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quarta-feira, janeiro 24, 2024

Jogos Memoráveis (7)... Salgueiros - Cannes (Taça UEFA 1991/92)


Se há clubes cujo índice de popularidade é elevado, independentemente do escalão competitivo em que se encontrem, um desses emblemas é sem margem para dúvida o Sport Comércio e Salgueiros. Nasceu no meio do povo, e foi no seio desse mesmo povo que cresceu e se tornou num dos clubes mais adorados do panorama desportivo nacional. O Salgueiros nasceu numa época em que a República em Portugal ainda dava os primeiros passos, mais concretamente no ano de 1911. No entanto, seriam precisos 80 anos exatos para que a Alma Salgueirista – um modo de estar, um sentimento, que só os verdadeiros adeptos do clube conhecem – se desse a conhecer à Europa do futebol. 

19 de setembro de 1991 é pois um dia histórico na popular coletividade portuense. Nesse dia, ou melhor, nessa noite, o velho Salgueiral fazia o seu batismo europeu no âmbito da 1.ª eliminatória da Taça UEFA da temporada de 1991/92. A qualificação europeia havia sido alcançada na época anterior na sequência da melhor classificação de sempre do clube na 1.ª Divisão Nacional, o 5.º lugar. E quis o destino que a estreia do Salgueiros nas competições europeias acontecesse diante de outro caloiro nestas andanças, os franceses do Cannes. Do lado da turma oriunda do sul de França pontificavam alguns nomes conhecidos do plano internacional, desde logo o veterano internacional francês Luis Fernández; o internacional camaronês François Omam-Biyik, que um ano antes havia dado nas vistas no Mundial de Itália; e o jugoslavo Aljosa Asanovic, que haveria de ser peça fundamental na futura seleção da Croácia. Na equipa treinada pelo também jugoslavo Boro Primorac pontificava ainda um jovem prodígio gaulês, que no futuro imediato haveria de se tornar numa das maiores lendas da história do Belo Jogo: Zinedine Zidane.

Porém, o Salgueiral também tinha as suas armas, e que armas! Craques como Nikolic, Milovac, Abílio, ou Jorge Plácido, sobressaíam na equipa liderada por Zoran Filipovic, aos quais se juntavam jogadores “operários” como Rui França, Vinha, ou Leão. A nação salgueirista mostrou nessa noite todo o seu orgulho e emoção ao ver o seu clube entrar pela primeira vez em campo para um jogo europeu, facto ocorrido no Estádio do Bessa, casa emprestada pelo vizinho Boavista, tendo em conta que o estádio do Salgueiros não possuía iluminação artificial na altura. À boleia do jornal A Bola vamos recordar este encontro histórico que terminou da melhor maneira para o clube de Paranhos, isto é, com o triunfo. Melhor batismo não poderia ter tido o Salgueiral!

Na crónica final traçada sobre o jogo, o jornalista António de Sousa escreveria que «as duas equipas estão bem uma para a outra! O desfecho da eliminatória é imprevisível, embora os franceses contem com futebolistas mais experientes e recebam os salgueiristas no seu estádio para o jogo decisivo». O jornalista explicaria esta sua visão de forma mais detalhada na crónica do encontro, referindo que apesar de as equipas se equivalerem em termos de qualidade, os franceses teriam a seu favor o facto de reunirem um conjunto de jogadores que pelo seu passado possuíam maior experiência internacional. Contudo, «não pretendemos, sequer, dizer que a formação de Vidal Pinheiro está já derrotada (…) Pelo contrário, a formação de Paranhos, possuindo uma equipa que assenta o seu futebol, sobretudo, na determinação e no empenho, aqui e ali reforçado com a experiência de um ou outro elemento, poderá perfeitamente prosseguir na prova, o que não constituiria surpresa de maior, dado o valor semelhante (pelo menos demonstrado no desafio do Bessa) ao do seu antagonista…».
Mais à frente na sua exposição jornalística, sublinharia que o triunfo por 1-0 do Salgueiros sobre o Cannes nesta 1.ª mão da eliminatória havia sido «justo e merecido, podendo até o resultado ter tido uma expressão ligeiramente mais ampla». Destacou nesse sentido que os jogadores salgueiristas se esforçaram para serem felizes nesta estreia, elegendo entre os mais esforçados Vinha, que «teve muita uva para pouca parra… e pena foi que a colheita não tivesse sido bem maior". Assim
 que a bola foi posta em movimento o nervosismo típico da estreia desapareceu nos salgueiristas, e os pupilos de Filipovic foram tomando conta das operações a partir do quarto de hora inicial. A prova disso foram as três oportunidades criadas pelos portuenses, em contraposto com os franceses, que só por uma vez chegaram com perigo à baliza de Madureira. 

No cômputo geral, António de Sousa escreveu que «não se pode dizer que o desafio tenha sido fértil em oportunidades de golo, Em situações de grande apuro. Não, não foi. Houve uma toada de ataque, mas travada à entrada dos meios-campos ou nas imediações das respetivas grandes áreas».

Numa primeira parte que terminou empatada a zero, a situação mais flagrante de golo aconteceu ao minuto 23, altura em que na sequência de um cruzamento de Álvaro Soares para o interior da área gaulesa o trio composto por Abílio, Vinha e Nikolic falhou o golo à boca da baliza! Isto numa altura em que era notório o crescimento do Salgueiros em campo, uma equipa que mostrava futebol acutilante e determinado, de acordo com a visão do jornalista de A Bola.

Ao minuto 42 o Salgueiros reclamou grande penalidade por uma eventual mão na bola de um defesa francês após uma bela jogada de combinação entre Nikolic e Jorge Plácido. Em cima da jogada o árbitro norte-irlandês Leslie Irvine mandou jogar. «Mas dois minutos depois, o Bessa irrompeu num coro de protestos pela decisão do irlandês Irvine de não validar um golo que o não foi… Expliquemos: Vinha cabeceou a bola e o guardião do Cannes agarrou-a mas caiu para dentro da baliza. A dúvida instalou-se entre os presentes: terá a bola, agarrada por Dussuyer, ultrapassado o risco? Não nos pareceu e por isso afigura-se-nos correta a decisão do árbitro e do fiscal de linha», analisou o jornalista. Só na segunda metade o marcador iria funcionar e a favor dos portugueses. Na sequência de um longo lançamento de linha lateral para o interior da área, Jorge Plácido ensaia um vistoso remate à meia volta e envia o esférico para o fundo da baliza. Estavam decorridos 50 minutos. O cenário do golo foi assim descrito por A Bola: «… O conjunto de Paranhos continuou (no início da segunda parte) no comando do prélio. E de tal modo que quatro minutos após o recomeço a Alma Salgueirista renasceu e com ela as esperanças: Jorge Plácido obtinha o golo. Aquele que viria a ser o único do encontro e na sequência de um dos excelentes e poderosos lançamentos de linha lateral de Nikolic, que fez a bola “pingar” no coração da área, motivando um subtil toque de cabeça de Vinha para trás, propiciando a intervenção vitoriosa de Jorge Plácido»

Após a festa do primeiro - e único até à data – golo europeu da turma de Paranhos, esta continuou a dominar, mas gradualmente as forças e discernimento começaram a não ser as melhores. «O Salgueiros continuou a desenvolver um futebol prático embora sem beleza (era preciso?), mas foi neste período que se tornou claro aos olhos de todos que nem a formação de Paranhos, nem o antagonista, teriam capacidade para grandes desempenhos», disse António de Sousa na sua crónica. E nesse sentido o resultado não mais sofreu alterações.

Era pois de satisfação o ambiente que pairava no balneário do Salgueiros após o apito final de Irvine. Para o treinador Zoran Filipovic tinha-se assistido a um bom jogo de futebol, «no qual deixámos uma boa imagem, perante um adversário aguerrido. Marcámos um golo, tivemos mais oportunidades para aumentar a vantagem, mas foi muito bom não termos sofrido nenhum. Agora, temos mais 90 minutos pela frente onde teremos de jogar com a mesma concentração, muita humildade e agressividade».

Radiante estava também o então presidente do Salgueiros, Carlos Abreu, que à reportagem de A Bola disse que «após um início muito tremido tomámos conta do jogo e conseguimos marcar um golo, que apareceu em boa altura. Depois foi gerir a vantagem e procurar não sofrer golos. O empate também se aceitava, o Cannes jogou bem, teve algumas oportunidades, mas penso que a vitória é o prémio para a nossa agressividade e para a forma como a equipa soube fechar-se no meio campo e na defesa».

Para o capitão Rui França o resultado estava certo. «Foi um jogo difícil, porque o Cannes tem uma grande equipa, recheada de bons jogadores, praticando um bom futebol. Contudo, através do nosso empenho, tentámos contrariar o favoritismo dos franceses e conseguimos um golo. O resultado acabou por ser escasso, mas não devemos esquecer que o adversário também dispôs de algumas oportunidades. Por tudo isto, penso que o resultado acaba por estar certo». Uma das figuras principais do jogo foi Jorge Plácido, autor do golo, ele que no final confessaria que «esforçámo-nos e batemo-nos por conseguir o melhor resultado possível. (…) A minha exibição poderia ter sido melhor, posso render mais, mas decaí fisicamente na segunda parte. Se tivesse um pouco mais de frescura, talvez pudesse ter marcado o segundo golo, o que para nós era o ideal. Em Cannes vai ser mais difícil do que aqui, já que o adversário tem uma equipa muito forte».

E foi na realidade uma viagem difícil aquela que o Salgueiros realizou até ao sul de França na 2.ª mão da eliminatória. A equipa portuguesa perdeu por 1-0 e seria afastada das provas da UEFA no desempate por grandes penalidades. O clube de Paranhos até pode ter perdido a eliminatória no campo, mas saiu desta “aventura” vitorioso, pois ver o velho Salgueiral na Europa do futebol foi um momento histórico.

No Estádio do Bessa sob arbitragem de Leslie Irvine as equipas alinharam da seguinte maneira: Salgueiros – Madureira, Paulo Duarte, Pedro Reis, Abílio, Pedrosa, Rui França, Jovica Nikolic, Stevan Milovac, Vinha, Álvaro Soares (Leão, 68), Jorge Plácido (Rui Alberto, 75). Treinador: Zoran Filipovic.
Cannes - Michel Dussuyer, Jean-Luc Sassus, Ludovic Pollet, Pierre Dréossi, Zinedine Zidane, Luis Fernández, José Bray, Franck Durix, Aljosa Asanovic, François Omam-Biyik, Robby Langers. Treinador: Boro Primorac.
Golo: Jorge Plácido (50).

ENTREVISTA:

PROFESSOR MANUEL GONÇALVES: «O ZORAN FILIPOVIC TROUXE UMA NOVA MENTALIDADE AO CLUBE»

Para recordar não só este momento ímpar na vida desportiva do Salgueiros mas também o ambiente místico de então que se vivia pelos lados de Vidal Pinheiro, nada melhor do que falar com alguém que viveu por dentro este período dourado da história do clube. Nesse sentido trocámos dois dedos de conversa com o professor Manuel Gonçalves, treinador-adjunto de Zoran Filipovic. 

Museu Virtual do Futebol (MVF): O professor Manuel Gonçalves chegou ao Salgueiros no final da década de 80 e acompanhou o clube em todo o trajeto realizado desde a 2.ª Divisão até à chegada às competições europeias. Pergunto-lhe como é que o popular Salgueiral conseguiu no espaço de duas épocas passar do segundo escalão nacional à Europa?

Manuel Gonçalves (MG): Cheguei ao Salgueiros no início da época de 1988/89 com o (treinador) Vieira Nunes. Em outubro houve chicotada psicológica. O senhor José António Linhares e o presidente Carlos Abreu falaram comigo, dizendo-me que gostavam que eu continuasse, uma vez que estavam a pensar contratar um treinador que ia treinar pela primeira vez e não tinha equipa técnica. Disseram-me, na altura, que tinham gostado do meu trabalho ao longo dos primeiros meses em que trabalhei no clube, assim como do que tinham auscultado em conversa com os capitães de equipa. Assim, entra o Zoran Filipovic para treinador principal e eu continuei como treinador-adjunto, isto com o clube a competir na Zona Norte da 2.ª Divisão Nacional.

O primeiro jogo do Zoran Filipovic como treinador principal foi em Amarante, onde o Salgueiros ganhou por 1-0. Foi um campeonato muito difícil, com muitos problemas para se assegurar a manutenção.
Recordo, aliás, um episódio que aconteceu no dia 15 de novembro de 1988, altura em que perdemos em casa com o Varzim por 3-0 e o Filipovic pediu para sair, ao que o presidente Carlos Abreu e o Chefe de Departamento de Futebol, José António Linhares, se opuseram e convocaram uma reunião com o plantel, a equipa técnica e todo o staff que envolvia o futebol do clube. Essa foi uma reunião que ainda hoje guardo como um marco do dirigismo, algo especial, e que me marcou ao longo da minha carreira com mais de 50 anos ligado ao futebol. O presidente Carlos Abreu, nessa reunião, inquiriu os jogadores que estavam há mais tempo no clube, perguntando-lhes precisamente há quantos anos ali estavam, e quantos treinadores haviam tido. Uns respondiam que estavam ali há 5 anos e que tiveram 7 treinadores, outros respondiam que estavam no clube há 8 anos e que tinham tido 10 treinadores, e por aí fora. Depois desta análise concluiu: “então a maioria tem muitos anos de clube e mudámos de treinador várias vezes. Já identifiquei o problema, o qual não está nos treinadores! Agora, não vamos mudar de treinador, e a mudar (algo) mudamos os jogadores”. Dessa forma na época de 1989/90 entre atletas promovidos dos juniores e contratações entraram no plantel do Salgueiros cerca de 16 novos jogadores. Essa temporada de 89/90 foi iniciada com um novo espírito e uma nova mentalidade. 

Filipovic e Manuel Gonçalves

MVF: … O Filipovic ficou, portanto, rompendo assim com a prática de despedir o treinador quando as coisas corriam mal. E como é que foi trabalhar com ele todos aqueles anos em Vidal Pinheiro? Como era Zoran Filipovic como treinador?

MG: O Zoran Filipovic trouxe uma nova mentalidade ao clube, novas metodologias de treino. Neste último aspeto cortou com aquilo o que na altura era a metodologia de treino, baseada nos desportos individuais, onde a dimensão física ditava leis. E mudou para as metodologias que se utilizam hoje em dia, onde os exercícios com bola e exercícios de acordo com o jogo eram a base de trabalho. O microciclo semanal (de trabalhos) passou a ser muito diferente do que até então era habitual, o que gerou alguma polémica na altura, com a folga semana, por exemplo, a ser à quinta-feira, dia habitual do chamado treino de conjunto. Lembro-me perfeitamente que à segunda-feira havia treino de recuperação para os jogadores utilizados no jogo do domingo anterior, enquanto os menos utilizados faziam treino normal; à terça-feira havia treino da parte da manhã e da parte da tarde; à quarta-feira de manhã havia treino específico, dividido em dois grupos, em que se iniciava com os jogadores de características defensivas e depois treinava-se com os de características ofensivas, ao passo que da parte da tarde treinava todo o grupo. À quinta-feira era a folga; e à sexta-feira e ao sábado havia treino da parte da manhã. Ao longo da semana de trabalho os treinos tinham a duração máxima de 90 minutos, e as metodologias utilizadas eram muito bem aceites pelos jogadores, dado que a bola estava sempre presente em todos os exercícios de treino, o que era motivante para o trabalho.

MVF: Como é que o popular Salgueiros viveu em termos emocionais essa chegada à Europa? Falo não só do clube em si, mas também daquilo o que viu nos fiéis e apaixonados adeptos deste emblema?

MG: 1991/92 foi uma época de grande afirmação do clube e que muito estimulou os seus adeptos, que viveram esse período com grande entusiasmo, e ainda hoje os adeptos mais velhos recordam isso com saudade.

Filipovic com Manuel Gonçalves ao lado numa palestra em Vidal Pinheiro

MVF: Consumada a chegada à Europa quis o sorteio que a estreia fosse diante do Cannes. Como é que o Zoran Filipovic, em conjunto com o professor Manuel Gonçalves e o Jorginho (treinadores adjuntos), preparou este jogo?

MG: O jogo com o Cannes gerou grande expectativa. Quase todos os jogadores nunca tinham participado numa prova (europeia) desta natureza. Sabíamos que o Cannes tinha grandes jogadores, onde despontava o Zidane, mas também jogadores experientes como o Fernández, o Omam-Biyik, o Asanovic, o Sassus, o Dussuyer, etc…

MVF: … E perante esse conhecimento como era o espírito do grupo antes do jogo? Nervosismo, entusiasmo, ou um misto destes dois sentimentos?

MG: O espírito do grupo era muito bom, pois vínhamos de duas épocas de sucesso, uma em que fomos campeões nacionais da 2.ª Divisão, e a seguinte em que nos apurámos para a Taça UEFA na sequência de um 5.º lugar.

MFV: Na sua visão de treinador o golo de Jorge Plácido que deu a histórica vitória fez justiça ao que se passou em campo ou o empate também se ajustava?

MG: Os dois jogos da eliminatória foram muito equilibrados. No Bessa foi com inteira justiça que o Salgueiros ganhou por 1-0. O jogo da segunda mão ficou marcado pela expulsão do Pedrosa, aos 56 minutos. No final dos 90 minutos o Cannes ganhava por 1-0, ficando a eliminatória empatada, pelo que se jogou um prolongamento de 30 minutos, sem que o resultado se alterasse. Há que referir que o Salgueiros jogou o encontro da segunda mão durante 64 minutos com 10 jogadores! Na decisão das grandes penalidades o Cannes ganhou por 4-2.

MVF: Já agora, do outro lado da barricada estava um jovem chamado Zinedine Zidane. O que é que achou dele naquela noite no Bessa? Adivinhou que ali estaria um dos futuros maiores jogadores da história do futebol ou nem por isso?

MG: Nessa altura o Zidane estava a iniciar-se, era ainda muito jovem, mas já tinha muita qualidade. As grandes estrelas do Cannes eram o Fernández e o Omam-Biyik.

MVF: Olhando para trás, mais de 30 anos depois, o que é que em seu entender significou aquela ida à UEFA por parte de um clube como o Salgueiros?

MG: Depois dos jogos com o Cannes, que foram uma experiência única para a maioria dos elementos do grupo, essa experiência acabou por trazer mais responsabilidade ao clube, pela exposição a que tinha sido submetido com a eliminatória europeia, que ainda hoje é um marco na história do Salgueiros. A ida à Europa para um clube como o Salgueiros foi de facto um ato que perdurará para sempre na história do clube, assim como na memória da massa associativa.

MVF: Para terminar, peço-lhe que classifique os 13 heróis que naquela noite de 19 de setembro no Estádio do Bessa fizeram história com a camisola do Salgueiros. À frente de cada nome diga o que pensa desse jogador, com uma palavra ou um pensamento, em suma, que caraterize individualmente esse atleta. Cá vai:

Madureira: «Um guarda-redes histórico do clube, com muitos anos de Vidal Pinheiro. Esteve ligado a um período de ouro da história do Salgueiros e que sabia transmitir a mística (do clube) ao grupo»

Paulo Duarte: «Um defesa-central prático e regular, com um grande caráter e um excelente ser humano»

Pedro Reis: «Um central que não sabia jogar mal. Eficaz. Era um pêndulo no sistema defensivo de três centrais que o clube utilizava na altura»

Pedrosa: «Lateral-esquerdo que veio da 3.ª Divisão, mas que pela sua qualidade e empenho se impôs com facilidade, acabando por seguir para o Sporting e ter feito uma boa carreira no futebol português»

Rui França: «Era o capitão e um trinco de grande eficácia. Era um operário que não parava durante os 90 minutos. Taticamente era bom, era forte nos duelos, entregava-se ao jogo sempre em alta rotação»

Milovac: «Um central top. Muito forte no jogo aéreo, e difícil de transpor nos duelos com os avançados contrários. Era um pilar do sistema de três centrais que a equipa utilizava»

Nikolic: «Era o estratega. Tinha muita classe e visão de jogo. Foi um jogador que marcou a equipa em muitos jogos pela sua liderança e qualidade técnica acima da média»

Abílio: «O trato de bola, a qualidade técnica e visão de jogo faziam com ele acrescentasse à equipa sempre algo em cada lance do jogo. Jogava com alegria, algo que transmitia aos colegas e que se refletia no rendimento da equipa»

Álvaro Soares: «Jogador pragmático, de grande eficácia, e com processos simples. Era veloz e dos seus pés saíam muitos cruzamentos que proporcionavam golos aos avançados»

Vinha: «Entrou bem no sistema de jogo da equipa. Foi muito útil nesse sistema de jogo utilizado. Com a sua enorme estatura tirava partido dos lances de bola parada»

Jorge Plácido: «Jogador experiente, rápido, e que ficará para sempre ligado à história desta eliminatória pelo golo que deu a vitória na primeira mão»

Leão: «Naquela altura estava em início de carreira, e cumpriu sempre que foi chamado. Confirmou, pela carreira que viria a fazer, a aposta que a equipa técnica fez nele»

Rui Alberto: «Um jogador eficaz. Era um ponta de lança prático, que tinha qualidade e fazia golos com alguma facilidade»

O plantel do Salgueiros que foi à Europa

quinta-feira, novembro 16, 2023

Jogos Memoráveis (6)... Racing White - CUF (Taça UEFA 1972/73)

Equipa da CUF que fez história na Taça UEFA de 72/73

O Barreiro figura na história do futebol português como um alfobre de largas dezenas de notáveis futebolistas. Durante anos a fio esta cidade industrial de referência foi um dos maiores, senão mesmo o maior, fornecedor de jogadores para os grandes clubes de Lisboa (sobretudo) e por consequência para a seleção nacional. Enumerá-los merecia só por si um artigo específico sobre a condição do Barreiro enquanto berço de génios da bola, artigo esse que fica para outras núpcias. Mas não só de virtuosos futebolistas reza a história desta terra localizada na margem sul do estuário do Tejo. Grandes e míticas equipas dali oriundas levaram o nome do Barreiro longe, tanto no plano nacional como internacional. Durante anos a fio a CUF e o Barreirense, os dois míticos emblemas ali nascidos, foram os máximos representantes da vila operária no mais alto escalão do futebol luso. E com resultados/classificações histórico(a)s! E como consequência dessas excelentes performances ambos os clubes têm o seu nome inscrito na história das provas da UEFA, vulgo, as competições europeias. Sobre a aventura do Barreirense já aqui falámos noutras viagens ao passado, enquanto que da CUF vamos recordar hoje o encontro histórico que permitiu ao mítico "clube-fábrica" superar pela primeira vez uma barreira uefeira, isto é, eliminar um adversário europeu. Aconteceu na época de 72/73, na recém-criada Taça UEFA, onde a CUF mediu forças com os belgas do Racing White (Molenbeek). Antes de recordarmos este encontro, há que referir que o emblema da Companhia União Fabril - fundada pelo grande e visionário empresário, Alfredo da Silva, nos inícios do século XX - não era propriamente um estreante em matérias de competições internacionais. Esta era na verdade a terceira presença dos cufistas na alta roda do futebol europeu. A primeira havia sido na extinta Taça das Cidades com Feira, na temporada de 65/66, altura em que a CUF surpreendeu ao Europa ao obrigar o poderoso Milan a um terceiro e decisivo jogo de desempate; e em 67/68, na mesma competição, quando caiu aos pés dos jugoslavos do Vojvodina na ronda inaugural.

E em 72/73 o clube do Barreiro chegava novamente ao palco europeu, fruto de um brilhante 4.º lugar no Campeonato Nacional da época anterior, em que ficou à frente do FC Porto, por exemplo.

Belgas sobranceiros caíram na ratoeira dos mind games

Quis o sorteio que a terceira presença da CUF nas competições europeias tivesse início em Bruxelas, onde à sua espera tinha o Racing White. Apesar de bem orientados por Fernando Caiado, que durante largos anos bebeu - enquanto adjunto - da sabedoria de ilustres técnicos que conduziram o Benfica a finais europeias na década de 60, os cufistas não reuniam à sua volta grande expectativas por parte dos opinadores do futebol português quanto a uma passagem de eliminatória. Pelo menos era esta a ideia que o célebre jornalista Cruz dos Santos passou no início da sua análise ao jogo realizado no Estádio Fallon a 20 de setembro de 1972. E de acordo com as palavras iniciais do jornalista d' A Bola esta descrença era mais pelas debilidades da equipa barreirense do que pelo poderio do adversário, poderio esse de que nunca se tinha ouvido falar! Para Cruz dos Santos o Racing era somente uma equipa jeitosa, com três ou quatro jogadores de boa craveira técnica, mas não mais do que isso. «Todas as desconfianças que se alimentavam a propósito das possibilidades de qualificação da equipa portuguesa repousavam na própria CUF, que se sabe ser capaz de uma superação na hora exacta (tem-no provado tanta vez em Portugal) mas que é urna equipa com muitas limitações, capaz de "encalhar" quando depara com um adversário mais experimentado e habituado a estas andanças», escrevia o jornalista que mais adiante recordava que a turma do Lavradio havia alcançado «resultados espetaculares» diante de equipas como o Benfica, Sporting, ou Vitória de Setúbal, mas que nesse cenário interno contava e muito o facto de os cufistas conhecerem de gingeira a forma de jogar desses clubes, o que não era tudo mas ajudava e de que maneira. 

A turma do Racing White que defrontou os cufistas

No confronto europeu isso não acontecia, nem o Racing White conhecia tão bem a CUF, nem esta o emblema belga, e nesse sentido dois estranhos iriam medir forças num encontro em que apontar um vencedor era um autêntico tiro no escuro. E a equipa portuguesa arriscou, foi feliz, mas com um certo ambiente de mind games à mistura que acabou por ludibriar os belgas, conforme se pode depreender das palavras de Cruz dosSantos. «E os responsáveis da CUF (...) chegaram, foram instados a botar palavra pelos jornalistas, e muito amáveis, muito simpáticos, foram dizendo que Bruxelas é uma linda cidade, que o clima é maravilhoso, que o Racing é uma equipa de categoria, uma equipa poderosa, que a CUF, enfim, vai ter muita honra em recebê-lo no Lavradio (...) mas que, enfim, quanto a uma hipotética qualificação não alimentavam grandes ilusões, até porque de um lado iriam estar profissionais da bola enquanto do outro jogariam operários de uma fábrica do Barreiro, que fazem futebol nas horas vagas... Este tom aparentemente realista com que os homens da CUF mostraram encarar o jogo, para além do rasto de simpatia que lhes valeu (quem não gosta de ouvir elogiar os seus...) ajudou a criar ainda um clima de facilidades que realmente (provou o jogo depois) não tinha razões para existir. E de tudo se beneficiou a CUF».

E foi com a ideia de que a eliminatória seriam favas contadas que os poucos espectadores (cerca de 6000) que se deslocaram ao Estádio Fallon encararam a partida. Mas os rapazes da CUF tinham a lição bem estudada, e «com uma defesa atenta com Fernando, vigilante, entre os quatro homens de trás e os três do meio do campo (Arnaldo, Monteiro e Vítor Gomes) e finalmente Manuel Fernandes e Juvenal, lá na frente, jogando muito abertos, nitidamente, com a preocupação de travarem o avanço dos defesas-laterais. Com este dispositivo Caiado garantia a defesa da sua área, assegurava o domínio do meio do campo e depois, só com dois homens na frente, manietava toda defesa belga, pois Manuel Fernandes e Juvenal barravam o caminho aos defesas-laterais, apenas deixando soltos os "centrais", e sabe-se bem que os "centrais" nunca descem no terreno. (...) Com a vitória deste sistema a CUF não apenas travou o ímpeto do Racing como assegurou próprio domínio do jogo». 

Um duelo no jogo de Bruxelas

Os belgas não encontravam o caminho da baliza de Conhé, não conseguindo assim resolver o quebra-cabeças montado por Fernando Caiado. Com isto o tempo foi passando, e Cruz dos Santos escrevia que não se via a teórica supremacia atribuída ao Racing White na antecâmara do jogo. Com isto a CUF foi ganhando confiança e passou ao ataque à baliza de Nico de Bree, que via os seus companheiros atarantados com o ímpeto cufista tendo para isso que recorrer muitas vezes a entradas maldosas. «Por volta da meia hora já não havia Racing — era quase tudo CUF. CUF que moralizada, estimulada pelo acerto da exibição vinha produzindo, crescia, crescia a ponto de se superiorizar por completo ao adversário». Na reta final da primeira metade os belgas ainda esboçam uma reação no sentido de intimidar os portugueses, mas sem grande sucesso. O máximo que conseguiram foi desferir dois remates tímidos à baliza barreirense que foram travados com atenção por Conhé, que seria um dos heróis deste encontro. Já antes disto a CUF havia colocado em sentido Nico de Bree, sobretudo ao minuto 15, quando o experiente avançado José Monteiro (que havia passado pelo Sporting) entra de rompante na área e com um remate venenoso obrigou o guardião holandês ao serviço do emblema belga a defesa espetacular. Os jogadores do Racing White mostravam-se nervosos, e a prova disso é que no regresso às cabines para o descanso Teugels atirou maldosamente a bola à cara de Manuel Rodrigues, o que lhe valeu de pronto o cartão amarelo exibido pelo árbitro inglês David Smith.

Conhé, lenda da CUF
Conhé veste a capa de herói

Na segunda metade os belgas voltaram com os ânimos mais calmos e acima de tudo intencionados em marcar, e desse modo os primeiros 10 minutos desta etapa colocaram Conhé e a sua muralha defensiva em alerta máximo. E foi precisamente neste período de maior intensidade do Racing White que aconteceu a grande oportunidade do conjunto da casa. O holandês Wietse Veenstra é derrubado dentro de área por dois defesas cufistas, Manuel Rodrigues e José António, lance que não deixou o árbitro com qualquer dúvida em assinalar o castigo máximo. Encarregue da marcação ficou a estrela da equipa, Henri Depireux, esse mesmo, o tal que cerca de 15 anos mais tarde treinaria o Belenenses. Porém, Conhé foi herói e parou o potente remate do médio belga. «A equipa da CUF em peso caía sobre o seu guarda-redes, enquanto o desânimo tombava sobre o Estádio Fallon!», escreveu A Bola. Este lance deu ainda mais moral ao conjunto português. Cruz dos Santos escrevia então que «a surpresa da exibição da CUF já não vinha só do facto de suportar o zero-zero durante primeira hora de jogo; muito para além disso a equipa portuguesa estava a jogar em grande, (...) congelando o esférico no seu meio do campo para quebrar o ímpeto do adversário, mas isso sem nunca abdicar da ideia de progredir no terreno, de construir com cada passe o lance de contra-ataque, de pôr à prova em cada jogada a coesão e a mobilidade da defesa belga».

Depireux, aqui como treinador do 
Belenenses falhou penalty
Auto-golo trouxe justiça ao jogo

Por esta altura Conhé mostrava que a defesa da grande penalidade não tinha sido obra do acaso. Aquele era mesmo um dia em que estava inspirado, como comprovam mais duas grandes defesas aos 67 e 69 minutos. E quando não era o guardião luso a travar a bola era a barra, como aconteceu à passagem da meia hora desta 2.ª parte. Os belgas desesperavam, com a aproximação do final do encontro carregavam com mais intensidade, estavam completamente balanceados no terreno, facto aproveitado e de que maneira pela CUF. Num lance de puro contra-ataque, quando o relógio marcava 84 minutos, «Juvenal corre com a bola pelo seu flanco, Vanderborght  tenta travá-lo, o jogador português prefere experimentar o centro, que Ihe sai em jeito de remate. Vanderborght, sempre atento, mete a cabeça a tentar o corte, mas a intervenção resulta infeliz, levando o esférico a ganhar altura e a escapar-se a De Bree que, entretanto, abandonava a baliza para tentar a intercepção, para ir, finalmente, alojar-se bem no fundo das balizas belgas». Estava feito o golo da vitória dos portugueses. Um auto-golo que premiou a equipa mais coesa e mais feliz, conforme titulava A Bola. Os belgas ainda tentaram evitar o escândalo, e estiveram muito perto quando Bjerre atirou de novo à barra. O resultado não se alterou e a CUF ganhou o seu primeiro jogo internacional fora de portas, o qual lhe haveria de abrir... a porta da eliminatória seguinte desta edição da Taça UEFA. Em jeito de balanço, Cruz dos Santos escrevia que  o «Racing, pelo que jogou e pelo que deixou adivinhar que habitualmente joga, não só não foi hoje como não é nunca, pelo menos no momento presente, mais equipa do que a CUF». Muitos elogios para os jogadores portugueses, especialmente para Conhé, «a grande sensação do jogo», e um tal de Manuel Fernandes, jovem avançado de 20 anos que fazia a sua estreia em jogos europeus. Manuel Fernandes, esse mesmo, que viria a ser lenda no Sporting e na seleção nacional. Sobre ele, Cruz dos Santos escreveu o seguinte: «Vinte anos e velocidade estonteante. Com esta juventude e com esta rapidez estava talhado para ser o homem que rompesse de surpresa pelo campo dos belgas. E fê-lo de maneira entusiástica. Em vaivéns arrasastes. Criou perigo sempre, mas quase nunca se lembrou de tentar o remate».

Manchete d' A Bola que exalta o feito da CUF

Cufistas pedem autógrafos a um desportista de dimensão mundial

Após o encontro Fernando Caiado era naturalmente um homem feliz. À reportagem d' A Bola diria que «estou encantado com a forma como os meus jogadores se bateram e jogaram. Foram muito inteligentes e portaram-se como veteranos em provas europeias. Embora fosse o adversário a marcar o nosso tento, nós, também, tivemos oportunidades. — Quanto ao futuro?  Agora, parece mais fácil, ainda que, no Barreiro seja tão difícil como antes de a eliminatória começar». Também Conhé estava radiante com a vitória e com a sua exibição. «Estou muito contente comigo e com os meus companheiros. Com humildade, mostrámos que a nossa equipa se pode bater com eles, de igual para igual. Não somos inferiores. Para a segunda mão vamos ter dificuldades, mas acredito na passagem à eliminatória seguinte. (Sobre o) "penalty"? Bem, não é o primeiro que defendo! Já tenho, até, defendido vários, mas este é especial, porque tem sabor a vitória».

Do outro lado havia naturalmente tristeza. O treinador Félix Week não se conformava: «Quinze cantos, três bolas na trave... e somos nós a marcar o golo do nosso adversário!», dando assim a entender que a sua equipa fez de tudo para ganhar o encontro. Quanto ao encontro da segunda mão: «Vamos trabalhar para podermos apresentar em Portugal um futebol do mesmo nível . E parabéns aos portugueses». Desportivismo acima de tudo. Inconformado mas esperançado com vista a uma reviravolta da eliminatória no Lavradio estava o guarda-redes Nico de Bree. «Não há dúvida que o encontro foi bastante agradável para os espectadores, embora eu considere que tivesse sido um jogo em que a sorte ditou leis . E a sorte foi para os portugueses. (...) Não me considero culpado no golo que sofri. O tento resultou de uma mistura de azar nosso e mérito dos portugueses. Mas enquanto há vida, há esperança, e esperemos agora que o nosso contra-ataque resulte em Portugal».

Este Racing White tinha como sócio de mérito um dos grandes nomes do ciclismo mundial daquele... e todos os tempos. Eddy Merckx. Esteve no estádio onde assistiu ao jogo, e antes do pontapé de saída esteve no balneário dos portugueses a dar autógrafos! Os dirigentes da CUF de pronto lhe fizeram o convite para assistir ao jogo da 2.ª mão em Portugal, todavia tal não seria possível já que o grande campeão belga tinha dois compromissos desportivos por alturas do confronto do Lavradio.

Para a eternidade aqui fica a ficha da primeira vitória internacional da CUF do Barreiro fora do seu estádio e que lhe haveria de abrir as portas da 2.ª eliminatória, já que no Lavradio se seguiu uma nova vitória sobre os belgas, desta feita por 2-0, com dois golos de Eduardo. A aventura europeia dos cufistas iria terminar às mãos dos alemães do Kaiserslautern na ronda seguinte.

Arbitro: David Smith (Grã-Bretanha), auxiliado por George Hartley e por George Byng.

Racing White: De Bree; Vercammen, Tuyaersts, Desanghere Vanderborght; Crombez, Bjerre e Depireux (Bergholtz, 60); Koens, Tengels e Veenstza.

CUF: Conhé; José António, Rodrigues, Castro e Esteves; Arnaldo, Fernando e Vítor Gomes, Manuel Fernandes, Monteiro (Capitão Mor, 75) e Juvenal.

ENTREVISTA COM JOÃO CASTRO

«...TÍNHAMOS UMA EQUIPA DE JOGADORES VALIOSOS E MUITO RAÇUDOS. NÃO TÍNHAMOS MEDO!»

Ele foi um dos homens que nesse dia em Bruxelas ajudou a fechar a porta da baliza de Conhé. Com ele trocámos breves palavras no sentido de recordar um pouco este jogo histórico da CUF. Ele foi titular em três dos quatro jogos europeus que os cufistas realizaram nesta época, assumindo-se como um dos jogadores mais experientes do plantel às ordens de Fernando Caiado. Estamos a falar de João Castro, mais um "produto" do Barreiro que brilhou quer com a camisola da CUF, quer (mais tarde) com a do Barreirense.

Museu Virtual do Futebol (MVF): Jogar uma eliminatória da UEFA é sempre um aliciante para qualquer clube ou jogador. Como é que o balneário da CUF viveu o início da aventura europeia de 72/73?

João Castro (JC): Lógico que se viveu com uma certa expectativa o jogo, mas devo dizer que também tínhamos uma excelente equipa e fomos para a Bélgica à vontade!

MVF: Hoje em dia com a tecnologia cada vez mais avançada é fácil conhecer ao pormenor cada adversário. Mas antigamente não era assim. Vocês sabiam alguma coisa do Racing White?

JC: Não, desconhecíamos por completo o valor do adversário! Mas nós fomos para lá todos contentes para esta nova aventura a nível internacional da CUF.

MVF: A experiência de Fernando Caiado, que enquanto treinador adjunto, viveu muitos jogos internacionais foi importante para aquilo que viria a ser o desfecho quer deste jogo quer da eliminatória?

JC: Sem dúvida que a experiência do Sr. Caiado teve muita importância neste jogo, porque como disse ele era muito conhecedor do futebol a nível internacional e isso ajudou muito.

MVF: E quando lá chegados, como é que sentiram que os belgas olharam para vocês? As crónicas desse jogo dizem que eles vos olharam de sobranceira, que achavam que vencer a CUF seria tarefa fácil. Isto é verdade?

JC: Não me lembro muito bem, mas acredito que se calhar eles olharam-nos com uma certa sobranceria, com a ideia de que o jogo já estava ganho. Mas o que é certo é que não se passou nada daquilo que eles pensavam, de que nós seriamos uma equipa fácil. Não foi nada disso o que se passou em campo.

MVF: Conta-se que em certos momentos os belgas usaram e abusaram a dureza em algumas jogadas e também pelo facto de não estarem a conseguir ultrapassar a muralha cufista, é verdade?

JC: Não acho que isso tenha sido verdade, pois até nesse aspeto eles nunca levaram vantagem porque nós tínhamos uma equipa também de jogadores valiosos e muito raçudos. Não tínhamos medo!

MVF: Em que momento do jogo é que vocês sentiram que iriam sair dali com a vitória, ou que podiam ganhar ao Racing White

JC: Quando fizemos o golo! Isto numa numa altura em que  eles já não entravam na nossa área. Embora, no final eu lembro-me que eles nos obrigaram a ter muito trabalho! Mas ganhámos.

MVF: Para terminar. Conta-se que antes do jogo do famoso ciclista Eddy Merckx esteve no balneário da CUF a distribuir autógrafos...

JC: Sim, é verdade, no final do jogo ele esteve nossa cabine a dar-nos os parabéns e nós aproveitámos para lhe pedir autógrafos.

segunda-feira, julho 25, 2022

Jogos Memoráveis (4)... Portimonense - Partizan (Taça UEFA de 1985/86)

Há quem diga que o Algarve é não só a estância balnear de Portugal, mas também da Europa. Com o seu clima quente, as suas praias paradisíacas e a farta animação noturna, esta região tem sido o destino de férias para cidadãos de vários países europeus ao longo de décadas. Deste modo, será uma minoria, por certo, a percentagem de europeus que não conhece esta região do sul do nosso país pelas características naturais que apresenta. Porém, em termos de futebol só na segunda metade dos anos 80 do século passado é que o Algarve se deu a conhecer à Europa. Apresentação que aconteceu na temporada de 1985/86, altura em que um dos filhos futebolísticos mais ilustres da região fez a sua estreia - e única até à data - na alta roda do futebol continental, isto é, nas competições europeias. Emblema esse que dá pelo nome de Portimonense Sport Clube, e que fruto do brilhante 5.º lugar conquistado na época anterior, no Campeonato Nacional da 1.ª Divisão, assegurou o passaporte para a Taça UEFA. Feito alcançado por um treinador algarvio, o que eleva ainda mais os níveis históricos do facto, um homem que é hoje em dia um dos técnicos mais titulados a nível internacional do nosso futebol. O seu nome? Manuel José. Foi ele o maestro de uma orquestra afinada e talentosa que na altura tinha nomes como o experiente defesa-central Simões - que tinha passado com sucesso pelo FC Porto -, o médio Vítor Oliveira - formado no Leixões e que no final desta temporada pendurou as chuteiras -, o promissor avançado Rui Águas, ou o também dianteiro belga Serge Cadorin - quiçá o nome mais sonante daquele Portimonense, pelos muitos golos que marcou durante a sua estadia no Algarve.

No entanto, não seria Manuel José a apresentar o emblema de Portimão à Velha Europa do futebol, uma tarefa que ficou nas mãos de Vítor Oliveira, que como já foi referido encerrou a sua carreira de atleta no Algarve e foi um dos obreiros que em campo garantiu a presença da Taça UEFA de 85/86. Vítor Oliveira que dava assim em Portimão início a uma brilhante carreira de treinador, tendo passado nos 34 anos seguintes por diversos clubes do nosso futebol, alcançando na maior parte deles subidas de divisão, de tal maneira que ainda hoje é conhecido como o "Rei das Subidas". Figura esta que desapareceu do nosso convívio muito recentemente, em 2020, e que deixou, naturalmente, saudades a todos aqueles que consigo trabalharam e conviveram.

Mas voltamos à temporada de 85/86, onde o Portimonense fez alguns reajustes ao seu plantel não só com o intuito de repetir a boa prestação interna da época transata, mas de igual modo para fazer boa figura na estreia internacional. Entre as novas caras encontravam-se o médio brasileiro Nivaldo, vindo do Benfica, e o avançado Pita, que haveria de ficar com o seu nome gravado na história do Portimonense no âmbito desta entrada na Europa do futebol.

O histórico "onze" do Portimonense que bateu o Partizan de Belgrado

O apadrinhamento europeu dos algarvios foi feito por um emblema muito experiente nestas andanças, por um gigante do futebol do leste europeu, o Partizan de Belgrado. Se a inexperiência já de si era um fator que à partida condicionava os homens de Portimão, o facto de terem pela frente um dos maiores clubes da então Jugoslávia tornava esta numa missão praticamente impossível, o que se viria a confirmar no final da eliminatória. Mas o nosso foco é no jogo da primeira mão, em Portimão, cujo estádio se engalanou para o batismo europeu do seu clube. E quando aludimos ao termo engalanou queremos dizer que não era só a atmosfera quente - não só pelo calor típico algarvio, mas sobretudo pela massa adepta presente - que envolveu esse histórico encontro realizado a 18 de setembro de 1985, mas também porque nesse dia, ou melhor, nessa noite, era inaugurada a iluminação elétrica do estádio, que tinha custado a módica quantia de 35.000 contos. Quiçá todos estes condimentos ajudaram o Portimonense a alcançar uma vitória histórica, por 1-0, um resultado que assustou o Partizan, segundo a crónica de A Bola. Pela pena de uma magistral dupla de jornalistas, os Serpa, Homero (o pai) e Vítor (o filho), escreveu-se que na noite morna de Portimão o clube local, sem traquejo internacional, fez a sua estreia europeia ante um experiente Partizan, uma equipa com largo prestígio na Europa, e que talvez tivesse sido esta a razão pela qual a turma algarvia entrou em campo com uma certa inibição. Facto que com o passar do tempo se eclipsou, e o Portimonense começou a mostrar o desejo de dar boa conta do recado. Os portugueses foram para Vítor Serpa uma equipa «combativa, determinada, mas que não teve dúvidas nunca quanto à diferença da qualidade técnica que a separava do adversário. De tal modo assim foi que o Portimonense apenas conseguia equilibrar as operações, ou até, eventualmente, sobrepor-se ao seu adversário, quando adregava imprimir maior velocidade ao jogo, tirando assim partido da rapidez de execução de alguns dos seus jogadores. E sabe-se por um certo saber de experiência feito, o quanto de uma forma geral desagrada às equipas de leste jogar de pressa», assim descrevia o jornalista um jogo que terminou com uma «vitória saborosa na jornada que assinala a estreia - facto que só por si merece ser devidamente assinalado», mas que era um resultado que não garantia um passo decisivo para passar a eliminatória. E como estava certo o jornalista da Travessa da Queimada.

Já o seu pai escrevia que foi num ambiente «misto de euforia e de dúvidas - até porque na sua opinião os algarvios ainda não haviam encontrado naquela época o entrosamento necessário - que a equipa de Vítor Oliveira entrou no relvado do seu estádio, pela primeira vez iluminado, para defrontar, em desafio oficial, uma equipa estrangeira: Partizan de Belgrado, uma turma habituadíssima às competições internacionais; portanto, com muito mais experiência do que o Portimonense que só agora inaugurou esta nova via num percurso que está a fazer, desde a Segunda Divisão, em constante progresso».

Lance do jogo do Algarve
E prosseguindo a sua análise ao jogo, Homero Serpa dizia que «devemos começar por dizer que Partizan começou, logo de início, por transmitir a ideia de que iria realizar um jogo calmo, sem grandes sobressaltos, no intuito de  preparar a decisão da eliminatória para a segunda mão, em Belgrado. O 0-0 seria um bom resultado, o 1-1, excelente, e, por aí adiante . Mas a derrota sofrida, embora por margem escassa, não será assim tão bom, pese o facto de o Portimonense não se encontrar, presentemente, na sua melhor forma. Longe disso, obrigando a que permaneça a dúvida quanto à sua capacidade de resistência para o segundo e decisivo "round". Mas, o futebol é, como uma caixinha de surpresas, e, até pode suceder que a simpática equipa algarvia prossiga em prova. No entanto, e pelo que se conhece do futebol jugoslavo, a tarefa não vai ser nada fácil, bastando, para tanto, recordar os exemplos de outras equipas de maiores pergaminhos no futebol europeu que "morreram" às mãos do Partizan, que continua uma das grandes formações europeias, com um futebol bem entremeado, onde a técnica e a velocidade combinam quase perfeitamente. Mas, aconteça o que acontecer, na segunda mão, o que mais importa agora é que o Portimonense venceu este seu primeiro teste ao nível de provas da UEFA, o que, só por si, chega para elevar a equipa algarvia a uma posição muito simpática no cotejo internacional». E assim foi.

Mais a fundo, Homero Serpa dizia que as equipas jogaram este desafio do Algarve um pouco no escuro, com algum receio uma da outra, tendo sido, no entanto, dos de Portimão os dois primeiros sinais de algum perigo, sendo que na visão do jornalista o primeiro lance é uma clara grande penalidade cometida por Nikodijevic sobre Freire, que o árbitro belga Alphonse Constantin ignorou. Acrescentaria que os primeiros dez minutos da partida foram de domínio algarvio, uma equipa que nas suas palavras «se esqueceu da categoria do adversário que tinha pela frente».

Nivaldo prepara-se para mais um ataque
à baliza do Partizan 
Encostado às cordas, o técnico do Partizan abdica de um defesa e dá ordem ao seu lateral direito para subir no terreno, uma mudança que atordoou os pupilos de Vítor Oliveira, que com mais um homem pela frente no meio campo contrário. Um «embaraço» que «naturalmente, acabaria por ser bem aproveitado pelos jugoslavos que começam, tecnicamente, a mandar na partida. As sua jogadas, no entanto, nunca foram demasiado perigosas. Via-se que detinham o comando, mas pouco apoquentavam o guarda-redes português, que tinha à sua frente dez companheiros humildes e uma defesa que, quando era preciso aliviava de qualquer maneira, mesmo de forma arcaica. (...) O Portimonense não fazia flores, e não se envergonhava de ser humilde. Soube, antes do mais, ser realista, actuando com a frieza necessária. O tempo ia correndo e, aquilo que a princípio mais se temia, continuava por não suceder. As balizas da turma portuguesa permaneciam invioláveis. A seu favor, os jugoslavos apenas podiam contabilizar dois, lances que, muito no condicional, poderiam ter ocasionado dois golos». Isto na primeira parte. O reatamento não poderia ter começado melhor para os portugueses, já que aos 47 minutos surge o ponto alto deste encontro, o golo! O tento da autoria do cabo-verdiano Pita, um golaço que levantou o estádio e que foi desenhado da seguinte maneira: «Cadorin foi rápido a fazer um lançamento no lado direito, já perto da bandeirola de canto, Freire centrou também rapidamente e Pita, entrando fulgurantemente de cabeça, atirou à baliza. A bola, antes de entrar, tabelou no poste direito, sem hipóteses para o guarda-redes».

Pita, um jogador que Homero Serpa considerava o melhor ponta-de-lança do futebol português a atuar de cabeça! O Partizan ficou perplexo com este golo, em contraposto com os adeptos algarvios, que entusiasmados por este festejo empolgaram ainda mais o seu conjunto. «Toda a equipa sobe de rendimento (...) Os jugoslavos perturbam-se. O Portimonense, galvanizado, arranca para uma exibição memorável, com um futebol de nível internacional. Sem grande técnica, mas, veloz, e com o aproveitamento milimétrico de todo o terreno. Agora, a equipa portuguesa torna se num bico-de-obra para o seu adversário», lia-se na reportagem de A Bola.

Vítor Oliveira passou de jogador
a treinador dos algarvios
Foi uma meia hora empolgante do Portimonense, que atirou ao tapete o experiente Partizan, que apesar de nos últimos 15 minutos alargar a sua frente da ataque não levou perigo para os pupilos de Vítor Oliveira. «Esta equipa do Partizan não nos pareceu muito rápida. Acreditamos, no entanto, que não terá mostrado frente aos portugueses o muito de que é capaz de progredir neste aspecto. E, meus amigos, se conseguir combinar a velocidade com a excelente técnica de que é detentora; vai ser, não tenhamos dúvidas, um osso muito duro de roer em Belgrado», escrevia o jornalista de A Bola numa antevisão daquilo o que seria o inferno na Jugoslávia, onde os portugueses viriam a cair por expressivos 4-0, dizendo adeus à UEFA.

Mas ninguém tira aos algarvios o prazer de ter assustado os poderosos jugoslavos e de se terem estreado nas competições europeias com uma surpreendente, mas justa, vitória. Surpresa era pois o estado de alma que reinava no balneário do Partizan no final do encontro, a começar pelo treinador Nenad Bjekovic. «Os portugueses estiveram muito bem e confesso que me surpreenderam. Estava à espera que jogassem em passes curtos e a trocarem a bola e apareceu-me um estilo de jogo totalmente, ao contrário. O Portimonense surgiu a jogar em passes longos e a actuar muito bem de cabeça. (...) No meu entender, os portugueses sobressaíram pelo seu jogo colectivo, se bem que tenha de distinguir a exibição de Nivaldo, muito boa, um elemento que faz jogar a equipa e demonstra bastante experiência», disse o técnico jugoslavo que fez ainda uma antevisão do encontro da segunda mão, opinando que este seria decisivo, e que a sua equipa tinha boas hipóteses de seguir em frente.

Cadorin, uma das principais
figuras dos algarvios
Uma das estrelas do Partizan era então Ljubomir Radanovic, defesa que representou a Jugoslávia no Europeu de 1984, e nos Jogos Olímpicos do mesmo ano, que opinaria que «o Portimonense mostrou-se mais lutador, pelo que mereceu ganhar. O Partizan não mostrou em Portimão o seu verdadeiro valor, mas irá faze-lo em Belgrado, dentro de duas semanas. O Portimonense, apesar de boa equipa não chegará para superar esta eliminatória», como estava certo o capitão da equipa Balcã. Curiosidade é que também o árbitro do encontro foi ouvido pelos jornalistas de A Bola, tecendo uma opinião sobre o jogo! Coisa impensável nos dias de hoje. Alphonse Constantin disse então que este havia sido um encontro interessante de arbitrar, «com os portugueses, muito bons tecnicamente, a desfrutarem de grandes hipóteses para ultrapassar a eliminatória. É verdade que os portugueses demonstraram uma falta de maturidade competitiva, mas estou convencido que a irão adquirir, pois dispõem de muitos jogadores novos e muito futuro na sua combinação». E o penalti reclamado pelo Portimonense na primeira parte, o que tinha o senhor Constantin a dizer em sua defesa? «O Portimonense reclamou, de facto, grande penalidade, mas o jogador atirou-se voluntariamente para o chão sem ninguém lhe ter tocado. Aliás, esse jogador procedeu de forma muito inteligente. Pois levantou-se e não me disse uma palavra».

Na cabine de Portimonense reinava a alegria, mas ao mesmo tempo um sentimento de que o resultado era curto para a viagem à Jugoslávia quinze dias depois. Vítor Oliveira estava satisfeito com a exibição da sua equipa e com o resultado, «embora reconheça que se tivéssemos marcado mais um ou dois golos seria mais justo para a minha equipa. (...) Apesar de escasso (o resultado), vamos tentar passar a eliminatória, a fim de prestigiar a cidade de Portimão e o nome de Portugal», disse então o técnico.

Também o experiente defesa Simões era de opinião que o score era curto em relação à exibição dos de Portimão,  endereçando ainda uma palavra ao público afeto à sua equipa: «não quero deixar de enaltecer o apoio entusiástico que o público de Portimão nos dispensou e bom seria que assim se mantivesse durante as jornadas do campeonato. Esse calor humano à nossa volta só engrandece a equipa».

Para a história do Portimonense e do futebol português aqui fica a ficha deste jogo:

Estádio do Portimonense. Árbitro: Alphonse Constantin (Bélgica)

Portimonense: Vital; Dinis, Balacó, Simões, Teixeirinha, Freire, Carvalho, Nivaldo, Luís Reina, Pita e Cadorin. Substituições: Nivaldo por João Reina, Freire por Barão, aos 40 e 44 minutos respetivamente. Treinador: Vítor Oliveira.

Partizan: Omeovic; Radovic, Vermezovic, Capljic, Rojevic, Zivkovic, Stevanovic, Radanovic, Nikodijevic, Varga e Vucievic. Substituições: Varga por Djukic, Stevanovic por Diermai, aos 21 e 27 minutos, respetivamente. Treinador: Nenad Bjekovic.

Golo: Pita, aos 47 minutos.

ENTREVISTA COM JOÃO REINA

«DIGNIFICÁMOS O FUTEBOL PORTUGUÊS E PRINCIPALMENTE O FUTEBOL ALGARVIO»

Algarvio de gema (nasceu em Olhão), João Reina era uma das figuras do plantel do Portimonense que viveu na pele a aventura europeia de 85/86. Ele participou no célebre jogo com o Partizan, entrando para o lugar de Nivaldo. Chegou a Portimão precisamente na histórica temporada em que o emblema algarvio alcançou o 5.º lugar que deu acesso à Taça UEFA, e nesta entrevista ao Museu Virtual do Futebol o antigo defesa recordou não só a épica vitória ante o conjunto oriundo da ex-Jugoslávia, como também falou dos timoneiros (Vítor Oliveira e Manuel José) que conduziram a nau algarvia naqueles anos dourados, bem como o significado que este triunfo teve para toda a região do Algarve.

João Reina com 
a camisola do Portimonense
Museu Virtual do Futebol (MVF): O João Reina cumpria na altura a segunda época em Portimão, sendo um dos obreiros desta qualificação para a Taça UEFA. Como explica esta rápida ascensão à Europa do futebol de um clube que só se tinha estreado na 1.ª Divisão em 1979?

João Reina (JR): O Portimonense já vinha fazendo boas épocas na 1.ª Divisão Nacional, e com a entrada de vários jogadores e do treinador  Manuel José, que tinha um grande conhecimento do futebol português, a pré época correu muito bem e começámos nos lugares acima do meio da tabela. Depois, fomos cimentando a nossa posição, conseguido a qualificação (europeia) com muito mérito.

MVF: Recorda-se como é que Portimão, e o Algarve em geral, viveram esta qualificação para uma competição europeia?

JR: Sendo o primeiro clube algarvio a conseguir esse feito Portimão e o Algarve estavam naturalmente ansiosos à espera desses jogos (europeus).

MVF: E quando no sorteio uefeiro vos colocou pela frente o Partizan, um clube poderoso, oriundo de uma escola de futebol muito forte, o que vos passou pela cabeça nessa altura?

JR: Toda a gente conhecia o Partizan, que na altura era uma das boas equipas da Europa. Mas nós tínhamos o sonho de fazer uma boa prova.

MVF: O que vos disse Vítor Oliveira nos dias que antecederam este jogo, como é que ele trabalhou a vossa mente no sentido de ultrapassar este obstáculo?

JR: O mister Vítor Oliveira sempre se mostrou tranquilo, sempre a motivar-nos não só nestes jogos (europeus), como também para os do campeonato. Mas sempre acreditando que poderíamos seguir em frente nesta eliminatória.

MVF: Por falar em Vítor Oliveira, o João Reina partilhou o balneário com ele nos anos de Portimonense, quer enquanto colega de equipa, quer na qualidade de pupilo. O que lhe diz Vítor Oliveira ainda hoje, o que se lembra dele?

JR: Como colega foi um orgulho fazer parte da equipa dele. Sempre foi amigo do seu amigo, e como seu pupilo (mais tarde) dele sempre foi um treinador a pensar em prol da equipa, sem olhar a nomes, fazendo  jogar quem estava seu melhor momento de forma. Com ele aprendi muito de futebol, e já na altura o Portimonense jogava com três centrais e dois alas e eu fui um dos que fui adaptado à posição de ala, onde penso que me saí bem. O Vítor Oliveira é uma pessoa que nunca vou esquecer.

MVF: Não podemos esquecer que esta qualificação europeia foi obra de outro nome consagrado da tática em Portugal, Manuel José...

JR: Foi o mister Manuel José que me levou para o Portimonense, tendo ele conseguido o feito de nos apurarmos para uma competição da UEFA. Foi dos bons treinadores que tive ao longo da minha carreira, e dele guardo boas recordações, tal como do mister Vítor Oliveira.

MVF: Veio o dia do jogo, ou melhor, a noite, porque se estreava a iluminação artificial, e o que sentiu quando a bola começou a rolar no ambiente quente - no duplo sentido - algarvio. Como foram os primeiros minutos de jogo, estavam nervosos, acreditavam que podiam ganhar, em suma como estava a equipa?

JR: Naturalmente estávamos todos nervosos, mas com o decorrer dos minutos fomos acreditando que poderíamos fazer um bom resultado. Acho até que o 1-0 foi pouco pelo que produzimos, principalmente na 2.ª parte. Tínhamos um excelente grupo. com alguns jogadores mais experiente que encaravam o jogo de outra forma.

MVF: Rezam as crónicas que na segunda parte o Portimonense soltou-se mais, dominou o jogo, e veio o golaço de Pita. O que se lembra destes momentos da etapa complementar, do golo, e de que vos disse Vítor Oliveira ao intervalo e que mudou a atitude dos jogadores de Portimão (?)

JR: O Portimonense, como já disse, fez uma grande 2.ª parte, tendo o golo do Pita reposto alguma verdade no marcador. O Vítor Oliveira só nos fez acreditar que poderíamos sair com uma vitória nesse jogo.

MVF: Esta é uma pergunta clássica, mas impõe-se: qual foi o segredo para vencer o Partizan naquela noite?

JR: O segredo foi acreditarmos no grupo que tínhamos, e que fazendo um jogo sem erros poderíamos ganhar. E foi o que aconteceu.

MVF: Tem ideia do que significou esta vitória para o clube e em particular para a região do Algarve, que até então internacionalmente era só conhecida pelo sol e pelas belas praias?

JR: Para o clube foi o encarar o campeonato com mais tranquilidade, sabendo que os nossos adversários iriam olhar pata nós de outra forma, respeitando-nos mais. Para a região foi o dar a saber que no Algarve também existia futebol.

MVF: E depois, o que aconteceu em Belgrado para justificar a pesada derrota e a consequente eliminação da Taça UEFA?

JR: Em Belgrado sofremos logo nos primeiros minutos um golo, e contra estas equipas quando se sofre cedo dificilmente se consegue contrariar a sua maior experiência, como era o caso do Partizan. Mas penso que dignificámos o futebol português e principalmente o futebol algarvio.