sábado, março 16, 2019

Histórias do Futebol em Portugal (27)... A geração de ouro do futebol português nasceu há 30 anos (4.ª parte)


3 de março de 1989 está para o futebol português como o 25 de Abril de 1974 está para a nação lusitana. Aquele inolvidável 3 de março de 89 foi o dia em que foi consolidada a revolução futebolística nacional. A partir daquele dia nada mais foi como dantes, um novo e maravilhoso Mundo abriu-se aos portugueses no que ao futebol concerne.
E se Abril de 74 trouxe liberdade (em vários sentidos), direitos, democracia - entre outras conquistas -, março de 89 abriu as portas do prestígio, do sucesso e porque não dizê-lo de alguma supremacia do futebol português a nível internacional. Depois daquela inesquecível sexta-feira de março de 1989, lá longe, no meio do deserto saudita, o futebol luso nunca mais foi o que era.
A "revolução de Riade" mudou para sempre a face do nosso futebol... para melhor. Muito melhor. Portugal é hoje uma potência planetária do Desporto Rei, e muito deve esse estatuto aos heróis que há 30 anos fizeram do nosso país pela primeira vez CAMPEÃO DO MUNDO.
Neste 4.º e último capítulo da evocação do 30.º aniversário do nascimento da Geração de Ouro do futebol português vamos recordar o final feliz desta epopeia das arábias, isto é, o jogo da consagração, o jogo do então inédito título mundial.

Futebol total de Portugal ofuscou uma Nigéria que se limitou a "partir pedra"

Pelé cumprimenta os futuros campeões do Mundo
Convidados de luxo ligados ao Planeta da Bola marcaram presença no King Fahd Stadium para ver uma final que à partida poucos, ou mesmo ninguém, acreditaria ser possível. Especialmente se lhes dissessem que um dos finalistas seria Portugal! Mas o que é certo é que a equipa liderada por Carlos Queiroz ali estava, perfilada lado a lado com os elefantes nigerianos antes do início de uma espécie de segundo round entre os dois selecionados neste Campeonato do Mundo. Presente estava igualmente aquele a quem chamavam - e chamam - o Rei do Futebol: Pelé.
Antes da cerimónia dos hinos nacionais, o astro brasileiro pisou o palco da grande final para cumprimentar uma a uma as futuras estrelas do Belo Jogo que dali a nada iriam lutar entre si para ver qual delas iria subir a tribuna deste majestoso estádio para receber das mãos de outro rei, o rei Fahd, o troféu de campeão do Mundo.

Para os africanos, mais do que confirmar o estatuto de (um dos) favoritos à conquista da coroa planetária com que partiram para esta competição, esta era a última hipótese de vingar uma amarga e convincente derrota com os portugueses na fase de grupos do torneio.
Na verdade, a par do jogo das meias-finais com o Brasil, o encontro com a Nigéria havia sido o momento alto até aqui protagonizado pelos lusos neste Mundial de sub-20. Mas já diz o ditado: não há duas sem três, e para o jogo decisivo Portugal tinha reservado uma exibição de gala que voltou a vulgarizar o futebol força e algo cinzento dos nigerianos.
Foi mais um grande espetáculo futebolístico com o selo de qualidade da primeira formada da Geração de Ouro do futebol luso, que trouxe ao relvado do Estádio King Fahd lampejos do Futebol Total, conforme eternizou nas páginas de A Bola o enviado especial do jornal da Travessa da Queimada no rescaldo da épica vitória lusa por 2-0. «Foi uma espécie de futebol total aquele que a seleção portuguesa desenvolveu ao longo da final do Campeonato do Mundo. E quando dizemos que foi "uma espécie de" não estamos, sobretudo, a esquecer a enorme quantidade de golos desperdiçados na área nigeriana na sequência de jogadas maravilhosas, desenvolvidas de trás para a frente, com o balanceamento próprio de contra-ataque, pela equipa portuguesa.
Ontem, e perdoe-se-nos nesta hora de euforia, o rigor da análise, Portugal ter-se-ia sagrado campeão do futebol total se tivesse expressado no marcador, ainda com maior realce, as inúmeras oportunidades que desfrutou para concretizar. Situações de "baliza aberta", depois do desenvolvimento de jogadas realmente maravilhosas, plenas de encanto e magia, foram muitas. Mas apesar de tanto desperdício, nem por isso Portugal deixou de produzir uma das mais belas e convincentes exibições que alguma vez vimos realizar a uma equipa lusa, deixando convencidos aqueles que ao vivo ou pela televisão acompanharam a partida».

Capitão Tozé com taça na mão
Este convincente e deslumbrante triunfo fez acima de tudo termos a certeza de que o futebol português tinha o futuro garantido, ou por outras palavras, as de Rui Santos «esta final fez notar que o futebol português pode ser um futebol seguro, consistente e coeso, e ao mesmo tempo imaginativo e ambicioso».
Numa apreciação ao jogo português na final de Riade, o jornalista escrevia ainda que «a magia do futebol curto e enleante dos portugueses (...) ofuscou, totalmente, uma equipa africana que sendo forte limitou-se a "partir pedra" todo o tempo e a ver... bailar».
Olhando para a obra de arte concebida pela dupla Queiroz-Vingada para este derradeiro capítulo no Mundial do Golfo Pérsico, A Bola escreveu que Portugal apresentou uma «uma defesa de ferro, um meio campo de briga, e simultaneamente de construção, e um ataque de grande talento que transmitiram à seleção portuguesa uma dimensão extraordinária, levando-a a produzir um futebol verdadeiramente espetacular».
No plano individual Abel Silva, Felipe, Amaral e Jorge Couto foram decisivos numa equipa que produziu o tal futebol espetacular... e total.
E fazendo jus ao chavão com que a seleção nacional partiu para a Arábia Saudita para disputar este Campeonato do Mundo, isto é, "contra tudo e contra todos", também na final a barreira a ultrapassar foi muito além do combinado nigeriano, já que inexplicavelmente o público saudita foi de uma falta de solidariedade gritante para com os lusos. Tirando o jogo inaugural com a Checoslováquia, o apoio e simpatia saudita para com Portugal desapareceu nos jogos seguintes (!) e na final transformaram-se mesmo no 12.º jogador da Nigéria, mas que nada lhes valeu!

Abel incrédulo com o seu golo... à Pelé
Espetaculares continuavam a ser os golos de Portugal neste Mundial. E no jogo decisivo mais duas obras de arte foram erguidas por Abel Silva e Jorge Couto. O primeiro acontece já em cima do intervalo (44m) e resulta numa incursão pela direita de João Pinto, que já no interior da área vê um defesa contrário cortar de forma atabalhoada a bola para a zona da meia lua, onde estava Jorge Couto, que com o peito deixa o esférico para Abel Silva encher o pé e marcar um golo de raça que fez explodir de alegria a nação lusitana.
Um golo... à Pelé, tal como Abel Silva havia prometido ao Rei do Futebol antes do pontapé de saída. «Antes da final, quando Pelé nos veio cumprimentar, eu disse-lhe que ia marcar um golo... à Pelé. Nem sei se ele me ouviu mas sei que viu o meu golo, que foi mesmo um golo à... Pelé, sem dúvida maravilhoso», confessaria o defesa direito da seleção após o apito final.
O segundo tento não lhe ficou atrás em termos de beleza e acima de tudo sentenciou (aos 77m) a final a favor dos lusos. «Bizarro chutou uma bola longa para o meio campo adversário. João Pinto, com um defesa à ilharga, endossa subtilmente a bola para Jorge Couto. Com a bola colada ao pé, este jogador inflete da esquerda para a direita, e à medida que avança deixa o opositor sentado. Ainda antes do quarto de lua da grande área, chuta, pleno de instinto, com o peito do pé e em cheio na bola. O guarda-redes ainda se lança como se fosse possível evitar um destino que estava traçado: Portugal venceria o Campeonato do Mundo sub-20», recorda o site da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) no decorrer das comemorações do 30.º aniversário do nascimento da Geração de Ouro.

Nessa histórica sexta-feira, dia 3 de março de 1989, Portugal alinhou com: (12) Bizarro, (2) Abel Silva, (10) Paulo Madeira, (15) Valido e (5) Morgado; (7) Tozé, (8) Hélio e (11) Filipe; (14) João Vieira Pinto ( (17) Folha, aos 89m), (6) Jorge Couto e (18) Amaral ( (3) Paulo Alves, aos 88m).
Ao apito final do árbitro alemão Aron Schmidhuber, a festa irrompeu no relvado: Portugal era campeão do Mundo. Cenário impensável para muitos, até para o próprio presidente da FPF, Silva Resende, que nem a Riade se deslocou para assistir a este momento histórico. Como não assistiu à subida triunfal do capitão Tozé, acompanhado por Carlos Queiroz, à tribuna real do Estádio King Fahd para receber do rei da Arábia a coroa (perdão, o troféu) de... reis do Planeta da Bola.

Vitória que abriu a porta do futuro ao futebol português

Capa de A Bola...que diz tudo!
Num misto de euforia e crítica, o jornalista Rui Santos enviava alguns recados aos Velhos do Restelo (nada a ver com o Belenenses, atenção) do futebol português. Para o jornalista esta vitória «abriu a porta ao futebol português do futuro», uma vitória que no seu entender era de todos, mas «agora é preciso revelar a humildade suficiente para fazer deste título de campeão do Mundo uma vitória de todos os agentes desportivos», já que era altura de «o futebol português necessita de mudar. Não pode continuar mais na mão de certos oportunistas que tiram proveito da nossa consentida descaracterização.
Este Mundial foi a prova cabal e inequívoca de que o futebol português existe. Tem identidade. Tem expressão. Tem qualidade. (...) São os dirigentes dos clubes, principalmente, que devem tirar, em primeiro lugar, as ilações corretas deste belo acontecimento para o futebol. São eles que devem refletir sobre os modelos até agora adotados (...)».
Mas também os treinadores que por cá andavam não se esquivaram à sua mira, pois «em vez de fazerem saltar para a ribalta nomes que nunca disseram nada a ninguém no mundo do futebol, não tenham medo de lançar jovens talentos nacionais para o espaço da competição mais exigente. E tenham paciência, porque os resultados de todos os trabalhos metódicos e "racionais" acabam, inevitavelmente, por aparecer».
E o futuro assim ditou, ainda que hoje alguns tiques do passado cinzento continuem presentes "aqui e acolá" no nosso futebol.   

No avião durante o regresso a casa
Ainda em Riade a comitiva lusa praticamente não se apercebeu do feito que tinha acabado de conquistar. Trinta anos depois, o (eterno) capitão Tozé recordava aos microfones da Rádio Renascença que «no início não tínhamos bem a noção do que havíamos conseguido. Sabíamos que era algo inédito, um feito, mas não havia a perfeita dimensão. Quando chegámos a Lisboa, essa sensação foi logo diferente, e com o passar dos anos percebemos o quão foi importante para o futebol português este título mundial».
Sim, a noção do feito alcançado por aquele punhado de jovens talentos moldados pelo mestre Queiroz só ganhou contornos maiores na chegada a Lisboa, no dia 5 de março, depois de uma escala em Amesterdão.
Ainda no aeroporto os campeões do Mundo foram recebidos em delírio por um mar de gente. Tal como em Abril de 74, o povo saiu em massa à rua para saudar e dar vivas aos homens que libertaram o futebol português da opressão cinzenta a que estava veiculado.

Com a taça na mão, Tozé foi o primeiro a pisar solo luso. Seguiram-se condecorações atrás de condecorações. O Ministro da Educação (Roberto Carneiro), o primeiro-ministro (Cavaco Silva), o Presidente da República (Mário Soares), entre outras figuras estatais curvaram-se perante estes jovens conquistadores, tal como séculos antes reis e outros governantes da nação lusitana se curvaram perante os bravos e talentosos marinheiros que ao serviço da coroa portuguesa conquistaram novos Mundos... ao Mundo.
Depois de Riade, Portugal afirmou-se no futebol mundial com a conquista de títulos (o mais pomposo terá sido o do Euro 2016) e produzindo largas dezenas de astros futebolísticos que brilharam, ou brilham, com intensidade nas maiores equipas e campeonatos (nacionais) do planeta.

Tozé levanta o "caneco" na chegada a Lisboa
É justo, pois, também nós fazermos uma vénia aos heróis de Riade, à primeira fornada da Geração de Ouro, que deu o primeiro passo rumo a um futuro esplendoroso. Tal como em tudo na vida, muitos destes 18 heróis não conseguiram vingar no futebol sénior. Outros, como Fernando Couto, João Pinto, ou Paulo Sousa atingiram o Olimpo dos Deuses no futebol planetário, quer ao serviço da seleção principal lusa quer envergando o manto sagrado de clubes como a Juventus, Lázio, Inter de Milão, Barcelona, Benfica, ou Sporting. Mais do que tudo abriram caminho para que outras gerações chegassem nas décadas seguintes igualmente a esse Olimpo.
Olhando para os 18 campeões do Mundo em Riade constatamos que metade atingiu a seleção principal portuguesa, casos de Fernando Couto (110 internacionalizações) e João Pinto (81), Paulo Sousa (51), António Folha (26), Paulo Madeira (24), Paulo Alves (13), Jorge Couto (6), Filipe (3) e Hélio (1).
Alguns destes nomes foram peças fundamentais para devolver Portugal à alta roda do futebol internacional, no que a seleções seniores diz respeito, como por exemplo as qualificações para os Europeus de 96 e 2000 e para o Campeonato do Mundo de 2002. Outros, como Brassard, Tozé, Abel Silva, Paulo Alves, Amaral, Valido, ou Morgado ainda atuaram várias épocas na 1.ª Divisão portuguesa, na maior parte desse período ao serviço de emblemas de menor dimensão, não atingindo, porém, a fama planetária de Fernando Couto, João Pinto, ou Paulo Sousa.

Mário Soares recebe os campeões do Mundo
Também o timoneiro desta equipa, o pai da Geração de Ouro, Carlos Queiroz, tem tido uma carreira de altos e baixos (mais altos do que baixos, é certo) no patamar sénior, não conseguindo, por exemplo, transportar para a seleção sénior (a qual já orientou em dois períodos distintos da História) a chave do sucesso que iniciou em Riade e prolongou até Lisboa dois anos depois, quando conquistou em casa o bi-campeonato do Mundo de sub-20.
Outros ainda, como Xavier ou Resende não confirmaram no escalão sénior - por esta ou por outra razão - todo o seu potencial exibido no percurso do futebol de formação que teve o seu apogeu em Riade.
Muitos continuam hoje, volvidos 30 anos, ligados ao futebol. Uns como treinadores (Hélio, Folha, Brassard, Morgado, Valido, Paulo Sousa, Jorge Couto, Paulo Alves, ou Filipe), outros como dirigentes federativos (João Pinto), outros como agentes de jogadores (Fernando Couto e Paulo Madeira), e outros com atividades que nada têm a ver com o Desporto Rei (Amaral, Xavier e Resende).
No entanto, todos eles ganharam por direito próprio o estatuto de imortais do futebol português. 

Vídeo
Portugal -Nigéria

Um comentário:

João Lucas Lopes Gambarra disse...

Bom dia, caro amigo, saudações brasileiras!

Venho aproveitar este espaço para sugerir a história de Abdón Porte, o , defensor que literalmente deu a vida pelo time que sempre amou, o glorioso Club Nacional de Football, do Uruguai