quinta-feira, novembro 28, 2013

Estrelas cintilantes (36)... Patalino

Já lá vão os tempos em que o amor à camisola falava mais alto. Tempos em que na hora de decidir entre ficar na terra natal a defender as cores do clube local ou assinar um contrato chorudo com um emblema de maior dimensão a balança pendia para a primeira opção. A paixão pelo clube onde cresceram, e no qual aprenderam a gostar de futebol, aliada ao amor à terra onde nasceram não tinha preço, nenhuma proposta milionária era capaz de superar este misto de sentimentos. Um pouco por todo o planeta da bola registaram-se várias histórias de amor eterno a um clube ou a uma cidade, sendo que Portugal conheceu algumas delas, sobretudo na Era do futebol romântico... bem distinto da atual Era do Futebol Indústria. A nossa estrela cintilante de hoje escreveu uma dessas histórias encantadoras de amor eterno, tendo tido o desplante - dirão alguns - de recusar propostas tentadoras de clubes como o Bordéus, o Atlético de Madrid, ou o gigante vizinho - deste - Real Madrid. Falamos de Domingos Carrilho Demétrio, ou simplesmente Patalino, para muitos o maior diamante que do Alentejo se extraiu no que a futebol diz respeito. Ainda hoje ele é o maior símbolo futebolístico de uma região onde o desporto rei atualmente vive sem chama, sem vivacidade, e sem o encanto de outros tempos, onde belíssimas equipas em representação de notáveis clubes como os dois rivais de Évora (Juventude e Lusitano), o Portalegrense, o Elvas, ou mais recentemente o Campomaiorense viveram empolgantes aventuras nos palcos mais importantes do futebol português. Como em tantos outros aspetos também no futebol o Alentejo vive vetado quase ao esquecimento!
Este triste cenário alude ao presente, porque o passado traduz-se em glória, e glória é sinónimo de Patalino, o rei do futebol alentejano.

Nasceu pobre, como tantos outros meninos do interior alentejano nas longínquas primeiras décadas do século XX, mais concretamente no dia 29 de junho de 1922. Elvas foi o seu berço, e um dos grandes amores da sua vida. Mais pobre - seguramente - ficou quando ainda adolescente, com 11 anos, perdeu o chefe de uma família de quatro irmãos - ele era um deles - o seu pai. Do progenitor herdou porém a alcunha que o iria eternizar nos campos de futebol, Patalino. Reza a lenda que o pai de Domingos Carrilho Demétrio era um exímio intérprete do jogo da pata, tão popular no Alentejo daquele tempo. Daí advém a alcunha Pata... lino, assim o batizaram os conterrâneos da pacata e simpática vila alentejana. Apesar de presenciar, enquanto criança, a mestria de seu pai na interpretação do tradicional jogo da pata, a paixão do jovem Domingos naqueles tempos de garoto era outra, e dava pelo nome de futebol. De pé descalço ele deu os primeiros pontapés numa bola de trapos. Com a morte do pai teve de ajudar no sustento da casa e pedreiro se tornou, mas nos tempos livres continuava a divertir-se nas jogatanas de rua com os rapazes da sua idade. Foi na rua que começou pois a dar nas vistas, rua que com o passar dos anos foi-se tornando cada vez mais pequena - e insignificante - para o talento do jovem Patalino. Um artista daqueles precisava de pisar um campo de futebol a sério, vestir a camisola de um clube, e com ela espalhar alegria e entusiasmo pelas bancadas. Assim, aos 18 anos entrou para o Clube de Futebol "Os Elvenses", filial número um do Belenenses, onde transportou para o retângulo de jogo a sua vincada e entusiasmante veia técnica, aliada à sua sagaz capacidade de finalização. Características demasiado requintadas para um Elvenses que na época de estreia (40/41) de Patalino deambulava pelos campeonatos regionais da Associação de Futebol de Portalegre.
O talento do filho de mestre do jogo da pata merecia outros palcos, mais pomposos, e uma temporada depois assina pelo Sport Lisboa e Elvas, filial do Benfica, e que rivalizava em termos de popularidade entre os habitantes de Elvas com o Sporting Clube Elvense, a filial do Sporting, pois claro. Em termos desportivos o SL Elvas era a equipa mais bem cotada da cidade, galgando escalões uns atrás dos outros. Em 1941/42 lutava na 2ª Divisão Nacional pela subida ao escalão principal, tendo para isso contribuido a arte de Patalino, que ainda limava o seu perfil de excelente avançado-centro. Porém, ainda lhe faltava alguma experiência para ser um verdadeiro galo de combate, e talvez por isso em 43/44 o SL Elvas empresta o promissor atleta ao Lanifícios de Portalegre, emblema que também disputava o segundo escalão nacional. Mas a estadia na capital do distrito foi curta.
Percebendo o erro cometido os dirigentes do SL Elvas são prontos a exigir o regresso de Patalino ao clube, onde aos poucos foi ganhando o estatuto de estrela principal, ajudando a guiar o emblema até à 1ª Divisão na temporada de 45/46, terminando a prova em 9º lugar. Esta época seria memorável para o Belenenses, já que no último jogo do campeoanto atuava em Elvas ante o conjunto de Patalino. Uma vitória dos azuis de Belém garantia-lhes o título, caso contrário este iria fugir para o Benfica. E o SL Elvas tudo fez para oferecer o ceptro de campeão ao pai SL Benfica, mas com um - último - quarto de hora de jogo avassalador os azuis do Restelo venceram por 2-1, alcançando assim o único título de campeão nacional da 1ª Divisão da sua história.
Na época seguinte o SL Elvas é 9º posicionado, de novo, e o nome de Patalino era já conhecido por todo o país, que não ficava indiferente à sua veia goleadora. Patenteando uma postura elegante em campo ele facilmente alvejava - ou com os pés, ou com a cabeça - as redes contrárias. Graças a Patalino, Elvas tornou-se numa terra difícil para qualquer que fosse o clube do Campeonato Nacional da 1ª Divisão. Era uma fortaleza para a equipa da casa, e para dali sair com algum resultado positivo era preciso suar muito. Ver os jogos do SL Elvas era de facto um regalo para os olhos dos adeptos do futebol de ataque. Os golos surgiam em catadupa nas redes contrárias, e Patalino era o principal responsável por aquele lendário futebol ofensivo. No que concerne a números a estrela alentejana apontou nesta segunda temporada no escalão maior 24 golos, superado apenas pela lendária máquina goleadora do Sporting, Fernando Peyroteo, o maestro dos Cinco Violinos.
Apesar da fama desportiva a presença em dois anos consecutivos na 1ª Divisão trouxe sérias dificuldades ao SL Elvas. As constantes deslocações para outras cidades, com o intuito de disputar os jogos "fora" da competição, fez mossa nas modestas finanças do clube alentejano. Foi solicitada a ajuda à casa mãe, isto é, ao Benfica, o qual de imediato negou qualquer tipo de auxílio. Com o mesmo problema se debatia o Sporting Clube Elvense, sendo que após amistosas conversações entre os dirigentes dos dois clubes decidiu-se pela fusão dos dois emblemas, e assim em 15 de agosto de 1947 nascia O Elvas - Clube Alentejano de Desportos. O novo emblema ocuparia a vaga deixada pelo SL Elvas na 1ª Divisão, sendo que Patalino continuava a ser o principal abono de família elvense. Episódio famoso na época de estreia de O Elvas na 1ª Divisão foi o jogo no Campo Grande, ante o poderoso Benfica, clube este que precisava urgentemente de vencer os alentejanos para não ver fugir o título de campeão para o rival Sporting. E eis como que de uma vingança se tratasse - pela recusa dos encarnados de Lisboa em ajudar financeiramente o SL Elvas num passado recente - Patalino mata o sonho benfiquista, e com dois golos oferece o título ao Sporting.

Perante tamanha qualidade os responsáveis pela seleção nacional abriram em 1949 as portas da equipa das quinas a Patalino. A estreia deu-se na catedral do futebol luso, o Estádio Nacional, a 15 de maio desse ano, ante o País de Gales, tendo os lusos vencido por 3-2... com um golo da autoria de Patalino. Que estreia! Vestiria a camisola de Portugal em mais duas ocasiões - numa altura em que os jogos internacionais não eram realizados com tanta frequência como são hoje - e apontaria mais um golo.
A classe do astro alentejano ultrapassava agora as fronteiras nacionais, e do estrangeiro chegavam a Elvas propostas milionárias pelo concurso do seu valioso atleta. As primeiras ofertas chegaram dois anos antes da estreia de Patalino pela seleção nacional. O Bordéus foi o primeiro a lançar o canto da sereia, com o talentoso goleador a responder no seu estilo humilde e amável que Elvas estava no seu coração, que amava a terra como bom alentejano que era, e como tal declinou o convite. Nesse mesmo ano seria a vez do Atlético de Madrid passar a fronteira e acenar com 300 mil pesetas, metade para o clube, e a outra metade para o jogador, valor ao qual juntava a cedência de três jogadores ao clube alentejano e ainda a realização de um jogo em casa de O Elvas. Em Madrid, Patalino iria usufruir de um ordenado de 2500 pesetas, acrescido de prémios de jogo. A resposta? Não! O amor ao clube e à terra voltou a falar mais alto.
O Badajoz, o Sevilla, e o colosso Real Madrid também tentaram aliciar o jogador com propostas milionárias, sendo que o clube madrileno chegou a oferecer 400 mil pesetas pela transferência e um ordenado de 35 mil pesetas. A cobiça não era restrita a Espanha. Em Portugal, Benfica, Belenenses, e Sporting (que via no alentejano o homem ideal para substituir Peyroteo), também tentavam seduzir a estrela do futebol alentejano, e na época uma das maiores de todo o país, mas o seu amor a Elvas e ao clube local falou sempre mais alto. Reza a lenda que tudo o que Patalino queria era amealhar algum dinheiro para poder comprar um táxi de modo a garantir o sustento para o resto da vida.

Diz quem com ele de perto privou que era um homem simples, ingénuo, até, bem diferente do rápido, fogoso, e viril jogador que assombrava as balizas adversárias. Na pacatez de Elvas ele era feliz, despindo a glória e a fama angareadas nos muitos campos de futebol por onde passeava a sua classe. O terror dos guarda-redes, como alguém um dia o chamou defendeu com paixão a camisola de O Elvas até 51/52, altura em que o clube andava já pela 2ª Divisão. Altura também em que vicissitudes o levariam a deixar a sua amada Elvas, a terra que em inúmeras entrevistas ele dizia não trocar por nada desta vida. Mudou de terra, mas não deixou o seu Alentejo, fazendo a viagem até Évora para defender as cores do Lusitano, popular emblema que na época atuava entre os grandes do futebol lusitano. E também aqui o rei do futebol do Alentejo fez história nas quatro épocas - entre 52/53 e 55/56 - em que vestiu a camisola verde-e-branca do Lusitano, sendo que entre muitas tardes de glórias, e dezenas de golos marcados, destaca-se uma eliminação do gigante FC Porto em pleno Estádio das Antas. Pelo Alentejo continuou a balançar as redes por mais alguns anos, mais concretamente no FC Serpa, clube que ajudou a conquistar o título de campeão nacional da 3ª Divisão em 56/57, precisamente a temporada em que vestiu pela primeira vez a camisola deste emblema, pelo qual jogaria até 59/60.
Com a carreira de futebolista a caminhar para o fim Patalino queria arranjar um emprego que lhe garantisse um bom resto de vida, e talvez por isso, traiu finalmente o seu Alentejo. Saiu para o Barreiro, onde em 1960/61 representou a equipa do Luso nos campeonatos distritais! Despediu-se de uma brilhante carreira no modesto Arrentela - também nos distritais - onde jogaria até 1963, ao mesmo tempo em que era empregado da Siderogia Nacional.

Patalino regressou à sua amada Elvas nos últimos anos da sua vida, localidade onde viveu os melhores momentos de uma carreira que poderia ter contornos bem mais gloriosos, caso tivesse aceite propostas milionárias de clubes como o Real Madrid, o Atlético de Madrid, ou os franceses do Bordéus. Mas será que se Patalino tivesse dito que sim a esses tentadores - e irrecusáveis nos dias de hoje - convites poderia considerar-se um homem feliz? Se calhar não. A fama e o dinheiro não significavam tudo na Era do Futebol Romântico. Este é um bom exemplo disso.
Domingos Carrilho Demétrio faleceu em Elvas a 28 de junho de 1989. Ainda hoje, quem chega a Elvas vive a lenda de Patalino, não só pela boca dos poucos elvenses ainda vivos que em crianças o viram jogar, mas também porque o estádio municipal tem o seu nome, e onde está implantado um busto seu que assim perpétua a lenda daquele que é não só o mais famoso desportista elvense de todos os tempos, como também o mais afamado de todos os futebolistas nascidos no Alentejo.

Legenda das fotografias:
1-Patalino, com a camisola do seu amado O Elvas
2-Defendendo as cores do Sport Lisboa e Elvas
3-Uma equipa do SL Elvas na 1ª Divisão Nacional (Patalino é o jogador da fila de baixo que tem a bola)
4-Equipa de O Elvas na época de estreia na 1ª Divisão
5-Patalino com as cores da seleção nacional
6-Representando o Lusitano de Évora. Patalino efetuou um total de 189 jogos na 1ª Divisão, tendo marcado 118 golos!
7-O FC Serpa de Patalino, campeão nacional da 3ª Divisão
8-Busto de Patalino à entrada do Estádio Municipal Domingos Carrilho Demétrio "Patalino"

2 comentários:

Anônimo disse...

biografia muito bem elaborada parabéns

Joaquim Dores disse...

O meu pai foi um grande amigo do grande homem que foi o Patalino.

Deu grande apoio ao clube quando jogava fora.

Por várias vezes pagou as deslocações dos jogadores e todas as despesas a elas inerentes quando o Elvas jogava fora.

Ainda conheci o nosso Patalino quando ele trabalhava na Siderurgia Nacional pois o meu pai continuava a visitá-lo frequentemente e eu acompanhava-o sempre.