quarta-feira, abril 24, 2013

Figuras do apito (1)... John Langenus - O excêntrico belga com papel de destaque na história dos Mundiais

Na maioria das ocasiões eles dão vida ao lado mais polémico do futebol. As suas decisões nem sempre são encaradas com fair-play, e muitas vezes são apontadas como a causa de uma derrota, da perda de um título, ou mesmo da violência física tristemente portagonizada por artistas e adeptos do belo jogo. Quando se ganha ninguém se lembra deles, mas quando se perde toda a gente lhes aponta o dedo reprovador. Apesar de tudo eles fazem parte do espetáculo, são eles que o dirigem, para o bem... e para o mal. Eles são os árbitros de futebol, as figuras do apito, que de hoje em diante terão uma vitrina a eles reservada nos corredores do Museu Virtual do Futebol.
E a nossa primeira estrela - sim, eles também brilham no universo futebolístico - é quiçá a primeira figura mediática da arbitragem internacional. John Langenus, de seu nome, belga de nascimento que ficou célebre por ter dirigido a primeira final de um Campeonato do Mundo, no Uruguai, em 1930. Este terá sido um justo prémio para aquele que era na altura considerado o melhor juíz do planeta, que a nível internacional havia feito a sua estreia nos Jogos Olímpicos de Amesterdão, em 1928.
Nasceu a 8 de dezembro de 1891, em Berchem, próximo de Antuérpia, e descobriu a aptidão para o apito, digamos assim, depois de comprovar o seu pouco - ou mesmo nenhum - talento para a interpretação do jogo enquanto praticante. A este propósito uma vez disse Diego Armando Maradona: «Quem tem jeito (para a prática do futebol) vai para jogador, quem não tem vai para... jornalista desportivo»! Pois bem, longas décadas antes desta célebre teoria ter sido lançada a público pela lenda argentina já Langenus a punha em prática, já que além do talento para apitar jogos de futebol ele revelava-se igualmente um habilidoso artesão das palavras, o mesmo é dizer, um notável jornalista desportivo. Esta foi pois a (dulpa)forma que este cidadão belga encontrou para continuar ligado ao desporto que tanto amava. No entanto, a sua entrada na arbitragem também não foi fácil, já que ao desconhecer a resposta para a questão sobre "o que fazer quando a bola bater num avião que voasse a baixa altitude…" (!) fez com que reprovasse no primeiro exame de admissão para ser árbitro! Acontece aos melhores...

Homem culto - dominava quatro idiomas - Langenus, que profissionalmente desempenhava funções de chefe de gabinete do governador de Antuérpia, era, como já vimos, um apreciado jornalista, tendo escrito centenas de crónicas alusivas a encontros de futebol, grande parte delas guardadas nos arquivos da prestigiada revista alemã Kicker, com quem o belga colaborou durante muito tempo. Curioso é que grande parte dos jogos analisados jornalisticamente, por assim dizer, por John Langenus eram, ou tinham sido, dirigidos... por ele próprio! Reza a lenda que no final de cada jogo recolhia aos balneários onde redigia a crónica desse mesmo jogo para depois a enviar para a Kicker
Dentro do campo tinha pulso forte com os jogadores, onde o seu metro e noventa de altura impunha respeito. Ganhou pois a admiração de uma classe (futebolistas) que além de respeito para com ele olhava-o com algum espanto! É verdade. Além de dar nas vistas como árbitro Langenus atraia as atenções - quer dos jogadores, quer do público - pela forma exótica como se equipava. Usava sempre umas calças largas - à golfista! -, meias até ao joelho, jaqueta cumprida, e uma pequena gravata, que lhe conferiam um visual muito peculiar.

Batismo internacional

O dia 25 de fevereiro de 1923 fica marcado na carreira do primeiro grande nome da arbitragem planetária, o dia em que dirige o seu primeiro encontro internacional, facto ocorrido em Paris, onde a França venceu por 3-2 o Luxemburgo. Dali em diante visita mais algumas cidades europeias, onde arbitra sobretudo encontros internacionais de caráter particular. Os níveis da sua popularidade foram subindo de tom, não admirando que em 1928 fosse chamado ao torneio olímpico de futebol, na altura o maior evento futebolístico à escala planetária. Em Amesterdão, localidade onde decorreram as Olimpíadas de 28, Langenus vivenciou o seu primeiro momento de glória no mundo da arbitragem, ao apitar dois jogos na qualidade de árbitro principal, e atuado como linesman (fiscal de linha, ou árbitro assistente como agora são denominados) na grande final olímpica.
A 30 de maio de 1928, no Estádio Olímpico de Amesterdão, ele dirige a partida que colocou frente a frente a equipa da casa, a Holanda, aos futuros campeões olímpicos, ou melhor, bi-campeões olímpicos, o lendário conjunto do Uruguai. Uma oportunidade única para os adeptos holandeses verem na sua pátria algumas das estrelas do futebol daqueles anos 20, casos de José Nasazzi, Héctor Scarone, a Maravilha Negra José Leandro Andrade, ou... John Langenus, também ele já uma verdadeira estrela do futebol internacional. Ainda nessa histórica Olimpíada o belga dirigiu um novo encontro, também ocorrido no estádio olímpico, e que opôs a Itália ao Egito. Em jogo estava nada mais nada menos do que a medalha de bronze, a qual iria para o peito da squadra azzurra, depois de um categórico triunfo sobre os faraós por 11-3. Este facto ocorreu a 9 de junho, quatro dias antes da final, onde marcaram presença as duas potências do futebol sul-americano da época, tidas aliás para muitos como as seleções mais fortes do mundo, a Argentina e o Uruguai.
Para apitar o jogo mais aguardado do torneio - o qual seria ganho pelos uruguaios - foi chamado o holandês Johannes Mutters, o qual seria coadjuvado pelo italiano Achile Gama e o... belga John Langenus. Era já mais do que evidente o prestígio que angariava a nível internacional.

Momento de glória vivido em Montevidéu

De tal modo que aquando da realização do primeiro Campeonato do Mundo, dois anos mais tarde, em Montevidéu, capital do Uruguai, a FIFA não teve dúvidas em colocar Langenus na lista dos árbitros convidados a marcar presença naquele importante evento. Efetuou a longa viagem para Montevidéu no majestoso navio Conte Verde, o mesmo onde viajavam as delegações da FIFA, da Roménia, França, e Bélgica, três seleções que a par da Jugoslávia - que viajou noutro navio - representavam a Europa no primeiro Mundial da história. Em Montevidéu, onde decorreu toda a ação, Langenus apitou quatro jogos, o Uruguai - Perú (1-0), o Argentina - Chile (3-1), ambos alusivos à primeira fase do torneio, o Argentina - Estados Unidos da América (6-1), e o Uruguai - Argentina (4-2), este último a grande final do evento.
Na meia-final disputada entre argentinos e norte-americanos não se livrou de duras críticas dos soccer boys, que o acusaram de fazer vista grossa ao violento jogo praticado pelos sul-americanos, para quem ao que parece tudo valia, desde empurrões, pontapés, insultos... A fúria dos yankees para com o belga foi tão grande que a equipa médica do combinado da América do Norte chegou mesmo a agredir o árbitro com um estojo médico (!) arremessado para dentro do retângulo de jogo.

Após dirigir esse polémico jogo Langenus escreveu a habitual crónica para o Kicker, aproveitando posterirmente a sua estadia na América do Sul para conhecer outros locais daquele canto do Mundo. Atravessando então o rio de La Plata - que divide o Uruguai da Argentina - visita Buenos Aires, onde dias antes da grande final, precisamente entre os dois velhos inimigos, Argentina e Uruguai, recebe um telefonema dos dirigentes da FIFA que lhe pedem que regresse de imediato a Montevidéu para apitar a... final! Um pouco surpreendido o belga compra de imediato o bilhete para regressar de barco à capital uruguaia, e é aqui que conhece os primeiros contornos da fervorosa paixão que aquele jogo estava a provocar entre os adeptos dos dois países. Ainda em Buenos Aires ele percebe que aquela final era muito mais do que um jogo, era uma questão de vida ou de morte. E como se apercebeu que não iria agradar a gregos e a troianos ao mesmo tempo, isto é, algum dos países iria olha-lo com ódio (!) na conclusão do Mundial, ele decide fazer de imediato um acordo com a FIFA. Para garantir a sua segurança exigiu que logo após o apito final lhe fosse facultado um transporte que o tirasse do Estádio Centenário rumo ao porto de Montevidéu, e dali embarcar rapidamente rumo à Europa, a salvo da mais do que provável ira de um dos derrotados. Exigência aceite John Langenus regressou então a Montevidéu num barco apinhado de fanáticos adeptos argentinos, que nem sequer imaginavam que aquele gentleman de envergadura alta seria o árbitro da final!

No dia 30 de julho sobe ao relvado do majestoso Estádio Centenário, construído propositadamente para este Mundial, e ainda antes de dar início ao esperado duelo a polémica estoirou. Na escolha de campo os dois capitães (Nasazzi do lado uruguaio e Ferreira do lado argentino) discutiam. O uruguaio queria jogar com uma bola feita em seu país. O argentino, com uma bola feita na Argentina. Perante esta birra o árbitro belga decidiu que no primeiro tempo joga-se com a bola argentina e no segundo com a bola uruguaia. Com a bola argentina, os uruguaios conseguiram o primeiro golo, aos 12 minutos, marcado por Dorado. Oito minutos depois, Peucelle empatou. Aos 37 minutos, Stabile, o artilheiro do campeonato, marcou o segundo tento argentino. E a primeira parte chegou ao fim com os argentinos a vencer por 2-1. Foi espantosa a  reação uruguaia na etapa complementar, jogando com a bola feita em casa. Aos 12 minutos, Cea empatou. Aos 23, num remate de fora da área, Iriarte pôs o Uruguai em vantagem. O país vivia momentos de sofrida espera quando, num contra-ataque Dorado centrou da direita, pelo alto, e Castro com uma cabeçada fulminante mandou a bola para o fundo das redes. Era o quarto golo. Um minuto depois, o jogo acabava. E o Uruguai era assim o primeiro campeão do Mundo da história.
Terminada a final Langenus correu - pelo próprio pé, já que o transporte que lhe havia sido assegurado pela FIFA não estava lá! - rapidamente para fora de um estádio que estava em profundo delírio com o triunfo da celeste. Chegado ao porto de Montevidéu as notícias para o belga não eram nada boas. O cerrado nevoeiro que se abateu sobre o rio de La Plata fez com que as autoridades marítimas cancelassem a partida de qualquer tipo de embarcação. Os planos de Langenus tinham saído furados, não tendo outro remédio senão passar a noite escondido no seu camarote do navio Duilio que o levaria no dia seguinte de volta a terra segura, isto é, a Europa.

Como grande celebridade que já era no mundo da arbitragem não foi com surpresa que quatro anos mais tarde fosse de novo chamado à fase final de um Campeonato do Mundo, desta feita em Itália, embora aqui apenas tivesse dirigido um encontro, o Checolosváquia - Roménia, disputado em Trieste, e que terminou com a vitória da primeira seleção por 2-1. E como não há duas sem três foi chamado em 1938 para um novo Mundial, desta feita em França, onde apitou dois encontros. O primeiro, disputado no Parc des Princes, em Paris, foi histórico para Langenus. Suíça e Alemanha discutiam a passagem aos quartos-de-final, e eis que aos seis minutos do prolongamento o germânico Pesser tem uma entrada para lá de violenta sobre um adversário, recebendo ordem de expulsão do belga, a única sanção disciplinar deste género que aplicou a um jogador em toda a sua carreira. A despedida dos grandes palcos ocorreria ainda nesse Mundial, quando é nomeado pela FIFA para dirigir o jogo de atribuição dos terceiros e quartos lugares, entre Brasil e Suécia, vencido pelos primeiros.
Numa altura em que os jogos internacionais eram escassos, ao contrário do que hoje acontece, John Langenus apitou um total de 85 jogos! Retirou-se definitivamente da arbitragem em 1939, tendo passeado a sua classe por diversos países do Mundo, inclusive Portugal, pais que teve a honra de receber uma visita sua, a 23 de fevereiro de 1930, quando no Porto dirigiu um Portugal-França, concluído com um triunfo luso por 2-0. Depois de retirado dedicou-se à sua outra paixão, a escrita, tendo publico entre outros livros alusivos ao futebol o célebre "Whistling in the World", uma autobiografia onde eternizou as suas aventuras pelo Mundo da bola. Faleceu na sua cidade natal, a 1 de dezembro de 1952, com 60 anos de idade.

Legenda das fotografias:
1-John Langenus
2-Na escolha de campo com os capitães de Holanda e Uruguai, nos Jogos Olímpicos de 1928
3-Como árbitro assistente na final de Amesterdão
4-Na viagem para Montevidéu
5-Com os capitães do Uruguai e Argentina, antes da final do Mundial de 1930
6-Golo da Argentina, em pleno Centenário, com Langenus ao fundo a visionar o lance
7-A peculiar imagem do primeiro grande ícone da arbitragem internacional

sexta-feira, abril 19, 2013

Futebol nos Jogos Olímpicos (9)... Melbourne 1956

Em 1956 o torneio olímpico transpunha pela primeira vez  as fronteiras da Europa. Desde que havia sido oficializado em 1908 o futebol olímpico nunca havia sido jogado fora dos relvados do Velho Continente, o palco onde se assumia indiscutivelmente como ator principal do teatro desportivo. Fora deste continente o belo jogo parecia por aqueles dias ainda não ter adquirido o estatuto de desporto rei, sendo a exceção a América do Sul, onde há muito que já era tratado de forma principesca. Em termos olímpicos o ato de fé de que a modalidade ainda não era venerada a 100% - o mesmo será dizer que ainda não suscitava um interesse profundo - foi que nos Jogos de 1932, em Los Angeles, ela nem sequer fez parte do programa olímpico. Mas a meio do século XX tudo parecia estar a mudar, ou pelo menos a tentar.
Em 1956 os Jogos Olímpicos disputam-se na longínqua Austrália, mais concretamente na cidade de Melbourne, que assim testemunhou a primeira aparição das Olimpíadas no hemisfério sul. O facto de terem decorrido num local tão distante fez com que a esmagadora maioria das delegações tivesse enfrentado um duro desafio financeiro para levar um alargado leque de atletas à grande ilha do Pacífico. Assim sendo - e face às dificuldades financeiras para fazer uma viagem tão longa - a maior parte das nações fizeram-se representar por reduzidas comitivas, com pouquíssimos atletas, transformando a maior parte das competições que integravam o cartaz olímpico de 56 num enorme... deserto. Marcado por muitas ausências esteve igualmente o torneio olímpico de futebol, onde apenas 11 equipas - sim, somente 11 (!!!) - lutaram pelo ouro. Desde 1912, em Estocolomo, que o torneio olímpico não tinha tão poucos concorrentes! Sem dúvida que este não era o melhor cartão de visita para apresentar, e sobretudo fidelizar, o futebol noutros cantos do planeta que não na Europa e na América do Sul.

Outro aspeto que empobreceu muito o torneio olímpico de Melbourne foram as lutas políticas. Cerca de um mês antes do início dos Jogos a União Soviética invade a Hungria com a intenção de contestar uma manifestação popular, que ficou conhecida como a Revolução Húngara de 56, onde o povo magiar exigia uma maior autonomia da sua pátria em relação aos soviéticos. Por esta altura a lendária seleção húngara do início dos anos 50 - campeão olímpica em 1952, e vice campeã do Mundo em 1954 - já se havia desmembrado, com os seus melhores jogadores - entre outros Puskas, Czibor, ou Kocsis - a pedir asilo político a outros países onde continuariam as suas lendárias carreiras desportivas.
Para Melbourne viajaram apenas cinco seleções europeias, a maioria delas oriundas do leste, com destaque para a União Soviética, que pela segunda vez na sua história marcava presença nos Jogos, e para a Jugoslávia, a eterna vice-campeã olímpica, como mais à frente se iria confirmar... mais uma vez. Além destas também seguiram viagem para a Austrália os combinados da Grã-Bretanha, Alemanha (unificada !!!), e a Bulgária. Teoricamente deste grupo pensava-se que pudesse sair o novo campeão olímpico, até porque as restantes seis seleções pertenciam a uma espécie de sub-mundo do futebol, com poucas, ou nenhumas, provas dadas no cenário futebolístico internacional, como eram os casos da Tailândia, Índia, Indonésia, Japão, Estados Unidos da América, e a turma anfitriã, a Austrália. Estes eram os 11 participantes do desolador torneio olímpico de 56, e como já deu para ver da América do Sul nem uma única seleção se aventurou fazer a viagem até à terra dos cangurus, onde o soccer - como lá é conhecido o futebol - era ainda um verdadeiro enigma.
Novidade no torneio olímpico de 1956 o facto de a maioria das seleções ter tido a necessidade de passar por uma fase de qualificação para carimbar o passaporte para a fase final.

Países de leste confirmam favoritismo... com algumas dificuldades pelo meio

Foi no peculiar Melbourne Olympic Park - de arquitetura oval (!) - que decorreram a esmagdora maioria das provas olímpicas de 1956, sendo uma delas o futebol. A 24 de novembro entram em campo União Soviética e a Alemanha unificada - uma das novidades do torneio. Germânicos que apesar de ostentaram o título de campeões do Mundo - conquistado dois anos antes na Suíça pelos alemães do ocidente, isto é, pela República Federal da Alemanha - apresentavam-se em Melbourne com uma equipa constituida por jovens jogadores amadores, sem qualquer experiência internacional. Orientada pela lenda da tática que em 54 havia conduzido os alemães ocidentais à épica conquista do Mundo, Sepp Herberger, a seleção teutónica fez a vida negra aos frios e desconhecidos soviéticos no encontro que abriu a primeira eliminatória do torneio. Aos 23 minutos Anatoli Issaev abriu o marcador de um jogo disputado às 14:30h da tarde... debaixo de um calor sufocante tipicamente australiano. Já na segunda parte, e muito perto do fim, os homens de leste carimbaram o ingresso nos quartos-de-final, quando à passagem do minuto 86 Eduard Streltsov fez o segundo tento da sua seleção. Porém, a boa performance dos germânicos seria justamente premiada com um golo, aos 89 minutos, em cima do apito final do inglês Robert Mann, por intermédio de Ernst Habig. 2-1 final, um triunfo sofrido de uma União Soviética que era uma verdadeira incógnita para o mundo ocidental. 


Olhavam para eles com desconfiança, muito devido ao seu posicionamento político perante o resto do mundo. O seu ainda pouco conhecido desempenho desportivo era classificado por muitos como científico e metódico, e para outros pouco atrativo sob o ponto de vista técnico. Assim era o futebol soviético, protagonizado por aquela misteriosa equipa que na sua camisola vermelha trazia impressa as siglas CCCP. Por trás da cortina de ferro do bloco comunista havia um novo mundo para descobrir sob o ponto de vista desportivo, o qual começou precisamente a deixar-se vislumbrar nestes Jogos de 1956, já que no final eles levariam para casa um impressionante número de 98 medalhas, entre as quais figurava a rodela de ouro que seria conquistada no futebol. Mas já lá iremos. 


A 26 de novembro perante uma desoladora assistência de pouco mais de 3500 pessoas a experiente Grã-Bretanha massacrava a para lá de modesta Tailândia - que fazia a sua estreia nas andanças olímpicas no que a futebol concerne - com nove golos sem resposta, com destaque para o hattrick de John Laybourne. 
Um dia mais tarde foi a vez da seleção da casa fazer não só a sua estreia em torneios olímpicos mas também num grande evento futebolístico internacional. Completamente desconhecido - para o mundo ocidental - o soccer australiano media forças com o Japão. Segundo crónicas da época os socceroos não se apresentaram no evento na sua melhor condição física, tendo iniciado a sua preparação apenas quatro semanas antes deste ter início. Contudo, apesar de mais fortes sob o ponto de vista técnico os japonenses não conseguiram furar a sólida defensiva local. E como quem não marca sofre aos 26 minutos Graham McMillan apontou - de grande penalidade - o primeiro golo da tarde para a Austrália. Na segunda parte os nipónicos bem tentaram dar a volta por cima, mas a sorte nada queria com eles, e à passagem do minuto 61 Frankie Loughran selou definitivamente o triunfo dos australianos que assim vivenciavam o primeiro momento dourado do seu soccer.

No dia 28 tinham início os quartos-de-final. Aproximadamente 5300 espetadores visionaram a segunda maior goleada verificada no torneio. A favorita Jugoslávia vergava os Estados Unidos da América por concludentes 9-1, com destaque para os hattricks de Muhamed Mujic, e Toza Veselinovic, este último que haveria de ser um dos três melhores marcadores da competição (juntamento com o indiano D'Souza, e o búlgaro Stoyanov), com um total de quatro remates certeiros.
No dia seguinte o fator surpresa pairou sobre o Melbourne Olympic Park. A União Soviética não iria além de um pobre empate a zero golos diante da modesta Indonésia (!) Exibindo um futebol fraco sob o ponto de vista técnico os soviéticos eram obrigados a um segundo jogo ante o combinado asiático marcado para dois dias mais tarde. Surpreedente foi também a vitória da Bulgária sobre a Grã-Bretanha, e logo por números a que os súbitos de Sua Majestade estavam pouco habituados. 6-1 para os búlgaros, que confirmavam assim a superioridade os países do leste europeu sobre a demais concorrência.
Empolgados com a vitória da primeira ronda cerca de 7500 australianos deslocaram-se ao anfiteatro olímpico para ver os socceroos em ação diante da Índia, que aparecia pela terceira vez consecutivo no torneio. Um confronto que ditou desde logo uma certeza: pela primeira vez uma seleção do oriente iria marcar presença nas meias finais de um torneio olímpico. A anteceder o duelo entre autralianos e indianos um episódio curioso, diria mesmo caricato, fez correr muita tinta. Os indianos queriam jogar descalços, à semelhança do que haviam tentado fazer no Campeonato do Mundo de 1938. Aí, a FIFA não permitiu que os atletas daquele país atuassem sem botas específicas para a prática do futebol. Só que em Melbourne quem mandava era o Comité Olímpico Internacional (COI), e como este continuava a defender o desporto amador contra o profissionalismo da FIFA deu aval para que os indianos jogassem da forma que preferissem! No entanto, e depois de muita discussão - com os australianos a protestar tal decisão do COI - os indianos concordariam em jogar de chuteiras. E o que é certo é que com ou sem botas a Índia humilhou a equipa da casa por 4-2, com destaque para três golos de Neville Stephen D' Souza. Quanto aos socceroos, e graças a uma paupérrima exibição, baseada num jogo violento para com os seus adversários, terminavam a sua aventura olímpica.  


Entretanto neste mesmo dia 1 de dezembro a União Soviética era obrigada a horas extras diante da Indonésia, depois do já citado 0-0 no primeiro jogo. Alertados para a surpresa oriental os soviéticos, mesmo sem encantar, puxaram dos seus galões e golearam os indonésios por claros 4-0, com realce para o bis de Sergei Salnikov. 
Este seria o último jogo em que os europeus mostrariam um futebol tecnicamente sombrio, já que nas meias finais o universo futebolístico ficaria finalmente a conhecer aquela que foi vincadamente uma das grandes seleções das décadas de 50 e 60 do século passado. 

Jugoslavos garantem presença na sua terceira final consecutiva


No dia 4 de dezembro o Melbourne Olympic Park era palco do Jugoslávia - Índia, o primeiro encontro alusivo às meias-finais do certame. Sem grandes dificuldades os europeus, mais experientes, e com maior poderio técnico-tático, bateram os asiáticos por claros 4-1, num jogo onde Papec foi a estrela da tarde ao apontar dois dos quatro golos jugoslavos. Os homens dos Balcãs marcavam assim presença na sua terceira final olímpica consecutiva. 
Um dia mais tarde apareceu então - finalmente - o perfume do futebol soviético. Os jogadores de leste mostraram ao planeta da bola o poderio do seu futebol, que sem ser de facto brilhante do ponto de vista técnico primava pela sagaz eficiência tática, pela força e precisão. Eles podiam não ter o encantador brilho técnico do lendário Uruguai das décadas de 20 e 30, por exemplo, mas apresentavam jogadas trabalhadas em laboratório, e um estudo prévio aprofundado sobre os seus adversários, facto que os iria rotular como os primeiros cientistas do futebol. Bom, mas voltando ao campo de batalha, o mesmo será dizer ao relvado do oval Melbourne Olympic Park, para recordar a curta mas merecida vitória soviética sobre a Bulgária, por 2-1, carimbada em prolongamento.


Búlgaros que caíram de pé, restando-lhes agora a luta pela medalha de bronze, cuja disputa decorreu a 7 de dezembro diante da Índia. 
Diante de pouco mais de 21 000 espetadores o combinado europeu finalizou a sua boa prestação neste torneio olímpico com um claro triunfo por três golos sem resposta, conquistado assim uma merecida medalha, a primeira do seu historial no que ao desporto rei diz respeito. 
Neste encontro o destaque individual foi para Todor Diev, autor de dois dos três tentos búlgaros. 
Quanto aos indianos este quarto lugar foi o maior feito do seu - ainda hoje - praticamente desconhecido futebol no plano internacional. 

União Soviética sobe ao lugar mais alto do pódio


E no dia 8 de dezembro o Melbourne Olympic Park registou a sua maior afluência, com quase 87 000 a marcarem presença na grande final do certame. Arbitrado pelo australiano Ron Wright o encontro foi muito equilibrado, ou não estivessem em campo as duas melhores seleções da prova. Equilíbrio que seria furado aos 48 minutos por Anatoli Ilyin, homem que entrou para a história do futebol soviético após apontar o único golo desta final olímpica, o golo que deu a primeira coroa de glória aos... cientistas do futebol. Naquele dia o Mundo ficou a conhecer uma equipa forte, com um fôlego inesgotável, comandada desde a baliza pelo imponente guarda-redes Lev Yashin, que com o seu equipamento negro, as suas enormes mãos, e a sua incrível agilidade entre os postes, impunha respeito a qualquer adversário. Foi neste ano que os soviéticos começaram a sair do seu reservado mundo, em busca da conquista de... novos mundos. Dois anos mais tarde brilhariam a grande altura no Mundial da Suécia, e em 1960 venceram a primeira edição do Campeonato da Europa. 
Quanto à Jugoslávia pela terceira olimpíada consecutiva fica com a prata! Parecia sina.

A figura: Lev Yashin


É apontado por muitos dos historiadores do belo jogo como o melhor guarda-redes de todos os tempos. Ele foi o esteio da geração dourada do futebol soviético, ficando eternizado no Olimpo do futebol como a Aranha Negra. Lev Yashin, o seu lendário nome, rapaz de modestas famílias nascido a 22 de outubro de 1929, em Moscovo, e que se deu a conhecer ao Mundo precisamente no início da década de 50, ao serviço do único clube cujas balizas defendeu ao longo de 20 anos de carreira, o Dínamo de Moscovo. Aos 14 anos trocou o hóquei sobre o gelo - a sua primeira paixão - pelo futebol, onde mostrou atributos até então nunca dantes vistos num guarda-redes. De bom porte atlético ele foi o primeiro keeper a sair sem medo aos pés dos temíveis avançados que ameaçavam a sua área. Dizem até que ele era capaz de ler a mente dos homens-golo... Era detentor de reflexos invejáveis e de um posicionamento tático perfeito entre os postes. Era a voz de comando das suas equipas, da baliza ele dava as ordens aos seus companheiros, já que lá atrás ele lia o jogo com uma mestria invulgar para um guardião. Durante 22 anos ele defendeu então as cores do Dínamo de Moscovo (entre 1950 e 1972), emblema ao serviço do qual conquistou cinco campeonatos soviéticos (1954, 1955, 1957, 1959 e 1963) e três taças da União Soviética (1953, 1967 e 1970). Ao serviço da seleção atuou em 78 ocasiões, tendo vencido a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1956, e o Campeonato da Europa de 1960. Esteve ainda presente em três edições do Campeonato do Mundo (1958, 1962, e 1966), tendo como melhor resultado um quarto lugar - atrás do Magriços de Portugal - no Mundial de Inglaterra, em 66. Disputou um total de 812 jogos na carreira, tendo defendido um impressionante número de 150 grandes penalidades! Vestia-se sempre todo de preto, facto que lhe valeu a eterna alcunha de Aranha Negra. Em 1968 foi condecorado com a Ordem de Lênin pela sua brilhante carreira ao serviço do desporto soviético, tendo em 1971 colocado um ponto final no seu trajeto imaculado. Quando certa ocasião lhe perguntaram o segredo do seu sucesso respondeu que: «tudo se devia ao facto de fumar um cigarro e beber um copo de vodka antes de cada jogo», um ritual que o deixava mais calmo! Em 1975, foi eleito o atleta russo do século, e em 1998, a FIFA elego-o como o melhor guarda-redes do século XX. Em 1963 ele venceu o famoso galardão Bola de Ouro, sendo até hoje o único guarda-redes a conquistar este prémio! Em 1986 perdeu uma perna por causa de uma lesão no joelho.
Viria a faleceu no dia 21 de março de 1990, em Moscovo, vitimado por um cancro no estômago. No Estádio Luzhniki ergueu-se então uma estátua em sua homenagem.

Resultados

1ª Eliminatória

União Soviética - Alemanha: 2-1
(Issaev, aos 23m, Streltsov, aos 86m)
(Habi, aos 89m)

Grã-Bretanha - Tailândia: 9-0
(Laybourne, aos 30m, 82m, 85m, Twissell, aos 12m, aos 20m, Bromilow, aos 75m, aos 78m, Lewis, aos 21m, Topp, aos 90m)

Austrália - Japão: 2-0
(McMillan, aos 26m, Loughran, aos 61m)

Quartos-de-final

Jugoslávia - Estados Unidos da América: 9-1
(Veselinovic, aos 10, aos 84m, aos 90m, Mujic, aos 16, aos 35m, aos 55m, Antic, aos 12m, aos 73m, Papec, aos 20m)
(Zerhusen, aos 42m)

União Soviética - Indonésia: 0-0 / 4-0 (desempate)
(Salnikov, aos 19m, aos 59m, Ivanov, aos 19m, Netto, aos 43m)

Bulgária - Grã-Bretanha: 6-1
(Kolev, aos 40m, aos 85m, Stoyanov, aos 45m, aos 75m, aos 80m,Nikolov, aos 6m)
(Lewis, aos 30m)

Austrália - Índia: 2-4
(Morrow, aos 17m, aos 41m)
(D'Souza, aos 9m, aos 33m, aos 50m, Kittu, aos 80m)

Meias-finais

Jugoslávia - Índia: 4-1
(Papec, aos 54, aos 65m, Veselinovic, aos 57m, Salam (p.b.), aos 78m)
(D'Souza, aos 52m)

União Soviética - Bulgária: 2-1
(Streltsov, aos 112m, Tatushin, aos 116m)
(Kolev, aos 95m)

Jogo de atribuição da medalha de bronze

Bulgária - Índia: 3-0
(Diev, aos 37m, aos 60m, Stoyanov, aos 42m)

Final

União Soviética - Jugoslávia: 1-0

Data: 8 de dezembro de 1956

Estádio: Melbourne Olympic Park

Árbitro: R. Wright (Austrália)

União Soviética: Yashin; Baschaschkin, Ogognikov  e Kuznetsov; Netto e Maslenkin; Tatushin, Isaev, Simonian, Salinikov e Ilyin

Jugoslávia: Radenkovic; Koscak e Radovic; Santek, Spajic e Krstic; Sekularac, Antic, Papek, Veselinovic e Mujic

Golo: 1-0 (Ilyin, aos 48m)

Vídeo: URSS - JUGOSLÁVIA
video

Legenda das fotografias:
1-Cartaz oficial dos Jogos Olímpicos de 1956
2-fase do encontro entre Alemanha e União Soviética
3-O oval Melbourne Olympic Park
4-Bilhete do torneio olímpico de futebol de 1956
5-Britânicos levaram a melhor sobre os estreantes e frágeis tailandeses
6-O jugoslavo Toza Veselinovic, um dos três goleadores do torneio

7-Lance do duelo entre soviéticos e indonésios
8-Jugoslávia ultrapssa a Índia nas meias-finais
9-Lance do jogo de apuramento dos 3º e 4º lugares
10-A equilibrada final olímpica de 56
11-A estrela da companhia soviética, a Aranha Negra Lev Yashin
12-Lance do Austrália - Japão
13-Imagem da grande final...
14-... que coroou a União Soviética como a campeã olímpica de 1956

segunda-feira, abril 15, 2013

Emblemas históricos (11)... Upton Park Football Club

Upton Park Football Club, o primeiro campeão olímpico da história que na voz da FIFA... nunca o foi! Este terá sido porventura, o capítulo com mais glamour de um dos primeiros cavaleiros da história do futebol que cedo demais travou duelo fatal com a morte. Para conhecer a curta história de vida deste - hoje - falecido emblema é preciso recuar na linha do tempo quase 150 anos (!), mais concretamente até 1866, ano em que na cidade de Londres nasce então o Upton Park Football Club, precisamente três anos após a Football Association (Federação Inglesa de Futebol) ter sido fundada. Clube de essência amadora e princípios religiosos (!), o Upton Park foi desde a sua fundação um emblema elitista, já que a esmagadora maioria dos seus atletas era oriunda de abastadas e aristocratas famílias que habitavam a zona de Forest Gate, famosa pelas suas pomposas mansões. Os seus onzes eram compostos por cirurgiões, corretores da bolsa, solicitadores, entre outras afamadas e notáveis profissões só ao alcance dos filhos das classes mais altas.

E já que falamos em fama um dos nomes mais sonantes da história do Upton Park foi Charles William Alcock, um dos grandes dinamizadores do futebol em Inglaterra aquando do seu nascimento na segunda metade do século XIX. Alcock, que na qualidade de jogador defendeu as cores do emblema que hoje visitamos, ficou famoso - entre outras ações - pela criação da Footbal Association Cup (Taça de Inglaterra, como hoje a conhecemos), competição que viu a luz do dia em 1872, sendo atualmente a prova mais antiga do planeta da bola. Primeira edição da FA Cup que seria disputada por quinze clubes, sendo um desses quinze pioneiros o Upton Park Fottball Club. 11 de novembro de 1871 é pois uma data que fica eternizada não só na história do futebol inglês como do próprio futebol mundial, já que nesse dia era dado o pontapé de saída na FA Cup, sendo que num dos sete encontros alusivos a essa primeira eliminatória o Upton Park recebeu no seu recinto, o qual dava pelo nome de West Ham Park, o combinado do Clapham Rovers, com quem perdeu por 0-3. Uma aventura fugaz, mas histórica, sem dúvida. Até 1887 o clube disputou mais 12 edições daquela que com o passar dos anos se assumiria como a competição rainha do futebol inglês, tendo por quatro ocasiões chegado aos quartos-de-final, o seu melhor registo.
Com o profissionalismo a começar a ditar leis entre os intérpretes do futebol britânico o amador Upton Park Football Club vê-se obrigado a encerrar as portas precisamente em 1887, mas por pouco tempo, já que apenas quatro anos volvidos renasce das cinzas. E renasce com aparente energia, já que encabeça a lista de fundadores (em 1892) da Southern Alliance, um campeonato distinado às equipas do sul de Inglaterra.

O momento de fama... mundial

O barão Pierre de Coubertin sonhou e os Jogos Olímpicos... renasceram. Em finais do século XIX o mundo do desporto ganhou um novo impulso com o nascimento das Olimpíadas da Era Moderna, uma ideia do aristocrata francês Pierre de Frédy, mais tarde eternizado como barão Pierre de Coubertin. Em 1896 Atenas testemunhou o primeiro capítulo daquele que muitos - nos dias de hoje - consideram como o maior evento desportivo do planeta, o qual quatro anos volvidos teve um segundo capítulo na cidade berço do (re)criador dos Jogos, Paris. Estávamos em 1900, na viragem para o século XX, e a cidade luz reluzia como nunca no mapa mundial na sequência do acolhimento da Exposição Universal, um mega evento planetário que trouxe a Paris gentes do Mundo inteiro naquele longínquo ano. A cidade engalanou-se. Nos Campos Elísios construiram-se os majestosos Grand Palais e o Petit Palais, e foi inaugurado o Métropolitain (Metro de Paris) que ligou a cidade de uma ponta à outra por baixo da terra. Foi pois neste ambiente de festa e modernidade que decorreu a segunda edição dos Jogos Olímpicos, um evento que seria morto à nascença pela própria Exposição Universal! Na verdade as Olimpíadas de 1900 não foram mais do que um pequeno apontamento de diversão da Exposição, protagonizado por um conjunto de atletas para lá de medíocres - segundo relatos dos historiadores desportivos - que ali parecia estar única e exclusivamente com a tarefa de entreter os visitantes da feira, que por sua vez se mostraram indiferentes ao certame. Tudo isto sob o olhar incrédulo de Coubertin e do Comité Olímpico Internacional (COI) - os tutores das Olimpíadas da Era Moderna -, praticamente afastados da organização do evento desportivo pelos responsáveis pela Exposição Universal, que chamaram até si a responsabilidade de erguer um certame que seria caricato, a diversos níveis.

Caricato foi também o torneio de futebol, modalidade que pela primeira vez surgia no cartaz oficial dos Jogos Olímpicos, mas de forma... experimental. Futebol que assumia já contornos de popularidade um pouco por todo um Mundo que ainda estava orfão de uma grande competição internacional. No entanto, e apesar dos esforços de Coubertin - sob a fiscalização dos organizadores da Exposição Universal, claro está - as grandes equipas nacionais da época não mostraram muito interesse em marcar presença naquele que estava projetado como o primeiro grande torneio internacional do belo jogo. Um dos entraves terá sido o profissionalismo dos jogadores, que vigorava em muitos países onde o futebol já reinava, e como esse mesmo profissionalismo era o inimigo principal do amadorismo que o barão Pierre de Coubertin apregoava para a essência Olímpica os melhores atletas e seleções de então declinaram desde logo o convite. Sem combinados nacionais tentou-se trazer a Paris alguns clubes campeões nacionais nos seus respetivos países, mas em vão! Estes também não se mostraram cativados com a ideia de marcar presença na capital gaulesa, e ver futebol nos Jogos de 1900 era assim uma missão cada vez mais complicada.
Na Bélgica, por exemplo, a federação pediu ajuda ao seu carismático jogador Frank Konig para reunir um grupo de jogadores com a finalidade de representar o país em Paris, tendo este solicitado a ajuda da Fédération Universitaire, que mesmo assim não conseguiu doar mais do que meia dúzia de jogadores! Konig e a federação belga tiveram então de colocar anúncios nos jornais para recrutar os restantes atletas, ideia que não seria totalmente corada de êxito, já que as respostas foram muito poucas e no embarque para a capital francesa a representação da Bélgica só levava 10 jogadores! Seria já em solo gaulês que Eugène Neefs aceitou dar uma ajuda à seleção da... Université de Bruxelles! Nem sequer se apresentavam na qualidade de seleção da Bélgica!

Dificuldades semelhantes teve a França, que sem jogadores interessados em formar uma seleção nacional recorreu ao seu campeão nacional de 1899/1900, o Havre Athletic Club, convidando o clube a competir no torneio olímpico. Para não fugir à regra este recusou e a Union des Sociétés Françaises des Sports Athlétiques (USFSA) apelou quase em desespero aos parisienses do Club Français para reunir uma equipa com vista à participação nos Jogos. Com muito esforço esta equipa teve de se reforçar com três atletas dos vizinhos do Racing Club de Paris e assim formar a seleção da USFSA! Mais fácil parece ter sido a tarefa dos ingleses, que com os seus melhores jogadores e equipas profissionalizados delegaram nos amadores do Upton Park Football Club a tarefa de representar a Grã-Bretanha no atribulado torneio olímpico de futebol. Este foi pois o momento alto do clube londrino.

Foi pois com três clubes (!), ou combinados de jogadores amadores e estudantes universitários (!) que se desenrolou a caricata estreia do futebol nas andanças olímpicas. Surreal foi no mínimo a calendarização do evento, que ao invés de três jogos - num sistema de poule, onde todos jogariam contra todos - teve apenas dois, tendo o campeão sido a equipa com melhor... média percentual de vitórias! Insólito e confuso.
Título que seria então arrecadado pelo Upton Park, que no primeiro jogo, ocorrido a 20 de setembro, derrotou - recorrendo ao rudimentar sistema tático de 2-3-5 - no Vélodrome Municipal de Vincennes - onde decorreu grande parte da ação destes Jogos Olímpicos de 1900 - os franceses da USFSA por 4-0, com golos de Nicholas (2), Arthur Turner, e James Zealey. Três dias mais tarde o misto francês esmagou no mesmo local o misto belga por 6-2, resultado que de nada valeu pois a medalha de ouro - que na verdade nem existia, já que na época ainda não eram atribuídas medalhas aos campeões olímpicos - ficou na posse do Upton Park Football Club que assim só precisou de uma vitória - vista in loco por apenas 500 espetadores - para garantir um lugar na história do futebol mundial.
Triunfo cuja autenticidade ainda hoje não é unânime, já que a FIFA - fundada quatro anos mais tarde - não valida uma competição que foi disputada por apenas três equipas, e não por seleções nacionais, equipas essas que nem sequer se defrontaram num sistema de todos contra todos! Argumentos que inclusive são partilhados pelas próprias federações da França, Bélgica, e Inglaterra, que não reconhecem nestes encontros qualquer caráter oficial, olhando para eles como meras partidas amigáveis e de... experimentação do futebol como modalidade olímpica!
Opinião contrária parece ter o COI que anos mais tarde atribuiu medalhas de ouro, prata, e bronze, respetivamente a Grã-Bretanha, França, e Bélgica!
Ah, quanto ao Upton Park (que nada tem a ver com o West Ham United, como muita gente possa inicialmente pensar, uma vez que o nome do estádio dos "hammers" é Upton Park) este foi mesmo o momento de glória do clube, oficial ou não oficial, tendo onze anos depois da caricata epopeia parisiense fechado definitivamente as suas portas.
Eternos são sim os nomes de J.H. Jones, Claude Buckingham, William Gosling, Alfred Chalk, J.E. Barridge, William Quash, Arthur Turner, F.G. Spackman, J. Nicholas, James Zealey, e A. Haslan, os campeões olímpicos - ou não - de 1900 ao serviço do Upton Park Football Club.  

Legenda das fotografias:
1-Imagem rara guardada no museu do COI, que retrata o célebre jogo entre o Upton Park e a Union des Sociétés Françaises des Sports Athlétiques nos Jogos Olímpicos de Paris
2- Charles William Alcock, personagem ilustre do futebol inglês que enquanto jogador atuou no Upton Park F.C.
3-Cartaz oficial das Olimpíadas de 1900
4- Vélodrome Municipal de Vincennes, local onde decorreram os dois encontros de futebol do caricato torneio olímpico de 1900
5- A equipa da Union des Sociétés Françaises des Sports Athlétiques, vice-campeã olímpica

sexta-feira, abril 12, 2013

Copa América (1)... Argentina 1916

O prometido é devido, e tal como foi anunciado recentemente inauguramos hoje uma nova vitrina no Museu Virtual do Futebol. Um espaço onde a garra, a paixão, e a arte - futebolística, claro está - são condimentos que irão saltar inevitavelmente à vista de todos aqueles que o visitarão, condimentos esses bem vincados em cada edição desta que é hoje em dia a segunda competição disputada por seleções nacionais mais antiga do Mundo - a primeira dá pelo nome de torneio olímpico de futebol - em atividade. Iniciamos hoje então uma fascinante - sem margem para dúvidas - viagem pela Copa América, a quase centenária prova disputada árdua e apaixonadamente pelos guerreiros do continente americano, que viu oficialmente a luz do dia em 1916, embora a primeira tentativa de erguer um torneio continental tenha ocorrido seis antes, na Argentina. Por essa altura o futebol começava a despertar intensas paixões no já de si apaixonado povo sul-americano, e já era bem viva a chama da rivalidade que deflagrava entre alguns países nas canchas entretanto desenhadas, com destaque para os duelos entre os eternos inimigos separados pelo Rio de la Plata, Uruguai e Argentina. E seria precisamente este último país que em 1910 decide apimentar um pouco mais as rivalidades que iam crescendo um pouco por toda a zona sul do continente em torno do belo jogo ao criar uma competição continental, a qual seria batizada de Copa Centenario de la Revolución de Mayo, e que para além da seleção da casa contou ainda com o Chile e o Uruguai, os outros dois selecionados convidados. A este primeiro torneio organizado juntaram-se ainda as equipas locais do Alumni, Liga de Rosario, e Belgrano FC, as quais disputaram entre si uma série de jogos exibicionais, que serviam de aperitivo ao torneio principal, digamos assim. 

Na cancha a vitória da Copa Centenario de la Revolución de Mayo foi alcançada pela Argentina, que assim se proclamava campeã das Américas. Os argentinos venceram os dois encontros disputados, o primeiro ante o Chile, por expressivos 5-1 - com golos de Juan Hayes (2), José Viale, Eduardo Weiss, e Maximiliano Susán - e o segundo perante os inimigos do outro lado do Rio de la Plata, o Uruguai, que saiu do Estádio Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires, o palco onde foi desenrolado o evento - vergado a uma humilhante derrota por 1-4 - tendo os tentos argentinos sido apontados por Hayes, Susán, Viale, e Arnold Hutton. Porém, anos mais tarde, a Confederação Sul-Americana de Futebol não validou, digamos assim, este primeiro torneio como a edição estreia da Copa América, por razões que na verdade são pouco claras! O que se reconhece sim na Copa Centenario de la Revolución de Mayo é que ela galvanizou os países sul-americanos a darem aso à sua rivalidade dentro das canchas no seio de competições deste género, tal havia sido o sucesso do torneio idealizado pelos argentinos. Sucesso foi pois a principal palavra extraída desta Copa, a julgar não só pelo desmedido entusiasmo que a competição provocou nos fervorosos adeptos mas também pelo interesse dos dirigentes desportivos da época, que viam neste tipo de campeonatos internacionais o veículo ideal para levar o jovem futebol do continente a patamares mais elevados! 
E seria a pensar desta forma que seis anos mais tarde os argentinos - mais uma vez - orquestraram um novo capítulo dos acontecimentos ocorridos entre maio e junho de 1910. Aproveitando as comemorações do centenário da sua independência a Argentina leva então a cabo entre 2 e 17 de julho desse longínquo ano de 1916 o Campeonato Sul-Americano de Futebol, este sim, o tiro de partida oficial da atual Copa América. 


Entre os convidados voltavam a estar o Uruguai e o Chile, aos quais se juntava outra potência que começava a emergir no continente, o Brasil. Quarteto de luxo que se reuniu em Buenos Aires para dar vida a uma competição disputada em forma de poule, ou seja, em que todos jogavam contra todos, sendo o campeão a seleção que mais pontos contabilizasse. Mas até ao pontapé de saída algumas peripécias ficariam para a história desta primeira edição oficial do certame. A mais saliente foi protagonizada pela seleção brasileira, que esteve muito perto de... não participar no torneio. 
Nascida apenas dois anos antes a seleção teve algumas dificuldades no embarque para Buenos Aires, já que a planeada viagem marítima a bordo do navio Júpiter foi cancelada em cima da hora pelo jurista Ruy Barbosa que recusou que malandros - expressão por si usada (!) - viajassem no mesmo barco com diversos magistrados que iriam na mesma altura para a capital argentina. O Ministro das Relações Exteriores, Lauro Muller, tentou mediar este braço de ferro, mas em vão, pois a equipa brasileira teve mesmo de fazer a viagem para Buenos Aires de comboio, uma travessia que demorou quatro dias e cinco noites! Apesar do cansaço - evidente - provocado pela longa viagem o Brasil apresentou um futebol atrativo sob o ponto de vista técnico, caracterísitca que seria aprimorada com o passar dos anos e que faria deste país o rei do futebol planetário.
Apesar de muito jovem o futebol brasileiro daquela altura já tinha os seus ícones, as suas primeiras lendas, sendo a maior delas todas Arthur Friedenreich. Mas não só El Tigre - alcunha que imortalizou Friedenreich - atraía até si as luzes da ribalta deste primeiro Campeonato Sul-Americano. O Uruguai atravessava o Rio de la Plata com algumas das suas primeiras lendas, casos de José Piendibene, Juan Delgado, ou Isabelino Gradín - asto já aqui recordado noutros caminhos da história por nós trilhados -, assumindo-se como o maior rival da Argentina na luta pelo ceptro continental.

E eis que a 2 de julho a festa começou. No Estádio Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires - que acolheu a esmagadora maioria de jogos do torneio - entraram em campo Chile e Uruguai, com três mil espetadores a lotarem por completo o recinto. Sob a arbitragem do argentino Hugo Gronda os uruguaios mostraram na cancha toda a sua arte, o seu futebol rendilhado, fascinante, e... letal. Que o digam os chilenos, que cairam aos pés dos charrúas por 4-0! Para a história dessa partida ficaram dois homens. José Piendibene é um deles, médio-ofensivo alto, robusto, e criativo que aos 44 minutos desse célebre encontro fez balançar as redes pela primeira vez, entrando para a história como o autor do primeiro golo da - hoje - quase centenária Copa América. Descendente de italianos Piendibene saiu deste torneio endeusado pelos que o viram atuar, tendo ganho mesmo a alcunha de El Maestro, pela forma como comandava o jogo da sua equipa desde o centro do terreno, onde ditava leis como um centro campista de fino recorte técnico-tático. Mas a sua estrela não era a única a brilhar naquele cintilante coletivo. No setor ofensivo um negro, desecendente de escravos africanos, encantava a multidão com a magia do seu futebol. Isabelino Gradín se chamava. Nessa lendária tarde de 2 de julho ele apontou dois dos quatro tentos uruguaios - Piendibene apontou os outros dois - assombrando, no bom sentido, todos os presentes com o seu futebol, assente numa mescla de magia, velocidade, e força.

Vitória contra o racismo 

Episódio negativo - lamentável, na verdade - deste jogo inaugural do Campeonato Sul-Americano seria a posterior postura dos chilenos perante os factos ocorridos. Jogadores e dirigentes do Chile protestaram o encontro, queixando-se à organizção que os uruguaios haviam jogado com... dois negros na sua equipa! Esses negros, ou melhor, essas lendas, eram o centro-campista Juan Delgado e - claro - o atacante Isabelino Gradín. Apelidados de "atletas do carnaval" eles foram ridicularizados pelos chilenos numa época em que o racismo imperava um pouco por todo o Mundo. Felizmente, para o sucesso deste torneio inaugural, este ato racista chileno seria inglório, já que tanto Gradín como Delgado seriam reconhecidos pela organização como uruguaios de berço - e na verdade eram-no - tendo o triunfo da seleção charrúa sido validado para descontentamento dos preconceituosos chilenos. Mais do que uma rotunda vitória obtida dentro de campo o Uruguai - e de um modo muito em particular Gradín e Delgado - vencia o racismo!
E se este seria o argumento do Chile para tentar apagar a má imagem deixada no encontro de abertura do certame a Seleción Roja não teve sequer palavras para quatro dias depois justificar a tareia que levou da equipa da casa. 6-1, vitória da Argentina, com particularidade para a ocorrência de três bis - dois golos - da autoria de Alberto Ohaco, Juan Brown, e Alberto Marcovecchio, num encontro arbitrado pelo inglês Sidney Pullen, que era nada mais nada menos do que uma das principais estrelas da seleção do Brasil!  
Canarinhos que depois de muitas aventuras e desventuras subiram à cancha do Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires no dia 8 de julho para defrontar o pobre Chile, que com duas derrotas - bem pesadas na verdade - nada mais jogava do que o seu bom nome nesta sua derradeira aparição na competição. Talvez por isso, e já sem nada a ganhar, os chilenos entraram descontraídos em campo, dificultando ao máximo a vida dos artistas oriundos de Terras de Vera Cruz. Estes, comandados por uma comissão técnica composta por Joaquim de Souza Ribeiro, Benedicto Montenegro e Mário Sérgio Cardim, tinham a particularidade de ter no seu grupo dois... estrangeiros! A seleção do Brasil com dois estrangeiros? Impensável nos dias de hoje, mas realidade naquele tempo. Um deles era - como já vimos - o médio inglês Sidney Pullen, um dos grandes nomes do Flamengo dos anos 10 e 20, o outro era o guarda-redes português Casemiro do Amaral - já aqui evocado no Museu Virtual do Futebol noutras viagens ao passado - e habitual suplente do lendário goleiro Marcos Carneiro de Mendonça.

E foi com Pullen no onze - e Casemiro do Amaral na bancada - que o escrete fez então a sua estreia na prova. No entanto, e apesar de apresentar melhor futebol que os chilenos os canarinhos - que neste torneio apresentaram um equipamento peculiar: camisola listada de verde e amarelo, e calções brancos (!) - não foram além de um empate a um golo. Para a história do futebol brasileiro entra então o nome de Demósthenes, o avançado da Associação Atlética de Palmeiras, que aos 29 minutos desse duelo aponta aquele que foi o primeiro golo do Brasil na fase final de uma competição internacional oficial. A cinco minutos do final Hernando Salazar estraga a festa brasileira ao fazer o injusto 1-1 final. O Chile ia assim para casa com um pontinho no bolso, ao passo que os brasileiros tinham ainda pela frente os tubarões Argentina e Uruguai.

Fundação da CONMEBOL

Com apenas três jogos realizados o Campeonato Sul-Americano de Futebol fazia-se rodear de êxito a todos os níveis. Talvez olhando para isso o dirigente uruguaio Héctor Rivadavia Gómez propôs às confederações dos quatro países participantes a criação de um organismo que tutelasse todo o futebol da América do Sul, organismo esse que veria a luz do dia a 9 de julho desse ano - bem no decorrer da competição, portanto, e que seria batizado de Confederação Sul Americana de Futebol, a popular CONMEBOL. No dia seguinte à fundação deste organismo o Brasil teve pela frente o aguerrido conjunto da casa, que aos 10 minutos de jogo já traduzia em golos o seu teórico favoritismo no duelo, cabendo ao avançado do Huracán José Laguna encarnar o papel de herói ao violar as redes do português Casemiro do Amaral, que nesse jogou relegou para a bancada o titular Marcos. No entanto, os brasileiros não se deixaram influenciar pelo ambiente hostil que imanava das lotadas - de argentinos, pois claro - bancadas do Estádio Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires, e ainda antes do intervalo Alencar repôs a igualdade com que se atingiu os 90 minutos. O Brasil tinha superado o difícil teste argentino, e naquele momento ninguém no seio da seleção não sonhava com a coroa de campeão continental. Mas... ainda faltava o Uruguai.

No dia 12 de julho o Brasil entrou na cancha determinado a continuar a evidenciar o seu bom futebol até ali patenteado, e mais do que isso vencer os temíveis uruguaios e assim poder lutar pelo título. E as coisas até nem começaram mal para os artistas brasileiros. Aos oito minutos a estrela Friedenreich inaugura o marcador. Porém, a felicidade canarinha teria vida curta, já que pouco depois o defesa Orlando fica lesionado na sequência de um choque com El Maestro Piendibene. Ora, os regulamentos do torneio diziam que as substituições não eram permitidas, a não ser que os capitães de ambas as equipas concordassem em autorizá-las! E aqui entra a polémica. Jorge Germán Pacheco, capitão uruguaio, não aceitou a substituição, e a celeste uruguaia atuou o resto do encontro com mais um elemento sobre o retângulo de jogo, de nada valendo os protestos brasileiros. Mesmo com um elemento a menos o Brasil lutou, mas na segunda parte veio ao de cima toda a mestria uruguaia, em especial do mágico Isabelino Gradín, que aos 58 minutos restableceu o empate, apontando assim o seu terceiro golo na competição, e que lhe valeria o título de melhor marcador. A reviravolta dos charrúas seria consumada aos 77 minutos por intermédio de José Tognola, que batia o desamparado Casemiro do Amaral e acabava com o sonho brasileiro. 

Duelo mais desejado no jogo do título


Quiseram os caprichos do sorteio que o último jogo do Campeonato Sul-Americano de 1916 colocasse frente a frente os dois velhos inimigos do Rio de la Plata, e indiscutivelmente as duas melhores equipas do continente. No dia 16 de julho o Estádio  Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires engalanou-se para receber o decisivo encontro para o qual os uruguaios partiam em vantagem, pois um empate bastaria para garantirem o título, enquanto que os argentinos estavam obrigados a ganhar para poderem lançar os foguetes. O fervor dos adeptos de ambos os conjuntos era bem evidente, e com apenas cinco minutos decorridos a final - como era encarada - teve de ser interrompida devido a acesos confrontos nas bancadas para lá de lotadas, chegando mesmo a surgir uma ameaça de incêndio! Para o dia seguinte seria marcado um novo encontro, desta feita no Estádio do Racing Club, em Avelleneda,  que viu um empate a zero golos oferecer o primeiro título de campeão das Américas ao Uruguai.
Nascia assim a lenda das camisolas celestes, que no futuro próximo haveria de ter outros contornos de glória protagonizados por nomes como Scarone, Nasazzi, ou José Leandro Andrade. Mas por agora os imortais eram Piendibene, Juan Delgado, Jorge Germán Pacheco, Tognola, e claro Isabelino Gradín, o negrito mágico, melhor marcador deste torneio com três remates certeiros, e que além do futebol era também estrela no atletismo! 

Números e nomes:

2 de julho de 1916


Uruguai - Chile: 4-0
(Piendibene, aos 44m, aos 75m, Gradín, aos 55m, aos 70m)

6 de julho de 1916

Argentina - Chile: 6-1
(Ohaco, aos 2m, aos 75m, Brown, aos 60m, aos 62m, Marcovecchio, aos 67m, aos 89m)
(Báez, aos 44m)

8 de julho de 1916

Chile - Brasil: 1-1
(Salazar, aos 85m)
(Demósthenes, aos 29m)

10 de julho de 1916


Argentina - Brasil: 1-1
(Laguna, aos 10m)
(Alencar, aos 23m)

12 de julho de 1916

Uruguai - Brasil: 2-1
(Gradín, aos 58m, Tognola, aos 77m)
(Friedenreich, aos 8m)

17 de julho de 1916

Argentina - Uruguai: 0-0

Classificação

1-Uruguai: 5 pontos
2-Argentina: 4 pontos
3-Brasil: 2 pontos
4-Chile: 1 ponto

Legenda das fotografias.
1-Cartaz oficial da primeira Copa América, na altura denominada de Campeonato Sul-Americano de Futebol
2-Jogo entre Argentina e Uruguai, na Copa Centenario de la Revolución de Mayo de 1910

3-A seleção do Brasil que atuou ante o Chile, no Campeonato Sul-Americano de 1916. 
4-A bancada central do Estádio Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires
5-A estrela do torneio: Isabelino Gradín
6-Lance do jogo entre Brasil e Argentina (1)
7-Lance do jogo entre Brasil e Argentina (2)
8-Demósthenes, autor do primeiro golo de Brasil numa competição internacional
9-Uruguaios entram em campo no jogo final
10-José Piendibene, autor do primeiro golo do torneio
11-Seleção da Argentina
12-Os primeiros campeões da América, o Uruguai