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domingo, outubro 04, 2026

Histórias do Planeta da Bola (37)... O crime passional de Pierre Mony, o primeiro jogador preso por homicídio

O futebol e o crime deram as mãos muito antes dos escândalos mediáticos do século XXI quando nomes sonantes como Robinho, Dani Alves, Ronaldinho Gaúcho, ou Freddy Rincón viram em determinado período das suas vidas o sol “nascer aos quadradinhos” em virtude de atos criminosos cometidos. Há sensivelmente 100 anos atrás um caso pioneiro chocou a opinião pública europeia e só a fama obtida nos relvados salvou o criminoso de uma pena pesada. Corria o ano de 1928, quando Pierre Mony, um antigo defesa-esquerdo da seleção francesa, no seguimento de uma crise de ciúmes, assassinou a tiro o seu melhor amigo. Mas vamos por partes. Mony era um dos meninos queridos do futebol francês dos anos 20. Uma Era onde imperava o amadorismo, mas ainda assim capaz de popularizar nomes como Paul Nicolas – tido como o melhor futebolista gaulês da referida década –, ou Jean Boyer. Juntamente com estes dois craques, Mony integrou a seleção francesa que em 1920 participou nos Jogos Olímpicos de Antuérpia. Nascido em Paris, em 1896, Mony desenvolveu toda a sua carreira no norte de França, mais concretamente na cidade costeira de Boulogne-sur-Mer, onde representou em dois períodos distintos – entre 1918-1921 e 1925-1928 – o US Boulogne e o OSC Boulogne – entre 1923 e 1924, tendo sido, pois, nesta região que alcançou o estatuto de lenda. E foi precisamente numa altura em que já estaria afastado das lides futebolísticas que o nome de Pierre Mony voltou a ecoar pelos quatro cantos do território francês, e tudo devido a uma crise de ciúmes. A antiga estrela dos relvados vivia uma vida aparentemente pacata na cidade onde alcançou a fama, localidade onde geria um restaurante do qual era proprietário. Na noite de 15 de maio de 1928 e após dar por encerrado mais um dia de trabalho no seu restaurante, Mony fez o que habitualmente fazia: ir beber um copo com os amigos ao Popes Bar. Mas naquela noite a sua ida àquele espaço noturno tinha um outro propósito. Entrado no bar, sentou-se ao balcão junto dos seus amigos, onde entre os quais se encontrava o antigo campeão de ciclismo Jean Delpierre. Bebidas e brindes sucederam-se em catadupa até à 1H00, altura em que o bar fechou e Mony juntamente com Delpierre e outro amigo comum, de nome Maurice Dagbert, decidiram separar-se do resto do grupo e ir continuar a farra para outro lado da cidade. Diz a história que os três homens se deslocaram no carro de Delpierre até ao Hotel de La Paix com a intenção de ali continuarem a noite de copos. Porém, o hotel estava fechado, ao que os três amigos decidiram sentar-se na entrada da unidade hoteleira dando aso a uma animada cavaqueira. Nada fazia prever que a determinada altura da borga Pierre Mony tirasse do bolso uma pistola e apontando-a para Delpierre tivesse disparado quatro tiros sobre este. Enquanto Mony desatou dali a fugir, Delpierre ainda conseguiu rastejar com a ajuda de Dagbert até ao café mais próximo no sentido de pedir ajuda. Posteriormente foi transportado para o hospital local, onde seria operado sem sucesso, já que viria a falecer no dia seguinte. Por sua vez, Mony fugiu para o porto de Boulogne-sur-Mer, onde terá atirado ao mar a arma do crime, dirigindo-se depois para casa de um outro amigo a quem pediu para o levar até Calais, a casa dos seus sogros, onde se encontravam a sua mulher, Paule, e a sua filha. Ali chegado, despediu- se da filha com um beijo e foi embora, regressando a Boulogne-sur-Mer para se entregar na esquadra de polícia local onde confessou o crime. No decorrer do interrogatório policial, Mony explicou que suspeitava que Delpierre e a sua esposa tinham um caso amoroso, suspeitas que subiram de tom após uma viagem que os dois haviam feito a Nice, sendo que no regresso Paule terá pedido o divórcio a Mony. Profundamente abalado com este pedido por parte da sua esposa, Pierre Mony terá então planeado matar aquele que era um dos seus melhores amigos. Ato consumado, e Mony foi acusado pelas autoridades por assassinato premeditado, tendo sido detido por tal. O julgamento só viria a ter lugar cerca de cinco meses volvidos o crime, em Arras, cujo tribunal foi pequeno demais para albergar populares e jornalistas – que vieram de vários pontos de França – que ali se deslocaram para assistir a este julgamento mediático. Mony chegou ao tribunal visivelmente abatido e com uma expressão de quem estaria à espera da condenação. As primeiras palavras de Mony perante o juiz foram no sentido de se lamentar por ter cometido tal ato de loucura levado pelo ciúme. Uma das testemunhas que o tribunal ouviu foi a própria Paule, que perante o juiz negou ter tido qualquer afaire com Delpierre. No seu depoimento, Paule referiu ter a sua reputação manchada, retratando o seu marido como um homem imoral e preguiçoso, explicando que seguiu viagem para Nice com Delpierre após Mony a ter incitado a seguir a própria vida dela ao passo que ele seguia a sua. Porém, e após ter ouvido outras testemunhas que conheciam a vida do casal, o juiz terá chegado à conclusão de que Mony não seria nenhum santo no que aos deveres matrimoniais dizia respeito, já que a popularidade granjeada nos retângulos de futebol abriu-lhe as portas dos corações de muitas madames por aquelas bandas! Por outras palavras, cometeu por diversas ocasiões o pecado da infidelidade. Porém, a sua fama de futebolista acabou por pesar mais alto ao fim das 14 horas que durou este julgamento, sendo que quando pronunciado a deliberar a sua decisão sobre este caso o júri decidiu não culpar Mony pelo assassinato de Delpierre. Como se estivesse numa qualquer bancada de um estádio, o público presente na sala de tribunal rapidamente se levantou para ovacionar o absolvido Pierre Mony, que assim foi posto em liberdade até ao resto da sua vida.

quinta-feira, setembro 03, 2026

Histórias do Planeta da Bola (36)... Irmãos de sangue, destinos distintos no caminho da glória

Ser filho da mesma mãe e do mesmo pai não significa que dois (ou mais) irmãos possam ter as mesmas apetências para desempenhar uma qualquer atividade com arte e engenho. Isso acontece também no futebol, onde o talento com a bola não se repercutiu entre irmãos biológicos. Isto abre-nos a porta para recordar quatro lendas do futebol planetário cujos irmãos de sangue não conseguiram atingir o estrelato.

Zoca e Pelé no Santos
O primeiro exemplo diz-nos que numa monarquia o acesso ao trono não está predestinado a todos os irmãos de sangue. Que o diga o Rei Pelé, cujo irmão não lhe seguiu as pisadas no glorioso Santos da década de 60. Jair Arantes do Nascimento era dois anos mais novo que o seu irmão Edson – o nome de batismo do Rei – e quando se tentou afirmar no clube da Vila Belmiro já Pelé lá reinava. Tal como o seu irmão mais velho, Zoca, como era conhecido Jair, cresceu na rua a correr de pé descalço atrás de uma bola de futebol feita de trapos. Edson e Jair partilhavam a mesma paixão pelo jogo, muito influenciados pelo pai de ambos, Dondinho, também ele jogador de futebol. Vendo o diamante bruto que Pelé já era, o Santos decide nos inícios da década de 60 chamar Zoca para integrar as suas equipas de formação. As dificuldades de Zoca - que atuava como avançado - em se impor no futebol começaram assim que chegou à equipa principal do clube, que tinha uma poderosa linha ofensiva constituída por Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Destronar algum destes craques era uma missão quase impossível para Zoca, que mesmo assim entre 1961 e 1962 realizou 15 jogos com o conjunto principal santista, tendo apontado quatro golos. A pressão de ser irmão do Rei foi grande para Zoca, e exemplo disso terá acontecido em abril de 61 num jogo diante do América do Rio de Janeiro a contar para o Torneio Rio-São Paulo. Numa altura em que o Santos já goleava o clube carioca, o técnico santista, Lula, decidiu dar uma oportunidade a Zoca, que então entrou para o lugar de Coutinho. De pronto, houve um burburinho nas bancadas da Vila Belmiro, que se entusiasmaram com a presença do irmão do seu Rei. Quase no términus da partida, e numa altura em que o Santos já vencia por 6-1, o árbitro assinala uma grande penalidade a favor da equipa da casa. Chamado à conversão, Zoca treme e desperdiça o castigo máximo. O aspirante não estava à altura do seu legado de sangue. A sua presença na equipa principal do Santos foi sendo cada vez mais intermitente, até que com apenas 20 anos de idade tomou a decisão de abandonar o futebol para se tornar no fiel escudeiro do seu irmão. Por outras palavras, passou a trabalhar nas empresas associadas à marca Pelé como “braço direito” do irmão nos negócios a ele associados. Zoca viria a falecer cerca de dois anos antes que o seu irmão, mais concretamente em 2020, vitimado por um cancro na próstata.

Franz e Walter num amigável nos anos 70
entre o Bayern e o TSV 1860
Outro exemplo de irmãos que tiveram sortes distintas no futebol vem de Munique, mais precisamente no bairro de Giesing, onde na década de 50 os irmãos Walter e Franz Beckenbauer cresceram juntos com a paixão comum pelo futebol que ali praticavam na rua. Quatro anos mais novo que o seu irmão, Franz começou por jogar como guarda-redes nos animados duelos que eram disputados entre a miudagem do bairro, mas rapidamente se percebeu que o seu talento ia muito para lá das balizas. Foi Walter que abriu as portas do Bayern para o seu irmão mais novo, clube que representou nas camadas jovens. Diz-se que Walter era um médio ofensivo com algum talento e rapidez, última característica esta comum ao seu irmão mais novo. Por seu lado, Franz atuava no vizinho de Munique, o TSV 1860, o clube onde jogava a maioria dos amigos dos dois irmãos Beckenbauer. E com a chegada do irmão mais novo ao colosso da Baviera, Walter faz o caminho inverso e saí do Bayern para ingressar no TSV 1860. E enquanto Franz disparou rumo ao estrelato mundial, quer ao serviço do Bayern, quer da seleção alemã, o irmão mais velho acabou por se afastar do futebol e enveredar por uma carreira ligado à venda de impressoras.

Johan (o terceiro na fila de baixo) e o seu 
irmão Henny (segundo na fila de cima) atuaram
juntos na formação do Ajax
Se atravessarmos a fronteira entre a Alemanha e os Países Baixos constatamos que em Amesterdão se vivenciou uma história muito parecida com a dos irmãos Beckenbauer. Neste caso, a história dos irmãos Cruyff, Hermanus e Johan. O primeiro era mais velho dois anos e meio, e tal como o seu irmão jogou nas categorias base do Ajax. Diz-se que era um lateral esquerdo raçudo e com algum talento. Henny – como ficou conhecido no mundo da bola o irmão do Cruyff mais mediático – e Johan fizeram juntos o curto caminho que separava a sua casa, na zona de Betondorp, rumo ao estádio do Ajax e juntos chegaram a jogar pela equipa da academia na época de 62/63. Conta-se que sempre que o franzino Johan, então com 15 anos, sofria uma entrada mais dura de algum adversário, Henny corria em socorro do irmão para tirar satisfações com o infrator. Após sair da formação do Ajax, Henny ainda atuou por duas temporadas ao serviço do modesto Blauw Wit, competindo nos escalões amadores. Por pouco tempo, já que após ter decidido pendurar as botas, ainda jovem, tomou conta de uma loja de artigos desportivos em Amesterdão, a qual batizou de Smit-Cruyff. Apesar de não ter seguido o caminho do irmão mais novo, Henny nunca deixou de amar o futebol, tendo inclusive feito parte da equipa de veteranos do Ajax, clube do qual sempre foi um fervoroso adepto, independentemente do seu irmão ter sido a maior lenda do clube de Amesterdão. A ligação de Henny a estrelas do futebol neerlandês não se esgotou ao seu irmão mais novo, já que a sua filha, Estelle Cruyff, foi casada com outra super-estrela do futebol laranja dos anos 80 e 90, Ruud Gullit. Henny viria a falecer em 2023, numa altura em que há já vários anos sofria da doença de Alzheimer.

Hugo, Lalo e Diego num jogo especial que juntou 
os três irmãos Maradona  
Voltando à América do Sul para conhecer um outro caso de irmãos que seguiram caminhos completamente distintos no Planeta da Bola. Estamos em Villa Fiorito, um bairro pobre nos subúrbios de Buenos Aires, onde numa casa modesta vivia o casal Diego Maradona e Dalma Salvadora Franco. Depois do nascimento de Ana Maria e Rita chegou o terceiro filho do casal, o primeiro filho varão, a quem deram o nome do pai, Diego. Depois deste vieram Raúl (Lalo), Hugo (El Turco), Maria Rosa e Cláudia, que completaram assim o Clã Maradona. Como tantos meninos pobres na Argentina os três rapazes passaram a infância na rua, atrás de uma bola. Porém, só um deles conseguiu chegar ao Olimpo: Diego Armando Maradona. Lalo e El Turco também enveredaram pela carreira de futebolistas, mas viveram sempre na sombra do irmão mais famoso. Por outras palavras, o sobrenome Maradona foi-lhes abrindo sempre portas “aqui e acolá” mais do que o talento que apresentavam como "cartão de visita". Hugo, vulgo El Turco, por exemplo, que era nove anos mais novo que Diego chegou a jogar nas seleções jovens da Argentina – jogou, inclusive, o Mundial de sub-20 de 1985 como seu país–, embora fosse notório que estava muito longe de ter o talento do seu irmão mais velho. Começou no Argentino Juniors, o mesmo clube que lançou Diego. Em 1987 o mais velho dos irmãos Maradona usa da sua influência junto dos dirigentes do Napoli para trazer Hugo para o clube do sul de Itália. Pedido aceite, mas… Hugo não era Diego e o Napoli decido empresta-lo ao Ascoli. Hugo não encantou, longe disso, e a partir dali tornou-se num verdadeiro globetrotter à boleia do futebol. Passou por Espanha, Venezuela, Áustria, Japão, Canadá, Uruguai e Paraguai, sempre de forma muito discreta. Hugo morreu em 2021 na cidade onde o seu irmão mais velho era D10S: Nápoles. Por sua vez, Lalo Maradona teve um percurso muito semelhante ao de Hugo. Fez, porém, uma carreira um pouco mais pomposa que a de Hugo, tendo-se estreado no clube pelo qual era apaixonado – tal como os seus dois irmãos –, o Boca Juniors em meados dos anos 80. Lalo era um médio de vocação ofensiva, que mesmo não tendo deslumbrado na Bombonera deu o salto para a Europa nos finais dessa década de 80. Foi para o Granada, de Espanha, para onde foi a troco de 25 milhões de pesetas. As coisas até nem começaram mal para Lalo, que nos primeiros tempos entusiasmou os adeptos locais com o seu futebol com rasgos maradonianos. No entanto, com a ausência de resultados positivos, a estrela de Lalo em Granada começou a pouco e pouco a apagar-se ao final de duas épocas em que ali esteve. Ainda assim, há um episódio muito especial na vida dos três irmãos Maradona vivenciada aquando da estadia de Lalo em Granada. Ele, juntamente com Diego e Hugo envergaram a camisola do clube andaluz num encontro particular ante os suecos do Malmo, em 1987. Os espanhóis venceram por 3-2, com um golo de Lalo após assistência de… Diego. Após a descida do Granada à 2.ª Divisão espanhola, Lalo deixou o clube e rumou ao Japão para defender as cores do Avispa Fukuoka. Dali imitou Hugo e tornou-se num globetrotter ao jogar em vários clubes de países distintos: o Defensa y Justicia (Uruguai), o Toronto Italia (Canadá), Deportivo Municipal (do Perú), o Deportivo Laferre e o Deportivo Italia (ambos da Venezuela). Aquele que para Diego era o melhor dos três irmãos Maradona (!) é hoje em dia treinador de equipas de formação na Argentina e o único dos três ainda vivo.    

segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Histórias do Planeta da Bola (35)... Há 120 anos deu-se o pontapé de saída do Cariocão

 


O início do século XX marca o “pontapé de saída” de uma transformação gigante da cidade do Rio de Janeiro. A Cidade Maravilhosa como que despe uma indumentária de trapos para passara vestir um vistoso vestido de gala, graças à implementação de um conjunto de “novidades” que a colocam na vanguarda das urbes mais modernas da América do Sul. O alargamento de avenidas, a construção de prédios imponentes que substituem os pobres cortiços, a implementação de transportes públicos como o bonde elétrico que substituiu o burro (animal), a chegada da luz elétrica às ruas da cidade, são apenas alguns dos exemplos que comprovam a modernização do Rio. A par disto, há um incremento da vida social, das classes altas, claro está, com festas/eventos sociais a mobilizar os endinheirados da Cidade Maravilhosa. Entre esses eventos destacava-se o futebol, praticado pela socialite carioca. Futebol que ainda era uma “criança” na então capital da República Brasileira, já que segundo reza a história foi na transição de séculos (XIX para XX) que Oscar Cox apresentou a primeira bola de futebol aos cariocas. Seria, pois, em 1906 que a Liga Metropolitana de Football organizaria aquele que viria a ser o primeiro Campeonato Carioca da história. Há 120 anos, portanto, que este ano, 2026, se assinalam. Seis clubes fizeram a história deste primeiro Cariocão, entre eles o Fluminense, um dos pioneiros do futebol no Rio de Janeiro, emblema que tinha sido fundado em 1902 precisamente por Oscar Cox, carioca de berço, mas filho de país inglês e mãe brasileira. Para além do Flu, proveniente do Bairro das Laranjeiras, também o Botafogo (Bairro de Botafogo), o Paysandu (do Bairro do Flamengo), o Bangu (oriundo do Bairro de Bangu), o Rio Cricket (de Niterói) e o Football and Athletic Club (do bairro do Andaraí). O sistema da competição consistia numa série de jogos em que todos os clubes se enfrentavam em duas voltas, sendo que o clube com maior número de pontos seria o campeão. Um campeonato nacional, portanto, mas naquele caso um campeonato Estadual. 

Horácio Costa Santos, o artilheiro do primeiro Cariocão

3 de maio de 1906 é por isso um dia histórico, já que então se deu o “pontapé de saída” daquele que hoje em dia é denominado de Cariocão, isto é, o Campeonato Estadual do Rio de Janeiro. Nas Laranjeiras, casa do Fluminense, o clube anfitrião defrontava o Paysandu Cricket Club. 7-1 a favor do Flu foi o resultado final, com a particularidade do primeiro golo de sempre do Cariocão ter sido apontado por Horácio Costa Santos, do Fluminense. Ele que haveria de ser tornar no artilheiro desta edição inaugural, com 18 golos. Horácio Costa Santos nasceu a 9 de janeiro de 1880 e teve ainda a particularidade de ter feito parte do grupo de fundados do Fluminense Football Club, sendo que a primeira reunião do emblema tricolor foi realizada na sua casa, localizada na Rua Marques de Abrantes, número 51, no Bairro do Flamengo. Atuava como avançado, sendo que ao serviço do Flu realizou um total (pelo que se conhece) de 52 jogos e apontou 41 golos. 

Taça Colombo

Mas voltando à edição de estreia do Campeonato Carioca, nunca será por demais recordar que sendo então o futebol um desporto elitista no Rio, foram muitos os aristocratas cariocas que viram in loco os desafios da competição. Escritos existem que mostram que o Barão do Rio Branco, o ilustre diplomata José Maria da Silva Paranhos Júnior, marcou presença no encontro entre Fluminense e o Rio Cricket, que os primeiros venceram por 4-1. Foi precisamente este o jogo que deu o título de campeão ao Flu, que precisava de ganhar ou de empatar em Niterói para se sagrar vencedor. Horácio Costa Santos e Edwin Cox, com dois golos cada um na conta pessoal, foram os autores dos golos da vitória e do título de um conjunto que era formado na sua maioria por futebolistas de origem inglesa. Na campanha da glória, o tricolor carioca somou 9 triunfos em 10 jogos realizados (somente foi derrotado pelo Paysandu no jogo da segunda volta), tendo apontado 52 golos e apenas sofridos 6! Ao campeão foi atribuída a Taça Colombo, um troféu que teve este nome pelo facto de ter sido oferecido pela Casa Colombo, uma das mais importantes lojas comerciais de artigos masculinos do Rio e cujo proprietário era Arnaldo Portella, pai de Clyto Portella, um dos jogadores do Fluminense. Troféu este que foi propositadamente importado de Inglaterra, o berço do futebol moderno.

Para a eternidade aqui ficam os resultados e marcadores de todos os jogos do histórico primeiro Cariocão:

3 de maio: Fluminense – Paysandu: 7-1

Golos: Horácio Costa Santos (3), Emile Etchegaray (3) e Edwin Cox (Fluminense); C. Hargreaves (Paysandu).


6 de maio: Rio Cricket - Football and Athletic: 7-0

Golos: C. Mutzenbecher (4) e Vero (3).


13 de maio: Fluminense - Botafogo: 8-0

Golos: Horácio Costa Santos (3), Buchan, Gulden, Porthos Duque Estrada, Edwin Cox e Félix Frias.

 

20 de maio: Bangu - Football and Athletic: 3-1

Golos: Tom Harrison, Charles Hill e Alexander Leigh (Bangu); Alberto “Baby” Alvarenga (Football and Athletic).

 

27 de maio: Botafogo - Bangu: 1-0

Golo: Gilbert Hime.

 

3 de junho: Botafogo - Paysandu: 1-5

Golos: Ataliba Sampaio (Botafogo); C. Hargreaves (3) e C. Robinson (2).

 

10 de junho: Bangu - Fluminense: 0-4

Golos: Horácio Costa Santos (2), Edwin Cox e Emile Etchegaray.

 

17 de junho: Rio Cricket - Paysandu (O Paysandu  não compareceu)

 

1 de julho: Botafogo - Rio Cricket: 3-1

Golos: Norman Hime, Ataliba Sampaio e Gilbert Hime (Botafogo); R. Brooking (Rio Cricket).

 

8 de julho: Bangu - Paysandu: 0-3

Golos: C. Hargreaves (2) e McCullock.

 

8 de julho: Botafogo - Football and Athletic: 5-0

Golos: Ataliba Sampaio (2), Flávio Ramos, Gilbert Hime e Emmanuel Sodré.

 

14 de julho: Fluminense - Football and Athletic: 7-0

Golos: Horácio Costa Santos (2), Edwin Cox (2), Félix Frias (2) e Gulden.

 

15 de julho: Bangu - Botafogo: 3-2

Golos: Alexander Leigh (3) (Bangu); Ataliba Sampaio e Paulino de Souza (Botafogo).

 

22 de julho: Football and Athletic - Paysandu: 0-8

Golos: C. Robinson (3), McCullock (2), Leo Yeats, E. Pullen e H. Wood.

 

22 de julho: Rio Cricket - Bangu: 1-0

Golo: C. Mutzenbecher.

 

5 de agosto: Fluminense – Paysandu: 1-3

Golos: Edwin Cox (Fluminense); McCullock (2) e Leo Yeats (Paysandu).

 

12 de agosto: Fluminense - Rio Cricket: 2-1

Golos: Félix Frias e Edwin Cox (Fluminense); Vero (Rio Cricket).

 

19 de agosto; Paysandu - Botafogo: 4-1

Golos: F. Robinson (2), Leo Yeats e C. Robinson (Paysandu); Gilbert Hime (Botafogo).

 

26 de agosto: Football and Athletic - Bangu: 0-7

Golos: J. Mac Phail (4), Robert Cross (2) e Alexander Leigh.

 

2 de setembro: Paysandy – Rio Cricket: 0-2

Golos: C. Mutzenbecher e Stanischowsky.

 

9 de setembro: Football and Athletic – Fluminense: 0-11

Golos: Horácio C. Santos (4), Edwin Cox (2), Buchan (2), Emile Etchegaray (2) e Félix Frias.

 

16 de setembro: Paysandu - Bangu (O Bangu não compareceu).

 

23 de setembro: Football and Athletic - Botafogo: 1-5.

Golos: Adhemar Faria (Athletic); Flávio Ramos (2), Gilbert Hime, Norman Hime e Raul T. Rodrigues (Botafogo).

 

23 de setembro: Bangu - Rio Cricket: 0-4

Golos: Stanischowsky (2), Tate e C. Calver.

 

30 de setembro: Botafogo - Fluminense: 0-6.

Golos: Edwin Cox (4), Emile Etchegaray e Horácio Costa Santos.

 

7 de outubro: Rio Cricket - Botafogo: 6-0

Golos: Millar (2), Stanischowsky (2), Tate e C. Mutzenbecher.

 

12 de outubro: Paysandu - Football and Athletic: 2-0

Golos: H. Wood e McCullock.

 

14 de outubro: Rio Cricket – Fluminense: 1-4

Golos: Horácio Costa Santos (na própria baliza), Horácio Costa Santos (2) e Edwin Cox (2).

 

21 de outubro: Fluminense - Bangu: 2-0

Golos: Horácio Costa Santos e Edwin Cox.

 

28 de outubro: Football and Athletic - Rio Cricket (O Rio Cricket não compareceu).

Classificação:

1- Fluminense 18 pts.- 10 j- 9 v- 0 e- 1 d

2- Paisandu- 14 pts.- 10 j- 7 v- 0 e- 3 d

3- Rio Cricket- 12 pts.- 10 j- 6 v- 0 e- 4 d

4- Botafogo- 8 pts.- 10 j- 4 v- 0 e- 6 d

5- Bangu- 6 pts.- 10 j- 3 v- 0 e- 7 d

6- Football and Athletic- 2 pts.- 10 j- 1 v- 0 e- 9 d

quinta-feira, fevereiro 06, 2025

Histórias do Planeta da Bola (34)... Há 100 anos a Inglaterra testemunhou o primeiro preconceito racial na sua seleção


Barrar a convocatória de um futebolista para uma qualquer equipa devido à cor da sua pele é aos olhos da atualidade um ato criminoso e acima de tudo vergonhoso. Mas há precisamente 100 anos atrás nem toda a gente pensava desta forma, ou pelo menos julga-se que assim era quando recordamos o caso de Jack Leslie, o primeiro negro a ser convocado e ao mesmo tempo desconvocado para a seleção inglesa. Nascido no bairro londrino de Canning Town, no dia 17 de agosto de 1901, Jack era filho de pai jamaicano e mãe inglesa. Ao serviço do Barking Town, modesto emblema de outro bairro da capital inglesa, Leslie cedo começou a dar nas vistas pela sua veia goleadora. Conta-se que terá marcado ao serviço deste emblema mais de 250 golos nos primeiros anos de carreira, tendo tido um contributo preponderante para a conquistas da Taça Sénior Essex, em 1920; da London League Premier Division, no ano seguinte. Os feitos de Leslie começaram a ultrapassar as fronteiras de Londres, e em 1921 é contratado pelo Plymouth Argyle, clube do sudeste de Inglaterra, onde se tornaria uma verdadeira lenda nos 14 anos seguintes. Nos 400 encontros realizados com o clube apontou um total de 137 golos, fazendo uma dupla mortífera com outro ícone do clube, Sammy Black, uma parceria que ao longo de todos estes anos rendeu mais de 300 golos aos Pilgrims, a alcunha pelo qual é conhecido este emblema. E seria precisamente no auge da sua carreira, que em 1925 Leslie recebe da boca do seu treinador, Bob Jack, a notícia de que estava convocado para jogar pela seleção inglesa num jogo contra a Irlanda. A boa nova, para Leslie, foi divulgada pela imprensa, tendo o Birmingham Gazette e o Liverpool Echo feito eco da notícia. Porém, e para espanto de todos, quando a convocatória oficial saiu o nome de Jack Leslie não estava mencionado (!), sem qualquer explicação posterior dada pela Football Association (FA). De pronto, surgiram teorias de que Leslie tinha sido riscado da convocatória final devido à cor da sua pele, já que quando os responsáveis pela seleção se aperceberam que o jogador era negro simplesmente voltaram atrás na decisão de o convocar. Anos mais tarde, a FA admitiu que os seus dirigentes não sabiam inicialmente que Leslie era negro, e quando descobriram… já se sabe o resto da história. Em 1978, Leslie deu uma entrevista ao jornal Daily Mail em que disse que quando a FA descobriu que ele era negro julgaram que seria estrangeiro e como tal foi descartado da convocatória. Em 2022, ano em que Jack Leslie havia já deixado o mundo dos vivos (faleceu em 1988), a FA admitiu o erro que cometeu em 1925 e chamou os descendentes do jogador ao Estádio de Wembley, tendo-lhes entregue um boné! Sim, um boné que simbolizava a internacionalização que deveria ter acontecido quase (e então) 100 anos antes. Uma espécie de pedido de desculpas que, quiçá, terá chegado tarde demais, e que veio fazer justiça a um jogador que após pendurar as chuteiras  passou o restos dos seus dias a limpar… chuteiras. Sim, nas décadas de 60 e 70 Leslie seria funcionário do West Ham United, onde se ocupava de tratar/limpar das botas/chuteiras dos futebolistas dos Hammers, entre outros de lendas como Bobby Moore, Geoff Hurst, e Martin Peters, três campeões do Mundo ao serviço da Inglaterra, em 1966. Seleção inglesa que apenas em 1978 veria um jogador negro vestir a sua camisola: Viv Anderson, o seu nome.

 

terça-feira, outubro 15, 2024

Histórias do Planeta da Bola (33)... A (única) aventura de uma equipa B no palco da Europa do futebol

O Castilla europeu

Os regulamentos – ditados por quem tutela o futebol a nível interno e externo – definem que qualquer equipa B de um clube não pode competir oficialmente com a “casa mãe”, ou seja, a equipa A, nem tão pouco jogar uma competição europeia, mas… houve em tempos uma exceção. E para conhecer esta curiosa história recuámos até à temporada de 1980/81, quando o Real Madrid B, ou Castilla, como era denominada essa célebre equipa secundária merengue, disputou a Taça das Taças. E como é que lá chegou? Sobre esta epopeia curiosa dos putos merengues já traçámos umas linhas numa outra viagem ao passado, relembrando apenas que tal aconteceu pelo facto do Real Madrid B/Castilla ter chegado na época de 1979/80 à final da Copa del Rey, onde perdeu com… o Real Madrid (A)! A brincadeira dos meninos da cantera madrilista, o mesmo será dizer da equipa B, na taça de Espanha fez vítimas como o Atlético de Bilbao, o Hércules, a Real Sociedad, ou o Sporting de Gijón, equipas que nessa temporada militavam no principal escalão espanhol. Claro, que o pagode dos miúdos do Castilla acabou na final – disputada em pleno Santiago Bernabéu – ante os graúdos da equipa principal do Real Madrid. Doutra forma não podia (?) ser, claro. Mas na retina ficou essa façanha inédita no Planeta da Bola protagonizada por miúdos como Agustín, Chendo, Gordillo. Pineda, entre outros que fariam carreira no plano internacional com as cores quer do Real Madrid (A), quer com o manto sagrado da seleção espanhola.

Ora, e voltando ao início da nossa história, esse feito assegurou-lhes o bilhete para a edição da época seguinte da Taça das Taças, pelo facto de a “casa mãe”, isto é, o Real Madrid A, ter sido também campeão nacional e como consequência tido o direito de disputar a Taça dos Campeões Europeus (TCE).

O adversário? Um cavaleiro inglês que vivia dias de penúria!

E quis o destino que na sua aventura europeia o Castilla se cruzasse com um cavaleiro do futebol inglês a viver então na penumbra, o West Ham United. O popular emblema londrino atuava há três temporadas consecutivas na 2.ª Divisão inglesa, e esta sua aparição nas provas uefeiras devia-se ao facto de contra todas as previsões ter vencido em 79/80 a Taça de Inglaterra às custas do vizinho Arsenal. Apesar de militarem no segundo escalão inglês, os Hammers tinham um plantel recheado de bons valores e com vasta experiência nos retângulos de jogo, casos do histórico capitão Billy Bonds, de Frank Lampard (pai), ou de Trevor Brooking. Do outro lado estava um Castilla muito jovem, ou não fossem as equipas B o espaço ideal para os jovens que saem da formação dos clubes darem os primeiros passos no futebol sénior. Mesmo assim havia muita qualidade num plantel treinador por Juanjo Garcia, o homem que tinha encabeçado na época anterior o feito de atingir a final da Copa del Rey. Mas este foi apenas um dos méritos deste treinador, como veremos mais adiante. E a prova de que o Real Madrid/Castilla tinha de facto qualidade ficou bem patente na 1.ª mão da 1.ª eliminatória com o West Ham, disputada no Santiago Bernabéu perante 40.000 pessoas. Números impensáveis hoje em dia quando falamos de um jogo de uma equipa B. 3-1, venceu o Castilla, com golos de Paco, Balín e Cidón, num jogo de dupla má memória para os ingleses. Por outras palavras, não só perderam este primeiro encontro, como viram os seus adeptos que viajaram para Madrid fazerem uma figura triste na sequência de violentos confrontos com a polícia e adeptos locais (dentro e fora do estádio), entre outras cenas lamentáveis, como arrancar e arremessar as cadeiras das bancadas, ou urinar em praça pública. Era esta a pobre imagem que o futebol inglês dava no exterior no que a adeptos dizia respeito, e que viria a ter consequências mais graves quatro anos volvidos numa fatídica tarde em Bruxelas – na célebre final da TCE de 85. 


Epopeia dos jovens merengues acaba no Ghost Match

Como consequência destes atos de vandalismo, a UEFA decretou que o jogo da 2.ª mão em Londres seria disputado à porta fechada. Foi a primeira vez na história que o organismo que tutela o futebol europeu castigou desta forma um clube em face do comportamento dos seus adeptos. Ora, com uma vantagem de dois golos na bagagem, e sem os sempre frenéticos e ruidosos adeptos ingleses contra, a tarefa do Castilla em passar a eliminatória parecia assim facilitada. Mas não foi bem assim. Num Upton Park às moscas – onde apenas se ouviam as instruções dos treinadores e o barulho da bola a ser pontapeada pelos jogadores –, o West Ham United foi muito superior no primeiro tempo, e como consequência saiu para o intervalo a vencer por 3-0 e com a eliminatória na mão perante um Castilla muito nervoso no futebol jogado. No descanso, Juanjo puxou as orelhas aos seus meninos, que no segundo tempo melhoraram a sua performance e reduziram para 1-3, obrigando a que se disputassem mais 30 minutos de futebol suplementar. O nervosismo voltou a tomar conta dos jovens merengues neste que seria rotulado para sempre como o Ghost Match (jogo fantasma) por toda a situação envolvente atrás descrita. Nervosismo que seria aproveitado pelo emblema londrino para fazer mais dois golos, de nada valendo o facto de o Castilla a determinada altura do prolongamento ter arriscado jogar com três avançados em cunha, de modo a tentar desmoronar a veterana defesa inglesa. A juntar ao nervosismo, alguma falta de sorte também se apoderou dos jovens madrilenos, que construíram diversas oportunidades para sair do Upton Park com outro resultado que não a derrota por 5-1 e a consequente eliminação.

Uma imagem do Ghost Match

Valeu, contudo, esta experiência inédita no futebol global. Quanto ao futuro do Castilla, este continuou a deslumbrar internamente os adeptos do Belo Jogo, tendo pouco tempo depois o técnico Juanjo formado outra notável geração de futebolistas que viria a servir com êxito o Real Madrid nos finais da década de 80 e toda a década de 90. Uma geração que ficaria eternamente conhecida como a Quinta del Buitre, e que era composta por lendas como Butragueño, Michel, Martín Vásquez, e Pardeza.

sexta-feira, junho 07, 2024

Histórias do Planeta da Bola (32)... UEFA Regions Cup – 25 anos do esplendor inocente do futebol amador europeu (parte III)

O conto de fadas do futebol da República da Irlanda no plano internacional aconteceu no âmbito da Taça das Regiões da UEFA. Estávamos em 2015 quando a cidade de Dublin foi palco da 9.ª edição do certame, a qual coroou uma caminhada inolvidável da seleção regional da Eastern Region, que começou na fase intermédia (de qualificação para a fase final) e acabou na final realizada no Estádio Tallaght, na capital irlandesa. Ao longo deste trajeto a equipa da Irlanda somente conheceu o doce sabor da vitória, sete triunfos no total – quatro deles na fase final –, apontando 18 golos e sofrendo apenas 3, números que fazem desta uma das epopeias mais empolgantes destes 25 anos de história da prova uefeira. Após terem perdido a final de 2011 para a Associação de Futebol de Braga, os irlandeses queriam desta feita chegar mais longe, de tal modo que a seleção regional irlandesa realizou desde então um trabalho árduo para erguer o troféu no futuro imediato, como contou o treinador Gerry Smith no rescaldo desta conquista. E para atingir a grande final a seleção da Eastern Region levou a melhor sobre os combinados de Ankara (Turquia), de South Moravia (República Checa) e de Tuzla (Bósnia). No encontro decisivo o opositor dos pupilos de Smith foi a seleção regional de Zagreb, da Croácia, que se apresentava no Tallaght Stadium sem o seu principal jogador, Bozidar Karamatic, que começou a partida no banco, aparentemente por não se encontrar nas melhores condições físicas. No entanto, os rapazes de verde (os irlandeses) entraram no relvado cheios de confiança, não só porque jogavam diante do seu público, mas acima de tudo pelo trajeto imaculado que tinham feito até ali. Só a vitória estava no seu pensamento. 

Entrada para a final de Dublin
Porém, foi com algum nervosismo que a turma de Eastern Region começou o encontro, e logo aos 3 minutos apanhou um valente susto quando o croata Nikica Brujic disparou um míssil que levou a bola a não passar muito longe da baliza à guarda de Brendan O'Connell. Com o passar do tempo os irlandeses foram acalmando o seu jogo, foram tendo a posse de bola, ante uma seleção de Zagreb que apresentava um futebol muito físico. E foi neste cenário que aos 9 minutos o Estádio Tallaght explodiu de alegria, quando James Lee fez um cruzamento do lado direito do seu ataque para o coração da área, onde apareceu David Lacey a mergulhar de cabeça e a fazer um golo muito vistoso, um golo que fez lembrar o que o neerlandês Van Persie havia marcado no Mundial de 2014 ante a Espanha. Empolgados pelo tento, os irlandeses dispuseram de mais chances para marcar nos minutos seguintes, tendo James Lee desperdiçado uma oportunidade soberana ainda antes do intervalo. Os croatas vieram com outra atitude para a segunda metade, muito devido a decisão do selecionador Sreten Cuk em fazer entrar – ao minuto 57 – a principal estrela da seleção, o organizador de jogo Bozidar Karamatic. A sua influência no futebol dos croatas fez-se notar de imediato. Porém, Zagreb não conseguia criar situações de maior perigo junto da baliza de O´Connell, e muito devido à excelente prestação do setor mais recuado dos anfitriões. Na verdade, foram estes últimos que dispuseram das melhores ocasiões para marcar nos segundos 45 minutos. Thomas Dunne, James Carr, Lar Dunne foram os irlandeses que tiveram nos pés claras chances para acabar com as esperanças dos croatas em dar a volta aos acontecimentos. Apoiada fortemente pelo público, a equipa de Gerry Smith ganhou ainda mais força à medida que o tempo passava, força e certeza de que dificilmente aquele título lhe escaparia. E assim foi. Quando apito do helvético Nikolaj Hanni soou pela última vez naquela tarde 4 de julho em Dublin, estava escrito o momento de glória do futebol da República da Irlanda no capítulo internacional. 

Kenneth Hoey
Para o técnico Gerry Smith esta havia sido a «a melhor semana da minha vida futebolística. Esta vitória é para todos os envolvidos (nesta caminhada). Os jogadores, os dirigentes das equipas de todo o país, as pessoas que marcam os campos e que penduram as redes das balizas, as pessoas que apoiam as suas equipas locais, isto é para eles, e estou emocionado por todos aqueles que estiveram envolvidos nesta caminhada e que podem festejar este sucesso». Na hora de comemorar também o defesa Noel Murray não escondeu a sua emoção por esta importante conquista: «Inacreditável, simplesmente inacreditável! Foi um trabalho muito duro realizado durante toda a semana (da fase final), foi um grande esforço dos jogadores e isso faz com que tudo valha a pena», disse o futebolista. Também o capitão desta seleção regional viveu um momento ímpar na sua carreira. Para Kenneth Hoey este foi «um resultado brilhante, o melhor que já alcancei. É uma honra ser capitão desta equipa, mas há muitos capitães naquele balneário», disse logo após erguer o primeiro troféu do futebol irlandês, ele que em 2011 havia sentido em Barcelos o amargo de perder a final da UEFA Regions Cup.

Vingança croata serviu-se na Turquia

Em 2017 Portugal volta a participar na fase final da Taça das Regiões da UEFA, desta feita pela Associação de Futebol de Lisboa, que assim se torna na terceira associação a representar a nação lusa na fase decisiva da competição. Depois de um ano antes se ter sagrado campeã nacional da Taça das Regiões, a seleção lisboeta superou uma fase intermédia realizada na Polónia, na cidade de Legnica, em setembro de 2016, garantindo desta forma a qualificação para a fase final, um feito que não passou despercebido à Câmara Municipal de Lisboa, que homenageou a comitiva no regresso do leste da Europa. A fase final da UEFA Regions Cup de 2017 aconteceu em Istambul, na Turquia, tendo a turma lisboeta sentido o profissionalismo que a UEFA aplica nesta competição de futebol não profissional, e a prova disso é que a comitiva lusa ficou hospedada no moderno Complexo Desportivo da Federação Turca de Futebol. A competição em si não correu de feição à seleção regional portuguesa, comandada por Marco Guerreiro, já que não foi além de um 3.º lugar no Grupo A, fruto de três empates, um dos quais contra os futuros campeões do torneio, a seleção regional de Zagreb. As exibições da seleção da Associação de Futebol de Lisboa na fase final mereceram, porém, alguns elogios por parte da imprensa local e dos seus adversários diretos. E seria então no Complexo Desportivo da Federação Turca de Futebol que se realizou a final da 10.ª edição da competição, um jogo cujo desfecho soube a… vingança. Ou seja, a seleção de Zagreb vingou a derrota na edição anterior ante a seleção irlandesa da Eastern Region contra a… seleção irlandesa da Munster/Connacht. O momento chave da final aconteceu ao minuto 26, quando Toni Adzic fez o único tento do jogo que assegurou a vitória final à seleção croata. Zagreb tornou-se assim na primeira equipa da Croácia a vencer esta competição.

Polacos do Dolny Slask bisam na final dos cinco penáltis

Depois de Veneto, em 2013, foi a vez da seleção regional polaca de Dolny Slask vencer a competição pela segunda vez na história. Corria o ano de 2019, quando a região da Baviera, na Alemanha, acolheu a fase final da prova. A seleção da casa chegou à final, o que desde logo se constituiu como um feito histórico, já que até então nenhuma seleção regional germânica o havia conseguido, mas os polacos estragaram a festa numa final insólita. E porquê assim o foi? Porque todos os cinco golos do jogo que iria definir o campeão da 11.ª edição da competição foram apontados da marca de grande penalidade! Não há memória de uma final europeia assim, de facto. O primeiro golo foi para a turma da casa, por intermédio de Ugur Turk, aos 35 minutos. A seleção de Dolny Slask correu então atrás do prejuízo, e o empate chegou em cima do intervalo, novamente na cobrança de um castigo máximo. O primeiro remate de Mateusz Jaros foi defendido pelo guardião da casa, mas na recarga o polaco atirou a contar. Ainda antes do intervalo o guarda-redes da casa fez uma defesa espetacular que evitou novo tento dos forasteiros, mas aos 47 minutos da segunda metade nada pôde fazer quando o árbitro romeno Sebastian Coltescu assinalou o terceiro penálti da tarde no relvado da Wacker-Arena, em Burghausen. Kornel Traczyk não perdoou e fez o 2-1 para a seleção polaca, de nada valendo a estirada do guardião alemão, que adivinhou o lado para onde foi a bola. A tarefa dos alemães, que até começaram esta final por cima, fruto de uma maior iniciativa ofensiva, ficou mais complicada à passagem do minuto 70, quando Michael Kraus viu o segundo cartão amarelo e foi expulso. Com mais um jogador em campo, os polacos deram a machadada final aos 80 minutos, altura em que Bohdanowicz fez o 3-1. Os donos da casa lutaram com todas as suas armas para chegar de novo ao golo, tendo sido premiados em cima dos 90 minutos com um novo penálti, o qual seria convertido por Lukas Igrund. De nada valeu este golo, já que pela segunda vez na história a seleção de Dolny Slask levava para casa a taça.

Euforia nas Rias Baixas galegas

2020 fica para a história como o ano em que o Mundo foi assombrado por uma pandemia: a Covid-19. Em poucos meses, o vírus espalhou-se por todo o planeta, infetou mais de 75 milhões de pessoas e causou impactos negativos em todos os setores. Naturalmente que o desporto também foi e muito afetado pelo efeito da Covid-19. Foram vários os grandes eventos desportivos cancelados, ou adiados, um pouco por todo o Mundo devido ao surto do novo coronavírus. Também a Taça das Regiões da UEFA foi vítima do novo coronavírus, tendo a sua edição de 2021 sido cancelada por força da pandemia. Desta forma, só em 2023 o certame voltou à ribalta, desta feita na região da Galiza, em Espanha. E pela sexta ocasião em 25 anos de história da competição, a taça voltava a ficar em casa, isto é, conquistada pela seleção anfitriã. O título coroou uma seleção que irá, por certo, ficar na história do futebol desta região do norte de Espanha, já que a equipa orientada por Iván Cancela concluiu em Vilagarcía de Arousa, localidade que acolheu a final, um trajeto 100 por centro vitorioso de… quatro anos. Por outras palavras, a turma galega não conheceu a derrota ao longo de quatro anos consecutivos. A fase final da 12.ª edição do certame foi a todos os níveis espetacular, desde o futebol desenvolvido pelas oito seleções presentes, como de igual modo pela excelente organização. 

Golo da Galiza contra a equipa bósnia
A seleção da Galiza integrou o Grupo A, tendo no primeiro encontro, realizado em Cambados, derrotado os seus congéneres dos Irlandeses Amadores por 2-0. Aos 9 minutos Iñaki Martínez marcou o primeiro golo da tarde, sendo que em cima do minuto 90 Joni Magisano selou o marcador. Na 2.ª jornada da fase de grupos apareceu aquele que foi um dos grandes destaques da seleção galega na competição, Álex Rey. Ante os bósnios da região de Zenica-Doboj, num encontro ocorrido no Campo de Baltar, em Sanxenxo, Rey fez o primeiro golo da sua seleção aos 24 minutos, após um cruzamento vindo do lado direito dos pés de Félix Rial. Na segunda metade, ao minuto 50, foi a vez de Rey devolver a gentileza, e também ele efetuar uma assistência para o seu colega de equipa, Adrián Otero, de cabeça, fazer o 2-0. Aos 69 minutos, Subasic reduziu desvantagens no marcador, na sequência de um golo olímpico (!) que fechava o marcador em 2-1 a favor dos galegos. E na derradeira ronda da fase de grupos assistiu-se no Campo Municipal de A Lomba, em Vilagarcía de Arousa, a uma autêntica final entre Galiza e os alemães da Baviera, que também haviam triunfado nas duas primeiras jornadas. Quem vencesse passaria à final. Assistiu-se a um jogo de nervos, angustiante, entre duas equipas que provaram que mereciam estar no encontro decisivo. Foi mais feliz, ou eficaz, a equipa da casa, que embalada pela pressão inicial que fez sobre o combinado germânico chegou ao golo. E por intermédio de quem? Álex Rey, pois claro. Uma falta no interior da área da seleção da Baviera não deixou dúvidas ao árbitro finlandês, Antti Munukka, que de pronto assinalou o castigo máximo. Estavam apenas decorridos 7 minutos, e na conversão Rey atirou forte e rasteiro , fazendo um golo que seria decisivo nas contas finais do grupo. Tudo porque os galegos seguraram a magra vantagem até final, e asseguraram dessa forma a passagem ao encontro final da competição, onde iriam ter pela frente a surpreendente seleção de Belgrado. O conjunto sérvio não era tido como favorito à passagem à final, já que esteve integrado num grupo (B) que tinha as fortes seleções da Associação de Futebol de Lisboa e os campeões em título, os polacos do Dolny Slask. O próprio selecionador sérvio, Goran Jankovic, afirmou na antecâmara da final que «se antes do torneio alguém nos dissesse que iríamos jogar a final ficaríamos satisfeitos. Mas… agora queremos mais». Pois é, já que contra os prognósticos iniciais ali estavam, porque não levar o troféu para casa? Porém, os sérvios estavam conscientes das dificuldades que iriam encontrar, a julgar pelas palavras do seu treinador: «Sabemos que os galegos são muito bons. Jogaram o melhor futebol da fase de grupos, pelo que a final vai ser um jogo muito duro para nós». 

Álex Rey festeja com os adeptos na final
E no dia 17 de junho o Campo Municipal de A Lomba registou uma boa afluência para presenciar um capítulo histórico para o futebol galego. Aliás, desde logo a assistência da final entrou para a história da UEFA Regions Cup, já que com 4085 espetadores nas bancadas esta foi a final com maior número de público presente. Público que do princípio ao fim não se poupou a esforços no apoio à seleção galega. Assistiu-se a uma final intensa, com a Galiza a entrar a todo o gás e logo ao minuto 9 um passe longo desde o meio campo efetuado por Iñaki Martínez foi parar aos pés de Félix Rial, que solto de marcação só teve de contornar o guarda-redes sérvio e fazer o primeiro tento da tarde. Aos 40 minutos, Álex Rey dispara um forte remate de fora de área, tendo a bola sido travada por Krstovic com a mão. Grande penalidade assinalada e cartão vermelho para o jogador sérvio. Na conversão, Rey, que então representava o Rápido de Bouzas, atirou a bola para o lado contrário do guarda-redes, ampliando a vantagem com que se atingiu o intervalo. Belgrado esteve longe de se dar por vencido, e a prova disso foi a forma astuta com que entrou na segunda metade da final. Aos 57 minutos, uma jogada iniciada no guarda-redes forasteiro foi concluída por Kolarevic, que no interior da área tirou dois defesas galegos do caminho para fazer o 2-1 que relançou a partida. Até que aos 74 minutos uma bela jogada de combinação do ataque galego permitiu a Lorenzo tirar um cruzamento tenso do lado direito do seu ataque para o poste mais distante da baliza sérvia. Ali, estava solto de marcação Iñaki Martínez, que com um remate cruzado fez o 3-1 final e assegurou a conquista da terceira Taça das Regiões da UEFA para o futebol espanhol.

E assim chega ao fim esta nossa viagem pela história desta competição. 

quinta-feira, junho 06, 2024

Histórias do Planeta da Bola (31)... UEFA Regions Cup – 25 anos do esplendor inocente do futebol amador europeu (parte II)

Em 2007 a seleção da região Sudoeste-Sofia tornou-se na primeira e única equipa até à data a perder duas finais consecutivas da Taça das Regiões da UEFA. Desta feita, o combinado búlgaro sucumbiu diante do seu público, em Sliven Kolyo Milev, cujo presidente da câmara era uma das maiores lendas do futebol da Bulgária: Yordan Letchkov. Esse mesmo, o médio calvo que integrou aquela que para muitos é a melhor seleção de sempre daquele país, a equipa que espantou o Mundo ao conquistar o 4.º lugar no Campeonato do Mundo de 1994. E em Sliven Kolyo Milev quem faria a festa seria a seleção regional de Dolny Slask, o representante da Polónia nesta 5.ª edição da fase final da UEFA Regions Cup, onde pela segunda vez participava uma equipa portuguesa, no caso a seleção da Associação de Futebol de Aveiro. Integrada no Grupo B a turma lusa só seria batida pelos futuros campeões, o Dolny Slask, que somente perdeu pontos ante os portugueses. E na grande final, realizada no Estádio Hadzhi Dimitar, diante de 3500 espetadores, número recorde até então no que diz respeito a uma final da prova, os búlgaros foram ao delírio quando Plamen Stoyanov colocou a seleção da casa em vantagem aos 66 minutos. 

Esta foi na verdade uma das finais mais dramáticas e ao mesmo tempo emotivas destes 25 anos de história da competição. Quando o público da casa já festejava nas bancadas a vitória da seleção da região Sudoeste-Sofia, eis que um balde de água fria caiu sobre eles a sensivelmente 10 minutos do fim.

Arkadiusz Piech
Altura em que na conversão de um livre apontado a uma distância considerável da baliza, Michal Sudol empata a partida para desespero dos búlgaros. Foi então necessário jogar-se mais 30 minutos de futebol extra, e a 6 minutos dos 120 novo balde de água gelada sobre os anfitriões, quando Szymon Jaskulowski, um estudante de 22 anos, que havia começado o encontro no banco, marcou o tento da vitória e do título.

A fase final desta edição da Taça das Regiões seria então considerada pela UEFA como a melhor de sempre, até então, a julgar pelas palavras de Jim Boyce, o então vice-presidente da UEFA para o futebol juvenil e amador. Já aqui frisamos que esta competição é disputada por futebolistas não profissionais, ou que sejam semi-profissionais, mas isso não quer dizer que muitos deles não alcancem no futuro a profissionalização no futebol. E a seleção regional Dolny Slask é um bom exemplo disso, já que dois dos jogadores que venceram esta Taça das Regiões lograriam chegar à seleção principal do seu país e a jogar na 1.ª divisão da Polónia. Foram os casos de Arkadiusz Piech e Janusz Gol, que também se aventuraram no futebol internacional, ao competirem ao mais alto nível nos campeonatos da Turquia, do Chipre – no caso de Piech – e da Rússia – no que diz respeito a Gol.

Castilla e León resgata a taça para Espanha

Berço de notáveis futebolistas/treinadores espanhóis, casos Paco Llorente, Vicente Del Bosque, Juan Mata, entre outros profissionais de relevo, a região de Castilla e León levou em 2009 para Espanha pela segunda vez o título de campeão da Europa de futebol amador. Feito alcançado debaixo do sol tórrido da Croácia, mais concretamente na região de Zagreb. No entanto, a seleção regional da casa esteve muito longe de colocar a mão na taça, já que não foi além do 3.º lugar do Grupo A da fase final, ficando a 3 pontos do vencedor do grupo, os romenos da região de Oltenia. Em termos mais precisos, a seleção regional da Roménia derrotou a seleção de Privolzhie (Rússia) por 2-0, com golos de Mirel Sârbu e Adrian Marinescu, e a região de Bratislava (Eslováquia) pelo mesmo resultado, com golos de Bogdan Preda e Mirel Sarbu. No último jogo, os romenos empataram com a equipa da casa a uma bola, sendo que o tento da região de Oltenia foi apontado por Alin Vacaru. Por seu turno, a seleção de Castilla e León teve uma fase de grupos imaculada, isto é, só com vitórias, sobre os representantes da Bósnia (Gradiaka), da República da Irlanda (Region I) e da Bélgica (Kempen). Neste trajeto invicto os espanhóis apenas sofreram um golo, apontado pela equipa belga, e marcaram sete tentos. Chegados à final, realizada no Estádio do NK Inter de Zapresic, os dois combinados realizaram uma primeira parte onde imperou o futebol rápido e vertical praticado por ambos os lados. Nota de rodapé para dizer que após uma fase de grupos disputada sob intenso calor, a final foi realizada debaixo de pequenos chuviscos! Mas voltando ao encontro, seria no seguimento de uma bola dividida que aos 18 minutos António Ramirez apontou o primeiro tento dos espanhóis, após boa jogada de entendimento com o seu companheiro Alonso. Empolgada pelo golo, a seleção de Castiila e León assumiu as despesas do jogo e partiu para cima do adversário em busca de mais. Porém, aos 25 minutos, Adrian Sirbu, repôs a igualdade na sequência de um cabeceamento que apanhou desprevenido o guardião Álex. A seleção regional espanhola continuou num registo sólido na segunda metade, período este onde as duas equipas foram em busca de um novo golo de forma persistentes. Neste aspeto, foi mais eficaz a seleção de Castilla e León que aos 80 minutos chegou ao 2-1, na marcação de um livre apontado por Mato, tendo na sequência do lance Mirel Adrian Sirbu rematado com êxito para o fundo das redes de Alexandra Popescu.

De Braga a Barcelos se fez o trajeto da glória portuguesa


O futebol português também guarda boas recordações da Taça das Regiões da UEFA. Corria o ano de 2011 quando a região do Minho acolhe a fase final da 7.ª edição do certame, fruto da qualificação da Associação de Futebol de Braga para a ronda final. E foi a jogar em casa, na sua região, que a seleção distrital bracarense alcançou a glória, o título de campeão, o único até à data do futebol luso no âmbito das Bodas de Prata da competição uefeira. Sobre esta conquista já traçámos noutras viagens ao passado longas linhas, pelo que aqui vamos recordar somente as incidências finais desta caminhada de glória de uma seleção que era orientada sob o ponto de vista técnico pelo malogrado Dito. 
Integrada no Grupo A da fase final a turma bracarense teve um trajeto imaculado, isto é, 100 por cento vitorioso, que começou com um triunfo por 3-1 no Estádio 1.º de Maio (em Braga) sobre os checos do Zlin por 3-1, com golos de Hugo Veiga, Diogo Leite e João Silva.

Imagens da final, em Barcelos
O passo seguinte rumo à desejada final foi dado em Barcelos, altura em que os portugueses derrubaram a muralha ucraniana do Yednyst Plysky. A seleção da Associação de Futebol de Braga ainda apanhou um susto, quando logo aos 10 minutos os homens de leste colocaram-se em vantagem por intermédio de Babor. Contudo, a veia goleadora de José Ferreira (22 minutos) e Daniel Simões (59 minutos) e a inspiração do guarda-redes Simão Barbosa (defendeu uma grande penalidade) operaram a reviravolta no marcador e asseguraram mais um triunfo aos pupilos de Dito. E seria em Vila Verde que a seleção bracarense iria assegurar matematicamente a passagem à final na sequência de uma nova e concludente vitória por 3-1 sobre a seleção distrital de Wurttemberg (Alemanha), com o destaque individual a ir para José Ferreira, autor de dois golos (37 e 88 minutos), cabendo a Pedro Nobre (no período de compensação da primeira parte) apontar o outro tento luso. E assim estava alcançada a final. Jogo decisivo onde os bracarenses iriam ter pela frente o vencedor do Grupo B, os irlandeses da região de Leinster & Munster, que haviam levado a melhor sobre a concorrência composta pelos combinados distritais de Belgrado (Sérvia), Ankara (Turquia) e Região Sul da Rússia. Os dois vencedores da fase de grupos encontraram-se no Estádio Cidade de Barcelos, ao final da tarde de 28 de junho, tendo disputado um jogo intenso que terminou com o triunfo português por 2-1. No entanto, a seleção da Associação de Futebol de Braga teve de sofrer para colocar as mãos na taça. Os irlandeses até criaram o primeiro lance digno de registo na partida, quando logo aos 3 minutos Laurence Dunne enviou uma bola à trave da baliza de Rui Vieira. Após este susto inicial, os portugueses equilibraram um encontro onde o nervosismo (muitos passes errados de parte a parte) imperou na primeira meia hora. A Associação de Futebol de Braga teve a sua primeira oportunidade golo somente ao minuto 33, quando uma bela incursão pelo flanco direito do lateral João Silva só foi travada por uma magnífica defesa do guarda-redes Brendan O'Connell. Este lance animou o combinado luso, que até ao intervalo voltaria a ter uma nova e flagrante oportunidade de golo por intermédio de Luís Ribeiro. Valeram mais uma vez os excelentes reflexos de O'Connell. A segunda parte iniciou-se tal como a primeira, ou seja, com a equipa de Leinster & Munster a levar perigo à baliza bracarense na sequência de um perigoso cabeceamento de

Bracarenses fazem a festa
David Lacey, tendo o golo sido evitado graças a uma magnífica intervenção de Rui Vieira. Era agora a vez do guardião luso mostrar os seus atributos. Entretanto, Dito mexe no seu xadrez, colocando em campo Renato Reis (no lugar de Luís Ribeiro) e eis que à passagem do minuto 62 a (maior) qualidade técnica dos portugueses veio ao de cima com um grande golo de Pedro Nobre. O avançado captou a bola na entrada da área irlandesa, dominou-a com arte e engenho e dali mesmo, de fora de área, encheu o pé (direito) para enviar o esférico direitinho para o fundo das redes de O'Connell, que mais não fez do que assistir impotente ao grande golo bracarense. Por norma, os irlandeses são um povo que dificilmente atiram a toalha ao chão perante o primeiro obstáculo encontrado e em Barcelos a garra irlandesa veio ao de cima praticamente logo a seguir ao golo português. Uma defesa incompleta de Rui Vieira (a remate de Ray Whelehan) permitiu a David O'Sullivan fazer a recarga vitoriosa e restabelecer assim a igualdade. A partida estava frenética. As equipas aumentaram a intensidade do seu futebol em busca do golo da vitória. E eis que numa altura em que já cheirava a prolongamento (corria o minuto 84) um golpe de sorte (ou não) protagonizado por José Fortunato deu a vitória e o inédito título à seleção de Braga... e ao futebol português. Fortunato cruzou a bola na direita do seu ataque... diretamente para o fundo da baliza, fazendo o 2-1 final. A festa, naturalmente, que invadiu o relvado do Estádio Cidade de Barcelos assim que o norueguês Ken Henry Johnson apitou pela última vez naquela tarde de glória do futebol nacional.

Veneto bisa na casa de partida

Em 2013 a Taça das Regiões da UEFA voltou à sua casa de partida: a região de Veneto. E tal como em 1999, aquando da primeira edição, tudo terminou da mesma forma, isto é, com a seleção regional de Veneto a ficar com a taça na sua posse, entrando desde logo para a história da competição pelo facto de pela primeira vez uma seleção distrital ter-se sagrado campeã da Europa de futebol amador pela segunda ocasião. Depois de vencer o Grupo A da fase final de forma invicta, a seleção regional transalpina avançou para a final, onde tal como em 99 a esperava uma equipa vinda de Espanha, neste caso a seleção da Catalunha. Disputada tal como na primeira edição no Stadio Comunale delle Terme, em Abano, a final, com arbitragem portuguesa, a cargo de Artur Soares Dias, seria decidida nas grandes penalidades, após um nulo no final dos 120 minutos. Em termos mais precisos, assistiu-se a uma primeira parte marcada pelo equilíbrio entre duas seleções que apresentaram em campo o mesmo esquema tático: 4-3-3. A jogar em casa o conjunto italiano entrou melhor no que toca à ambição de chegar ao golo, já que logo no primeiro minuto Gasparato errou o alvo por pouco. Aos 7 minutos os catalães apareceram pela primeira vez com algum perigo junto da baliza à guarda de De Carli, com Cornella a falhar o golo na cobrança de uma falta. À passagem do quarto de hora os donos da casa fazem uma nova incursão perigosa no ataque, mas o remate de Meda é travado com atenção pelo guarda-redes Carlos Miguel. A seleção catalã só consegue colocar em sentido a defesa transalpina através de lances de bola parada, sendo que numa dessas ocasiões Cornella volta a colocar à prova De Carli, corria o minuto 29. O equilíbrio foi de novo a nota dominante na maioria da segunda parte. Aos 48 minutos, De Carli foi o primeiro guarda-redes chamado a intervir, após um belo remate do catalão Garros. Pouco depois, o Veneto cria aquela que pode ser considerada a primeira grande oportunidade do encontro, quando Furlan rematou à trave da baliza catalã. A equipa orientada pelo técnico Toniutto cresceu no jogo, e aos 53 minutos uma nova tentativa de Furlan é travada desta feita pelo guardião Carlos Miguel. Três minutos volvidos é a vez da Catalunha responder, com Pol a obrigar De Carli a defesa apertada. O jogo entrou num ritmo de parada e resposta, com mais um par oportunidades claras até final dos 90 minutos a surgirem de um lado e do outro. No prolongamento assiste-se a um jogo morno, um pouco desinteressante, sem lances de maior emoção. A única nota de relevo deu-se aos 106 minutos, altura em que o italiano Mantovani recebe ordem de expulsão de Artur Soares Dias. E com 0-0 no marcador a decisão foi para penaltis. E na marca dos 11 metros a seleção de Veneto foi mais competente e venceu por 5-4 - Lorenzatti, Vettoretto, Polonese, Gasparato e Gagno marcaram para os italianos, e Vivo falhou a grande penalidade decisiva para os catalães, depois dos seus colegas de equipa, Gallego, Puerto, Puigoriol e Munta, terem convertido com êxito os seus remates.

(continua)