quarta-feira, março 27, 2013

Grandes Mestres da Táctica (9)... Joreca

Durante largas dezenas de décadas os laços de sangue entre Portugal e Brasil ajudaram a que milhares de jogadores e treinadores cruzassem o Atlântico em busca de uma oportunidade para alcançar o sucesso no mundo do futebol. Uma viagem cuja balança pende mais - muito mais - na ligação Brasil - Portugal, do que o inverso, ou seja, foram mais os brasileiros que vieram tentar a sua sorte no futebol português do que lusitanos em busca do el dorado em Terras de Vera Cruz. E se ao longo da história os portugueses se habituaram a ver atletas de origem brasileira envergar as cores da seleção nacional lusa - Lúcio foi o pinoneiro, nos anos 60, imitado décadas mais tarde por Deco, Pepe, ou Liedson - e treinadores a orientar a equipa das quinas em grandes competições internacionais - Otto Glória foi o mestre que conduziu os Magriços de Eusébio e companhia ao 3º lugar no Campeonato do Mundo de 1966, enquanto que num passado recente o sargentão Scolari foi vice campeão da Europa em 2004, e 4º classificado no Mundial de 2006 - é mais complicado, bem mais, imaginar um português a vestir a mítica camisola canarinha (Casemiro do Amaral foi o único a fazê-lo) ou sequer a sentar-se no banco para orientar o escrete numa qualquer partida de futebol. Impensável, mas não impossível. Como assim? Nesta última função (a de treinador) a resposta está em Joreca, a alcunha de Jorge Gomes de Lima, lisboeta de berço, nascido no longínquo 7 de janeiro de 1904, que como principal cartão de visita tem o facto de ter sido um dos dois únicos estrangeiros a ter o privilégio de treinar a principal seleção do Brasil!

Como já vimos, Jorge Gomes de Lima nasceu em Lisboa no início do século passado, tendo ainda cedo cruzado o Atlântico rumo ao país que haveria de fazer dele um dos melhores treinadores dos anos 40. Precisamente no início da década de 40 Joreca - a alcunha que ganhou pouco depois de assentar arraiais em solo sul-americano - licenciou-se em Educação Física na Universiade de São Paulo, a cidade que o acolheu e que o eternizou no planeta da bola.
Antes mesmo de descobrir a sua vocação como condutor de equipas fez uso da sua extrema habilidade com as palavras, ao tornar-se num apreciado jornalista desportivo, escrevendo crónicas em vários jornais paulistas e espalhando os seus vastos conhecimentos sobre o belo jogo nas frequências da rádio, na qualidade de comentador.
O salto para o terreno de jogo foi dado de forma discreta. Deu as primeiras preleções táticas na seleção paulista de amadores, ao mesmo tempo em que descobria uma outra faceta dentro da modalidade, a de árbitro!
Joreca revelava-se um homem dos 7 ofícios no desporto rei, e foi ele que na qualidade de árbitro dirigiu o jogo de estreia de um tal de... Leônidas da Silva, com a camisola do São Paulo Futebol Clube. Efeméride ocorrida em 1942, precisamente um antes de Joreca assumir o comando técnico do tricolor paulista.
Um casamento que iria durar até 1947, tendo sido pautado por inúmeros momentos de felicidade para ambos os conjugues. No primeiro jogo em que se sentou no banco dos paulistas o portuga Joreca - que  a meio da viagem havia substituido na função o técnico uruguaio Conrado Ross - não brincou em serviço, que o diga a Portuguesa Santista, despachada com uma goleada de 6-1. Joreca entrava com o pé direito. Esse primeiro ano ao serviço de São Paulo seria histórico. Até final da temporada disputou mais 12 partidas, tendo vencido 11 e empatado apenas uma, ante o rival Palmeiras, precisamente o derradeiro encontro do campeonato, o empate que colocaria um ponto final no longo jejum de 12 anos em que o São Paulo esteve arredado dos títulos.
O São Paulo era campeão estadual pela mão de um português, uma conquista marcada pela visão revolucionária daquele homem nascido do lado de lá do imenso Atlântico aliada ao brilho do diamante negro Leônidas da Silva, que assim festejava o seu primeiro título com a camisola tricolor.
O trabalho de Joreca não passou despercebido aos responsáveis da Confederação Brasileira dos Desportos (antecessora da atual Confederação Brasileira de Futebol) que no ano seguinte convidaram o luso a treinar nada mais nada menos do que a seleção brasileira! A tarefa seria dividida com Flávio Costa, que juntamente com o treinador português formou assim uma espécie de comissão técnica para dois jogos amigáveis que o escrete disputou em maio de 1944. Ambos tiveram como adversário o Uruguai, tendo o primeiro encontro sido realizado no Estádio São Januário, no Rio de Janeiro, saldado por um robusto triunfo brasileiro por 6-1. Quatro dias depois repetiu-se a dose, embora com números mais modestos, no Pacaembu, de São Paulo, onde a seleção derrotava os vizinhos charruas por 4-0.
A carreira de Joreca no combinado nacional do Brasil foi curta, pois logo de seguida Flávio Costa segurava o leme da equipa sozinho até 1950, ano em que perdeu o título mundial para o Uruguai em pleno Maracanã!
Após ter-se tornado no PRIMEIRO ESTRANGEIRO A TREINAR A SELEÇÃO BRASILEIRA - facto histórico, muita atenção! - Joreca voltou ao São Paulo, onde conquistaria mais dois títulos de campeão estadual. O primeiro em 1945, e o segundo um ano depois, este de forma invicta (!), algo nunca mais reptido na história do tricolor paulista. Saiu do clube em 1947, com um fabuloso registo de 166 jogos disputados, 109 vitórias conquistadas, 31 empates averbados, e somente 26 desaires, sendo ainda hoje o terceiro treinador na história do São Paulo que mais títulos oficiais venceu.

Joreca deixou a casa que o catapultou para a fama, e que ele que próprio fez regressar à fama, há que sublinhá-lo, mas não deixou o seu amado futebol.
Em janeiro de 1949 espeta um punhal no coração dos acérrimos adeptos do tricolor paulista ao assinar pelo eterno rival Corinthians, emblema que orientou durante 52 partidas, tendo entre outros feitos lançado para a rivalta um dos maiores ídolos da fiel torcida corintiana, Baltazar, o cabecinha de ouro. O sucesso de Joreca no Coringão foi muito curto, já que no final desse ano de 1949 - 5 de dezembro para sermos mais precisos - o português mais brasileiro de sempre - no que ao futebol diz respeito - morria vitimado por um ataque cardíaco.
Além do desporto rei ainda fez uma perninha no boxe, subindo ao ringue em duas ocasiões, e em ambas saiu vitorioso!

Legenda das fotografias:
1- Jorge Gomes de Lima, eternizado como Joreca
2-Como árbitro da Federação Paulista de Futebol
3-A equipa do São Paulo que venceu o campeonato estadual de 1943, onde Leônidas da Silva (é o jogador do meio na fila de baixo) assumiu o papel de estrela
4-O São Paulo campeão estadual de 1946, de forma invicta. Joreca é o primeiro elemento (da direita para a esquerda) da fila de cima
5-Abraçado pelos seus pupilos do tricolor paulista após a conquista de mais uma vitória

sexta-feira, março 22, 2013

Futebol nos Jogos Olímpicos (8)... Helsínquia 1952

Os anos 50 do século passado ficam inevitavelmente marcados pelo nascimento de uma das mais encantadoras equipas de futebol de todos os tempos, a Hungria. Os mágicos magiares, como ficariam eternizados, escreveram diversos poemas futebolísticos de beleza ímpar que marcaram - e continuam a marcar - a história do belo jogo. Nomes como Sandor Kocsis, Zoltam Czibor, Nandor Hidegkuti, Gyula Grosics, ou Ferenc Puskas - todos eles soberbamente orientados pelo mestre da tática Gusztav Sebes - ascenderam ao Olimpo dos Deuses do Futebol, uma ascensão que começou a ser trilhada precisamente em 1952, nos Jogos Olímpicos que nesse ano decorreram em Helsínquia. A bordo da Máquina do Tempo façamos pois uma viagem até à capital finlandesa, para recordar a primeira nota artística da inesquecível Hungria de Puskas e companhia na alta roda do futebol internacional.
O regresso das Olimpíadas à Escandinávia ficou previamente assinalado pelo estabelecimento de um novo recorde, no que ao futebol diz respeito, claro está. 25 seleções nacionais marcaram presença em Helsínquia para participar na corrida ao ouro olímpico, número que fez com que este fosse desde logo o torneio olímpico mais concorrido da história... até então. Entre os combinados presentes destacam-se três novidades nestas andanças olímpicas, as Antilhas Holandesas, a União Soviética e o Brasil. Finalmente os Jogos Olímpicos tinham o prazer de receber os artistas sul-americanos, que em Helsínquia assinalavam o seu regresso a uma grande competição internacional depois do fiasco protagonizado... no Campeonato do Mundo de 1950, no qual em pleno Maracanã perderam o título mundial para os vizinhos do Uruguai!

A maratona de jogos do torneio olímpico de 52 começou no dia 15 de julho, com a fase pré-eliminar. No Helsingen Pallokentta Stadium os vice-campeões olímpicos em título, a Jugoslávia, não tiveram a menor dificuldade em carimbar o passaporte para a eliminatória seguinte, como expressa a goleada de 10-1 (!) imposta à modesta seleção da Índia. Partida onde o jugoslavo Branko Zebec esteve em destaque ao apontar quatro golos, iniciando aqui o avançado dos Balcãs uma caminhada que o haveria de levar até ao título de melhor marcador do certame, com um total de sete remates certeitos. E ao contrário dos jugoslavos a estreante União Soviética sentiu grandes dificuldades para se livrar da incómoda Bulgária, que em Kotka obrigou os soviéticos a horas extras. Com o marcador a indicar um teimoso nulo no final dos 90 minutos surgiu a necessidade de se jogarem mais 30 minutos de prolongamento, período onde estes últimos acabaram por levar a água ao seu moinho com uma suada vitória por 2-1. E em Turku entrava em ação a futura campeã olímpica, a Hungria. Pela frente os pupilos do mestre Gusztav Sebes tinham a Roménia, conjunto que complicou ao máximo a vida aos magiares. Extremamente bem organizados no plano defensivo os romenos anularam o refinado futebol ofensivo magiar, e só um lance de génio de Czibor, aos 21 minutos, conseguiu furar a muralha romena durante a etapa inicial. Já muito perto do fim, aos 73 minutos, Sandor Kocsis sossegou os húngaros com um remate fatal que bateu o guardião Ion Voinescu, de nada valendo o último fôlego da Roménia (golo de Ion Suru aos 86 minutos) pouco antes do apito final do soviético Nikolaj Latychev. Pelo mesmo score (2-1) registou-se o triunfo de um habitual cliente dos Jogos Olímpicos, a Dinamarca, sobre os frágeis gregos, com os tentos nórdicos a serem apontados por Poul Erik Petersen.
E como não há duas sem três 2-1 foi igualmente o resultado do duelo entre a Polónia e a França, o último deste primeiro dia de competição, tendo o tento de honra dos franceses - que até estiveram a vencer por 1-0 - sido apontado pelo histórico avançado do Stade de Reims Michel Leblond.

Estreia do Brasil...

A ronda pré-eliminar teve os seguintes capítulos no dia 16. E começou com uma chuva de golos no Egito - Chile (5-4 a favor dos africanos), enquanto que ao mesmo tempo, na cidade de Turku, o Brasil fazia a sua estreia olímpica, diante da Holanda. Brasileiros que não contavam com as suas principais estrelas da época, casos de Nilton Santos, Djalma Santos, Ademir, ou Zizinho, estes dois últimos os nomes sonantes do escrete canarinho que dois anos antes havia perdido em casa o Campeonato do Mundo para o Uruguai. E não estavam estas super-estrelas do futebol brasileiro de então porque convém - mais uma vez - relembrar que o Comité Olímpico não permitia que atletas profissionais participassem nos Jogos, e como a maior parte destes jogadores dedicava-se já única e exclusivamente ao futebol o Brasil viajou para a Finlândia com uma equipa de amadores... ou pelo menos assim se definiam. Orientado pelo técnico Newton Alves Cardoso - o selecionador principal da altura, Zezé Moreira nem sequer viajou com a comitiva ! - o combinado brasileiro era composto na sua totalidade por atletas oriundos de clubes do Rio de Janeiro (!), sendo o Fluminense o emblema que mais futebolistas cedeu à seleção, quatro para sermos mais precisos. E na estreia os brasileiros até começaram por apanhar um susto, quando à passagem do primeiro quarto de hora Van Roesell abre o marcador para a Holanda. Contudo, a apurada técnica canarinha - refira-se que pela primeira vez o Brasil envergava numa grande competição internacional a mítica camisola canarinha (amarela), cor que substituiu para sempre o azarado branco do Mundial de 50 - veio ao de cima, e 10 minutos volvidos Humberto repunha a igualdade. E os minutos que se seguiram até ao intervalo foram tomados de assalto pela estrela da tarde, Larry. 
Larry Pinto de Faria, de seu nome completo, nascido 20 anos antes (1932) em Nova Friburgo (Rio de Janeiro) teve o seu momento de fama com a mágica camisola canarinha precisamente nestes Jogos Olímpicos. Na primeira parte desse célebre encontro ante os holandeses ele fez dois golos (aos 33 e aos 36 minutos) que ao intervalo colocavam os artistas brasileiros numa boa posição para seguir em frente. Avançado elegante e com uma técnica virtuosa Larry espalhou todo o seu perfume nos relvados finlandeses onde o Brasil atuou. Na época jogava no Fluminense, clube onde se havia iniciado um ano antes destas Olimpíadas, e onde iria permanecer até 1954, altura em que viaja para Porto Alegre para defender as cores do Internacional. No Colorado Larry foi rei, tendo conquistado a exigente torcida do clube logo no primeiro dérbi ante o Grêmio, após marcar quatros dos seis golos com que o Inter derrotou o seu eterno rival. Em Porto Alegre permanceria até ao final da sua carreira (1961), tendo disputado mais de 250 jogos e apontado quase 180 golos (176 para sermos mais exatos). Mais do que um goleador era um jogador requintado, elegante - como já referimos - características que faziam dele um atleta diferente. No Inter de Porto Alegre cerebral Larry - como seria batizado pelos adeptos do clube - formou uma dupla mortífera com Bodinho, uma dupla que rivalizava em popularidade, e sobretudo em produtividade, com a de Pelé e Coutinho, no Santos. O jogador que depois de pendurar as chuteiras tornou-se deputado estadual vestiu por seis ocasiões a camisola do Brasil, três delas nestes Jogos de 1952, tendo apontado quatro golos, curiosamente todos eles em Helsínquia - e arredores -, facto que o tornaria na figura central do Brasil nesta sua primeira aparição olímpica.
Bom, voltando ao encontro de Turku, na segunda parte o escrete dilatou a vantagem construída pelo cerebral Larry. Aos 81 minutos Jansen faz o 4-1, para cinco minutos depois um tal de Vavá selar o resultado em 5-1. Vavá que seis anos mais tarde seria juntamente com Pelé, Garrincha, Zagallo, Djalma Santos, ou Nilton Santos, um dos responsáveis pela conquista do primeiro título mundial para os canarinhos. 
Nesse mesmo dia gritou-se a palavra "escândalo" no seio dos Jogos. A poderosa Grã-Bretanha - formada na sua grande maioria pelos mestres ingleses -era humilhada pela frágil seleção do Luxemburgo por 3-5 (após prolongamento), e saia pela porta pequena do torneio olímpico. Esta era a segunda humilhação que os britânicos sofriam no curto espaço de dois anos no panorama internacional, tendo a primeira ocorrido no Campeonato do Mundo de 1950, quando em Belo Horizonte os amadores dos Estados Unidos da América derrotaram a seleção da Inglaterra por 1-0, jogo esse de que já fizemos eco nas vitrinas virtuais do Museu. E por falar em Estados Unidos da América, quiseram os caprichos do sorteio deste torneio olímpico que os soccer boys defrontassem pela terceira Olimpíada consecutiva a poderosa Itália. E nem mesmo a presença de jogadores como Charlie gloves (luvas) Colombo, John Souza, ou Harry Keough, três dos heróis de Belo Horizonte ante a Inglaterra, intimidou a squadra azzurra - orientada pelo lendário Giuseppe Meazza -, que sem misericórdia voltou a esmagar os norte-americanos tal como havia feito nos Jogos Olímpicos de 1948, desta feita por 8-0. 
Aventura finlandesa durou pouco
Assim sendo Itália, Brasil, Luxemburgo, Hungria, Jugoslávia, União Soviética, Dinamarca, Polónia, e Egito avançavam para a 1ª eliminatória, juntando-se às isentas Finlândia, Noruega, Áustria, República Federal da Alemanha (RFA), Turquia, Antilhas Holandesas, e a campeã olímpica em título, a Suécia. A 1ª eliminatória arrancou a 19 de julho, no majestoso Estádio Olímpico de Helsínquia, onde se desenrolaram a esmagadora maioria das modalidades dos Jogos, com a derrota da seleção da casa, a Finlândia, aos pés de uma Áustria em reconstrução... após o desmembramento do Wunderteam (equipa maravilha) dos anos 30 edificada por Hugo Meisl. Austríacos que só garantiram a passagem aos quartos-de-final a 10 minutos do fim, quando Herbert Grohs fez o 4-3 perante o semblante carregado de 33 000 finlandeses, que viam desta forma a aventura olímpica da sua seleção durar apenas 90 minutos. Em Turku entrava em campo a RFA, liderada pelo mestre Sepp Herberger, o homem que dois anos mais tarde iria guiar os germânicos à conquista do seu primeiro Campeonato do Mundo. Nas Olimpíadas de 52 a RFA entrava com o pé direito, fruto de uma vitória tranquila sobre o Egito por 3-1. Em Tampere, União Soviética e Jugoslávia protagonizaram um jogo que seria um hino ao futebol espetáculo. Com um elevado - e apurado - caudal ofensivo ambos os conjuntos chegaram ao fim do prolongamento empatados a cinco golos (!), facto que obrigou a que dois dias depois fosse realizada uma partida de desempate. No plano individual o jugoslavo Zebec fez mais dois tentos e cimentou assim a liderança na lista dos melhores marcadores da prova. 
No dia 20, em Kotka, o Brasil sentia enormes dificuldades para ultrapassar o modesto Luxemburgo. Modesto ou não, como diriam por aqueles dias os britânicos... Aos 42 minutos, apenas e só, o cerebral Larry - quem mais podia ser - fura a bem escalonada defesa da seleção europeia, quebrando assim a monotonia instalada pela ausência de golos que se verificava. No reatamento - segunda parte - Humberto faz aos 49 minutos o 2-0, mas os luxemburgueses estavam ainda longe de se darem por vencidos. Procuraram intensamente um golo que relançasse o jogo, procura que chegaria no entanto tarde demais (minuto 86), com um golo de Julien Gales, e que não foi mais do que um prémio para coroar a excelente - mais uma - exibição da seleção do pequeno país. No dia seguinte assistiu-se a uma aula de futebol-arte protagonizada pela Hungria. Com uma exibição sublime os mágicos magiares derrotaram por três golos sem resposta a forte Itália - com destaque para o bis (dois golos) de Peter Palotas - que deixou o habitual titular Czibor no banco dos suplentes. O Mundo começava a conhecer a famosa e encantadora Hungria criada por Sebes. Em Turku a Dinamarca afastava a Polónia com uma vitória por 2-0, enquanto que a Turquia sentia grandes dificuldades para derrotar os novatos das Antilhas Holandesas por 2-1. Implacável seria o triunfo dos campeões em título, a Suécia - que se fez representar no torneio sem o seu famoso trio Gre-no-li (Gren, Nordahl, e Liedholm) ante os vizinhos da Noruega, por 4-1. Por fim, no dia 22, e sob arbitragem do conceituado árbitro inglês Arthur Ellis, a Jugoslávia derrotava por 3-1 a União Soviética no único jogo de desempate desta 1ª eliminatória. 
Veia goleadora de Puskas dá-se a conhecer ao Mundo
No dia seguinte (23 de julho) arrancaram os quartos-de-final. No Helsingen Pallokentta Stadium a Suécia sobe mais um degrau rumo à defesa do título, após vencer por 3-1 o combinado da Áustria, que até esteve a vencer por 1-0 até... 10 minutos do fim! No dia 24, no mesmo estádio, o Brasil despedia-se dos Jogos. O escrete até começou melhor, com Larry - sempre ele - a abrir o marcador aos 14 minutos. Já na segunda parte, aos 74 minutos, o defesa Zózimo - que mais tarde haveria de se sagrar bi-campeão do Mundo (em 58 e 62) - ampliou a vantagem, e pouca gente duvidaria que a aventura olímpica do Brasil não teria um novo capítulo nas meias-finais. Porém, a garra e força dos alemães veio ao de cima nos instantes finais, e um minuto depois do golo de Zózimo, Schroeder reduz para 1-2. Os brasileiros eram agora encostados à parede face à avalanche ofensiva dos germânicos. Postura que seria premiada a um minuto dos 90, quando Klug fez o empate a dois que obrigou a que se jogassem mais 30 minutos de futebol. Ai a RFA mandou, e com mais dois golos mandou os artistas brasileiros mais cedo para casa. A força tinha vencido o futebol arte. 
Em Kotka houve um autêntico vendaval. Um Vendaval de golos e de bom futebol, da responsabilidade da mágica Hungria. 7-1, o resultado com que os húngaros batiam os turcos, com realce para dois golos de Ferenc Puskas, a grande estrela magiar. Com a ajuda do goleador Zebec - mais um golo - a Jugoslávia derrotava por 5-3 a Dinamarca e continuava assim na caça ao ouro. 
Mais um recital de explêndido futebol orquestrado pelos mágicos magiares
30 000 pessoas acorreram ao Estádio Olímpico de Helsínquia para ver jogar aqueles húngaros que encantavam o planeta da bola. E em boa hora o fizeram, porque no encontro que abriu as meias-finais do evento assistiram a mais um belo recital de futebol orquestrado pelos artistas Puskas, Palotas, Czibor, ou Kocsis. 6-0, números mais do que expressivos do domínio húngaro sobre os suecos, que assim diziam adeus à possibilidade de revalidar o ceptro. Menos público (cerca de 25 000 pessoas) assistiu no dia seguinte ao triunfo da Jugoslávia sobre a RFA, com destaque para a exibição individual de Rajko Mitic, autor de dois dos três golos da sua seleção, que assim pela segunda Olimpíada consecutiva ia lutar pela medalha de ouro. 
Antes disso, a 1 de agosto, disputou-se no Estádio Olímpico da capital da Finlândia a discussão pela medalha de bronze, tendo a Suécia ficado então com o lugar mais baixo do pódio, depois de bater a RFA por 2-0, com golos de Rydell (aos 11 minutos), e Lofgren (à passagem do minuto 86).
Futebol-arte dos húngaros pintado de ouro
E no dia 2 de agosto perto de 60 000 pessoas lotaram o Estádio Olímpico para assistir à grande final. Favoritos à conquista do ouro? Talvez a Hungria, que pelo que tinha demonstrado até ali partia uns metros à frente do seu adversário. Mas este já havia mostrado momentos de grande futebol também, com exibições de gala (que o digam União Soviética e RFA)... além de que era detentor do melhor ataque da prova. Estavam assim lançados os dados para o que se esperava ser uma grande partida de futebol. Com duas boas equipas em campo o equilíbrio foi nota dominante do princípio ao fim, e mesmo com inúmeras oportunidades de golo de parte a parte o marcador permaneceu em branco durante os primeiros 45 minutos. Na etapa complementar o ritmo de jogo manteve-se, as oportunidades continuavam a surgir, mas os temíveis avançados dos dois lados da barricada teimavam em não abrir fogo. Até que aos 70 minutos surgiu - finalmente - em campo o génio de Ferenc Puskas. Dominando com arte a bola na entrada da área balcã, tirou dois adversários do caminho para posteriomente fuzilar o guarda-redes Vladimir Beara e abrir assim o marcador. O golo empolgou Puskas, que continuou a deslumbrar no relvado do Olímpico de Helsínquia, tendo a dois minutos do final efetuado um cruzamento fatal para a área contrária, onde apareceu Zoltan Czibor que aproveitando o desnorte defensivo dos jugoslavos rematou para o fundo das redes, selando assim o resultado final em 2-0, o qual coroava a Hungria como a nova campeã olímpica. O futebol-arte dos húngaros não acabaria aqui. Um ano mais tarde (1953) humilharam a poderosa Inglaterra em pleno Estádio de Wembley por 6-3, e em 1954 só não foram campeões do Mundo porque... a sorte nada quis com eles. 
A figura: Ferenc Puskas
Foi, sem margem para dúvidas, um dos maiores futebolistas da história do futebol. Ele foi o líder - dentro de campo - daquela mágica seleção da Hungria que encantou o Mundo na década de 50. A mesma Hungria que esteve quatro anos (entre 1950 e 1954) sem conhecer uma única derrota (!). Ferenc Puskas foi o maior símbolo futebolístico daquele país do leste europeu, um símbolo eterno, um símbolo que representa na perfeição uma das melhores equipas de futebol de todos os tempos. Nasceu em Budapeste, a 2 de abril de 1927, a iniciou a sua brilhante carreira com apenas 16 anos, em 1943, no Kispest. Em 1949 transfere-se para o gigante Honved, clube ao serviço do qual vence quatro campeonatos do seu país. Detentor de uma técnica magistral, aliada a um apurado instinto pelo golo, Puskas brilharia então ao serviço da seleção do seu país, cuja camisola envergou em 85 ocasiões, tendo marcado uma soma impressionante de 84 golos. Em termos coletivos a medalha de ouro em Helsínquia foi o momento mais cintilante da sua carreira ao serviço do seu país natal, tendo a maior deceção ocorrido dois anos mais tarde, no Campeonato do Mundo realizado na Suíça, onde a sorte nada quis com a super favorita Hungria, a melhor equipa daquela época, e a grande favorita à conquista do Mundo. Mesmo não vencendo o título coletivo Puskas foi eleito o melhor jogador desse Mundial, e por aquela altura não havia nenhum clube do planeta que não sonhasse tê-lo no seu plantel. O Major Galopante - alcunha surgida pelo facto de Puskas ter sido oficial do exêrcito húngaro - aproveitou nos finais dos anos 50 uma viagem do Honved a Espanha - para disputar um jogo da Taça dos Campeões Europeus (TCE) ante o Athletic Bilbao - para se libertar do bloco comunista que tomava conta do leste da Europa, e que impedia que talentosos jogadores como ele pudessem trabalhar ao serviço dos grandes clubes do Ocidente. Nessa viagem Puskas, e outros companheiros seus, como Kocsis, ou Czibor, refugiaram-se, digamos assim, em Espanha, recusando regressar ao seu país natal, e depois de muitas lutas burucráticas viram os seus certificados internacionais liberados pelas altas instâncias do futebol, tornando-se deste modo jogadores livres. Conhecedor do seu potencial o colosso Real Madrid não perdeu tempo a contratar o Major Galopante, corria o ano de 1958. Na capital espanhola Puskas juntou-se a outra lenda dos relvados, Di Stéfano, e juntos tornaram o Real Madrid ainda mais forte do que aquilo que já era. Com a camiseta blanca venceu duas TCE, e cinco campeonatos de Espanha. Ainda se naturalizou espanhol, tendo realizado quatro encontros com a roja. Depois de abandonar a carreira de futebolista foi treinador, tendo orientado um alargado leque de equipas de países como a Espanha, Paraguai, Grécia, Chile, Austrália, ou Estados Unidos da América. Viria a falecer a 17 de novembro de 2006, com 79 anos, e desde então a FIFA atribuiu o seu nome ao prémio que coroa o marcador do golo mais bonito de cada ano.
Resultados:
Pré-eliminatória
Jugoslávia - Índia: 10-1
(Zebec, aos 17m, aos 23m, aos 60m, aos 87m, Mitic, aos 14m, aos 43m, Vukas, aos 2m, aos 62m, Ognjanov, aos 52m, aos 67m)
(Khan, aos 89m)
União Soviética - Bulgária: 2-1
(Bobrov, aos 100m, Trofimov, aos 104m
(Kolev, aos 95m)
Roménia - Hungria: 1-2
(Suru, aos 86m)
(Czibor, aos 21m, Kocsis, aos 73m)
Dinamarca - Grécia: 2-1
(Petersen, aos 36m, aos 37m)
(Emmanouilides, aos 85m)
Polónia - França: 2-1
(Trampisz, aos 31m, Krasowka, aos 49m)
(Leblond, aos 30m)
Egito - Chile: 5-4
(Eldizwi, aos 66m, aos 75m, aos 80m, Elmeckawi, aos 43m, Elfar, aos 27m)
(Jara, aos 7m, aos 78m, Vial, aos 14m, aos 88m)
Holanda - Brasil: 1-5
(Van Roesell, aos 15m)
(Larry, aos 33m, aos 36m, Humberto, aos 25m, Jansen, aos 81m, Vavá, aos 86m)
Itália - Estados Unidos da América: 8-0
(Gimona, aos 3m, aos 51m, aos 75m, Pandolfini, aos 16m, aos 62m, Venturi, aos 27m, Fontanesi, aos 52m, Mariani, aos 87m)
Luxemburgo - Grã-Bretanha: 5-3
(Roller, aos 60m, aos 95m, aos 97m, Gales, aos 102m Letsch, aos 91m)
(Robb, aos 12m, Slater, aos 101, Lewis, aos 118m)
1ª eliminatória
Finlândia - Áustria: 3-4
(Stolpe, aos 11m, aos 34m, Rytkonen, aos 36m)
(Gollnhuber, aos 8m, aos 30m, Stumpf, aos 59m, Grohs, aos 79m)
RFA - Egito: 3-1
(Schroeder, aos 38m, aos 61m, Klug, aos 33m)
(Eldizwi, aos 64m)
Jugoslávia - União Soviética: 5-5 / 3-1 (desempate)*
(Zebec, aos 44m, aos 59m, Mitic, aos 29m, Bobek, aos 46m, Ognjanov, aos 33m)
(Bobrov, aos 53m, aos 77m, aos 87m, Petrov, aos 89m, Trofimov, aos 75m)

*(Mitic, aos 19m, Bobek, aos 29m, Cajkovski, aos 54m)
(Bobrov, aos 6m)
Brasil - Luxemburgo: 2-1
(Larry, aos 42m, Humberto, aos 49m)
(Gales, aos 86m)
Suécia - Noruega: 4-1
(Brodd, aos 23m, aos 35m, Rydell, aos 81m, Bengtsson, aos 89m)
(Sorensen, aos 83m)
Hungria - Itália: 3-0
(Palotas, aos 11m, aos 20m, Kocsis, aos 83m)
Dinamarca - Polónia: 2-0
(Seebach, aos 17m, Nielsen, aos 69m)
Turquia - Antilhas Holandesas: 2-1
(Tokac, aos 9m, Bilge, aos 76m)
(Briezen, aos 79m)
Quartos-de-final
Suécia - Áustria: 3-1
(Sandberg, aos 80m, Brodd, aos 85m, Rydell, aos 87m)
(Grohs, aos 40m)
RFA - Brasil: 4-2
(Schroeder, aos 75m, aos 96m, Klug, aos 89m, Zeitler, aos 120m)
(Larry, aos 12m, Zózimo, aos 74m)
Hungria - Turquia: 7-1
(Puskas, aos 54m, aos 72m, Kocsis, aos 32m, aos 90m, Palotas, aos 18m, Lantos, aos 48m, Bozsik, aos 70m)
(Guder, aos 57m)
Jugoslávia - Dinamarca: 5-3
(Cajkovski, aos 19m, Ognjanov, aos 35m, Vukas, aos 41m, Bobek, aos 78m, Zebec, aos 81m)
(Lundberg, aos 63m, Seebach, aos 85m, Hansen, aos 87m)
Meias-finais
Hungria - Suécia: 6-0
(Kocsis, aos 65m, aos 69m, Puskas, ao 1m, Palotas, aos 16m, Hidegkuti, aos 67m, Lindh (p.b.), aos 36m)
Jugoslávia - RFA: 3-1
(Mitic, aos 3m, aos 24m, Cajkovski, aos 30m)
(Stollenwerk, aos 12m)
Jogo de atribuição da medalha de bronze
Suécia - RFA: 2-0
(Rydell, aos 11m, Lofgren, aos 86m)
Final
Hungria - Jugoslávia: 2-0
Data: 2 de agosto de 1952
Estádio: Olímpico de Helsínquia (Finlândia)
Árbitro: Arthur Ellis (Inglaterra)
Hungria: Gyula Grosics; Jeno Buzansky e Gyula Lorant; Jozsef Boszik, Mihaly Lantos e Jozsef Zakarias; Nandor Hidegkuti, Sandor Kocsis, Peter Palotas, Ferenc Puskas e Zoltan Czibor. Treinador: Gusztav Sebes. 
Jugoslávia: Vladimir Beara; Branko Stankovic e Tomislav Crnkovic; Zlatko Cajkovski, Ivan Horvat e Vujadin Boskov; Tihomir Ognjanov, Rajko Mitic, Bernard Vukas, Stjepan Bobek e Branko Zebec. Treinador: Milorad Arsenijevic.
 Golos: 1-0 (Puskas, aos 70m), 2-0 (Czibor, aos 88m)

Vídeo: HUNGRIA - JUGOSLÁVIA
video

Legenda das fotografias:
1-Cartaz oficial dos Jogos Olímpicos de 1952
2- Branko Zebec, o melhor marcador do torneio olímpico, com sete golos
3- Lance do Brasil - Holanda
4-Larry, a grande figura da seleção brasileira em Helsínquia
5-Capitães dos Estados Unidos da América e da Itália trocam galhardetes antes do pontapé de saída
6-Imagem aérea do Estádio Olímpico de Helsínquia
7-A seleção do Brasil que fez a estreia em Jogos Olímpicos
8-Lance do RFA-Brasil
9-O lendário treinador húngaro Gusztav Sebes
10-Remate de Puskas na final
11-Ferenc Puskas, a figura do torneio olímpico de 1952
12-Mais um remate do Major Galopante na grande final
13-A mágica seleção da Hungria, faz a festa final

quarta-feira, março 20, 2013

Lista de Campeões... Liga dos Campeões da América do Norte

Nasceu no início da década de 60, mais concretamente em 1962, e de lá para cá tem coroado o campeão da América do Norte e Centro. Falamos da Taça dos Campeões da CONCACAF (Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe), desde 2008 denominada de Liga dos Campeões, e que se assume como a terceira maior competição futebolística de clubes do continente americano, logo atrás da Copa Libertadores, e da Copa Sul-Americana, ambas disputadas pelos países do sul do continente que estão sob a alçada da CONMEBOL. 
Ao longo da história a Champions League da CONCACAF (cujo troféu podemos ver na imagem de cima) tem sido amplamente dominada pelos clubes mexicanos, como demonstram os 31 títulos conquistados, sendo o emblema mais vitorioso o Club América, com sete ceptros nas suas vitrinas. Aqui ficam pois os campeões da prova rainha da CONCACAF, "clubisticamente" falando, pois claro...

2017: Pachuca
2016: Club América (México)
2015: Club América (México)
2014: Cruz Azul (México)
2013: Monterrey (México)
2012: Monterrey (México)
2011: Monterrey (México)
 2010: Pachuca (México)
2009: Atlante (México)
2008: Pachuca (México)
2007: Pachuca (México)
 2006: Club América (México)
2005: Deportivo Saprissa (Costa Rica)

2004: Alajuelense (Costa Rica)

2003: Deportivo Toluca (México)

2002: Pachuca (México)

2001: Não se disputou
2000: Los Angeles Galaxy (Estados Unidos da América)
1999: Necaxa (México)
1998: DC United (Estados Unidos da América)

1997: Cruz Azul (México)

1996: Cruz Azul (México)

1995: Deportivo Saprissa (Costa Rica)
1994: Cartaginés (Costa Rica)

1993: Deportivo Saprissa (Costa Rica)

1992: Club América (México)

1991: Puebla (México)
1990: Club América (México)
1989: UNAM Pumas (México)

1988: Olimpia (Honduras)
1987: Club América (México)

1986: Alajuelense (Costa Rica)
1985: Defence Force (Trinidad & Tobago)

1984: Violette (Haiti)

1983: Atlante (México)

1982: UNAM Pumas (México)

1981: Transvaal (Suriname)
1980: UNAM Pumas (México)

1979: F.A.S. (El Salvador)

1978: Universidad Guadalajara (México) / Comunicaciones (Guatemala) / Defence Force (Trinidad & Tobago)
1977: Club América (México)

1976: Águila (El Salvador)

1975: Atlético Español (México)

1974: Deportivo Municipal (Guatemala)

1973: Transvaal (Suriname)

1972: Olimpia (El Salvador)

1971: Cruz Azul (México)

1970: Cruz Azul (México)
1969: Cruz Azul (México)
1968: Deportivo Toluca (México)
1967: Alianza (El Salvador)

De 1964 a 1966 não se disputou

1963: Racing Club Haitienne (Haiti)
1962: Chivas Guadalajara


Grandes lendas do futebol mundial (12)... José Torres - O Bom Gigante

Há no seio do futebol a ideia generalizada de que os jogadores de elevada estampa física dificilmente alcançam o estatuto de magos do belo jogo. Uns centímetros a mais do que é normal na altura média de um futebolista é para muitos sinal evidente de azelhice! Piropos desagradáveis como: «este é bom é para apanhar uvas», ou «vai mas é jogar basquetebol», são escutados sistematicamente nos estádios de futebol sempre que um rapaz de estatura acima da média surge com uma bola nos pés. 
Este é porém um julgamento precipitado, já que nem só de toscos e matacões reza a história do futebol quando falamos de atletas calmeirões. Muitos há que se tornaram intransponíveis defesas, habilidosos médios condutores de jogo, ou mortíferos avançados. E é precisamente nesta última categoria que se insere a lenda que hoje vamos recordar, um homem cujo nome repousa para sempre no panteão dos heróis do futebol português. José Torres, o Bom Gigante, como ficou eternizado, marcou uma era do belo jogo em terras lusitanas. Fez parte de uma geração mágica e inesquecível comandada pelo Pantera Negra Eusébio, secundado por outras lendas como Mário Coluna, António Simões, José Augusto, José Águas, Jaime Graça, Vicente Lucas, ou Hilário da Conceição.

Torres, o Bom Gigante do futebol luso, foi um homem de extremos, no que ao mundo encantado do futebol diz respeito, como no desenrolar desta visita virtual iremos perceber. 

Nasceu a 8 de setembro de 1938 na localidade de Torres Novas, e como tantas outras crianças deu os primeiros pontapés na bola na rua, sonhando seguir as pisadas das estrelas da época, ou de épocas passadas, já que no seu caso o tio, Carlos Torres, havia vestido durante quatro temporadas a camisola de um dos principais emblemas lusitanos, o Benfica. Longe estaria – certamente – de imaginar naqueles primeiros tempos o jovem José Augusto da Costa Séneca Torres que anos mais tarde também ele iria triunfar com a pomposa camisola encarnada das águias. 

Das animadas peladas de rua até ao clube da sua terra natal o caminho foi curto. Os responsáveis pelo Desportivo de Torres Novas não se deixaram impressionar pela figura enfezada de José Torres. As suas longas pernas de alicate, como era por vezes chamado na infância, não eclipsaram a imagem de um atleta com um apurado olfato pelo golo aliado a um poderoso domínio do jogo aéreo. Com 18 anos aquele rapazinho magro e alto, alto de mais para parecer um jogador de futebol (media 1,91m), entra na equipa principal do Torres Novas, onde começa a dar duplamente nas vistas, isto é, pela sua elevada estatura, mas também, e sobretudo, pelo seu letal instinto de predador. No clube da terra que o viu nascer Torres ficou três temporadas – de 1956/57 a 1958/59 – até à altura em que o sonho virou realidade.


Sonho chamado Benfica


Os ecos do seu estilo inconfundível de interpretar o belo jogo haviam chegado aos quatro cantos de Portugal, tendo o poderoso Benfica lançado o canto da sereia àquele predador da área. José Torres cumpria assim um sonho, e com apenas 20 anos de idade viajava para Lisboa para representar o grande Benfica. Porém, a afirmação no emblema da capital tardou em chegar. O jovem José teve de percorrer um longo caminho até cimentar a sua condição de titular indiscutível do clube da Luz. O responsável por esta tardia afirmação? José Águas, um dos melhores avançados-centro de todos os tempos do futebol português, e a grande referência do ataque dos encarnados na altura (1959) em que Torres chega a Lisboa. Tapado pelo melhor homem-golo português daquele tempo, e a grande estrela do Benfica antes da chegada de Eusébio ao clube no início da década de 60, José Torres penou três longas épocas na equipa das reservas benfiquistas, falhando assim a presença nos momentos de glória que o clube viveria no plano internacional nos primeiros dois anos da citada década de 60. 
 

Liderados precisamente por José Águas – que além de estrela-mor da companhia era também o respeitado capitão de equipa – o Benfica derrotava em 1961 (por 3-2) o Barcelona na final da então denominada Taça dos Clubes Campeões Europeus, colocando desta forma um ponto final no reinado de cinco anos consecutivos do gigante espanhol Real Madrid no trono do futebol continental. Já com o jovem Eusébio na equipa os encarnados repetiram a façanha no ano seguinte, precisamente ante os madrilenos, que em Amesterdão sucumbiram aos ataques letais Pantera Negra. José Torres viveu por fora os êxitos do seu clube, isto porque na altura não eram permitidas substituições, e como Águas era titular indiscutível no centro do ataque o rapaz de Torres Novas não fez um único jogo na dupla caminhada vitóriosa das águias na prova rainha da UEFA. Facto que o Bom Gigante sempre lamentou... «Durante a minha carreira de jogador tive momentos em que o azar me bateu à porta mais do que devia. Por exemplo, na final da Taça dos Campeões Europeus, contra o Real Madrid, quando o Benfica conquistou o segundo título europeu. Só não joguei e não me sagrei, de facto, campeão da Europa porque os regulamentos ainda impediam, estupidamente, que se fizessem substituições. O Cavém lesionou-se, eu era o único avançado no banco, o Benfica continuou a jogar com 10 só porque... substituir era proibido! Entretanto Guttmann foi-se embora, deixou aquela terrível maldição (nota: disse que sem si o Benfica nem dali a 100 anos seria novamente campeão europeu), disputei as três outras finais europeias da década de 60, só que perdemos sempre e eu acabei por não conseguir sagrar-me campeão europeu. Sinceramente, é o único título que me falta...», desabafou vezes sem conta José Torres. 


Mas não há azar que sempre dure, e ainda antes da saída do goleador e velhor capitão do clube da Luz (no final da temporada de 1963/64) as portas da titularidade abrem-se finalmente para Torres. A conquista - em difinitivo - da mágica camisola número 9 aconteceu na pré-temporada, mais concretamente no famoso torneio internacional Ramón Carranza, que anulamente reunia na cidade espanhola de Cádiz algumas das melhores equipas do planeta. Na meia-final da edição de 63 o Benfica afastou o poderoso Barcelona, conquistando assim o passaporte para a grande final onde o esperava a Fiorentina. A 30 minutos do términos do jogo decisivo o marcador indicava uma teimosa igualdade a três golos. O treinador benfiquista de então, Lajos Czeizler, aposta em José Torres (nota: ao contrário das competições oficiais nos torneios amigáveis, ou neste caso de preparação, as substituições eram permitidas), e o resto é história. Quatro golos em meia hora assinados pelo gigante de Torres Novas deram não só o título ao Benfica como sobretudo fizeram calar de vez as vozes que - ainda - duvidavam da qualidade do jogador. Até então, e em três épocas de águia ao peito, José Torres não havia feito mais do que seis jogos oficiais (!), o suficiente no entanto para se sagrar campeão nacional nas épocas de 59/60 e 60/61

Mas em 62/63 a vida mudou para o Bom Gigante. José Águas dava sinais de veterania, e a exibição sublime em Cádiz fizeram de Torres titular absoluto do Benfica nas... 9 épocas seguintes! E logo na temporada de estreia como titular a estrela do Bom Gigante brilhou a grande altura. Ao lado de lendas como Eusébio, Coluna, Costa Pereira, Simões, José Augusto, ou Germano, participou em 21 jogos na caminhada triunfal que coroou o Benfica como vencedor do Campeonato Nacional da 1ª Divisão, contribuindo para este final glorioso com 26 golos (!), número que lhe permitiu vencer o galardão individual mais importante do futebol português, a Bola de Prata, prémio atribuido ao melhor marcador do campeonato do principal escalão lusitano. 
62/63 só não foi uma temporada memorável a todos os níveis para o Benfica - e para o Bom Gigante, claro está - porque na final da Taça dos Campeões Europeus os italianos do Milan impediram os lisboetas de arrecadarem o terceiro troféu continental consecutivo, muito por culpa de um diabo à solta na relva sagrada de Wembley (estádio onde foi realizada essa final de 63), de nome Altafini, autor dos dois golos que carimbaram o título para os milanistas. Este seria o primeiro de muitos desgostos europeus para José Torres, ele que precisamente em 1962/63 fizera a estreia com a camisola do Benfica nas competições europeias, facto ocorrido a 31 de outubro de 1962, em Norrkoping, na Suécia. O Benfica e o Bom Gigante puderam até perder o ceptro europeu, mas para os prestigiados jornais desportivos L'Équipe e France Football José Torres era a nova vedeta do futebol português!

Conquistada a titularidade, e o carinho dos fervorosos adeptos benfiquistas, Torres faria dali em diante uma dupla mortífera com aquele que era já o nome mais sonante do grande Benfica dos anos 60, Eusébio da Silva Ferreira. Os dois assinaram centenas de golos que ajudaram o clube da Luz a enriquecer as suas vistosas vitrinas com títulos, muitos títulos. Em 1963/64 Torres vence a sua primeira dobradinha, isto é, o campeonato nacional e a Taça de Portugal, último troféu este conquistado na sala de visitas do futebol português, o Estádio Nacional, à custa do FC Porto, que seria cilindrado por Coluna, Eusébio, José Augusto, Simões, Cavém, e companhia por 6-2 (!), com o Bom Gigante a fazer o último golo dessa tarde de glória. Uma no meio de tantas outras que viveu com a camisola encarnada agarrada à pele. 
Esse ano de 1964 fica ainda marcado pelo primeiro golo europeu de José Torres, alcançado a 16 de setembro, no Luxemburgo, ante o Aris.
Em 64/65 volta de novo a ajudar o seu clube a revalidar o título de campeão nacional, ao mesmo tempo em que o azar lhe bate de novo à porta. No final dessa temporada o Benfica chega de novo à final da prova rainha da UEFA, desta feita ante o Inter de Milão... em San Siro! A jogar em casa (!) o Inter - campeão da Europa em título - derrotou (por 1-0) os portugueses com a ajuda do guarda-redes benfiquista Costa Pereira, que num lance de infortúnio deixou passar a bola por baixo das pernas após um remate cruzado do brasileiro Jair. Há noites assim...

Como não há duas sem três José Torres voltou a derramar lágrimas na sequência de mais uma derrota no jogo final da afamada e desejada Taça dos Campeões Europeus. 1968 seria o ano do novo falhanço encarnado, desta feita em Londres, na catedral do futebol global, o Estádio de Wembley, que viu o Manchester United de Bobby Charlton, Dennis Law, e George Best golear os portugueses por 4-1! 
Os títulos alcançados pelo Bom Gigante de águia ao peito restringiram-se por isso às competição nacionais, onde ai arrecadou 9 campeonatos nacionais (!), juntando aos de 60, 61, 63, 64, e 65, os de 67, 68, 69, e 71, precisamente o seu derradeiro capítulo de glória com a camisola do Benfica, já que depois disso rumaria para outras paragens... Aos referidos campeonatos nacionais juntam-se ainda as vitórias na Taça de Portugal de 69, e 70. 
José Torres e o Benfica mantiveram um casamento de 12 anos, um matrimónio com altos e baixos, como qualquer outro matrimónio. Em 171 jogos de águia ao peito o rapaz de Torres Novas apontou 150 golos (!), registo que fizeram dele não só um símbolo eterno do clube como indiscutivelmente um dos avançados mais célebres do futebol português. Mas a história do Bom Gigante não acabaria em 31 de julho de 1971, dia em que frente ao Arsenal de Londres faz o seu último jogo pelos lisboetas. 

Velhos são os trapos

O Vitória de Setúbal era por aqueles dias dos finais da década de 60 e princípios dos anos 70 um verdadeiro viveiro de talentosos jogadores. No Bonfim (casa do popular clube sadino) havia diamantes por lapidar! Um desses diamantes dava pelo nome de Vítor Baptista, jogador por quem o Benfica suspirava. As investidas encarnadas ao jovem jogador só tiveram êxito quando no negócio da sua transferência foram incluídos os nomes de Matine, Praia, e Torres, um trio de atletas exigido pelo homem que liderava os destinos do Vitória sadino na época, um tal de José Maria Pedroto. Negócio feito e José Torres viveria aquela que poderia ser chamada de segunda primavera... Aos 33 anos mostrou que velhos eram os trapos e que ainda podia dar muito ao futebol. E deu. Rapidamente se tornou na estrela do conjunto sadino liderado pelo mestre Pedroto, ajudando o seu novo clube a tornar-se numa máquina futebolística de elevada potência qualitativa. Ao Vitória de Pedroto e Torres só faltaram os títulos - que até estiveram muito perto de atracar no (rio) Sado em diversas ocasiões. Com os sadinos José Torres ainda realizou mais de uma centena de jogos, 120 para sermos mais precisos, tendo apontado um total de 59 golos nas quatro épocas em que defendeu a camisola verde e branca! Afinal, quem era o velho? 

E no Bonfim José Torres descobriu uma nova vocação dentro do futebol, a de treinador. Descoberta que teve o dedo de Pedroto - um dos grandes mestres (da tática) do futebol lusitano - que viu no Bom Gigante um promissor seguidor das suas ideias. «Foi com Pedroto que tirei o meu autêntico curso de treinador, durante as duas épocas em que o tive como meu treinador no Vitória de Setúbal. Ele já falava comigo de treinador para treinador, durante os estágios, e nas viagens longas aproveitava o tempo para aprender com ele, e só Deus sabe o que aprendi...», relembrou em diversas entrevistas a nossa lenda de hoje. 
A primeira aventura como técnico-se em 76/77, altura em que defendia as cores do Estoril Praia, clube pelo qual tinha assinado um ano antes, pouco depois de ter saído de Setúbal. No clube de Cascais José Torres acumulou as funções de treinador/jogador até 1979/80, altura em que aos 42 anos pendura definitivamente as chuteiras (em 5 temporadas ao serviço dos estorilistas efetuou 111 jogos, e apontou 15 golos), passando posteriormente a desempenhar somente a tarefa de treinador principal, primeiro no Estrela da Amadora (entre 1980 e 1982), depois no Varzim (de 82 a 84), ao que se seguiu Boavista (86/87), Portimonense (entre 88 e 90), e por fim Desportivo de Beja, em 96/97

Peça fundamental na saga dos Magriços de 1966

Voltando um pouco atrás na brilhante carreira de jogador de José Torres há um capítulo que merece ser recordado de uma forma muito especial. Falamos da presença do Bom Gigante na fase final do Campeonato do Mundo de 1966, decorrido em Inglaterra, onde Portugal escreveu aquela que para muitos é ainda hoje a página mais cintilante do seu centenário futebol. Ao serviço da seleção principal lusitana Torres disputou 33 jogos, tendo feito a sua estreia com a camisola das quinas a 23 de janeiro de 1963, em Roma, ante a Bulgária, num jogo de qualificação para o Europeu de 1964
Golos foram 14, alguns deles com sabor muito especial... Na década de 60 Portugal reunia um naipe de jogadores de reconhecido talento, casos dos benfiquistas Eusébio, Coluna, Simões, José Augusto, Germano, dos sportinguistas Hilário, Carvalho, Morais, do sadino Jaime Graça, dos portistas Américo, e Festa, ou dos belenenses Vicente, e José Pereira, atletas que com muito engenho lograram a qualificação para o Mundial de 66. Ali chegados poucos eram os que apostavam na seleção orientada pelo brasileiro Otto Glória. Até porque os Magriços - a alcunha que os imortalizou - ficaram no grupo do poderoso bi-campeão do Mundo, o Brasil, e da sempre perigosa Hungria, as duas equipas do grupo favoritas à passagem aos quartos-de-final da fase final. As outras duas seleções, Portugal e Bulgária, pouco ou mais podiam fazer do que lutar pelo terceiro lugar do grupo. 
Mas da teoria à prática o caminho é longo, e os portugueses, jogo após jogo, demonstraram que as previsões iniciais estavam erradas, surpreenderam o planeta da bola, com exibições memoráveis, golos de beleza ímpar, que muito justamente os iria rotular de equipa sensação do certame. Logo no primeiro jogo, em Old Trafford (Manchester) os Magriços chocaram o Mundo ao vencer a talentosa Hungria por 3-1, tendo José Torres feito um dos três tentos lusos. No encontro seguinte apareceu a estrela de Eusébio - o grande nome desse célebre Mundial 66 - que ajudou a derrotar a Bulgária por 3-0, e assim contra todas as previsões colocar Portugal na fase seguinte. Torres, faria nesse jogo o seu segundo golo na fase final. Mas o melhor ainda estava para vir. Já qualificados os portugueses deram-se ao luxo de vulgarizar o Brasil de Pelé, Garrincha, Jairzinho, Tostão, Djalma Santos, ou Zito por 3-1, com uma exibição mítica do Pantera Negra Eusébio. Portugal conquistava assim o primeiro lugar do grupo e mandava os campeões do Mundo em título para casa! 

Nos quartos-de-final ocorreu um dos jogos mais célebres das fases finais de Campeonatos do Mundo, o Portugal - Coreia do Norte. Asiáticos que aos 25 minutos já derrotavam os artistas lusos por 3-0 para espanto do planeta. Foi então que apareceu mais uma vez Eusébio, que apoiado por Simões, Coluna, José Augusto, ou Torres deu a volta ao marcador. 5-3, vitória memorável, que colocou Portugal na meia-final. O céu era o limite, e não havia um único português naquela altura que não imaginasse a Taça Jules Rimet nas mãos do capitão Mário Coluna. Sonho que seria eclipsado pela equipa da casa, a Inglaterra, que na catedral de Wembley vencia os lusos por 2-1. No encontro de atribuição dos 3º e 4º lugares - disputado também no Estádio de Wembley - Portugal derrotaria a União Soviética do lendário Lev Yashin por 2-1, com o tento da vitória a ser apontado por José Torres, jogador que desta forma, e juntamente com Eusébio, Coluna, Simões, e todos os restantes magriços, ficava eternizado na história do futebol português. 

«Deixem-me sonhar...»

Como jogador Torres brilhou com a camisola das quinas ao peito, mas como treinador viveu um dos priores momentos da sua longa carreira desportiva. Logo após o fantástico desempenho da seleção nacional no Europeu de 1984 os responsáveis federativos ofereceram o cargo de selecionador ao Bom Gigante, pedindo-lhe apenas que guiasse o combinado luso até ao Mundial do México, em 1986. A tarefa era complicada, até porque no grupo de Portugal estava a poderosa República Federal da Alemanha (RFA), e as sempre indesejadas Checoslováquia e Suécia. Na entrada para a reta final da fase de qualificação os portugueses precisavam de um milagre para alcançarem a qualificação para o México. E esse milagre passava por uma vitória em solo germânico... Impossível, disseram muitos. Perante o pessimismo que reinava entre o povo português José Torres lançou um desabafo: «deixem-me sonhar...». E mais uma vez o sonho virou realidade. Em Estugarda, no dia 16 de outubro de 1985, um golo solitário do pequeno médio Carlos Manuel derrotava a forte RFA e levava pela segunda vez na história Portugal a uma fase final de um Mundial. Só que chegados ao México os portugueses viram-se a braços com uma série de problemas internos. Os jogadores abriram guerra com a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) por causa dos prémios relativos à sua presença na fase final. Convocaram greves, organizaram-se em grupos, e com isto o plano desportivo passou definitivamente para segundo plano. Saltillo - localidade mexicana onde a seleção ergueu o seu quartel-general - é sinónimo de inúmeros escândalos, assinalando assim uma das páginas mais negras da história do nosso belo jogo.  
Portugal ainda venceu a Inglaterra no jogo de estreia (por 1-0), mas as derrotas com a Polónia (0-1) e com Marrocos (1-3) trouxeram os portugueses mais cedo para casa. 
José Torres foi uma vítima de Saltillo, como ele próprio confessou tantas e tantas vezes. «Saltillo marcou-me o destino. Cinco meses antes organizei uma reunião com os jogadores, na qual tive a preocupação de alertar para a necessidade de não se formarem grupinhos, garanti-lhes que ninguém teria o estatuto de titular, pedi-lhes única e simplesmente que fossem para o México para servir Portugal. Por essa altura a FPF prometeu-me, igualmente, que resolvia o problema dos dinheiros/prémios (para os jogadores), sabia bem que esse poderia ser o nosso calcanhar de Aquiles, a promessa foi vã, quem tinha a responsabilidade de tudo resolver agiu como Pilatos e foi o que foi, aconteceu o que se sabe, foi tudo muito triste - e ninguém foi mais penalizado do que eu, apesar da minha responsabilidade ser quase nula em toda aquela complicação».

Depois deste triste momento Torres passou mais tempo desempregado do que a treinar, tendo passado somente pelos bancos do Boavista (uma temporada como já vimos), Portimonense (3 épocas de forma intermitente), e Desportivo de Beja (uma só época). Depois disso afastou-se do futebol, dedicando-se quase de forma exclusiva à sua segunda paixão de menino, a columbofilia. Foram muitos os que o foram esquecendo com o passar dos anos, e Torres sentiu esse esquecimento como um punhal cravado no peito. Foi envelhecendo, triste, solitário - contando apenas quase e só com o apoio da família - e já na reta final da sua vida foi minado pela doença de Alzheimer, que o haveria de levar à morte
Com parcos recursos financeiros para fazer face à doença acabou por morrer quase na miséria, a 3 de setembro de 2010, ele o Bom Gigante, a alcunha que o eternizou, não só pelo seu talento futebolístico, mas sobretudo pelo seu bom coração, de homem simples e afável, amigo do seu amigo

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Vídeo: EXCERTO DO DOCUMENTÁRIO: JOSÉ TORRES, O GIGANTE QUE DRIBLOU O DESTINO

Legendas das fotografias
1-José Torres, envergando a camisola da seleção nacional
2- Na sua primeira final europeia, em Wembley, ante o Milan
3-Fazendo uso do seu poderoso jogo aéreo
4-Com a taça Ramón Carranza de 1963, que ele ajudou a conquistar
5-A Bola de Prata que venceu em 1962/63
6-A dupla mortífera Torres-Eusébio
7-Com a camisola Benfica, no Estádio da Luz
8-Envergando as cores do Vitória de Setúbal (com a camisola número 9)
9-Um "onze" do Estoril, o último clube de José Torres enquanto jogador. O Bom Gigante é o segundo da fila de cima a contar da esquerda para a direita
10-Seleção portuguesa no Mundial de 1966
11-José Torres em ação durante o célebre jogo com a Coreia do Norte
12-Torres, o selecionador nacional no Mundial do México em 1986
13-A columbofilia, uma paixão de menino que nunca esqueceu até aos seus últimos dias de vida