Quarta-feira, Março 07, 2012

Efemérides do Futebol (10)...

Prémio Nobel da Física e... futebolista nos tempos livres

O dinamarquês Niels Henrik David Bohr (1885 – 1962) viu o seu notável trabalho desenvolvido na área da física ser premiado em 1922 com o Prémio Nobel. Que tem isto a ver com futebol (?), perguntarão por certo os visitantes do Museu. Alguma terá, na realidade, já que além de um ilustre homem da ciência Niels Bohr (na imagem) foi um entusiasta praticante do... desporto rei, tendo desenvolvido uma curta carreira como amador ao serviço do AB Copenhaga nos "intervalos" das suas investigações científicas. Curiosamente uma das estrelas dessa mesma equipa era o irmão mais novo de Niels, Harald August Bohr, atleta este que em 1908 ajudou a seleção da Dinamarca a conquistar a medalha de prata no Torneio de Futebol dos Jogos Olímpicos de Londres.

Segunda-feira, Março 05, 2012

Histórias do Futebol em Portugal (4): O primeiro Campeonato de Portugal

É opinião partilhada por muitos dos estudiosos do fenómeno futebolístico do nosso burgo que os anos 20 do século passado trouxeram a maturidade ao então jovem futebol português. Com a expansão da mancha clubística um pouco por todo o país a modalidade começou a acorrentar a si contornos de maior competitividade e interesse com a disputa das primeiras competições ao nível de clubes. Longe pareciam já estar os tempos dos primeiros ensaios que procuravam decifrar os mistérios daquele jogo trazido de Inglaterra na década de 80 do século XIX por Guilherme Pinto Basto, com o povo mais do que familiarizado com a modalidade a mostrar-se nos inícios do século seguinte completamente rendido a ela!
Os duelos entre clubes vizinhos sucediam-se em catadupa, e em volta deles alastrava a ferverosa massa adepta que com o seu entusiasmo conferia uma vida singular às primeiras catedrais – o mesmo é dizer estádios – da bola então construídas.
O mapa futebolístico português começava pois a ser desenhado com maior vivacidade, pese embora com traços de cariz regional. Foram pois regionais os primeiros confrontos a “doer”, os primeiros títulos, as primeiras histórias...
A temporada de 1906/07 assinala o arranque do 1º Campeonato de Lisboa no qual participaram o popular CIF (Clube Internacional de Futebol) fundado pela família Pinto Basto, o Sport Lisboa, o Lisbon Cricket Club e o Carcavelos Club, cabendo a este último emblema a honra de inaugurar a lista de campeões regionais da capital do país.
Estava assim dado o pontapé de saída nas competições regionais, que com o passar dos anos se iam multiplicando por outras regiões nacionais. Com a popularidade dessas mesmas competições surgiu nos anos 20 como que um apelo à criação de uma prova de maior dimensão, um torneio capaz de transpor a fronteira da regionalização, por assim dizer, de colocar frente a frente os pesos pesados locais num certame de âmbito... nacional.
O título de rei da região era já pequeno demais, sabia a pouco, os clubes, os jogadores e sobretudo os adeptos queriam mais, queriam ser os melhores do país. A Associação de Futebol de Lisboa toma mesmo a iniciativa de desafiar a sua congénere do Porto para um “match” entre Benfica e FC Porto, um repto que no entanto seria recusado por estes últimos, muito por culpa do diferendo que opôs sulistas e nortenhos aquando da escolha dos jogadores para integrar a primeira seleção nacional que enfrentou a Espanha em 1921, espisódio esse aliás já aqui recordado no Museu Virtual do Futebol . Estava dado contudo o impulso para a criação de uma prova de cariz nacional, capaz de colocar em confronto os melhores clubes e os melhores atletas de cada região.

O nascimento do Campeonato de Portugal

E eis que na época de 1921/22 nasceu aquela que é considerada como a primeira competição de essência nacional: o Campeonato de Portugal. Vencê-lo significava ostentar a coroa de rei de Portugal no futebol. Não foi contudo um parto fácil, já que por aquelas alturas o futebol era desenvolvido de uma forma mais oficial e séria apenas nas associações de futebol de Lisboa e do Porto, e a espaços no Funchal e no Algarve, já que no resto do país a organização do futebol não era mais do que uma miragem. A União Portuguesa de Futebol (UPF) – antecessora da atual Federação Portuguesa de Futebol – sentiu pois algumas dificuldades em colocar em prática a sua ideia, dificuldades essas que no entanto não se afigurariam como entrave para a realização do primeiro CAMPEONATO DE PORTUGAL. Um campeonato integrado apenas pelos campeões regionais das duas associações que levavam mais a sério, por assim dizer, o fenómeno futebolístico em termos de competições organizadas, Lisboa e Porto, já que as associações do Funchal e do Algarve alegariam dificuldades económicas para explicar a não adesão à prova.
A representar as duas principais urbes de Portugal estiveram dois ilustres senhores do futebol lusitano, Sporting e o FC Porto. Ficou assente que o título nacional seria disputado em duas mãos, uma na capital outra na Cidade Invicta, cabendo a esta última as honras de receber o primeiro encontro.
No dia 4 de junho de 1922 o Porto vestiu-se de azul e branco na esperança de ver o seu clube ser o campeão de Portugal e acima de tudo levar a melhor sobre a “rival” Lisboa.
O relógio marcava 16h15 de uma tarde cinzenta salpicada com pingos de chuva. O público nortenho dava largas ao seu entusiasmo e paixão pelo emblema da cidade nas repletas bancadas do Campo da Constituição à espera de uma batalha – muitos encaravam-na dessa forma, ou não estivessem frente a frente os cavaleiros do Porto e de Lisboa – que deveria ter começado às 15h00, não fosse o atraso de um dos melhores jogadores portistas de então, João Nunes, que aproveitara aquele célebre domingo para dar um salto à... romaria do Senhor de Matosinhos. Pequeno atraso que não esmoreceu os intervenientes do encontro que sob a arbitragem de um inglês (Merick Barley) seria ganho pela equipa da casa por 2-1. Portistas que até estiveram a perder, na sequência de um golo de Emílio Ramos, aos 9 minutos, conseguindo no entanto dar a volta ao marcador graças a um “bis” de Tavares Bastos, primeiro aos 25 minutos e o segundo quase em cima do apito final, ao minuto 86.
De pronto foram lançados foguetes pelos eufóricos adeptos portuenses, sim portuenses e não portistas, porque esta foi uma vitória de toda a Cidade do Porto sobre a capital Lisboa, mais parecendo um S. João antecipado.
Sobre a histórica tarde o célebre Ribeiro dos Reis escreveria que: «o jogo decorreu en ambiente apaixonadissímo, de que os lisboetas, nno regresso, se queixaram amargamente». Pudera! Mas nada estava ainda perdida para os campeões de Lisboa.
No domingo seguinte (11 de junho) deu-se a segunda parte da batalha, desta feita em terras alfacinhas, mais precisamente no Campo Grande que em resposta ao cenário edificado uma semana antes no Porto se apresentou cheio como um ovo. Só que desta feita num ambiente 100 por cento hostil para os nortenhos. Outra coisa não seria de esperar, já que era agora a vez do Sporting jogar diante das suas gentes.
Para este jogo a UPF escolheu um árbitro espanhol (!), Montero de seu nome. Empolgados pelo seu público os leões vingaram a derrota na Constituição ao vencer por 2-0 com golos de Henrique Portela e Torres Pereira.

O “tira teimas” pendeu para o FC Porto

Com a contenda empatada a UPF viu-se forçada a agendar um terceiro e decisivo encontro
para uma semana mais tarde (18 de junho). Foi então sorteado o local do “tira teimas”, tendo a sorte ficado posteriormente do lado do FC Porto já que o palco da finalissíma foi o Campo do Bessa, situado no... Porto. Mas nem o facto de ter de viajar novamente até ao terreno do rival parece ter incomodado as gentes de Lisboa, e muito em particular a imprensa da capital, a qual a julgar pelo que viu no Campo Grande não tinha dúvida em rotular o Sporting como o principal candidato à vitória. «Vaticinamos nova vitória para o Sporting, pois o FC Porto é, inegavelmente, inferior», titulava o jornal desportivo “Os Sports”. Como estavam enganados.
Na véspera deste decisivo encontro Portugal escrevia uma das páginas mais belas da sua história com a conclusão da primeira travessia aérea entre Portugal e o Brasil protagonizada pela “dupla” composta por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. No Porto, como em todo o país, certamente, estalaram foguetes para comemorar tal façanha, com o povo a sair em grande número para as ruas dando assim um colorido mais intenso à festa. Quem parece não ter achado muita graça à onda de festividades foi o Sporting, cujos jogadores se queixam não ter pregado o olho durante a noite devido aos ruidosos festejos. Propositadamente ou não esses festejos teriam contornos mais intensos junto ao hotel onde estava instalada a comitiva sportinguista. Casualidade ou não? O lisboeta “Os Sports” achava que não.
Dia de jogo e o Campo do Bessa a arrebentar pelas costuras... com os entusiastas adeptos do FC Porto, naturalmente. Ambiente quente que ainda ficou mais escaldante ao minuto 51 quando Balbino fez o primeiro golo da tarde para os portistas. Vantagem que não foi ampliada cinco minutos mais tarde devido ao preciosismo do árbitro Neves Eugénio, que por sinal era um dos notáveis jogadores/dirigentes do... Académico do Porto. O juíz manda repetir uma grande penalidade que Artur Augusto converte inicialmente em golo com a justificação de que não havia dado ordem para a sua marcação. Na repetição o mesmo Artur Augusto envia violentamente a bola à trave!
Talvez empolgado pela falha do rival o Sporting aventura-se no ataque e aos 70 minutos Emílio Ramos repõe a igualdade no marcador.
O relógio não parava e no final dos 90 minutos o marcador indicava uma igualdade a uma bola. Parecia maldição, mas ainda não havia campeão! Veio o prolongamento e o FC Porto voltou a adiantar-se no marcador à passagem do minuto 100, desta feita por João Nunes, o tal que no primeiro jogo havia chegado atrasado por ter dado um salto à romaria do Senhor de Matosinhos. Um pouco tardio ou não parece que o efeito da ida do jogador à festa do milagroso santo parecia dar agora os seus frutos! O Sporting esmoreceu e dois minutos depois o capitão dos portistas João de Brito deu a machadada final no jogo ao apontar o 3-1 final.
Quando Neves Eugénio apitou pela última vez a loucura foi total. O campo mais parecia uma bomba a explodir de alegria, o FC Porto sagrava-se CAMPEÃO DE PORTUGAL, o primeiro CAMPEÃO DE PORTUGAL. A festa prolongou-se pela madrugada dentro na Cidade Invicta. Para a eternidade ficavam os nomes de Lino Moreira (guarda-redes), Júlio Cradoso, Artur Augusto, José Mota, Velez Carneiro, Floreano Pereira, João de Brito, Balbino Silva, Alexandre Cal, Tavares Bastos, João Nunes, e Adolphe Cassaigne (treinador).

Nomes e números da final:

FC PORTO – SPORTING, 2-1
4-6-1922, Porto (Campo da Constituição)
Árbitro: Merick Barley (Inglês)
Marcadores: 0-1 Ramos (9), 1-1 Bastos (25), 2-1 Bastos (86)
FC Porto: Lino Moreira; Júlio Cardoso e Artur Augusto; José Mota, Velez Carneiro e Floreano Pereira; João Brito cap, Balbino Silva, Tavares Bastos, João Nunes e Alexandre Cal. Treinador: Adolphe Cassaigne
Sporting: Amadeu Cruz; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; João Francisco, José Filipe e Henrique Portela; Torres Pereira, Francisco Marques, Francisco Stromp cap, Emílio Ramos e José Leandro. Treinador: Charles Bell

SPORTING – FC PORTO, 2-0
11-6-1922, Lisboa (Campo Grande)
Árbitro: Montero (espanhol)
Marcadores: 1-0 Portela, 2-0 Pereira
Sporting: Amadeu Cruz; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; João Francisco, José Filipe e Henrique Portela; Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Francisco Stromp cap, Emílio Ramos e José Leandro. Treinador: Charles Bell
FC Porto: Lino Moreira; Júlio Cardoso e Artur Augusto; José Mota, Velez Carneiro e Floreano Pereira; João Brito cap, Balbino Silva, Tavares Bastos, João Nunes e Alexandre Cal. Treinador: Adolphe Cassaigne

FC PORTO – SPORTING, 3-1 (após prolongamento)
18-6-1922, Porto (Campo do Bessa )
Árbitro: Neves Eugénio (Académico do Porto)
Marcadores: 1-0 Balbino (51), 1-1 Ramos (70), 2-1 Nunes (100), 3-1 Brito (102)
FC Porto: Lino Moreira; Júlio Cardoso e Artur Augusto; José Mota, Velez Carneiro e Floreano Pereira; João Brito cap, Balbino Silva, Alexandre Cal, Tavares Bastos e João Nunes. Treinador: Adolphe Cassaigne
Sporting: Amadeu Cruz; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; João Francisco, Filipe dos Santos e Henrique Portela; Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Francisco Stromp cap, Emílio Ramos e José Leandro. Treinador: Charles Bell

Legenda das fotografias:
1-A equipa do FC Porto que venceu o primeiro Campeonato de Portugal
2-Tavares Bastos, autor dos dois golos do jogo da 1ª mão e um dos melhores jogadores portistas da época
3-A fachada principal do reduto dos Dragões, o Campo da Constituição...
4-...e uma vista aérea do Campo Grande (Lisboa)
5-A equipa do Sporting que vendeu cara a derrota na primeira prova de âmbito nacional organizada em Portugal

Sexta-feira, Fevereiro 17, 2012

Histórias do Futebol em Portugal (3): O primeiro jogo oficial...

A mulher peluda do Jardim Zoológico figurou
no primeiro jogo oficial do futebol em Portugal


Em viagens passadas a bordo da Máquina do Tempo fomos ao encontro daquela que é tida como a primeira aparição oficial do futebol em Portugal. Um histórico momento ocorrido em 1888, em Cascais (nos terrenos da Parada), protagonizado por um grupo de veraneantes proveniente da mais fina flor da alta sociedade portuguesa daquela época, onde na qual se destacava Guilherme Pinto Basto, o grande responsável pela introdução do futebol em terras lusitanas. Sobre os acontecimentos desse célebre final de tarde de um – qualquer – domingo de outubro já aqui foram traçadas umas linhas aquando da visita feita ao ilustre pai do futebol português, Guilherme Pinto Basto, eternizado no Museu Virtual do Futebol no cantinho destinado às “estrelas cintilantes”.
Não será demais recordar que segundo o próprio Pinto Basto – anos mais tarde – aquele primeiro contacto com a bola – trazida de Inglaterra pelos seus irmãos Eduardo e Frederico – não passou senão de um “ensaio” onde 28 fidalgos travaram conhecimento com o jogo que apaixonou os irmãos Pinto Basto aquando da passagem destes por terras inglesas. Foi digamos que uma espécie de aula ministrada pelos Pinto Basto ao seu ilustre leque de amigos sobre aquilo que viria tempos mais tarde a tornar-se no ópio do povo.
E não demorou muito para que o recém-nascido futebol – em Portugal – começasse a gatinhar. Poucos meses após o “ensaio” de Cascais realizou-se aquele que é considerado o primeiro grande duelo da modalidade no nosso país, o primeiro jogo a sério, o oposto do cenário descontraido e familiar edificado por aqueles 28 aristocratas nos terrenos da Parada. Recorrendo a alguns desses 28 elitistas Guilherme Pinto Basto montou uma equipa – não se sabe se com muito ou pouco jeito para encenar o “pontapé na bola”, o primeiro nome dado pelos populares lusitanos à modalidade – que ousou enfrentar os mestres do “football” moderno, vulgo os ingleses. Súbitos de “Sua Majestade” que constituiram um “team” formado por empregados do Cabo Submarino e da Casa Graham.
Lisboa e os terrenos do seu Campo Pequeno – na altura ainda sem toiros – presenciaram na tarde de 22 de janeiro de 1889 a batalha entre os fidalgos portugueses e os operários ingleses, tendo ao local ocorrido um vasto número de personagens possuídas por ávida curiosidade em presenciar o ato bárbaro de pontapear uma bola protagonizado por 22 homens.
Eternizados ficaram pois os seus nomes, sendo que pelos portugueses se apresentaram em campo: Guilherme Pinto Basto (sabe-se na qualidade de guarda redes), João Saldanha Pinto Basto, João Bregaro, Eduardo Romero, Eduardo Pinto Basto, Afonso Vilar, D. Simão de Sousa Coutinho (Borba), Duarte Pinto Basto, Frederico Pinto Basto, Fernando Pinto Basto, Augusto Moller e Henrique Vilar. 12 nomes do lado lusitano, presumindo-se que um deles tivesse sido suplente. Pela armada britânica entraram em campo: J. Frazer, J. Mason, C. Anderson. Wray. R. W. Watson, Rawstron, Govan, Briggs, F. Palmer, C. Cox e um outro jogador não identificado.
Pormenor curioso foram os equipamentos. Caricatos, na verdade! Trajes para todos os gostos e feitios. Houve quem levasse fatos de banhos às riscas (!) outros com endumentária de presidiários calçando sapatos no lugar de botas, e quase todos eles ostentando um peculiar barrete a fazer lembrar um vendedor de gelados deambulando pelas praias!
Táticas de jogo não parece que tenham existido, até porque o único objetivo era pontapear a bola para a frente na tentativa de a introduzir no “goal” adversário. Na plateia senhoras da alta sociedade com vestes de gala olhavam com chocada admiração as correrias bárbaras dos “gentelmens” lusitanos e dos trabalhdores britânicos. Pormenores mais detalhados da contenda são desconhecidos, apenas se sabe que os corajosos portugueses venceram, embora não se sabe por quantos nem quem foram os autores dos “goals”.
Desse histórico momento daquela tarde ventosa há no entanto uma relíquia ainda hoje guardada. Uma deliciosa e – muito – peculiar crónica publicada no “Jornal do Comércio” de 23 de janeiro de 1889. De autor desconhecido este é tido como o primeiro texto escrito em Portugal retratando os acontecimentos de um “match de football”, o qual foi ilustrado por uma não menos peculiar ilustração que também aqui hoje recordamos. Sem mais demoras aqui fica o “retrato escrito” daquele momento cujo título é senão mais do que uma curiosa combinação de palavras das emoções ali vividas:

«O “Match” no Campo Pequeno – A mulher peluda no Jardim Zoológico

Uma quantidade enorme de pessoas foi hoje ao Campo Pequeno assistir ao desafio, entre ingleses e portugueses, de futebol. Grande número de carruagens com elegantes senhoras, entre as quais se destacavam mademoiselle Ida Blanc, governando galhardamente, ao lado de sua mãe, uma soberba parelha de cavalos pretos. O resultado do jogo foi muito lisongeiro para os nossos compatriotas que conseguiram ganhar. Não faltaram os trambolhões e os rebolões do próprio jogo, mostrando todos os fortes mancebos, que nele tomaram parte, quão exímios são no “manejo” do pontapé, como disse uma elegante que, por casualidade, ficou ao pé de nós. Quase toda a gente, findo o futebol, foi passear ao Jardim Zoológico, onde se exibia a persa Mirra, a mulher peluda».


Uma crónica pituresca de um acontecimento que nas décadas seguintes do novo século que se aproximava haveria de se tornar num ritual comum das tardes domingueiras para as gentes da brava nação lusitana.

Legendas das fotografias:
1-A equipa portuguesa, com o pai do futebol português, Guilherme Pinto Basto, a figurar na fila de cima, em quarto lugar, da esquerda para a direito
2-O combinado inglês
3-A pisturesca ilustração que acompanhou a peculiar crónica do "match"

Segunda-feira, Fevereiro 13, 2012

Futebol nos Jogos Olímpicos (1)... Londres 1908

Inauguramos hoje uma nova vitrina no Museu Virtual do Futebol, um novo recanto que se ergue com a intenção de recordar os factos e histórias de uma competição vista hoje em dia – ou desde sempre na verdade – como menor no reino do futebol internacional. Popular ou não ela foi no entanto a primeira grande prova planetária disputada por seleções, tendo sido olhada por muitos como o embrião daquilo o que viria a ser o Campeonato do Mundo. Sem mais demoras vamos dar início a uma – por certo – encantadora viagem pelo planeta do futebol no seio dos Jogos Olímpicos, onde a bordo da “máquina do tempo” viajaremos até 1908 para vivenciar um pouco daquilo o que foi a primeira edição oficial de um torneio olímpico de futebol.
Londres acolheu a 4ª edição do sonho de Pierre de Coubertin, um idealista francês nascido em Paris a 1 de janeiro de 1863 que em adolescente fazia das escarpas de Étretat (Normandia) o seu esconderijo predileto e de onde a sua mente viajava pelo longo mar azul que dali se deparava ante o seu olhar que o levava até aos feitos ocorridos em Olimpia descobertos por si, enquanto menino, nos livros que guardavam as epopeias dos heróis – ou mitos – da Grécia antiga. Fascinado por essas míticas olímpiadas o jovem Pierre sonhava em ressuscitar os jogos para a Idade Moderna, fazendo renascer um espírito olímpico que unisse o mundo e ao mesmo tempo endeusasse o homem...
1896 é um ano histórico para a humanidade, o ano em que o sonho de Pierre se torna em realidade, cabendo à Grécia – só podia ser – a honra de albergar os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna.
Por esta altura o futebol ganhava contornos crescentes de popularidade um pouco por todo o mundo, sendo que em Inglaterra era já profissional desde 1885! Profissionalismo que era encarado por Coubertin como o inimigo da verdadeira essência dos Jogos Olímpicos, os quais, para o barão francês, deveriam assentar, tal como na Grécia antiga, na pureza do amadorismo.
Talvez por isto, ou não (há quem diga que a falta de participantes foi o facto responsável pela ausência daquele que é hoje denominado de “desporto rei” dos primeiros Jogos Olímpicos modernos), o futebol não tenha tido lugar cativo na 1ª edição das Olímpiadas modernas, sendo que a bola apenas começou a saltar pela primeira vez num evento deste género em 1900, nos Jogos realizados em Paris, mas apenas como modalidade de... exibição. Isto é, não oficial... segundo os desígnios da FIFA, pese embora o Comité Olímpico Internacional (COI) tenha reconhecido posteriormente como oficiais as primeiras aparições da modalidade nas Olímpiadas.
Procedimento semelhante foi repetido quatro anos mais tarde, durante as Olimpíadas de Saint Louis, onde tal como em Paris o torneio de futebol foi disputado por clubes amadores ou equipas oriundas de universidades, ao invés de seleções nacionais como mais tarde viria a acontecer. Quer em Paris quer em Saint Louis os torneios de futebol não tiveram mais do que três equipas a participar (!), sendo que na bela capital francesa o certame foi vencido pelo conjunto do Upton Park, que representava a Grã-Bretanha, ao passo que na cidade norte amereicana o título – se é que assim pode ser chamado – ficou na posse do Galt City, combinado oriundo do Canáda.
Coincidência ou não com a criação da FIFA em 1904 o futebol passou a ser um dos atores oficiais das Olíimpadas, cabendo à entidade máxima do futebol global apenas a tarefa de supervisionar o primeiro torneio olímpico de futebol oficial. Tudo sobre o olhar desconfiado do COI, que continuava a repovar a profissionalismo do futebol, afastando-o do nobre e puro amadorismo que deveria cercar – em seu entender – a essência do desporto. Porém, convencidos pela Football Association (Federação Inglesa de Futebol) e pelo presidente de então da FIFA, o inglês Daniel Burley Woolfall, o COI deu permissão para que o futebol entrasse para a família olímpica.

O pontapé de saída...

E foi sob o signo do amadorismo que em 1908 se deu o pontapé de saída do primeiro torneio olímpico de futebol, com a gigante Londres a testemunhar um acontecimento histórico que muitos classificam como o... primeiro Campeonato do Mundo. De facto ainda estávamos a 22 anos de distância do “verdadeiro” Campeonato do Mundo, da primeira edição daquele que com o passar dos anos se tornou no maior evento desportivo do planeta, maior que os próprios Jogos Olímpicos (!), podendo este ser considerado como o embrião do grande certame sonhado anos mais tarde pela FIFA através da mente do seu imortal presidente Jules Rimet.
A Londres chegaram quatro seleções nacionais, ou melhor cinco, pois a França fez-se representar por duas equipas, as quais se juntavam à formação da casa, a Grã-Bretanha (combinado que integrava Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda) e ainda Suécia, Dinamarca, e Holanda. Estes foram os convidados do torneio. Sim, convidados, pois convém sublinhar que não existiu propriamente uma fase de qualificação para o torneio olímpico, mas sim uma série de convites enviados pelo COI às diversas federações europeias (só!) com o intuito de as trazer até Londres. Contudo apenas seis (!) dessas federações responderam afirmativamente ao convite, tendo sido elas a França, Suécia, Dinamarca, Holanda, Hungria e Boêmia (antiga denominação da atual República Checa). Com tão poucas equipas o COI deu permissão então para que a França trouxesse às Olimpíadas de 1908 duas equipas de futebol.
Porém, a poucos dias do início do torneio o rei do império austro-hungaro proibiu – devido a razões de ordem política – as seleções da Hungria e da Boêmia de se deslocarem a Londres, reduzindo ainda mais o lote de participantes do torneio olímpico.
Conclusão, se já havia nascido pobre – face à ausência dos melhores jogadores e seleções da época, profissionais, claro está – mais pobre ficou com a desistência daqueles dois países.
O “circo” estava já montado e como tal havia que dar início ao espetáculo com mais ou menos equipas do que o previsto. Assim a data de 19 de outubro de 1908 entra para a história como o dia em que pela primeira vez duas seleções nacionais disputaram uma partida a contar para uma competição oficial. Os ilustres intervenientes? Dinamarca e a França, ou melhor, a segunda equipa da França. Desde logo ficaria evidente que este torneio olímpico de futebol dificilmente iria arrastar até si os holofotes da fama, ou da atenção dos populares, isto a julgar pelo baixo número de espetadores que marcaram presença nos seis jogos da competição. Estranho, se julgarmos que este torneio olímpico decorreia na pátria do futebol moderno onde cada vez mais pessoas se deixavam enfeitiçar pelo belo jogo. Contudo parace que os ingleses estavam mais interessados nos desenlaces da sua FA Cup (Taça de Inglaterra), a competição mais antiga do Mundo, a qual de ano para ano se tornava mais competitiva e popular entre os súbitos de Sua Majestade.
Não admira pois que no jogo inaugural do torneio olímpico o White City – o estádio onde decorreram os Jogos Olímpicos de 1908 – apresentasse um desolador cenário composto por duas mil pessoas!
Lá em baixo, na relva, os dinamarqueses esmagaram os “b” franceses por concludentes 9-0, sendo quatro desses golos da autoria do avançado Vilhelm Wolfhagen. No outro encontro da 1ª fase a Grã-Bretanha atropelou, como seria de esperar, os suecos por 12-1 com destque para o poker (quatro golos obtidos) de Claude Purnell.

22 golos nas meias finais!!!

Chegados às meias finais algo de invulgar – pelo menos nos dias de hoje – ocorreu em White City. Em dois jogos foram marcados nada mais nada menos do que 22 golos! É verdade, mais de duas dezenas de festejos que levariam a Grã-Bretanha e a Dinamarca para a grande decisão do torneio olímpico de futebol de 1908.
Os dinamarqueses voltaram a medir forças com a armada francesa, desta feita a França “a”, que a julgar pelo resultado era bem inferior aos seus conterrâneos “b”. 17-1 para os escandinavos (!), resultado histórico para o qual muito contribuiu o até então desconhecido – mundialmente – Sophus Nielsen, autor de 10 golos! Um feito presenciado por... 1000 espetadores! Desolador, sem dúvida.
No outro jogo das meias finais o resultado obtido pelo conjunto da casa seria hoje em dia rotulado de goleada, porém pelo que até então se via no relvado do White City a Grã-Bretanha passou à final com uma magra vitória diante da Holanda por... 4-0.

Franceses desistem do bronze antes do esperado ouro britânico

Na corrida para a medalha de bronze a França retirou a sua equipa principal da “linha de partida”, aparentemente pela vergonha da humilhação sofrida na meia final ante a Dinamarca, pelo que em sua substituição avançaram os suecos, repescados da 1ª fase. E na disputa pela medalha de bronze os holandeses levariam a melhor sobre os nórdicos por duas bolas a zero.
A grande final – marcada para 24 de outubro – foi presenciada por oito mil espetadores, a assistência mais numerosa do torneio olímpico até então, na sua grande maioria adeptos da seleção britânica, a grande favorita para a conquista do primeiro ouro olímpico na história do futebol. Da teoria à prática o caminho não foi longo. Porém, foi suado. Pela frente os britânicos encontraram uma equipa forte liderada pela temível dupla goleadora composta por Sophus Nielsen e Vilhelm Wolfhagen, autores de 18 dos 26 golos apontados pelos dinamarqueses nos dois encontros anteriores, e que prometiam fazer frente à turma capitaneada por Vivian Woodward.
No final, e após muito trabalho, a Grâ-Bretanha vencia a Dinamarca por 2-0 graças ao instinto matador de Frederick Chapman e do capitão Woodward, sagrando-se assim a primeira campeã olímpica da história... ou para muitos o primeiro campeão do Mundo de futebol.
O seu a seu dono teriam pensado os inventores do futebol moderno naquele momento, o ouro olímpico ficava em casa, no domicílio dos mestres dos futebol, e para a eternidade ficavam gravados a letras de ouro – doutra forma não podia ser – no Olimpo dos Deuses do desporto os nomes de Horace Bailey, Arthur Berry, Frederick Chapman, Walter Corbett, Harold Hardman, Robert Hawkes, Kenneth Hunt, Clyde Purnell, Herbert Smith, Henry Stapley, e Vivian Woodward, os primeiros campeões olímpicos de futebol. Na sua grande maioria eram estudantes universitários, que viviam o futebol de uma forma amadora, claro está, esperando pelo convite de alguma equipa profissional do futebol inglês. E alguns destes nomes vieram-no a conseguir.

Sophus Nielsen: a figura

O ouro olímpico pode ter ficado em terras britânicas, como muitos anteciparam na entrada para o torneio, mas as luzes da ribalta do modesto torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de 1908 recairam todas sobre o dinamarquês Sophus Nielsen, o desconhecido – até então – que entrou para a história da modalidade por ter apontado 10 golos num só jogo de futebol.
A façanha ocorreu a 22 de outubro, com o White City como cenário daquela meia final entre Dinamarca e França “a”.
Sophus Erhard Nielsen nasceu a 15 de março de 1888 em Copenhaga e começou a sua promissora carreira no Concordia quando ainda adolescente. Poderoso avançado logo deu nas vistas, sendo que ainda com a tenra idade de 14 anos aceitou o convite do Frem, clube onde chegou ao escalão de sénior e onde desenvolveu a maior parte da sua carreira. No tempo em que o profissionalismo era coisa apenas de ingleses Nielsen trabalhava como ferreiro juntamente com o seu irmão Carl Nielsen, também ele futebolista nas horas vagas.
Em 1910 os dois irmãos viram-se a braços com o desemprego pelo que tentaram a sua sorte fora de portas. Viajaram pela Europa e chegados à cidade alemã de Kiel o presidente da equipa local ofereceu-lhes emprego na condição de aceitarem jogar pela sua equipa no escalão máximo do futebol germânico. Aceitaram, mas inexplicavelmente ali ficaram apenas uma temporada. E inexplicavelmente porque Sophus apontou uns impressionantes 72 golos em 18 jogos disputados, números mais do que suficientes para jogar por qualquer equipa amadora... ou profissional. Mas Sophus prefreriu voltar a casa e ao seu Frem, onde jogaria até 1921, ano em que pendurou as botas com um impressionante registo de 125 golos em 137 encontros! Defendeu a seleção do seu país por 20 ocasiões, tendo feito 16 golos, 11 deles nos Jogos Olímpicos de 1908. Voltaria a marcar presença nas Olimpíadas de 1912, em Estocolmo, conquistando uma nova medalha de prata após cair na final diante da armada da... Grã-Bretanha, numa reedição daquilo o que se passou em Londres quatro anos antes. Nos Jogos de Estocolmo não foi tão letal como havia sido em Londres, tendo visto o seu recorde de 10 golos num só jogo ter sido igualado pelo alemão Gottfried Fuchs. O melhor marcador do torneio olímpico de 1908 morreria na sua cidade a 6 de agosto de 1963 aos 75 anos.

Resultados:

1ª Fase


19 de outubro

França “b” - Dinamarca: 0-9
(Golos: Nils Middelboe (2), Vilhelm Wolfhagen (4) Harald Bohr (2), Sophus Nielsen

20 de outubro

Grã-Bretanha – Suécia: 12-1
(Golos: Frederick Chapman , Arthur Berry, Vivian Woodward (2), Harold Stapley (2), Claude Purnell (4), Robert Hawkes (2) / Gustaf BergstromMeias finais

22 de outubro

França “a” - Dinamarca: 1-17
(Golos: Sophus Nielsen (10), Vilhelm Wolfhagen (4), August Lindgren (2), Nils Middelboe / Emile Sartorius

Grã-Bretanha – Holanda: 4-0
(Golos: Harold Stapley (4))

Medalha de Bronze

23 de outubro

Holanda – Suécia: 2-0
(Golos: Gerard Reeman, Edu Snethlage

24 de outubro

Medalha de ouro (Final)

Grã-Bretanha – Dinamarca: 2-0

Estádio: White City, em Londres (8000 espetadores)

Árbitro: John Lewis (Inglaterra)

Grá-Bretanha: Horace Bailey, Walter Corbett, Herbert Smith, Kenneth Hunt, Frederick Chapman, Robert Hawkes, Arthur Berry, Vivian Woordward, Harold Staplay, Claude Purnell, Harold Hardman.

Dinamarca: Ludvig Drescher, Charles Buchwald, Harald Hansen, Harald Bohr, Kristian Middelboe, Nils Middelboe, Oskar Nielsen Norland, August Lindgren, Sophus Nielsen , Vilhelm Wolfhagen, Bjorn Rasmussen.

Golos: 1-0 (Frederick Chapman, aos 20m), 2-0 (Vivian Woorward, aos 46m)

Legenda das fotografias:
1-O barão Pierre de Coubertin
2-"Imagem" oficial dos Jogos Olímpicos de Londres em 1908
3-O estádio White City, a casa das Olimpíadas de 1908
4-Uma imagem esbatida da luta pelo ouro olímpico
5-A estrela do torneio: Sophus Nielsen
6-O talentoso capitão britânico Vivian Woordward
7-Grã-Bretanha: os primeiros campeões olímpicos da história do futebol

Nota: Texto redigido ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Domingo, Fevereiro 12, 2012

Europeu de Futsal/Croácia 2012 (20)...


Final

Rússia - Espanha: 1-3 (após prolongamento)

Golos: Pula/Lozano (2), Luis Amado

Mais do mesmo no reino do futsal europeu: ESPANHA é de novo campeã...

Europeu de Futsal/Croácia 2012 (19)...

Jogo de atribuição dos 3º e 4º lugares

Croácia - Itália: 1-3

Golos: Grcić/Assis, Honorio, Mammarella

Itália ficou com um bronze que soube a pouco...

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2012

Europeu de Futsal/Croácia 2012 (18)...

Meias-finais

Espanha - Itália: 1-0

Golo: Aicardo

"Final antecipada" com despecho justo...

Europeu de Futsal/Croácia 2012 (17)...

Meias-finais

Croácia - Rússia: 2-4

Golos: Marinović (2)/Prudnikov, Cirilo, Abramov, Pula

Sonho croata desfeito pela poderosa Rússia...

Quarta-feira, Fevereiro 08, 2012

Europeu de Futsal/Croácia 2012 (16)...

Quartos-de-final

Itália - Portugal: 3-1

Golos: Assis, Patias, Arnaldo (a.g.)/Ricardinho

Squadra azzurra acaba com o sonho lusitano...

Europeu de Futsal/Croácia 2012 (15)...

Quartos-de-final

Rússia - Sérvia: 2-1

Golos: Fukin, Pula/Milosavac

Favoritos russos tiveram de suar a camisola para passar o duro obstáculo sérvio...