quinta-feira, outubro 18, 2012

Lista de Campeões... Campeonato do Mundo de Sub-17

É o mais jovem dos torneios organizados pela FIFA. Destinado a jogadores até 17 anos de idade o certame teve o seu início no Oriente, mais concretamente na China, em 1985, e que coincidiu com a primeira coroa de glória internacional arrecadada pelo futebol africano, na sequência do triunfo obtido pela Nigéria. África que é o continente mais laureado desta competição, com 7 títulos. Nigéria que é o país que mais vezes levantou o troféu ao longo da história, em 5 ocasiões para sermos mais precisos. O Campeonato do Mundo de Sub-17 tem servido para a FIFA levar o futebol até países menos familiarizados com a modalidade, nações pouco habituadas a receber grandes eventos de nível mundial no que a futebol concerne, sendo que desta forma o acolhimento dos torneios tem servido essencialmente para desenvolver o desporto rei nesses mesmos países. Em seguida ficamos então com os vencedores de uma competição que se realiza de 2 em 2 anos (sempre em anos ímpares). Em 2021 a competição não se realizou devido à pandemia de Covid-19. 

China 1985 - VENCEDOR: NIGÉRIA
Canadá 1987 - VENCEDOR: UNIÃO SOVIÉTICA
Escócia 1989 - VENCEDOR: ARÁBIA SAUDITA
Itália 1991 - VENCEDOR: GANA
Japão 1993 - VENCEDOR: NIGÉRIA
Equador 1995 - VENCEDOR: GANA
Egito 1997 - VENCEDOR: BRASIL

Nova Zelândia 1999 - VENCEDOR: BRASIL
Trinidad & Tobado 2001 - VENCEDOR: FRANÇA
Finlândia 2003 - VENCEDOR: BRASIL
Perú 2005 - VENCEDOR: MÉXICO
Coreia do Sul 2007 - VENCEDOR: NIGÉRIA
Nigéria 2009 - VENCEDOR: SUÍÇA
México 2011 - VENCEDOR: MÉXICO
E.A.U. 2013 - VENCEDOR: NIGÉRIA
Chile 2015 - VENCEDOR: NIGÉRIA
Índia 2017 - VENCEDOR: INGLATERRA
Brasil 2019 - VENCEDOR: BRASIL
Indonésia 2023 - VENCEDOR: ALEMANHA
Qatar 2025 - VENCEDOR: PORTUGAL

segunda-feira, outubro 15, 2012

História dos Europeus de Futebol (9)... Suécia 1992

Utopia, simples palavra que servirá - ainda hoje - para descrever a vitória da Dinamarca no Campeonato da Europa de 1992. Um triunfo que se equipara a um conto de fadas, altamente improvável de transpor as fronteiras da realidade, nem mesmo para os adeptos mais otimistas dos vikings escandinavos. Ainda hoje causa uma certa estranheza perceber como é que uma equipa chamada à última da hora, para substituir outra, conseguiu conjungar os verbos chegar, ver, e vencer de uma forma tão nítida num certame de grau de dificuldade tão elevado como é o caso do Europeu! Dúvidas à parte o que é certo é que a Dinamarca inscreveu o seu nome no restrito álbum de campeões dos Europeus de futebol em 1992, feito alcançando não muito longe de casa, na Suécia, mais concretamente, país que por "mil e uma razões" organizou um dos Campeonatos da Europa mais memoráveis da história. Na realidade esta foi uma prova repleta de surpresas desde o seu início, inclusive desde a fase de qualificação, onde 2 clientes habituais das fases finais dos Europeus, a Espanha e a Itália, não garantiram o bilhete para as terras escandinavas no verão de 92. Os espanhóis quedaram-se por um mísero 3º lugar num grupo dominado por uma super França liderada tecnicamente pelo homem que até então havia dado aos gauleses o seu único título internacional, Michel Platini, que em 8 jogos venceu outros tantos com um saldo impressionante de 20 golos marcados e apenas 6 sofridos, cartão de visita suficiente para rotular os blues como um dos principais favoritos à conquista do caneco na Suécia. Por sua vez, e tal como na fase final do Euro 88, a Itália voltou a cair aos pés da União Soviética! Noutros grupos destaque para uma qualificação sofrida dos campeões em título, a Holanda, muito por culpa de um atrevido Portugal, e da Inglaterra, que mais uma vez teve de se desembaraçar de uma inquieta seleção da República da Irlanda, só vencida graças a um golo do genial Gary Lineker no duelo que opôs a Polónia à Inglaterra na derradeira jornada da fase de qualificação. Complicada foi igualmente a qualificação da Alemanha (muito por culpa de um aguerrido País de Gales), que pela primeira vez desde a queda do muro de Berlim competia como uma única nação, isto é, com as irmãs República Federal da Alemanha e República Democrática da Alemanha unificadas... finalmente. E se uns agitavam bandeiras brancas em sinal de paz outros viam a guerra eclodir entre os seus povos, como foi o caso da Jugoslávia, que no grupo 4 levou a melhor sobre a Dinamarca, Irlanda do Norte, Áustria, e as Ilhas Faroé. Surpresa foi a Escócia, que ao vencer o grupo 2 garantiu a sua primeira presença na fase final de um Europeu.
E quando a grande festa estava prestes a ter início na Suécia a confusão instalou-se no seio da competição, e tudo por culpa dos países de leste. A União Soviética havia desaparecido enquanto país, enquanto que a Jugoslávia continuava a braços com uma guerra sangrenta entre os seus povos. Perante isto a UEFA decide que os soviéticos viajam para a Suécia sob o desígnio de Comunidade de Estados Independentes (CEI), uma solução que agradou na altura aos países que resultaram do desmembramento da ex-União Soviética, em especial a Rússia e a Ucrânia, as duas novas - ou renascidas - nações que maior número de atletas forneciam ao combinado de leste. Quanto à Jugoslávia o organismo que tutela o futebol europeu decidiu sancionar aquele país - ou o que restava dele - com o afastamento de todas as provas por si organizadas, tendo chamado para o lugar dos jugoslavos a 2ª colocada do grupo de qualificação, precisamente a Dinamarca. Reza a lenda que a maior parte dos jogadores dinamarqueses gozava já o merecido período de férias nas tórridas praias do sul da Europa, entre eles a grande estrela daquela seleção, Michael Laudrup, que quando convocado - à última da hora - pelo selecionador Richard Moller-Nielsen preferiu... continuar a apanhar sol ao invés de calçar as chuteiras numa prova em que o próprio - e não só - achava que o seu país não ia fazer mais do que corpo presente. Na verdade, não só Laudrup era desta opinião, todos os críticos e conhecedores da modalidade estavam cientes de que pelo seu curto tempo de preparação a seleção escandinava pouco mais podia fazer do que evitar sair goleada dos 3 jogos que iria fazer no grupo 1 da fase final. Como estavam enganados, como iremos ver.

Fantástica Dinamarca! (parte 1)

Inglaterra e França eram naturalmente apontadas como as duas seleções favoritas a vencer o grupo 1, não só pelos poderosos grupos que haviam reunido rumo à Suécia, mas sobretudo pela sua maior experiência na alta roda do futebol internacional. Mas cedo essa teoria seria deitada por terra. No jogo de estreia (a 10 de junho) do Euro 92, em Estocolmo, a equipa da casa quis mostrar ao Mundo que não estava ali como mera anfitriã do torneio, mas sim com a intenção de dar uma alegria ao seu povo, tentanto caminhar o mais longe possível na competição, quiçá repetir o feito de 1958, onde também na qualidade de país organizador alcançou a final do Campeonato do Mundo desse ano, caindo apenas aos pés do rei Pelé e seus súbitos. E o intuito sueco ficou bem sublinhado no primeiro encontro do Europeu, quando travaram com toda a classe a máquina trituradora de Platini, na sequência de um empate a uma bola. O defesa Ericksson colocou o público da casa em delírio à passagem do minuto 24, altura em que bateu o guardião Martini e fez o primeiro golo do Euro 92. Contudo, do outro lado estava um dos melhores avançados do planeta de então, uma arma mortífera em frente às balizas, de seu nome Jean Pierre Papin, que aos 58 minutos evitou o mal menor para a sua seleção. No dia seguinte, em Malmo, aquilo o que se pensaria ser um triunfo fácil da poderosa Inglaterra acabou por tornar-se na primeira grande surpresa do Europeu. A Dinamarca, a tal seleção chamada à última da hora, impôs um empate a zero a Gary Lineker e companhia, que 2 anos antes haviam alcançado um brilhante 4º lugar no Mundial de Itália. Um pobre 0-0, na realidade, resultado de um paupérrimo jogo de futebol, mas que na verdade rasgou sorrisos de felicidade entre os até há poucos dias atrás veraneantes vikings. Na noite de 14 de junho o Estádio Rasunda, nos arredores de Estocolmo, voltou a pintar-se de amarelo e azul (as cores da bandeira sueca) para puxar pela seleção de Tommy Svensson. Desta feita o adversário eram os vizinhos da Dinamarca, que mesmo não fazendo um mau jogo, contrariamente ao que haviam feito dias antes ante a Inglaterra, não conseguiram contrariar a avalanche ofensiva sueca, liderada por Limpar, Dahlin, e Brolin, cabendo a esta último o papel de herói dessa célebre noite, depois de apontar (aos 58 minutos) o único golo da partida, e desta forma colocar toda uma nação em delírio. Nunca 1958 estava tão perto de ser revivido como então.
Horas antes, em Malmo, mais um apontamento desolador de duas candidatas à coroa de campeão da Europa. Ingleses e franceses não foram além de um desinspirado 0-0, e as contas começavam a complicar-se para ambos. Porém, nos caminhos da matemática final os gauleses estavam mais confortáveis, já que necessitavam apenas de um empate no último encontro do grupo ante a aparentemente frágil Dinamarca, ao passo que os britânicos teriam forçosamente de vencer a equipa da casa para tornar a fase seguinte uma realidade e não a miragem que se começava a figurar. E o Suécia - Inglaterra foi talvez um dos grandes jogos deste Euro 92, um momento inolvidável para o futebol sueco, graças a mais uma estupenda exibição de nomes como Ravelli, Limpar, Schwartz, Thern, Nilsson, Dahlin, ou Brolin, nomes que formavam aquela que hoje podemos mesmo considerar a geração de ouro do futebol da Suécia, a geração que brilhou a grande altura não só neste Europeu mas sobretudo 2 anos depois, no Mundial dos Estados Unidos da América, onde conquistou um memorável 3º lugar! David Platt ainda levou ao delírio os fanáticos e sempre presentes adeptos ingleses, quando aos 3 minutos do decisivo encontro colocou a aramada britânica em vantagem. Contudo, e na sequência de uma 2ª parte demolidora, os suecos enviaram a Inglaterra mais cedo para casa, acabando por vencer por 2-1, com golos de Eriksson e do pequeno grande jogador Thomas Brolin. A Suécia - que fazia a sua estreia em fases finais de Europeus - estava nas meias-finais, e a partir dali o céu era o limite. Mas a maior surpresa desse dia 17 de junho ocorreria em Malmo, onde a favorita - mas até então desoladora - França era eliminada pela repescada Dinamarca! 2-1, vitória categórica e merecida dos vikings, que para surpresa de todos, inclusive de si próprios, estavam nas meias-finais. Quem diria! Por seu turno a França queimava uma das suas melhores equipas de sempre, onde pontificavam nomes como Eric Cantona, Boli, Manuel Amoros, Casoni, Fernandez, ou o goleador Papin, ícones capazes de levar qualquer equipa à glória, mas que neste Euro 92 tiveram um desempenho medíocre.

Velhos inimigos voltam a encontrar-se

Contrariamente ao grupo 1 o grupo 2 não conheceu surpresas, ou seja, os favoritos à passagem às meias-finais fizeram-no sem problemas de maior. Favoritos que davam pelos nomes de Holanda e Alemanha, respetivamente os campeões da Europa e do Mundo em título, e dois dos mais velhos inimigos do futebol mundial. Esta era já a terceira fase final consecutiva - quer de Europeus, quer de Mundiais - em que ambos os países - geograficamente vizinhos, por sinal - se iriam encontrar, sendo que o saldo registado até então era de uma vitória para cada lado, a da Holanda conseguida no Euro 88, enquanto que a dos germánicos havia sido alcançada no Mundial 90. Mas até ao confronto entre estes dois favoritos um longo caminho teve de ser precorrido, principalmente pela Alemanha. Comandada por Berti Vogts - que rendeu Franz Beckenbauer após a conquista do ceptro mundial em 1990 - a seleção germânica apresentou-se inicialmente na Suécia um pouco aquém do esperado, conforme comprova o sofrido empate a um golo ante a CEI no primeiro encontro do grupo, ocorrido em Norrkoping a 12 junho. Foi graças a um golpe de génio do pequeno Thomas Hassler - que viria a ser considerado pela crítica como o melhor germânico do Euro 92 - que a Alemanha - unificada - alcançou em cima do minuto 90 o empate a um golo ante os ex-soviéticos. Pequeno, mas de relativa facilidade, foi o triunfo dos detentores do título europeu, a Holanda, sobre a estreante Escócia, que tinha no seu avançado Ally McCoist a sua principal estrela. 1-0, golo do jovem avançado Dennis Bergkamp, foi o momento alto da tarde de 12 de junho no Estádio Ullevi, em Gotemburgo, uma das 4 cidades que acolheu a prova.
Três dias volvidos os escoceses comprovaram a sua inexperiência ao mais alto nível, ao perderem por 0-2 ante a Alemanha - com golos de Riedle e Effenberg - dizendo assim definitivamente adeus ao Euro 92. Enquanto isso a CEI mostrava que a União Soviética estava morta enquanto país, mas o talento e a alma do futebol que este país brindou o planeta da bola durante décadas a fio continuava bem vivo. 0-0, resultado final do choque com os mestres holandeses, e a chama de passar à fase seguinte continuava bem acesa para os jogadores de leste. Bastava por isso uma simples vitória ante os já desqualificados escoceses e que a Alemanha não vencesse a super Holanda de Gullit, Van Basten, Koeman, Rijkaard, Wouters, ou da nova coqueluche do grupo, Bergkamp. Estes atletas deram então uma ajuda à CEI, vencendo o derby ante a Alemanha de uma forma magistral, graças a uma exibição que fez lembrar a inolvidável Holanda que 4 anos antes havia subido ao trono do futebol continental. Em Gotemburgo o marcador final do esperado e ansiado duelo, uma espécie de final antecipada do Europeu, indicava uns expressivos 3-1 a favor dos pupilos do mestre da tática Rinus Michels. A Alemanha, campeã do Mundo, foi vulgarizada, e nas bancadas os teutónicos olhavam incrédulos para o desnorte de estrelas como Illgner, Kohler, Brehme, Helmer, Klinsmann, Doll, ou Moller, no fundo os homens que não muito tempo antes haviam conduzido a nação ao terceiro título mundial da sua história. Porém, como num golpe de sorte, de Norrkoping chegavam boas novas: a frágil Escócia havia humilhado por 3-0 a CEI e desta forma oferecido aos alemães o passaporte para a fase seguinte. A "McAlemanha" (os golos da Escócia foram apontados por 3 "Mc's": McClair, McStay, e McAllister) ainda estava viva.

Épico duelo no Rasunda

Uma Alemanha a meio gás conferiu à nação sueca uma onda de otimismo elevado para o primeiro confronto das meias-finais, precisamente o que iria colocar frente a frente os pupilos de Tommy Svensson aos de Berti Vogts. Com uma postura distinta daquela petenteada nos 3 primeiros encontros os germânicos cedo tomaram conta do jogo realizado no anfiteatro do Rasunda Stadium, evidenciando uma maior capacidade física e técnica, não sendo de estranhar que logo aos 10 minutos Thomas Hassler colocasse os forasteiros em vantagem. No início da etapa complementar (59 minutos) Karl-Heinz Riedle amplia a vantagem e a onda azul e amarela que inundava as bancadas do Rasunda esmorecia. Atitude que no entanto não seria seguida pelos jogadores suecos, que 5 minutos volvidos reduziram a desvantagem na sequência de uma grande penalidade apontada por Brolin. A esperança renascia para as hostes da casa. O jogo estava elétrico, bola cá, bola lá, sendo que a vitória poderia cair para qualquer dos lados. Mas, a frieza alemã voltaria a dar os seus frutos a 2 minutos do fim, altura em que Riedle mata de forma aparente o jogo ao fazer o 3-1. De forma aparente porque aos 89 minutos Andersson faz o 2-3 e a chama da esperança reacende-se entre os adeptos locais. Era porém já muito tarde para reagir. As forças estavam gastas, a dura batalha fazia estragos entre os guerreiros suecos que apesar de tudo caiam de pé num encontro que de forma unânime foi considerado como o melhor de todo o Euro 92, e um dos mais épicos da história da competição.

Fantástica Dinamarca! (parte 2)

Poucos acreditavam que holandeses e alemães não se voltassem a encontrar neste Europeu de 1992, e de novo no Ullevi de Gotemburgo, mas desta feita para discutir o título continental. Era uma questão de tempo, de 90 minutos, o tempo que separava os holandeses da sua segunda final consecutiva. Mas não foi bem assim. Na véspera do jogo da segunda meia final o defesa holandês Ronald Koeman adiantava à imprensa que já sonhava com a final e com... as férias do Algarve! Como muitas das vezes acontece o excesso de confiança paga-se bem caro, e os mestres holandeses pagaram-no, efetivamente. Os nórdicos colocaram-se em vantagem bem cedo (5 minutos) por intermédio de Henrik Larsen, que naquela tarde de 22 de junho viveria na relva do Ullevi o grande momento da sua carreira, como mais à frente iremos perceber. Bergkamp ainda empatou para a Holanda, aos 23 minutos, mas os vikings queriam fazer história, queriam continuar a sua - inesperada - aventura, e à passagem do minuto 32 Henrik Larsen voltou a colocar em delírio os apoiantes dinamarqueses. Naquele instante ninguém no Reino da Dinamarca se lembrava de... Michael Laudrup. Larsen, Lars Olsen, Kim Vilfort, Povlsen, Peter Schmeichel, ou o mais novo dos Laudrup (Brian) eram mais do que suficientes para trazer alegria à nação escandinava. O guarda-redes Schmeichel fez mesmo uma das melhores exibições da sua gloriosa carreira, travando com defesas espetaculares e seguras a avalanche holandesa que ia subindo de intensidade à medida que o relógio ia avançando. Porém, aos 85 minutos, Schmeichel foi incapaz de travar o remate certeiro de Frank Rijkaard, que desta forma colocava tudo na estaca zero. A Dinamarca tinha já superado o pior, mas ainda assim poucos acreditavam que a Holanda não acabasse por demonstrar a sua superioridade no prolongamento. Não mostrou, na verdade, e o jogo foi decidido nas grandes penalidades, onde um desinspirado Marco Van Basten - fez um Euro 92 muito abaixo das suas potencialidades - viu o seu penalty ser travado pelo bravo Schmeichel, que pouco depois via o seu companheiro Christofte levar a Dinamarca para a final do Campeonato da Europa! Impensável, não nos cansamos de repetir. E tudo o que acontecesse depois daquela noite não teria importância, pois quer vencessem ou não a final os dinamarqueses já eram os grandes heróis deste Euro 92.
E como não tinham mesmo nada a perder o conto de fadas conheceu um final deslumbrante!

Fantástica Dinamarca! (parte 3)

Estádio Ullevi, dia 26 de junho, para a Alemanha poderia ser mais um jogo rumo a mais um título, para a Dinamarca era o jogo de uma vida, o momento mais sublime da sua história desportiva. Cedo os alemães quiseram ver a questão resolvida, mas os nórdicos mostravam que já que haviam sido convidados para participar na festa não queriam sair dali sem se divertirem. E alegria foi o que John Faxe Jensen terá sentido ao minuto 18 quando na sequência de um remate à entrada da área coloca a Dinamarca em vantagem! Os Deuses (do futebol) estavam definitivamente loucos. Os alemães continuaram no entanto a dominar, massacrar será mesmo a palavra exata. Mas aquela não era a sua noite, era a noite de uns mágicos vikings que já perto do final da contenda deram o golpe final por intermédio de Kim Vilfort. 2-0, os veraneantes dinamarqueses podiam finalmente gozar as suas merecidas férias, mas agora ostentando o pomposo título de CAMPEÕES DA EUROPA, e o Mundo ficava pasmado...

Jogos

Grupo 1

1ª jornada

10 de junho, em Estocolmo
Suécia - França: 1-1
(Eriksson, aos 24m)
(Papin, aos 58m)

11 de junho, em Malmo
Dinamarca - Inglaterra: 0-0

2ª jornada

14 de junho, em Malmo
Inglaterra - França: 0-0

14 de junho, em Estocolmo
Suécia - Dinamarca: 1-0
(Brolin, aos 58m)

3ª jornada

17 de junho, em Estocolmo
Suécia - Inglaterra: 2-1
(Eriksson, aos 51m, Brolin, aos 82m)
(Platt, aos 3m)

17 de junho, em Malmo
Dinamarca - França: 2-1
(Larsen, aos 8m, Elstrup, aos 78m)
(Papin, aos 60m)

Classificação

1-Suécia: 5 pontos
2-Dinamarca: 3 pontos
3-França: 2 pontos
4-Inglaterra: 2 pontos

Grupo 2

1ª jornada

12 de junho, em Gotemburgo
Holanda - Escócia: 1-0
(Bergkamp, aos 76m)

12 de junho, em Norrkoping
CEI - Alemanha: 1-1
(Dobrovolsky, aos 62m
(Hassler, aos 89m)

2ª jornada

15 de junho, em Norrkoping
Alemanha - Escócia: 2-0
(Riedle, aos 28m, Effenberg, aos 46m)

15 de junho, em Gotemburgo
Holanda - CEI: 0-0

3ª jornada

18 de junho, em Norrkoping
CEI - Escócia: 0-3
(McStay, aos 6m, McClair, aos 17m, McAllister, aos 83m)

18 de junho, em Gotemburgo
Holanda - Alemanha: 3-1
(Rijkaard, aos 2m, Witschge, aos 14, Bergkamp, aos 71m)
(Klinsmann, aos 53m)

Classificação

1-Holanda: 5 pontos
2-Alemanha: 3 pontos
3-Escócia: 2 pontos
4-CEI: 2 pontos

Meias-finais

21 de junho, em Estocolmo
Suécia - Alemanha: 2-3
(Brolin, aos 64m, Andersson, aos 89m)
Hassler, aos 10m, Riedle, aos 58m, aos 88m)

22 de junho, em Gotemburgo
Holanda - Dinamarca: 2-2 (4-5 nas grandes penalidades)
(Bergkamp, aos 23, Rijkaard, aos 85m)
(Larsen, aos 5m, aos 32m)

Final

Dinamarca - Alemanha: 2-0

26 de junho, no Estádio Ullevi, em Gotemburgo

Árbitro: Bruno Galler (Suíça)

Dinamarca: Schmeichel, Sivebaek (Christiansen, aos 66m), Olsen, Piechnik, Nielsen, Christofte, Vilfort, Jensen, Larsen, Laudrup, e Povlsen. Treinador: Richard Moller Nielsen

Alemanha: Illgner, Buchwald, Helmer, Kohler, Reuter, Brehme, Sammer (Doll, aos 46m), Effenberg (Thom, aos 80m), Hassler, Riedle, Klinsmann. Treinador: Berti Vogts

Golos: 1-0 (Jensen, aos 18m), 2-0 (Vilfort, aos 78m)


Vídeo: DINAMARCA - ALEMANHA



Onze ideal:

Schmeichel (Dinamarca)
Sivebaek (Dinamarca)
Kohler (Alemanha)
Eriksson (Suécia)
Olsen (Dinamarca)
Rijkaard (Holanda)
Jensen (Dinamarca)
Hassler (Alemanha)
Riedle (Alemanha)
Bergkamp (Holanda)
Brolin (Suécia)

Melhores marcadores:

Riedle (Alemanha); Larsen (Dinamarca), Brolin (Suécia), Bergkamp (Holanda): 3 golos

Legenda das fotografias:1
1-Logotipo do Euro 1992
2-A inesperada festa viking na final de Gotemburgo
3-Ingleses e franceses: as duas grandes desilusões da prova
4-O pequeno genial Thomas Brolin carimbou o passaporte sueco para as meias-finais ante a Inglaterra
5-Bergkamp marca o tento solitário da Holanda ante a estreante Escócia
6-Fundamental em 1988, e desinspirado em 1992, eis Marco Van Basten
7-Thomas Hassler aponta o primeiro tento da meia-final ante a Suécia
8-Bergkamp bem tentou, mas no final a festa foi dinamarquesa...
9-... que se viria a repetir na grande final do torneio
10-Duelo entre dinamarqueses e ingleses
11-A desoladora Inglaterra
12-Suécia
13-França
14-Gullit, uma das estrelas holandesas em luta com um escocês
15-Alemão Sammer salta mais alto que um escocês
16-O conjunto da CEI
17-A Escócia acordou tarde demais na estreia em fases finais do Euro
18-O sempre emotivo duelo entre alemães e holandeses
19-Schmeichel prepara-se para defender o penalty de Van Basten
20-Dinamarca, a inesperada campeã da Europa de 1992

sexta-feira, outubro 12, 2012

Histórias do Futebol em Portugal (8)... O primeiro rugido do leão!

O sucesso angariado pela 1ª edição do Campeonato de Portugal (21/22) fez com que na temporada seguinte o certame fosse desejado por mais associações regionais, as quais pretendiam ver os seus respetivos campeões lutar pela coroa de rei do futebol português. E em 1922/23 foram 6 as associações inscritas no Campeonato de Portugal dessa temporada, nomeadamente as do Porto, Lisboa, Braga, Coimbra, Funchal, e Algarve. Recorde-se que na edição de estreia da competição apenas Lisboa e Porto aceitaram o desafio da União Portuguesa de Futebol (UPF) para dar o pontapé de saída no Campeonato de Portugal, o qual viria a ser arrecadado pelo FC Porto... à custa de um Sporting que em 22/23 viria a conhecer o seu primeiro momento de glória nesta prova. Mas já lá vamos.
Contrariamente ao sucedido em 21/22, em que apenas foi disputada a final entre os campeões regionais de Lisboa e Porto, respetivamente, Sporting e FC Porto, o Campeonato de Portugal de 22/23 conheceu pela primeira vez na sua então curta história de vida algumas eliminatórias antes do desafio final, devido, claro está, ao aumento do número de participantes. Coincidências ou não o que é certo é que os dois finalistas da temporada anterior, e principais favoritos à conquista do ceptro, foram poupados às eliminatórias iniciais!
Sporting de Braga e Académica de Coimbra, respetivamente os campeões das associações de Braga e de Coimbra, mediram forças no Campo do Bessa, no Porto, a 3 de junho de 1923, em jogo alusivo à 1ª eliminatória, tendo os estudantes levado a melhor sobre os seus oponentes, conforme comprova o resultado de 2-1 a seu favor.
Triunfo que permitiu à Académica subir mais um degrau na competição, enquanto que os bracarenses diziam adeus ao sonho de vencer o título. Na ronda seguinte os campeões de Coimbra enfrentaram os campeões do Algarve, o Lusitano de Vila Real de Santo António, um duelo que iria definir o quarto e último semi-finalista da competição, fase onde por isenção já estavam classificados FC Porto, Marítimo, e Sporting. E novamente pela margem mínima - desta feita por 3-2 - os academistas voltariam a fazer mais uma vez a festa, desta vez no Campo Grande, em Lisboa, já que por decisão da UPF todas as eliminatórias da 2ª edição do Campeonato de Portugal - incluindo a final - seriam discutidas num único jogo, realizado em campo neutro. E chegavamos assim às meias-finais, já com os peso pesados do futebol lusitano em ação.

Casapiano Cândido de Oliveira torna-se leão na final antecipada

Fase essa onde os caprichos do sorteio ditaram um confronto entre os dois finalistas da temporada anterior, FC Porto e Sporting, duelo que desde logo seria rotulado como a final antecipada da competição. Coimbra seria então o palco escolhido para acolher o desafio marcado para o dia 17 de junho desse longínquo ano de 1923. As equipas foram recebidas em ambiente de festa, ou não estivessem numa localidade que vivia - e vive - permanentemente numa atmosfera festiva, graças aos rituais estudantis que dão um colorido diferente à bela cidade beijada pelo (rio) Mondego.
Sob os comandos técnicos do engenheiro luso-alemão Augusto Sabbo o Sporting chegava a esta meia final empolgado com a recente vitória obtida no Campeonato Regional de Lisboa sobre o Casa Pia, por 2-0. Pintada em tons de verde e azul Coimbra foi invadida por largas centenas de adeptos das duas equipas, que lotavam as ruas e cafés da cidade nas horas que antecederam o esperado duelo. Leões que para esta meia final receberam o apoio de alguém que naquela época era já uma pessoa muito especial no futebol português, nada mais nada menos do que Cândido de Oliveira, um dos grandes - senão mesmo o principal - impulsionadores da modalidade em solo lusitano, e que na altura desempenhava as funções de capitão do Casa Pia, o emblema derrotado pelo Sporting na final do Campeonato de Lisboa. Cândido de Oliveira demonstrou não só todo o seu apoio aos vizinhos lisboetas rumo à conquista do Campeonato de Portugal de 1923, como também se disponibilizou para servir de massagista aos jogadores leoninos na meia final diante do campeão da Associação de Futebol do Porto. Solidariedade de vizinhos, por certo! Massajados por Cândido os sportinguistas entraram no Campo dos Bentos dispostos a vingar a derrota da época anterior, e cedo deram mostras disso, na sequência de inúmeras incursões à baliza do portista Lino Moreira. Encostados às cordas os jogadores do FC Porto pouco mais faziam do que ver o seu adversário interpretar de forma magistral o jogo, acabando o minuto 23 por trazer justiça ao que vinha acontecendo no campo de batalha, altura em que João Francisco colocou os leões na frente. Na 2ª parte houve mais do mesmo, o Sporting continuou a dominar o inofensivo rival do norte, e coroando uma exibição soberba o capitão leonino, Francisco Stromp, marcou por duas vezes (aos minutos 56 e 72) e selou o resultado final em 3-0. Score expressivo que até poderia ter sido maior, segundo rezam as crónicas da época, uma vez que o árbitro do encontro, o inglês Rudolf Todd, poupou os portistas de uma humilhação bem maior, ao invalidar dois golos limpos aos sportinguistas por alegados fora de jogo, e perdoando duas grandes penalidades aos campeões da Invicta, sendo que numa delas chamou mesmo o capitão azul e branco, Alexandre Call, aconselhando-o a dizer aos seus companheiros que não cometessem... mais grandes penalidades. Ribeiro dos Reis, outro nome grande do futebol português, que esteve presente no encontro de Coimbra na qualidade de representante da UPF, confessou que ouviu posteriormente o árbitro dizer que perdoou duas grandes penalidades nítidas contra o FC Porto, castigos esses que não havia assinalado porque... era mais bonito ganhar assim!
Na outra meia final a Académica continuava a sua marcha triunfal na prova, e de novo em Lisboa, nesta ocasião no Campo da Palhavã, derrotou o Marítimo por 2-1, graças a dois remates vitoriosos de José Afonso e José Neto.

Viagem caricata termina com o título de campeão em dia de S. João

Sporting e Académica, os guerreiros que iriam lutar entre si pelo título de campeão de Portugal, cuja grande final seria agendada para Faro, localidade situada bem no sul do país... e de difícil alcance! Eram evidentes as lacunas ao nível das vias de comunicação que Portugal possuía por aqueles dias, e chegar desde os grandes centros urbanos situados no litoral até locais como Faro era o "cabo dos trabalhos", uma verdadeira aventura, como comprovam as viagens efetuadas pelas comitivas da Académica e do Sporting. A deslocação dos leões demorou 12 horas!!! Uma eternidade, de facto. Em crónica da época Júlio de Araújo conta os detalhes da caricata e longa viagem do Sporting desde Lisboa até Faro. «No barreiro tomamos a zorra (comboio) do Algarve, que se permite o luxo de carruagens de 1ª classe, sem luz e com insectos vários, cuja presença nos esperta de quando em vez para não esmorecer a cavaqueira. A União (Portuguesa de Futebol), numa possível boa intenção, marcou lugares à razão de 1$80, marcação que um amável revisor informou não ter importância de maior, quando outros sem terem pago os tais 1$80 se apossam dos lugares. A nossa carruagem foi finalmente invadida pelos malteses (adeptos), que de armas, bagagens, cestos e cestinhos sem instalaram tão comodamente, que receámos a morte por asfixia, cheiro a próximo e a queijos quem um deles transportava num cesto». Aventuras e desventuras vividas ao longo de 12 horas, como já foi dito, acabando - por fim - a comitiva leonina por chegar a Faro ao som de morteiros e foguetes - era dia de S. João - com 4 horas de atraso. A comitiva da Académica viveu situação idêntica, acabando por chegar à capital do Algarve quando faltavam apenas 6 horas para o início da grande final. Isto porque era dia de S. João, e foliões como eram, os jogadores estudantes da Académica aproveitavam as longas paragens do comboio nas estações para dar um pézinho de dança nos bailes que "aqui e ali" se desenrolavam! Folia academista que se resumiu apenas aos bailaricos, pois no campo de batalha, isto é, no retângulo de jogo, quem dançou e fez a festa foram os jogadores do Sporting. Sob a arbitragem do farense Eduardo Vieira os sportinguistas venceram com relativa facilidade uma Académica que mesmo tendo dado uma boa réplica não teve armas suficientes para contrariar a supremacia da equipa lisboeta, a qual com 25 minutos de jogo vencia já por 2-0. O primeiro tento surgiu aos 12 minutos, por intermédio do capitão Francisco Stromp, num pontapé forte após passe de Carlos Fernandes. Isto, depois do guarda redes academista, João Ferreira, ter efetuado um bom naipe de espantosas defesas que evitaram que o marcador tivesse sido inaugurado mais cedo. Seis minutos volvidos, na conversão de uma grande penalidade, Joaquim Ferreira faria o 2-0 com que se atingiu o intervalo. Antes da saída para o descanso os leões viram o azar bater-lhes à porta, quando à passagem da meia hora Francisco Stromp abandonou forçosamente o recinto de jogo devido a uma lesão. Na segunda etapa o encontro arrefeceu, poucas ocasiões dignas de sublinhado foram registadas, sendo a exceção o terceiro golo do Sporting, da autoria de Carlos Fernandes, quando estavam decorridos 53 minutos, e de novo na sequência de uma grande penalidade. 3-0, resultado final de uma partida dominada por completo por um enorme Sporting, que até podia ter saído de Faro com uma vitória mais gorda, não fosse a tarde de desatino de Jaime Gonçalves, que desperdiçaria uma série de golos... feitos. Mas pouco interessava, o Sporting havia vencido, e desta forma conquistado o seu primeiro título de campeão de Portugal, o primeiro título nacional conquistado pelos leões, que até então registavam no seu palmarés 4 títulos de campeões regionais de Lisboa.
Naturalmente que depois do jogo houve festa. O jantar juntaria as comitivas das dois clubes finalistas, num espírito de salutar convívio e camaradagem. Os leões ofereceriam uma taça de champanhe aos atletas vencidos, e na resposta o capitão da Académica, Ribeiro da Costa, faria um brinde aos novos campeões de Portugal, felicitando-os pelo triunfo, lembrando depois que o seu clube não se dedicava única e exclusivamente à prática do desporto, apontando a leitura e a adoração ao Deus Baco eram as prioridades dos estudantes de Coimbra! Francisco Stromp agradeceu e em seguida abriu uma sessão de desgarrada que se iria prolongar pela noite dentro.

A figura: Jorge Vieira

É profundamente discutível opinar sobre quem terá sido a grande figura do primeiro título nacional obtido pelo Sporting. Os leões possuíam no seu grupo atletas de notável qualidade, casos do guarda-redes Cipriano dos Santos, Joaquim Ferreira, Portela, João Francisco, Jorge Vieira, ou o lendário capitão Francisco Stromp, jogadores que formavam um grupo muito forte e coeso, como se verificou no trajeto vitorioso leonino neste Campeonato de Portugal de 22/23. O grupo foi mesmo a chave do sucesso, podemos dizer. Mas dentro deste grupo existia quanto a nós um homem que se impunha não só pela sua habilidade na condução do esférico mas sobretudo pelo carisma, e pela forma com que cedo se implantou na equipa principal do Sporting. Falamos de Jorge Vieira, o defesa esquerdo daquele célebre grupo, uma figura nascida em Lisboa nos finais do século XIX (1898) e que aos 16 anos era já titular absoluto da primeira equipa dos leões! O amor pelo Sporting teve início bem cedo, quando aos 9 anos de idade, e pela mão do seu irmão, se deslocou a pé desde Dafundo (zona de Lisboa onde vivia) até ao Campo da Quinta Nova para assistir a um pomposo Sporting - Sport Lisboa (um dos clubes que mais tarde daria origem ao Sport Lisboa e Benfica).
Em 1911 Jorge Vieira vestiu pela primeira vez a camisola do seu amado clube, num encontro de terceiras categorias. O estalar da I Guerra Mundial abriu-lhe as portas da primeira equipa, quando foi chamado a substituir o titular do lugar de defesa esquerdo, o inglês Sander, um engenheiro de telecomunicações que foi forçado a abandonar o Sporting para integrar o exercito do seu país no citado conflito bélico. Com apenas 16 anos Jorge Vieira agarrou o lugar, não mais o largando nos 17 anos seguintes! Fez a sua estreia na primeira equipa a 28 de março de 1915, e logo com uma prova de fogo pela frente, já que nesse dia o Sporting enfrentava o Benfica para a decisão final do Campeonato de Lisboa desse ano. 3-1, vitória dos leões, e Jorge Vieira sentia pela primeira vez o gosto de um título conquistado ao serviço do clube do seu coração. Colecionaria mais 6 títulos de campeão regional de Lisboa (em 18/19, 21/22, 22/23, 24/25, 27/28, e 30/31), além do ceptro de campeão de Portugal em 22/23. Fez cerca de 200 jogos com a camisola listada de verde e branco, terminando a sua carreira em 1932.
Mas não só no Sporting a estrela de Jorge Vieira brilhou. A seleção nacional de Portugal também usufruiu do talento do jogador. Ele foi um dos históricos atletas que participou no primeiro jogo internacional da seleção portuguesa, facto (já evocado pelo Museu Virtual do Futebol noutras viagens ao passado) ocorrido a 18 de dezembro de 1921, em Madrid, diante da Espanha, tendo integrado também a equipa nacional que diante da Itália, a 28 de junho de 1925, obteve a primeira vitória para as cores lusitanas, episódio este também já aqui por nós foi recordado. O ponto alto da carreira internacional da carreira de Jorge Vieira aconteceu em 1928, ano em que defendeu as cores de Portugal no torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de Amesterdão, na época a prova futebolística mais importante do planeta ao nível de seleções nacionais.
O conhecimento de Jorge Vieira sobre o jogo era tão vasto que até árbitro de futebol ele foi! E neste campo também a nível internacional ele viveu momentos importantes, como o ocorrido, por exemplo, em outubro de 1921, quando a União Espanhola de Futebol solicita à sua congénere portuguesa a nomeação de um árbitro para dirigir um escaldante Espanha - Bélgica, uma reedição do confronto decorrido um ano antes nos Jogos Olímpicos de Antuérpia, onde os belgas haviam alcançado o título de campeões olímpicos. A UPF aconselhou Jorge Vieira, o qual de pronto aceitou o convite, tendo posteriormente realizado uma exibição condizente com o grau de exigência deste duelo, o mesmo é dizer, que esteve impecável, e a prova disso é que no final do jogo realizado em Bilbao espanhóis e belgas enalteceram a atuação do português, que desta forma se tornava no primeiro árbitro luso internacional. Jorge Vieira viria a falecer a 6 de agosto de 1986.

Nomes e números do Campeonato de Portugal de 1922/23:

1ª eliminatória

Académica - Braga: 2-1

2ª eliminatória

Académica - Lusitano VRSA: 3-2

Meias-finais

Sporting - FC Porto: 3-0

Académica - Marítimo: 2-1

Final

Sporting - Académica: 3-0

24-6-1923, Faro (Santo Estádio)
Árbitro: Eduardo Vieira (Faro)
Marcadores: 1-0 Stromp (12m), 2-0 Ferreira (18m g.p.), 3-0 Ferreira (53m g.p.)
Sporting – Cipriano Nunes; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; José Leandro, Filipe dos Santos e Henrique Portela; Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Francisco Stromp cap, João Francisco e Carlos Fernandes. Treinador: Augusto Sabbo
Académica – João Ferreira; Júlio Ribeiro Costa cap e Francisco Prudêncio; Joaquim Miguel, Teófilo Esquível e António Galante; Guedes Pinto, Armando Batalha, Augusto Paes, Gil Vicente e José Neto.

Legenda das fotografias:
1-A equipa do Sporting que venceu o primeiro título nacional: Em baixo: Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Francisco Stromp, João Francisco Maia, e Carlos Fernandes. No meio: José Leandro, Filipe dos Santos e Henrique Portela. Em cima: Joaquim Ferreira, Cipriano dos Santos e Jorge Vieira
2-Cândido de Oliveira, o grande mestre o futebol português, na altura capitão do Casa Pia, e que na meia final diante do FC Porto desempenhou funções de... massagista do Sporting.
3-O lendário capitão leonino Francisco Stromp
4-Jorge Vieira, um dos maiores símbolos da história do Sporting...
5-... que em outubro de 1921 arbitrou um Espanha - Bélgica, tornando-se assim no primeiro árbitro português internacional

quinta-feira, outubro 11, 2012

A "Libertadores" em números (15)...

COPA LIBERTADORES

1974

1ª Fase

Grupo 1

Rosario Central (Argentina) - Huracán (Argentina): 1-0

Huracán (Argentina) - Colo Colo (Chile): 2-0

Unión Española (Chile) - Colo Colo (Chile): 2-1

Unión Española (Chile) - Huracán (Argentina): 1-3

Colo Colo (Chile) - Huracán (Argentina): 1-2

Rosario Central (Argentina) - Colo Colo (Chile): 2-0

Unión Española (Chile) - Rosario Central (Argentina): 0-1

Colo Colo (Chile) - Rosario Central (Argentina): 1-3

Colo Colo (Chile) - Unión Española (Chile): 0-2

Huracán (Argentina) - Rosario Central (Argentina): 1-0

Rosario Central (Argentina) - Unión Española (Chile): 4-0

Huracán (Argentina) - Unión Española (Chile): 5-1

Classificação

1-Huracán (Argentina): 10 pontos
2-Rosario Central (Argentina): 10 pontos
3-Unión Española (Chile): 4 pontos
4-Colo Colo (Chile): 0 pontos

Huracán (Argentina) - Rosario Central (Argentina): 4-0 (desempate)

(Huracán qualificou-se para a fase seguinte)

Grupo 2

São Paulo (Brasil) - Palmeiras (Brasil): 2-0

Jorge Wilstermann (Bolívia) - Palmeiras (Brasil): 1-0

Deportivo Municipal (Bolívia) - Palmeiras (Brasil): 0-1

Jorge Wilstermann (Bolívia) - São Paulo (Brasil): 0-1

Deportivo Municipal (Bolívia) - São Paulo (Brasil): 1-1

Jorge Wilstermann (Bolívia) - Deportivo Municipal (Bolívia): 1-0

Palmeiras (Brasil) - São Paulo (Brasil): 1-2

Palmeiras (Brasil) - Deportivo Municipal (Bolívia): 3-0

São Paulo (Brasil) - Deportivo Municipal (Bolívia): 3-3

São Paulo (Brasil) - Jorge Wilstermann (Bolívia): 5-0

Palmeiras (Brasil) - Jorge Wilstermann (Bolívia): 2-0

Deportivo Municipal (Bolívia) - Jorge Wilstermann (Bolívia): 5-2

Classificação

1-São Paulo (Brasil): 10 pontos
2-Palmeiras (Brasil): 6 pontos
3-Deportivo Municipal (Bolívia): 4 pontos
4-Jorge Wilstermann (Bolívia): 4 pontos

(São Paulo qualificou-se para a fase seguinte)

Grupo 3

Portuguesa (Venezuela) - Valencia (Venezuela): 0-0

Atlético Nacional (Colômbia) - Millonarios (Colômbia): 0-3

Portuguesa (Venezuela) - Millonarios (Colômbia): 2-0

Valencia (Venezuela) - Atlético Nacional (Colômbia): 1-2

Valencia (Venezuela) - Millonarios (Colômbia): 1-1

Portuguesa (Venezuela) - Atlético Nacional (Colômbia): 0-0

Millonarios (Colômbia) - Atlético Nacional (Colômbia): 2-1

Valencia (Venezuela) - Portuguesa (Venezuela): 0-1

Millonarios (Colômbia) - Portuguesa (Venezuela): 2-1

Atlético Nacional (Colômbia) - Valencia (Venezuela): 2-1

Millonarios (Colômbia) - Valencia (Venezuela): 2-1

Atlético Nacional (Colômbia) - Portuguesa (Venezuela): 3-0

Classificação

1-Millonarios (Colômbia): 9 pontos2-Atlético Nacional (Colômbia): 7 pontos
3-Portuguesa (Venezuela): 6 pontos
4-Valencia (Venezuela): 2 pontos

(Millonarios qualificou-se para a fase seguinte)

Grupo 4

Defensor (Perú) - Sporting Cristal (Perú): 2-0

El Nacional (Equador) - Universidad Católica (Equador): 2-0

Universidad Católica (Equador) - Defensor (Perú): 1-0

El Nacional (Equador) - Defensor (Perú): 0-0

Universidad Católica (Equador) - Sporting Cristal (Perú): 0-0

El Nacional (Equador) - Sporting Cristal (Perú): 3-0

Universidad Católica (Equador) - El Nacional (Equador): 0-0

Sporting Cristal (Perú) - Defensor (Perú): 0-2

Sporting Cristal (Perú) - El Nacional (Equador): 1-3

Defensor (Perú) - El Nacional (Equador): 2-1

Sporting Cristal (Perú) - Universidad Católica (Equador): 2-1

Defensor (Perú) - Universidad Católica (Equador): 1-0

Classificação

1-Defensor (Perú): 9 pontos
2-El Nacional (Equador): 8 pontos
3-Universidad Católica (Equador): 4 pontos
4-Sporting Cristal (Perú): 3 pontos

(Defensor qualificou-se para a fase seguinte)

Grupo 5

Cerro Porteño (Paraguai) - Olimpia (Paraguai): 1-0

Nacional (Uruguai) - Peñarol (Uruguai): 0-1

Peñarol (Uruguai) - Olimpia (Paraguai): 0-0

Nacional (Uruguai) - Cerro Porteño (Paraguai): 1-2

Nacional (Uruguai) - Olimpia (Paraguai): 1-1

Peñarol (Uruguai) - Cerro Porteño (Paraguai): 1-0

Peñarol (Uruguai) - Nacional (Uruguai): 0-2

Olimpia (Paraguai) - Cerro Porteño (Paraguai): 1-1

Olimpia (Paraguai) - Peñarol (Uruguai): 0-2

Cerro Porteño (Paraguai) - Nacional (Uruguai): 2-2

Olimpia (Paraguai) - Nacional (Uruguai): 2-0

Cerro Porteño (Paraguai) - Peñarol (Uruguai): 1-1

Classificação

1-Peñarol (Uruguai): 8 pontos
2-Cerro Porteño (Paraguai): 7 pontos
3-Olimpia (Paraguai): 5 pontos
4-Nacional (Uruguai): 4 pontos

(Peñarol qualificou-se para a fase seguinte)

Isento: Independiente (Argentina)

2ª Fase

Grupo 1

Huracán (Argentina) - Independiente (Argentina): 1-1

Peñarol (Uruguai) - Huracán (Argentina): 1-1

Peñarol (Uruguai) - Independiente (Argentina): 2-3

Independiente (Argentina) - Huracán (Argentina): 3-0

Huracán (Argentina) - Peñarol (Uruguai): 0-3

Independiente (Argentina) - Peñarol (Uruguai): 1-1

Classificação

1-Independiente (Argentina): 6 pontos
2-Peñarol (Uruguai): 4 pontos
3-Huracán (Argentina): 2 pontos

(Independiente qualificou-se para a final)

Grupo 2

Millonarios (Colômbia) - São Paulo (Brasil): 0-0

Defensor (Perú) - São Paulo (Brasil): 0-1

Millonarios (Colômbia) - Defensor (Perú): 1-0

Defensor (Perú) - Millonarios (Colômbia): 1-4

São Paulo (Brasil) - Millonarios (Colômbia): 4-0

São Paulo (Brasil) - Defensor (Perú): 4-0

Classificação

1-São Paulo (Brasil): 7 pontos
2-Millonarios (Colômbia): 5 pontos
3-Defensor (Perú): 0 pontos

(São Paulo qualificou-se para a final)

Final (1ª mão)

São Paulo (Brasil) - Independiente (Argentina): 2-1

Data: 12 de outubro de 1974

Estádio: Pacaembú, em São Paulo (Brasil)

Árbitro: Pérez (Perú)

São Paulo: Valdir Peres, Nelson, Paranhos, Arlindo, Gilberto, Ademir (Chicão), Zé Carlos (Mauro), Rocha, Terto, Mirandinha, Piau

Independiente: Gay, Commisso, Sá, López, Pavoni, Galván, Raimondo, Saggioratto, Balbuena, Bochini, Bertoni

Golos: 0-1 (Saggioratto, aos 28m), 1-1 (Rocha, aos 48m), 2-1 (Mirandinha, aos 50m)

Final (2ª mão)

Independiente (Argentina) - São Paulo (Brasil): 2-0

Data: 16 de outubro de 1974

Estádio: Cordero, em Avellaneda (Argentina)

Árbitro: Barreto (Uruguai)

Independiente: Gay, Commisso, Sá, López, Pavoni, Galván, Raimondo, Saggioratto, Balbuena, Bochini, Bertoni (Semenewicz)

São Paulo: Valdir Peres, Nelson, Paranhos, Arlindo, Gilberto, Chicão, Rocha, Mauro, Terto, Mirandinha, Piau
Golos: 1-0 (Bochini, aos 34m), 2-0 (Balbuena, aos 48m)

Finalissima

Independiente (Argentina) - São Paulo (Brasil): 1-0

Data: 19 de outubro

Estádio: Nacional, em Santiago (Chile)

Independiente: Gay, Commisso, Sá, López, Pavoni, Galván, Raimondo, Semenewicz, Balbuena (Carrica), Bochini, Bertoni (Giribet)

São Paulo: Valdir Peres, Forlán, Paranhos, Arlindo, Gilberto (Nelson), Chicao, Zé Carlos (Silva), Rocha, Mauro, Mirandinha, Piau

Golo: 1-0 (Pavoni, aos 37m)

Em 1974 foi a vez do São Paulo falhar a tentativa de levar de novo para o Brasil a Copa Libertadores, troféu que então continuava nas mãos dos velhos inimigos da Argentina, mais precisamente nas do Independiente de Avellaneda, que desta forma somava o seu terceiro título consecutivo e o quinto na sua conta geral da prestigiada competição.

Melhores marcadores:

Fernando Morena (Peñarol), Pedro Rocha (São Paulo), Terto (São Paulo): 7 golos

quarta-feira, outubro 10, 2012

Estrelas cintilantes (32)... Jovica Nikolic

Jogadores há que por mais que o tempo pule e avance a uma velocidade relâmpago jamais se esquecem. Notáveis artistas cujas obras de arte pintadas nos relvados do passado prevalecem em lugar de destaque nos corredores da nossa memória, tendo muitos deles contribuído para que hoje sejamos profundos admiradores do "belo jogo". É com esta entrada algo nostálgica que hoje faço uma viagem à minha infância, aos primeiros anos de contacto com este futebol que tanto me encanta. E faço-o recordando um dos principais responsáveis pela minha atração pelo jogo, aliás, mais do que me fazer encantar pelo jogo do povo ele foi um dos notáveis jogadores que fizeram despertar em mim a paixão por um pequeno grande clube, o emblema que desde o primeiro dia em que com ele travei conhecimento ficou gravado no meu coração, e ali permanecerá para sempre, disso estou certo. Este nome que o Museu Virtual do Futebol irá hoje recordar pode até nem figurar no "Grande Atlas do Futebol Global" - a meu ver muito injustamente - mas por certo vive na memória de muitos, muitos mesmo, que o viram interpretar o jogo de uma forma sublime e ao mesmo tempo mágica. Jovica Nikolic, o seu nome. Fez parte de uma geração dourada de jogadores nascidos na então Jugoslávia, um país que ao longo da história "fabricou" centenas de ícones do futebol mundial.
Jovica Nikolic nasceu a 11 de julho de 1959, em Svetozarevo (atualmente uma localidade pertencente à Sérbia), tendo começado a sua brilhante carreira futebolística no FK Jagodina. Na qualidade de médio ofensivo Nikolic cedo daria nas vistas, e clubes de maior envergadura da Jugoslávia lançaram de imediato o isco ao talentoso artista, tendo o histórico e popular Estrela Vermelha levado então a melhor sobre a concorrência. Corria o ano de 1983 quando Jovica vestiu pela primeira vez a prestigiada camisola do emblema de Belgrado. E logo na temporada de estreia tornou-se um dos principais jogadores da equipa que em 83/84 viria a conquistar o título de campeão nacional jugoslavo, sobressaindo - e de que maneira - na posição 10, como o pensador de todo o jogo da sua equipa, mas também como um goleador, tendo efetuado nessa célebre temporada 8 remates certeiros.

Momento de bronze em Los Angeles

As boas aparições de Jovica Nikolic no campeonato jugoslavo não deixaram dúvidas aos responsáveis pela federação daquele país de que ele poderia ser um dos rostos da nova geração de futebolistas que por aqueles dias emergiam no país, uma geração capaz de levar a Jugoslávia a (re)viver algumas das alegrias vivenciadas no passado. Nomes como o guarda-redes Tomislav Ivkovic, Srecko Katanec, ou Dragan Stojkovic eram alguns dos "diamantes por lapidar" que a Jugoslávia queria mostrar ao Mundo do futebol, e que na verdade anos mais tarde viriam mesmo a tornar-se lendas do desporto rei. A primeira vez que as luzes da ribalta incidiram sobres estes jovens astros foi em 1984, no palco do maior evento desportivo do planeta, os Jogos Olímpicos, que nesse ano tiveram lugar em Los Angeles (Estados Unidos da América). Naturalmente Nikolic estava entre os eleitos do técnico Ivan Toplak para guiar a jovem Jugoslávia o mais longe possível. E o que Jovica Nikolic fez em terras americanas ao serviço da sua seleção não foi mais do que um prolongamento daquilo o que havia feito no campeonato jugoslavo desse ano, isto é, colocando em campo toda a sua veia artística traduzida em exibições categóricas que ajudariam o país dos Balcãs a chegar até à medalha de bronze dessas Olimpíadas. Nikolic sobressaiu sobretudo na 1ª fase do torneio, ao apontar 3 dos 7 golos da sua seleção, um ante os Camarões, outro diante do Canadá, e outro perante o Iraque. Nos quartos-de-final não marcou, mas ajudou e muito a Jugoslávia a levar de vencida a poderosa Alemanha Ocidental - onde pontificavam nomes como Andreas Brehme, ou Guido Buchwald - por expressivos 5-2. Seguiu-se o duelo com a França orientada pelo mestre da tática Henri Michel, alusivo às meias-finais, o homem que acabaria com o sonho dos jovens artistas do leste europeu em chegar ao título olímpico na sequência de uma vitória - suada - por 4-2. A aventura de Nikolic nos Jogos de 1984 terminaria nesse dia, no Estádio Rose Bowl, em Pasadena, já que no jogo da disputa pela medalha de bronze o treinador Toplak optou por dar a oportunidade de jogar aos atletas menos utilizados na brilhante campanha olímpica, uma espécie de prémio, digamos assim, os quais não se mostraram em nada inferiores aos titulares e ofereceram à Jugoslávia a medalha de bronze na sequência de uma vitória por 2-1 ante a Itália do então jovem e promissor defesa Franco Baresi. A medalha de bronze dos Jogos Olímpicos de 1984, viria a ser o título mais pomposo da carreira de Jovica Nikolic.
Terminada a aventura americana o jogador voltou ao Estrela Vermelha, ao serviço do qual em 1984/85 iria vencer a Taça da Jugoslávia. A estrela de Nikolic brilhava a grande altura por estes dias, não sendo de estranhar que em setembro de 1985 fizesse a sua estreia pela seleção principal do seu país, num encontro referente à fase de qualificação para o Campeonato do Mundo do México (1986) diante da Alemanha Oriental. Encontro de boas e más recordações para Nikolic, uma vez que esta estreia não correu nada bem como comprova a surpreendente derrota caseira (1-2) com os alemães de leste.
A não qualificação da Jugoslávia para o México 86 como que coincidiu com a inexplicável curva descendente de Jovica Nikolic no Estrela Vermelha. O atleta começou a aparecer menos vezes no conjunto de Belgrado, sendo que nas duas últimas temporadas ao serviço deste emblema apenas participou em 14 encontros! Mesmo assim ainda se sagrou campeão nacional em 1987/88.

Ídolo no Salgueiros

E no fim da temporada de 88/89 Nikolic colocou um ponto final num casamento de 6 anos com o Estrela Vermelha, e numa altura em que contava já com 30 anos de idade decide aventurar-se no estrangeiro, seguindo as pisadas de tantos outros compatriotas seus rumo a paragens mais atrativas. E Portugal foi o país escolhido para relançar uma carreira que se encontrava algo estagnada... de forma incompreensível. Escolheu o Salgueiros, popular emblema da cidade do Porto, que na época se encontrava a militar nos escalões secundários do futebol português. E logo na época de estreia no clube de Paranhos Nikolic deu nas vistas, assumindo-se de imediato como o cérebro da equipa, o homem que criava todo o jogo ofensivo, mostrando aos apaixonados adeptos salgueiristas a sua técnica apurada aliada a uma invulgar e notável visão de jogo. Nessa temporada de estreia (1989/90) ajudou o Salgueiros a voltar ao seu "habitat natural", o mesmo é dizer, à 1ª Divisão, o principal campeonato português, uma subida conquistada de forma épica e memorável na última jornada da Zona Centro da 2ª Divisão, em Espinho, onde o Salgueiros bateu por 2-1 o Sporting local e fez a festa. Na qualidade de vencedor da Zona Centro da 2ª Divisão Nacional os encarnados do Norte disputaram com os vencedores das zonas Norte e Sul (respetivamente o Gil Vicente e o Farense) o título de campeão do referido escalão, título esse que viria a ser arrecadado pelo Salgueiros, que no banco - como treinador - tinha uma ex-estrela do futebol jugoslavo, Zoran Filipovic.
E de regresso à 1ª Divisão Nacional na época seguinte poucos acreditavam que os comandados de Filipovic não fizessem mais do que lutar até à última jornada para evitar nova descida ao inferno do segundo escalão. Enganaram-se. Em 1990/91 o Salgueiros foi tão somente uma das equipas que melhor futebol praticou em Portugal, com ajuda de uma equipa de aplicados "operários" como Madureira, Rui França, Pedro Reis, Tozé, Vinha, ou o trio de jugoslavos composto por Djoncevic, Milovac, e claro, Nikolic. Nomes que fizeram com estes fossem os anos dourados do popular clube portuense, tendo o prémio - mais do que justo - para o excelente e inolvidável trajeto de 90/91 sido um pomposo 5º lugar final, o mesmo é dizer, o apuramento para a Taça UEFA da temporada seguinte! Histórico. A título pessoal já aqui falei - noutras visitas ao passado - que 90/91 foi a temporada em que o meu coração foi conquistado pelo Salgueiros, a época em que descobri a mística da alma salgueirista, um sentimento inexplicável e ao mesmo tempo único. O amor ao Salgueiros não se explica, vive-se, ponto final. Um amor descoberto num célebre encontro dessa temporada de 90/91 diante do Estrela da Amadora, em Vidal Pinheiro, o lar do Salgueiral - nome popular pelo qual o Sport Comércio e Salgueiros é chamado -, o lar que senti desde logo meu assim que lá entrei pela primeira vez nessa tarde domingueira na companhia do meu pai e do meu tio. Os gritos de incentivo das gentes do Salgueiros, o sentir do pulsar dos seus corações a cada passe de um jogador vestido com aquela mágica camisola vermelha, a proximidade aos Deuses salgueiristas, tudo isto, e muito mais, fizeram de mim um membro daquela família única. Deixei-me encantar com a alma enorme do desengonçado Vinha (de quem já aqui falei no MVF), um alto avançado de origem cabo-verdiana que faz parte da galeria dos notáveis atletas que um dia vestiram a camisola do Salgueiros, e vibrei com a arte do cerebral número 10 daquela mágica equipa: Nikolic. Ou melhor, o Niko, como era carinhosamente chamado nas bancadas do mítico estádio Vidal Pinheiro. «Anda Niko, chuta Niko», eram alguns dos gritos de guerra populares sempre que este gigante jugoslavo (de 1,87m) pegava na bola. O Niko ensinou-me a gostar de futebol, mais do que aquilo que já gostava, e acima de tudo fez-me gostar do Salgueiros. Na temporada seguinte ele entrou novamente para a história do clube, participando nos dois jogos da 1ª eliminatória da Taça UEFA ante os franceses do Cannes, onde começava a aparecer um jovem de origem argelina chamado Zidane. E aqui faço uma ponte entre estes dois génios, Zidane e Nikolic, o primeiro com o passar dos anos tornou-se numa das maiores lendas da história do futebol, enquanto que ao outro faltou quiçá uma ponta de sorte para se tornar numa estrela do futebol internacional. Talento não lhe faltou, mas a sorte nada quis com ele. Posso até estar a dizer uma asneira, mas quando Zidane começou a despontar internacionalmente para o futebol eu via nos seus rasgos mágicos uma ponta de... Nikolic, verdade, o Niko tratava a bola como um cavalheiro, conduzindo-a num estilo muito semelhante ao do franco-argelino.
Nikolic abandonou o Salgueiros no final da temporada de 1992/93, despindo uma camisola que vestiu aproximadamente numa centena de ocasiões. Não deixou Portugal, tendo ainda atuado nas duas épocas seguintes ao serviço do Maia, na 2ª Divisão, mas sem o fulgor de outros tempos. A idade começava a pesar. De Portugal partiu posteriormente, quase sem deixar rasto, sabendo-se apenas que entre 2008 e 2010 teve uma aventura enquanto treinador, ao serviço do FC Ordabasy, do Cazaquistão.
Tal como eu, são muitos os salgueiristas que ainda hoje falam com saudade do Niko, um dos artistas do melhor Salgueiros de todos os tempos, um homem que me fez gostar do futebol... no que ele tem de melhor, pois claro. Obrigado Niko.

Legenda das fotografias:
1-No Estrela Vermelha de Belgrado
2-Com a camisola da Jugoslávia
3-No Salgueiros

segunda-feira, outubro 08, 2012

A "Libertadores" em números (14)...

COPA LIBERTADORES

1973

1ª Fase

Grupo 1

Oriente Petrolero (Bolívia) - River Plate (Argentina): 1-3

Jorge Wilstermann (Bolívia) - San Lorenzo (Argentina): 1-0

Oriente Petrolero (Bolívia) - San Lorenzo (Argentina): 0-3

Jorge Wilstermann (Bolívia) - River Plate (Argentina): 1-0

Oriente Petrolero (Bolívia) - Jorge Wilstermann (Bolívia): 3-1

San Lorenzo (Argentina) - River Plate (Argentina): 1-0

River Plate (Argentina) - Jorge Wilstermann (Bolívia): 2-2

San Lorenzo (Argentina) - Oriente Petrolero (Bolívia): 4-0

San Lorenzo (Argentina) - Jorge Wilstermann (Bolívia): 3-0

River Plate (Argentina) - Oriente Petrolero (Bolívia): 7-1

River Plate (Argentina) - San Lorenzo (Argentina): 0-4

Jorge Wilstermann (Bolívia) - Oriente Petrolero (Bolívia): 1-0

Classificação

1-San Lorenzo (Argentina): 10 pontos
2-Jorge Wilstermann (Bolívia): 7 pontos
3-River Plate (Argentina): 5 pontos
4-Oriente Petrolero (Bolívia): 2 pontos

(San Lorenzo qualificou-se para a fase seguinte)

Grupo 2

Palmeiras (Brasil) - Botafogo (Brasil): 3-2

Nacional (Uruguai) - Peñarol (Uruguai): 2-0

Botafogo (Brasil) - Nacional (Uruguai): 3-2

Palmeiras (Brasil) - Peñarol (Uruguai): 2-0

Palmeiras (Brasil) - Nacional (Uruguai): 1-1

Botafogo (Brasil) - Peñarol (Uruguai): 4-1

Peñarol (Uruguai) - Nacional (Uruguai): 1-1

Botafogo (Brasil) - Palmeiras (Brasil): 2-0

Peñarol (Uruguai) - Botafogo (Uruguai): 2-2

Nacional (Uruguai) - Botafogo (Brasil): 1-2

Peñarol (Uruguai) - Palmeiras (Brasil): 0-2

Nacional (Uruguai) - Palmeiras (Brasil): 1-2

Classificação

1-Botafogo (Brasil): 9 pontos
2-Palmeiras (Brasil): 9 pontos
3-Nacional (Uruguai): 4 pontos
4-Peñarol (Uruguai): 2 pontos

Botafogo (Brasil) - Palmeiras (Brasil): 2-1 (desempate)

(Botafogo qualificou-se para a fase seguinte)

Grupo 3

Emelec (Equador) - El Nacional (Equador): 2-0

Colo Colo (Chile) - Unión Española (Chile): 5-0

Emelec (Equador) - Unión Española (Chile): 1-0

El Nacional (Equador) - Colo Colo (Chile): 1-1

Emelec (Equador) - Colo Colo (Chile): 1-0

El Nacional (Equador) - Unión Española (Chile): 1-0

El Nacional (Equador) - Emelec (Equador): 1-0

Unión Española (Chile) - Colo Colo (Chile): 0-0

Unión Española (Chile) - El Nacional (Equador): 2-1

Unión Española (Chile) - Emelec (Equador): 1-1

Colo Colo (Chile) - El Nacional (Equador): 5-1

Colo Colo (Chile) - Emelec (Equador): 5-1

Classificação

1-Colo Colo (Chile): 8 pontos
2-Emelec (Equador): 7 pontos
3-El Nacional (Equador): 5 pontos
4-Unión Española (Chile): 4 pontos

(Colo Colo qualificou-se para a fase seguinte)

Grupo 4

Millonarios (Colômbia) - Deportivo Cali (Colômbia): 6-2

Deportivo Cali (Colômbia) - Millonarios (Colômbia): 0-0

Classificação

1-Millonarios (Colômbia): 3 pontos
2-Deportivo Cali (Colômbia): 1 ponto

(Millonarios qualificou-se para a fase seguinte)

Grupo 5

Sporting Cristal (Perú) - Universitario (Perú): 2-2

Cerro Porteño (Paraguai) - Olimpia (Paraguai): 4-2

Universitario (Perú) - Olimpia (Paraguai): 2-1

Sporting Cristal (Perú) - Olimpia (Paraguai): 1-0

Universitario (Perú) - Cerro Porteño (Paraguai): 0-2

Sporting Cristal (Perú) - Cerro Porteño (Paraguai): 1-1

Olimpia (Paraguai) - Cerro Porteño (Paraguai): 2-1

Universitario (Perú) - Sporting Cristal (Perú): 0-1

Olimpia (Paraguai) - Universitario (Perú): 3-1

Cerro Porteño (Paraguai) - Universitario (Perú): 1-0

Olimpia (Paraguai) - Sporting Cristal (Perú): 1-0

Cerro Porteño (Paraguai) - Sporting Cristal (Perú): 5-0

Classificação

1-Cerro Porteño (Paraguai): 9 pontos
2-Olimpia (Paraguai): 6 pontos
3-Sporting Cristal (Perú): 6 pontos
4-Universitario (Perú): 3 pontos

(Cerro Porteño qualificou-se para a fase seguinte)

Isento: Independiente (Argentina)

2ª Fase

Grupo 1

Millonarios (Colômbia) - Independiente (Argentina): 1-0

Millonarios (Colômbia) - San Lorenzo (Argentina): 0-0

San Lorenzo (Argentina) - Millonarios (Colômbia): 2-0

Independiente (Argentina) - Millonarios (Colômbia): 2-0

San Lorenzo (Argentina) - Independiente (Argentina): 2-2

Independiente (Argentina) - San Lorenzo (Argentina): 1-0

Classificação

1-Independiente (Argentina): 5 pontos
2-San Lorenzo (Argentina): 4 pontos
3-Millonarios (Colômbia): 3 pontos

(Independiente qualificou-se para a final)

Grupo 2

Botafogo (Brasil) - Colo Colo (Chile): 1-2

Cerro Porteño (Paraguai) - Colo Colo (Chile): 5-1

Cerro Porteño (Paraguai) - Botafogo (Brasil): 3-2

Colo Colo (Chile) - Cerro Porteño (Paraguai): 4-0

Colo Colo (Chile) - Botafogo (Brasil): 3-3

Botafogo (Brasil) - Cerro Porteño (Paraguai): 2-0

Classificação

1-Colo Colo (Chile): 5 pontos
2-Cerro Porteño (Paraguai): 4 pontos
3-Botafogo (Brasil): 3 pontos

(Colo Colo qualificou-se para a final)

Final (1ª mão)

Independiente (Argentina) - Colo Colo (Chile): 1-1

Data: 22 de maio de 1973

Estádio: Cordero, em Avellaneda (Argentina)

Árbitro: Lorenzo (Uruguai)

Independiente: Santoro, Commisso, Sá, López, Pavoni, Semenewicz, Raimondo, Martínez, Balbuena (Bertoni), Giachello (Maglioni), Mendoza

Colo Colo: Nef, Galindo, Herrera, González, Silva, Páez, Valdés, Osorio (Caszely), Messen, Ahumada, Véliz (Lara)

Golos: 0-1 (Sá, a.g. aos 71m), 1-1 (Mendoza, aos 75m)

Final (2ª mão)

Colo Colo (Chile) - Independiente (Argentina): 0-0

Data: 29 de maio de 1973

Estádio: Nacional, em Santiago (Chile)

Árbitro: Arpi Filho (Brasil)

Colo Colo: Nef, Galindo, Herrera, González, Silva, Páez, Valdés, Osorio, Caszely, Messen, Véliz
Independiente: Santoro, Commisso, Sá, López, Pavoni, Semenewicz, Raimondo, Martínez, Balbuena (Bertoni), Giachello (Maglioni), Mendoza

Finalissíma

Independiente (Argentina) - Colo Colo (Chile): 2-1

Data: 6 de junho de 1973

Estádio: Centenário, em Montevideu (Uruguai)

Árbitro: Romei (Paraguai)

Independiente: Santoro, Commisso, Sá, López, Pavoni, Semenewicz, Raimondo, Galván, Bertoni, Maglioni (Bochini), Mendoza (Giachello)

Colo Colo: Nef, Galindo, Herrera, González, Silva (Castañeda), Valdés, Páez, Messen, Caszely, Ahumada, Véliz (Lara)

Golos: 1-0 (Mendoza, aos 25m), 1-1 (Caszely, aos 39m), 2-1 (Giachello, aos 107m)
Foi necessário um terceiro e decisivo jogo na final da Libertadores de 1973 para definir que o sucessor do Independiente seria o... Independiente! Por isso, nada de novo no reinos das américas, já que o clube de Avellaneda era por esta altura a potência máxima não só daquele continente como também do restante planeta, já que no final desse glorioso ano haveria de conquistar a pomposa Taça Intercontinental, e com isso intitular-se de... campeão do Mundo.

Melhor marcador:
Carlos Caszely (Colo Colo): 9 golos