quarta-feira, março 20, 2013

Grandes lendas do futebol mundial (12)... José Torres - O Bom Gigante

Há no seio do futebol a ideia generalizada de que os jogadores de elevada estampa física dificilmente alcançam o estatuto de magos do belo jogo. Uns centímetros a mais do que é normal na altura média de um futebolista é para muitos sinal evidente de azelhice! Piropos desagradáveis como: «este é bom é para apanhar uvas», ou «vai mas é jogar basquetebol», são escutados sistematicamente nos estádios de futebol sempre que um rapaz de estatura acima da média surge com uma bola nos pés. 
Este é porém um julgamento precipitado, já que nem só de toscos e matacões reza a história do futebol quando falamos de atletas calmeirões. Muitos há que se tornaram intransponíveis defesas, habilidosos médios condutores de jogo, ou mortíferos avançados. E é precisamente nesta última categoria que se insere a lenda que hoje vamos recordar, um homem cujo nome repousa para sempre no panteão dos heróis do futebol português. José Torres, o Bom Gigante, como ficou eternizado, marcou uma era do belo jogo em terras lusitanas. Fez parte de uma geração mágica e inesquecível comandada pelo Pantera Negra Eusébio, secundado por outras lendas como Mário Coluna, António Simões, José Augusto, José Águas, Jaime Graça, Vicente Lucas, ou Hilário da Conceição.

Torres, o Bom Gigante do futebol luso, foi um homem de extremos, no que ao mundo encantado do futebol diz respeito, como no desenrolar desta visita virtual iremos perceber. 

Nasceu a 8 de setembro de 1938 na localidade de Torres Novas, e como tantas outras crianças deu os primeiros pontapés na bola na rua, sonhando seguir as pisadas das estrelas da época, ou de épocas passadas, já que no seu caso o tio, Carlos Torres, havia vestido durante quatro temporadas a camisola de um dos principais emblemas lusitanos, o Benfica. Longe estaria – certamente – de imaginar naqueles primeiros tempos o jovem José Augusto da Costa Séneca Torres que anos mais tarde também ele iria triunfar com a pomposa camisola encarnada das águias. 

Das animadas peladas de rua até ao clube da sua terra natal o caminho foi curto. Os responsáveis pelo Desportivo de Torres Novas não se deixaram impressionar pela figura enfezada de José Torres. As suas longas pernas de alicate, como era por vezes chamado na infância, não eclipsaram a imagem de um atleta com um apurado olfato pelo golo aliado a um poderoso domínio do jogo aéreo. Com 18 anos aquele rapazinho magro e alto, alto de mais para parecer um jogador de futebol (media 1,91m), entra na equipa principal do Torres Novas, onde começa a dar duplamente nas vistas, isto é, pela sua elevada estatura, mas também, e sobretudo, pelo seu letal instinto de predador. No clube da terra que o viu nascer Torres ficou três temporadas – de 1956/57 a 1958/59 – até à altura em que o sonho virou realidade.


Sonho chamado Benfica


Os ecos do seu estilo inconfundível de interpretar o belo jogo haviam chegado aos quatro cantos de Portugal, tendo o poderoso Benfica lançado o canto da sereia àquele predador da área. José Torres cumpria assim um sonho, e com apenas 20 anos de idade viajava para Lisboa para representar o grande Benfica. Porém, a afirmação no emblema da capital tardou em chegar. O jovem José teve de percorrer um longo caminho até cimentar a sua condição de titular indiscutível do clube da Luz. O responsável por esta tardia afirmação? José Águas, um dos melhores avançados-centro de todos os tempos do futebol português, e a grande referência do ataque dos encarnados na altura (1959) em que Torres chega a Lisboa. Tapado pelo melhor homem-golo português daquele tempo, e a grande estrela do Benfica antes da chegada de Eusébio ao clube no início da década de 60, José Torres penou três longas épocas na equipa das reservas benfiquistas, falhando assim a presença nos momentos de glória que o clube viveria no plano internacional nos primeiros dois anos da citada década de 60. 
 

Liderados precisamente por José Águas – que além de estrela-mor da companhia era também o respeitado capitão de equipa – o Benfica derrotava em 1961 (por 3-2) o Barcelona na final da então denominada Taça dos Clubes Campeões Europeus, colocando desta forma um ponto final no reinado de cinco anos consecutivos do gigante espanhol Real Madrid no trono do futebol continental. Já com o jovem Eusébio na equipa os encarnados repetiram a façanha no ano seguinte, precisamente ante os madrilenos, que em Amesterdão sucumbiram aos ataques letais Pantera Negra. José Torres viveu por fora os êxitos do seu clube, isto porque na altura não eram permitidas substituições, e como Águas era titular indiscutível no centro do ataque o rapaz de Torres Novas não fez um único jogo na dupla caminhada vitóriosa das águias na prova rainha da UEFA. Facto que o Bom Gigante sempre lamentou... «Durante a minha carreira de jogador tive momentos em que o azar me bateu à porta mais do que devia. Por exemplo, na final da Taça dos Campeões Europeus, contra o Real Madrid, quando o Benfica conquistou o segundo título europeu. Só não joguei e não me sagrei, de facto, campeão da Europa porque os regulamentos ainda impediam, estupidamente, que se fizessem substituições. O Cavém lesionou-se, eu era o único avançado no banco, o Benfica continuou a jogar com 10 só porque... substituir era proibido! Entretanto Guttmann foi-se embora, deixou aquela terrível maldição (nota: disse que sem si o Benfica nem dali a 100 anos seria novamente campeão europeu), disputei as três outras finais europeias da década de 60, só que perdemos sempre e eu acabei por não conseguir sagrar-me campeão europeu. Sinceramente, é o único título que me falta...», desabafou vezes sem conta José Torres. 


Mas não há azar que sempre dure, e ainda antes da saída do goleador e velhor capitão do clube da Luz (no final da temporada de 1963/64) as portas da titularidade abrem-se finalmente para Torres. A conquista - em difinitivo - da mágica camisola número 9 aconteceu na pré-temporada, mais concretamente no famoso torneio internacional Ramón Carranza, que anulamente reunia na cidade espanhola de Cádiz algumas das melhores equipas do planeta. Na meia-final da edição de 63 o Benfica afastou o poderoso Barcelona, conquistando assim o passaporte para a grande final onde o esperava a Fiorentina. A 30 minutos do términos do jogo decisivo o marcador indicava uma teimosa igualdade a três golos. O treinador benfiquista de então, Lajos Czeizler, aposta em José Torres (nota: ao contrário das competições oficiais nos torneios amigáveis, ou neste caso de preparação, as substituições eram permitidas), e o resto é história. Quatro golos em meia hora assinados pelo gigante de Torres Novas deram não só o título ao Benfica como sobretudo fizeram calar de vez as vozes que - ainda - duvidavam da qualidade do jogador. Até então, e em três épocas de águia ao peito, José Torres não havia feito mais do que seis jogos oficiais (!), o suficiente no entanto para se sagrar campeão nacional nas épocas de 59/60 e 60/61

Mas em 62/63 a vida mudou para o Bom Gigante. José Águas dava sinais de veterania, e a exibição sublime em Cádiz fizeram de Torres titular absoluto do Benfica nas... 9 épocas seguintes! E logo na temporada de estreia como titular a estrela do Bom Gigante brilhou a grande altura. Ao lado de lendas como Eusébio, Coluna, Costa Pereira, Simões, José Augusto, ou Germano, participou em 21 jogos na caminhada triunfal que coroou o Benfica como vencedor do Campeonato Nacional da 1ª Divisão, contribuindo para este final glorioso com 26 golos (!), número que lhe permitiu vencer o galardão individual mais importante do futebol português, a Bola de Prata, prémio atribuido ao melhor marcador do campeonato do principal escalão lusitano. 
62/63 só não foi uma temporada memorável a todos os níveis para o Benfica - e para o Bom Gigante, claro está - porque na final da Taça dos Campeões Europeus os italianos do Milan impediram os lisboetas de arrecadarem o terceiro troféu continental consecutivo, muito por culpa de um diabo à solta na relva sagrada de Wembley (estádio onde foi realizada essa final de 63), de nome Altafini, autor dos dois golos que carimbaram o título para os milanistas. Este seria o primeiro de muitos desgostos europeus para José Torres, ele que precisamente em 1962/63 fizera a estreia com a camisola do Benfica nas competições europeias, facto ocorrido a 31 de outubro de 1962, em Norrkoping, na Suécia. O Benfica e o Bom Gigante puderam até perder o ceptro europeu, mas para os prestigiados jornais desportivos L'Équipe e France Football José Torres era a nova vedeta do futebol português!

Conquistada a titularidade, e o carinho dos fervorosos adeptos benfiquistas, Torres faria dali em diante uma dupla mortífera com aquele que era já o nome mais sonante do grande Benfica dos anos 60, Eusébio da Silva Ferreira. Os dois assinaram centenas de golos que ajudaram o clube da Luz a enriquecer as suas vistosas vitrinas com títulos, muitos títulos. Em 1963/64 Torres vence a sua primeira dobradinha, isto é, o campeonato nacional e a Taça de Portugal, último troféu este conquistado na sala de visitas do futebol português, o Estádio Nacional, à custa do FC Porto, que seria cilindrado por Coluna, Eusébio, José Augusto, Simões, Cavém, e companhia por 6-2 (!), com o Bom Gigante a fazer o último golo dessa tarde de glória. Uma no meio de tantas outras que viveu com a camisola encarnada agarrada à pele. 
Esse ano de 1964 fica ainda marcado pelo primeiro golo europeu de José Torres, alcançado a 16 de setembro, no Luxemburgo, ante o Aris.
Em 64/65 volta de novo a ajudar o seu clube a revalidar o título de campeão nacional, ao mesmo tempo em que o azar lhe bate de novo à porta. No final dessa temporada o Benfica chega de novo à final da prova rainha da UEFA, desta feita ante o Inter de Milão... em San Siro! A jogar em casa (!) o Inter - campeão da Europa em título - derrotou (por 1-0) os portugueses com a ajuda do guarda-redes benfiquista Costa Pereira, que num lance de infortúnio deixou passar a bola por baixo das pernas após um remate cruzado do brasileiro Jair. Há noites assim...

Como não há duas sem três José Torres voltou a derramar lágrimas na sequência de mais uma derrota no jogo final da afamada e desejada Taça dos Campeões Europeus. 1968 seria o ano do novo falhanço encarnado, desta feita em Londres, na catedral do futebol global, o Estádio de Wembley, que viu o Manchester United de Bobby Charlton, Dennis Law, e George Best golear os portugueses por 4-1! 
Os títulos alcançados pelo Bom Gigante de águia ao peito restringiram-se por isso às competição nacionais, onde ai arrecadou 9 campeonatos nacionais (!), juntando aos de 60, 61, 63, 64, e 65, os de 67, 68, 69, e 71, precisamente o seu derradeiro capítulo de glória com a camisola do Benfica, já que depois disso rumaria para outras paragens... Aos referidos campeonatos nacionais juntam-se ainda as vitórias na Taça de Portugal de 69, e 70. 
José Torres e o Benfica mantiveram um casamento de 12 anos, um matrimónio com altos e baixos, como qualquer outro matrimónio. Em 171 jogos de águia ao peito o rapaz de Torres Novas apontou 150 golos (!), registo que fizeram dele não só um símbolo eterno do clube como indiscutivelmente um dos avançados mais célebres do futebol português. Mas a história do Bom Gigante não acabaria em 31 de julho de 1971, dia em que frente ao Arsenal de Londres faz o seu último jogo pelos lisboetas. 

Velhos são os trapos

O Vitória de Setúbal era por aqueles dias dos finais da década de 60 e princípios dos anos 70 um verdadeiro viveiro de talentosos jogadores. No Bonfim (casa do popular clube sadino) havia diamantes por lapidar! Um desses diamantes dava pelo nome de Vítor Baptista, jogador por quem o Benfica suspirava. As investidas encarnadas ao jovem jogador só tiveram êxito quando no negócio da sua transferência foram incluídos os nomes de Matine, Praia, e Torres, um trio de atletas exigido pelo homem que liderava os destinos do Vitória sadino na época, um tal de José Maria Pedroto. Negócio feito e José Torres viveria aquela que poderia ser chamada de segunda primavera... Aos 33 anos mostrou que velhos eram os trapos e que ainda podia dar muito ao futebol. E deu. Rapidamente se tornou na estrela do conjunto sadino liderado pelo mestre Pedroto, ajudando o seu novo clube a tornar-se numa máquina futebolística de elevada potência qualitativa. Ao Vitória de Pedroto e Torres só faltaram os títulos - que até estiveram muito perto de atracar no (rio) Sado em diversas ocasiões. Com os sadinos José Torres ainda realizou mais de uma centena de jogos, 120 para sermos mais precisos, tendo apontado um total de 59 golos nas quatro épocas em que defendeu a camisola verde e branca! Afinal, quem era o velho? 

E no Bonfim José Torres descobriu uma nova vocação dentro do futebol, a de treinador. Descoberta que teve o dedo de Pedroto - um dos grandes mestres (da tática) do futebol lusitano - que viu no Bom Gigante um promissor seguidor das suas ideias. «Foi com Pedroto que tirei o meu autêntico curso de treinador, durante as duas épocas em que o tive como meu treinador no Vitória de Setúbal. Ele já falava comigo de treinador para treinador, durante os estágios, e nas viagens longas aproveitava o tempo para aprender com ele, e só Deus sabe o que aprendi...», relembrou em diversas entrevistas a nossa lenda de hoje. 
A primeira aventura como técnico-se em 76/77, altura em que defendia as cores do Estoril Praia, clube pelo qual tinha assinado um ano antes, pouco depois de ter saído de Setúbal. No clube de Cascais José Torres acumulou as funções de treinador/jogador até 1979/80, altura em que aos 42 anos pendura definitivamente as chuteiras (em 5 temporadas ao serviço dos estorilistas efetuou 111 jogos, e apontou 15 golos), passando posteriormente a desempenhar somente a tarefa de treinador principal, primeiro no Estrela da Amadora (entre 1980 e 1982), depois no Varzim (de 82 a 84), ao que se seguiu Boavista (86/87), Portimonense (entre 88 e 90), e por fim Desportivo de Beja, em 96/97

Peça fundamental na saga dos Magriços de 1966

Voltando um pouco atrás na brilhante carreira de jogador de José Torres há um capítulo que merece ser recordado de uma forma muito especial. Falamos da presença do Bom Gigante na fase final do Campeonato do Mundo de 1966, decorrido em Inglaterra, onde Portugal escreveu aquela que para muitos é ainda hoje a página mais cintilante do seu centenário futebol. Ao serviço da seleção principal lusitana Torres disputou 33 jogos, tendo feito a sua estreia com a camisola das quinas a 23 de janeiro de 1963, em Roma, ante a Bulgária, num jogo de qualificação para o Europeu de 1964
Golos foram 14, alguns deles com sabor muito especial... Na década de 60 Portugal reunia um naipe de jogadores de reconhecido talento, casos dos benfiquistas Eusébio, Coluna, Simões, José Augusto, Germano, dos sportinguistas Hilário, Carvalho, Morais, do sadino Jaime Graça, dos portistas Américo, e Festa, ou dos belenenses Vicente, e José Pereira, atletas que com muito engenho lograram a qualificação para o Mundial de 66. Ali chegados poucos eram os que apostavam na seleção orientada pelo brasileiro Otto Glória. Até porque os Magriços - a alcunha que os imortalizou - ficaram no grupo do poderoso bi-campeão do Mundo, o Brasil, e da sempre perigosa Hungria, as duas equipas do grupo favoritas à passagem aos quartos-de-final da fase final. As outras duas seleções, Portugal e Bulgária, pouco ou mais podiam fazer do que lutar pelo terceiro lugar do grupo. 
Mas da teoria à prática o caminho é longo, e os portugueses, jogo após jogo, demonstraram que as previsões iniciais estavam erradas, surpreenderam o planeta da bola, com exibições memoráveis, golos de beleza ímpar, que muito justamente os iria rotular de equipa sensação do certame. Logo no primeiro jogo, em Old Trafford (Manchester) os Magriços chocaram o Mundo ao vencer a talentosa Hungria por 3-1, tendo José Torres feito um dos três tentos lusos. No encontro seguinte apareceu a estrela de Eusébio - o grande nome desse célebre Mundial 66 - que ajudou a derrotar a Bulgária por 3-0, e assim contra todas as previsões colocar Portugal na fase seguinte. Torres, faria nesse jogo o seu segundo golo na fase final. Mas o melhor ainda estava para vir. Já qualificados os portugueses deram-se ao luxo de vulgarizar o Brasil de Pelé, Garrincha, Jairzinho, Tostão, Djalma Santos, ou Zito por 3-1, com uma exibição mítica do Pantera Negra Eusébio. Portugal conquistava assim o primeiro lugar do grupo e mandava os campeões do Mundo em título para casa! 

Nos quartos-de-final ocorreu um dos jogos mais célebres das fases finais de Campeonatos do Mundo, o Portugal - Coreia do Norte. Asiáticos que aos 25 minutos já derrotavam os artistas lusos por 3-0 para espanto do planeta. Foi então que apareceu mais uma vez Eusébio, que apoiado por Simões, Coluna, José Augusto, ou Torres deu a volta ao marcador. 5-3, vitória memorável, que colocou Portugal na meia-final. O céu era o limite, e não havia um único português naquela altura que não imaginasse a Taça Jules Rimet nas mãos do capitão Mário Coluna. Sonho que seria eclipsado pela equipa da casa, a Inglaterra, que na catedral de Wembley vencia os lusos por 2-1. No encontro de atribuição dos 3º e 4º lugares - disputado também no Estádio de Wembley - Portugal derrotaria a União Soviética do lendário Lev Yashin por 2-1, com o tento da vitória a ser apontado por José Torres, jogador que desta forma, e juntamente com Eusébio, Coluna, Simões, e todos os restantes magriços, ficava eternizado na história do futebol português. 

«Deixem-me sonhar...»

Como jogador Torres brilhou com a camisola das quinas ao peito, mas como treinador viveu um dos priores momentos da sua longa carreira desportiva. Logo após o fantástico desempenho da seleção nacional no Europeu de 1984 os responsáveis federativos ofereceram o cargo de selecionador ao Bom Gigante, pedindo-lhe apenas que guiasse o combinado luso até ao Mundial do México, em 1986. A tarefa era complicada, até porque no grupo de Portugal estava a poderosa República Federal da Alemanha (RFA), e as sempre indesejadas Checoslováquia e Suécia. Na entrada para a reta final da fase de qualificação os portugueses precisavam de um milagre para alcançarem a qualificação para o México. E esse milagre passava por uma vitória em solo germânico... Impossível, disseram muitos. Perante o pessimismo que reinava entre o povo português José Torres lançou um desabafo: «deixem-me sonhar...». E mais uma vez o sonho virou realidade. Em Estugarda, no dia 16 de outubro de 1985, um golo solitário do pequeno médio Carlos Manuel derrotava a forte RFA e levava pela segunda vez na história Portugal a uma fase final de um Mundial. Só que chegados ao México os portugueses viram-se a braços com uma série de problemas internos. Os jogadores abriram guerra com a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) por causa dos prémios relativos à sua presença na fase final. Convocaram greves, organizaram-se em grupos, e com isto o plano desportivo passou definitivamente para segundo plano. Saltillo - localidade mexicana onde a seleção ergueu o seu quartel-general - é sinónimo de inúmeros escândalos, assinalando assim uma das páginas mais negras da história do nosso belo jogo.  
Portugal ainda venceu a Inglaterra no jogo de estreia (por 1-0), mas as derrotas com a Polónia (0-1) e com Marrocos (1-3) trouxeram os portugueses mais cedo para casa. 
José Torres foi uma vítima de Saltillo, como ele próprio confessou tantas e tantas vezes. «Saltillo marcou-me o destino. Cinco meses antes organizei uma reunião com os jogadores, na qual tive a preocupação de alertar para a necessidade de não se formarem grupinhos, garanti-lhes que ninguém teria o estatuto de titular, pedi-lhes única e simplesmente que fossem para o México para servir Portugal. Por essa altura a FPF prometeu-me, igualmente, que resolvia o problema dos dinheiros/prémios (para os jogadores), sabia bem que esse poderia ser o nosso calcanhar de Aquiles, a promessa foi vã, quem tinha a responsabilidade de tudo resolver agiu como Pilatos e foi o que foi, aconteceu o que se sabe, foi tudo muito triste - e ninguém foi mais penalizado do que eu, apesar da minha responsabilidade ser quase nula em toda aquela complicação».

Depois deste triste momento Torres passou mais tempo desempregado do que a treinar, tendo passado somente pelos bancos do Boavista (uma temporada como já vimos), Portimonense (3 épocas de forma intermitente), e Desportivo de Beja (uma só época). Depois disso afastou-se do futebol, dedicando-se quase de forma exclusiva à sua segunda paixão de menino, a columbofilia. Foram muitos os que o foram esquecendo com o passar dos anos, e Torres sentiu esse esquecimento como um punhal cravado no peito. Foi envelhecendo, triste, solitário - contando apenas quase e só com o apoio da família - e já na reta final da sua vida foi minado pela doença de Alzheimer, que o haveria de levar à morte
Com parcos recursos financeiros para fazer face à doença acabou por morrer quase na miséria, a 3 de setembro de 2010, ele o Bom Gigante, a alcunha que o eternizou, não só pelo seu talento futebolístico, mas sobretudo pelo seu bom coração, de homem simples e afável, amigo do seu amigo

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Vídeo: EXCERTO DO DOCUMENTÁRIO: JOSÉ TORRES, O GIGANTE QUE DRIBLOU O DESTINO

Legendas das fotografias
1-José Torres, envergando a camisola da seleção nacional
2- Na sua primeira final europeia, em Wembley, ante o Milan
3-Fazendo uso do seu poderoso jogo aéreo
4-Com a taça Ramón Carranza de 1963, que ele ajudou a conquistar
5-A Bola de Prata que venceu em 1962/63
6-A dupla mortífera Torres-Eusébio
7-Com a camisola Benfica, no Estádio da Luz
8-Envergando as cores do Vitória de Setúbal (com a camisola número 9)
9-Um "onze" do Estoril, o último clube de José Torres enquanto jogador. O Bom Gigante é o segundo da fila de cima a contar da esquerda para a direita
10-Seleção portuguesa no Mundial de 1966
11-José Torres em ação durante o célebre jogo com a Coreia do Norte
12-Torres, o selecionador nacional no Mundial do México em 1986
13-A columbofilia, uma paixão de menino que nunca esqueceu até aos seus últimos dias de vida  

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