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quarta-feira, fevereiro 19, 2020

Jogos Memoráveis (1)... Vitória de Guimarães - Aston Villa (Taça UEFA de 1983/84)


Capitães do Villa e do Vitória
trocam cumprimentos

Dá-mos hoje o pontapé de saída de uma nova rubrica no Museu Virtual do Futebol, a qual nasce com a missão de recordar os jogos que, por algum motivo, ficaram na nossa memória. Jogos que deram origem a um inesquecível título, que marcaram a estreia numa competição de sonho, ou simplesmente porque "aquela" foi uma tarde (ou noite) em que o pequeno David derrotou o gigante Golias.

E para recordar estes capítulos marcantes nada melhor do que trazer ao Museu quem os viveu, quem ajudou a fazer com que estes momentos figurem na vitrina da eternidade.

Esta é um pouco da essência da rubrica... Jogos Memoráveis. E para dar início a esta nova viagem à História do Belo Jogo recuámos até ao dia 14 de setembro de 1983, altura em que a temporada desportiva 1983/84 dava os primeiros passos. Nesse dia arrancava a corrida europeia de mais uma edição da Taça UEFA, no sentido de encontrar o sucessor do Anderlecht enquanto detentor do terceiro ceptro continental mais importante - logo a seguir à Taça dos Campeões Europeus (TCE) e à Taça das Taças.

Hermann Stessl,
treinador do Vitória em 83/84
64 clubes iniciaram essa corrida, entre eles o Vitória de Guimarães, fruto do 4.º lugar alcançado na época anterior na 1.ª Divisão Nacional. Vitorianos que participavam pela terceira vez nas provas uefeiras, sendo que as duas anteriores aconteceram na antecessora desta Taça UEFA, a Taça das Cidades com Feira.
Desta feita, pela frente os vimaranenses encontraram aquela que para muitos era a segunda melhor equipa inglesa daquele período: o Aston Villa.
Pelo menos a julgar pelas palavras do próprio treinador do Vitória, o austríaco Hermann Stessl: «A seguir ao Liverpool, o Aston Villa é a melhor equipa inglesa». Está opinião, só por si, chegava para colocar em sentido qualquer equipa de futebol daquela altura, pois o Liverpool tão somente tinha conquistado sete campeonatos nacionais ingleses ao longo dos dez anos anteriores, bem como três TCE, pelo que estar na sombra desta mítica equipa de Anfield Road fazia crer que o Villa só podia ser também uma equipa poderosa. E era de facto.

Jornal do Vitória
faz eco do jogo
Havia, contudo, outros aspetos que faziam do mítico clube de Birmingham um osso mais do que duro de roer para o Vitória. Desde logo, porque o futebol de terras de Sua Majestade dominava a seu bel prazer a Europa futebolística.
Só para se ter uma ideia desse domínio avassalador, entre 1977 e 1983 a principal competição uefeira, a TCE, havia viajado para Inglaterra em seis ocasiões(!), três por intermédio do Liverpool, duas pela mão do Nottingham Forest e uma pela do... Aston Villa.
Pois é, o adversário do Vitória era também um ex-recente campeão europeu. Cerca de um ano antes, mais concretamente a 26 de maio de 1982, o Villa havia surpreendido o Mundo do futebol ao derrotar na Banheira de Roterdão o gigante alemão Bayern de Munique, graças a um golo solitário de Peter Withe. Esta era, quiçá, a principal razão que fazia com que o Aston Villa fosse um adversário menos desejado para os pupilos de Stessel nesta primeira ronda da Taça UEFA de 83/84. Ou não! Pois qualquer jogador de futebol ambiciona enfrentar os melhores seja em que circunstância for. E os melhores, neste caso, alguns dos jogadores que pouco mais de um ano antes haviam sido corados reis do Velho Continente, estavam de visita ao Municipal de Guimarães. Motivo mais do que suficiente para termos aqui mais uma versão da saga David vs Golias? O resultado final haveria de provar que sim, que o Vitória Sport Clube haveria nesta tarde de escrever a sua primeira página de glória na Europa do futebol ao vergar o poderoso Villa no berço da nação lusa, tal e qual D. Afonso Henriques na mítica batalha de S. Mamede em 1128, em que o jovem e destemido cavaleiro derrotou as tropas de sua mãe, D. Teresa... contra todas as expectativas!
O 11 do Vitória que na Cidade Berço bateu o poderoso Villa

O 1-0 a favor dos então praticamente desconhecidos (além fronteiras) vimaranenses foi notícia! Fez as gordas em muitos jornais. Afinal de contas, este era mais um capítulo da história em que o frágil David derrota o gigante Golias. Para termos uma ideia da dimensão deste triunfo imagine-se o Moreirense derrotar o Real Madrid numa partida oficial! Esta seria, mais ao menos, a imagem atual daquela tarde de fim de verão em 1983, num Estádio Municipal de Guimarães a arrebentar pelas costuras.

De acordo com as crónicas de então, foi uma vitória que valeu mais pelo impacto - derrotar o então gigante Villa não era para toda a gente - do que propriamente pelo desempenho na partida.
Na verdade, nem Vitória nem Aston Villa exibiram no relvado do hoje denominado Estádio D. Afonso Henriques um futebol encantador, um futebol que justificasse o triunfo. Muito longe disso, na verdade. Disto nos deu conta o jornalista Dias Gomes, na edição de 15 de setembro de 1983 do Jornal de Notícias. E é precisamente esse texto – ou crónica, que teve como título “Laureta encontrou antídoto para toada anestesiante do Villa” - que iremos reproduzir nas próximas linhas.

No seu relato dos acontecimentos, Dias Gomes começa por escrever que «o triunfo da turma de Hermann Stessl diante do Aston Villa foi, medindo todos os prós e contras, merecido, embora, se os ingleses ganhassem, ninguém, estamos certos, se surpreenderia, visto que as melhores oportunidades de golo lhes pertenceram, como aquela logo aos 4 minutos, em que Withe, aproveitando um cruzamento longo do defesa-direito Williams, ficou isolado, “matou” o esférico no peito, e disparou de pronto, correspondendo Silvino com uma defesa maravilhosa para canto. Daí não hesitarmos em escrever que os britânicos também podiam ter ganho, embora o empate fosse o desfecho mais “enquadrado” com o desenrolar do encontro».

Comitiva do Villa na chegada
a Portugal
A concretizar-se este golo logo a abrir tudo poderia ser diferente, poderia ter sido uma alavanca para um duelo mais intenso e animado do que aquilo que na verdade foi...  
«Assim, o jogo sem aquele acicate inicial, caiu numa longa toada lenta, estereotipada e sem grandes situações emocionantes, a conduzir o espetador para a euforia. As pessoas presentes caíram na modorra face ao baixo nível técnico, sobretudo por parte do Aston Villa, uma equipa que já foi, simplesmente, campeã da Europa. O que nos pareceu foi que a equipa de Tony Barton pretendeu narcotizar a equipa do Vitória, com uma velocidade de jogo baixa, sem grandes variações e correrias como é tão característica das turmas da Velha Albion. O Vitória de Guimarães “embarcou” nesse esquema e dificilmente se libertava. Muito diferente, sem dúvida, para pior esta turma vimaranense que tão boas indicações tinha dado nestes primeiros encontros do Nacional, nos quais tinha apresentado um futebol rectilíneo e incisivo, porque alicerçado numa boa condição física. Será que foi uma tarde menos boa, daquelas que acontecem a todas as boas equipas? Depois, o que nos surpreendeu foi a maneira como a massa adepta se comportou. completamente amorfa, silenciosa. Só em lances em que a inviolabilidade da baliza de Spink estivesse em apuros os vitorianos se manifestavam. Julgamos que este comportamento não é só específico dos vitorianos, mas dos portugueses em geral. Que diferença dos estádios ingleses, alemães, belgas, etc…».

Laureta foi decisivo na vitória
histórica do... Vitória
O lance do quase golo britânico aos 4 minutos «abanou os vimaranenses, que constataram de imediato que os ingleses não constituem uma formação qualquer. E daí para a frente, entraram numa manobra mais dinâmica, sobretudo no meio campo, para roubar a iniciativa aos opositores. Nivaldo passou então a ser o catalisador da equipa portuguesa, funcionando como um autêntico pivot. Lá bem na direita principiou a surgir Paquito, a aproveitar o corredor, praticamente sempre livre, para do fundo da linha tirar alguns centros para Eldon e Da Silva bem no coração da área inglesa. E na verdade algumas descidas foram então concretizadas pelos jogadores da Cidade Berço,, surgindo designadamente um lance de perigo, aos 17 minutos, pelo antigo futebolista do Rio Ave. Paquito cruzou mas Da Silva rematou porém um tudo ou nada ao lado da baliza. Este lance fez com que a equipa da Velha Albion refreasse as suas iniciativas. Por outras palavras, os visitantes encararam o Guimarães com mais respeito e entraram a atuar mais encolhidos na tal manobra de retenção da bola, culminada com variadíssimos passes ao guardião Spink, alguns deles de bastante longe».

Nigel Spink: o
lendário guardião do Villa
O Vitória de Guimarães não estava numa tarde sim, «continuando a pautar a sua ação pela falta de agressividade (...) e o tempo ia escoando ao encontro dos desejos dos britânicos, com um compromisso dificílimo depois de amanhã, pois terão de defrontar o Liverpool. Foi uma surpresa, mas negativa, esta equipa do Villa. Que nos lembre, nunca vimos ingleses jogar com tantas cautelas defensivas. … e o Vitória continuou sem soluções para furar o compartimento mais recuado dos ingleses. As jogadas desenrolavam-se genericamente no miolo do retângulo.  Só aos 25 minutos Spink voltou a ser importunado com um pontapé de Paquito. (…) Entretanto, surgiu o apito final e com ele uma certa ansiedade de que o panorama futebolístico mudasse no tempo complementar (…) especialmente esperava-se muito mais dos britânicos. Quem assim pensou enganou-se redondamente, e se o nível anterior tinha sido mediano, salvo alguns (muito poucos), períodos, os 45 minutos restantes foram francamente desanimadores, nada condizentes com um encontro internacional. Para começar, Stessl e Barton não modificaram o “xadrez”.
Tony Barton
A iniciativa continuou a pertencer aos vimaranenses. Infelizmente, nenhuma geradora de situação angustiante para os homens do Aston Villa. Sem visão periférica, partindo da zona axial do terreno sem rapidez e denotando a quilómetros a intenção, os jogadores do Vitória entregavam os trunfos ao adversário que ia deixando correr o marfim. E ironicamente sem fazer pela vida, os ingleses tiveram outra oportunidade flagrante de golo, de novo da responsabilidade de Withe, um avançado com bons predicados e o mais inconformado. Tratou-se de um remate raso, forte, e que bateu à frente de Silvino, que em última instância desviou para canto, talvez traído pela irregularidade daquela zona de ação do guarda-redes, sempre ou quase sempre sem relva. (…) Entretanto, aos 65 minutos houve um lance dúbio na grande área inglesa. Laureta foi derrubado e todo o mundo reclamou penalty mas o árbitro não atendeu os homens de Guimarães. Ele estava em cima do lance (…)».

Mas se não marcou (grande penalidade) à primeira haveria de o fazer à segunda, e novamente com Laureta envolvido no lance que haveria de dar origem ao único golo da partida. «Num envolvimento atacante Laureta, descaído sobre o lado esquerdo e já dentro da área, foi derrubado por trás, numa altura em que tinha boas hipóteses de fazer golo. Perto, o árbitro francês Quiniou, marcou de pronto o castigo máximo. E nasceu ai o Vitória de Guimarães. Os ingleses ainda vieram para a frente. Contudo, era demasiado tarde. Faltavam só oito minutos. (...)».

Em jeito de remate final, o jornalista Dias Gomes escrevia que «do mau que seu viu os vimaranenses foram os menos maus. É claro que é um desfecho escasso. Lá em Birmingham vai ser difícil. Mesmo tremendamente difícil de conservar tão magra vantagem. Todavia, numa noite de sorte tudo é possível».

Pois é, mas não o foi. Cerca de duas semanas depois, o vendaval Villa varreu por completo com o Vitória de Guimarães da Taça UEFA daquela temporada, na sequência de um inquestionável triunfo por 5-0.
Contudo, ninguém tira o mérito à ousadia do pequeno Vitória de Guimarães ter derrubado o gigante Aston Villa numa tarde de final de verão e desta feita escrito um dos capítulos mais brilhantes da história do futebol vitoriano no plano internacional.

Mas para a história fica mesmo o jogo de Guimarães, cuja line-up foi a seguinte:
Árbitro: Joel Quiniou (França)
Vitória: Silvino, Amândio, Joaquim Murça, Alfredo Murça, Laureta, Barrinha (Flávio, 83) Gregório Freixo, Nivaldo, Paquito, Da Silva (Fonseca, 56) e Eldon. Treinador: Hermann Stessel
Aston Villa: Nigel Spink, Gary Williams, Allan Evans, Colin Gibson, Brendan Ormsby, Andy Blair (Mark Walters, 74), Dennis Mortimer, Alan Curbishley, Steve McMahon, Peter Withe e Paul Rideout (Tony Morley, 81). Treinador: Tony Barton
Golo: Gregório Freixo (82, g.p.)

ENTREVISTA COM GREGÓRIO FREIXO

Uma vontade férrea de vencer um jogo que era uma montra para a Europa

Nasceu para o futebol na Cidade dos Estudantes, Coimbra, tendo envergado o manto sagrado da Briosa (Académica), onde se tornou uma pedra basilar ao longo da década de 70.
No início dos anos 80 muda de ares, vai para o berço da nação, Guimarães, para defender as cores do Vitória por sete temporadas. Em 1983/84, mais do que ser um dos indiscutíveis titulares do "xadrez" vitoriano, ele era igualmente o líder da equipa na condição de capitão. Naquela tarde de final de verão de 1983 ele foi tudo isto e muito mais... e esse mais foi o golo que fez a história deste jogo.
O seu nome é Gregório Freixo, o homem que chamou a si a responsabilidade de aos 82 minutos tentar bater o homem que pouco mais de um ano antes havia sido elevado à categoria de herói de Roterdão, após defender tudo o que havia para defender e levar a orelhuda - vulgo a Taça dos Clubes Campeões Europeus - para Birmingham. Perante (o lendário) Nigel Spink, Freixo não tremeu e fez o único golo deste jogo memorável.
O Museu Virtual do Futebol tem o prazer de o receber hoje, convidando-o a recordar os contornos deste épico encontro da quase centenária vida do Vitória.

Gregório Freixo com as cores
do Vitória S.C.
Museu Virtual do Futebol (MVF): Assim que o nome do Aston Villa surgiu no caminho do Vitória, qual foi o pensamento que invadiu o balneário do clube?
Gregório Freixo (GF): O melhor possível, pois preferíamos um grande clube e o Aston Villa veio mesmo a calhar, já que todos nós queríamos entrar nas competições para nos valorizarmos.

MVF: Os jogadores estavam cientes do poderio do Villa, clube que cerca de um ano antes havia vencido a TCE? Conheciam os jogadores, ou naquela altura ao contrário de hoje, em que há mais meios de comunicação, havia pouco informação individual do Villa?
GF: Como diz e bem não havia muita informação, pouco ou nada sabíamos do adversário, só que tinha um avançado muito alto.

MVF: Havia receio ou crença de que poderiam eliminar o gigante inglês?
GF: Todos queríamos ir o mais longe possível, a nossa equipa era muito unida e coletivamente muito forte e tinha uma vontade de ganhar muito grande. Além disso, sentíamos que tínhamos uma grande oportunidade de nos mostrarmos ao mundo do futebol.

MVF: O treinador do Vitória nessa temporada era Hermann Stessel, que recordações tem dele e que vos disse ele antes dessa eliminatória?
GF: A época que estávamos a fazer fala pela capacidade do senhor Stessel. Deixava-nos jogar, deixava-nos mostrar o nosso talento, tirava-nos a responsabilidade do resultado. Só nos disse para aproveitarmos a oportunidade de nos mostrar ao mundo do futebol.

MVF: O jogo começa. O D. Afonso Henriques cheio naquela tarde. Quer falar do jogo...
GF: O campo cheio já estávamos habituados a ter (o Vitória tem a melhor massa adepta que apoia em Portugal). Tudo o resto foi um querer ganhar em conjunto para seguir em frente na competição.

Capitão Gregório parece tirar
satisfações com o árbitro francês Quiniou
MVF: Com o decorrer do jogo sentiram que podiam vergar o ex-campeão da Europa?
GF: O querer (ganhar) era tanto e o que jogámos (naquela tarde) ia tudo nesse sentido. Aliás, o guarda-redes deles foi o melhor jogador em campo, daí se pode perceber o que atacámos. O árbitro também não quis marcar um penalti antes do que marcou, pelo que podíamos ter ganho por 3-0, o que complicaria mais o jogo para eles em Inglaterra.

MVF: As crónicas da época falam de um Villa tímido, que jogou remetido à defesa e de um Vitória que não aproveitou esse facto para partir para cima do adversário...
GF: ... Não, isto não foi o que se passou no jogo!

MVF: Até que chega o momento do penalti, a cerca de 10 minutos do fim. Quer contar como foi chamado à conversão do penalti?
GF: Normal, pois era eu o habitual marcador de penaltis da nossa equipa, e como tal parti confiante para a bola, sabendo que ia marcar. Foi, de facto, um golo que marcou a minha carreira.

MVF: Tremeu na hora de enfrentar um homem que cerca de um ano antes foi o herói do Villa em Roterdão ao segurar a TCE para os ingleses?
GF: Tremer não, mas que assusta ver um guarda-redes muito alto com os braços abertos na baliza, lá isso assustava. Não vês para onde atirar a bola, e só tentei que ele se atirasse antes de eu pontapear, para depois atirar a bola para o lado contrario, que foi, aliás, o que aconteceu.

MVF: Após esta vitória chegaram a pensar que poderia ser possível eliminar o gigante inglês?
GF: Pensar... pensámos, mas sabíamos que o 1-0 era muito curto. E acabou por ser!

MVF: Depois, seguiu-se o descalabro em Birmingham! Como explica essa derrota?
GF: Normal, vindo de uma equipa inexperiente (a nível internacional) como a nossa, e que foi apanhar em Inglaterra um Mundo novo, coisas que não conheciamos. Por exemplo, uma hora antes do jogo estávamos a tirar fotos às instalações do adversário, que tinha um relvado que parecia uma alcatifa e um público a cantar de princípio ao fim. Estávamos deslumbrados!

sexta-feira, julho 05, 2019

Histórias do Futebol em Portugal (29)... A conquista europeia que parece esquecida na Enciclopédia do futebol luso


Associação de Futebol de Braga ergueu em 2011
a única Taça das Regiões da UEFA
do futebol luso

Numa altura em que a nação futebolística (portuguesa) enriqueceu o seu palmarés com um novo título internacional, o mesmo será dizer, a Liga das Nações da UEFA, será porventura oportuno recordar uma outra glória continental cuja memória parece cada vez mais esbatida à medida que o tempo avança. Por outras palavras, uma conquista esquecida ou desconhecida (para muitos) mas que para sempre fará parte da história do futebol nacional no que ao rol de títulos internacionais (quer seja ao nível de clubes, quer seja ao nível de seleções) diz respeito.
Um feito que não vai muito longe na "estrada do tempo", oito anos (que se cumpriram no último mês de junho) para sermos mais precisos. Só por isso seria merecedor de estar bem fresco na memória de todos os adeptos do futebol, mas o pouco mediatismo que é dado à competição faz com que praticamente não passe de uma gloriosa lembrança quase somente para quem viveu de perto as emoções desta vitória internacional.
Sem mais rodeios abrimos hoje as portas do Museu Virtual do Futebol para falar da conquista da Taça das Regiões da UEFA por intermédio da seleção distrital da Associação de Futebol de Braga (AFB) no início do verão de 2011.

Taça das Regiões da UEFA! Mas afinal o que é isto?

O troféu que coroa o campeão
da UEFA Regions Cup
Mas antes de entrarmos propriamente na Máquina do Tempo para recordar a mítica tarde de 28 de junho no Estádio Cidade de Barcelos em que o combinado da AFB derrotou os irlandeses do Leinster & Munster por 2-1 e conquistou pela primeira (e única, até à data) vez o caneco para Portugal, é de bom tom fazer uma breve apresentação da UEFA Regions Cup, ou traduzido para o nosso idioma, a Taça das Regiões da UEFA.
Pensada pelo organismo que tutela o futebol europeu - a UEFA - em finais do século XX, a Taça das Regiões iria ver a luz do dia em 1999, com a realização da primeira edição de um certame cujo intuito é promover o futebol amador do Velho Continente. A competição é destinada às associações regionais de futebol dos países membros da UEFA.

A Regions Cup segue na linha da extinta Taça Amadora da UEFA, disputada por clubes amadores entre 1966 e 1978, e cujo término se ficou a dever - sobretudo - à falta de popularidade entre os adeptos da modalidade. Nos anos 90 a UEFA repensou então a competição, procedendo a algumas alterações, desde logo em relação aos participantes na mesma, que passaram a ser as seleções regionais/distritais de cada país, as quais disputam a prova em diversas fases, sendo que a última delas - a fase final - é sediada numa nação, à semelhança do que acontece com as outras competições de selecionados nacionais organizadas pela UEFA.
Cada país envia à Taça das Regiões o vencedor do seu respetivo campeonato nacional de regiões. A competição é disputada de dois em dois anos, sendo que em junho de 2019 cumpriu-se o vigésimo aniversário da (re)fundação da maior competição internacional do futebol amador a nível europeu.
A seleção da A.F. Braga fez a festa em Barcelos
Voltemos então a 2011, ano em que a UEFA levou a cabo a fase final da 7.ª edição da competição, escolhendo Portugal, mais concretamente a zona do Minho, para encontrar o sucessor da equipa da região de Castilla e León (Espanha) na lista de vencedores (http://bit.do/eYiHb).
Porém, a caminhada para a fase final teve início muito antes, mais concretamente em finais de agosto de 2010, altura em que arrancou a fase de qualificação que iria definir os oito finalistas da UEFA Regions Cup 2011.
O representante de Portugal foi então a seleção distrital da Associação de Futebol de Braga, que com três vitórias noutros tantos jogos realizados garantiu o primeiro lugar no Grupo 2 (que integrava ainda as seleções da EWC Escócia, da Região Centro da Bélgica, e da Região de Ticino/Suíça) da fase intermédia de qualificação, assegurando assim o passaporte para a fase final. Conhecidos os oito finalistas a UEFA atribuiu a Portugal a honra de organizar pela primeira vez a fase final do torneio, ficando definido que a AFB iria jogar em casa, isto é, no verde Minho, nos estádios Cidade de Barcelos, 1.º de Maio (Braga), Municipal de Vila Verde e no Complexo Desportivo de Fão, entre os dias 21 e 28 de junho.

Refira-se a título de curiosidade que o combinado distrital bracarense já havia estado muito perto de conquistar esta Taça das Regiões da UEFA, quando no ano de 2001 foi derrotado na final, realizada em Zlin (República Checa), pela seleção checa da Morávia, no desempate através de grandes penalidades.
Dez anos depois tudo seria diferente para os bracarenses, que nesta fase final foram orientados pelo experiente treinador minhoto Dito.
Seleção bracarense que era formada à base de futebolistas que atuavam (obrigatoriamente como atletas amadores, ou semi-profissionais) em equipas de vários emblemas minhotos, como os Caçadores das Taipas, o Santa Maria, o Amares, o Vilaverdense, entre outros.

A caminhada rumo ao inédito título

Momento do jogo ante os ucranianos
do Yednyst Plysky
Integrada no Grupo A da fase final a turma bracarense teve um trajeto imaculado, isto é, 100 por cento vitorioso, que começou com um triunfo por 3-1 no Estádio 1.º de Maio sobre o checos do Zlin por 3-1, com golos de Hugo Veiga, Diogo Leite e João Silva.
O passo seguinte rumo à desejada final foi dado em Barcelos, altura em que os portugueses derrubaram a muralha ucraniana do Yednyst Plysky. A seleção da AFB ainda apanhou um susto, quando logo aos 10 minutos os homens de leste colocaram-se em vantagem por intermédio de Babor. Contudo, a veia goleadora de José Ferreira (22 minutos) e Daniel Simões (59 minutos) e a inspiração do guarda-redes Simão Barbosa (defendeu uma grande penalidade) operaram a reviravolta no marcador e asseguraram mais um triunfo aos pupilos de Dito.

E seria em Vila Verde que a seleção bracarense iria assegurar matematicamente a passagem à final na sequência de uma nova e concludente vitória por 3-1 sobre a seleção distrital de Wurttemberg (Alemanha), com o destaque individual a ir para José Ferreira, autor de dois golos (37 e 88 minutos), cabendo a Pedro Nobre (no período de compensação da primeira parte) apontar o outro tento luso. E assim estava alcançada a final.
Jogo decisivo onde os bracarense iriam ter pela frente o vencedor do Grupo B, os irlandeses da região de Leinster & Munster, que haviam levado a melhor sobre a concorrência composta pelos combinados distritais de Belgrado (Sérvia), Ankara (Turquia) e Região Sul da Rússia.

Jogo intenso em Barcelos que fica para a História

Os dois vencedores da fase de grupos encontraram-se no Estádio Cidade de Barcelos, ao final da tarde de 28 de junho, tendo disputado um jogo intenso que terminou com o triunfo português por 2-1.
No entanto, a seleção da AFB teve de sofrer para colocar as mãos na taça. Os irlandeses até criaram o primeiro lance digno de registo na partida, quando logo aos três minutos Laurence Dunne enviou uma bola à trave da baliza de Rui Vieira. Após este susto inicial, os portugueses equilibraram um encontro onde o nervosismo (muitos passes errados de parte a parte) imperou na primeira meia hora. A AFB teve a sua primeira oportunidade golo somente ao minuto 33, quando uma bela incursão pelo flanco direito do lateral João Silva só foi travada por uma magnífica defesa do guarda-redes Brendan O'Connell.

O capitão de equipa Daniel Simões em luta
com um irlandês
Este lance animou o combinado luso, que até ao intervalo voltaria a ter uma nova e flagrante oportunidade de golo por intermédio de Luís Ribeiro. Valeram mais uma vez os excelentes reflexos de O'Connell. A segunda parte iniciou-se tal como a primeira, ou seja, com a equipa de Leinster & Munster a levar perigo à baliza bracarense na sequência de um perigoso cabeceamento de
David Lacey, tendo o golo sido evitado graças a uma magnífica intervenção de Rui Vieira. Era agora a vez do guardião luso mostrar os seus atributos.

Entretanto, Dito mexe no seu xadrez, colocando em campo Renato Reis (no lugar de Luís Ribeiro) e eis que à passagem do minuto 62 a (maior) qualidade técnica dos portugueses veio ao de cima com um grande golo de Pedro Nobre. O avançado captou a bola na entrada da área irlandesa, dominou-a com arte e engenho e dali mesmo, de fora de área, encheu o pé (direito) para enviar o esférico direitinho para o fundo das redes de O'Connell, que mais não fez do que assistir impotente ao grande golo bracarense.

Por norma, os irlandeses são um povo que dificilmente atiram a toalha ao chão perante o primeiro obstáculo encontrado e em Barcelos a garra irlandesa veio ao de cima praticamente logo a seguir ao golo português. Uma defesa incompleta de Rui Vieira (a remate de Ray Whelehan) permitiu a David O'Sullivan fazer a recarga vitoriosa e restabelecer assim a igualdade. A partida estava frenética.

Diogo Leite tenta ganhar a bola nas alturas
As equipas aumentaram a intensidade do seu futebol em busca do golo da vitória. E eis que numa altura em que já cheirava a prolongamento (corria o minuto 84) um golpe de sorte (ou não) protagonizado por José Fortunato deu a vitória e o inédito título à seleção de Braga... e ao futebol português.
Fortunato cruzou a bola na direita do seu ataque... diretamente para o fundo da baliza, fazendo o 2-1 final.
A festa, naturalmente, que invadiu o relvado do Estádio Cidade de Barcelos assim que o norueguês Ken Henry Johnson apitou pela última vez naquela tarde de glória do futebol nacional.
Sim, às conquistas internacionais do Benfica, Sporting, FC Porto e das seleções nacionais (até então só ao nível da formação) juntava-se agora esta UEFA Regions Cup.
Nesse jogo que ficará para a eternidade a seleção da Associação de Futebol de Braga alinhou da seguinte forma: Rui Vieira; José Fortunato, Tiago Costa, Daniel Simões e Talocha; Manuel Gonçalves (José Costa, 63), José Ferreira (Diogo Gomes, 73) e Hugo Veiga; Pedro Nobre, Diogo Leite e Luís Ribeiro (Renato Reis, 60).  

Proeza que caiu em esquecimento (?)

E no final a festa foi portuguesa!
A imprensa nacional deu a devida atenção e destaque, naturalmente, a esta conquista. Contudo, volvidos apenas oito anos dessa conquista alguns dos heróis de Barcelos sentem-se indignados com o esquecimento a que foram vetados até pela própria Associação de Futebol de Braga. Pelo menos a julgar pelo comunicado enviado o ano passado ao presidente da referida associação, onde manifestaram a «mágoa, tristeza e desilusão por terem sido esquecidos por alguém que deveria valorizar este feito». Precisamente a AFB.

Provavelmente, hoje, esta conquista não passa despercebida só a AFB, mas a outras altas instâncias do futebol português que ignoram (ou desconhecem?) que Portugal tem no seu palmarés um título internacional ao nível do futebol amador.

Ora, no Museu Virtual do Futebol os grandes feitos futebolísticos (sejam eles de maior ou de menor mediatismo) são evocados e guardados religiosamente nestas vitrinas virtuais. Nesse sentido, aqui fica a nossa homenagem ao heróis de Barcelos naquela tarde de 28 de junho de 2011. O futebol português, aliás, o desporto nacional, deve-vos, por isso, um "muito obrigado".

ENTREVISTA A HUGO VEIGA

«Esta conquista foi um dos melhores momentos
que vivi durante o meu percurso no futebol»

Hugo Veiga
Muitos dos obreiros desta conquista nacional caminham hoje pelos relvados do futebol distrital. Outros, já penduraram de vez as chuteiras sem terem experimentado a sensação de viverem sob os holofotes da fama do futebol profissional. Poucos, muito poucos, conseguiram ultrapassar a fronteira desse sonho, precisamente serem futebolistas profissionais. Aliás, essa é outra das missões (para além de promover o futebol amador, ou semi-profissional) desta competição uefeira, tentar descobrir talentos no futebol amador para encaminhá-los para o patamar profissional. Mas nem todos têm essa sorte. Um dos homens que fez parte do grupo de campeões da Taça das Regiões da UEFA de 2011 acabou a última temporada desportiva a defender as cores do Académico Futebol Clube de Martim, da Divisão de Honra da Associação de Futebol de Braga. Ele, que foi preponderante na caminhada para o título, tendo sido titular absoluto em todos os jogos da fase final e autor do primeiro golo da caminhada triunfal da equipa bracarense.
Com passagens pelos escalões de formação do Sporting Clube de Braga e do Gil Vicente deu início ao seu percurso no escalão sénior no Vieira S.C., onde jogou durante seis épocas, ao que seguiram cinco épocas no Santa Maria F.C, uma época no Brito S.C., duas temporadas nos Caçadores das Taipas, tendo atuado na segunda metade da época passada ao serviço do Martim.
Profissionalmente, é Business Coach na ZOME, num dos HUB’s do Porto, sendo um dos responsáveis pela Gestão, Formação e Acompanhamento dos Consultores Imobiliários da empresa.
Com enorme satisfação, pois não é todos os dias que recebemos um campeão da Europa, passamos a bola - neste caso a palavra - a Hugo Veiga, um dos médios escolhidos por Dito para integrar o grupo da seleção distrital da AFB nessa edição da competição.

Museu Virtual do Futebol (MVF): Que significado teve para si esta vitória na UEFA Regions Cup de 2011?
Hugo Veiga (HV): Para mim esta conquista foi sem dúvida um dos melhores momentos que vivi durante o meu percurso no futebol. Tudo o que envolveu a competição foi absolutamente fantástico, tornando-se ainda mais marcante pela nossa vitória.

MVF: O facto de a vitória ter acontecido em território nacional, ainda por cima na região de Braga, a vossa casa, teve um sabor ainda mais especial...
HV: ... Sem dúvida! O facto de ter sido em Portugal, de jogarmos em casa, permitiu termos perto de nós a nossa família e amigos, assim como algum público também. Sentimos muito o apoio da nossa região, assim como o apoio dos meios de comunicação social locais.

MVF: Olhando para trás, como podemos caracterizar o grupo campeão?
HV: O grupo, para além do talento individual de todos os meus colegas, funcionou sempre de forma perfeita. Quer dentro, quer fora do campo, a harmonia foi uma constante, e o apoio e a amizade entre todos foi fundamental e um dos segredos para o nosso sucesso.
O placard eletrónico do estádio não engana, a taça é bracarense!
MVF: Todos vocês eram jogadores amadores, ou semi-profissionais, que era aliás uma condição para participarem na prova. Mas durante aquela semana em que decorreu a fase final sentiram-se estrelas de futebol (?), digamos assim, com a sensação de participar numa competição internacional, de viver e trabalhar unicamente em volta da prova, de concentração absoluta na prova, à semelhança de uma seleção nacional quando está numa fase final de um Mundial e de um Europeu...
HV: As duas fases da competição (fase de apuramento e fase final) foram vividas por todos nós, staff e jogadores, de uma forma profissional. O empenho e a dedicação foram máximos, e só assim se tornou possível conquistarmos este troféu. Apesar de todos nós sermos amadores e/ou semi-profissionais, conseguimos, durante estes períodos, cumprir com a exigência de todos os momentos que enfrentamos, o que demonstra o empenho e a qualidade de todos.

MVF: O aspeto de terem sido orientados tecnicamente por um treinador profissional, o Dito, ajudou-vos a assimilar conceitos diferentes daqueles que estavam habituados no futebol amador e que terão sido fundamentais para vos guiar à vitória?
HV: Sem dúvida que o Mister Dito, assim como o Mister Salgueiro e todo o staff foram muito importantes para o êxito da nossa seleção. A forma de trabalhar não foi diferente da que estávamos habituados, até porque no futebol amador/semi-profissional há excelentes treinadores, e já havia naquela altura. No entanto, todos eles conseguiram incutir em nós esse espírito e mentalidade que nos permitiu vestir a “pele” de jogadores profissionais.

MVF: A participação no torneio foi também uma experiência para trocar partilhas/conhecimentos com jogadores amadores de outros países...
HV: Sim, claro. Durante o estágio e a competição, pudemos conviver com as outras seleções, perceber como o futebol é vivido em países como a Turquia, a Irlanda, ou Bélgica, por exemplo. Foi, a esse nível, uma experiência muito enriquecedora.

MVF: Tratando-se de uma competição menos mediática, mesmo sendo esta a nível internacional a maior prova de seleções distritais, como vocês sentiram que o país olhou para esta vossa vitória?
HV: Penso que teve o impacto merecido. A nível local, o acompanhamento que tivemos foi praticamente diário. A nível nacional, recordo-me de alguns momentos, principalmente em jornais desportivos, em que a nossa seleção foi alvo de algumas notícias e reportagens.
Hugo Veiga e um jogador irlandês antes da grande final
MVF: No entanto, ainda o ano passado o grupo que conquistou este triunfo inédito para Portugal emitiu um comunicado à AFB dando conta da sua mágoa e tristeza pelo esquecimento a que foram vetados...
HV: Penso que esse episódio (que foi uma iniciativa de alguns dos meus colegas) deveu-se principalmente ao facto de que, apesar de ter sido uma conquista fantástica por parte da nossa seleção, não voltou a ser relembrada pela Associação de Futebol de Braga. É claro que todos nós olhamos para trás com orgulho e até com alguma saudade, e sentimos e sabemos que foi um momento marcante, e que merece ser alvo de destaque ao longo do tempo.

MVF: Este esquecimento, digamos assim, é a prova de que o futebol amador, ou semi-profissional, não tem a atenção que merece no nosso país, que ainda é visto como um conjunto de rapazes que aos domingos se juntam para dar uns toques na bola(?)
HV: Penso que a visão sobre futebol amador ou semi-profissional tem sofrido algumas alterações nos últimos anos. Hoje em dia, as pessoas acompanham mais, até porque tem sido cada vez mais comum treinadores e jogadores deste nível passarem a níveis superiores. A formação que existe nos clubes tem também contribuído para um acréscimo de qualidade de todos os intervenientes, e isso acaba por beneficiar todos. Se seria benéfico existirem melhores condições para todos os praticantes? Sem dúvida que sim.

MVF: O que seria preciso em seu entender para mudar esta mentalidade em relação à forma menos atenta como por vezes se olha para o futebol amador/semi-profissional?
HV: Acredito que, se desde 2011 até agora, a mentalidade e as condições do futebol amador evoluíram, a perspetiva para o futuro é boa. Existe, claramente, uma grande discrepância entre o investimento que é feito em determinados níveis, sendo que a percentagem de praticantes é avassaladoramente superior nestas divisões inferiores. Uma melhor distribuição deste investimento poderia, na minha opinião, resultar num ganho ao nível da qualidade do futebol português. Talvez esta pudesse ser uma estratégia positiva para todos.
MVF: Voltando à conquista de 2011. Tirando o Talocha, que hoje atua como profissional no Boavista, e mais um ou outro atleta, mais nenhum jogador daquele grupo atingiu o patamar do futebol profissional. Você foi um deles. O que faltou para atingir esse patamar?
HV: Tivemos o Talocha, que espero que continue neste patamar por muitos e longos anos, mas também o Pedro, o Rui Vieira ou o Renato Reis, que também atingiram um excelente patamar no futebol. No meu caso, sinto-me muito feliz pelo meu percurso, pois consegui algumas conquistas e acima de tudo, o reconhecimento das pessoas e clubes por onde passei. Se não cheguei a outros patamares, quero acreditar que foi porque não tinha qualidade suficiente para isso, ou simplesmente porque a oportunidade não surgiu.

MVF: No aspeto pessoal, que benefícios retirou para a sua carreira futebolística dessa experiência na UEFA Regions Cup de 2011?
HV: Esta experiência foi uma alavanca em termos da minha maturidade como jogador. As épocas que se seguiram foram as minhas melhores épocas. Conquistar a UEFA Regions Cup foi uma motivação enorme, e trouxe mais confiança e experiência. Penso que consegui, nos anos que se seguiram, transportar tudo isso para os meus balneários e para dentro do campo.

MVF: O grupo de jogadores mantém contacto entre si?
HV: Sim, claro. Alguns de nós já éramos grandes amigos, e todos nos conhecíamos, ou de jogarmos juntos nos clubes, ou de nos defrontarmos. Esta experiência fortaleceu esses laços, sem dúvida.

MVF: Para terminar, fale-nos daquele golo apontado logo no primeiro jogo da fase final contra a equipa checa, que abriu o caminho da glória. Foi o seu melhor momento da fase final, ou guarda outro, ou outros, momento(s) ainda hoje na sua memória (?)
HV: Foi um golo muito importante para a equipa, assim como para mim. Sempre que temos um bom desempenho, a nossa confiança sai reforçada. No geral, fiquei muito satisfeito com a minha prestação, pois senti-me uma peça muito importante na nossa seleção. O momento mais importante foi a conquista do troféu, e acredito que todos os meus colegas partilham da minha opinião. Foi marcante!  

Nota: os créditos das fotografias que ilustram esta viagem ao passado são do sítio www.uefa.com