domingo, janeiro 06, 2008

Grandes Mestres da Táctica (2)... Otto Glória

Nascido no Rio de Janeiro, no dia 9 de Janeiro de 1917, este homem de ascendência portuguesa (o seu avó paterno era açoriano e o seu avó materno oriundo de Vila Nova de Gaia) foi o treinador mais vitorioso que passou pelo futebol português. Otto Martins Glória, ou simplesmente Otto Glória, é o grande mestre da táctica que hoje vamos visitar no Museu. O seu percurso no futebol foi iniciado na qualidade de jogador, tenho actuado em clubes da sua cidade natal, nomedamente o Vasco da Gama, Botafogo e Olaria. Contava apenas com 25 anos quando pendurou as chuteiras e iniciou uma fantástica carreira de treinador, tendo-lhe sido confiadas na altura as equipas de futebol juvenil do Vasco da Gama. Posteriormente passou a adjunto do técnico Flávio Costa na equipa principal, não tardando muito a assumir ele o comando técnico dos vascaínos. No Botafogo conquistou o primeiro título como condutor de homens, o Campeonato Carioca de 1948. O seu talento chegou aos ouvidos dos dirigentes do futebol português, tenho o presidente do Benfica daquela época, Joaquim Bogalho, feito uma aliciante proposta ao jovem técnico para vir para Portugal orientar os encarnados.

Chegar, ver, e vencer...
Chegou a Lisboa no dia 24 de Junho de 1954, e desde logo impôs uma profunda remodelação no futebol do Benfica. Com uma forte personalidade e muito saber Otto faria a dobradinha (campeonato e taça) logo no seu primeiro ano de futebol português, na época 1954/55. Ficaria no clube da Luz nas quatro temporadas seguintes, tendo conquistado mais um campeonato nacional (em 56/57), e mais duas Taças de Portugal (56/57 e 58/59). Deixou o Benfica nas vésperas do clube partir para as conquistas das suas duas Taças dos Campeões Europeus, entregando o comando da equipa a Bela Guttman, de quem já aqui falámos em Agosto de 2006. Apesar das vitórias europeias dos encarnados terem sido alcançadas pelo treinador húngaro muito do trabalho base iniciado é obra de Otto Glória. Saído do Benfica Otto viajou até ao Restelo, para orientar o Belenenses, onde esteve duas temporadas, tendo logo na primeira (59/60) dado ao emblema da Cruz de Cristo a Taça de Portugal. Seguiu-se novo clube da capital, desta feita o Sporting, onde ficaria durante uma época e... alguns dias, pois sairia no início da temporada 61/62 devido a desentendimentos de nível directivo. Depois de Lisboa Otto rumaria ao Porto para treinar o clube mais emblemático desta cidade, o FC Porto. Não seria muito feliz nos dois anos em que esteve na Invicta, tendo por duas vezes ficado à porta do título nacional (dois 2ºs lugares) e perdido a final da Taça de Portugal de 63/64. Voltaria ao Sporting, em 65/66, para ao serviço dos leões conquistar mais um título de campeão nacional. Mas como se costuma dizer: não há amor como o primeiro, e Otto voltaria na época seguinte ao Benfica, tendo nas três épocas em que lá ficou vencido por mais duas vezes o campeonato nacional e também por duas vezes a Taça de Portugal. No total foram cinco campeonatos nacionais e seis Taças de Portugal. Notável...


O comandante dos Magriços no Mundial de 1966
Os bons desempenhos de Otto Glória ao serviço dos quatro maiores (na altura) clubes portugueses não passaram despercebidos à Federação Portuguesa de Futebol, que em 1966 o chamaria para treinar a selecção nacional (o seleccionador português era Manuel da Luz Afonso, sendo que Otto era, por assim, dizer o treinador de campo) que nesse ano disputou o Mundial de Futebol, que decorreu em Inglaterra. O resto é história, como toda a gente sabe, e que bela história! Portugal escreveria neste Mundial a página mais bonita da sua história, classificando-se num até hoje inigualável 3º lugar fruto da magia de Eusébio, Coluna, Simões, Jaime Graça, Torres, Hilário, Vicente, José Pereira, José Augusto, e claro... Otto Glória. Este brilharete no Mundial de 1966 abriu as portas do futebol europeu a Otto, que treinaria o Atlético de Madrid entre 1966 e 1968 (antes tivera uma passagem fugaz, em 1962, pelo Marselha, sem sucesso)... sem ter atingido o sucesso que obteve no nosso país. Em 1968, de regresso a Portugal, esteve perto da glória europeia, atingindo a final da Taça dos Campeões Europeus ao serviço do Benfica, que em Wembley seria derrotado por 1-4 pelo Manchester United de Charlton, Law e Best. Depois de Portugal Otto treinaria no México (no CF Monterrey), na Nigéria, e terminaria a carreira no seu país natal, tendo aí orientado a Portuguesa (onde se sagrou campeão paulista em 1973), o Santos, e o Vasco da Gama, tendo-se retirado em 1983 ao serviço deste clube. Homem de diálogo fácil, algumas das frases mais bombásticas que fizeram história no futebol português são da sua autoria, como por exemplo: «Em Portugal, quando se perde o treinador é chamado de "Besta". Quando vence, de "Bestial"». Morreria a 2 de Setembro de 1986, no Rio de Janeiro, um dos mais brilhantes treinadores da história do futebol português.
Legenda das fotografias:
1- Otto Glória
2- Festejando a conquista da Taça de Portugal de 59/60 pelo Belenenses
3. O "onze" de Portugal, ante a Bulgária, no Mundial de 1996, comandado por Otto

3 comentários:

João Pedro disse...

Treinou mais clubes do que sei lá o quê!!!

Outros tempos... pois não vejo os técnicos brasileiros como uma boa escola!

Miguel Barros disse...

Hoje em dia de facto são (muito)poucos os técnicos brasileiros que caberiam em qualquer equipa/selecção do Mundo.

Realmente já não se fazem técnicos como Otto Glória, Flávio Costa, Vicente Feolla, ou Mário Zagallo, nomes que marcaram o Brasil, e o Mundo, enquato treinadores de futebol.

Actualmente há um treinador que me suscita algum interesse, de seu nome Marcos Paquetá, que teve uma trajectória fantástica nas selecções jovens do Brasil, digamos que fez um trabalho semelhante ao que o Carlos Queirós fez nas selecções jovens de Portugal. Bom trabalho de Paquetá que lhe valeu um convite da Árabia Saudita há cerca de ano e meio, para orientar nada mais nada menos que a principal selecção daquele país no Mundial 2006. Não foi feliz, mas também com uma equipa daquelas pouco mais podia fazer. Actualmente está numa equipa do Qatar. Mas julgo que tem talento para estar à frente de um grande clube brasileiro ou mesmo europeu.

Mas nem toda a gente tem a sorte de Luíz Felipe Scolari, ou seja, um treinador medíocre que teve sempre a sorte de treinar grandes clubes/selecções que lhe valeram títulos...
Deus dá nozes a quem não tem dentes...

Adedayo disse...

Olá Senhor,

Meu nome é Adedayo Oke. Eu sou um Consultor IT com um grande interesse em esportes e ter publicado um livro sobre a história do futebol nigeriano.

(http://www.africabookcentre.com/acatalog/fromUKtourists.jpg)

(http://cgi.ebay.com/ws/eBayISAPI.dll?ViewItem&item=230337268550)

Estou actualmente a trabalhar num novo projecto que é um documentário (DVD) versão sobre a história da Nigéria National Team e pergunto-me se você pode ser capaz de me ajudar com informações sobre um dos antigos treinadores - Otto Glória. O que eu preciso é possível de contactos de qualquer dos seus familiares ou pessoas que trabalharam com ele no Benfica ou Sporting para que eu possa realizar uma entrevista.

Qualquer ajuda será bem-vinda.

Kind Regards

Adedayo Oke