terça-feira, junho 16, 2020

Arquivos do Futebol Português (10)...


A norte enquanto que o Football Club do Porto estava em estado de hibernação – recorde-se que o clube havia sido fundado em 1893 por António Nicolau d’ Almeida, tendo entre 1896 e 1906 conhecido um período de letargia de 12 anos, sendo refundado, digamos assim, por José Monteiro da Costa – nasce a 1 de agosto de 1903 o Boavista Foot-Ballers. E nasce pela mão de dois entusiastas da bola, os impulsionadores do nascimento do clube, pois era deles o esférico que começou a saltitar pela primeira vez (dizem) ali na zona da Boavista. Harry e Dick Lowe foram presenteados pelo seu pai com uma bola de futebol vinda propositadamente de Inglaterra para a Cidade Invicta.
Moravam na Rua Fonte Arcada, onde nas imediações existia um terreno baldio, tendo ali agregado um grupo de amigos que juntamente com empregados e técnicos ingleses da Fábrica de Têxteis Graham começaram a dar um chutos na redondinha. Estava dado o pontapé de saída de um novo clube.
Mudam-se mais tarde para uns terrenos no Bessa, e oficialmente numa casa da Rua do Pinheiro Manso é formada por ingleses e dois portugueses – Pedro Brito e Maximiano Pereira – o The Boavista Foot-Ballers. O resto…é história.
O clube começa a partir dai a entrar em campo para defrontar grupos vizinhos, sobretudo o grande emblema tripeiro de então, os ingleses do Oporto Cricket Club. Harry Lowe, Joaquim Ferreira, Andersen, Dick Lowe, Stuary Owen,Richard Lowe, Ângelo Seixas, John Jones, Manuel Ribeiro da Silva, Francisco Bastos e Percy são os primeiros nomes que defendem o símbolo que haveria de tornar-se num dos maiores clubes do futebol nacional décadas mais tarde.

Porém, a harmonia entre britânicos e lusos no seio do novo clube durou apenas seis anos, pois em 1909 uma questão religiosa esteve na origem da “separação de águas”. Isto é, os ingleses da Fábrica Graham recusavam-se a jogar ao domingo por respeito às “regras” da Igreja Anglicana, contrariamente aos portugueses, para quem o domingo era o único dia em que estariam livres para correr atrás da bola nos retângulos do Belo Jogo. Reuniram-se os associados, e o braço de ferro foi ganho pelos portugueses, tendo os ingleses abandonado o grupo e assim entregue os destinos do clube aos lusos.
Muitas alterações foram realizadas de lá para cá, desde logo a designação do clube que passou a chamar-se Boavista Football Club e mais tarde Boavista Futebol Clube.
Outra data que poderemos destacar nesta nossa breve resenha remonta a 1933, ano em que surgem as famosas camisolas axadrezadas com as cores preto e branco. O “culpado” das hoje conhecidas internacionalmente camisolas axadrezadas do Boavista é Artur Oliveira Valença, um entusiasta pelo fenómeno desportivo que ao assumir a presidência do clube implementou a camisola de xadrez preto e branco, um modelo que havia visto numa viagem a França. Taças de Portugal, Supertaças de Portugal, um título de campeão nacional da I Liga, dezenas de presenças nas competições europeias constituíram de lá para cá a gloriosa história deste enorme clube português.
Mas voltando atrás, a 1903, importa sublinhar que por esta altura continuavam a ser os mestres ingleses a dominar o panorama futebolístico em Portugal.
E se no Porto, como já vimos, o Oporto Cricket era o emblema a abater, na capital o Carcavellos Football Club, ou o Lisbon Cricket Club dominavam o jogo da bola. Mas os tempos haveriam de mudar num ápice…

Arquivos do Futebol Português (9)...


Fernando e Eduardo Luís Pinto Basto,
dois dos fundadores do CIF
Em 1902 é lançada a “semente” daquele que viria a ser o primeiro grande clube português de football, o Clube Internacional de Futebol, popularmente designado por CIF. Estávamos em 8 de dezembro do citado ano quando numa sala do Clube Naval Madeirense e por influência da família Pinto Basto nasce o clube que venceu a maior parte dos grandes confrontos futebolísticos da primeira década do século XX. E nasceu a 8 de dezembro porque esse era o dia de Nossa Senhora da Conceição, a Padroeira de Portugal.
No capítulo da fundação é ainda de realçar que Fernando e Luís Pinto Basto foram dos elementos que mais trabalharam para a criação do clube, tendo, inclusive, o primeiro deles sido um dos jogadores mais destacados do emblema, na condição de capitão de equipa e temível – para os adversários – avançado-centro.
Abra-se ainda aqui um parêntese para explicar que a designação oficial do clube, ou seja, CIF, só começa a aparecer em 1905, sendo que antes a coletividade competia sob a designação de Grupo dos Irmãos Pinto Basto, ou Football Club Swifts. É por isso que o nome CIF só começa a figurar nas páginas dos jornais da época por volta de finais de 1905 em diante.
Além dos irmãos Pinto Basto outro nome incontornável do início da História do futebol português ficou ligado à fundação do clube: Carlos Villar, que foi mesmo o primeiro presidente do clube. Também Plácido Duro e Paulo de Almeida Eça contribuíram para o nascimento do emblema lisboeta.

Uma das primeiras equipas do CIF nos anos 10
A História diz-nos ainda que o clube foi renomeado para Clube Internacional de Futebol pelo facto de que atendendo à diversidade de nacionalidades dos seus integrantes – havia muitos estrangeiros, sobretudo ingleses nas suas fileiras – seria mais propício colocar a palavra Internacional na nova designação do clube. Reza a ainda a História que os primeiros desafios do CIF, quando ainda não o era, aconteceram logo após a sua fundação em 1902. E todos eles de caráter amigável, contra grupos lisboetas vizinhos, como os ingleses do Carcavelos Club e do Lisbon Cricket Club.
O primeiro grande rival do CIF foi o Sport Lisboa – o futuro Sport Lisboa e Benfica – cujo primeiro desafio entre os dois emblemas acontece em março de 1904, com a vitória a pertencer ao grupo do Sport Lisboa por 1-0. A partir daqui nasce uma intensa rivalidade entre os dois clubes.
O CIF fez parte dos primeiros grandes torneios/competições do futebol nacional, ou do futebol jogado na capital, pois foi ali que foram disputadas as primeiras grandes provas futebolísticas. 1910 é o ano da fundação da Associação de Futebol de Lisboa e com ela nasce o primeiro campeonato oficial de Lisboa, com sete clubes inscritos, nomeadamente o Benfica, o Sporting, o Campo de Ourique, o Império, o Lisboa Football Club, o União Belenense e o CIF, último clube este que viria a sagra-se no primeiro campeão do primeiro Campeonato de Lisboa oficial. Um marco para a história de um clube que se desligou do futebol – de alta competição – em 1924 “para preservar o ideal olímpico e a defesa do desporto amador que presidira à sua fundação”, assim reza a História de um clube que hoje é um dos mais ecléticos do país mas sob o signo do amadorismo.

Símbolo do Sport Clube de Belas
E já que no início deste breve apontamento falamos em “sementes”, não podemos deixar de evocar que 1902 é o ano que marca o nascimento do Sport Clube de Belas, nada mais nada menos do que o primeiro antepassado do Sporting Clube de Portugal. Estávamos no verão de 1902 quando os irmãos Gavazzo (Francisco e José), acérrimos amantes do football, fundam em Sintra o Sport Clube de Belas, com a ajuda de alguns amigos pertencentes à família Pinto Basto. A estreia do novo clube teve batismo real, isto é, contou com a presença de Suas Majestades o Rei D. Carlos I e a Rainha D. Amélia, que se faziam acompanhar do (filho) Infante D. Manuel (que seria o último rei de Portugal). Estávamos a 26 de agosto de 1902, por alturas das Festas de Nossa Senhora do Cabo, tendo o Belas vencido por 3-0 uma equipa (de nome desconhecido) local. Francisco Gavazzo, Eduardo Luiz Pinto Basto, Alves Bernaut, José Gavazzo, Pedro Joyce, Bello, Guilherme Machado, Alberto Machado, Fernando Pinto Basto, António Joyce e António Bibiano, foram os primeiros homens que envergaram nesse dia histórico o manto sagrado do Belas pela primeira vez na história do clube.

Os irmãos Gavazzo
entre amigos
A história do Belas durou, porém, muito pouco tempo, quase como um amor de verão, passageiro, já que no final desse verão quando regressaram a Lisboa os irmãos Gavazzo decidiram criar outro clube sediado na zona onde habitavam, o Campo Grande. E assim nascia o Campo Grande Football Club, que só veria oficialmente a luz do dia dois anos mais tarde.

No plano individual importa ressalvar neste ano a importância de um dos principais nomes que gravitavam em torno do futebol português: Pedro del Negro. Um verdadeiro desportista multifacetado que praticou remo, equitação, ténis, ciclismo, ginástica, futebol, luta greco romana, ou luta de tração, e que por estes dias colocava em prática os seus conhecimentos futebolísticos ao serviço do Football Club Campo de Ourique, um dos mais fortes clubes da época. A sua dedicação ao desporto não se ficou contudo pela prática das modalidades, na condição de atleta ou de treinador, mas também na condição de dinamizador (da modalidade), árbitro e dirigente. Em 1914 foi um dos fundadores da União Portuguesa de Futebol antecessora da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e em 1910 participou na fundação da Associação de Futebol de Lisboa. Fez parte do grupo de selecionadores nacionais nomeados em 1921 pela FPF para escolher a primeira equipa portuguesa que participou oficialmente num jogo internacional em Madrid, contra a Espanha. Como futebolista teve o primeiro contacto com o Belo Jogo no Colégio Arriaga, onde foi aluno interno, tendo posteriormente rumado ao Campo de Ourique onde foi jogador e treinador.

 Vídeo: Um pouco de História do CIF e do primeiro troféu disputado em Portugal, a Taça Rei D. Carlos I, que hoje se encontra na posse do célebre clube lisboeta

terça-feira, maio 05, 2020

Histórias do Planeta da Bola (25)... Claude Bez, o homem que sonhou fazer do Bordéus o primeiro galático do futebol francês

O excêntrico Claude Bez

Quem hoje em dia olha para o futebol francês, e para o campeonato gaulês em concreto, facilmente percebe o abismal desnível entre o Paris Saint-Germain (PSG) e o resto do pelotão futebolístico. Vestindo e pele de novos ricos não só em França como igualmente na Europa do futebol, os parisienses dominam sem grande esforço o panorama nacional enquanto ambicionam época após época ascender ao patamar da glória internacional na sequência da sonhada conquista da Liga dos Campeões Europeus. Mas será que vai lá chegar? Será que o infindável dinheiro catari que abunda nos cofres do PSG vai levar o emblema da capital francesa à glória internacional? Estas são perguntas que até hoje ainda não tiveram uma resposta.
E são igualmente questões que nos levam à (longa) viagem ao passado que hoje damos início, à história do primeiro novo rico do futebol francês que sonhou e... falhou por muito pouco a conquista da glória continental.
E essa história leva-nos até ao sudoeste de França, até à nova Paris, à capital do famoso vinho francês onde na década de oitenta nasceu uma das melhores colheitas do futebol gaulês pelas mãos de um polémico visionário que transformou não só o clube da sua cidade natal como o próprio futebol gaulês. A história de hoje centra-se em Claude Bez e no seu Girondins de Bordeux, ou Bordéus no idioma de Camões.

O megalómano gordo de bigode farfalhudo

Gordo, de bigode farfalhudo, Claude Bez - um revisor oficial de contas nascido a 4 de novembro de 1940, em Bordéus - chegou ao clube da sua cidade na década de 70, numa década em que Les Verts do Saint-Étienne e o Nantes dominavam o futebol francês.
França vivia o início de uma era verdadeiramente dourada do seu futebol, a qual era liderada pelo genial Michel Platini, o craque do Saint-Étienne que em 1982 iria dar o salto para a poderosa Juventus.
Quatro anos antes desta transferência o então tesoureiro do Bordéus dá um passo de gigante ao assumir a presidência do clube com o sonho - megalómano - de o levar ao topo do futebol europeu. Essa figura era o excêntrico Claude Bez.

Girondinos que até aquela altura não ostentavam no seu palmarés mais do que um par de títulos, nomeadamente um campeonato nacional (1950) e uma Taça de França (1941). Com a chegada de Bez ao poder tudo mudou. Antes da sua chegada à cadeira da presidência - facto ocorrido a 1 de agosto de 1978 após a renúncia do então presidente Jean Roureau - o Bordéus arrastava-se penosamente na Ligue 1 (1.ª Divisão gaulesa) com performances modestas e classificações condizentes com a sua (má) prestação nos relvados franceses. A título de exemplo, na década de 70 a melhor classificação dos girondinos foi um 5.º lugar, em 70/71, sendo que entre 1972 e 1975 nem sequer superou o 10.º lugar da tabela e em 1977/78 acabou em 16.º lugar a apenas um ponto da despromoção.
Seria, precisamente, no final desta péssima temporada que o então vice-presidente e tesoureiro do clube, Claude Bez, assumiu a presidência.

A chegada de Bez ao leme não trouxe porém os resultados positivos imediatos que o mítico dirigente tinha já em mente para o clube. A sua ambição em fazer do Bordéus o melhor clube de França e um dos melhores da Europa ainda teve de esperar uma boa mão cheia de anos, pese embora desde a sua chegada ele tudo fez para que essa meta fosse atingida o mais rápido possível. E como o fez? Contratando alguns dos melhores jogadores franceses de então e treinadores de renome internacional.

Parada de estrelas chegam a Bordéus para fazer companhia a Alan Giresse


O lendário capitão do Bordéus Alan Giresse
De frisar que a equipa antes da chegada de Bez não era orfã de craques da bola, muito pelo contrário, pois no seu plantel figurava desde 1971 um dos melhores jogadores gauleses da célebre geração de Platini que em 84 guiou a França ao título continental de seleções e a brilhantes presentes nos Mundiais de 82 e 86 - onde em ambos atingiu as meias-finais. Alan Giresse, o seu nome. O pequeno pensador, ou o motorzinho, alcunhas pelas quais ficou conhecido quer ao serviço do Bordéus , quer ao serviço da seleção nacional, pelas ideias mágicas que impunha no relvado e pela forma talentosa como conduzia o jogo das suas equipas, este gigante de 1,62m formou com Michel Platini, Jean Tigana e Luis Fernández um dos meios campos mais sublimes e encantadores da História do futebol planetário.
Mas voltemos a Bordéus, onde ao longo da década de 70 a equipa era constituída por Giresse e mais 10. Faltava claramente ajuda ao pequeno mosqueteiro francês para catapultar os girondinos para patamares mais altos. E ainda como Bez na qualidade de tesoureiro - embora já fosse o homem do dinheiro dentro do clube - chega a Bordéus o possante e sonante defesa central alemão Gernot Rohr, campeão europeu pelo Bayern nos anos 70, e em fim de contrato com os bávaros, pois ainda não havia grande liquidez financeira nos cofres do Bordéus para passos mais arrojados.
Rohr chegava para liderar o setor recuado onde já pontificava desde 1976 o jovem Jean-François Domergue, que viria igualmente a fazer parte da mítica seleção gaulesa de 84.  

Partida em falso...

A primeira época de Bez como presidente não foi famosa, longe disso, embora o número de contratações tivesse sido elevado para servir o conceituado e vitorioso treinador argentino Luis Antonio Carniglia. Este antigo jogador que despontou para o Mundo da Bola no Boca Juniors e que na Europa fez carreira em França, sobretudo ao serviço do Nice onde esteve quatro épocas nos anos 50, ficou célebre por levar (na condição de treinador) o Real Madrid à conquista de duas Taças dos Clubes Campeões Europeus (1958 e 1959).
Quando aterrou em Bordéus, Carniglia tinha já passado a barreira dos 60 anos, mas na bagagem trazia uma vasta experiência (de treinador) obtida em países como Espanha, Itália e Argentina.
Em 78/79 o Bordéus de Carniglia não foi além de um modesto 10.º lugar numa liga conquistada pelo modesto e surpreendente Estrasburgo. Esta péssima classificação fez com que Bez despedisse o técnico argentino, e para o seu lugar foi buscar outro peso pesado das táticas, o belga Raymond Goethals, cujo currículo dispensava apresentações. Era um dos melhores treinadores do planeta, tendo guiado a seleção belga no Europeu de 1972 e no Mundial do México dois anos antes. Seria, porém, ao serviço de clubes que mais se iria distinguir, com conquistas de vários títulos nacionais ao serviço do Anderlecht e do Standard de Liège, clubes estes que guiou até duas finais europeias - da Taça das Taças - tendo mesmo vencido uma delas ao serviço do emblema da capital belga. Ironia das ironias, seria com Goethals que a Taça dos Campeões Europeus viajou pela única vez - até aos dias de hoje - para França. Foi em 1993, quando ao serviço do Marselha o belga surpreendeu o super Milan dos anos 90 numa final disputada em Munique. Mas a ironia desta conquista está no facto de que esse Marselha era presidido pelo grande rival, ou melhor, pelo maior inimigo, de Claude Bez no que toca ao controle do futebol francês: Bernard Tapie.

Um visionário desde que haja dinheiro no bolso

Aimé Jacquet, o mestre da tática que deu vida
a parte do sonho de Bez
Mas voltemos a 79/80, onde a Bordéus chegam reforços como Jean-Christophe Thouvenel, Daniel Tallineau. Felix Lacuesta, Omar Sahnoun, o argentino Juan Domingo Cabrera e os internacionais franceses Bernard Lacombe, Albert Gemmerich e Gerard Soler. Porém, nada disto foi suficiente para devolver o título nacional aos girondinos, como comprova um modesto - face à ambição de Bez - 6.º lugar, a 17 pontos do campeão Nantes.
Bez era tudo menos um homem paciente, e a prova disso é que nem o célebre  Goethals conseguiu segurar o seu lugar no banco do Bordéus para a época seguinte.
Bez percebia para chegar ao topo precisava de mais, sobretudo mais dinheiro, e na entrada dos anos 80 tenta convencer a Câmara de Bordéus a investir no clube da cidade, com o argumento de levar o nome da terra pelos quatro cantos do Mundo. Repare-se, que já na altura Claude Bez era um visionário, um homem à frente do seu tempo, pois já na altura percebia que sem dinheiro, sem um forte investimento, dificilmente o seu clube dominaria o futebol. No fundo, o que clubes como o PSG, Manchester City, Barcelona, Real Madrid, ou Bayern fazem hoje: investem fortunas para estar no topo.

Tigana, Battiston e Giresse
O Município atendeu ao pedido de Bez e injetou 6 milhões de francos no clube, que assim pôde fazer contratações ainda mais sonantes para o seu plantel, casos dos internacionais gauleses Marius Tresor e François Bracci.
Mas mais importante do que estas contratações foi a chegada do jovem técnico de 39 anos - vindo do Lyon - Aimé Jacquet. O seu nome, hoje, dispensa apresentações, estando nós perante o homem que revolucionou o futebol francês nas décadas de 80 e 90, primeiro ao serviço do Bordéus e depois ao serviço da seleção francesa.
Na primeira temporada de Jacquet os girondinos terminaram em 3.º lugar, que lhes valeu a qualificação para a Taça UEFA da época seguinte e mais do que isso devolveu Alan Giresse à seleção gaulesa, fruto das suas inolvidáveis exibições na temporada de 80/81.
Na época seguinte a fasquia financeira subiu, e a Câmara de Bordéus investiu mais 4 milhões de francos no clube para que este se pudesse reforçar ainda mais. E essa verba ajudou a trazer para Bordéus outra mega estrela do então futebol gaulês: Jean Tigana. O médio fazia a viagem de Lyon para o sudoeste de França onde iria reencontrar o seu antigo treinador no Olympique.
Para a baliza chegou o internacional jugoslavo Dragan Pantelic, que havia estado em bom plano no Mundial de Espanha; enquanto que para a defesa aterrava em Bordéus o argelino Nourdine Kourichi, também com excelentes prestações ao serviço da sua seleção no Mundial de 82.
Nessa temporada o Bordéus lutou até final pelo título, mas claudicou na reta final perante um super Mónaco, acabando por ficar na 4.ª posição.

Bordéus foi preponderante no êxito da França em 84

Apesar de esta aposta ainda não dar os seus frutos, o Bordéus era já um dos principais fornecedores de jogadores à seleção de França. Na brilhante campanha do Mundial de 82 Les Blues levaram para Espanha seis jogadores do Bordéus (Tigana, Giresse, Trésor, Girard, Soler e Lacombe).
Com o poderoso Saint-Étienne envolvido num escândalo financeiro e obrigado a vender a sua mega estrela Michel Platini para a Juventus, o caminho do Bordéus para o título ficou mais facilitado, digamos assim.
O Município de Bordéus voltou a puxar os cordões à bolsa, e passou para os girondinos mais 6 milhões de francos, que seriam gastos em jogadores como o guarda-redes Richard Ruffier, ex-Nimes, que substituiu o castigado Pantelic, que após na temporada anterior ter agredido um adversário foi suspenso durante vários meses; e ainda os defesas internacionais Leonard Specht e Raymond Domenech, e a mega estrela alemã Dieter Muller. Contratado ao Estugarda, este avançado era um dos mais talentosos e mortíferos do futebol europeu de então.
Em 82/83 a equipa de sonho do Bordéus fez jus ao nome e foi a melhor equipa do campeonato em futebol praticado. Apenas um senão: não foi campeão, esse foi o Nantes do goleador Vahid Halilhodzic.

Finalmente a glória

Bez estava cada vez mais perto do seu sonho. E para 83/84 contrata mais um internacional gaulês de peso: Patrick Battiston, que havia deixado um Saint-Étienne que ainda estava em chamas fruto da crise que atingiu o mítico clube.
O Bordéus estava cada vez mais forte dentro de campo, e essa temporada foi mesmo a da sonhada glória interna. Porém, a caminhada gloriosa teve um osso duro de roer, o Mónaco, que ao longo da época não largou por uma única vez os girondinos nos lugares cimeiros da Ligue 1. Ambos chegaram ao fim com os mesmos pontos conquistados: 54, mas com o Bordéus a levar a melhor na diferença entre golos marcados e golos sofridos.
50 anos depois o Bordéus era de novo campeão de França. O país já estava conquistado, e o próximo passo seria agora a Europa.
1984 foi, como já vimos, um ano de ouro para o futebol francês, já que pela primeira vez a seleção nacional conquistou um grande título internacional, neste caso o Europeu. Estava assim superada a mítica seleção de 1958 que no Mundial da Suécia deslumbrou o Planeta da Bola com o seu futebol champanhe. E nesse grupo de 84, liderado pelo mago Platini, o Bordéus era a par do Mónaco o clube mais representativo, com cinco jogadores (Tigana, Battiston, Giresse, Tusseau e Lacombe), sendo que quatro deles atuaram na final contra a Espanha realizada em Paris. Significava isto que o projeto de Bez estava a atingir o ponto, e mesmo com apenas um título nacional no bolso o Bordéus era já por esta altura o emblema Número 1 de França.
E agora empunha-se não só manter o estatuto de potência (interna) do futebol gaulês mas acima de tudo conquistar a Europa. E Claude Bez não olhava a cifrões na hora de continuar a alimentar o seu sonho.

Chalanix para dar asas ao sonho europeu...

Chalana
No Euro gaulês brilhou um pequeno (grande) jogador português, de farta cabeleira e de bigode, que mais fazia lembrar a personagem Astérix. A sua rapidez estonteante e o seu drible mirabolante valeram-lhe a entrada no 11 ideal desse Campeonato da Europa. Fernando Chalana, era o seu nome. Ou Chalanix, como passou a ser conhecido em França após a magia que transpôs para os relvados gauleses. Bez ficou louco com Chalana, tão louco que no verão de 84 pagou 220 mil contos ao Benfica pelo passe do "pequeno genial" como também era conhecido o atleta. Foi, aliás, o dinheiro desta transferência que permitiu ai Benfica concluir as obras do terceiro anel do antigo Estádio da Luz.
1984/85 marcava a estreia do Bordéus na mais importante prova de clubes do Mundo a nível de clubes, a Taça dos Campeões Europeus, e o excêntrico presidente do clube francês não fazia a coisa por menos: ganhar.
Além de Chalana, chegava igualmente a Bordéus o guarda-redes Dominique Dropsy, vindo do Estrasburgo, para agarrar a baliza que até então era de Delachet.
E se a nível interno o percurso dos girondinos foi feito quase em ritmo de passeio, e quase, por que o Nantes teimou em certas alturas da temporada em não facilitar a vida aos bordaleses, e que culminou com a conquista do bi-campeonato nacional, na Europa o sonho... morreu na praia e às mãos do compatriota Michel Platini.

O Athletic Bilbao (campeão de Espanha então treinado por Javier Clemente e onde pontificavam nomes como Zubizarreta, Andrínua, Sarabia, ou Julio Salinas) foi a primeira vítima a cair aos pés dos galáticos do Bordéus na primeira eliminatória. Muller, Battiston e Lacombe marcaram os golos da vitória por 3-2 na 1.ª mão, ao que se seguiu um empate a zero em San Mamés.
Na ronda seguinte novo osso duro de roer, desta feita o campeão romeno, o Dínamo de Bucareste, a quem o Bordéus venceu de forma sofrida por 1-0 na 1.ª mão realizada no Parc Lescure graças a um golo do alemão Muller. Por esta altura já Chalana se via a braços com as lesões que impediram de se tornar numa pedra chave deste dream team de Aimé Jacquet.
Chalana pouco ou nada jogava. Na segunda mão, em Bucareste, foi preciso prolongamento para apurar o Bordéus para os quartos-de-final, já que ao fim dos 90 minutos o Dínamo vencia por 1-0, tendo aos 113 minutos do tempo extra Lacombe marcado o 1-1 final que carimbou a passagem à ronda seguinte. O sonho de Claude Bez estava cada vez mais perto mas ao mesmo tempo sofrido, e nos quartos-de-final o opositor foi o então campeão soviético, o Dnipro, que impôs duas igualdades a uma bola aos franceses, facto que teve de decidir a eliminatória nas grandes penalidades, com o Bordéus a ser mais feliz. O Heysel (local da final) estava cada vez perto. Mas para lá chegar era preciso ser-se pouco cavalheiro e derrubar uma Velha Senhora do futebol planetário, a Juventus.

... que foi curto graças ao compatriota Platini

Juve desfez o sonho europeu do Bordéus
Já com Chalana no 11, recuperado de lesão, o Bordéus foi trucidado em Turim por uma Juve endiabrada sob a batuta do melhor jogador europeu de então: Michel Platini. 3-0 no Estádio Olímpico de Turim. Poucos acreditavam que no Parc Lescure o Bordéus pudesse dar a volta e seguir viagem rumo ao sonho europeu. Lotado, o estádio bordalês viu a sua equipa realizar uma exibição épica que quase derrubou a Juventus. 2-0 a favor dos girondinos, com golos de Muller e Battiston, foi insuficiente para Claude Bez colocar a cereja no topo do bolo.
Nas duas temporadas seguintes o Bordéus continuou a dominar o futebol francês. Com uma equipa que ia sendo rejuvenescida face à veterania que começava a ditar leis em jogadores como Lacombe, Giresse, ou Tigana, enquanto que Dieter Muller já tinha partido para o seu país após três épocas fantásticas nos girondinos, e Chalana continuava a dar sinais de fragilidades físicas, o Bordéus venceu a Taça de França de 1985/86 ao bater na final e após prolongamento o Marselha por 2-1, com golos das lendas Tigana e Giresse já em claro fim de linha.

Bez versus Tapie: inimigos de morte

Bez versus Tapie
Mais do que dois clubes em confronto esta final opôs dois homens que se odiaram de morte, se gladiaram pelo poder no futebol francês: Claude Bez e Bernard Tapie. Ambos, transformaram o futebol profissional francês. Para melhor ou para pior? As opiniões dividem-se. Por esta altura, já Bez há muito que via o futebol como um negócio de milhões, tendo sido o primeiro dirigente a envolver-se numa guerra com as televisões para extrair o dinheiro das transmissões de jogos pela TV. Ou seja, garantir para o seu clube os direitos televisivos, tão comuns nos dias de hoje. Tapie, um empresário de Marselha, entrou anos depois também em cena e com Bez desenvolveu a partir de então um braço de ferro titânico ao nível do setor dos direitos televisivos e não só no sentido de dominar o futebol francês... dentro e fora do campo.
Mas voltando ao futebol jogado, em 85/86 só o Championnat escapou ao Bordéus, já que o adolescente Paris Saint-Germain - com apenas 16 anos de vida - levou a melhor sobre a concorrência, deixando os girondinos em 3.º.
A juventude de Alan Roche e Jean-Marc Ferreri, a par da veterania de Tigana, Rohr, Battiston, Girard e Lacombe ajudou a alcançar uma época de ouro no plano interno na época seguinte, conquistado a famosa dobradinha (campeonato e taça) pela primeira vez na história do clube.
Esta temporada ficou igualmente marcada por mais uma batalha entre Bez e Tapie, com este último a dar uma machadada no excêntrico presidente do Bordéus quando levou para o sul de França o veterano Giresse, capitão de equipa e ídolo dos bordaleses durante anos a fio. Começava aqui a mudar o paradigma do futebol francês, com a passagem de testemunho de Bez para Tapie.
Porém, naquela temporada, e no retângulo de jogo, Bez levou a melhor sobre Tapie, já que além do campeonato arrebatou a Taça de França após bater na final... o Marselha, por 2-0. A temporada de 86/87 esteve perto de ser perfeita para os girondinos, já que na Taça das Taças, na altura a segunda competição mais importante da UEFA, estes caíram nas meias-finais aos pés do Lokomotiv de Lieipzig... no desempate por grandes penalidades.
Em 87/88 muitos jogadores até então fundamentais partiram de Bordéus, casos de Patrick Battiston, Specht, Chalana, ou Bernard Lacombe e caras novas chegaram ao plantel de Jacquet, que não conseguiu impedir que o Mónaco treinador por um jovem Arsène Wenger fosse campeão.
88/89 foi quase como o fim do sonho megalómano de Claude Bez, e apesar de o clube se reforçar com jovens promessas do futebol internacional, como o belga Enzo Scifo, ou os franceses Eric Cantona e Christophe Dugarry, para além de ter contratado o veterano avançado Yannick Stopyra ao Toulouse, que fez furor no Mundial de 86, o Bordéus não foi além de um impensável 12.º lugar de um campeonato onde Tapie e o seu l' OM levaram a melhor.

Escândalos, corrupção, declínio, prisão e morte

Envolvido numa série de escândalos nos tempos seguintes, desde logo por querer tomar de assalto os destinos do futebol francês, a nível federativo, onde fez uma campanha com o intuito de demitir o técnico Henri Michel. Intento que teve algum êxito, já que foi ele o responsável por levar Michel Platini para o cargo de selecionador francês após o fracasso da não qualificação para o Europeu de 88 onde a França iria defender o seu título de campeã.
Internamente, e após o fracasso de 88/89, Bez demite Aimé Jacquet, chamando de novo para o comando da sua equipa o belga Raymond Goethals, que na época seguinte por apenas dois pontos não tirou o título de campeão ao Marselha de Tapie. Esta boa temporada foi da responsabilidade de jogadores que haviam chegado nessa temporada, como o guardião camaronês Bell, o defesa alemão Manfred Kaltz,o dinamarquês Jasper Olsen, ou o avançado alemão Klaus Allofs.
A temporada seguinte começou com Goethals, que para reconquistar o ceptro de campeão havia ido buscar o avançado holandês Wim Kief, ao PSV, e quiçá, a aquisição mais saborosa dessa época, Didier Deschamps, roubado ao rival Marselha. Lembram-se de Giresse? Pois bem, Bez pagava agora na mesma moeda a Tapie, levando para o Parc Lescure um dos mais promissores futebolistas do l' OM. Só que Goethals apenas aguentou meia dúzia de jornadas no comando do Bordéus, cujos resultados em campo eram péssimos. O ex-central Gernot Rohr assumiu a equipa interinamente até Bez dar uma nova facada pelas costas a Tapie ao ir buscar o treinador do Marselha, Gérard Gili. Nada disto resultou, já que o Marselha com o campeão do Mundo de seleções Franz Beckenbauer no banco foi campeão e relegou o Bordéus para um penoso 10.º lugar.
Ultrapassado dentro das quatro linhas pelo inimigo Tapie, Bez via-se obrigado a golpes sujos para vencer. E em 1990 admite pela primeira vez ter contratado prostitutas para oferecer a árbitros. Foi precisamente neste ano que Claude Bez anuncia que deixa de ser o presidente do Bordéus, facto que não fez que deixasse de andar nas bocas do Mundo, muito pelo contrário, e sempre pelas piores razões. Nos anos seguintes é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, e em 1994 é condenado a dois anos de prisão. Cinco anos tarde teve um ataque cardíaco fatal. Morria a 26 de janeiro de 99 com 58 anos. Escandaloso, megalómano, sonhador, trapaceiro, o que é certo é que ele revolucionou o futebol francês e em particular o seu Bordéus, que desde a sua morte somente alcançou mais dois títulos de campeão nacional, uma Taça de França, e três Taças da Liga. Ainda hoje, todos os anos, um grupo de adeptos mais fanáticos dos girondinos coloca uma coroa de flores na campa de Claude Bez em sinal de respeito, agradecimento... e saudade.

quinta-feira, abril 09, 2020

14 anos celebrados em tempos de crise!

Em tempos de crise (pandémica) celebrar mais um ano de vida com saúde é quiçá por estes dias o melhor presente que podemos ter.
Pois bem, é com saúde (até ver) que o Museu Virtual do Futebol celebra neste mês de abril mais um aniversário.
São já 14 o número de anos que estamos de portas abertas à espreita de novas histórias para eternizar nestas vitrinas virtuais. Face aos "zig-zags" da vida que nos obrigam a desviar o foco de coisas simples que nos despertam uma infinita e acesa paixão - como escrever sobre o Belo Jogo -, o Museu tem trilhado nos últimos tempos o seu caminho de uma forma mais lenta do que aquela que gostaria.
Porém, a nossa tática para o futuro imediato passa por rapidamente alterar este paradigma, lançar o contra-ataque, e tal como fazia o número 14 mais célebre de todos os tempos (curiosidade das curiosidades, 14 é também o nosso número de "primaveras") destruir com elegância e magia as defesas contrárias - os nossos obstáculos, por outras palavras - para continuar a respirar... futebol.
Mas mais importante do que tudo nesta altura da vida de todos nós: CUIDEM-SE.