segunda-feira, abril 25, 2022

Cidades do Futebol (5)... Vigo: o pontapé de saída do futebol em Espanha

Uma panorâmica da bela Cidade de Vigo
Os caminhos da História levam-nos por vezes a repensar factos que julgávamos inalteráveis, mas que afinal não o são. Vem isto a propósito da nossa viagem de hoje a Vigo... cidade onde nasceu o futebol em Espanha. É verdade, durante anos a fio pensou-se que Huelva teria sido o primeiro local onde se jogou pela primeira vez futebol no país vizinho, onde nasceu o primeiro clube, no caso o Club Inglés de Riotinto, mas já no século XXI, mais precisamente em 2012, um investigador de História local galega, de seu nome José Ramón Cabanelas, descobriu casualmente em pesquisas na hemeroteca do jornal Faro de Vigo uma referência ao juego de la pelota (jogo da bola) com data de 10 de junho de 1876 naquela cidade da região autónoma da Galiza. Esta notícia veio então contrariar o facto de que teria sido em 1878 que mineiros ingleses, que trabalhavam na mina de Riotinto, em Huelva, terão sido os introdutores do futebol em Espanha ao fundar o já referido Club Inglés de Riotinto.

Pois bem, estes novos factos comprovaram que foi pois em Vigo onde foram dados os primeiros pontapés numa bola de football no maior país da Península Ibérica pela mão, ou pelos pés neste caso, dos trabalhadores (engenheiros) ingleses do Eastern Telegraph Company.

Nesse sentido vamos então conhecer não só um pouco desta história como de igual modo algumas estórias do Belo Jogo que tiveram lugar nesta encantadora cidade galega pertencente à província de Pontevedra. Situada no sul da Galiza, Vigo é a segunda cidade mais povoada desta região autónoma, a seguir à Corunha. O seu porto marítimo trouxe-lhe riqueza e importância desde o século XIX, sendo hoje considerada a capital das Rias Baixas. Vigo é na atualidade o principal porto pesqueiro da Europa e o mais importante centro comercial e económico do sul da província de Pontevedra.

Os exilados ingleses introduzem o futebol em Vigo... e em Espanha

Uma rara imagem do Exiles Club,
em 1903
Recuando um pouco no tempo, constata-se que foi na segunda metade do século XIX que a cidade conheceu um crescimento acentuado, sobretudo no plano económico, com a abertura de inúmeras fábricas, o que trouxe a esta localidade banhada pelo Atlântico muitos trabalhadores estrangeiros. Ali instalou-se naquele período a telegrafia submarina do Cabo Inglês, a Eastern Telegraph Company, onde trabalhavam diversos engenheiros ingleses provenientes da região britânica da Cornualha. Foram estes cidadãos que em 1873 fundaram em Vigo um clube social, onde conviviam entre si e praticavam desporto, denominado de Exiles Club, ou se quisermos traduzir na língua de Camões, o Clube dos Exilados.

Ora, terá sido nesses convívios que a bola começou a rolar por aquelas paragens, sendo que sem rivais na região com quem pudesse medir forças, o Exiles defrontava equipas constituídas por marinheiros ingleses cujos barcos aportavam em Vigo. Jogos esses que eram disputados em terrenos situados na zona de Malecón. E a primeira referência a estes jogos, e que desmente a teoria de que o futebol em Espanha teve o seu início em Huelva, foi então descoberta pelo investigador viguês José Ramón Cabanelas, através de uma notícia publicada no Faro de Vigo e datada de 10 de junho de 1876 e que dizia o seguinte: "Os ingleses visitaram-nos novamente. Eles são tão gentis! Eles andam como quatro, pisam como seis e bebem como cinquenta. Pescam, caçam, fumam, pintam e jogam à bola de acordo com seu uso e modo". A juntar a esta notícia, Cabanelas afirma que inclusive que chegou a disputar-se uma competição entre as tripulações de marinheiros ingleses e o Exiles Club, denominada de Copa Primavera. Numa entrevista concedida ao Faro de Vigo em 2012, o investigador sustenta esta sua descoberta dizendo que os ingleses vieram para Vigo em 1873, precisamente dez anos depois da fundação em Inglaterra da Football Association, trazendo consigo, desde o primeiro momento, os seus costumes vitorianos para a cidade galega, entre eles o futebol.

Vestígios fotográficos do Exiles Club, que terá sido provavelmente o primeiro clube em Espanha a dedicar-se ao futebol, são raros, conhecendo-se apenas uma fotografia de uma equipa de 1903. Sabe-se de igual modo que as suas cores eram o preto e o branco, precisamente as cores da bandeira da região da Cornualha.

Os vizinhos que deram as mãos para fundar um grande clube na cidade

Vigo FC
Não se sabe ao certo quando este emblema foi extinto, sabendo-se apenas que do seu palmarés consta a vitória numa Copa Pontevedra, em 1907, um torneio regional, numa altura em que o futebol se tinha expandido já por toda a região com a existência de inúmeros clubes. Inclusive em Vigo, que era já a casa dos rivais Vigo Football Club (fundado em 4 de junho de 1903) e do Fortuna Football Club (criado a 11 de setembro de 1905). O primeiro emblema chegou mesmo a ser considerada a melhor equipa da cidade durante vários anos, tendo sido o vencedor da primeira edição do Campeonato Regional da Galiza, em 1905, após derrotar na final o vizinho e rival Fortuna.

Curiosamente, a primeira casa do Vigo FC foi precisamente o campo de jogo do Exiles Club, passando em 1908 para aquele que pode ser considerado como o primeiro grande estádio viguês, o Campo de Coya. Ali, jogou-se futebol até 1928, tendo sido inclusive palco de uma final da Copa del Rey (Taça de Espanha) entre o Barcelona e o Real Unión de Irún, ganha pelos catalães.

A camisola bipartida com as cores vermelha e branca, as cores da província marítima de Vigo, usada pelo Vigo FC ficaram famosas nas só na cidade como em toda a região da Galiza. O clube ganhou diversos campeonatos galegos, tendo inclusive um desses triunfos lhe permitido jogar a mais importante competição do futebol espanhol de então, a Copa del Rey.  E numa dessas edições chegou mesmo à final, ante o mais poderoso emblema do país, o Madrid Football Club, que anos mais tarde seria rebatizado como... Real Madrid. Nessa final, disputada no Estádio de O'Donnell, caso do Madrid FC (!), o Vigo FC saiu derrotado pela margem mínima (1-2), mas rezam as crónicas que apresentou bom futebol praticado por excelentes artistas. Na verdade, os melhores jogadores da Galiza daquele tempo vestiam as cores do Vigo FC, sendo que dois deles deixaram esta região autónoma para rumar à capital de Espanha para vestir as cores do emergente gigante Madrid FC. Falamos dos irmãos Yarza, Manuel e Joaquim, quiçá as primeiras lendas do futebol com origens em Vigo. Mas deles já iremos falar com detalhe mais adiante.

O Fortuna de Vigo em 1912
A cidade era naqueles dias habitada por outro clube com arte para o juego de la pelota, como era então denominado o futebol, no caso o Fortuna, dois anos mais novo que o seu vizinho. Repartiam entre si o domínio não só do futebol viguês como de toda a região, tendo o Fortuna vencido o Campeonato da Galiza em nove ocasiões: 1906, 1907, 1910, 1911, 1912, 1915, 1918, 1921 e 1922, ao passo que o seu rival o fez por oito vezes: 1907, 1908, 1914, 1917, 1918, 1919, 1920 e 1923.

O Fortuna está não só ligado à história do futebol galego como também do futebol português. É verdade. Tudo porque a 15 de dezembro de 1907 o clube viguês deslocou-se ao nosso país para defrontar o FC Porto, no Campo da Rainha. Este encontro foi histórico porque pela primeira vez um clube estrangeiro atuava em solo luso.

Irmãos Yarza: as primeiras lendas nascidas em Vigo

Os irmãos Yarza, Quincho e Manuel, 
com as cores do Real Madrid
Mas voltando aos irmãos Yarza, eles foram as primeiras estrelas nascidas em Vigo. Joaquín, ou Quincho como ficou eternizado, era o mais velho. Nasceu em 1881 e ficou na história do próprio futebol espanhol pelo facto de ter sido o primeiro futebolista a ser pago para jogar, algo inédito numa época onde reinava o amadorismo.

Por sua vez, Manuel nasceu em 1884, e juntamente com o seu irmão ajudou a abrir o glorioso livro da história do Real Madrid. Os dois irmãos rumaram à capital no início do século XX, tendo ali ajudado a fundar o Moderno Football Club, emblema fundado em 1902 e que pouco tempo depois seria absorvido, digamos assim, pelo Madrid FC. Manuel e Quincho estiveram nessa transição, vestiram a camisola dos merengues entre 1903 e 1908, ajudando o clube a conquistar os seus primeiros títulos, mais em concreto quatro Copas del Rey (de 1905 a 1908). Além de jogador Manuel tinha de igual modo funções administrativas dentro do clube. Era membro do Conselho de Administração enquanto no retângulo de jogo atuava como um médio forte e eficaz. Por seu turno, Quincho, começou a jogar como ala, mas depressa se tornou num defesa implacável, formando uma dupla lendária com Berraondo graças à sua força física aliada à sua qualidade.

Após a aventura em Madrid, Quincho regressou à sua cidade natal onde defendeu as cores do Vigo FC durante duas temporadas, ao passo que o seu irmão Manuel continuou pela capital, tendo atuado entre 1908 e 1911 no Club Español de Madrid.

Vigo precisa de um clube único que una o povo da cidade

Manuel de Castro
Foi na segunda década do século passado que o célebre jornalista do Faro de Vigo, Manuel de Castro, acompanhava com atenção o futebol que era jogado não só na sua cidade como pelo resto da Espanha. Pelo punho do referido jornalista foram escritos alguns artigos dando nota de que Vigo precisava de um único clube, isto é, um clube que unisse as pessoas e que fosse forte o suficiente para fazer face aos outros emblemas que proliferavam pelo resto do país. Juntamente com Juán Baliño, Castro foi um dos impulsionadores do movimento «Todo por y para Vigo» (tudo por e para Vigo), tendo  objetivo a criação de um só clube na cidade. Esta proposta teve a aceitação dos dois clubes da terra, o Fortuna e o Vigo FC, sendo que a 10 de agosto de 1923 nascia, resultante da fusão destes dois emblemas, o Real Club Celta de Vigo.

Não foi contudo um parto fácil, desde logo pela escolha do nome do novo clube, que foi motivo de divergência de opiniões. Real Unión de Vigo, Club Galicia, Real Atlántic, Breogán e Real Club Olímpico, foram os nomes inicialmente propostos, até que para acabar com o impasse alguém propôs que se olhasse para as raízes das Rias Baixas, para a história daquela região mais a norte da Península Ibérica, outrora habitada pelos povos celtas... Celta, ora aí está um bom nome, que de pronto ficou assente.

O clube começou de pronto a saltar para o campo para mostrar a camisola azul celeste que se iria tornar célebre nas décadas seguintes, ao disputar os seus primeiros encontros - a estreia aconteceu numa partida entre todos os jogadores do plantel, uma parte liderada por Otero, outra por Clemente, tendo o "onze" do primeiro atleta vencido por 2-0. Como curiosidade refira-se que o primeiro jogo contra outro clube ocorreu a 23 de setembro de 1923, mais precisamente contra os portugueses do Boavista, que saíram do Campo de Coya, a primeira casa do Celta, com uma pesada derrota por 8-2.

O emblema rapidamente começou a competir nas provas regionais, ganhando o primeiro campeonato galego da sua história logo no ano de estreia, em 1923. O Celta foi crescendo nos anos seguintes, e na época de 1939/40 faz a estreia no principal escalão do futebol espanhol, onde esteve de forma quase ininterrupta durante 20 anos, excepção feita à temporada de 44/45, altura em que disputou a 2.ª Divisão.

Por esta altura era treinador do Celta Don Ricardo Comesaña, para muitos o primeiro grande técnico do clube, um homem também ele nascido em Vigo em finais do século XIX, e que entre 1935 e 1940 esteve ao leme da equipa. Ele foi o responsável pela primeira subida do Celta à 1.ª Divisão e ainda hoje qualquer adepto do clube, seja qual for a idade, sabe quem ele foi e o que ele significa para o celtismo.

Pahiño, o príncipe das Rias Baixas

Pahiño
1923 foi como já vimos o ano de fundação do Celta de Vigo e foi também o ano em que nasceu outro génio do futebol galego: Manuel Fernández Fernández, ou simplesmente Pahiño. A sua louca obsessão pelo golo fez com que seja ainda hoje recordado como um dos mais prolíferos avançados da história do futebol espanhol. Dos seus (bons) pés - sobretudo - foram disparadas autênticas balas de canhão que destruíram as balizas contrárias vezes sem conta. Ah, noutras ocasiões a meta adversária era igualmente fuzilada com letais cabeceamentos, já que além de dois bons pés Pahiño era também senhor de um bom jogo de cabeça. Talento(s) descobertos nas areias das praias de Vigo, onde Manuel Fernández Fernández esquecia - por certo - a vida dura do campo (agricultura), lides às quais desde muito novo se habituara com o objetivo de ajudar no sustento da sua família. Nas praias desta cidade estão pois guardadas as primeiras histórias de intimidade entre Pahiño e a bola, uma relação que se assumiu - de forma mais séria - em Arenas de Alcabre, o primeiro emblema a ser oficialmente representado pelo niño nascido a 21 de janeiro de 1923, em San Playo de Navia, nos arredores de Vigo. Estávamos ainda um pouco longe do casamento entre Pahiño e o Celta, mas não deixa de ser curioso que o jogador e o clube tivessem vindo ao Mundo no mesmo ano! Obra do acaso? Se calhar não... De Arenas de Alcabre para o Juventudes de Vigo - o seu segundo clube - o caminho foi curto, já que o poder de fogo de Pahiño começava a ter eco por toda a Galiza.

Apercebendo-se que mesmo por debaixo do seu nariz deambulava um talento na arte de bombardear o esférico para as balizas contrárias, eis que em 1943 o Celta de Vigo não mede esforços para contratar aquela que viria a ser a jóia da (sua) coroa nos cinco anos que se seguiram. O fichaje do poderoso avançado não foi contudo um parto fácil, longe disso. Na corrida pelo concurso do nativo de San Playo de Navias estava também o Salamanca, emblema que na altura tentava entrar na elite do futebol espanhol, o mesmo será dizer, ascender à 1.ª Divisão. No entanto, os helmánticos foram vencidos pelo coração! Pelo coração celtista que pulsava dentro do jovem Pahiño, que ainda criança, pela mão do seu pai, travou-se de amores pelas camisolas azuis celeste que aos domingos à tarde reluziam no relvado de Balaídos. Nessa época estaria ainda distante de imaginar que também ele um dia iria brilhar com a indumentária celtista nos retângulos do futebol espanhol, ajudando a edificar - em seu redor - uma das equipas mais lendárias da história do clube de Vigo, que durante uma mão cheia - pelo menos - de temporadas assombrou os gigantes do Belo Jogo castelhano.

Um aspeto do Campo da Coya, 
a primeira catedral do futebol viguês
Estávamos em 1943 quando Pahiño - com 19 anos - chegou a Balaídos. No entanto, e apesar da monstruosidade do seu poder de fogo, o Celta não foi feliz na temporada de 1943/44, foi último de uma Liga vencida por um Valência onde se destacava o goleador Mundo, e acabou por descer aos infernos da 2.ª Divisão. Passagem pelo inferno que seria fugaz, já que na época seguinte a garra de Pahiño aliada ao seu instinto de predador catapultou o Celta de novo para o convívio entre os grandes do futebol espanhol. Episódio lendário que ressalva do trajeto glorioso do Celta em 44/45 prende-se com o jogo final que dava acesso à promoção. Frente a frente mediram forças no (Estádio) Metropolitano de Madrid o Celta e o Granada, e quem vencesse ganhava o bilhete para a Primera. Pahiño, titular indiscutível dos celtistas desde que havia chegado a Balaídos, foi a estrela da tarde. No relvado do mítico recinto da capital fez jus ao seu estatuto de temível homem de área, fazendo dois golos durante a primeira parte. Performance que faria com que os defensores contrários lhe dedicassem atenções... suplementares. Alvo de uma entrada violenta de Milán González o goleador celtista fraturou o perónio, facto insuficiente para que deixasse de... continuar em campo na etapa complementar e ajudasse o Celta a vencer por 4-1.

Ricardo Comesaña
De volta à 1.ª Divisão, o Celta viveu nas três temporadas seguintes alguns dos capítulos mais cintilantes da sua história. Sempre... aos ombros daquela que era já a sua maior estrela, Pahiño. Nos palcos da Primera o goleador galego foi pedra fundamental para que os celestes se afirmassem como uma das equipas mais encantadoras da liga, e sobretudo num osso duro de roer para emblemas de maior dimensão. Que o diga o poderoso Real Madrid, que em 45/46 tombou em Balaídos por concludentes 3-0, ou o campeão dessa temporada, o Sevilha, que nas Rias Baixas afundou-se depois de ter levado quatro (a zero)! Foi igualmente durante o regresso do Celta ao convívio entre os grandes que nasceu uma rivalidade protagonizada entre dois mitos da história do futebol espanhol na arte de fuzilar as redes contrárias. Pahiño, claro está, e Telmo Zarra, o herói basco do Athletic de Bilbao que ainda hoje detém o título de melhor marcador de sempre da 1.ª Divisão espanhola, com 252 remates certeiros. Zarra, como iremos perceber nas próximas linhas, foi quiçá o grande obstáculo que Pahiño encontrou ao longo da sua carreira para conquistar um lugar de destaque no... Olimpo do futebol global. Em 45/46 o celtista apontou 15 golos, menos nove que Zarra, que desta forma levava para a sua vitrina pessoal o troféu Pichichi, galardão que distingue o melhor marcador do campeonato espanhol. E se Pahiño e Zarra lutavam entre si por um lugar na eternidade do Belo Jogo, na época seguinte Vigo acolhe de braços abertos um homem que há muito repousava no panteão do desporto rei planetário. O seu nome? Ricardo Zamora. Il Divino, como ficou imortalizado na história do jogo, era agora treinador, e depois de ter passado pelos bancos do Nice (França) e do Atlético Aviación (nome pelo qual na época era conhecido o atual Atlético de Madrid) assentava arraiais nas Rias Baixas, onde iria construir uma equipa lendária. E se a primeira temporada (46/47) de Zamora em Vigo não foi por ai além, já que o Celta não conseguiu melhor do que um 9º lugar, a segunda foi a todos os títulos memorável. Para o Celta e para... Pahiño. A nível coletivo os celtistas alcançariam um inédito quarto posto, ficando a somente seis pontos do campeão Barcelona, na sequência de uma coleção de resultados absolutamente brilhantes. Vejamos: de Balaídos saíram humilhados o campeão Barcelona (3-2), o vice-campeão Valência (5-2), o Atlético de Madrid (3-1), e o Real Madrid (4-1). Aliás, os merengues iriam sofrer nessa mítica época uma dupla humilhação aos pés dos pupilos de Zamora, visto que na capital a dose (4-1) repetiu-se a favor dos galegos. Mas a epopeia galega não se ficou por aqui. Na Copa del Generalíssimo - atualmente denominada como Copa del Rey - o Celta alcançou a final, onde seria travado pelo Sevilla (4-1) no Metropolitano de Madrid, o mesmo recinto onde poucos anos antes Pahiño e o Celta haviam sido tão felizes.

Apesar da derrota, o Celta foi rotulada como a equipa sensação dessa temporada, muito graças ao cunho pessoal da sua estrela-mor, Pahiño, que com 23 golos venceu o seu primeiro Troféu Pichichi.

A veia goleadora de Pahiño era por demais saliente, e nesse ano de 1948 atinge a sua primeira internacionalização, ao representar a Espanha num amigável ante a Suíça, ocorrido em Zurique.

A brilhante caminhada celtista chamou à atenção dos tubarões do futebol espanhol, que centravam os seus olhares devoradores em nomes como Miguel Muñoz, Alonso, e claro, Pahiño, as estrelas daquele Celta. Sabendo que o seu talento era por demais admirado por clubes de maior envergadura o internacional galego exigiu à direção azul celeste um aumento de salário, argumentando que era não só um dos grandes abonos de família da equipa, como também que outros colegas seus que raramente pisavam o relvado - na condição de titulares - usufruíam de salários muito mais elevados do que o seu. A ação de Pahiño foi desde logo apelidada de anti-celtista, e o jogador é de pronto olhado por dirigentes, (alguns) companheiros e muitos adeptos como mercenário, anti-galego, ou conflituoso, alguns do mimos que recolheu naquele verão de 48. Cansado deste braço de ferro, equacionou a hipótese de abandonar o futebol (!), pensamento somente travado pelo Real Madrid, que nesse final de temporada de 47/48 viaja até Vigo para pescar Miguel Muñoz, Alonso, e Pahiño. Consumado o divórcio com o Celta o goleador galego celebra um casamento de cinco épocas com o laureado emblema da capital, conquistado de pronto a admiração dos exigentes adeptos merengues na sequência da sua infindável garra aliada à vincada veia de concretizador nato.

Balaídos nos anos 30
Na primeira temporada equipado de blanco, o galego aponta 21 golos, ficando a somente sete do Pichichi desse ano, César, do Barcelona. Nos anos que se seguiram o seu nome figurou sempre no top 5 da lista dos melhores marcadores da 1.ª Divisão, sendo que em 51/52 alcança o título de Pichichi da Liga pela segunda vez na sua carreira, fruto dos 28 golos convertidos. Despediu-se do Real Madrid na temporada seguinte, porque Don Santiago Bernabéu, o lendário presidente do clube, não renovava por mais de um ano contrato com jogadores cujo Bilhete de Identidade apresentasse uma idade superior a 30 anos. Pahiño queria mais tempo - três anos de contrato, ao que consta - e a polémica instalou-se de novo na carreira de um jogador que se viu obrigado a procurar abrigo noutro local. Consta-se - ainda - que o Real Madrid não fez grande esforço em tentar segurar o galego, até porque tinha acabado de contratar um jovem prodígio argentino chamado... Alfredo Di Stéfano. Aquele que muitos afirmam ter sido o melhor jogador da história do clube merengue herdou a camisola número 9 do galego Pahiño, que partia de Madrid com um impressionante registo de 108 golos apontados em 122 jogos disputados, mas com a mágoa de nunca ter ganho um troféu coletivo com o colosso madrileno.

Algo frustrado, Pahiño procura abrigo na sua região natal, a Galiza, para onde regressa no verão de 1953, com o intuito de representar o... Deportivo da Corunha! Foi como um punhal cravado nas costas da afición celtista, que via uma das suas maiores lendas, um filho da terra, vestir agora a camisola do eterno inimigo do norte, o Depor. Na Corunha esteve três temporadas - sempre na 1.ª Divisão - tendo apontado perto de meia centena de golos com a camisola azul e branca. Após abandonar a Corunha ainda jogou uma temporada na 2.ª Divisão ao serviço do Granada, o tal clube que anos antes lhe havia dado cabo do perónio no Metropolitano de Madrid, mas o tempo acabou por apagar as más memórias desse momento menos feliz da carreira do homem de San Playo de Navia, o qual ajudou os granadenses a subir à divisão maior do futebol espanhol.

Posto isto: missão cumprida, e Pahiño pendurava as chuteiras com um impressionante registo de 212 golos apontados em quase 300 encontros - 295 para sermos mais precisos - disputados. Viria a falecer em Madrid, aos 89 anos, a 12 de junho de 2012, precisamente no ano em que José Ramón Cabanelas descobriu que Vigo - a cidade natal de Pahiño - foi o local onde se jogou futebol pela primeira vez em Espanha. Há coincidências fantásticas!

Rivalidade Celta vs Deportivo da Corunha

E já que neste longo registo biográfico foi mencionado o nome do Deportivo da Corunha, há que frisar que hoje, quase 100 anos após a sua fundação, o Celta tem no clube do norte da Galiza o seu eterno rival. Há inclusive uma história que conta os primeiros capítulos desta rivalidade (quase) centenária e que remonta a 1928, ano em que foi criada a 1.ª Divisão de Espanha. Pelo facto de o Vigo FC ter disputado anos antes uma final da Copa del Rey a Real Federación Española de Fútbol quis oferecer ao Celta um presente, isto é, o privilégio de fazer parte da elite do futebol espanhol nesse primeiro campeonato nacional. Porém, outros clubes da liga achavam que os azuis celestes teriam de fazer por merecer a sua presença no escalão maior, tendo o emblema de Vigo acabado por ir disputar a 2.ª Divisão. E um dos clubes que mais pressão fez para que o Celta não disputasse a Primera foi o... Deportivo da Corunha. Nascia assim a eterna rivalidade que nas décadas seguintes teve tantos outros episódios históricos. 

Celta: um clube de altos e baixos

A equipa do Celta que fez
a estreia na UEFA
Os anos 60 foram algo cinzentos para os lados da Rias Baixas, com o Celta mergulhado no segundo escalão de Espanha. Nos anos 70 a situação foi ligeiramente alterada, com o emblema viguês a disputar em algumas épocas a 1.ª Divisão. Porém, não foram criadas raízes neste escalão, e o Celta era então uma espécie de clube ió-ió, ou seja, do sobe e desce constante. No entanto, a década de 70 trouxe outro registo histórico ao emblema viguês, que em 1972 participa na Taça UEFA como prémio para um fantástico 6.º lugar na temporada de 70/71. Em setembro de 72 o Estádio de Balaídos entrou na Europa, com o Celta a receber os escoceses do Aberdeen. Os 17.000 celtistas presentes no recinto viram o seu clube pagar caro a inexperiência nas eurotaças, já que o Celta caiu por 0-2. Duas semanas mais tarde nova derrota (1-0) na Escócia e dava-se o adeus à Europa na estreia. Mas... décadas mais tarde o cenário ira mudar por completo.

Em 1994, o Celta atinge pela segunda vez na sua história a final da Copa del Rey. 20.000 adeptos celtistas deslocaram-se a Madrid para assistir ao jogo diante do Real Zaragoza, naquela que foi a maior mobilização, até então, de adeptos do clube para fora da região da Galiza. Porém, a vitória foi para os aragoneses, nas grandes penalidades, e o Celta deixava escapar novamente a taça.  

Nos finais do século XX eis que surge o Euro Celta. A equipa que encantou a Europa, vergando alguns dos gigantes do futebol continental. Com uma equipa que contava com estrelas como Mostovoi, Karpin, Mazinho, Dutruel, ou Gudelj, orientada pelo técnico Javier Irureta, o Celta afastou em 1998, na Taça UEFA, clubes como o Aston Villa e o Liverpool, acabando por cair nos quartos-de-final da prova ante o Marselha. Mas o aviso estava dado, o Celta queria apanhar o comboio da Europa.

O Celta na final da Copa de 1994
Em 2000 os vigueses vencem a Taça Intertoto, o seu único troféu oficial em quase 100 anos de vida, e voltam a entrar na UEFA. Na fase a eliminar desta competição o Celta atropelou numa das eliminatórias o famoso Benfica por 7-0 nos Balaídos, deixando depois pelo caminho a Juventus e caindo de novo nos quartos-de-final ante um clube francês, no caso o Lens. Na temporada seguinte as camisolas celestes voltam à Taça UEFA, atingindo de novo os quartos-de-final, tendo o emblema de Vigo sido eliminado pelos conterrâneos do Barcelona, após deixarem pelo caminho clubes como o Estugarda, o Estrela Vermelha ou o Shakhtar. Nesta altura o clube era orientado pelo treinador Víctor Fernández e tinha no seu plantel nomes famosos como Claude Makelele, Penev, Catanha, Gustavo López, ou Jesuli.

O Celta que atropelou o Benfica em 2000
Em 2001 surge outro amargo de boca na vida do clube. O Celta chega pela terceira vez na história a uma final da Taça de Espanha, tendo como opositor um velho conhecido nestas andanças, o Real Zaragoza. Em Sevilha, a equipa aragonesa leva de novo a melhor sobre os azuis celestes, desta feita por 3-1. As lágrimas voltaram a cair sobre os rostos celtistas, mas por pouco tempo. Em 2003/04 Vigo entra na rota da Liga dos Campeões Europeus. O 4.º lugar conquistado na temporada anterior garante ao Celta uma inédita participação na prova mais importante do futebol mundial a nível de clubes. José Manuel Pinto, Eduardo Berizzo, Sylvinho, Fernando Cáceres,  Giovanella, Gustavo López, Mostovoi, ou Milosevic, eram alguns dos nomes que passearam a camisola celeste na liga milionária. O Celta começou a fase de grupos com um empate no terreno do Club Brugge, onde Juanfran foi herói e vilão, ao marcar pelas duas equipas. Seguiu-se outro empate, desta feita a zero, em casa, frente ao Milan e uma derrota em Amesterdão por 1-0, com o Ajax. Na segunda volta o Celta conquista a primeira vitória na prova ao vencer os holandeses por 3-2 em Vigo. Depois disso, novo jogo em casa e novo empate com o Club Brugge, de novo por 1-1. Chegados à derradeira jornada o  Celta precisava de vencer o já qualificado Milan. E num dos palcos mais famosos do futebol mundial, San Siro, o Celta venceu por 2-1 e qualificou-se para a fase a eliminar da prova. Nos oitavos-de-final, o sonho azul celeste foi desfeito pelo Arsenal, que com duas vitórias eliminou os galegos por um total de 5-2.

Após algumas passagens pelo inferno da 2.ª Divisão eis que a partir de 2012 o Celta fixou-se, até aos dias atuais, na elite do futebol espanhol, tendo de lá para cá tido algumas aparições brilhantes, como foi o caso da campanha europeia de 2016/17, em que o clube só caiu aos pés do Manchester United, de José Mourinho, nas meias-finais da Liga Europa. Hoje, o Celta é mais do que o tal clube que um dia o jornalista Manuel de Castro sonhou: um clube da cidade. O Celta é hoje uma das principais bandeiras desportivas da Galiza, e um dos mais populares e acarinhados emblemas de Espanha.

Balaídos, a mítica catedral onde começou a caminhada gloriosa da Itália no Mundial de 1982

O mítico Estádio Balaídos
Como já vimos, o Campo de Coya foi a primeira grande catedral futebolística de Vigo.

Porém, um ano após a sua fundação o clube é notificado para abandonar o terreno, com vista à construção da linha de elétrico naquela zona da cidade. É então que se começa a idealizar o projeto de construção do que viria a ser o Estádio de Balaídos, a mítica casa do Celta. O estádio começa a ser construído em 1925, e seria destinado a 20.000 espectadores. A sua conclusão estava prevista para o ano seguinte, mas contratempos na empreitada fizeram com que só em dezembro de 1928 o recinto abrisse oficialmente as suas portas. 30 de dezembro desse ano foi pois um dia de festa na cidade de Vigo. Pessoas de várias localidades vizinhas como Gondomar, Baiona ,ou Cangas acorreram ao local para presenciar a inauguração, abrilhantada por uma goleada (7-0) do Celta ao Real Unión Irún. De lá para cá Balaídos tornou-se no santuário do celtismo, vivendo muitas alegrias e muitas tristezas também, mas sempre com a paixão azul celeste a transbordar nas suas bancadas. Com o passar dos anos este estádio tornou-se num dos símbolos do futebol espanhol, não só pela paixão com que ali se vive os jogos, mas de igual modo porque fez parte, ou faz, dos poucos recintos que hoje guarda a história do único Campeonato do Mundo da FIFA realizado em solo espanhol, no ano de 1982.

Foi em Vigo, e nos Balaídos, que a Itália começou a caminhar rumo ao título mundial nesse ano de 82, um início que até não foi muito prometedor para a Squadra Azzurra.

Itália - Perú, do Mundial de 82,
jogado no Balaídos
A Itália, então orientada por Enzo Bearzot, e que estava recheada de craques como Dino Zoff, Claudio Gentile, Marco Tardelli, Bruno Conti, ou Paolo Rossi, disputou todos os seus jogos da 1.ª fase desse Mundial em Vigo, uma das 14 cidades espanholas que acolheu a prova. Previa-se que os italianos não tivessem grandes dificuldades para ultrapassar um grupo composto por Polónia, Perú e os estreantes e então desconhecidos Camarões. Porém, a realidade foi outra. No primeiro encontro, ante a Polónia de Boniek, empate a zero. Tudo bem, nada de alarmes, até por os adversários seguintes eram na teoria mais acessíveis. Com o Perú, Bruno Conti marcou primeiro, mas Rúben Díaz empatou e a Itália estava em maus lençóis. A última partida era com os Camarões, que na frente tinham um até então desconhecido Roger Milla. À mesma hora jogava-se o Polónia-Perú, na Corunha. No início da segunda parte deste encontro os polacos marcaram quase cinco golos de rajada, enquanto a Itália voltava a empatar, e de novo a um golo. Graziani e M’Bida fizeram os golos. A Itália só passou o grupo porque marcou mais um golo do que os Camarões, que também haviam tido três empates, sendo que a Polónia acabou em primeiro do grupo. A Itália despedia-se de Vigo com um futebol medíocre, sem um antídoto para chegar às vitórias, e muitos pensavam então que aquela equipa pouco iria durar no Mundial espanhol a jogar daquela maneira. Puro engano. Tudo mudou na 2.ª fase, graças a um tal de Paolo Rossi que comandou a Azzurra rumo ao título conquistado em Madrid. Ah, e pelo caminho deixou aquela que muitos dizem ter sido uma das melhores seleções brasileiras de todos os tempos.

O futuro Estádio de Balaídos

Balaídos poderá ter sido uma pedra no sapato a Itália, ou então um alarme que o acordou a seleção de Enzo Bearzot, mas acima de tudo é um estádio que mítico, que já vivenciou grandes tardes e noites (muitas delas europeias) do Celta. Hoje, o recinto está em profunda remodelação, e dará lugar a um novo Balaídos, mas sempre com a ideia de continuar a fazer de Vigo uma... cidade de futebol.

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