quinta-feira, janeiro 14, 2016

Histórias do Planeta da Bola (15)... Joe Lydon - O futebolista com queda para o boxe que fez história no grande palco do desporto planetário

Joseph Lydon
O Grande Atlas do futebol está bem composto no que toca a exemplos de futebolistas que exibiram as suas qualidades atléticas ao serviço de outras modalidades em paralelo - ou não - com a prática do desporto rei. O talento desportivo multifacetado de alguns desses atletas foi mesmo testemunhado em grandes competições - nacionais e internacionais. Contudo, muito poucos foram aqueles que obtiveram sucesso em mais do que uma disciplina desportiva, ou modalidade, assim que pisaram o palco de um evento desportivo à escala planetária, como é o caso dos Jogos Olímpicos (JO). E neste sentido a história leva-nos ao ano de 1904, altura em que a cidade norte-americana de Saint Louis acolheu a terceira edição das Olimpíadas da Era Moderna. Um evento manchado pelo racismo e pelo papel secundário que o desporto - enquanto fenómeno de massas - desempenhou em Saint Louis. Tal como havia acontecido em Paris, quatro anos antes, os Jogos Olímpicos de 1904 não foram mais do que um mero apontamento da Exposição Universal, intitulada de Louisiana Purchase Exibition, que decorreu naquela cidade do Estado de Missouri. Muito pior do que a deselegância com que o desporto foi ali tratado surge o facto de as Olimpíadas de Saint Louis terem ficado para a história como um dos mais vincados exemplos - senão mesmo o mais saliente - de racismo/preconceito racial presente na centenária história das Olimpíadas, ficando até hoje conhecidas como os "Dias Antropológicos". Esta denominação aponta para o facto dos Jogos de 1904 terem servido quase única exclusivamente para entreter os indivíduos de raça branca que se deslocavam à feira internacional, os quais se divertiam a ver os empregados do certame, onde entre os quais figuravam mexicanos, negros, índios, filipinos, ou pigmeus, a competir entre si em caricatas atividades inseridas nas ditas Olimpíadas. Algumas dessas atividades eram na realidade pouco desportivas, diga-se na verdade, já que do ridículo e racista programa olímpico, se é que assim o podemos chamar, havia uma prova que consistia em cuspir tabaco!!! 
Bom, para além desta triste imagem social a história diz-nos que em Saint Louis também se jogou futebol, ou soccer, como lá - EUA - é denominado o desporto rei. Mas tal como outras modalidades - ou pseudo modalidades como as cuspidelas de tabaco - foi de mero entretenimento e demonstração. Tal como nos Jogos de Paris, em 1900, o futebol foi introduzido no cartaz olímpico de forma experimental, não oficial. Três foram as equipas que deram vida ao torneio de futebol de 1904 - que ainda hoje, e à semelhança do torneio de 1900, não é reconhecido pela FIFA -, duas delas representantes de estabelecimentos de ensino norte-americanos, o Christian Brothers College e a Saint Rose Parish (School), e um clube oriundo do Canadá, o Galt Football Club, último emblema este que viria - facilmente - a subir ao lugar mais alto do pódio do torneio olímpico de futebol (episódio este do qual já falámos de maneira mais detalhada numa outra viagem ao passado do belo jogo).
Equipa do Christian Brothers College em 1902, dois anos antes de ter conseguido a prata na Olimpíadas de Saint Louis
Mas se a história da epopeia do Galt FC já reside nas vitrinas virtuais do nosso Museu importa agora ir de encontro a uma nova história extraída do torneio de futebol da caricata terceira edição dos JO, história essa que alude então ao êxito multifacetado obtido por um dos atletas intervenientes no evento. Joseph Lydon, poderá então considerar-se o primeiro atleta a abraçar o sucesso em mais do que uma disciplina desportiva no mesmo evento, neste caso num evento de dimensão global, como são as Olimpíadas. Nascido em Swinford (Irlanda), a 2 de fevereiro de 1878, foi um dos nove filhos do casal James Lydon e Mary Ann Lavi, que em finais do século XIX deixou para trás a sua pátria em direção aos Estados Unidos da América, em busca de uma vida melhor para a sua família. Saint Louis passou então a ser a casa de Joseph Lydon, tendo ai desenvolvido a sua aptidão para a prática desportiva. Joe, como era chamado, desde cedo mostrou dotes em várias modalidades, entre elas o boxe e o futebol, as quais representou no palco olímpico de 1904. Na primeira delas, Joe Lydon - que em Saint Louis competiu em representação dos Estados Unidos da América - alcançou a medalha de bronze, na categoria de pesos-médios (de 57 a 67 quilos), depois de nas meias-finais ter sido derrotado pelo também norte-americano Harry Spanger, derrota que lhe valeu de imediato a referida medalha, uma vez que o torneio desta categoria de pugilismo era constituído por apenas quatro atletas, e a organização decidiu dividir o bronze pelos dois derrotados nas meias-finais. Facto ocorrido a 21 de setembro desse ano.

A medalha de prata que Lydon
conquistou com o Christian Brothers College
Quase dois meses depois - os JO de 1904 foram dos mais longos da história: a abertura ocorreu a 1 de julho e o encerramento a 23 de novembro! - Joe Lydon mostrava aos visitantes da Exposição Universal os seus dotes de futebolista. Do alto dos seus 26 anos ele era um dos nomes principais da equipa Christian Brothers College, constituída na sua essência por alunos daquele estabelecimento de ensino, cuja inexperiência no soccer ficaria bem patente no jogo de abertura do torneio, como demonstra a goleada de 7-0 sofrida ante a experiente - e sobretudo mais habilidosa - equipa do Galt, na época tão só a melhor equipa canadiana. A experiência de Lydon no futebol fazia dele não só a figura principal do frágil combinado estudantil de Saint Louis como também o líder do grupo, já que além de jogador (atuava como defesa) ele era igualmente o treinador. Depois do Galt ter dado no jogo seguinte uma nova prova da sua por demais superioridade - goleou os também estudantes do Saint Rose Parish por 4-0 - e dessa forma ter matematicamente garantido o ouro olímpico, a (medalha de) prata seria disputada pelas duas formações académicas que atuavam em casa. E foram precisos três encontros (!) para decidir quem ficava com a prata e com o bronze, já que depois de dois teimosos empates a zero a negra confirmou o Christian Brothers College como vice-campeão do torneio de futebol, após um triunfo de 2-0. Depois da medalha de bronze no boxe, Lydon arrecadava a medalha de prata no futebol na mesma Olimpíada, tornando-se desta forma no primeiro futebolista a fazê-lo num grande evento desportivo de dimensão global.
Reza a lenda que a façanha olímpica deste irlandês radicado em Terras de Tio Sam poderia ter contornos mais admiráveis caso ele participasse nas provas de atletismo, modalidade em que, segundo a História desportiva de Saint Louis, ele era igualmente um talentoso atleta. A testemunhar este dado estão vários recordes obtidos por si nos anos de 1903 e 1904 em provas nacionais. Números e façanhas que faziam deste homem um dos mais afamados desportistas dos Estados Unidos da América, segundo relatos da própria imprensa da época. Trágico seira o seu desaparecimento em 1937, quando a 20 de agosto desse ano foi encontrado morto em sua casa: com o abdómen perfurado por uma bala disparada por... si próprio.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Histórias do Futebol em Portugal (16)... Taça Império e Taça Estádio: As "sementes" da Supertaça Cândido de Oliveira

A vistosa Taça Império
1944 é um ano marcante não só na história do futebol português como na história do desporto lusitano de uma forma geral. A 10 de junho desse ano eram oficialmente abertas as portas daquela que ainda hoje é considerada a mais emblemática sala de visitas do desporto de Portugal, o Estádio Nacional. Uma obra - à época - majestosa, que colocava a nação lusa em pé de igualdade com as maiores potências europeias de então, no que dizia respeito a infraestruturas desportivas modernas e de grande dimensão. Uma obra que teve o cunho do Estado Novo, nascida no berço da ditadura salazarista e cuja idealização remontou a 1933, altura em que na sessão de encerramento do Congresso dos Clubes Desportivos o presidente do Conselho, Oliveira Salazar, vincaria a importância do desporto enquanto veículo de educação da juventude com vista «ao crescimento de uma raça forte e sã que pudesse vir a defender o seu país». Concluída essa sua visão deixaria no ar uma promessa aos desportistas lusos: a construção de um Estádio Nacional! Um ano depois foi lançado o concurso para a edificação da catedral do desporto português, ficando definindo que esta seria erguida no Vale do Jamor e iria contemplar não só um moderno estádio como também um vasto leque de outras infraestruturas desportivas. O pontapé de saída na empreitada - projetada por (Eng.) Duarte Pacheco - foi dado em 1939, sendo que o apito final ocorreu cinco anos volvidos. Para a inauguração da obra uma pomposa festa foi agendada então para o dia 10 de junho de 1944, naquela que se constituiu como uma das maiores manifestações populares promovidas pelo Estado Novo e onde na qual marcaram presença cerca de 80.000 pessoas. Densa massa humana que preencheu as bancadas do imponente recinto que ali se inaugurava e que testemunhou o vasto programa festivo desenhado para celebrar a efeméride, programa esse pautado - sobretudo - por inúmeros desfiles de desportistas oriundos de inúmeras representações nacionais da Mocidade Portuguesa. 
Um dos muitos desfiles que ocorreram no dia
da inauguração do Estádio Nacional
Porém, o ponto alto da cerimónia foi protagonizado pelos dois mais laureados clubes da capital, Sporting e Benfica, emblemas que disputaram um sempre animado e intenso duelo futebolístico. Os leões subiam ao recém inaugurado tapete verde do Estádio Nacional na qualidade de campeões nacionais, ao passo que as águias o faziam enquanto detentores da Taça de Portugal. O prémio para o vencedor deste capítulo do dérbi eterno seria atribuído em dobro, isto é, o clube que chegasse ao fim na frente do marcador levaria para casa dois troféus, a Taça Império, instituída pela Federação Portuguesa de Futebol, e a Taça Estádio, oferecida por Salazar para celebrar a ocasião. E eis que a bola começa a rolar perante o olhar das bancadas que fervilhavam de entusiasmo. O Benfica teve um ligeiro ascendente no iníco do encontro, mas seria o Sporting a abrir o marcador quando estavam decorridos 10 minutos por intermédio do feroz leão Fernando Peyroteo, que assim batia pela primeira vez naquela tarde festiva o guardião Martins, escrevendo desde logo uma página na história do desporto nacional, e muito em particular do futebol luso, já que dos seus pés havia saído o primeiro de muitos remates certeiros que seriam desenhados no mítico palco. Já no segundo tempo Espírito Santo empataria a contenda, oferecendo desta forma aos presentes mais 30 minutos suplementares de futebol. Quase logo após o pontapé de saída do prolongamento Peyroteo voltou a fazer estragos na área encarnada ao fazer o seu segundo golo da tarde. Tento que animou os leões, que embalados chegariam ao 3-1 por intermédio de Eliseu. Julinho ainda iria reduzir para o Benfica, um golo que seria insuficiente para impedir a vitória sportinguista por 3-2. Nesse encontro as equipas alinharam com: Sporting - Azevedo, Manecas, Canário, Álvaro Cardoso, Barrosa, Eliseu, Mourão, António Marques, Peyroteo, Cruz e Albano. Benfica - Martins, César Ferreira, Carvalho, Jacinto, Albino, Francisco Ferreira, Espírito Santo, Arsénio, Julinho, Jaime e Rogério. 
Uma vista panorâmica do duelo entre Sporting e Benfica no dia 10 de junho de 1944
O Sporting arrecadava os dois troféus em disputa e mostrava o porquê de ser a melhor equipa do futebol português daquele tempo. Este simples jogo de futebol - e apontamento principal do cartaz festivo de propaganda fascista daquela tarde de junho de 44 - acabaria por servir de inspiração aos responsáveis vindouros do futebol português, os quais cerca de três décadas mais tarde se basearam nele para criar a terceira competição futebolística de maior importância do futebol português: a supertaça. Prova esta que desde 1979 é disputada pelo campeão nacional e pelo vencedor da Taça de Portugal, e que desde 1981 passou a chamar-se Supertaça Cândido de Oliveira, em homenagem a um dos maiores vultos da história do futebol em Portugal, precisamente o mestre Cândido de Oliveira.
Vídeo: EXCERTO DE UM DOCUMENTÁRIO SOBRE A INAUGURAÇÃO DO ESTÁDIO NACIONAL EM QUE SURGE UM BREVE RESUMO DO JOGO ENTRE SPORTING E BENFICA 
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