terça-feira, junho 19, 2018

Histórias do Futebol em Portugal (20)... Memórias de uma primeira vez na alta roda do futebol internacional (2.ª parte)


Cândido de Oliveira,
o Timoneiro
Esperança, vontade de aprender e orgulho em servir a pátria no palco mais importante do futebol mundial “invadia” o grupo português que partiu para Amesterdão no dia 22 de maio de 1928. Holanda, França, Luxemburgo, Argentina, Estónia, Egito, Bélgica, Turquia, Estados Unidos da América, Espanha, Uruguai, Alemanha, Chile, Suíça, México, Jugoslávia e Portugal, eis os integrantes do cartaz do torneio olímpico de 1928. Uns mais favoritos do que outros, naturalmente. Jornalistas de todo o Mundo rumaram a Amesterdão para acompanhar os JO, sendo que grande parte deles o fez pelo futebol, a modalidade que movia uma crescente massa adepta no globo terrestre. Alemanha apresentava o maior número de jornalistas presentes nos Jogos, com 54, ao passo que Portugal enviava somente oito, entre outros António Ferro (Diário de Notícias), Adelino Mendes (O Século), Salazar Correia (Ilustração), Ribeiro dos Reis (Os Sports) e Cândido de Oliveira (Diário de Lisboa). Esta última figura viajava para a Holanda com uma dupla função, não só com a responsabilidade de transformar – brilhantemente, como era seu apanágio – em notícia os acontecimentos de Amesterdão, mas sobretudo o de liderar sob o ponto de vista técnico o combinado nacional. Cândido Fernandes Plácido de Oliveira (nasceu a 24 de Setembro de 1896), é uma das figuras mais marcantes da história do futebol em Portugal. Mestre Cândido – como era conhecido – foi o primeiro grande estudioso do futebol em Portugal, responsável maior pelo aparecimento da seleção nacional, trabalhador incansável no sentido de que o futebol português se colocasse ao nível do que acontecia nos outros países da Europa, sobretudo nas suas vertentes organizativas. 

A comitiva nacional antes
partida para Amesterdão
Como já referimos, a comitiva nacional embarcou no Sud Express (comboio) rumo a Amesterdão no dia 22 de maio de 1928. Largas centenas de pessoas foram à gare do Rossio saudar e endereçar votos de “boa sorte” aos “embaixadores” do futebol nacional. A partida foi entusiástica, calorosa e vibrante. Os aplausos da multidão só pararam de se ouvir quando o comboio desapareceu de vista na escuridão do túnel do Rossio. O país – ainda que representado por algumas largas dezenas de entusiastas que marcaram presença no momento do embarque – depositava uma entusiasmante esperança em António Roquete (Casa Pia), Carlos Alves (Carcavelinhos), Jorge Vieira (Sporting), Raul “Tamanqueiro” Figueiredo (Benfica), Augusto Silva (Belenenses), César de Matos (Belenenses), José Manuel Soares “Pepe” (Belenenses), Vítor Silva (Benfica), José Manuel Martins (Sporting), Cipriano dos Santos (Sporting), Jorge Tavares (Benfica), Liberto dos Santos (União de Lisboa), Alfredo Ramos (Belenenses), Armando Martins (Vitória de Setúbal), João dos Santos (Vitória de Setúbal), Aníbal José (Vitória de Setúbal), Óscar de Carvalho (Boavista) e Valdemar Mota (FC Porto). Estes eram os heróis nacionais do povo português, os jogadores que iriam defender a pátria no então palco principal do futebol mundial. Com estes seguiam Salazar Correia, Ribeiros dos Reis e Cândido de Oliveira, que além de jornalistas integravam igualmente os quadros da Federação Portuguesa de Futebol, aos quais se haveria de juntar, em Paris, o tenente-coronel Manuel Latino, membro do Comité Olímpico de Portugal. 

A viagem até Amesterdão durou 40 horas (!), tendo pelo meio a comitiva lusa feito uma escala em Paris, onde pernoitou antes de assentar arraiais na Holanda. Chegados ao país da Tulipas – cerca das 22H00 do dia 24 de maio – ecos de descontentamento desde logo se fizeram ouvir pelos jogadores lusos em consequência da verdadeira espelunca em que foram despejados. As dormidas eram no Holland Hotel, ao passo que as refeições eram servidas no Hotel Suisse. Quartos pequenos e comida má, eram queixas recorrentes dos guerreiros lusos. O primeiro treino da seleção em solo holandês ocorreu – no dia seguinte – no campo do Ajax, clube este cujo massagista foi contratado pela nossa federação para tratar da saúde física dos nossos rapazes. Ainda no dia 24 a FIFA realiza em Amesterdão um congresso, tendo o seu mítico presidente, Jules Rimet, recebido das mãos da rainha Guilhermina (da Holanda) uma condecoração na sequência dos serviços prestados em prol da dinamização do futebol planetário. Rimet agradeceu, cumprimentou todas as delegações presentes e falou na união de todas as nações através do desporto e do futebol em particular. Estavam lançadas as sementes do que viria a ser uma realidade dois anos depois: o nascimento do Campeonato do Mundo da FIFA. O sonho de Jules Rimet estava a caminho. 

Fase do duro
duelo com o Chile
O sorteio do torneio olímpico ditou que o estreante Portugal teria de enfrentar outra seleção nova nestas andanças internacionais: o Chile, numa pré-eliminatória. Feita à adaptação ao “excelente relvado” - segundo nota dos responsáveis técnicos lusos – do Olímpico de Amesterdão, a seleção entrou em ação no dia 27. Sob arbitragem do egípcio Mohamed, Portugal alinhou com: Roquete, Carlos Alves, Jorge Vieira (capitão de equipa), Raul Tamanqueiro, Augusto Silva, César de Matos, Valdemar Mota, Pepe, Vítor Silva, Armando Martins, e José Manuel Martins.
No caminho para o estádio o entusiasmo reinava entre os portugueses. Ainda no hotel, antes da entrada no autocarro que os iria conduzir ao Olímpico de Amesterdão, a comitiva entuou a “Portuguesa”, um ato sentimental e de profunda emoção conforme foi descrito pelos presentes  como um sinal de união e determinação em defender de forma briosa a pátria. O pontapé de saída do encontro ante os chilenos foi dado às 15H00, e desde cedo os sul-americanos atacaram energicamente a baliza de Roquete, sendo que logo ao minuto três abriram o marcador. 

O genial Pepe
Os portugueses pareciam nervosos, cometendo vários erros, e apercebendo-se desse facto aliado à vantagem que tinham no marcador, os chilenos continuariam a carregar no acelerador e aos 14 minutos ampliam a vantagem. Depois disto, abrandaram o ritmo e Portugal acordou! O génio de Pepe começou a aparecer pela ala esquerda. Os lusos começaram a atacar com mais perigo, tendo construído e perdido algumas ocasiões flagrantes de golo. Vítor Silva é um dos perdulários. Os centro campistas chilenos usaram e abusaram da dureza, tendo Armando Martins por duas ocasiões sido vítima da extrema agressividade dos sul-americanos, tendo numa delas tido sido transportado em braços para fora do terreno de jogo. Reduzidos momentaneamente a dez elementos os portugueses não tremem, mas numa perigosa investida chilena valeu a atenção e mestria – na tarefa de bem defender a baliza – de Roquete com um espetacular mergulho a evitar o terceiro. E eis que já com Armando Martins em campo, o até então desinspirado avançado Vítor Silva começa a redimir-se e na sequência de um magistral cruzamento de Pepe reduz, aos 38 minutos, a desvantagem lusitana.
O golo animou as hostes portuguesas e dois minutos volvidos Pepe dá o melhor seguimento a um cruzamento de César de Matos e restabelece a igualdade com que se atingiu o intervalo. 

A segunda parte foi inteiramente dominada pelos portugueses. Na sequência de um canto, a bola é aliviada para longe da zona de perigo, mas José Manuel Martins recupera o esférico a favor dos lusitanos, cruzando em seguida para a cabeça de Pepe endereçar o esférico para o interior da baliza à guarda de Ibacache. 3-2 e pela primeira vez Portugal estava na frente do marcador. O Chile corre então atrás do prejuízo, mas sem sucesso dada muralha que se ergueu no meio campo português. Aos 63 minutos um magnífico passe do belenense Pepe para o portista Valdemar Mota resultou no quarto golo da nossa seleção. Após driblar três chilenos Mota fuzila a baliza contrária. Já sem forças, os sul-americanos ainda esboçam uma ténue intenção de voltar a violar a baliza de Roquete, mas tal intenção não chegou a constituir perigo para o nosso onze, que defendeu com “unhas e dentes” o seu goal . E assim chegava o final, com 4-2 a favor dos nossos rapazes, que desta forma avançavam no torneio, enviando os chilenos para o torneio de consolação (uma espécie de competição destinada às seleções derrotadas na pré-eliminatória e na 1ª eliminatória.  

Mais um lance de perigo no jogo de estreia dos lusos
A imprensa destaca o magnífico António Roquete, que salvou a baliza lusa em várias ocasiões; o formidável Raul Tamanqueiro, cujos dribles diabólicos fizeram as delícias dos cerca de 2,300 espetadores presentes; e o brilhante Pepe, o melhor entre os homens mais avançados da seleção. Na bancada estava presente um dos mais brilhantes pensadores (táticos) do futebol mundial daqueles anos, o austríaco Hugo Meisl, o criador do Wunderteam (equipa maravilha) da Áustria dos anos 20, e que impressionado com a qualidade dos portugueses neste jogo tratou de oficializar um convite para que Portugal visitasse a sua nação logo após o torneio olímpico para um match amigável. Nessa mesma noite o cônsul de Portugal em Amesterdão, Barjona de Freitas, organizava uma pequena festa em honra da equipa nacional, que tão orgulhosa deixara a nação após este épico triunfo. Cá pelo burgo, eram muitos os portugueses que se juntavam junto às redações dos principais jornais (em Lisboa os principais locais de afluência eram o Rossio e a Praça do Comércio) para saber novidades de Amesterdão. Numa época em que as transmissões/relatos de jogos de futebol tanto na televisão como na rádio eram ainda uma miragem, os jornais iam dando as informações – que lhes chegavam por telégrafo – do que ia acontecendo no Estádio Olímpico de Amesterdão através de placards gigantes. E assim que foi dada a informação do resultado final, a multidão explodiu de alegria. Melhor estreia na alta-roda internacional, Portugal não poderia ter tido.
(continua)

Flashes do Rússia 2018 (16)...

Grupo H / 1ª Jornada

Polónia - Senegal: 1-2

Golos: Krychowiak / Cionek (a.g.), Niang

Nem só de rally (Dakar) vive o Senegal...

Flashes do Rússia 2018 (15)...

Grupo H / 1ª Jornada

Colômbia - Japão: 1-2

Golos: Quinero / Kagawa, Osako

Samurais aplicaram dois golpes certeiros nos cafeteros...

segunda-feira, junho 18, 2018

Flashes do Rússia 2018 (14)...

Grupo G / 1ª Jornada

Tunísia - Inglaterra: 1-2

Golos: Sassi / Kane (2)

HurryKane (furacão) arrasou o deserto magrebe...

Flashes do Rússia 2018 (13)...

Grupo G / 1ª Jornada

Bélgica - Panamá: 3-0

Golos: Lukaku (2), Mertens

Diabos vermelhos fizeram a vida dos caloiros vindos da América Central num inferno...

Flashes do Rússia 2018 (12)...

Grupo F / 1ª Jornada

Suécia - Coreia do Sul: 1-0

Golo: Granqvist

Órfãos do Deus Zlatan (Ibrahimovic) só de penalty os nórdicos derrubaram os irrequietos asiáticos...

Flashes do Rússia 2018 (11)...

Grupo F / 1ª Jornada

Alemanha - México: 0-1

Golo: Lozano

Alma guerreira dos aztecas colocou o Planeta da Bola de "boca aberta"...

Flashes do Rússia 2018 (10)...

Grupo E / 1ª Jornada

Brasil - Suíça: 1-1

Golos: Coutinho / Zuber

Temos ou não temos candidato ao trono Mundial?...

Flashes do Rússia 2018 (9)...

Grupo E / 1ª Jornada

Costa Rica - Sérvia: 0-1

Golo: Kolarov

Foguete de Kolarov derrubou muralha dos ticos..

Flashes do Rússia 2018 (8)...

Grupo D / 1ª Jornada

Croácia - Nigéria: 2-0

Golos: Etebo (a.g.), Modric

Maestro Luka Modric dirige orquestra croata numa vitória inquestionável...

Flashes do Rússia 2018 (7)...

Grupo D / 1ª Jornada

Argentina - Islândia: 1-1

Golos: Aguero / Finnbogason

Depois do Euro 2016, haka islandês volta a surpreender o Mundo numa fase final...

Flashes do Rússia 2018 (6)...

Grupo C / 1ª Jornada

Perú - Dinamarca: 0-1

Golo: Poulsen

Dominar e jogar bem não basta para vencer: que o diga os incas...

Flashes do Rússia 2018 (5)...

Grupo C / 1ª Jornada

França - Austrália: 2-1

Golos: Griezmann, Pogba / Jedinak

Mago Pogba sacou coelho da cartola quando nada o fazia prever...

sábado, junho 16, 2018

Flashes do Rússia 2018 (4)...

Grupo B / 1ª Jornada

Portugal - Espanha: 3-3

Golos: Cristiano Ronaldo (3) / Diego Costa (2), Nacho

Magia de CR7 trava tiki-taka espanhol...

Flashes do Rússia 2018 (3)...

Grupo B / 1ª Jornada

Marrocos - Irão: 0-1

Golo:Bouhaddouz (a.g.)

Infelicidade dos Leões do Atlas chegou em tempo de compensação...

Flashes do Rússia 2018 (2)...

Grupo A / 1ª Jornada

Egito - Uruguai: 0-1

Golo: Gimenez

Cabeça milagrosa de Gimenez em cima do minuto 90 salva exibição apagada da "celeste"...

Flashes do Rússia 2018 (1)...

Grupo A / 1ª Jornada

Rússia - Arábia Saudita: 5-0

Golos:Cheryshev (2), Gazinskii, Dzyuda, Golovin

Tareia de mão cheia dos anfitriões aos frágeis filhos do deserto...

quinta-feira, junho 14, 2018

Histórias do Futebol em Portugal (19)... Memórias de uma primeira vez na alta roda do futebol internacional (1.ª parte)

Seleção portuguesa que marcou presença
nos Jogos Olímpicos de Amesterdão 1928
Se hoje em dia Portugal se apresenta perante a aldeia global futebolística como uma potência temida e respeitada, há quase um século atrás – 90 anos, para sermos mais precisos – a nação lusa não passava de uma mera e desconhecida aprendiz nos principais palcos do belo jogo planetário. Esta introdução faz-nos viajar precisamente 90 anos na cápsula do tempo, até ao ano de 1928, altura em que Amesterdão centrava em si os olhos do Mundo na sequência do acolhimento das Olimpíadas desse ano. Largas centenas de atletas vindos de vários pontos do globo assentaram arraiais naquela cidade holandesa em busca do endeusamento olímpico nas mais variadas modalidades. Entre elas, estava o futebol, que levou a Amesterdão (alguma da) a nata (de então) da modalidade, valorosos futebolistas atletas que iriam lutar entre si pelo trono da então maior competição futebolística do Mundo.

Cartaz oficial dos Jogos de 1928
Será importante sublinhar que na altura o torneio olímpico de futebol era a maior competição do planeta no que ao Desporto Rei concerne, a qual de quatro em quatro anos juntava as melhores seleções do globo. Isto porque nem o Campeonato do Mundo nem o Campeonato da Europa haviam visto a luz do dia. Vencer os Jogos Olímpicos era o equivalente a vencer um Mundial nos dias de hoje. O mediático sucesso dos torneios anteriores – Antuérpia 1920 e Paris 1924, sobretudo este último – elevou a fasquia de interesse em torno da competição que decorreu na Holanda entre 27 de maio e 10 de junho de 1928. Em campo iriam estar alguns dos pesos pesados do futebol planetário de então, casos de uma Itália que viria a dominar o Mundo na década seguinte – com a conquista de dois Mundiais consecutivos (1934 e 1938) –; da vice-campeã olímpica de 1920, a Espanha; ou das potências sul-americanas Argentina e Uruguai, sendo que estes últimos chegavam a Amesterdão como detentores (em título) do ouro olímpico – conquistado de forma época quatro anos antes em Paris. Os uruguaios eram por aqueles dias olhados como a maior potência do futebol global. Nos Jogos Olímpicos de 1924, esta pequena nação sul-americana (com apenas 3 milhões de habitantes) havia apresentado do Mundo os seus magistrais intérpretes do belo jogo, apresentando ao público parisiense um jogo alegre, solto, e tecnicamente atrativo, mais parecendo que o "onze charrúa” bailava ao som de um tango de Carlos Gardel.

A mítica seleção do Uruguai que iria vencer
o torneio olímpico pela segunda vez consecutiva
Na retina daqueles que presenciaram o torneio olímpico de 24, ficaram os bailados futebolísticos de nomes como Pedro Cea, Hector Scarone, José Nasazzi, Pedro Petrone, e de um tal José Leandro Andrade, um negro que haveria de sair destes Jogos Olímpicos endeusado pelo povo da capital francesa. O torneio de futebol das Olimpíadas de Amesterdão não foi mais do que a confirmação daquilo que se visionara em Paris 1924, por outras palavras, o Uruguai enquanto a seleção mais poderosa do Mundo. Amesterdão 1928 foi pois como a segunda parte de uma das mais belas e poéticas histórias futebolísticas, a história de uma talentosa equipa que mostrou ao globo que o futebol poderia ser jogado de uma maneira artística e atraente, bem diferente do famoso kick and rush inglês interpretado pela esmagadora das seleções e/ou clubes do então planeta da bola.

Gravura do Espanha - Portugal de 1921
(o primeiro jogo da seleção portuguesa)
Mas entre a elite do futebol global que viajou para a Holanda estava uma nação que dava os primeiros passos a nível internacional e cujo futebol – em termos de popularidade – crescia significativamente no plano interno. Portugal! Seleção que contrariamente a potências como Espanha, Itália, Argentina ou Uruguai apenas havia feito o seu batismo na alta roda internacional menos de sete anos antes (dezembro de 1921) num particular com nuestros hermanos, em Madrid, saldado por uma honrosa derrota – atendendo ao poderio do adversário – por 3-1.
Desde então, a seleção nacional fazia um percurso que podemos chamar de aprendizagem e ao mesmo tempo de afirmação na senda internacional, colecionando alguns resultados dignos de sublinhar que o futebol português tinha valor e que com um pouco mais de organização (interna) e prática (internacional) talvez fosse possível ombrear com os melhores. Isso, foi possível ver-se, a título de exemplo, em junho de 1925, quando no Campo do Lumiar (Lisboa) a nossa seleção derrotou (1-0) a poderosa Itália onde despontavam futuros campeões mundiais como Giampiero Combi, Gino Rosetti, ou Umberto Caligaris; ou os valorosos empates com potências como a Checoslováquia – em 1926 –; Hungria – também em 26 –; ou a Espanha liderada pelo lendário guarda-redes Ricardo Zamora – que em janeiro de 1928 não conseguiu levar de Lisboa melhor do que uma igualdade a uma bola.

Até aqui, Portugal disputara somente encontros amigáveis, 15 para sermos precisos, pelo que em Amesterdão iria ser o primeiro grande teste oficial no plano internacional para um futebol português que no plano interno apresentava algumas carências, apesar do crescimento em termos de popularidade em torno da modalidade.
No aspeto competitivo, o centro do nosso futebol estava em Lisboa, Porto, Algarve e Setúbal, onde se disputavam os campeonatos (regionais) mais importantes e acima de tudo competitivos. Nas outras regiões do país, a competição tinha ainda pouca expressão, ou quase nenhuma. Apesar de ainda ser algo limitado, em termos estruturais, o que é certo é que o futebol não havia envergonhado o país no plano “além fronteiras”, e mesmo nas derrotas havia mostrado valentia e valor que deixavam antever um futuro promissor. 

(continua) 

domingo, junho 10, 2018

Histórias do Planeta da Bola (21)... O inglês que “furou” o boicote da Inglaterra aos três primeiros Mundiais da história


O inglês George Moorhouse
O estatuto de inventores do futebol (moderno) auto-conferiu aos ingleses durante anos a fio um misto de superioridade e arrogância face ao resto do Mundo – no que a futebol diz respeito. A convicção de que “não só fomos nós que inventámos o futebol como também o ensinámos a jogar ao resto do Mundo” fez com que os súbitos de Sua Majestade tivessem vivido fechados no seu casulo ao longo de cerca de três décadas em relação ao que se passava no restante globo futebolístico em termos organizacionais. E quando falamos em termos organizacionais referimo-nos à participação inglesa em grandes competições inter-continentais, organizadas sob a égide de uma entidade internacional que chamasse a si a missão de tutelar o futebol a nível planetário. 
Para os ingleses, isso seria uma estocada no seu orgulho e vaidade autoritária de donos e senhores do belo jogo
Esta posição fez com que ignorassem por completo a ideia de Robert Guérin, jornalista (francês) do Le Matin, de Paris, e secretário do Departamento de Futebol da União Francesa de Desportos, que em 1902 iniciou contactos com algumas associações (ou federações) nacionais de países como a Espanha, a Holanda, a Suécia e a Dinamarca no sentido de criar uma organização internacional que tutelasse o futebol a nível mundial.

Robert Guérin
Reza a história que Guérin terá ido a Londres apresentar – e propor – a ideia a Lord Kinnard, o então presidente da Football Association – Federação Inglesa de Futebol. Os ingleses ignoraram por completo esse movimento, que a 24 de maio de 1904 ganhou contornos de realidade com a fundação da FIFA.
Reunidos em Paris, na Rue Saint Honoré, nº 229, representantes das associações nacionais de França, Bélgica, Dinamarca, Holanda, Espanha, Suécia e Suíça fundaram nesse dia a FIFA.
De pronto foram encetados convites a outras associações/federações nacionais para integrar o recém-criado organismo internacional – para o qual Robert Guérin foi nomeado presidente –, entre eles a Inglaterra, que além de (continuar a) recusar a integração nesta nova entidade, não a reconhecia oficialmente. Inclusive, e já depois de a FIFA ter visto a “luz do dia”, a Football Association (FA) reuniu em Londres várias associações nacionais com o intuito de mostrar “quem continuava a conduzir os destinos do futebol planetário”.
A FA tinha por estes dias associadas a si federações dos Estados Unidos da América, Chile, ou Argentina, criando assim um autêntico braço de ferro com a FIFA. A renitência por parte dos ingleses em reconhecer esta federação como a entidade máxima do futebol internacional durou até 1906, quando em Berna o inglês Daniel Burley Woolfall foi nomeado presidente do organismo, sucedendo no cargo a Guérin.

A primeira sede da FIFA, em Paris
Este facto, fez com que a Inglaterra recuasse na sua resistência em aderir à FIFA, algo que efetivamente aconteceu nesse ano de 1906. 
Com Woolfall no poder os ingleses sentiam-se novamente senhores do futebol planetário. 
O então presidente da FIFA teve um papel decisivo não só na internacionalização das leis do jogo, como também na criação daquela que é talvez a primeira grande competição internacional de futebol e que esteve na génese da idealização do atual Campeonato do Mundo da FIFA: o torneio olímpico de futebol. 
Competição que foi inserida nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1908, e que até à criação do Mundial FIFA foi a prova mais importante do futebol planetário ao nível de seleções – pese embora a FA tenha controlado as operações do primeiro torneio olímpico de futebol oficial, denotando aqui uma autoridade arrogante sobre a FIFA.
Com a morte de Woolfall, em 1918, a Inglaterra voltou a afastar-se da FIFA, numa altura em que o organismo internacional passava por uma fase conturbada da sua curta existência, como consequência dos “estilhaços” provocados pela I Guerra Mundial.

Jules Rimet: o pai do Campeonato do Mundo
O braço de ferro entre Inglaterra e FIFA voltava a ser uma realidade, um divórcio que desta feita iria durar um pouco mais no tempo: 28 anos! Durante este período (desde 1921) , um visionário surgiu na liderança da FIFA. O seu nome era Jules Rimet. Este francês revolucionou o Mundo do futebol em vários aspetos, sendo o mais sonante, quiçá, a criação do Campeonato do Mundo. O sonho de Rimet tornou-se realidade em 1930, quando o Uruguai acolheu a primeira edição daquele que é hoje o maior evento desportivo planetário. Os índices de popularidade (crescente) da competição ficaram bem patentes nas três primeiras edições, de tal forma que em 1946, finalmente, os ingleses saíram do seu “casulo”, percebendo – e admitindo – que perante o crescimento da FIFA e da importância e dimensão que o seu Campeonato do Mundo já havia atingido, o melhor seria mesmo voltar a juntar-se à entidade que tutelava o futebol planetário. Até porque, chegaram à conclusão que para provar a sua condição de mestres do jogo teriam de enfrentar as suas congéneres mundiais na competição idealizada e criada pela FIFA.

O cromo de Moorhouse nos
tempos do Tranmere Rovers
Esta (longa) introdução leva-nos à nossa paragem histórica de hoje, no sentido de recordar o inglês que “furou” o boicote da Inglaterra aos três primeiros Mundiais da história. George Moorhouse, o seu nome. Quando em 1950 a seleção inglesa aterrou no Brasil para ali disputar o seu primeiro Mundial, já Moorhouse o havia feito 20 anos antes no Uruguai, ao serviço da seleção norte-americana. Este cidadão nascido em Liverpool a 4 de abril de 1901 tem assim pois um lugar reservado na História por ter sido o primeiro inglês a competir num Campeonato do Mundo muito antes de a sua pátria natal o ter feito!
Combatente na I Guerra Mundial, Moorhouse começou por defender – enquanto profissional – a camisola do Tranmere Rovers, pese embora o tenha feito sobretudo ao serviço das reservas do clube de Merseyside, entre 1921 e 1923. Com poucas oportunidades para mostrar o seu valor, George Moorhouse – que no terreno de jogo atuava como lateral-esquerdo – atravessou o Atlântico, rumo ao Canadá, com o intuito de encontrar uma vida melhor num continente (americano) que aos olhos dos europeus se afigurava como a “terra prometida”, bem diferente de uma Europa que por estes dias tentava curar as feridas provocadas pelo primeiro grande confronto bélico da História.

Moorhouse chegou ao Canadá em 1923, tendo ali representado – ainda que de forma amadora – os Pacific Railway, uma equipa constituída por elementos ligados aos caminhos de ferro da região do Quebec. E se em Inglaterra o talento do nativo de Liverpool havia passado praticamente despercebido, na América do Norte tal não viria a acontecer. Após um par de jogos ao serviço dos Pacific Railway, o jogador inglês impressionou um dos grandes impulsionadores do soccer norte-americano dos anos 20, Nat Agar, também ele um inglês de berço que enquanto futebolista viveu os primeiros passos da modalidade em Terras do Tio Sam, sendo que enquanto dirigente esteve na génese da fundação da United States Football Association, em 1913.
Além de figura influente do soccer, Agar era igualmente o proprietário dos Brooklyn Wanderers, tendo de pronto convidado Moorhouse para se juntar à sua equipa. Assim foi. A aventura do cidadão de Liverpool no clube de Agar duraria somente um par de meses, pois ao fim de quatro soberbas exibições, George Moorhouse tinha Nova Iorque a seus pés. Foi então que aquele que era para muitos o maior emblema da Big Apple – e um dos maiores de toda a América – de então seduziu o habilidoso full-back para os seus quadros. Corria o (final de) ano de 1923 quando os New York Giants contrataram Moorhouse. Nos Giants, o inglês tocou a fama, tornando-se num dos mais reputados futebolistas da América nos anos 20, precisamente na chamada Golden Era (Era Dourada) do soccer estado-unidense. Defendeu o clube ao longo de sete temporadas ao mais alto nível, o mesmo é dizer na American Soccer League, a principal competição nacional dos States de então, tendo disputado por este emblema um total de 241 jogos e apontado 46 golos, registo impressionante para um lateral-esquerdo.

A "cortina de aço" yankee:
Wood, Douglas e Moorhouse
Em 1930, Moorhouse deixou os Giants, tendo atuado nos sete anos seguintes noutros emblemas nova-iorquinos, como os Yankees – equipa sem qualquer ligação aos New York Yankees do basebol – ou nos New York Soccer Club. Mas foi precisamente em 1930 que a história de Moorhouse conheceu o seu capítulo mais sonante. 
Ele foi um dos 16 selecionados de Bob Millar (treinador) para efetuar a viagem pelas águas do Atlântico rumo à América do Sul, no sentido de defender as cores da bandeira da América na primeira edição do Campeonato do Mundo da FIFA.
A estreia de Moorhouse pelo combinado nacional havia-se dado quatro anos antes, tendo o Canadá sido atropelado por concludentes 6-1 num encontro particular. Julho de 1930 entra na história do desporto planetário como o mês em que em Montevideu foi dado o pontapé de saída do sonho de Jules Rimet: o Campeonato do Mundo. Moorhouse estava lá, e juntamente com outros extraordinários futebolistas como Bart McGhee, Bert Patenaude, Jimmy Douglas, Tom Florie ou o luso-americano Billy Gonsalves conduziu a seleção yankee à melhor performance de sempre num Mundial FIFA: o 3.º lugar. Goerge Moorhouse, o guarda-redes Douglas e o defesa Alexander Wood foram apelidados pela imprensa sul-americana (presente no evento) como a “cortina de aço”, pela solidez com que fechavam os caminhos da sua baliza, enquanto que lá na frente Florie, Patenaude, McGhee e Gonsalves tratavam de atormentar os defesas adversários.
Seleção norte-americana que participou no Mundial de 1930
Mas, a aventura yankee começou com vincadas desconfianças e aguerridos protestos por parte dos adversários. Cerca de uma semana após a chegada a Montevideu, ocorrida no dia 1 de julho, os norte-americanos foram obrigados a dar uma conferência de imprensa na sequência de uma denúncia da delegação belga – precisamente o primeiro opositor da seleção de Bom Millar no torneio –, a qual apontava ilegalidades sobre a nacionalidade de alguns jogadores yankees. Os belgas acusavam os norte-americanos de incluírem no seu grupo atletas de vários países europeus, acusação refutada pelos responsáveis yankees, que explicaram – na dita conferência de imprensa – que apesar de seis dos seus 16 jogadores terem nascido na Europa haviam já adquirido nacionalidade norte-americana. Como senão bastasse o ataque belga também a imprensa brasileira lançou alguma lenha para fogueira, ao dizer que o principal craque dos States era… português! Tratava-se de Billy Gonsalves, filho de portugueses – nascidos na Madeira – mas que na verdade havia nascido em Portsmouth (Rhode Island) dois anos após a chegada dos seus progenitores a Terras do Tio Sam. Tal como Gonsalves, outros jogadores tinham descendência europeia, embora tenham nascido nos Estados Unidos da América, casos de Tom Florie (filho de italianos) e Bert Patenaude (filho de emigrantes franceses). Estrangeiros naturalizados a seleção norte-americano tinha seis atletas, todos eles nascidos na Grã-Bretanha, nomeadamente os escoceses Alexander Wood, Bart MacGhee, Jimmy Gallagher, Andy Auld, James Brown e o inglês George Moorhouse.

Alguns historiadores apontam que esta desconfiança e suspeita sobre a seleção yankee remonta ao facto de que o poderio (monetário) do soccer daquele país nos anos 20 fez atrair grandes estrelas do futebol europeu, que não só procuravam na América um nível de vida melhor, mas sobretudo tentavam fugir da Guerra que assolava o Velho Continente. Atletas provenientes da Inglaterra, Escócia, Áustria, Hungria, Itália, ou Alemanha emergiram em vários clubes norte-americanos durante a referida década de 20 – a Golden Era do soccer estado-unidense –, fazendo inúmeras digressões não só pelo continente americano como também pela Europa.
Ora, terá sido esta multiculturalidade que vigorou durante anos no futebol dos States que levou outros países a desconfiarem da “originalidade” da seleção estado-unidense no primeiro grande torneio da FIFA. Certo é que no dia 13 de julho os Estados Unidos da América tinham a honra de dar o pontapé de saída do primeiro Campeonato do Mundo da história, quando no Parque Central de Montevideu enfrentaram a Bélgica – no mesmo dia e na mesma hora, também jogaram as seleções de França e México no Estádio de Pocitos.

Fase do jogo entre EUA e Paraguai
Moorhouse estava lá, na line-up inicial dos States, que iriam vergar os belgas a uma derrota por 3-0. Quatro dias mais tarde voltou a ser titular em mais um momento de glória da nação que o acolheu em 1923, ao ajudar a derrotar o Paraguai também por concludentes 3-0 – com a particularidade dos três golos serem da autoria de Patenaude, que assim se tornava no primeiro jogador da história a fazer um hattrick em Mundiais. Com isto, os Estados Unidos da América seguiam para as meias-finais, onde viriam a cair com estrondo aos pés da poderosa Argentina, por 6-1, diante de 112,000 espectadores no majestoso e recém-construído Estádio Centenário.
O facto de a Jugoslávia – derrotada na outra semi-final ante os futuros campeões mundiais, do Uruguai – se ter recusado a disputar o encontro de atribuição dos 3.º e 4.º lugares conferiu aos norte-americanos a medalha de bronze, o que ainda hoje constitui o melhor resultado numa fase final de um Mundial de uma nação que sonha um dia vir a ser a número 1, como em tantas outras modalidades.

Porém, a aventura de Moorhouse com a seleção prolongar-se-ia até ao Mundial seguinte, realizado em Itália, em 1934, tendo o inglês (naturalizado) sido novamente selecionado e nomeado – desta feita – como capitão de equipa. Apesar de o combinado agora às ordens do escocês David Gould incluir algumas lendas do Mundial anterior, como Gonsalves, Florie, Jimmy Gallagher e o próprio Moorhouse, o que é certo é que os States cedo saíram da competição, após serem esmagados por 7-1 pela equipa da casa, na primeira ronda de eliminatórias.
Após a saída do futebol, George Moorhouse continuou a viver no país que lhe abriu as portas do belo jogo ao mais alto nível, a nação que o tirou do anonimato das reservas do Tranmere Rovers e que lhe concedeu a honra de figurar no National Soccer Hall of Fame, privilégio só concedido aos grandes ícones do soccer.
Faleceu a 13 de julho de 1982, curiosamente o mesmo em que meio século antes havia entrado na história ao “antecipar-se” à sua pátria natal na participação num Mundial FIFA.