quarta-feira, março 28, 2007

Estrelas cintilantes (6)... John Charles

Quando falamos no País de Gales em termos desportivos o que nos vem em primeiro lugar à memória é a palavra rugby. De facto, esta é a modalidade onde os galeses são uns verdadeiros "ases", já que possuem uma das melhores selecções do Mundo.
Bom, mas nem só de rugby se fez, ou se vai fazendo, a história desportiva deste pequeno país britânico. O futebol, apesar de em termos de popularidade ser ultrapassado pelo rugby, também já trouxe grandes alegrias ao povo galês. Grandes alegrias e grandes jogadores, e é para falar sobre um desses atletas que o Museu Virtual do Futebol abre hoje as suas portas. Um jogador que não é um jogador qualquer, mas sim o maior futebolista galês de todos os tempos, de seu nome John Charles.
Nascido a 24 de Dezembro de 1931, em Swansea, Charles formou-se enquanto jogador nas camadas jovens do clube homónimo desta cidade galesa. Aos 16 anos transferiu-se para Inglaterra, para representar o Leeds United, onde começou a jogar como centro-campista. Na sua primeira passagem pelo Leeds Charles jogou de 1947 até 1957. Transferiu-se depois para a Juventus de Turim, onde esteve até 1962. Regressou a Inglaterra, e de novo ao Leeds United, clube que representou na temporada de 1962/63. Na época seguinte viajou de novo até Itália, desta feita para actuar durante um ano pelo Como, tendo terminado a sua gloriosa carreira no seu país, mais precisamente no Cardiff City, onde jogou até 1966. Quer a jogar a médio-centro quer a avançado-centro, John Charles foi o jogador galês mais completo de sempre. Ídolo no Leeds e no Cardiff City, tornou-se no primeiro jogador britânico a ter sucesso no estrangeiro, mais precisamente em Itália, onde passou cinco magníficos anos ao serviço da Juve. Clube onde conquistou os únicos títulos da sua carreira, mais concretamente 3 campeonatos (1958, 1960 e 1961) e 2 Taças de Itália (1959 e 1960). Alinhou em 155 jogos com a camisola da Juve, tendo apontado 93 golos, sendo que em 1958 foi mesmo o melhor marcador do campeonato italiano, com 28 tentos. Era tão adorado em Turim que os adeptos da "Velha Senhora" (como é apelidada a Juventus) o baptizaram de o "Gigante Gentil", numa alusão à sua altura (1.88m) e ao seu cavalheirismo.
Aliás, numa recente sondagem realizada junto dos adeptos da Juve Charles foi eleito como o segundo melhor futebolista estrangeiro de todos os tempos a actuar pelo clube, perdendo o primeiro lugar para o francês Michel Platini.
Ainda em 1958 foi galardoado com os prémios de Futebolista Europeu do Ano e de Futebolista Mais Valioso da Europa. Ao serviço do Leeds United Charles realizou 329 jogos e marcou 157 golos, tendo sido o melhor marcador do campeonato inglês em 1957, com 38 golos. Pelo Cardiff City jogou 66 vezes e apontou 19 tentos.
Mas nem só ao serviço da Juve a estrela do gigante Charles brilhou a grande altura. Pela selecção do País de Gales o jogador também espalhou magia. Aliás, ele foi a chave do período de maior sucesso da selecção galesa, que culminaria com a presença da equipa no Campeonato do Mundo de Futebol de 1958, realizado na Suécia. O mesmo Mundial que revelou ao Mundo jogadores como os brasileiros Pélé e Garrincha. Esta foi, até à data, a única participação de uma equipa galesa numa fase final de uma grande competição à escala planetária. Infelizmente, uma lesão impediu Charles de jogar aquele que poderia ser o jogo da sua vida, o jogo que opós o País de Gales ao Brasil, a contar para os ¼ de final desse Mundial. O resultado é o que toda a gente sabe, os brasileiros (que nesse Mundial iriam conquistar o primeiro dos cinco títulos mundiais que possuem) venceram por 1-0, com um golo de um jovem prodígio de 17 anos chamado Pélé. Nesse Mundial Charles jogou os três primeiros jogos da sua selecção, a qual representou por 38 ocasiões, e por quem marcou 15 golos. A estreia com a camisola do País de Gales deu-se em 1954, num jogo com a Irlanda. Tinha então 17 anos.
Outro dado curioso sobre o gigante galês prende-se com o facto de a transferência deste do Leeds para a Juve, em 1957, por 70 000 libras, ter constituido na altura um recorde, tornando-se na transferência mais cara de sempre na Grã-Bretanha.
A sua transferência para o Cardiff City tonou-se muito importante para o futebol galês, pois numa terra onde os heróis desportivos costumam jogar tradicionalmente com uma bola oval (de rugby), ele aumentou, como nenhum outro jogador havia feito ou fez depois, a importância do futebol naquele país. Em 2002, já como vice-presidente da Federação Galesa de Futebol, ele recebeu o título de Cavaleiro do Império Britânico. Viria a falecer a 21 de Fevereiro de 2004, na cidade de Wakefield, com 72 anos de idade, vitima de uma embolia. Ele foi o grande rei do futebol galês.

Legenda das fotografias:

1- O "cromo" oficial de Charles no Mundial de 1958
2- O "Gigante Gentil" ao serviço da Juventus
3- A selecção galesa que esteve presente no Mundial 1958, onde Charles assumia o papel de estrela
4- Ao serviço do Leeds United

Vídeos: A HISTÓRIA DE JOHN CHARLES EM DOCUMENTÁRIO (PARTES 1, 2 E 3)
video

video

video

segunda-feira, março 26, 2007

Catedrais Históricas (4)... Estádio Centenário


Estádio Centenário. Montevideo. Uruguai. Local exacto onde o passado se cruza com o futuro. Um lugar de culto, sagrado, para os fãs do futebol. Um espaço recheado de histórias encantadoras do belo Mundo da Bola. Como dizem os estudiosos do futebol o "Centenário" é «um monumento ao amor eterno da América do Sul pelo futebol...».
Um estádio onde se "escreveram" centenas das mais belas "prosas futebolísticas", magistralmente escritas por nomes imortais como Nasazzi, Scarone, Andrade, Ghiggia, Schiaffino, Francescoli, Recoba, Péle, Romário, e muitos, muitos outros que um dia tiveram o privilégio de pisar este mítico relvado.
Aqui fez-se história pela primeira vez, ou seja, foi neste recinto que se disputou a primeira final de um Campeonato do Mundo de Futebol. Corria o ano de 1930, e o Uruguai recebia o primeiro Mundial da história, tendo este estádio sido propositadamente construído para receber tal evento.
A inauguração oficial aconteceu a 18 de Julho desse ano, numa altura em que já se havia dado o pontapé de saída desse Mundial. Rezam as crónicas da época que o primeiro jogo do Mundial de 1930 apenas não foi disputado no "Centenário" porque o cimento das bancadas ainda não tinha secado!!!
O ambicioso projecto de construção do "Centenário" começou em 21 de Julho de 1929, mas Montevideo não possuía os requisitos de infra-estrutura e segurança económica necessários para sediar um evento como um Mundial de futebol. De qualquer forma, as equipas de construção civil locais trabalharam incansavelmente para certificar-se de que o estádio estaria pronto a tempo e horas.
Sob a supervisão do arquitecto Juan Antonio Scasso, três turnos foram organizados para que a construção ocorresse 24 horas por dia.
Mas logo que ficou pronto o Mundo pasmou ao conhecer aquele colosso com capacidade para 100 000 pessoas, um espaço que conferia assim ao futebol uma noção de jogo verdadeiramente mundial. Para além de sedir a primeira "Copa" do Mundo este estádio foi igualmente construido com o intuito de celebrar o centésimo aniversário da independência do Uruguai, daí o nome com o qual este anfiteatro desportivo foi baptizado: Estádio Centenário.
Ainda hoje o "Centenário" permanece como um símbolo indestrutível da entidade nacional do povo uruguaio. Voltando ao Mundial de 1930, este estádio recebeu 10 dos 18 encontros desse campeonato, nomedamente o França - Chile (0-1), o México - Argentina (3-6), o Argentina - Chile (3-1), o Brasil - Bolívia (4-0), o Uruguai - Peru (1-0), o Uruguai - Roménia (4-0), o Paraguai - Bélgica (1-0), o Argentina - Estados Unidos da América (6-1), o Uruguai - Juguslavia (6-1) e o Uruguai - Argentina (4-2). Este último jogo seria o da grande final do certame, o jogo que consagraria os uruguaios como a melhor equipa do Mundo. Que melhor começo para a vida de um estádio do que ver a sua selecção sagrar-se ali Campeã do Mundo???
O presidente da altura da FIFA, Jules Rimet, classificaria este recinto como um... «templo do futebol...». Ali tinha-se feito história. Ali tinha nascido o primeiro Campeão do Mundo de Futebol.
Desde então que o "Centenário" se tronou numa verdadeira fortaleza para a selecção do Uruguai, que raramente perde quando joga no estádio, e mesmo as melhores equipas do futebol mundial têm problemas em superar a tradição do "santuário" de Montevideo. Até mesmo o todo poderoso Brasil registou apenas duas vitórias oficiais no estádio, nas mais de 20 tentativas que fez.
Para além do Mundial de 1930 o "Centenário" sediou quatro edições da Copa América, todas vencidas, claro está, pelos uruguaios.
Além dos jogos da selecção este palco dos sonhos recebe também todos os anos os escaldantes derbis entre as duas maiores equipas deste pequeno país sul-americano, o Peñarol e o Nacional.
Com poucas remodelações, o estádio permanece hoje muito próximo daquilo o que foi construído para sediar a primeira Taça do Mundo da FIFA. «E ao ver o estádio aberto e sua orgulhosa torre subindo ao céu, a pessoa é transportada de volta a uma era de camisetas com botões, shorts longos e botas desajeitadas: uma época de inocência...»

Curiosidades...
Sabia que... fortes chuvas atrasaram a construção do "Centenário" e, por isso, as partidas de abertura do Mundial do Uruguai, em 1930, foram transferidas para a casa do Penarol e do Nacional, o Pocitos e o Parque Central, respectivamente. .

Sabia que... milhares de adeptos argentinos cruzaram o Rio de la Plata e abarrotaram o Estádio Centenário para a final totalmente sul-americana do Mundial da FIFA de 1930.
Sabia que... quarenta e quatro golos foram marcados no "Centenário" em 10 partidas na primeira Taça do Mundo da FIFA em 1930.
Sabia que... o Uruguai é invencível quando joga como mandante na Copa América. Jogando 38 partidas em casa, todas em Montevideo, eles nunca perderam uma, venceram 31 e empataram sete.
Sabia que... duas das bancadas do imponente estádio foram baptizadas com o nome dos estádios onde a selecção uruguaia venceu os Jogos Olímpicos (JO) de 1924 e 1928? São elas a Tribuna Olímpica (em alusão ao Estádio Olímpico de Amesterdão, sede dos JO de Amesterdão, em 1928) e a Tribuna Colombes (em homenagem ao Estádio des Colombes, que acolheu os JO de Paris, em 1924).
Sabia que... por debaixo das bancadas do "Centenário" existe um dos maiores e mais importantes museus de futebol do Mundo? Chama-se Museo del Fútbol de Uruguay, e como o próprio nome indica é o local onde está guardada a história do futebol daquele país.

Legenda das fotografias:
1- Vista aérea do Estádio Centenário
2- Equipa do Uruguai que se sagrou Campeã do Mundo em 1930, com o "Centenário" como pano de fundo.
3- Uma vista actual do estádio
4- Uma imagem do Museo del Fútbol de Uruguay, mais precisamente as botas e a camisola de Varela, capitão de equipa do Uruguai que venceu o Mundial de 1950 em pleno Maracanã.

sexta-feira, março 23, 2007

Grandes Mestres do Jornalismo Desportivo (1)... Cândido de Oliveira

Dou hoje início a uma viagem pela galeria dos Gandes Mestres do Jornalismo Desportivo português. Uma área que muito me diz, embora me sinta ainda muito, mas mesmo muito, longe do patamar atingido por alguns dos ilustres nomes que daqui em diante vou passar a recordar no Museu Virtual do Futebol.
Muitos deles são autênticas referências para mim, que me considero um modesto jornalista desportivo - apaixonado sobretudo pelo "jogo maravilhoso" (futebol) - que gostaria um dia de ser um bocadinho, apenas um simples bocadinho, daquilo o que foram estes mestres da escrita desportiva nacional.
Muitos deles foram igualmente grandes jogadores, treinadores, ou dirigentes de futebol, onde tal como na escrita deixaram bem vincado o seu cunho pessoal. Para minha infelicidade não tive a oportunidade de ler - tantas vezes quanto as que gostaria - as prosas futebolísticas escritas por muitos destes vultos do jornalismo desportivo, pois os seus "reinados" ocorreram em alturas em que eu estava ainda no "cu de judas", como popularmente se diz.
No entanto, e felizmente, alguns deles deixaram pedaços dos seus escritos, que ficaram gravados quer em livros quer em diversos capítulos de enciclopédias que vão sendo publicadas "aqui e ali" de vez em quando. Documentos históricos que eu guardo religiosamente na minha cada vez mais extensa "Biblioteca Futebolística", e com os quais procuro sempre aprender um pouco mais, aprender com os Grandes Mestres do Jornalismo Desportivo.
E a primeira ilustre figura que visitamos é alguém que eu chamo de... "O Homem dos 7 Ofícios no Futebol". E o porquê de tal apelido é muito simples, ou seja, ele foi um dos primeiros grandes jogadores de futebol em Portugal, foi um magnífico treinador, um permanente estudioso do belo jogo, e, como já disse, um verdadeiro mestre da escrita desportiva nacional.
Senhoras e senhores visitantes, é com um enorme orgulho que abro esta vitrina dedicada aos Grandes Mestres do Jornalismo Desportivo com... Cândido de Oliveira.
Depois desta breve resanha introduzo aqui um dos muitos textos extraídos das diversas obras alusivas ao Mundo do Futebol que possuo, o qual retrata de uma forma resumida, mas ao mesmo tempo perfeita, a grande figura que foi o Mestre Cândido:

O grande «mestre» do futebol em Portugal


Cândido Fernandes Plácido de Oliveira (nasceu a 24 de Setembro de 1896), é uma das figuras mais marcantes da história do futebol em Portugal. Mestre Cândido foi o primeiro grande estudioso do futebol em Portugal, responsável maior pelo aparecimento da selecção nacional, trabalhador incansável no sentido de que o futebol português se colocasse ao nível do que acontecia nos outros países da Europa, sobretudo nas suas vertentes organizativas.
Mas Cândido de Oliveira foi mais ainda: grande figura humana, democrata convicto que tomou desassombradas posições públicas contra os regimes de Hitler, de Mussolini, de Franco e Salazar. A sua coragem intelectual só teve paralelo na sua coragem física. Foi sujeito a um sem-número de prisões levadas a cabo pela então PIDE; brutalmente torturado e espancado
a ponto de lhe terem partido todos os dentes; em 1942 é enviado para o campo de concentração do Tarrafal. Sobre ele escreveu um livro chamado «Tarrafal – o pântano da morte», publicado a título póstumo, após o 25 de abril de 1974. Depois de ter sido demitido dos correios telégrafos e telefones (CTT), onde trabalhara longos anos e atingira a elevada função de inspector de exploração, funda com Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo o jornal «A Bola».
Nascido em Fronteira, distrito de Portalegre, Cândido Fernandes Plácido de Oliveira entrou para a Casa Pia em 1905 e cedo mostrou capacidades inatas para a prática do futebol, capacidades essas que o levaram ao Benfica a partir da época de 1914/15. Aí se manteve até
1920, tendo saído para fundar o Casa Pia Atlético Clube. Apesar de se ter destacado também como avançado, Cândido de Oliveira foi um excelente médio centro, com uma capacidade de comando e de passe que fez dele um dos grandes jogadores portugueses das primeiras duas décadas do século XX. Seria ele o primeiro «capitão» da selecção nacional, no célebre jogo de Madrid, em 1921.
Por várias vezes ocupou o cargo de seleccionador nacional – foi ele o responsável pelo cargo no primeiro grande êxito da selecção nacional, os Jogos Olímpicos de Amesterdão, em 1928 -, tendo-se tornado num técnico sempre disponível para as necessidades da «equipa de todos nós».
Foi jornalista na «Stadium», director de «Os Sports», «Diário de Notícias», «Diário de Lisboa» e «O Século» antes de fundar o jornal «A Bola».
Treinador do Sporting dos «cinco violinos», da Académica, do Belenenses, do FC Porto e do Atlético, chegou também a orientar o Flamengo, do Brasil, em 1950-51. Foi autor de vários livros sobre desporto e táctica no futebol, sofreu uma pneumonia enquanto cobria, como enviado-especial de «A Bola», o Campeonato do Mundo de 1958, realizado na Suécia. Como consequência, viria a falecer no dia 23 de Junho desse ano.


A esta nota biografica juntamos um outro texto biográfico daquele que foi o grande mestre do futebol lusitano.

Um Homem do Futebol é a frase mais correcta que encontramos para, em três palavras, definir Cândido de Oliveira - com a mesma simplicidade que ele adoptou como seu estatuto de vida, iniciada nos bancos da Casa Pia de Lisboa, com a bola a brincar nos seus pés a todas as horas do recreio, até ao trágico desenlace final, a morte, quando, já bem identificado com o desporto que sempre amou, fazia a cobertura para o seu jornal "A Bola" do Mundial 58, na Suécia.
Nesse longo espaço de 72 anos de vida, abruptamente interrompida, Cândido de Oliveira, a par de outras actividades profissionais, esteve sempre ligado ao futebol, primeiro como jogador, sendo internacional e capitão da primeira selecção de Portugal, em 1921, depois como jornalista, dirigente, seleccionador e treinador, em todas essas missões com muita competência e enorme prestígio, assentando-lhe, como uma luva, ser tratado por "Mestre Cândido", pois era assim que todos viam e justamente o reconheciam sempre que com ele contactavam.
Um exemplo notável dos muitos homens que partiram para a vida dos bancos escolares da Casa Pia de Lisboa, figurando o seu nome na primeira linha dos que juntaram aos ensinamentos colhidos a componente futebol. Assim se lhe abriram as portas, de par em par, para o trabalho, atingindo a categoria de funcionário superior da Administração dos Correios e, na outra apaixonante área da sua vida, o jornalismo - aqui com as naturais ramificações ligadas ao futebol.
Mais por paixão do que por necessidade, alem de seleccionador nacional foi, também, treinador de vários clubes- E treinador campeão - daí a justiça do breve registo que aqui deixamos sobre a sua actividade nesse sector.
Nada mais verdadeiras são as palavras gravadas no mausoléu em que são guardados os restos mortais de "Cândido de Oliveira - Homem Bom - Mestre de Futebol". Bem reveladoras da sua personalidade quando, em 1936, foi chamado a substituir o treinador do Belenenses e seu amigo Artur José Pereira. Aderiu de imediato com uma condição - «treino a equipa sem nada receber, mas o ordenado do Artur é intocável... continua a ser dele».
Depois do Belenenses, Cândido treinou o Sporting, durante três épocas, sendo campeão em duas delas, e ganhando duas Taças de Portugal, depois, sempre muito solicitado, foi treinar o FC Porto, duas épocas, tendo numa delas sido finalista vencido pelo Benfica na Taça de Portugal, e na outra vice-campeão da prova rainha da 1ª Divisão.
Noutra ocasião, visitou o Brasil e não resistiu a um convite para treinar o Flamengo. 
Logo que pôde... libertou-se dessa missão e regressou a Portugal, deixando a equipa carioca bem orientada e preparada para continuar o campeonato do Brasil. Insistiram para que continuasse, mas... bem vistas as coisas ser treinador nunca foi um modo de vida para Cândido de Oliveira. Outras responsabilidades o chamavam a Lisboa - deixando, porém, no Brasil, especialmente no Flamengo, as melhores impressões como mestre de futebol que sempre foi. 
Em Portugal, fazia-se sempre acompanhar por um adjunto - sendo Fernando Vaz, também casapiano, o escolhido para essa função no Sporting. Depois, resolveu "soltar" Fernando Vaz, dando-lhe o melhor apoio, sobretudo nos primeiros anos em que Vaz, com a sua recomendação se assumiu como treinador principal de vários clubes. 
A última paixão de Cândido como treinador foi a Académica de Coimbra. Nela, teve como adjunto Mário Wilson. Encontrando em Coimbra jogadores de nível intelectual fora do comum... gostava imenso de conversar com os jovens estudantes e transmitir-lhes os seus ensinamentos no futebol.
Quando a morte o surpreendeu na Suécia, a Académica era a equipa que Cândido estava a treinar - sendo recebida em Coimbra a notícia do infausto acontecimento com profundo pesar.
Em Coimbra... e em todo o país foi muito chorado o inesperado desaparecimento do Mestre Cândido de Oliveira, um Homem do Futebol, treinador-campeão e jornalista que encontrou a morte no seu último momento de trabalho... na mais importante prova do mundo do futebol.*

*Texto extraído da revista Record - Treinadores Campeões  
Cronologia:

24/9/1896: Nasce em Fronteira (Distrito de Portalegre) o cidadão Cândido Fernandes Plácido de Oliveira

15/6/1905: Orfão de pai é admitido na Casa Pia de Lisboa com o número 3466. Na Casa Pia, tirou os cursos Comercial e de Telegrafia, que lhe facilitaram o ingresso nos Correios e Telégrafos, onde atingiu posição de relevo.

Cândido... o futebolista

1912  a 1914: Iniciou a carreira de futebolista amador na Associação Escolar da Casa Pia.
Foi selecionado pela Associação de Futebol de Lisboa (para a equipa escolar, na qual exerceu o posto de capitão)

1914 a 1920: Representou o Sport Lisboa e Benfica (foi campeão de Lisboa)

1920 a 1924: Jogou pelo Casa Pia Atlético Clube, que ajudou a fundar (tendo sido campeão de Lisboa)

18/1/1921: Integrou, e foi capitão, a primeira seleção nacional, num jogo efetuado em Madrid com a Espanha, que terminou com uma derrota por 1-3

Cândido... o treinador

1936/1937: Treinou o Belenenses

1946 a 1949: Treinou o Sporting dos "Cinco Violinos", tendo sido campeão nacional em 47/48 e 48/49. Venceu ainda duas Taças de Portugal, em 45/46 e 47/48

1950: Treinou o Clube de Regatas Flamengo (do Rio de Janeiro)

1952 a 1954: Treinou o FC Porto

1955 a 1958: Treinou a Académica de Coimbra

Nota: Fez 199 jogos no Campeonato Nacional da 1ª Divisão (121 vitórias, 20 empates, e 58 derrotas). Na Taça de Portugal fez 27 jogos (16 vitórias, 3 empates, 8 derrotas)

Cândido... o selecionador

26/12/1926: Estreou-se como selecionador nacional, no Porto, ante a Hungria, tendo empatado a três golos

1926 a 1929: Primeiro período da sua atividade como selecionador nacional (13 jogos, 4 vitórias, 4 empates e 5 derrotas). Neste grupo de encontros merece destaque a participação de Portugal nos Jogos Olímpicos de Amesterdão, em 1928.

1935 a 1945: Segundo período de atividade como selecionador de Portugal (15 jogos, 4 vitórias, 4 empates, e 7 derrotas).

1952: Terceiro período ao serviço da seleção nacional (3 jogos, 1 empate e 2 derrotas)

Cândido... o jornalista

14/1/1920: Principia a carreira de jornalista na revista O Football

1921: Ingressa nos quadros do Diário de Notícias

1924: Ingressa em Os Sports

1926: Passa a ser jornalista de O Século

1942: Assume a direção da revista Stadium

1945: Funda juntamente com Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo o jornal A BOLA

Cândido... o escritor

1925: Escreve A Primeira Greve Telégrafo-Postal

1929: Escreve Amadorismo e profissionalismo

1934: Escreve Alguns aspectos psicológicos dos casapianos

1935: Escreve Relatório do Seleccionador

1935: Escreve Football, técnica e táctica

1936: Escreve Ao serviço do futebol nacional

1936: Escreve Os jogos internacionais da época de 1935/36

1938: Escreve A formação dos jogadores de futebol (tese que apresenta no I Congresso Nacional de Futebol)

1945: Escreve Futebol, desporto e juventude

1947: Escreve Os segredos do futebol

1949: Escreve A evolução táctica do futebol - WM

1974: Escreve Tarrafal - Pântano da Morte (edição póstuma)

Cândido... o político

1/3/1942: Preso pela Polícia de Vigilância e da Defesa do Estado para averiguaçõesmo depósito de presos de Caxias

20/6/1942: Deportado para o campo de concentração do Tarrafal

1/1/1944: Regressa do Tarrafal, e é transportado ao Hospital Júlio de Matos

7/1/1944: Transferido para a Prisão de Caxias

13/1/1944: Transferido para o Aljube

2/2/1944: Transferido para Caxias

23/3/1944: Transferido para o Aljube

27/5/1944: Restítuido à liberdade condicional

25 de junho de 1958: Morre em Estocolmo.

Uma nota para dizer que o futebol lusitano lhe deve tanto do seu ser que na temporada de 1978/79 a Federação Portuguesa de Futebol decidiu criar uma competição com o seu nome: a Supertaça Cândido de Oliveira. Prova esta que é disputada todos os anos entre o vencedor do Campeonato Nacional e o vencedor da Taça de Portugal.

Vídeo: DOCUMENTÁRIO: CÂNDIDO DE OLIVEIRA, O MESTRE DO FUTEBOL
video

quinta-feira, março 22, 2007

Emblemas Históricos (3)... Académica de Coimbra


À beira do Mondego nasceu Coimbra. Do Choupal. Da saudade. Fundada por alunos da universidade, no final do século XIX, surgiu a respeitosa Briosa". É com esta bela frase que começamos a nossa viagem de hoje pelo encantador Mundo do Futebol, para fazer uma visita à vitrina dos Emblemas Históricos, ao espaço sagrado dos grandes clubes/equipas que fizeram história no desporto-rei.
E o histórico clube de que hoje iremos falar dá pelo nome de Associação Académica de Coimbra, um emblema que carrega consigo uma impressionante e rica história. Apesar de não ter nas suas vitrinas as conquistas nacionais e internacionais que têm os três principais clubes portugueses (FC Porto, Benfica e Sporting) a Académica é um dos maiores emblemas do futebol lusitano. Um clube com uma mística ímpar. Um clube apaixonante. De tal maneira apaixonante que costuma-se até dizer que a Briosa (alcunha pelo qual é popularmente conhecida a Académica e que advém da forte entrega com que normalmente se batiam as equipas amadoras de estudantes mesmo contra equipas de atletas profissionais de alta competição) é, talvez, o clube com um maior número de simpatizantes no país...
É o clube mais antigo de Portugal, nasceu em 1887, fundado pelos estudantes da Associação Académica de Coimbra, da também mítica Universidade de Coimbra (UC). Um facto que permitiria que o clube, ao longo da sua centenária história, vivesse sempre envolto numa atmosfera única, ou seja, que a sua equipa de futebol principal fosse quase sempre composta por estudantes da UC.
O equipamento tradicional da Académica é integralmente negro, numa alusão evidente aos trajes académicos dos estudantes da universidade.
É igualmente um dos clubes mais eclécticos de Portugal, agregando modalidades como o andebol, atletismo, basquetebol, basebal, badminton, ginástica, hóquei em patins, judo, karaté, pugilismo, natação, ténis, rugby, voleibol, xadrez e futebol. E é nesta última modalidade que a estrela da Briosa mais brilhou ao longo dos anos. Em 120 anos de história a Briosa marcou presença no principal campeonato português (1ª Divisão Nacional) em 54 ocasiões, tendo como melhor classificação um 2º lugar na temporada de 66/67. Na competição que antecedeu o Campeonato Nacional da 1ª Divisão, o Campeonato de Portugal, a Académica foi vice-campeã na época 22/23. Em termos de títulos, alberga ainda nas suas vitrinas dois Campeonatos Nacionais da 2ª Divisão, conquistados nas temporadas de 48/49 e 72/73.
O primeiro clube a inscrever o seu nome na lista dos vencedores da Taça de Portugal
Mas é na Taça de Portugal que a Briosa escreveu a sua página mais brilhante. Corria a época 38/39 quando se disputou a 1ª edição da Taça de Portugal, tendo a primeira final da competição sido disputada entre a Académica de Coimbra e o SL Benfica a 25 de Junho de 1939. O palco do grande embate foi o extinto Campo das Salésias, em Lisboa. Para espanto dos espantos a Briosa sairia vencedora desse duelo, por 4-3, sendo desta forma a primeira equipa a inscrever o seu nome na lista dos vencedores da nobre competição portuguesa. Não querendo minimizar em breves linhas este glorioso e histórico momento vivido não só pela Académica como também pelo futebol português, o Museu Virtual do Futebol foi à sua extensa Biblioteca Futebolística "desenterrar" estes dois belíssimos artigos extraídos da enciclopédia "O Século do Desporto" (uma publicação do jornal A Bola) que descrevem na perfeição esta brilhante página:

Briosíssima

A 25 de Junho de 1939, nas Salésias, disputou-se a primeira final da Taça de Portugal. Entre a Académica e o Benfica. No Rossio, a caminho de Belém, os alfacinhas foram surpreendidos por danças e cantares, numa miscelânea de fogueiras de Coimbra e marchas lisboetas. A grande surpresa foi a superioridade técnica dos conimbricenses «até para os jogadores do Benfica», como escreveria no dia seguinte Ribeiro dos Reis. Ricardo Ornelas afinaria pelo mesmo diapasão: «Aparentemente a final de 1939 era para o Benfica. Os encarnados tinham mais experiência, mais jogadores habituados à relva, capacidade técnica para ganhar, vontade forte, publico dedicado, inclinação para as grandes dificuldades... As dúvidas opondo-se à aparência da vitória do Benfica tinham afinal razão de ser. A Académica conquistou a vitória da maneira mais brilhante. Os nervos pouco duraram, a relva não prejudicou o ataque e na defesa com pouca frequência apoquentou os jogadores pela táctica da proximidade dos adversários que a equipa inteligentemente adoptou; e a experiência dos encarnados foi derrotada desde os primeiros minutos pela autoridade de jogo dos estudantes na zona central do terreno».
Após o derradeiro apito do árbitro, António Palhinhas, 4 a 3... e a festa a negro...
O Diário de Coimbra, em metade da sua primeira página, noticiava à volta do emblema da Associação Académica de Coimbra: «Coimbra, desportista e profana, está em festa pela vitória alcançada ontem em Lisboa, pelo seu campeão de futebol a valorosa turma da Associação
Académica. Os estudantes, na própria terra do seu contendor - o não menos valoroso grupo do Sport Lisboa e Benfica -, souberam anular a desvantagem do ambiente e especialmente a do terreno e marcaram de forma superior o seu saber no meio futebolístico português, ganhando com absoluto mérito o título de campeão de Portugal do dilatado império».

Peripécias dos jogadores estudantes na primeira Taça...
Banco de pau castigo desfeito
Bernardo Pimenta marcou o primeiro golo da Académica. Professor, saíra de Coimbra de comboio namanhã do jogo - em terceira classe e assentos de madeira! Colocado em Bobadela, concelho de Oliveira do Hospital, durante esse ano escolar, treinava-se com a equipa do vilarejo e só ao sábado se juntava aos colegas de facto! «Depois de cinco horas na estafa da viagem, esperava-me um táxi que me conduziu ao Hotel Bragança, no Cais do Sodré, onde a equipa se hospedara para estágio. Almocei muito pouco pois o jogo realizava-se pelas 17 horas...»
César Machado, para não faltar às aulas, também não seguira na 5ª feira para Lisboa. Determinação que esteve para lhe ser fatal. «Resolvi dizer peremptoriamente ao Dr. Albano Paulo que não faltaria às aulas. Furioso, garantiu-me que então não jogaria a final. Como não era profissional sentia-me enfurecido, nervoso, e chorando fui para o ACM, onde dali a pouco estavam o capitão Pina Cabral, o Dr. Fausto, o Dr. Freitas, etc., que me foram injectar um calmante. Por não ter dinheiro para o comboio da claque fui à boleia com o capitão Pina Cabral. Chegados a Lisboa procurámos um modesto hotel, na Rua do Alecrim. De manhã levantei-me, almocei e segui para as Salésias... Como não tinha mais ninguém para pôr a jogar o Dr. Albano Paulo chamou-me e aquele foi o momento mais fabuloso da minha vida, da vida de todos nós, certamente. Ganhar ao Benfica, ganhar a primeira Taça de Portugal...»
Para a eternidade ficam os nomes dos obreiros desta grande conquista: Tibério Antunes, José Maria Antunes, César Machado, A. Portugal, Carlos Faustino, Octaviano, Manuel da Costa, Alberto Gomes, Arnaldo Carneiro, Nini e Bernardo Pimenta.
Os gloriosos anos 60 e 70
O clube viveria ainda nas décadas de 60 e 70 do século passado mais e novas glórias nos relvados nacionais e internacionais. Chegaria a mais três finais da Taça de Portugal (50/51, 66/67 e 68/69, tendo sido derrotado, respectivamente pelo Benfica, Vitória de Setúbal e novamente pelo Benfica).
Seria nestas duas décadas que a Briosa alcançaria as competições europeias de clubes, sendo que a estreia ocorreu na Taça das Cidades com Feiras (actual Taça UEFA), na época de 68/69, tendo a equipa sido afastada logo na 1ª eliminatória pelo Lyon de França por desempate de moeda ao ar, uma vez que a eliminatória terminou empatada a um golo.
Um ano mais tarde a Briosa viveria a sua maior epopeia nas competições europeias ao chegar aos ¼ de final da Taça das Taças. O percurso memorável na competição dessa época começou com a eliminação dos finlandeses do Kuopion Palloseura (com resultados de 0-0 e 1-0). Seguiram-se os poderosos alemães do Magdburgo (uma das melhores equipas europeias da época), que seriam afastados pelos estudantes com um resultado total de 2-1 (0-1 e 2-0). Nos ¼ de final coube em sorte - ou azar - à Académica outra forte equipa europeia, mais precisamente os ingleses do Manchester City. Depois de um empate a zero bolas no encontro da 1ª mão em Coimbra, a Briosa seria afastada da competição no jogo de Manchester em cima do minuto 30 do prolongamento, graças a um golo de Towers. O sonho da Briosa terminara ali, mas a presença nesta edição da Taça das Taças tornou-se histórica e inesquecível.
A última aparição numa competição europeia fez-se na época 71/72, na Taça UEFA, onde a Académica seria derrotada na 1ª eliminatória pelos ingleses do Wolverhampton (com um resultado total de 1-7).
Jogadores emblemáticos
Ao longos dos 120 anos de vida a Académica teve a defender a sua bonita camisola inúmeras figuras marcantes do futebol lusitano. Para além dos heróis da Taça de Portugal de 1939 destacamos como jogadores e treinadores mais marcantes da história do clube Artur Jorge (jogador e treinador), Mestre Cândido de Oliveira (treinador), Toni, Mário Campos, Vítor Campos, Gervásio (o jogador da Académica com mais jogos na 1ª Divisão, 329 no total), Mário Wilson, Maló, Jorge Humberto, Carlos Xavier, Capela, Manuel Dimas, Fernando Couto, Vítor Paneira, Sérgio Conceição, Manuel António (melhor marcador do Campeonato Nacional da 1ª Divisão 68/69, com 19 golos), Bentes (o melhor marcador do clube de todos os tempos na 1ª Divisão, com 134 golos) e mais recentemente Zé Castro.
Actualmente a Briosa disputa o principal campeonato português (denominado agora Superliga), embora muito longe dos gloriosos anos 60 e 70. A luta pela manutenção tem sido o objectivo da equipa nas últimas temporadas, objectivo esse que não tem sido fácil de atingir, já que normalmente só na derradeira jornada da competição os estudantes respiram de alívio. E para não fugir à regra a Académica versão 2006/07 vive dias de grandes instabilidade desportiva na Superliga portuguesa...
O guarda-redes Pedro Roma é a grande referência do clube na actualidade. O jogador, que vai já na sua 15ª temporada com o emblema da Briosa ao peito, é o guardião da mística do clube. Nomes como Vítor Vinha, Nuno Piloto (dois produtos da cantera do clube), Filipe Teixeira, Litos, Joeano e Pitbull são outros dos nomes mais populares da actual Briosa.
O palco das actuações caseiras da Académica é o Estádio Cidade de Coimbra (com capacidade para 30 000 lugares), um belo recinto desportivo que foi remodelado propositadamente para acolher dois encontros da fase final do Campeonato da Europa de Futebol de 2004.
Legendas das fotografias:
1- Emblema da Associação Académica de Coimbra
2- Vista da bela Cidade de Coimbra: berço da Briosa
3- A equipa que disputou a final da Taça de Portugal de 1969 envergando as tradicionais capas dos estudantes universitários durante a crise estudantil de finais dos anos 60
4- Uma equipa da Académica da década de 60, com Artur Jorge como a principal estrela
5- O onze da Briosa que defrontou o Manchester City, em Coimbra, para a 1ª mão dos 1/4 de final da Taça das Taças
6- Um histórico do clube, o Mestre Cândido de Oliveira
7- Artur Jorge, outros dos símbolos da Académica
8- O bonito Estádio Cidade de Coimbra

sexta-feira, março 09, 2007

Estrelas cintilantes (5)... Zé Carlos

Depois de quatro referências do passado, nomeadamente os americanos Joe Gaetjens, Billy Gonsalves e Alexi Lalas, e ainda o saudita Saeed Owairan, o Museu Virtual do Futebol convida novamente os seus ilustres visitantes a dar uma olhadela à vitrina das Estrelas Cintilantes para ficar a conhecer um dos melhores futebolistas a actuar presentemente no futebol português.
Um jogador de fina classe que apesar de não ser tão conhecido, ou badalado, como Ronaldinho, Drogba, Deco ou Cristiano Ronaldo merece uma chamada de atenção pela qualidade do futebol que tem exibido nos relvados portugueses (e não só). Um craque (no verdadeiro significado da palavra) que me fez voltar a idolatrar jogadores de futebol, algo que eu já não fazia desde os meus tempos de infância, altura em que tinha como grandes referências jogadores como Paulo Futre, João Pinto (do FC Porto), Diego El Pibe Maradona, ou o baixinho Romário.
Pois bem, hoje o meu ídolo dá pelo nome de Zé Carlos, o matador que enverga as cores do Sporting de Braga. Um ponta-de-lança como poucos no futebol mundial, inteligente e mortífero, que alia uma elevada qualidade técnica a um apurado instinto de matador (goleador), características que lhe valeram a alcunha de Zé do Gol.
José Carlos Santos Silva, ou Zé Carlos, ou ainda Zé do Gol, como já vimos, nasceu no Brasil a 19 de Março de 1975, na cidade de Duque de Caxias (região do Rio de Janeiro) e desde cedo prendeu a atenção de alguns clubes cariocas. Não foi de estranhar que um dos gigantes do Rio de Janeiro, o Botafogo, o contratasse para os seus quadros. No clube que o revelou para o mundo Zé do Gol cumpriria cinco temporadas (1996, 1997, 1998, 1999 e 2000), tendo feito uma parelha mortífera no ataque do alvi-negro carioca com Túlio Maravilha. Nesta equipa, Zé Carlos foi campeão do Campeonato Carioca de Futebol de 1997 e do Torneio Rio-São Paulo de 1998.
Em 2001 trocou a cidade maravilhosa (Rio) pela pacata cidade de Campinas (arredores de São Paulo) para representar o Guarani, clube onde não seria lá muito feliz, pois inexplicavelmente passaria mais tempo no banco do que no relvado a fazer aquilo que melhor sabe, golos.
Apesar de pouco utilizado no clube de Campinas, as qualidades de Zé do Gol não passaram despercebidas à Europa do futebol, e em 2002 o brasileiro ruma ao Velho Continente para representar os turcos do Malatyaspor. Primeira experiência na Europa que não correria lá muito bem ao goleador brasileiro, já que em seis partidas realizadas apenas apontou um golo.
Uma "falsa partida" no futebol europeu que o faria regressar a casa, para defender as cores daquele que é para muitos o maior emblema do Brasil, o Flamengo. E no rubro-negro carioca poderemos dizer que Zé do Gol viveu as duas melhores épocas (2003 e 2004) da sua carreira, tendo conquistado não só a titularidade como também apontado muitos golos, factos que o tornaram num ídolo da exigente torcida do clube, tal e qual como um dia o foram Zico, Junior, Bebeto ou Romário.
As magníficas temporadas no Flamengo valeram-lhe uma transferência milionária para o futebol asiático, mais em concreto para a Coreia do Sul, onde representou o Steelers, clube onde também conquistou o coração dos adeptos.
Porém, as saudades de casa falariam mais alto e em 2006 regressa novamente ao Brasil para representar o Juventude de Caxias do Sul, onde faria uma soberda época, sendo que em 17 jogos apontou 10 golos pelo clube sulista. "Cartão de visita" que lhe valeria novo salto para a Europa, desta feita para o futebol português, onde chegou a meio da temporada 2005/06 para representar o Marítimo da Madeira. Contratado no chamado "mercado de inverno" fez 16 jogos (14 como títular), apontou 7 golos, e as suas boas prestações não deixaram ninguém indiferente. De tal maneira que no início desta época o Sporting de Braga abriu os cordões à bolsa para o contratar, sendo actualmente um dos jogadores mais valiosos da equipa comandada por Jorge Costa quer no Campeonato Nacional, quer na Taça de Portugal, quer ainda na Taça Uefa, competições onde o Zé do Gol tem dado nas vistas.
O número 77 do Braga é daqueles jogadores que faz levantar plateias, não só na minha modesta opinião como também na de grandes analistas do Desporto Rei, como por exemplo o conceituado Luís Freitas Lobo, que após a brilhante exibição de Zé do Gol no recente confronto europeu entre o Braga e os italianos do Parma (onde o brasileiro apontou o único golo do desafio) escreveu a seguinte crónica:
«O segredo do bom ponta-de-lança
Últimos dez minutos, o 0-0 parecia uma fatalidade, quando Zé Carlos viu cair do céu uma bola
perdida no coração da área do Parma. Sentiu a pressão do defesa italiano, resistiu à tentação de rematar logo e com um sublime toque com o peito, tirou o defesa do lance, ganhou espaço, centímetros preciosos, e, frio, bateu Bucci. Um lance perfeito para definir um bom ponta-de-lança. Inteligente e mortífero. Mais do que o remate, o que previamente caracteriza um grande goleador, é a qualidade do primeiro toque quando recebe a bola. Sem esse bem feito, raramente existe o remate. Ou melhor, se existe, não será com a mesma qualidade.
Pensem bem, e reparem como os grandes pontas-de-lança raramente rematam de primeira. Claro, se tiver de ser, rematam de qualquer maneira, mas no geral, a qualidade de recepção-primeiro toque é que é decisiva para libertar-se da marcação apertada, tirar o defesa do caminho, ganhar-lhe o espaço e o timing decisivo para, logo a seguir, num espaço curto, soltar o remate. É este o segredo que faz um grande avançado.
Zé Carlos explicou-o na perfeição, com picardia, técnica e frieza. Há mais exemplos nos nossos relvados, mas este merece uma página inteira num manual de bom futebol
».



Pois é, é por tudo isto que hoje trago aqui o retrato deste grande jogador, por quem tenho uma grande admiração, um atleta que é uma raridade no futebol moderno. Viva o Zé do Gol.
Legenda das fotografias:
1- Zé Carlos aquando da sua apresentação no Sp. Braga
2- Envergando as cores do Marítimo
3- Treinando com o seu companheiro de ataque Maciel (no Sp. Braga)
4- O golo narrado por Luís Freitas Lobo (no jogo com o Parma para os 1/16 final da Taça Uefa)
5- Na altura em que jogava no Juventude de Caxias do Sul

sexta-feira, março 02, 2007

Até sempre Campeão...

O futebol português está desde ontem mais pobre com o desaparecimento de um dos seus filhos mais queridos, mais precisamente Manuel Bento. O homem de borracha, como foi - e continuará a ser eternamente - chamado pelos seus colegas de profissão devido às suas fantásticas e acrobáticas defesas, faleceu ontem vitimado por uma paragem cardíaca.
O Museu Virtual do Futebol abre assim hoje as suas portas para prestar homenagem a um dos homens que ajudou a escrever algumas das páginas mais bonitas do futebol lusitano.

Lembro-me, por exemplo, das grandes exibições com a camisola das Quinas no Europeu de França, em 1984, em especial no encontro das meias-finais ante a França. Ainda ontem, depois de saber do desaparecimento deste gigante das balizas peguei no DVD desse célebre jogo e recordei a magnifica exibição deste Homem que nasceu a 25 de Junho de 1948 na Golegã. Bento jogaria ainda pela equipa nacional no Mundial do México, em 1986, tendo aí feito um jogo (ante a Inglaterra). Nesse Mundial de má memória para Portugal, Bento seria na qualidade de capitão de equipa, o porta-voz de todos os jogadores da selecção no triste e polémico caso de Saltilho.

Iniciou a sua gloriosa carreira ao serviço do Barreirense, tendo em 1972 transferido-se para o Benfica, clube cujas cores defendeu até 1986. No emblema da águia conquistou tudo o que havia para ganhar em termos nacionais, nomedamente 8 Campeonatos Nacionais, 6 Taças de Portugal e 2 Supertaças Cândido de Oliveira. Seria ainda vice-campeão da Taça Uefa de 1983. Em 1977 foi eleito o Futebolista Português do Ano. Pelo seu clube de sempre Bento realizou 611 jogos, nos quais sofreu 447 golos. Depois de penduradas as luvas continua a servir o clube lisboeta, na qualidade de quadro técnico, quer na equipa principal quer nas camadas jovens. Morreu ontem com 58 anos de idade. Até sempre CAMPEÃO.