quinta-feira, setembro 24, 2026

Jogos Memoráveis (13)... Leixões - La Chaux-de-Fonds (Taça das Taças 1961/62)


No ano de 1961 e no espaço de apenas três meses o Leixões escreveu duas das mais brilhantes páginas da sua hoje centenária história. A primeira aconteceu a 9 de julho do referido ano, dia em que na tribuna do Estádio das Antas o emblema de Matosinhos ergueu para surpresa de todos a Taça de Portugal às expensas do FC Porto. Uma conquista que abriu as portas da Europa do futebol à Armada do Mar, que na temporada seguinte (61/62) competiu na 2.ª edição da Taças dos Vencedores das Taças. E também na estreia na alta roda internacional os leixonenses escreveram uma página histórica que até hoje não mais foi igualada por nenhum outro clube português nas provas da UEFA. E é precisamente sobre este capítulo que hoje iremos recordar.

O grupo que ostentou ao peito o símbolo do Leixões naquela que era a primeira aventura europeia do emblema nortenho, foi maioritariamente o mesmo que venceu a Taça de Portugal, pelo que o entrosamento e a crença (no potencial da equipa) estavam presentes na cabeça de todos os futebolistas que o integravam. Isso e quiçá algum tique de superioridade, tendo em conta que após o resultado do sorteio da 1.ª eliminatória da Taça das Taças de 61/62 a velha expressão “são favas contadas” terá assolado de pronto o pensamento de muitos leixonenses. Na verdade, o nome La Chaux-de-Fonds pouco ou nada dizia a um Leixões que vivia no rescaldo da euforia da conquista da Prova Rainha do futebol luso. “Se vencemos o poderoso FC Porto na sua própria cada numa final da Taça de Portugal, não serão uns tais de La Chaux-de-Founds que nos vão intimidar e vencer”, terão pensado, porventura, os leixonenses na antecâmara da estreia europeia. Pois bem, esta sobranceira acabou por lhes sair caro, já que da Suíça o Leixões trouxe um saco cheio de golos: seis. A derrota por 6-2 na pequena cidade localizada no cantão de Neuchâtel foi acima de tudo um banho de humildade que os portugueses levaram. Dar a volta ao texto, ou seja, à eliminatória, era uma tarefa árdua, já que para passar este obstáculo os pupilos do técnico argentino Filpo Núñez teriam de marcar cinco golos e não sofrer nenhum. Impossível? Não para a Armada do Mar, como iremos ver. Assim, o feriado de 5 de outubro de 1961 fica para sempre nos anais da história do futebol português. O palco desta que viria a ser uma tarde de glória foi mesmo onde ao longo de mais de 50 anos o Leixões vivenciou grandes vitórias: o Campo de Santana. Nesse dia, o hoje desaparecido recinto localizado no centro de Matosinhos – na Rua Silva Pinheiro – foi pequeno demais para acolher a apaixonada massa adepta leixonense que ali se deslocou em busca de presenciar um milagre. E o santo milagreiro que nessa tarde baixou sobre o pelado do Campo de Santana tinha pronúncia brasileira, constituindo-se como um dos mais brilhantes futebolistas nascidos em Terras de Vera Cruz que nos anos 60 passaram pelo futebol português. Mas já lá vamos a dados mais concretos.

Alheio à pressão do resultado que se impunha, os jogadores do Leixões aplicaram-se desde o primeiro minuto de forma brilhante, fazendo da velocidade e da determinação as armas com que a barreira suíça haveria de ser ultrapassada. «A equipa portuguesa foi prodigiosa de velocidade, brio, determinação… e jogo! Foi a jogar e a jogar bem, num ritmo rápido e certo, em que integravam admiravelmente todos os seus elementos, que o Leixões se tornou prontamente amo e senhor da partida», assim dava nota o jornalista Alberto Lobo, o qual ao serviço do Diário de Lisboa (DL) testemunhou este milagre futebolístico. No “quadro pintado” pelo repórter, a atitude do Leixões empolgou os seus adeptos. Autoritários e entusiasmados os jogadores do conjunto português trataram de repor a verdade numa eliminatória que na voz de Alberto Lobo havia ferido na Suíça o prestígio do futebol luso a nível internacional. Outro cenário que não fosse a passagem do Leixões teria sido uma injustiça, de acordo com o jornalista do DL, dado que no Campo de Santana ficou evidente a longa distância em termos de categoria que separava os dois conjuntos… com os portugueses a perfilarem-se muito à frente neste aspeto particular. Na verdade, em Matosinhos os helvéticos mostraram uma «personalidade débil», que só a espaços ser tornou perigosa nos rápidos contra-ataques que “aqui e acolá” foram fazendo. Por sua vez, o Leixões de pronto atacou a baliza de Leo Eichmann, criando inúmeros lances de perigo nos primeiros minutos da batalha. Na verdade, só Eichmann ia colocando algum travão na fúria da Armada do Mar. Isso, e algum nervosismo que com o passar do tempo se ia instalando nos jogadores de Matosinhos que viam a sua garra e vontade esbarrar na falta de sorte ou no guardião contrário.

Osvaldo Silva 
«Com os suíços votados à defesa e os portugueses ao ataque, a bola ficou praticamente colhida entre duas barreiras, cujas linhas cortavam a grande área dos visitantes. A manobra tornou-se dificílima, até porque os matosinhenses pretendiam o golo pela certa, levando a teia de passes até debaixo da baliza do seguro Eichmann», assim descreveu Alberto Lobo as incidências dos primeiros 25 minutos de jogo. Percebendo que por aquele caminho o golo iria tardar cada vez mais, o Leixões corrigiu o estilo de jogo que vinha adotando, passando a optar por tentar a sorte de mais longe da baliza. Por outras palavras, passou a rematar com mais frequência e de ângulos distintos na tentativa de derrubar a muralha suíça. Uma opção que viria a tornar-se na chave do triunfo. Aos poucos a tal muralha contrária começou a ceder aos tiros dos lusos. O atirador principal foi o tal artista brasileiro de que atrás falámos, Osvaldo Silva. Com dois remates certeiros aos 28 e 32 minutos do primeiro tempo, ele começou a operar o tal milagre da reviravolta. Apoiado por Gomes no ataque, o brasileiro do Leixões voltou a ser um autêntico diabo à solta numa segunda parte que abriu praticamente com o golo de Oliveirinha, ao minuto 47, que colocava o Leixões mais perto do milagre. A toada de jogo não se alterou nestes segundos 45 minutos, pelo que até a revolta ser consumada foi uma questão de tempo e de paciência. Aos 53 minutos, António Medeiros empatou a eliminatória, até que aos 72 Oliveirinha bisou e consumou o milagre. O Leixões venceu por 5-0, apagando assim a má imagem deixada na Suíça no jogo da 1.ª mão, e mais do que isso avançava na eliminatória. Nas cabines, os leixonenses estavam, naturalmente, eufóricos com este feito. Para o capitão Raul Machado «o primeiro jogo foi de manifesta pouca sorte para nós e de felicidade para os nossos adversários. Sempre considerei o Leixões superior e por isso acreditava que se tudo corresse normalmente a recuperação não era impossível». E assim foi. Esta reviravolta assume contornos históricos até hoje no futebol português, já que nenhuma outra equipa conseguiu anular uma desvantagem tão grande trazida da 1.ª mão. Sob arbitragem do francês Jean Tricot, as equipas alinharam da seguinte forma: Leixões – Roldão, Santana, Joaquim Pacheco, Raul Machado, Jacinto, António Medeiros, Patela, Gomes, Osvaldo Silva, Mário Ventura, Oliveirinha. Treinador: Filpo Núñez. La Chaux-de-Fonds: Leo Eichmann, Kurt Leuenberger, Jean-Claude Deforel, Raymond Aubert, Willy Kernen, Gabriel Morel, André Brossard, Kurt Sommerlatt, Roberto Frigerio, Heinz Bertschi, Charles Antenen.

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