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terça-feira, agosto 25, 2026

Copa América (10)... Chile 1926


A seleção uruguaia que em 1926 recuperou 
o título de campeão das américas

Em 1926 o então denominado Campeonato Sul-Americano de Futebol dava as boas vindas ao seu sexto integrante da história, a Bolívia. Foi no Chile, mais precisamente na capital Santiago, que La Verde – que na altura até vestia de branco – deu há um século atrás a esta parte o pontapé de saída da sua história no Planeta da Bola.  Facto ocorrido a 17 de outubro de 1926, quando no Campos de Sports de Ñuñoa, a Bolívia entrou em campo pela primeira vez, na abertura da 10.ª edição da maior competição de seleções do continente americano. Mas puxemos a fita atrás, mais concretamente até ao dia 18 de agosto desse ano, altura em que a Federação Boliviana de Futebol – que havia sido fundada apenas um ano antes – decide aceitar o convite da sua congénere chilena para integrar o lote de seleções do 10.º Campeonato Sul-Americano. Estávamos a dois meses do início da competição, e os dirigentes bolivianos nem sequer tinham ainda uma seleção nacional montada, mas mesmo assim arriscaram participar com o argumento da visão de integrar o país no Mundo do futebol. 

Job De La Cerda

Foi de pronto nomeada uma comissão técnica, a qual foi liderada por Job de la Cerda, um dos pioneiros do futebol boliviano que começou a sua carreira de futebolista e mais tarde de dirigente na Argentina, para onde se havia mudado com apenas 10 anos de idade. Assim que chegou ao comando da seleção boliviana, Cerda realizou um torneio nacional com equipas das várias regiões do país no sentido de escolher os melhores que iria levar ao Chile. No rescaldo deste torneio de captação, digamos, foram selecionados 17 jogadores originários dos estados/províncias de La Paz, Oruro, Sucre, Potosí, Cochabamba e Uyuni. Escolhidos os jogadores, a seleção reuniu-se a 13 de setembro em Cochabamba, cidade que tinha um clima mais aproximado do que se verificava em Santiago do Chile, até que a 1 de outubro a delegação da Bolívia inicia a viagem de comboio até Antofagasta, onde iria pernoitar antes de apanhar o barco para Valparaíso e dali novamente de comboio até Santiago. Foram três esgotantes dias de viagem para a estreante seleção, que assim que chegou à capital chilena recebeu inúmeras manifestações de carinho, quer por parte das autoridades do Chile, quer da própria imprensa local. Sem tempo para treinar ou para se ambientar ao clima da capital chilena, os bolivianos entraram em campo diante da seleção anfitriã no dia 12 de outubro de 1926, uma data histórica, já que este foi o PRIMEIRO JOGO DE SEMPRE do combinado nacional da Bolívia. No Campos de Sports de Ñuñoa – onde anos mais tarde seria edificado o atual Estádio Nacional de Santiago – La Verde seria goleada por 7-1, um resultado que mostrava a clara inexperiência do futebol boliviano nestas andanças internacionais. Ainda assim, a equipa mostrou coragem e algum atrevimento ofensivo, como atestam as crónicas de então, facto que mereceu aplausos do público chileno. Do lado da La Roja sul americana um homem sobressaiu não só neste encontro como no resto do campeonato: David Arellano. O avançado do recém-criado Colo Colo – clube fundado um ano antes – foi autor de quatro golos neste match de estreia, ele que haveria de ficar famoso mundialmente – sim, mundialmente – por alegadamente ter sido o inventor da chilena, a designação que na América do Sul se dá ao pontapé de bicicleta. E dizemos alegadamente porque ainda hoje há uma disputa entre brasileiros e chilenos sobre quem terá sido o criador deste famoso gesto técnico, se Arellano ou Leônidas da Silva. Os chilenos dizem que foi o primeiro, enquanto que os brasileiros juram a pés juntos que o foi o seu Diamante Negro
Chile - Bolívia
Bom, mas voltando ao Sul Americano de 26, dizer que além de Chile e Bolívia a competição foi integrada ainda pela Argentina, pelo Paraguai e pelo Uruguai, seleção esta que estava de volta à Copa após ausência na edição anterior. Os campeões em título, os argentinos entraram em campo neste torneio precisamente diante da estreante Bolívia, que para espanto de muitos dos 8000 espectadores presentes no Campos de Sports de Ñuñoa realizaram uma primeira parte equilibrada, apesar de sair para o intervalo com uma desvantagem de quatro golos. Porém, a força e maior experiência argentina veio ao de cima no segundo tempo, tendo o marcador sido fechado em 5-0 a favor dos campeões. 

Chile - Uruguai

A 17 de outubro entravam em campo os campeões do Mundo, o Uruguai. Sim, campeões mundiais, atendendo a que naquela altura os campeões olímpicos eram assim denominados. Dois anos antes, nas Olimpíadas de Paris, os uruguaios haviam subido ao trono do Planeta da Bola. A equipa base era muito semelhante à que alcançou o ouro na capital francesa, destacando-se nomes como Andrés Mazali, José Nasazzi, José Leandro Andrade, Alfredo Ghierra, Santos Urdinarán, Ángel Romano, Zoilo Saldombide e Hector Scarone. Este último havia feito a longa travessia no Atlântico apenas um mês antes da Copa de 26 única e exclusivamente para voltar a vestir a camisola da Celeste, ele que então havia tido uma curta incursão no Barcelona e desta forma estava de regresso à América do Sul. Tal como em Paris, o Uruguai voltou a mostrar um futebol de alto nível técnico, e logo na estreia venceu com mérito os anfitriões por 3-1, dando assim o primeiro passo na tentativa de resgatar o título das américas das mãos dos vizinhos e eternos rivais argentinos. Neste encontro com os chilenos um dos golos seria apontado por Hector Castro, ou El Manco Castro, como ficou imortalizado pelo facto de não ter metade do braço direito na sequência de um acidente com uma serra elétrica quando tinha 13 anos. 
Seleção chilena saúda o seu público no Campos de Sports de Ñuñoa

Numa competição que continuava a ser disputada em forma de campeonato, em que o campeão seria a seleção que somasse mais pontos, a Argentina amealha mais uma vitória no encontro diante do Paraguai na sequência de uma goleada de 8-0, com destaque para o poker de Gabino Sosa. Diga-se de passagem, que na altura este foi o campeonato sul-americano que mais golos iria produzir: 55. Uma média de 5,5 golos nos 10 encontros realizados. Um dos jogos com menos golos foi precisamente o escaldante duelo entre argentinos e uruguaios, o grande clássico de então na América do Sul. 15.000 espectadores lotaram o Campos de Sports de Ñuñoa e presenciaram um jogo onde o Uruguai provou o porquê de ser a melhor seleção do planeta, vencendo por 2-0. No jogo seguinte Hector Scarone fez história não só na competição da CONMEBOL como da própria seleção uruguaia. Ao apontar cinco dos seis golos sem resposta com que o Uruguai bateu a Bolívia, Scarone tornou-se no primeiro jogador da competição a alcançar esta marca. Esta manita confere ainda a Scarone até aos dias de hoje o recorde de único jogador com maior número de golos num só jogo pela seleção uruguaia. 

A entrada em campo da Argentina
Se por um lado este avolumado score abria as portas da reconquista do título ao Uruguai, por outro encerrava a participação da Bolívia na Copa, uma presença que apesar dos avultados resultados negativos mostrou uma equipa que representou o país de forma digna, ainda que a absoluta falta de experiência competitiva aliada às pobres condições de preparação para uma competição deste género, sobressaíssem e servissem de exemplo para futuros torneios. O título dos uruguaios ficaria matematicamente selado após o confronto entre chilenos e argentinos, o qual se saldou por um empate a uma bola. A precisar de vencer para manter esperanças na renovação do cetro, a Argentina baqueou perante os anfitriões e entregou o título aos rivais do Rio da Prata. Deste modo, a vitória do Uruguai diante do Paraguai por 6-1 – com um poker de El Manco Castro – serviu para não só cumprir calendário como de igual modo celebrar o 6.º título de campeão das américas por parte da seleção celeste. Este triunfo daria origem a um famoso hino popular dedicado à seleção do Uruguai, o qual seria composto por Omar Odriozola e eternizada por José Ministeri "Pepino", e que versa o seguinte:

 “Invicto na Europa, invicto na América,

 Eles são campeões do mundo, são campeões da América.

 O mesmo que em Colombes, nos campos de Nuñoa

 Eles desfilaram vitoriosamente com a bandeira nacional.

 A equipe argentina e a equipe chilena,

 O boliviano e o paraguaio

 Eles foram derrotados pela equipe uruguaia, que estava invicta.

 Uruguaios, campeões da América e do mundo,

 Atletas esforçados que acabaram de triunfar,

 As cornetas que tocaram o toque de alvorada em Colombes,

 Para além dos Andes, eles soaram novamente.

 O povo da França nos Jogos Olímpicos

 Ele aplaudiu com entusiasmo seu triunfo mundial.

 E hoje é a América do Sul que se alegra.

 Admire a glória da equipe do leste”.

Arellano 

O Chile acabou este torneio no segundo lugar ex-áqueo com os argentinos após esmagar o Paraguai por 5-1, com destaque para os três golos da estrela David Arellano, um futebolista nascido em Santiago, em 1902, e que revolucionou o futebol no país no começo do século XX. Fundador, capitão e primeiro ídolo do Colo Colo, ele teria um final trágico um ano após a realização deste Campeonato Sul-Americano. 
Em 1927 a Federação de Futebol do Chile escolheu o Colo Colo para representar o país numa série de jogos particulares na Península Ibérica. Diz a história, que foi Arellano que no âmbito dessa digressão apresentou à Europa a famosa chilena, ou pontapé de bicicleta. Seria este gesto técnico em parte o responsável pela morte de David Arellano a 3 de maio daquele ano de 1927. Em Valladolid, o Colo Colo defrontou nessa tarde o Real Unión e ao tentar executar uma das suas famosas chilenas, Arellano caiu ao mesmo tempo que o seu marcador direto nesse lance, o espanhol Hornia, o qual caiu em simultâneo com o joelho em cima do peito do avançado chileno. A pancada provocou um abscesso intra-abdominal, levando à morte de um jogador que estava no auge da sua carreira. Voltando à Copa América de 26 para dizer que Arellano foi o melhor marcador do torneio, com sete remates certeiros. Esta edição do torneio marcou ainda o início da longa travessia da ausência do Brasil da competição. Conflitos entre várias federações estaduais, sobretudo entre as do Rio de Janeiro e de São Paulo, deram origem a que os brasileiros não só não marcassem presença nesta edição como nos restantes torneios da década de 20 e boa parte da década de 30. O Brasil só voltaria a disputar um Campeonato Sul Americano em 1937.

Nomes e números:

12 de outubro de 1926

Chile – Bolívia: 7-1

(Arellano, 15’, 41’, 80’, 84’; Ramirez, 10’; Subiabre, 14’, Moreno, 47’)

(Aguilar, 62’)

 

16 de outubro de 1926

Argentina – Bolívia: 5-0

(Cherro, 9’ e 19’; Sosa, 31’; Delgado, 43’; De Miguel, 74’)

 

17 de outubro de 1926

Uruguai – Chile: 3-1

(Borjas, 22’; Castro, 32’; Scarone, 55’)

(Subiabre, 65’)

 

20 de outubro de 1926

Argentina – Paraguai: 8-0

(Sosa, 11’, 32’, 59’, 87’; Delgado, 40’, 42’; Cherro, 16’; De Miguel, 52’)

 

23 de outubro de 1926

Paraguai – Bolívia: 6-1

(Ceferino Ramirez, 68’, 72’, 88’; Julio Ramirez, 76’; López, 57’, 81’)

(Soto, 15’)

 

24 de outubro de 1926

Uruguai – Argentina: 2-0

(Borjas, 22’; Castro, 73’)

 

28 de outubro de 1926

Uruguai – Bolívia: 6-0

(Scarone, 9’, 12’, 28’, 39’, 81’; Romano, 67’)

 

31 de outubro de 1926

Chile – Argentina: 1-1

(Saavedra, 25’)

(Tarasconi, 42’)

 

1 de novembro de 1926

Uruguai – Paraguai: 6-1

(Castro, 16’, 23’, 32’, 72’; Saldombide, 47’, 82’)

(Fretes, 41’)

 

3 de novembro de 1926

Chile – Paraguai: 5-1

(Arellano, 21’, 64’, 71’; Ramirez, 42’, 82’)

(Peña, 40’)

 

Classificação:

1.º Uruguai: 8 pts.

2.º Argentina: 5 pts.

3.º Chile: 5 pts.

4.º Paraguai: 2 pts.

5.º Bolívia: 0 pts.


sexta-feira, janeiro 09, 2026

Copa América (9)... Argentina 1925

 

A Argentina que em 1925 venceu em casa o seu segundo 
título sul-americano... de forma controversa
O Campeonato Sul-Americano – atualmente denominado de Copa América – de 1925 foi não só o menos participado da história da competição, como de igual modo um dos mais turbulentos de sempre. Apenas três seleções lutaram por um título que pela terceira vez até então iria ser disputado em solo argentino. À primeira vista o grande ausente – e grande favorito à reconquista do cetro – foi o Uruguai, que um ano antes havia conquistado o Mundo ao vencer o torneio olímpico de Paris. Tumultos internos, isto é, problemas no seio das associações de futebol do país, fizeram com que a Celeste não atravessasse o Rio da Prata rumo a Buenos Aires. O mesmo aconteceu com o Chile, que também vivia um mar de crises associativas internas e por isso pela terceira vez, desde que a prova havia sido criada em 1916, falhava a participação no campeonato. Desse modo, e para além da seleção anfitriã, a Argentina, iriam discutir o título os combinados do Brasil e do Paraguai. Pelo facto de serem tão poucas as seleções participantes, a organização decidiu desenrolar o torneio em duas voltas, isto é, as seleções iriam enfrentar-se todas entre si por duas ocasiões. 
A seleção do Brasil que disputou a Copa América de 1925

A Argentina surgia em campo com oito jogadores do Boca Juniors, algo até então nunca visto na história da albiceleste, facto que se explica pela divisão associativa que então vigorava no futebol argentino. Ou seja, o país futebolístico estava dividido em duas associações, sendo que cada uma delas organizava o seu respetivo campeonato. A FIFA apenas reconhecia como oficial o campeonato em que competia o Boca e nesse sentido a seleção não convocou jogadores de clubes como o River Plate, o Independiente, ou o Racing (emblemas que competiam no campeonato oposto) entre 1919 e 1926, período em que durou esta divisão. E no selecionado argentino figurava pela primeira vez numa grande competição um jogador negro, mais concretamente o afro-argentino Alejandro De los Santos, Filho de escravos angolanos que conseguiram fugir nos finais do século XIX para a América do Sul, ele é até aos dias de hoje o único jogador negro a vestir a camisola da seleção argentina. Nascido em 1902 em Paraná, na província de Entre Ríos, De los Santos faria uma dupla de ataque temível com Manuel Seoane – um dos maiores goleadores de sempre do período amador do futebol argentino – com as cores do El Porvenir. Ao serviço deste emblema, o afro argentino disputou quase 140 jogos, apontando 80 golos, números que lhe valeriam em 1922 a primeira chamada à seleção albiceleste num amigável contra os vizinhos e rivais do Uruguai. 

De los santos, o primeiro e único negro a vestir 
a camisola da Argentina
A Copa América de 1925 foi o ponto alto da carreira de Alejandro, que apesar de apenas ter disputado apenas um jogo viria a alcançar o título de campeão. O trajeto da Argentina começou precisamente no antigo estádio do Boca Juniors, ante o Paraguai, e não poderia ter iniciado da melhor maneira, já que quando apenas estavam decorridos dois minutos de jogo, Seoane abre o marcador. Na segunda parte, a confirmação da vitória (2-0) por intermédio de Martín Sánchez. Os guaranis voltaram a entrar em campo quase uma semana depois (!) para enfrentar o Brasil no estádio do Sportivo Barracas. E sofreram um verdadeiro amasso de um escrete cuja grande estrela era Friedenreich, que neste encontro apontaria um dos cinco tentos com que o Brasil derrotou (5-2) sem mácula os paraguaios. Outro dos tentos brasileiros seria apontado por Filó, jogador que nove anos mais tarde faria história ao tornar-se no primeiro brasileiro a ser campeão do Mundo muito antes do o… Brasil o ser! Veloz extremo, Filó emigrou no início da década de 30 para Itália, onde defendeu as cores da Lazio durante sete temporadas. Em Itália, o paulista de nascimento alterou o seu nome para Anfilogino Guarisi, sendo um dos oriundi (jogadores de origem italiana) que em 1934 Vittorio Pozzo convocou para defender a Squadra Azzurra na segunda edição do Campeonato do Mundo. 
Fase do encontro entre argentinos e paraguaios na Copa de 25
Voltando à Copa América de 1925, com duas derrotas claras nos dois primeiros jogos ficava claro que dificilmente o Paraguai iria conseguir levar o título para casa. No dia 13 de dezembro, o estádio do Sportivo Barracas – um dos dois que recebeu os jogos do torneio – lotou (25.000 espectadores) para presenciar o duelo entre os dois mais sérios favoritos ao título. Como seria de esperar, os brasileiros foram recebidos com muita hostilidade pelos fervorosos hinchas argentinos. Aos 22 minutos, Nilo abriu o marcador para o Brasil, mas o que então se poderia esperar com uma vitória histórica sobre o rival viria a tornar-se um autêntico pesadelo. Com três golos de Manuel Seoane e um de Alfredo Garassino, a Argentina deu a volta ao texto e humilhou o rival, construindo a maior vitória até então sobre aquele vizinho sul-americano. A imprensa brasileira não se poupou em críticas à sua seleção, sobretudo a linha média da seleção e o guarda-redes Tuffy, os grandes responsáveis pelo colapso na voz dos jornalistas. E assim chegávamos ao final da primeira volta do torneio, com os argentinos na liderança com 4 pontos, seguidos de Brasil com 2 e do Paraguai sem qualquer ponto. 

Argentinos e paraguaios lutam 
pela bola nas alturas
A segunda volta arrancou no dia 17 de dezembro, com o Brasil a defrontar o Paraguai no estádio do Boca Juniors. Triunfo canarinho por 3-1. O mesmo resultado verificou-se no Argentina – Paraguai, onde Seoane aponto mais um golo que consolidaria como o melhor marcador da prova com 6 golos. No dia de Natal de 1925 decidia-se o nome do campeão sul-americano. Um empate era suficiente para que a Argentina vencesse pela segunda vez o título, enquanto que o Brasil tinha obrigatoriamente de vencer para forçar a um jogo de desempate. A polémica em torno do match instalou-se ainda antes do pontapé de saída, com a imprensa e o público a contestarem a data da realização do mesmo, tendo em conta que estávamos em pleno dia de Natal e como tal esperava-se tudo menos a realização de um jogo tão importante como aquele. No entanto, o encontro foi avante. E o Brasil até entrou melhor, já que à passagem da meia hora já vencia por 2-0, graças a golos de Friedenreich e de Nilo. A perder os argentinos como que perderam a cabeça, e num lance entre El Tigre Friedenreich e o defesa Ramón Muttis este último tem uma entrada violenta sobre o brasileiro o que motivo um desaguisado entre os dois atletas. Rezam as crónicas do jogo que ambos trocaram violentas agressões, o que motivou a ira dos adeptos presentes no estádio do Sportivo Barracas contra os brasileiros. Para além de insultos racistas – os hinchas locais começaram a apelidar em coro os jogadores contrários de macaquitos – houve invasão de campo, registaram-se agressões a jogadores do Brasil, o que levou a dura intervenção policial para travar a ira dos adeptos. Este foi um dos episódios mais violentos em jogos ocorridos entre estas duas seleções. 

Invasão de campo no jogo decisivo
O incidente foi posteriormente sanado e o jogo recomeçou. Inclusive, jogadores de ambas as seleções apertaram as mãos e abraçaram-se em sinal de paz. No entanto, e quiçá afetado pelo que acontecera o Brasil desmoronou e permitiu o empate da Argentina a duas bolas, que lhe valeria a conquista do segundo título sul-americano. Os incidentes deste jogo são reproduzidos na íntegra de seguida através do relato do Correio do Povo: «Os argentinos e os brasileiros entraram no campo de Barracas debaixo de entusiásticos aplausos do público, que vivou o Brasil e a Argentina. O ‘toss’ foi favorável aos argentinos, mas o capitão Tesoriere cedeu-o aos visitantes. Os primeiros minutos decorreram equilibrados. Os argentinos iniciam vários avanços, que a defesa brasileira malogra com toda a felicidade. Depois de Pamplona haver cometido um ‘foul’ à pouca distância do goal, Friedenreich realiza uma esplêndida jogada. O primeiro, numa corrida rápida, chega próximo à rede de Tesoriere, que consegue vazar em tiro forte e rasteiro. É Nilo. A assistência ovaciona este feito do exímio ‘center’ brasileiro. A essa altura, os argentinos começam a jogar mal, atuando a sua linha de ‘forwards’ sem a menor conexão. Em nova jogada, Friedenreich faz um bem calculado passe a Nilo, o qual, tomando-o de carreira, marcou o segundo ‘goal’ brasileiro. (…) Os argentinos continuam dominando o jogo no 2.º tempo. Friedenreich e Nilo fazem uma excelente combinação, em consequência da qual a bola vai ter nos pés de Filó, o qual desfere, a curta distância, um forte tiro. E, quando parecia que estaria garantida a conquista de mais um ‘goal’ para os brasileiros, a pelota apanhou a trave do arco, resvalando para fora. Este fracasso trouxe algum visível desânimo entre a linha atacante, que, no segundo período, esteve em geral medíocre. (…) O jogo com que terminou o Campeonato Sul-Americano esteve medíocre por parte das duas ‘équipes’, que desenvolveram, no 1.º e no 2.º tempos, atuação completamente diversa. Os brasileiros começaram assombrosamente e fazendo terrível pressão sobre o adversário. Os ‘forwards brasileiros’, ativíssimos, não davam descanso aos argentinos, cujos poucos avanços eram malogrados pela defesa brasileira, onde Tuffy e Pennaforte realizaram feitos maravilhosos que muito entusiasmaram a assistência. A linha média esteve à altura das responsabilidades. Dos dianteiros brasileiros destacaram-se Friedenreich, Nilo e Filó. Os nacionais, no primeiro tempo, estiveram desorganizadíssimos e inarmônicos, falhando lamentavelmente. No 2º tempo, os papéis inverteram-se, pois os argentinos dominaram completamente os brasileiros, que estavam decadidíssimos, demonstrando cansaço e falta de treino. Os argentinos bombardearam com grande frequência o arco brasileiro, defendido magistralmente por Tuffy e Helcio. (…)».

Nomes e números:

29 de novembro de 1925

Argentina – Paraguai: 2-0

(Manuel Seoane, 2’; Martín Sánchez, 72’)

 

6 de dezembro de 1925

Brasil – Paraguai: 5-2

(Filó, 16’; Friedenreich, 19’; Lagarto, 40’, 54’; Nilo, 72’)

(Gerardo Rivas, 25’, 66’)

Duelo entre argentinos e brasileiros

13 de dezembro de 1925

Argentina – Brasil: 4-1

(Manuel Seoane, 41’, 48’, 74’; Alfredo Garassino, 72’)

(Nilo, 22’)

Seoane, o goleador do campeonato de 1925

17 de dezembro de 1925

Brasil – Paraguai: 3-1

(Nilo, 30’; Lagarto (57’, 61’)

(Luís Fretes, 58’)

 

20 de dezembro de 1925

Argentina – Paraguai: 3-1

(Domingo Tarasconi, 22’; Manuel Seoane, 32’; Javier Iruieta, 63’)

(Solich, 15’)

Friedenreich marca e festeja o primeiro do Brasil no jogo decisivo

25 de dezembro de 1925

Argentina – Brasil: 2-2

(Antonio Cerrotti, 41’; Manuel Seoane, 55’)

(Friedenreich, 28’; Nilo, 30’)

 

Classificação:

1.º Argentina: 7 pts.

2.º Brasil: 5 pts.

3.º Paraguai: 0 pts.

quinta-feira, abril 10, 2025

Copa América (8)... Uruguai 1924

Os campeões olímpicos (e do Mundo) revalidaram o título 
das américas em 1924

É já ostentando a coroa de melhor equipa do Mundo, ou de campeões do Mundo, se preferirem, que o Uruguai entrava em campo no Campeonato Sul-Americano de 1924 para defender o título conquistado um ano antes. Sim, campeões do Mundo, já que à época o torneio olímpico de futebol era a competição mais alta a nível planetário, e arrecadar a medalha de ouro significava por aqueles dias ser campeão mundial. E o Uruguai tinha alcançado (nos Jogos Olímpicos de Paris) esse feito sensivelmente quatro meses antes do pontapé de saída da 8.ª edição da atual Copa América. Estávamos de facto diante da melhor seleção do planeta, e se dúvidas ainda restassem elas seriam (novamente) dissipadas num torneio que inicialmente estava destinado a ter como sede a cidade de Assunção, no Paraguai. Porém, a capital paraguaia não dispunha de unidades hoteleiras com condições mínimas para albergar as delegações visitantes, o que levou a organização a transferir a prova para Montevideu, onde havia sido realizada nas edições de 1923 e 1917. Dessa forma, o Parque Central de Montevideu voltou a ser – tal como no ano anterior – o palco de uma competição que para além do Uruguai contou com a participação da Argentina, do Chile e do Paraguai, quatro seleções que mediram forças num sistema de poule – todos contra todos – em que a equipa que somasse mais pontos seria coroada campeã. Ou seja, tal e qual às anteriores edições. 
Duelo inaugural da Copa de 24, entre argentinos e paraguaios
E no dia 12 de outubro de 1924 deu-se o pontapé de saída do 8.º Campeonato Sul Americano, em que 12.000 pessoas assistiram ao pobre nulo (0-0) entre argentinos e paraguaios. Este empate haveria de sair caro àquela que a par do Uruguai era a seleção favorita ao título, a Argentina. Sete dias depois (!!!) entraram em campo os campeões olímpicos – e por consequência do Mundo – para medir forças com o Chile. E o que se viu foi não só mais do que uma demonstração do poderio e arte do futebol uruguaio, que esmagou o seu oponente por 5-0, com destaque para o hattrick de Pedro Petrone, que desta forma se tornava no primeiro futebolista a apontar três golos ao serviço da seleção celeste no mesmo jogo e logo numa competição internacional.  

Fase do jogo entre Uruguai e Paraguai
No dia 25 de outubro teve lugar o terceiro jogo da prova, tendo a Argentina puxado, finalmente, dos galões para bater o Chile por 2-0, sendo que no dia seguinte o Uruguai derrotava o Paraguai por 3-1, com golos de Petrone, Ángel Romano e Pedro Cea. Face a estes dois resultados desde logo ficou definido que o clássico do Rio da Prata entre uruguaios e argentinos teria contornos de final, pois quem vencesse seria matematicamente campeão. Contudo, à equipa da casa bastaria um empate para revalidar o cetro. E assim foi. 

Episódio caricato que se repetiria entre os velhos rivais do Rio da Prata na final do primeiro Mundial seis anos depois

O grande clássico das américas nos anos 20: Uruguai vs Argentina
para decidir o campeão do continente em 1924

20.000 pessoas – a maior assistência do Sul-Americano de 1924 – lotaram no derradeiro dia da competição o Parque Central para assistir à “final” do torneio. Antes do pontapé de saída, o árbitro do encontro, o chileno Carlos Fanta, deparou-se com um contratempo caricato. Os uruguaios, a jogarem em casa, acharam-se no direito de jogar com a sua bola, que era confessionada de couro fraco e de dimensões maiores àquelas que os argentinos estavam habituados a jogar. O guarda-redes da Argentina, Américo Tesoriere, contou, anos mais tarde, que no seu país a bola habitualmente utilizada nos matchs era mais parecida com as que se utilizavam na Europa, de dimensões mais pequenas, e que os uruguaios diziam que aquilo era uma bola para as crianças jogarem. Após muita discussão, o árbitro Fanta decidiu-se pela “bola europeia”, para gaudio dos visitantes, sobretudo para o seu guarda-redes. Abra-se desde já aqui um parêntese para recordar que um episódio em (quase) tudo semelhante iria ocorrer seis anos depois na mesma cidade (Montevideu) e protagonizado por estas mesmas seleções, só que desta feita no primeiro Mundial da FIFA. Em 1930, uruguaios e argentinos queriam jogar a final do Campeonato do Mundo com as respetivas bolas, sendo que na altura o árbitro belga, John Langenus, repartiu o mal pelas aldeias, ou seja, decidiu que no primeiro tempo se iria jogar com a bola argentina e no segundo com a bola uruguaia. Mas voltemos aos acontecimentos da “final” da Copa América de 1924, onde os uruguaios dispuseram de inúmeras oportunidades para marcar, não fosse a boa atuação de Tesoriere, que mais habituado à “bola argentina” agarrava com facilidade o esférico sempre que este se aproximava da sua baliza. «Os uruguaios deviam ter-nos goleado, mas naquela tarde eu estava inspirado», contaria anos mais tarde Américo Tesoriere, que a propósito da avalanche ofensiva dos charruás neste encontro, recordou que a certa altura a bola pingou na área argentina onde apareceu o perigoso El Loco Romano pronto para desferir o golpe fatal. Apercebendo-se disso, Tesoriere antecipa-se ao avançado uruguaio ao adivinhar-lhe o lado para o qual aquele iria rematar. «Mergulhei para o lado esquerdo ainda antes dele rematar. Romano nem olhou e de pronto virou costas ao lance comemorando o golo. No entanto, como não ouviu gritos das bancadas virou-se para a baliza para ver o que se tinha passado, percebendo mais tarde que afinal eu tinha defendido aquele golo certo. Naquele momento ele virou-se para mim e disse um palavrão, mas depois confessou-me que não tinha entendido como eu tinha defendido aquele remate letal», contou o arquero argentino, que fruto da sua estupenda exibição seria no final carregado em ombros pelo próprio Romano e pelo companheiro de equipas deste, Alfredo Zibechi. Contas feitas, o encontro terminou empatado sem golos, o que de pronto conferiu o quinto título de campeão das américas ao Uruguai, que assim somava 5 pontos, mais um que os velhos inimigos da Argentina.

Lenda do futebol paraguaio nasce na Copa de 1924

Aurelio González

No terceiro lugar ficou a seleção do Paraguai, após ter vencido a sua congénere chilena por -1 na 3.ª e última jornada da prova. Uma vitória que muito se fica a dever a um então jovem de 19 anos, que fez neste Campeonato Sul-Americano a sua estreia pelo combinado guarani. Aurelio González, o seu nome. Nascido na cidade de Luque, a 25 de setembro de 1905, González é para muitos o melhor futebolista da história do Paraguai, sendo que a sua fama de goleador ao ultrapassar a fronteira dos campos de futebol, fizeram dele um verdadeiro herói deste país. Na Copa América de 1924, ele apontou dois dos três golos com que a sua seleção venceu o Chile, tornando-se a partir daquele momento na figura central da sua seleção, tendo inclusive, participado com esta no primeiro Mundial da FIFA, em 1930. Começou a despontar para o futebol no clube da sua terra, o Sportivo Luqueño, mas seria no Olimpia onde se tornou uma lenda, sendo conhecido como o Grande Capitão, tendo sido uma das figuras principais do primeiro tri-campeonato nacional (1927, 1928 e 1929) conquistado pelo emblema da capital. Na década de 30, González era já o mais popular futebolista paraguaio, quer do ponto de vista interno, quer externo, e como tal não foi de admirar que por esta altura os argentinos do San Lorenzo de Almagro lhe tivessem feito uma oferta milionária para se transferir para o clube daquele bairro de Buenos Aires. Oferta recusada por Aurelio, que pelo amor à pátria deixou de lado a bola para passar a servir o exército da sua nação na Guerra do Chaco, que opôs paraguaios a bolivianos. O conflito bélico entre os dois países paralisou o desporto local, e Aurelio González integrou o 14.º Regimento de Cerro Corá. Sobreviveu à guerra, foi elevado à categoria de herói nacional, pelo que fez dentro e fora dos campos de futebol. Faleceu a 9 de julho de 1997.

Nomes e números:

 

12 de outubro de 1924

Argentina – Paraguai: 0-0


19 de outubro de 1924

Uruguai – Chile: 5-0

(Pedro Petrone, 40, 53, 88; Pedro Zingone, 73; Ángel Romano, 78)


25 de outubro de 1924

Argentina – Chile: 2-0

(Gabino Sosa, 5; Juan Loyarte, 78)


26 de outubro de 1924

Uruguai – Paraguai: 3-1

(Pedro Petrone, 28; Ángel Romano, 37; Pedro Cea, 53)

(Urbieta Sosa, 77) 

Paraguaios saúdam a multidão em Montevideu


1 de novembro de 1924

Paraguai – Chile: 3-1

(Aurelio González, 15, 52; Ildefonso López, 33)

(David Arellano, 6) 

A guarda de honra feita aos campeões
da Copa América de 1924


2 de novembro de 1924

Uruguai – Argentina: 0-0

 

Classificação: 

1.º Uruguai: 5 pontos

2.º Argentina: 5 pontos

3.º Paraguai: 3 pontos

4.º Chile: 0 pontos

segunda-feira, janeiro 10, 2022

Copa América (7)... Uruguai 1923

Uruguai, campeão das américas em 1923
Indiscutivelmente a melhor seleção sul-americana dos anos 20, o Uruguai preparava-se no início desta década do século passado para expandir a sua arte futebolística ao resto do planeta. Estávamos por estes dias em 1923, a precisamente um ano de distância dos Jogos Olímpicos de Paris, onde os uruguaios alcançaram a eternidade, não só pelo triunfo no torneio olímpico, mas, sobretudo, porque apresentaram ao resto do Mundo um futebol deslumbrante como até então ninguém havia visto.

Mas para chegar à Cidade Luz os magos sul-americanos tiveram, mais uma vez, de demonstrar a sua superioridade perante os seus vizinhos do continente em mais um Campeonato Sul-Americano. Torneio que neste ano cumpria a sua 7.ª edição.

O palco escolhido foi Montevideu, a capital do Uruguai que acolhia assim pela segunda vez a competição, depois de o ter feito em 1917, e com boas memórias para a seleção charrúa, que na altura venceu pela segunda vez consecutiva o troféu mais importante de seleções da América do Sul. Inicialmente, o Campeonato Sul-Americano de 1923 estava programado para o Paraguai. Contudo, a falta de infraestruturas desportivas existentes e as dificuldades económicas que a nação guarani passava, fizeram com que a sede mudasse para a maior cidade uruguaia.

A desoladora seleção do Brasil
O torneio de 1923 foi disputado entre os dias 29 de outubro de 2 de dezembro, contando com as participações da seleção da casa, da Argentina, do Paraguai e do campeão em título, o Brasil. O sistema da competição era semelhante aos anteriores campeonatos, isto é, todos contra todas numa só volta, sendo a equipa que somasse mais pontos aquela que se consagraria campeã. E tal como em edições anteriores, seleções houve que levaram a prova pouco, ou nada, a sério. Foi o caso do Brasil, que viajou para o Uruguai com uma equipa de segunda linha, já que os clubes de São Paulo e os principais emblemas do Rio de Janeiro não cederam os seus jogadores. Além de que brasileiros e uruguaios não viviam as melhores das relações por aqueles dias, estando as duas federações de costas voltadas devido a conflitos de arbitragens em confrontos anteriores. Houve até quem estivesse contra a ida de qualquer delegação canarinha a Montevideu, e quando se decidiu enviar a seleção houve quem se insurgisse contra isso na Câmara dos Deputados!  

Também a Argentina atravessava o Rio da Prata sem os seus melhores futebolistas de então, tudo porque equipas como River Plate, Independiente, Racing e San Lorenzo não mostraram grande interesse em dispensar os seus atletas para a competição.

Por seu turno, o Uruguai, apesar de jogar em casa, também estava dividido. Isto, porque os seus principais clubes, o Nacional e o Peñarol, lideravam organismos diferentes que por aqueles dias tentavam controlar o futebol do país. Os primeiros lideravam a Associación, ao passo que os segundos controlavam a Federación. Como o que estava filiado na FIFA era o primeiro organismo, a base da seleção desse ano foi a equipa do Nacional, à qual se juntaram alguns atletas de clubes menores, como o Lito, o Belgrano, o Charley, ou o Club Bella Vista. Porém, desenganem-se os leitores que pensem que destes pequenos emblemas foram recrutados jogadores menores. Nada disso. Do Club Bella Vista, por exemplo, despontou naquela seleção nada mais nada menos do que um tal de José Leandro Andrade, de quem já aqui falamos em múltiplas ocasiões. Também deste clube surgiu José Nasazzi, que começou o seu legado de lenda do futebol charrúa neste campeonato sul-americano.

Vendaval de golos a abrir

Aguirre
O mítico Parque Central, casa do Nacional, acolheu todos os encontros deste campeonato, que abriu com um vendaval de golos protagonizados por argentinos e paraguaios. Venceram os primeiros por 4-3, com destaque para o atacante Vicente Aguirre, que atuava no Central Córdova, uma modesta equipa de Rosário, e que neste encontro apontou três dos quatro golos da albiceleste.

No dia 4 de novembro o Paraguai voltou a entrar em campo, desta feita para defrontar a equipa da casa. Diante 20.000 pessoas que lotaram o Parque Central, os charrúas só precisaram de 10 minutos para festejar o primeiro golo. Héctor Scarone foi o autor desse golo a favor dos uruguaios. No resto de jogo o Paraguai ofereceu grande resistência, a qual só seria quebrada a dois minutos do fim quando Pedro Petrone apontou o tento que confirmou a vitória da celeste.

Uma semana depois disputou-se o terceiro encontro deste campeonato, com o Brasil a entrar em campo ante o Paraguai. Com uma equipa composta por muitos estreantes nestas andanças internacionais, casos do guarda-redes Nélson da Conceição, de Pennaforte, Alemão, Mica, Nilo, Paschoal, Coelho, ou Amaro, o escrete sucumbiu aos pés dos guaranis por 1-0 (golo de Ildefonso López) e de pronto complicou as contas quanto a uma eventual revalidação do título de campeão das américas.

O definitivo adeus do Brasil a este torneio deu-se uma semana mais tarde quando defrontou a Argentina. Após uma primeira parte equilibrada, como comprovou a igualdade a um golo ao intervalo, os argentinos arregaçaram as mangas e a um quarto de hora do fim deram a machadada final no grupo orientado pelo treinador Francisco Bueno Netto, mais conhecido por Chico Netto.

Paraguai - Uruguai
Perante este quadro de resultados o encontro com os anfitriões não foi mais do que um mero cumprir de calendário para os brasileiros. Apesar de favorito o Uruguai só conseguiu chegar ao golo na segunda parte por intermédio de Pedro Petrone. Porém, e sem nada a perder ou a ganhar, a seleção brasileira mostrou-se corajosa e empatou a partida apenas três minutos volvidos por Nilo, ele que já havia marcado contra a Argentina. Reza a história que depois de bater o guardião Casella, Nilo desmaiou no terreno de jogo! A partir daqui a pressão uruguaia tornou-se intensa junto do último reduto brasileiro, e com apenas 15 minutos para jogar o Uruguai chegou ao segundo golo. Pedro Cea, lendário avançado do Nacional, desfez a igualdade. Brasil que neste jogo entrou em campo ostentando a bandeira uruguaia! Sinal de pazes entre as duas nações? Ficou a dúvida no ar.

Duelo do rio da Prata decide campeão

Um lance entre argentinos e uruguaios
Este quadro de resultados o derradeiro jogo da competição, entre Uruguai e Argentina, ganhava contornos de final, pois as duas equipas chegavam a este duelo com duas vitórias cada uma. E quem vencesse este terceiro encontro era por isso campeão!

E no relvado do Parque Central mais uma vez sobressaiu a classe de Pedro Petrone. Foi dele o golo que aos 30 minutos desbloqueou o nulo. Os locais mantiveram a vantagem praticamente até o final da partida, sendo que a dois minutos do fim, um contra-ataque permitiu a Pascual Somma selar a vitória uruguaia e chegar à quarta conquista do Campeonato Sul-Americano por parte da celeste desde a criação da prova em 1916.

Na condição de campeão da América do Sul o Uruguai ganhou o direito a participar nos Jogos Olímpicos do ano seguinte, cujo torneio de futebol era tão só a maior competição futebolística daquela época, em que, como se sabe, o Campeonato do Mundo da FIFA ainda não havia visto a luz do dia. E seria precisamente em Paris que os uruguaios alcançariam o patamar da imortalidade.

A figura: Pedro Petrone

A par do argentino Vicente Aguirre ele foi o melhor marcador deste Campeonato Sul Americano de 1923. Marcou em todos os encontros da celeste e foi preponderante na conquista do título. Aquando da realização da competição atuava no modesto Charley (de Montevideu) e fez a sua estreia pela seleção do seu país precisamente neste torneio diante do Paraguai. Nasceu a 11 de junho de 1905, na capital do Uruguai, mais concretamente no Bairro la Comercial. Aos 15 anos já era a estrela maior do hoje desaparecido Charley de Montevideu, devido ao seu enorme poder de fogo, ou por outras palavras, talento para o golo. A sua estreia pelo Charley foi inesquecível, já que no Parque Central, contra o Lito, o seu clube venceu por 4-0 com quatro golos seus.

Em 1924 e fruto da sua fenomenal performance nos Jogos Olímpicos de Paris, mudou-se para o gigante Nacional, onde permaneceu até 1931. Participou, a título de exemplo, na grande digressão europeia realizada pelo Nacional, na qual foi não só autor de 15 golos, mas também um dos principais jogadores em destaque.

Em 1931, Perucho, como era carinhosamente conhecido pelos inchas, muda-se para a Europa, onde em duas temporadas defendeu as cores da Fiorentina. Pelo seu passe os italianos pagaram na altura a fortuna de 30.000 liras! Em Itália não foi muito feliz, perdeu alguma da velocidade que o caracterizava na América do Sul, mas ainda assim na sua primeira época marcou 25 golos em 27 jogos, vencendo juntamente com Angelo Schiavio, do Bologna, o título de artilheiro da Série A. Divergências com o treinador da equipa viola, Hermann Felsner, fizeram com que o atacante uruguaio voltasse em 1933 a casa para jogar uma temporada pelo Nacional, onde apontou 30 golos em 1930 e voltou a ganhar o título de campeão nacional, antes de terminar a sua carreira com apenas 28 anos. Ainda hoje o seu nome é recordado em todo o Uruguai, não só pelos golos que marcou mas por ter sido um dos principais nomes da maior geração de sempre do futebol uruguaio, a geração que aos títulos olímpicos de 1924 e 1928 juntou o ceptro de campeã do Mundo de 1930. Ele esteve nestas conquistas todas, ao serviço de uma seleção cujas cores defendeu em 29 ocasiões, tendo marcado 24 golos. Pedro Petrone é o seu nome.

Nomes e números:

29 de outubro de 1923

Argentina - Paraguai: 4-3

(Saruppo, 18; Aguirre, 58, 77, 86)

(Rivas, 10; Zelada, 50; Fretes, 759

 

4 de novembro de 1923

Uruguai - Paraguai: 2-0

(Scarone, 11; Petrone, 88)

 

11 de novembro de 1923

Paraguai - Brasil: 1-0

(López, 56)

 

18 de novembro de 1923

Argentina -  Brasil: 2-1

(Onzari, 11; Saruppo, 76)

(Nilo, 15)

Brasil entra em campo com a bandeira do Uruguai
 25 de novembro de 1923

Uruguai - Brasil: 2-1

(Petrone, 56; Cea, 75)

(Nilo, 58)

Lotação esgotada na "final" entre Uruguai e Argentina no Parque Central
 2 de dezembro de 1923

Uruguai - Argentina: 2-0

(Petrone, 28; Somma, 88)

 

Classificação:

1.º Uruguai: 6 pontos

2.º Argentina: 4 pontos

3.º Paraguai: 2 pontos

4.º Brasil: 0 pontos