pelo Bethlehem Steel FC. Um desses emblemas, e principal rival do clube de Bethlehem na luta pela glória e fama a nível nacional era o Fall River Marksmen, do Estado de Massachusetts, e onde pontificavam alguns dos mais notáveis futebolistas estado-unidenses dessa segunda década do Século XX, entre outros, Jimmy Douglas – guarda-redes titular da seleção norte-americana no Mundial de 1930 –, o criativo médio escocês Jimmy Gallagher, Bert Patenaude – autor do primeiro hattrick num Campeonato do Mundo, precisamente em 1930 –, ou o luso descendente Billy Gonsalves, considerado por muitos como o maior jogador de todos os tempos do soccer da América. Se o domínio a nível estatal, ou regional, continuava a ser avassalador, no plano nacional o Bethlehem Steel FC apenas voltou a chegar à glória em 1924, na American Cup – após derrotar na final o grande rival de Fall River por 1-0 –, e em 1926 na U.S. National Challange Cup, na sequência de uma esmagadora vitória em Brooklyn (Nova Iorque) ante o Bem Millers por 7-2. Nesse triunfo o destaque maior vai para aquele que é considerado como o avançado mais mortífero da história do soccer nos EUA: Archie Stark. Nasceu em Glasgow (Escócia) nos finais do século XIX – mais concretamente em 1897. Archibald, o seu nome próprio, nunca defendeu qualquer emblema do seu país natal, já que muito cedo, com 14 anos, emigrou com os seus pais para New Jersey, tendo ali mesmo iniciado a sua aventura no soccer. Antes de ser contratado pelo Bethlehem Steel em 1924, Stark atuou em diversos clubes, alguns de menor dimensão, como o Kearny Scots (New Jersey), ou o Babcock & Wilcox, e noutros de maior nomeada, casos do New York Field Club e do Paterson. O escocês chega a Bethlehem numa altura em que a fábrica que gere o clube tem que vender algumas das suas principais pérolas futebolísticas para fazer face às dívidas acumuladas em torno do soccer. Abra-se um parênteses para dizer que Archie Stark era um velho sonho dos responsáveis do Bethlehem Steel FC, que em 1919, na digressão efetuada à Suécia e à Dinamarca, integraram o avançado escocês como jogador convidado nessa famosa digressão. A passagem de Stark por Bethlehem resume-se aos golos, às centenas de remates certeiros que fizeram dele o maior “bombardeiro” da história do futebol dos Estados Unidos da América (EUA). Senão vejamos. Na temporada de estreia (1924/25) ele faz o gosto ao pé por 70 ocasiões em 46 disputados (!), sendo que em termos percentuais isto equivale dizer que sozinho ele fez 52,75% dos golos da sua equipa. Este é um recorde que até hoje ninguém sequer ousou bater. Na época seguinte, a máquina de golos de Bethlehem voltou a fazer-se notar: 59 golos em 47 jogos. A veia goleadora de Stark foi decisiva para a conquista da quinta U.S. National Challenge Cup por parte Bethlehem Steel FC, que na grande final derrotaria o Bem Millers por 7-2 e com um poker do goleador escocês. Na temporada seguinte a inspiração goleadora da então grande referência de Bethlehem foi menos notada, mas ainda assim digna de registo: 25 golos em 33 jogos. Em 1927/28 ele fez 34 golos em 52 encontros, e na derradeira temporada ao serviço do clube a fasquia subiu para 49 golos em 42 encontros disputados.


Archie Stark, com as cores
do Bethlehem Steel durante
a digressão escandinava
No total, Archie Stark fez 275 golos em 252 jogos disputados pelo Bethlehem Steel FC. Foi internacional pelos EUA em duas ocasiões, contra os vizinhos do Canadá, e a sua lenda só não é equiparável à de Billy Gonsalves por causa de uma simples digressão à Europa. Passamos a explicar esta curiosidade. Durante décadas a dúvida sobre quem teria sido o primeiro grande jogador do soccer norte-amerciano da História persistiu entre historiadores e simples apaixonados pelo belo jogo. Billy Gonsalves ou Archie Stark. Ambos rivalizaram entre si por esse estatuto, mas o luso descendente leva para muitos a melhor, não só divido à sua apurada técnica – Stark era mais um finalizador do que um mago dos dribles, como era Gonsalves – mas igualmente por o facto de ter declinado o convite para defender as cores dos EUA no primeiro Mundial de futebol. Stark preferiu aceitar o convite do Fall River Marksmen para realizar alguns jogos de exibição na Checoslováquia, Hungria e Áustria. Stark terá alegado que preferia viajar pela Europa do que ir a Montevideu jogar contra seleções de segunda linha do futebol planetário de então. No entanto, quem brilhou a grande altura foi a seleção yankee nesse primeiro Mundial, alcançando o já referido terceiro lugar, muito por influências das exibições de Billy Gonsalves que a partir de então passou a ostentar o estatuto de lenda maior do soccer. Historiadores desportivos norte-americanos ainda hoje opinam que se Stark tivesse integrado a comitiva dos EUA rumo ao Uruguai talvez a sua seleção tivesse regressado a casa com a… a taça na mão (!), caso o ataque da equipa nacional estivesse entregue à dupla Stark/Gonsalves. Suposições, apenas! No entanto, Archie ainda hoje detém um recorde na seleção nacional que apenas outros três jogadores (no caso, Aldo Donelli, Landon Donovan e Joe Max Moore) igualaram, isto é, o facto de ter apontado quatro golos num jogo, algo que aconteceu num dos duelos com o Canadá em novembro de 1925. 1930 foi precisamente o ano em que Stark deixou Bethlehem, tendo terminado a sua carreira no ponto de partida, isto é, em Kearny.



Voltando ao início desta nossa longa viagem para chegar ao fim de linha do grandioso Bethlehem Steel FC. Nos finais dos anos 20 o soccer dos EUA vivia dias conturbados, fruto das guerras entre a American Soccer League e a United States Football Association pelo controlo da modalidade em termos nacionais. Os clubes entraram na guerra, juntando-se a uma ou à outra entidade. Competições como a American Cup, foram extintas, o que levou a que alguns emblemas deixassem de competir. Outros como o Bethlehem Steel FC ignoraram boicotes, como o de 1928, ordenado pela American Soccer League, que face a isto decide expulsar o clube da U.S. National Challange Cup. A juntar aos problemas financeiros este seria o passo final do Bethlehem Steel FC rumo ao abismo, à extinção, algo que viria a acontecer em 1930. Em 2015 uma espécie de nostalgia veio ao de cima em Bethlehem quando foi anunciada a fundação de um nome soccer club na cidade, batizado de: Bethlehem Steel Football Club. Filial dos Philadelphia Union (clube da Major Soccer League), este novo emblema atua hoje nos terceiro escalão do futebol estado-unidense, na United Soccer League, e é não mais do que uma homenagem ao seu progenitor e pioneiro da história do futebol profissional dos EUA. Como sustentam inúmeros historiados norte-americanos, a história do Bethlehem Steel FC (original) é a história do futebol na América.

quarta-feira, novembro 27, 2013

Emblemas históricos (13)... Galt Football Club

Numa anterior viagem ao passado deste jogo encantador recordámos aquele que foi o primeiro emblema a conquistar um título de dimensão internacional, mas que na realidade hoje não é reconhecido como oficial. Falámos dos ingleses do Upton Park Football Club, que em 1900 subiram ao lugar mais alto do pódio nas Olímpiadas de Paris, no que a futebol diz respeito. A glória, porém, não é reconhecida pela FIFA (surgida em 1904) que alega que os primeiros dois torneios olímpicos de futebol - ocorridos em 1900 e 1904 - eram meramente exibicionais, ou seja, de promoção do jogo do pontapé na bola, além de que foram disputados por grupos colegiais e clubes amadores, e não por seleções nacionais.
Por certo o ilustre visitante já percebou pois que o Upton Park FC não foi o único campeão olímpico que na realidade... nunca o foi. E é então aqui que inicíamos esta nossa viagem ao passado...

Em 1904 a cidade norte-americana de Saint Louis organiza a terceira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna. Ou melhor, tal como Paris havia feito quatro anos antes integra o evento desportivo na Exposição Universal, intitulada de Louisiana Purchase Exibition. Como em 1900 na capital francesa, os Jogos foram um mero e pequeno apontamento da grande feira internacional, facto que mais uma vez indignou o presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), o barão Pierre de Coubertin, que nesse sentido recusou-se a marcar presença na cerimónia de abertura do evento, apesar do apelo feito pelo presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Theodore Roosevelt, para que o (re)criador dos Jogos comparecesse na dita cerimónia .
Na verdade os Jogos Olímpicos de 1904 tornaram-se no mais vincado exemplo de racismo/preconceito racial presente na centenária história das Olimpíadas, ficando até hoje conhecidos como os "Dias Antropológicos". Esta denominação aponta para o facto das Olimpíadas de Sanit Louis terem servido quase única exclusivamente para entreter os indivíduos de raça branca que se deslocavam à feira internacional, os quais se divertiam a ver os empregados do certame, onde entre os quais figuravam mexicanos, negros, índios, filipinos, ou pigmeus, a competir entre si em caricatas atividades inseridas nas ditas Olimpíadas. Atividades essas pouco desportivas, diga-se na verdade, já que do ridículo e racista programa olímpico, se é que assim o podemos chamar, havia uma prova que consistia em cuspir tabaco!!! Não se ficou contudo a saber quem foi o campeão olímpico nesta modalidade tão peculir. Aliás, esta foi apenas uma das muitas atividades absolutamente ridículas inseridas nos Jogos de 1904, e talvez por isso o COI tenha decidido anular cerca de 80 medalhas então atribuídas naquelas que foram as Olimpíadas menos participativas da história, com apenas 12 países (representados por 500 atletas) a marcar presença em Saint Louis.

Bom, para além desta triste imagem social a história diz-nos que em Saint Louis também se jogou futebol, ou soccer, como lá - EUA - é denominado o desporto rei. Mas tal como outras modalidades - ou pseudo-modalidades como as cuspidelas de tabaco - foi de mero entretenimento e demonstração. E tal como em Paris, quatro anos antes, três foram as equipa participantes na corrida ao ouro. Abra-se aqui um parêntese para informar que foi em Saint Louis que pela primeira vez foram atribuidas medalhas de ouro aos campeões, de prata aos vice campeões, enquanto que os terceiros classificados levavam para casa o bronze. Mas voltando ao futebol, para dizer que o pobre torneio olímpico seria composto por duas equipas oriundas de estabelecimentos de ensino (!) locais, a do Christian Brothers College, e a do Saint Rose Parish, às quais se juntou uma equipa canadiana, denominada de Galt Football Club.
Canadá que enquanto nação fazia, aliás, a sua estreia olímpica.


Não se sabendo ao certo a data da sua fundação - se 1881 ou 1882 -o Galt era proveniente da cidade com o mesmo nome, situada no Estado de Ontário, a uns 100km de Toronto, e no seu palmarés - até à entrada de 1904 - detinha os títulos de campeão da Ontario Cup de 1901, 1902, e 1903. Conta-se ainda que neste último ano o Galt FC efetuou uma digressão pela província canadiana de Manitoba, tendo aí realizado 17 jogos, traduzidos em 16 vitórias (!) e apenas um empate consentido. Reza a lenda que era de facto a melhor equipa do soccer do Canadá da época.
Pelo facto de terem meramente um caráter demonstrativo, e para não aborrecer muito os nativos norte-americanos com aquele jogo europeu, a organização decide que cada partida do torneio olímpico tem a duração de apenas uma hora, com duas partes de 30 minutos.

A caminhada gloriosa do Galt FC...

O soccer entrou pois em cena no mês de novembro, no dia 16 para sermos mais precisos, muito depois de as outras modalidade terem tido a sua aparição (!), já que a esmagadora maioria das provas olímpicas decorreu entre julho e setembro. Nesse dia pisaram o relvado do Francis Filed, o anfiteatro das Olimpíadas de 1904, as equipas do Galt FC e do Christian Brothers College, equipas, convém sublinhar, compostas por atletas completamente amadores, sendo que no caso desta última juntamos a característica de inexperientes no que a futebol dizia respeito. Resultado final: 7-0 a favor dos experientes canadianos, com o destaque individual a recair sobre o avançado-centro Alexander Hall, um escocês de berço - nasceu em Peterhead, a 3 de dezembro de 1880 - que ainda adolescente emigrou para o Canadá, país onde desenvolveria a sua paixão pelo belo jogo. Ainda num registo biográfico sobre Alex Hall - como era conhecido - é de referir que após os Jogos de Saint Louis voltou à Europa, tendo atuado na First Division inglesa ao serviço do Newcastle United - em 1907 - e na principal liga do seu país natal, ao serviço de equipas como o Dundee FC e o Dunfermline, pouco antes de combater pelo lado inglês durante a I Guerra Mundial.
Bem, mas voltando à partida de abertura do torneio olímpico de 1904 para sublinhar que Alex Hall foi a estrela da tarde ao apontar três golos aos frágeis alunos do Christian Brothers College. Gordon McDonald, com dois tentos na conta pessoal, Frederick Steep, e Thomas Taylor foram os autores dos restantes tentos da equipa do Estado de Ontário.

Apoiados por cerca de 50 adeptos que com eles fizeram a longa viagem de comboio até Saint Louis - entre esses adeptos encontrava-se o mayor (presidente da câmara) de Galt, de nome Mark Munday - os jogadores do conjunto do Canadá fizeram o segundo jogo um dia depois (!), desta feita ante o combinado do Saint Rose Parish. O resultado final traduziu-se em mais uma vitória fácil, embora por números mais suaves: 4-0. Neste encontro a estrela foi o veloz extremo-direito Thomas Taylor, autor de dois golos, que fizeram com que ele fosse a par de Alex Hall - de quem fazia a diferença de idade de apenas um dia, já que Hall havia nascido a 3 de dezembro de 1880, enquanto que Taylor nasceu em Galt um dia depois desse mesmo ano - o melhor marcador do torneio, com três remates certeiros.
O triunfo sobre o também frágil conjunto do Saint Rose Parish deu desde logo o título ao Galt FC, que somava assim duas vitórias, não importando pois o resultado do terceiro e último jogo de torneio, que no dia 20 de novembro colocaria frente a frente as duas equipas norte-americanas. O resultado final dessa luta pela prata olímpica foi um nulo, pelo que houve a necessidade de se realizar um jogo de desempate, marcado para 23 de novembro, sendo que ai o Christian Brothers College levou a melhor por 2-0, ficando assim com a medalha de prata.

Voltando aos campeões olímpicos, ou campeões do Mundo, como a imprensa da época os rotulou, estes receberam as medalhas de ouro logo após a epopeia de Saint Louis, pela mão do chefe de Departamento de Física e Cultura local, James E. Sullivan, tendo regressado posteriomente à pequena cidade do Canadá onde seriam recebidos como autênticos heróis. Pudera.
No ano seguinte a esta conquista uma equipa amadora inglesa, denominada de Pilgrims, realizou uma digressão por algumas localidades do Canadá e dos EUA. Durante a estadia no primeiro país foi agendado um duelo com o Galt FC, os campeões do Mundo como eram chamados, tendo por isso o jogo sido batizado de o Campeonato do Mundo (!), atendendo precisamente ao facto de um dos lados da barricada ser ocupado pelos... campeões do Mundo. O jogo atraiu as atenções de milhares de pessoas, não só no Canadá como também nos vizinhos dos EUA, e por esse facto foram colocados à disposição dos adeptos comboios especiais para Grand River, o local da partida. 3-3 foi o resultado final, e o título mundial continuou assim na posse do Galt FC, clube que viria a conhecer o seu fim em 1910.
Ainda hoje, a conquista de Saint Louis, em 1904, é considerada como o maior feito da história do futebol canadiano... embora, e não será demais repetir, a FIFA não o reconheça.
Para a ternidade ficam pois os nomes de Ernest Linton, George Ducker, John Gourlay, Robert Lane, Albert Johnston, John Fraser, Thomas Taylor, Frederick Steep, Alexander Hall, Gordon McDonald, e William Twaits, os onze heróis de Saint Louis.

Legenda das fotografias:
1-Equipa do Galt FC, campeã olímpica de 1904
2-O cartaz oficial dos Jogos de Saint Louis
3-A frente e verso da medalha de ouro conquistada pelo Galt FC
4- Imagem do Francis Filed, o recinto que acolheu os Jogos de 1904
5-Alex Hall
6-Thomas Taylor
7-Uma avenida da pequena cidade de Galt no início do século XX, altura em que a sua equipa se sagrou... campeã do Mundo!!!

quarta-feira, julho 17, 2013

Emblemas históricos (12)... Ponta Delgada Soccer Club

Fall River, cidade norte-americana situada no Estado de Massachusetts que no início do século XX foi destino de milhares de emigrantes portugueses, na sua maioria oriundos dos Açores, que deixavam para trás a miséria de um Portugal em profunda depressão - a diversos níveis - e partiam em busca do sonho americano. Homens e mulheres que ali chegados trabalhavam arduamente, horas a fio, nas muitas fábricas existentes em Fall River. Nesta cidade criaram as suas raízes, casaram, tiveram os seus filhos, e ali morreram. Fall River foi pois o lar adotado por milhares de aventureiros lusitanos, que mesmo deixando para trás o seu amado Portugal fizeram questão de levar consigo na bagagem crenças, costumes, tradições, e atividades bem lusitanas que de certo modo os faziam sentir-se próximos do seu país natal naquela terra tão distante e inicialmente desconhecida. Uma dessas atividades populares - não de origem lusitana mas na época já bem vincada na sociedade do país do sul da Europa - era o futebol, ou como estranhamente era denominado em Terras do Tio Sam, soccer. Para além de portugueses, Fall River era povoada por outras comunidades de imigrantes provenientes do Velho Continente, irlandeses, escoceses, ingleses, ou italianos. E tal como os lusos também estes tinham como paixão o futebol, sendo que aos domingos, dia de descanso após uma longa e dura semana de trabalho, as comunidades destes países juntavam-se para praticar - ou para assistir - o seu desporto de eleição. Não tardou muito pois que aqui e acolá começassem a florir os primeiros clubes idealizados pelos imigrantes europeus, sendo que em 1915 via a luz do dia o Ponta Delgada Soccer Club, que como o próprio nome indica foi fundado por açorianos, na sua maioria oriundos da ilha de S. Miguel. E tal como outros emblemas criados por imigrantes europeus o Ponta Delgada SC teve ao longo da sua vida um papel preponderante na dinamização e popularização do soccer em terras americanas, tendo sido um dos atores principais da chamada golden era (era dourada) do belo jogo nos Estados Unidos da América (EUA).

Foi nos anos 20 que o jogo conheceu de facto a sua primeira grande explosão de popularidade junto do povo norte-americano. Era comum ver-se em volta de uma partida assistências a rondar as 10.000 ou 15.000 pessoas, que vibravam com a arte futebolística das primeiras lendas do soccer dos States, casos de Thomas Swords (o primeiro capitão da seleção nacional dos EUA que disputou o seu primeiro jogo internacional em 1916), de Bert Patenaude, ou de Billy Gonsalves, este último também ele um luso descendente, neste caso filho de pais madeirenses, e que para muitos é ainda hoje considerado o maior jogador norte-americano de todos os tempos (nota: sobre ele o Museu Virtual do Futebol já traçou algumas linhas biográficas noutras viagens ao passado). Grandes dominadores do futebol dos EUA daquele tempo eram a quase esmagadora maioria dos combinados de Fall River, nomeadamente o Fall River Marksmen - clube fundado em 1922, que nesta década venceu por sete vezes o título nacional (American Soccer League) e em quatro ocasiões a taça nacional (National Challenge Cup, atualmente conhecida como US Open Cup) - o Fall River Rovers, ou o Fall River Football Club. Mais do que títulos ganhos todos eles encantaram multidões.

Seria no entanto na década seguinte que o Ponta Delgada Soccer Club iria conhecer os seus primeiros momentos de fama. Curiosamente esta seria uma década de declínio para o soccer, muito por culpa da Grande Depressão que assolou os EUA, a qual provocou o encerramento de inúmeras indústrias, atirando milhares de homens e mulheres para o desemprego. Com isto o futebol sofreu, muitos clubes fecharam portas, outros transferiram-se para cidades maiores e mais abastadas. O soccer perdia furor...

Ponta Delgada SC domina era amadora

Perdia furor mas não morria. Sem dinheiro para alimentar uma liga profissional o jogo percorreria então os caminhos do amadorismo, e neles o Ponta Delgada Soccer Club ganhou algumas corridas. O primeiro grande título conquistado pelo clube de origens portuguesas ocorreu a 1 de maio de 1938, dia em que o clube venceu por 2-1 o Pittsburgh Heidelberg na final da National Amateur Cup, uma espécie de campeonato nacional de amadores. Mas o melhor viria na década seguinte. Munido de um grupo de notáveis jogadores, na sua esmagadora maioria luso descendentes, o Ponta Delgada colecionou títulos atrás de títulos, sendo que entre 1946 e 1948 foi três vezes consecutivas campeão da National Amateur Cup. Em 1946 fez mesmo história no soccer dos EUA, ao tornar-se no primeiro clube a atingir as finais de duas competições distintas no mesmo ano, a National Amateur Cup - a qual venceu, como já vimos, após derrotar na final o Castle Shannon of Pittsburgh por 5-2 - e a National Challenge Cup, em cuja final seria derrotado pelos Chicago Vikings por 1-2. No ano seguinte a equipa voltou a marcar presença nas finais de duas competições distintas, mas desta vez o desfecho foi bem mais feliz: venceu as duas! O Ponta Delgada Soccer Club entrava assim para a história do soccer norte-americano ao tornar-se no primeiro emblema a vencer no mesmo ano duas competições distintas. Na final da National Amateur Cup - disputada em maio desse ano - o clube cilindrou por 10-1 o Saint Louis Carondelets, com o destaque individual a ir para Ed Souza, um dos muitos artistas luso-americanos daquele célebre combinado, atleta que nessa tarde apontou cinco golos. A 31 de agosto, na primeira mão da final da Taça dos EUA (National Challenge Cup) o Ponta Delgada esmagou na primeira mão o Chicago Sparta por 6-1, com golos com sotaque português: Ed Souza (2), John Souza, Ed Valentine, e Joe Ferreira, sendo que outro tento saiu dos pés de John Travis. Nesse histórico encontro o Ponta Delgada SC alinhou com: Walter Romanowicz, Joe Machado, Manuel Martin, Joseph Rego-Costa, Joe Ferreira, Jesse Braga, Frank Moniz, Ed Souza, Ed Valentine, John Souza, e John Travis.
Cerca de uma semana depois, na segunda mão da final, nova vitória foi alcançada, desta feita por 3-2, em Chicago, com tentos de Jim Delgado, Joe Ferreira, e John Travis. A alinhação do Ponta Delgada SC foi a seguinte: Walter Romanowicz, Joe Machado, Manuel Martin, Joseph Rego-Costa, Joe Ferreira, Jesse Braga, Frank Moniz, Ed Souza, Ed Valentine, John Souza, e John Travis.Jogaram ainda Jim Delgado, Joseph Michaels, e Victor Lucianno.

Dobradinha chama à atenção da United States Soccer Federation

A dupla conquista do emblema de ascendência lusitana não deixou ninguém indiferente, muito menos os responsáveis máximos do futebol norte-americano, que nesse ano de 1947 viram a seleção nacional yankee integrar a primeira edição da North American Football Confederation Championship, digamos que a competição antecessora da atual Gold Cup. O certame teve lugar em Cuba, entre 13 a 20 de julho, sendo que para além da equipa da casa e dos EUA o México também figurava no cartaz. Grupo norte-americano que era constituído 100 por cento pelos atletas do Ponta Delgada Soccer Club! A convite da United States Soccer Federation (Federação Norte-Americana de Futebol) os jogadores do clube de Fall River trocaram a sua camisola habitual pela da seleção nacional. Uma honra! O resultado, esse, não foi famoso, já que a viagem a Cuba saldou-se por duas pesadas derrotas, uma por 0-5 ante o México - que seria o campeão do evento - e outra por 2-5 ante os anfitriões, tendo os tentos dos soccer boys sido apontados por Ed Souza e Ed Valentine.

Mas não se ficaria por aqui a incursão de jogadores do Ponta Delgada SC na equipa nacional. No ano seguinte os Estados Unidos da América marcavam mais uma vez presença no torneio olímpico de futebol, que nesse ano decorreu em Londres. Para encontrar os melhores atletas capazes de representar condignamente o país o selecionador nacional da altura, Walter Giesler, organizou um jogo entre as estrelas do Este e do Oeste dos EUA. No final dessa triagem, digamos assim, Giesler chamou cinco jogadores do Ponta Delgada Soccer Club para fazer a viagem até à capital britânica, nomeadamente Ed Souza, John Souza, Joe Ferreira, Manuel Martin, e Joseph Rego-Costa. Participação norte-americana que desde cedo foi problemática, já que antes da partida para a Europa a seleção não realizou qualquer treino conjunto, muito menos jogos de preparação, tudo devido ao mau tempo! Preparação essa que foi feita no navio que transportou os yankees para Londres! Surreal! A equipa só tocou na bola já em solo europeu, onde faria alguns jogos de preparação muito em cima do arranque da competição, fatura que acabaria por sair cara ao combinado de Giesler, já que logo na primeira eliminatória dos Jogos de 48 foi afastado pela Itália por concludentes 9-0!

Ed e John Souza presentes na página mais cintilante do soccer norte-americano

Mas se a viagem a Londres foi rotulada de insucesso o mesmo não aconteceria dois anos mais tarde, quando o selecionado norte-americano viajou para o Brasil para participar no Campeonato do Mundo. Para a América do Sul o selecionador Walter Giesler e o treinador de campo Bill Jeffrey levaram dois luso descendentes, dois diamantes extraídos da mina do Ponta Delgada Soccer Club, Ed Souza e John Souza, que apesar de partilharem o mesmo apelido não tinham qualquer laço familiar. E no Brasil eles ajudaram os EUA a escrever a página mais cintilante da sua história, no que a futebol diz respeito, e quiçá o maior escândalo do futebol planteário, altura em que a poderosa seleção inglesa foi derrotada por 0-1 pelos amadores dos States, facto este já relatado neste museu virtual vezes sem conta.
Voltando ao Ponta Delgada Soccer Club, 1950 seria um ano quase brilhante, já que ao título de campeão da National Amateur Cup o emblema esteve muito perto de repetir a dobradinha de 1947, perdendo a final da National Challenge Cup para o Saint Louis Simpkins-Ford, onde aliás atuavam alguns dos heróis norte-americanos do Mundial de 50, casos de Frank Borghi, Gino Pariani, Charles Colombo, entre outros. O clube de origens açorianas arrecadou ainda em 1953 um último título da National Amateur Cup, sendo que dali em diante praticamente se eclipsou do mapa futebol dos EUA, aliás tal como a prórpia modalidade, que só viria a conhecer um novo impulso na década de 70 com a criação da National American Soccer League, e com a chegada do rei Pelé aos EUA para relançar o belo jogo em terras onde ainda hoje ele é olhado com alguma... desconfiança e desinterese.
Em 1985 o Ponta Delgada mudou o nome para Patriot's Bar and Grille (!), até que em 2008 encerrou definitivamente as portas.

Os luso americanos mais sonantes da história do clube

Ao longo das linhas anteriores foram mencionados alguns dos nomes mais sonantes da história do clube, sendo que nas próximas linhas iremos apresentar de forma mais detalhada aqueles que mais brilharam na cena internacional com as cores da seleção norte-americana.

Joseph Ferreira: Tal como a maioria dos jogadores do Ponta Delgada Soccer Club, Joseph Ferreira tinha uma alcunha, no seu caso era chamado de Za-Za. Nasceu a 5 de dezembro de 1916, em Fall River, pois claro. Destacou-se no terreno de jogo como médio defensivo, e tal a maior parte dos seus companheiros deu os primeiros pontapés na bola no Ponta Delgada. Foi um dos rostos principais das décadas (40 e 50) douradas do emblema de Fall River, vivendo por dentro, e em algumas vezes foi mesmo determinante, as principais conquistas do clube. Foi chamado por quatro ocasiões à seleção dos EUA, tendo a primeira ocorrido em 1947, no decorrer da primeira edição do North American Football Confederation Championship, onde atuou como titular na derrota ante o México por 0-5. No ano seguinte vestiu por mais três ocasiões a camisola do seu país, em dois particulares - derrota com a Noruega por 0-11 (!), e vitória sobre Israel por 3-1 - e no torneio olímpico de Londres, onde sentiu na pele a pesada derrota diante da Itália por 0-9. Em 1957, numa altura em que o Ponta Delgada SC entrava na fase decrescente da sua vida, Joe Za-Za Ferreira deixou o clube, rumando para o vizinho Fall River Soccer Club, onde terminaria a carreira. Fall River viu-o nascer e assistiu também ao seu desaparecimento, a 10 de junho de 2007.

Joseph Rego-Costa: Três anos mais novo do que o seu companheiro Za-Za Ferreira, Joseph Rego-Costa brilhou no lado direito do setor recuado do terreno, isto é, como defesa/lateral direito. Tendo tido igualmente como berço a cidade de Fall River, Joe Rego-Costa nasceu a 3 de julho de 1919. Nas Olimpíadas de 1948 ele foi o capitão da seleção nacional dos EUA no encontro diante da Itália, tendo sido esta uma das cinco vezes em que envergou a camisola do seu país, sendo que as outras ocasiões ocorreram no North American Football Confederation Championship, onde realizou os dois encontros dessa fase final, digamos assim, e nos particulares ante a Noruega e Irlanda - derrotas, respetivamente, por 0-11, e 0-5. A brilhante carreira de Joe Rego-Costa não foi esquecida, e em 1988 ele foi nomeado para figurar - para a eternidade - no New England Soccer Hall of Fame, uma museu onde repousam os nomes e factos mais relevantes do futebol daquela região dos EUA. Tal como Za-Za Ferreira, Joe Rego-Costa nasceu e morreu em Fall River, no seu caso 27 de abril de 2002 é a data do seu falecimento.

Manuel Martin: Manuel Oliveira Martin, dos cinco craques mais sonantes que o Ponta Delgada Soccer Club deu ao futebol dos EUA ele foi o único que não nasceu em Fall River. Mas não muito longe dali viu a luz do dia pela primeira vez a 29 de dezembro de 1917, mais precisamente em Bristol, Rhode Island, tendo tal como os seus companheiros sido uma das figuras principais das décadas douradas do Ponta Delgada SC. Pela seleção dos EUA atuou em sete ocasiões, com destaque para as presenças no North American Football Confederation Championship de 1947 (fez os dois jogos), na edição desta mesma competição de 1949, ocorrida no México, onde Martin atuou em três encontros, e nos Jogos Olímpicos de 1948. Tal como Joe Rego-Costa atuava no setor recuado do terreno, e depois da sua retirada dos campos de futebol seguiu uma curta carreira de treinador, desempenhando funções de treinador-adjunto na equipa feminina da Uiversidade de Massachusetts.
Em 1983 ele foi nomeado para o New England Soccer Hall of Fame, tendo 14 mais tarde falecido em Fall River.

Ed Souza: Edward Souza-Neto, ou simplesmente Ed Souza, foi um dos mais talentosos avançados do soccer americano de todos os tempos. Ele era o elemento mais novo dos cinco astros nascidos para o futebol no Ponta Delgada SC, tendo nascido a 22 de setembro de 1921. Durante muitos anos foi um dos homens-golo da equipa, destacando-se a sua veia goleadora na dupla campanha vitoriosa de 1947, isto é, na National Amateur Cup e na National Challenge Cup. Integrou a seleção norte-americana no North American Football Confederation Championship de 1947, nos Jogos Olímpicos de 1948, e no Mundial de 1950, tendo sido um dos 11 heróis que atuou na sensacional e inesperada vitória sobre a Inglaterra no célebre jogo realizado em Belo Horizonte. Nesse Campeonato do Mundo realizou ainda mais um encontro, o da última jornada do grupo 2 diante do Chile (derrota por 2-5). Ed Souza, que apesar de partilhar o apelido com o seu companheiro de clube e de seleção John Souza nenhuma relação familiar tinha com este, falecendo a 19 de maio de 1979, em Warren, Rhode Island.

John Souza: Talvez o mais mediático jogador do Ponta Delgada Soccer Club. Uma das estrelas mais cintilantes de sempre do soccer dos EUA, tendo sido o primeiro jogador deste país a fazer parte do onze ideal de um Campeonato do Mundo da FIFA. Nasceu a 12 de julho de 1920, em Fall River, e tal como muitos dos seus companheiros do soccer era filho de pais açorianos. Ganhou a alcunha de Clarkie, aparentemente por ser parecido com o popular ator Clark Gable. Ao serviço do clube da sua terra, o Ponta Delgada SC, John Clarkie Souza venceu os títulos mais importantes do historial do emblema. Atuando como atleta amador, tal como os restantes companheiros, Clarkie trabalhava arduamente durante a semana nas fábricas de Fall River e ao domingo brilhava com as cores do seu clube do coração. Fê-lo até 1951, altura em que resolve mudar de ares, transferindo-se para o New York German-Hungarians, clube pelo qual vence uma National Amateur Cup e uma National Challenge Cup. Pela seleção norte-americana este avançado atuou em 14 ocasições, estreando-se, tal como os seus colegas de clube, no North American Football Confederation Championship, em 1947, prova onde voltaria a representar os States dois anos mais tarde. Também com os EUA atuou em duas edições dos Jogos Olímpicos, mais precisamente em Londres (1948), e em Helsínquia (1952), onde voltou a ver a sua seleção ser massacrada pela Itália, desta feita por 0-8. Mas o ponto alto da sua carreira foi mesmo o Mundial de 1950, no Brasil, onde foi titular nos três encontros que os soccer boys fizeram na América do sul, tendo vivido a tarde mágica de 29 de junho daquele ano, quando em Belo Horizonte a Inglaterra foi batida pelos desconhecidos - para o resto do planeta, pelo menos - norte-americanos. As suas exibições nesse Mundial levaram então a revista brasileira Mundo Esportivo a nomea-lo para o onze ideal do torneio da FIFA. Jogaria até aos 40 anos, e quem o viu atuar diz que poderia ter jogador em qualquer equipa do Mundo, tal era a sua mestria com a bola nos pés. Como a maioria dos heróis de Belo Horizonte também ele foi nomeado para o National Soccer Hall of Fame, tendo falecido já no novo milénio (a 11 de março de 2012). 

Legenda das fotografias:
1-Talvez a fotografia mais relevante da história do Ponta Delgada SC, o dia em que o clube venceu a National Challenge Cup (atualmente conhecida como US Open Cup) de 1947
2-Um jogo de futebol nos anos 20, a década em que a modalidade alcançou índices de popularidade absimal nos EUA
3-John Clarkie Souza, para muitos o jogador mais mediático da história do Ponta Delgada SC
4-Walter Giesler, selecionador nacional dos EUA nos Jogos Olímpicos de 1948 e no Mundial de 1950
5-A histórica equipa dos EUA que derrotou a Inglaterra no Campeonato do Mundo de 1950
6-Joseph Ferreira
7-Joseph Rego-Costa
8-Manuel Martin
9-Ed Souza
10-John Souza

Para ti mãe...