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quinta-feira, novembro 13, 2014

Estrelas cintilantes (39)... Julian Sturgis - O génio da literatura que fez história na sua fugaz aparição nos campos de "football"

Julian Sturgis em pose de... escritor
Poeta, romancista, jornalista, advogado, e... futebolista... ainda que em part-time, eis o rápido retrato biográfico de Julian Sturgis, uma figura mundialmente aclamada pelo notável trajeto percorrido no universo da literatura que na sua fugaz passagem pelos caminhos do belo jogo conquistou um lugar na história após tornar-se no primeiro estrangeiro a vencer uma competição doméstica, neste caso a FA Cup (Taça de Inglaterra), a pioneira de todas as competições do planeta da bola. Facto ocorrido em 1873, ano que Sturgis ajudou os londrinos dos Wanderers Football Club a bisar na então recém criada FA Cup. Mas, ainda antes de recordar o triunfo que coroou pelo segundo ano consecutivo os Wanderers em Terras de Sua Majestade, fiquemos a conhecer o protagonista da nossa história de hoje. Julian Russel Sturgis, de seu nome completo, nasceu em Boston, nos Estados Unidos da América, a 21 de outubro de 1848. Com apenas sete meses de idade fez a longa travessia no Atlântico na companhia da sua família, rumo a Londres, onde o seu pai, o juiz Russel Sturgis, tinha à sua espera um importante cargo numa instituição bancária da capital britânica. Descendente de uma família aristocrática o jovem Julian desde cedo frequentou as melhores escolas londrinas, entre outras o Eton College onde estudou entre 1862 e 1867, tendo nesta instituição começado a evidenciar os seus dotes literários e... desportistas, sendo que neste último aspeto deu nas vistas como guarda-redes do então recém nascido football. Após deixar o Eton College prosseguiu os estudos no Balliol College, uma espécie de pólo da prestigiada Universidade de Oxford, onde viria a obter a formação em Direito, e onde igualmente deixou créditos de um talentoso desportista, já que durante três anos fez parte da famosa equipa de remo de Oxford.
Findos os estudos Julian Sturgis tornou-se num conceituado magistrado que nunca esqueceu as suas paixões de infância, por outras palavras, a escrita e o football. E se na primeira se tornou mestre, com a publicação de inúmeros romances e livretos para óperas - sendo aqui de realçar a sua colaboração na famosa ópera Ivanhoe, de Arthur Sullivan - na segunda teve uma curta aparição enquanto futebolista amador ao serviço dos Wanderers Football Club e dos Old Etonians. 1872 foi então o ano em que Sturgis se juntou aos Wanderers, embora não tenha integrado a equipa que um ano antes no Oval Stadium, de Londres, derrotou por 1-0 os Royal Engineers e levantou a primeira FA Cup da história, permanecendo no clube até inícios de 1876. Foi pois muito curta a aventura futebolista daquele que era já então um famoso escritor.

A FA Cup original... bem
diferente do troféu atual
No retângulo de jogo atuava como avançado, tendo feito a sua estreia a 30 de novembro desse longínquo 1872 ante o grande rival dos Wanderers, os Royal Engineers. Na época o football dava apenas os primeiros passos nos caminhos da competição, sendo interpretado sobretudo por estudantes oriundos de universidades britânicas. O ponto alto da nossa história de hoje ocorre a 29 de março de 1873, tendo como cenário o Lillie Bridge Athletic Ground, local onde os Wanderers mediam forças com a equipa da Oxford University - curiosamente onde Sturgis havia estudado até 1872 - na final da jovem Taça de Inglaterra. Nos onzes das duas equipas a novidade era mesmo Julian Sturgis, cidadão norte-americano - só iria adquirir a nacionalidade inglesa em 1877 - que assim entrava para a história - estaria ele e todos os envolvidos naquela final longe de o imaginar - como o primeiro futebolista estrangeiro a vencer não só a FA Cup como também uma competição futebolística, pois, como já vimos, a taça inglesa foi a primeira prova oficial a ver a luz do dia no planeta da bola. 
 Quanto ao resultado, 2-0 para os Wanderers, team que viria ainda a vencer mais três taças de Inglaterra antes de ser extinto em 1887. Julian Sturgis ainda voltou ao jogo mais desejado da Velha Albion quatro anos mais tarde, altura em que com a camisola dos Old Etonians - equipa que teve como berço o Eton Collge, onde, recorde-se, Sturgis havia passado enquanto estudante - perdeu a final ante os... Wanderers, por 3-0. Pouco tempo depois Julian Sturgis abandona de vez o football para se dedicar por inteiro à literatura, onde foi, como já frisamos, um verdadeiro astro, não se sabendo no entanto se este talento era estendido ao futebol, modalidade na qual se desconhecem adjetivos que classifiquem a curta performance de uma figura que viria a falecer a 13 de abril de 1904.

quinta-feira, junho 12, 2014

Estrelas cintilantes (38)... Pahiño - O príncipe das Rias Baixas que ofereceu o trono merengue a Di Stéfano

Pahiño, com a camisola
do emblema da sua terra natal,
o Celta de Vigo
Vigo... a beleza dos seus traços naturais aliada ao seu posicionamento geográfico, conferem-lhe um imponente destaque no idílico cenário das Rias Baixas galegas. Berço do principal porto pesqueiro da Europa, a cidade mais populosa da Galiza - com cerca de 300 milhões de habitantes - é além de tudo o mais importante centro comercial e económico da região. Vigo assume contornos de maior encanto quando enquadrada no cenário futebolístico. Ali, o Celta arrebata os corações viguenses e... não só. O emblema fundado em 1923 - resultante da fusão entre o Real Vigo Sporting e o Fortuna de Vigo - desperta paixões em toda a Galiza, lutando - no patamar da eternidade, assim estamos em crer - pelo título de clube mais popular da região com o eterno rival do norte, o Deportivo da Corunha. Apesar de a ascensão do Celta aos grandes palcos do futebol europeu - vulgo, as eurotaças - se ter dado num passado muito recente, estando ainda bem fresca na memória de muitos as épicas noites de Balaídos - a mítica casa dos celtistas - onde Golias como o Liverpool, a Juventus, o Milan, ou o Benfica - lembram-se dos 7-0??? - caíram aos pés do pequeno David das Rias Baixas, as primeiras páginas douradas do nobre representante de Vigo foram escritas ainda na primeira metade do século passado, pela pena da estrela mais cintilante do futebol galego, Manuel Fernández Fernández, ou simplesmente Pahiño, a alcunha - desconhece-se a sua origem! - que o tornou célebre no Olimpo do Belo Jogo. A sua louca obsessão pelo golo fez com que Pahiño seja ainda hoje recordado como um dos mais prolíferos avançados da história do futebol espanhol. Dos seus (bons) pés - sobretudo - foram disparadas autênticas balas de canhão que destruíram as balizas contrárias vezes sem conta. Ah, noutras ocasiões a meta adversária era igualmente fuzilada com letais cabeceamentos, já que além de dois bons pés Pahiño era também senhor de um bom jogo de cabeça. Talento(s) descobertos nas areias das praias viguenses, onde Manuel Fernández Fernández esquecia - por certo - a vida dura do campo (agricultura), lides às quais desde muito novo se habituara com o objetivo de ajudar no sustento da sua família.

Pahiño conforta um jogador do Espanyol
depois de ajudar a eliminar os catalães
na meia-final da Copa Generalíssimo de 47/48
Nas praias de Vigo estão pois guardadas as primeiras histórias de intimidade entre Pahiño e a bola, uma relação que se assumiu - de forma mais séria - em Arenas de Alcabre, o primeiro emblema a ser oficialmente representado pelo niño nascido a 21 de janeiro de 1923, em San Playo de Navia, nos arredores de Vigo. Estávamos ainda um pouco longe do casamento entre Pahiño e o Celta, mas não deixa de ser curioso que o jogador e o clube tivessem vindo ao Mundo no mesmo ano! Obra do acaso? Se calhar não...
De Arenas de Alcabre para o Juventudes de Vigo - o seu segundo clube - o caminho foi curto, já que o poder de fogo de Pahiño começava a ter eco por toda a Galiza. Apercebendo-se que mesmo por debaixo do seu nariz deambulava um talento na arte de bombardear o esférico para as balizas contrárias, eis que em 1943 o Celta de Vigo não mede esforços para contratar aquela que viria a ser a joia da (sua) coroa nos cinco anos que se seguiram. O fichaje do poderoso avançado não foi contudo um parto fácil, longe disso. Na corrida pelo concurso do nativo de San Playo de Navias estava também o Salamanca, emblema que na altura tentava entrar na elite do futebol espanhol, o mesmo será dizer, ascender à Primeira Divisão. No entanto, os helmánticos foram vencidos pelo coração! Pelo coração celtista que pulsava dentro do jovem Pahiño, que ainda criança, pela mão do seu pai, travou-se de amores pelas camisolas azul celeste que aos domingos à tarde reluziam no relvado de Balaídos. Nessa época estaria ainda distante de imaginar que também ele um dia iria brilhar com a indumentária celtista nos retângulos mágicos do futebol espanhol, ajudando a edificar - em seu redor - uma das equipas mais lendárias da história do clube de Vigo, que durante uma mão cheia - pelo menos - de temporadas assombrou os gigantes do belo jogo castelhano.

Fase do jogo decisivo entre o Celta e o Granada,
realizado no Metropolitano de Madrid
Estávamos em 1943 quando Pahiño - com 19 anos - chegou a Balaídos. No entanto, e apesar da monstruosidade do seu poder de fogo, o Celta não foi feliz na temporada de 1943/44, foi último de uma Liga vencida por um Valência onde se destacava o goleador Mundo, e acabou por descer aos infernos da Segunda Divisão. Passagem pelo inferno que seria fugaz, já que na época seguinte a garra de Pahiño aliada ao seu instinto de predador catapultou o Celta de novo para o convívio entre os grandes do futebol espanhol. Episódio lendário que ressalva do trajeto glorioso do Celta em 44/45 prende-se com o jogo final que dava acesso à promoção. Frente a frente mediram forças no (Estádio) Metropolitano de Madrid o Celta e o Granada, e quem vencesse ganhava o bilhete para a Primeira. Pahiño, titular indiscutível dos celtistas desde que havia chegado a Balaídos, foi a estrela da tarde. No relvado do mítico recinto da capital fez jus ao seu estatuto de temível homem de área, fazendo dois golos durante a primeira parte. Performance que faria com que os defensores contrários lhe dedicassem atenções... suplementares. Alvo de uma entrada violenta de Milán González o goleador celtista fraturou o perónio, facto insuficiente para que deixasse de... continuar em campo na etapa complementar e ajudasse o Celta a vencer por 4-1.

Ricardo Zamora, em Vigo,
na qualidade de treinador
De volta à Primeira Divisão, o Celta viveu nas três temporadas seguintes alguns dos capítulos mais cintilantes da sua história. Sempre... aos ombros daquela que era já a sua maior estrela, Pahiño. Nos palcos da Primeira o goleador galego foi pedra fundamental para que os celestes se firmassem como uma das equipas mais encantadoras da liga, e sobretudo num osso duro de roer para emblemas de maior dimensão. Que o diga o poderoso Real Madrid, que em 45/46 tombou em Balaídos por concludentes 3-0, ou o campeão dessa temporada, o Sevilha, que nas Rias Baixas afundou-se depois de ter levado quatro (a zero)! Foi igualmente durante o regresso do Celta ao convívio entre os grandes que nasceu uma rivalidade protagonizada entre dois mitos da história do futebol espanhol na arte de fuzilar as redes contrárias. Pahiño, claro está, e Telmo Zarra, o herói basco do Athletic de Bilbao que ainda hoje detém o título de melhor marcador de sempre da Primeira Divisão espanhola, com 252 remates certeiros. Zarra, como iremos perceber nas próximas linhas, foi quiçá o grande obstáculo que Pahiño encontrou ao longo da sua carreira para conquistar um lugar de destaque no... Olimpo do futebol global. Em 45/46 o celtista apontou 15 golos, menos nove que Zarra, que desta forma levava para a sua vitrina pessoal o troféu Pichichi, galardão que distingue o melhor marcador do campeonato espanhol. E se Pahiño e Zarra lutavam entre si por um lugar na eternidade do belo jogo, na época seguinte Vigo acolhe de braços abertos um homem que há muito repousava no panteão do desporto rei planetário. O seu nome? Ricardo Zamora. Il Divino, como ficou imortalizado na história do jogo, era agora treinador, e depois de ter passado pelos bancos do Nice (França) e do Atlético Aviación (nome pelo qual na época era conhecido o atual Atlético de Madrid) assentava arraiais nas Rias Baixas, onde iria construir uma equipa lendária.
A lendária equipa do Celta de Vigo que subiu ao relvado do Metropolitano de Madrid
para jogar a final da Copa del Generalíssimo de 1948
E se a primeira temporada (46/47) de Zamora em Vigo não foi por ai além, já que o Celta não conseguiu melhor do que um 9º lugar, a segunda foi a todos os títulos memorável. Para o Celta e para... Pahiño. A nível coletivo os celtistas alcançariam um inédito quarto posto, ficando a somente seis pontos do campeão Barcelona, na sequência de uma coleção de resultados absolutamente brilhantes. Vejamos: De Balaídos saíram humilhados o campeão Barcelona (3-2), o vice- campeão Valência (5-2), o Atlético de Madrid (3-1), e o Real Madrid (4-1). Aliás, os merengues iriam sofrer nessa mítica época uma dupla humilhação aos pés dos pupilos de Zamora, visto que na capital a dose (4-1) repetiu-se a favor dos galegos. Mas a epopeia galega não se ficou por aqui. Na Copa del Generalíssimo - atualmente denominada como Copa del Rey - o Celta alcançou a final, onde seria travado pelo Sevilla (4-1) no Metropolitano de Madrid, o mesmo recinto onde poucos anos antes Pahiño e o Celta haviam sido tão felizes.
Apesar da derrota, o Celta foi rotulada como a equipa sensação dessa temporada, muito graças ao cunho pessoal da sua estrela-mor, Pahiño, que com 23 golos venceu o seu primeiro Troféu Pichichi.
A veia goleadora de Pahiño era por demais saliente, e nesse ano de 1948 atinge a sua primeira internacionalização, ao representar a Espanha num amigável ante a Suíça, ocorrido em Zurique.

Com a camisola do Real Madrid
A brilhante caminhada celtista chamou à atenção dos tubarões do futebol espanhol, que centravam os seus olhares devoradores em nomes como Miguel Muñoz, Alonso, e claro, Pahiño, as estrelas daquele Celta. Sabendo que o seu talento era por demais admirado por clubes de maior envergadura o internacional galego exigiu à direção azul celeste um aumento de salário, argumentando que era não só um dos grandes abonos de família da equipa, como também que outros colegas seus que raramente pisavam o relvado - na condição de titulares - usufruíam de salários muito mais elevados do que o seu. A ação de Pahiño foi desde logo apelidada de anti-celtista, e o jogador é de pronto olhado por dirigentes, (alguns) companheiros, e muitos adeptos, como mercenário, anti-galego, ou conflituoso, alguns do mimos que recolheu naquele verão de 48. Cansado deste braço de ferro, equacionou a hipótese de abandonar o futebol (!), pensamento somente travado pelo Real Madrid, que nesse final de temporada de 47/48 viaja até Vigo para pescar Miguel Muñoz, Alonso, e Pahiño. Consumado o divórcio com o Celta o goleador galego celebram casamento de cinco épocas com o laureado emblema da capital, conquistado de pronto a admiração dos exigentes adeptos merengues na sequência da sua infindável garra aliada à vincada veia de concretizador nato. Na primeira temporada equipado de blanco, o galego aponta 21 golos, ficando a somente sete do Pichichi desse ano, César, do Barcelona. Nos anos que se seguiram o seu nome figurou sempre no top 5 da lista dos melhores marcadores da Primeira Divisão, sendo que em 51/52 alcança o título de Pichichi da Liga pela segunda vez na sua carreira, fruto dos 28 golos convertidos. Despediu-se do Real Madrid na temporada seguinte, porque Don Santiago Bernabéu, o lendário presidente do clube, não renovava por mais de um ano contrato com jogadores cujo Bilhete de Identidade apresentasse uma idade superior a 30 anos. Pahiño queria mais tempo - três anos de contrato, ao que consta - e a polémica instalou-se de novo na carreira de um jogador que se viu obrigado a procurar abrigo noutro local. Consta-se - ainda - que o Real Madrid não fez grande esforço em tentar segurar o galego, até porque tinha acabado de contratar um jovem prodígio argentino chamado... Alfredo Di Stéfano. Aquele que muitos afirmam ter sido o melhor jogador da história do clube merengue herdou a camisola número 9 do galego Pahiño, que partia de Madrid com um impressionante registo de 108 golos apontados em 122 jogos disputados, mas com a mágoa de nunca ter ganho um troféu coletivo com o colosso madrileno.

Pahiño festeja um golo com a camisola do Depor
Algo frustrado, Pahiño procura abrigo na sua região natal, a Galiza, para onde regressa no verão de 1953, com o intuito de representar o... Deportivo da Corunha! Foi como um punhal cravado nas costas da afición celtista, que via uma das suas maiores lendas, um filho da terra, vestir agora a camisola do eterno inimigo do norte, o Depor. Na Corunha esteve três temporadas - sempre na Primeira Divisão - tendo apontado perto de meia centena de golos com a camisola azul e branca. Dois deles tiveram um sabor muito especial. Em 1955/56 o Depor visita Chamartín, a casa do Real Madrid, tendo ai alcançado a sua primeira vitória de sempre na capital, na sequência de um resultado de 2-1... com dois golos de Pahiño. Estava consumada a vingança. Após abandonar a Corunha ainda jogou uma temporada na Segunda Divisão ao serviço do Granada, o tal clube que anos antes lhe havia dado cabo do perónio no Metropolitano de Madrid, mas o tempo acabou por apagar as más memórias desse momento menos feliz da carreira do homem de San Playo de Navia, o qual ajudou os granadenses a subir à divisão maior do futebol espanhol. Posto isto: missão cumprida, e Pahiño pendurava as chuteiras com um impressionante registo de 212 golos apontados em quase 300 encontros - 295 para sermos mais precisos - disputados.

Pahiño, numa das suas curtas
aparições com a camisola da seleção
Face a este cartão de visita uma pergunta impõe-se: E a seleção, porque não aproveitou o faro pelo golo que Pahiño sempre patenteou mais do que cinco ocasiões (?) - as vezes que o jogador vestiu a camisola da Roja em partidas de caráter particular. A resposta é simples. Aliás, a dupla resposta. Em primeiro lugar porque o número 9 da seleção era propriedade quase exclusiva do basco Zarra, e em segundo porque o galego era uma figura incómoda para o regime franquista! Passamos a explicar. Pahiño era um devorador de livros de Tolstoi, ou Dostoyevski, autores mal amados na Espanha dominada pelo ditador Franco. As influências destes autores na personalidade do galego eram evidentes, sendo que a sua (diferente?) forma de pensar, de ver o Mundo que o rodeava, ter-lhe-á causado inúmeros dissabores ao longo da carreira, o mais duro deles todos quiçá o facto de poucas vezes ter sido chamado à seleção do seu país, já que os dirigentes da federação não iam muito à bola com o... goleador comunista, como era então conhecido Pahiño nos meandros do futebol espanhol. Não fosse isso - e claro está, Zarra - e talvez o galego tivesse sido uma das grandes figuras do Mundial de 1950, onde a seleção de Espanha tão boa conta deu de si. Mas... «gozei do pior dos amores: o amor próprio», disse um dia Pahiño quando resumiu a sua (curta) carreira internacional. Viria a falecer em Madrid, aos 89 anos, a 12 de junho de 2012.

terça-feira, março 11, 2014

Estrelas cintilantes (37)... Jaguaré

Jaguaré
Hugo Gatti, René Higuita, José Luis Chilavert, Juan Carlos Henao, ou Rogério Ceni, nomes que para além de sul-americanos têm em comum o facto de serem lendas excêntricas das balizas, ou traduzido em linguagem popular, guarda-redes detentores de uma boa dose de loucura. Característica esta tão comum nos keepers nascidos na região mais a sul do continente americano, expressas em dribles serpenteantes por entre os dianteiros rivais, em defesas acrobáticas, ou na arte de concretizar na baliza contrária. O primeiro louco das balizas reuniu em torno da sua figura estas três características, que como é óbvio, fizeram dele o primeiro ícone excêntrico que no retângulo de jogo não se contentou apenas em ocupar a solitária posição de guarda-redes. Jaguaré Bezerra de Vasconcellos quis muito mais, ambicionou conquistar terrenos que não eram seus, e ali chegado criou obras de arte futebolísticas só ao alcance dos grandes astros da bola, como Pelé, Maradona, Di Stéfano, Eusébio, Cruyff, ou Garrincha, o anjo das pernas tortas, figura mítica do futebol mundial que serviu de molde para que em 1954 uma revista desportiva imortalizasse Jaguaré como o Garrincha das Metas (balizas). E tal como Mané a nossa estrela cintilante de hoje nasceu sob os raios de sol - quase sempre abrasador - que iluminam de uma forma muito especial o Rio de Janeiro, cidade onde a 14 de maio de 1905 nasce então o filho de Antônio Bezerra de Vasconcellos e de Raimunda Tavares de Vasconcellos. No bairro carioca da Saúde, lugar habitado na sua esmagadora maioria por famílias pobres, cresceu o menino Jaguaré. Localizado nas margens da Baía de Guanabara, a Saúde era um dos cinco bairros cariocas que partilhavam o porto da Cidade Maravilhosa, sendo por isso vulgar que a maioria dos seus habitantes - quase todos afro-descendentes - estivesse profissionalmente ligada à estiva. O caminho de Jaguaré não foi diferente dos seus conterrâneos, e ainda muito novo troca as brincadeiras de criança pela dureza do cais, onde abraça a profissão de estivador.


O "Garrincha das Metas" a atuar em terrenos
do campo que não o seu
Nos poucos tempos livres da sua cinzenta infância fazia da bola o seu brinquedo de eleição. Tratava-a carinhosamente por «minha bichinha», uma relação de amor puro e... eterno, que teve os seus primeiros capítulos oficiais no Vasco da Gama, clube carioca no qual Jaguaré deu os primeiros passos no futebol. Aconselhado por um amigo seu a fazer uns testes no emblema Cruz Maltino o rapaz rapidamente foi mandado para debaixo dos postes, onde desde logo demonstrou qualidades, valentia, e sobretudo um... enorme sentido de humor quando se cruzava no campo de batalha com os seus colegas de ataque. Passamos a explicar. A vincada habilidade de Jaguaré com a bola nos pés era traduzida em dribles serpenteantes aplicados aos jogadores de campo contrários, jogadas que levavam diversão à torcida, e revolta aos adversários. São muitas as histórias que eternizam as brincadeiras - de mau gosto, para alguns - do guarda-redes nos anos em que este defendeu a baliza vascaína, algumas delas guardadas no livro "O Negro no Futebol Brasileiro", da autoria de Mário Filho, destacando-se entre muitas aquela em que Jaguaré num jogo ante o América «quase mata Alfredinho de raiva. Primeiro, defendeu um chute do atacante americano somente com uma das mãos. Depois atirou a bola na cabeça de Alfredinho para fazer nova defesa». Lances como este ficariam celebrizados na história do jogo como as molecagens de Jaguaré. E foram tantas... 

Ídolo vascaíno


Equipa do Vasco da Gama que conquistou
o título de campeão estadual do Rio de Janeiro em 1929
A veia circense de Jaguaré lotava os estádios onde o Vasco da Gama jogava. A ligação do menino estivador ao popular emblema carioca deu-se em 1928, o tal ano em que aconselhado pelo seu amigo, e defesa vascaíno, Espanhol, o rapaz do Bairro da Saúde vai prestar provas ao clube. Bastou um treino apenas para que os responsáveis do Vasco admitissem Jaguaré para a sua equipa principal, onde desde logo se apoderou da baliza. Reza a lenda que uma vez titular absoluto das redes vascaínas, Jaguaré afugentava com o seu poderoso remate todos os pretendentes ao seu trono. Quando alguém se aventurava a ir fazer um teste para tentar ser o novo dono da baliza vascaína Jaguaré assumia o papel de examinador, ou seja, assim que o candidato a goleiro assumia posição entre os postes o dito examinador encarnava na pele de um feroz avançado, fazendo uso do seu forte pontapé numa sessão de tiro ao alvo, sendo que o alvo não era a baliza mas sim o pretendente a guarda-redes. Assim que o pobre era apanhado em cheio por uma das bombas de Jaguaré, fugia dali a sete pés, continuando o gol (baliza) vascaíno nas mãos do moleque da Saúde. Em 1929 o Vasco da Gama agregou a si um leque de talentosos jogadores, sobressaindo, para além de Jaguaré, que era já um dos ídolos do futebol carioca daqueles anos 20, nomes como Fausto, Brilhante, Itália, Tinoco, e um tal de 84 (!) - nome curioso para um jogador de futebol, sem dúvida. Juntos guiaram o emblema Cruz Maltino à conquista do Campeonato Estadual do Rio de Janeiro desse ano. 
Jaguaré na seleção

A veia artística de Jaguaré não passa despercebida aos responsáveis pela seleção brasileira, sendo que entre 1928 e 1929 o goleiro é chamado por três ocasiões ao escrete - que ainda não era canarinho - para a disputa de partidas amigáveis ante as equipas do Motherwell (Escócia), do Barracas (Argentina), e do Rampla Juniors (Uruguai). Em 1931 a vida do guarda-redes que adorava desafiar os avançados contrários com saídas aventureiras da sua zona de ação conhece um novo capítulo. O Vasco da Gama promove uma digressão da sua equipa principal até Portugal e Espanha, países cuja interpretação do futebol deixou Jaguaré maravilhado. O goleiro mostrou-se fascinado com os modos cavalheirescos e profissionais com que o belo jogo era tratado no Velho Continente, em contraste com o rude amadorismo como era vivido no seu país. Face a esse fascínio Jaguaré e o seu colega de equipa Fausto não fizeram a viagem de regresso ao Brasil, forçando, em Espanha, a saída imediata do Vasco da Gama, para em seguida firmar contrato com o Barcelona. Ligação que seria histórica, já que desta forma Jaguaré e Fausto tornavam-se nos primeiros futebolistas brasileiros a jogar - profissionalmente - na Europa.

Catalães não acharam muita graça às molecagens de Jaguaré



Jaguaré e Fausto, os primeiros brasileiros
a jogar no estrangeiro
A permanência na Catalunha é porém curta. Alvos de preconceito por parte dos dirigentes e adeptos do Barça os dois atletas somente aguentaram cerca de um ano com a camisola blaugrana. Ao que se diz não foi só a cor da pele - em tons de negro - de ambos que deu aso à antipatia dos catalães face às suas figuras, mas sobretudo as brincadeiras de Jaguaré no terreno de jogo. Na pele de uma criança grande o carioca continuava a gingar entre os adversários com a bola nos pés por terrenos pouco habituais para um guarda-redes, pelo menos na ótica dos responsáveis e adeptos do Barcelona, que nunca acharam muita piada às molecagens de Jaguaré. Após a aventura falhada em Espanha regressa ao Brasil... como um herói. A notícia do seu regresso foi recebida em delírio por um país que continuava a idolatrar o seu estilo inconfundível de interpretar o jogo. No retorno à pátria foi para São Paulo, cidade onde defendeu com estilo a baliza do Corinthians. Com estilo na verdadeira ascensão da palavra, uma vez que da Europa trouxe algumas modas até então nunca vistas nos goleiros de futebol, como por exemplo o uso de luvas e do boné que caracterizava os guarda-redes europeus. Jaguaré tornava-se assim cada vez mais num espetáculo dentro do próprio espetáculo.

Nova travessia no Atlântico: rumo a Lisboa


Jaguaré com as cores do Sporting frente
grande rival Benfica

Jaguaré não ficou perturbado pela experiência menos positiva de Barcelona, e em 1935 atravessa de novo o Atlântico rumo a Lisboa, desta feita para defender as cores do Sporting. À semelhança do ocorrido na Catalunha também a estadia do brasileiro em solo luso foi curta, mas ao que se sabe um pouco mais feliz em relação à primeira experiência. Jaguaré fez, de certa forma, história no futebol português, desde logo por ter sido o primeiro guarda-redes a usar luvas, tal como havia acontecido no Brasil. Entre novembro de 1935 e abril de 1936 o excêntrico jogador defendeu por sete ocasiões a baliza leonina, tendo vencido seis jogos e perdido apenas um - para o rival Benfica. Tal como no Brasil e em Espanha o estilo brincalhão e provocador que Jaguaré exibia em campo causou algum impacto em Portugal. Certo dia, num embate contra o Benfica, Jaguaré cuspiu na bola antes do benfiquista Aníbal José partir para a conversão de uma grande penalidade. Desconhecendo-se se com algum nojo ou não por tal atitude o que é certo é que Aníbal José atirou o esférico por cima da baliza. O árbitro mandou repetir o lance, e Jaguaré voltou a cuspir na bichinha, como ele gostava de chamar a sua companheira das brincadeiras, e mais uma vez o jogador do Benfica voltou a falhar o penalti. Reza ainda a lenda que num outro encontro, desta feita ante a Académica, Jaguaré sai a correr da baliza para travar um ataque contrário, sendo que posteriormente na posse da bola sai ele próprio a jogar em contra-ataque perante o espanto de colegas, adversários, e do próprio público. Como já foi referido a estadia do brasileiro em Lisboa durou apenas seis meses, muito por culpa de um jovem de 20 anos chamado Azevedo, figura esta que ao agarrar a titularidade da baliza sportinguista iniciava um trajeto que o haveria de o levar até ao Olimpo dos Deuses do futebol português. Mesmo tapado por aquele que viria a ser caracterizado como um dos melhores guardiões lusos de todos os tempos, Jaguaré enriqueceu ao serviço do Sporting o seu currículo desportivo, na sequência da conquista do título de campeão de Lisboa de 35/36. 


O penalti da fama em França


Equipa do Olympique de Marseille campeã de França em 1937

Deixando para trás a capital portuguesa Jaguaré rumou para a edílica região do sul de França, para representar o Olympique de Marseille (OM), onde se tornou ídolo. As suas excêntricas exibições ao serviço dos marselheses atraíram até si as luzes da ribalta, a fama que tanto buscou em Espanha e em Portugal e nunca alcançou. No Marselha foi peça fundamental para a conquista de títulos que ainda hoje se destacam no vasto currículo do emblema marselhês muito por culpa das brincadeiras que Le Jaguar - como a imprensa gaulesa o iria apelidar - efetuava em campo. Reza a lenda que em França a excentricidade de Jaguaré atingiu contornos vincados: danças com a bola nos pés em frente aos adversários, defesas com pontapés de bicicleta - terá sido nele que Higuita se inspirou para edificar a sua famosa defesa escorpião? - provocações constantes a adversários que os levavam à profunda irritação, e goleador. É verdade, goleador. Jaguaré foi o primeiro guarda-redes a converter grandes penalidades, facto ocorrido na final da Taça de França de 1938, a qual colocou frente a frente o OM e o Metz. Lance imortalizado da seguinte forma pela revista Sport Ilustrado na edição de 22 de junho de 1938:  «Aos 22 minutos, Laurent, do Metz, fez um penalty. Com surpresa de todos os assistentes, Jaguaré abandonou o seu posto e encaminhou-se para o goal adversário. Jaguaré collocou-se diante da bola, e quando o árbitro apitou, bateu o penalty. Ouviu-se uma exclamação da assistência. Jaguaré enviou a bola a um canto e marcou o goal de empate. Foi um lance sensacional. Um arqueiro fazer um goal contra o adversário! Em nossa capital, jamais houve um caso, em partida official, de um arqueiro executar um penalty».  
Final onde a excentricidade do brasileiro iria mais além ao defender uma grande penalidade com um salto impressionante, onde mais parecia um... jaguar a agarrar a sua presa.



Jaguaré atuando pelo Corinthians
disputa uma bola com o astro do
futebol brasileiro da época:
Arthur Friendenreich
Entre 1936 e 1939 - o período de permanência no OM - Jaguaré atingiu o ponto mais alto da sua carreira ao serviço do futebol gaulês. Foi campeão nacional em 1937 e venceu, como já vimos, a Taça de França de 38. O eclodir da II Grande Guerra Mundial na Europa fê-lo regressar a casa, assustado (com a guerra)... e pobre. A criança grande que Jaguaré exibia dentro dos campos de futebol era igualmente transportada para o seu dia-a-dia pessoal. Não soube poupar um único cêntimo do que havia ganho na Europa, gastando todo o dinheiro que ganhava com amigos nas molecagens da vida mundana. Ao voltar à sua pátria abraçou de novo a dura profissão de estivador. No Rio de Janeiro ainda atuou pelo São Cristóvão, mas sem o sucesso arrecadado no Vasco da Gama ou no Marselha. A vida dura no seu país aliada às saudades que tinha da Europa fazem-no regressar ao Velho Continente, e de novo com Portugal como destino. Desta feita ruma ao norte do país, onde defende as balizas do Académico do Porto , entre 1938 e 1940. As informações sobre a estadia - e sobretudo sobre as peripécias - de Jaguaré na Cidade Invicta são escassas, ou mesmo nenhumas. Atravessou pela última vez o Atlântico para morrer na mais profunda miséria na sua pátria. Sabe-se que passa os últimos anos da sua vida em Santo Anastácio (Estado de São Paulo) onde se entrega às bebidas alcoólicas e às lutas de rua. E seria precisamente na sequência de uma dessas lutas de rua que Jaguaré voltaria a ser notícia nos jornais por uma última vez, depois de ser espancado até à morte por três polícias com quem se tinha envolvido em confrontos. Estávamos a 27 de agosto de 1946, data em que o pioneiro das loucuras de Higuita, Gatti, Henao, ou Chilavert dizia adeus ao mundo terrestre. 
Uma rara fotografia de Jaguaré aquando da sua
passagem pelo Académico do Porto

quinta-feira, novembro 28, 2013

Estrelas cintilantes (36)... Patalino

Já lá vão os tempos em que o amor à camisola falava mais alto. Tempos em que na hora de decidir entre ficar na terra natal a defender as cores do clube local ou assinar um contrato chorudo com um emblema de maior dimensão a balança pendia para a primeira opção. A paixão pelo clube onde cresceram, e no qual aprenderam a gostar de futebol, aliada ao amor à terra onde nasceram não tinha preço, nenhuma proposta milionária era capaz de superar este misto de sentimentos. Um pouco por todo o planeta da bola registaram-se várias histórias de amor eterno a um clube ou a uma cidade, sendo que Portugal conheceu algumas delas, sobretudo na Era do futebol romântico... bem distinto da atual Era do Futebol Indústria. A nossa estrela cintilante de hoje escreveu uma dessas histórias encantadoras de amor eterno, tendo tido o desplante - dirão alguns - de recusar propostas tentadoras de clubes como o Bordéus, o Atlético de Madrid, ou o gigante vizinho - deste - Real Madrid. Falamos de Domingos Carrilho Demétrio, ou simplesmente Patalino, para muitos o maior diamante que do Alentejo se extraiu no que a futebol diz respeito. Ainda hoje ele é o maior símbolo futebolístico de uma região onde o desporto rei atualmente vive sem chama, sem vivacidade, e sem o encanto de outros tempos, onde belíssimas equipas em representação de notáveis clubes como os dois rivais de Évora (Juventude e Lusitano), o Portalegrense, o Elvas, ou mais recentemente o Campomaiorense viveram empolgantes aventuras nos palcos mais importantes do futebol português. Como em tantos outros aspetos também no futebol o Alentejo vive vetado quase ao esquecimento!
Este triste cenário alude ao presente, porque o passado traduz-se em glória, e glória é sinónimo de Patalino, o rei do futebol alentejano.

Nasceu pobre, como tantos outros meninos do interior alentejano nas longínquas primeiras décadas do século XX, mais concretamente no dia 29 de junho de 1922. Elvas foi o seu berço, e um dos grandes amores da sua vida. Mais pobre - seguramente - ficou quando ainda adolescente, com 11 anos, perdeu o chefe de uma família de quatro irmãos - ele era um deles - o seu pai. Do progenitor herdou porém a alcunha que o iria eternizar nos campos de futebol, Patalino. Reza a lenda que o pai de Domingos Carrilho Demétrio era um exímio intérprete do jogo da pata, tão popular no Alentejo daquele tempo. Daí advém a alcunha Pata... lino, assim o batizaram os conterrâneos da pacata e simpática vila alentejana. Apesar de presenciar, enquanto criança, a mestria de seu pai na interpretação do tradicional jogo da pata, a paixão do jovem Domingos naqueles tempos de garoto era outra, e dava pelo nome de futebol. De pé descalço ele deu os primeiros pontapés numa bola de trapos. Com a morte do pai teve de ajudar no sustento da casa e pedreiro se tornou, mas nos tempos livres continuava a divertir-se nas jogatanas de rua com os rapazes da sua idade. Foi na rua que começou pois a dar nas vistas, rua que com o passar dos anos foi-se tornando cada vez mais pequena - e insignificante - para o talento do jovem Patalino. Um artista daqueles precisava de pisar um campo de futebol a sério, vestir a camisola de um clube, e com ela espalhar alegria e entusiasmo pelas bancadas. Assim, aos 18 anos entrou para o Clube de Futebol "Os Elvenses", filial número um do Belenenses, onde transportou para o retângulo de jogo a sua vincada e entusiasmante veia técnica, aliada à sua sagaz capacidade de finalização. Características demasiado requintadas para um Elvenses que na época de estreia (40/41) de Patalino deambulava pelos campeonatos regionais da Associação de Futebol de Portalegre.
O talento do filho de mestre do jogo da pata merecia outros palcos, mais pomposos, e uma temporada depois assina pelo Sport Lisboa e Elvas, filial do Benfica, e que rivalizava em termos de popularidade entre os habitantes de Elvas com o Sporting Clube Elvense, a filial do Sporting, pois claro. Em termos desportivos o SL Elvas era a equipa mais bem cotada da cidade, galgando escalões uns atrás dos outros. Em 1941/42 lutava na 2ª Divisão Nacional pela subida ao escalão principal, tendo para isso contribuído a arte de Patalino, que ainda limava o seu perfil de excelente avançado-centro. Porém, ainda lhe faltava alguma experiência para ser um verdadeiro galo de combate, e talvez por isso em 43/44 o SL Elvas empresta o promissor atleta ao Lanifícios de Portalegre, emblema que também disputava o segundo escalão nacional. Mas a estadia na capital do distrito foi curta.
Percebendo o erro cometido os dirigentes do SL Elvas são prontos a exigir o regresso de Patalino ao clube, onde aos poucos foi ganhando o estatuto de estrela principal, ajudando a guiar o emblema até à 1ª Divisão na temporada de 45/46, terminando a prova em 9º lugar. Esta época seria memorável para o Belenenses, já que no último jogo do campeonato atuava em Elvas ante o conjunto de Patalino. Uma vitória dos azuis de Belém garantia-lhes o título, caso contrário este iria fugir para o Benfica. E o SL Elvas tudo fez para oferecer o ceptro de campeão ao pai SL Benfica, mas com um - último - quarto de hora de jogo avassalador os azuis do Restelo venceram por 2-1, alcançando assim o único título de campeão nacional da 1ª Divisão da sua história.
Na época seguinte o SL Elvas é 9º posicionado, de novo, e o nome de Patalino era já conhecido por todo o país, que não ficava indiferente à sua veia goleadora. Patenteando uma postura elegante em campo ele facilmente alvejava - ou com os pés, ou com a cabeça - as redes contrárias. Graças a Patalino, Elvas tornou-se numa terra difícil para qualquer que fosse o clube do Campeonato Nacional da 1ª Divisão. Era uma fortaleza para a equipa da casa, e para dali sair com algum resultado positivo era preciso suar muito. Ver os jogos do SL Elvas era de facto um regalo para os olhos dos adeptos do futebol de ataque. Os golos surgiam em catadupa nas redes contrárias, e Patalino era o principal responsável por aquele lendário futebol ofensivo. No que concerne a números a estrela alentejana apontou nesta segunda temporada no escalão maior 24 golos, superado apenas pela lendária máquina goleadora do Sporting, Fernando Peyroteo, o maestro dos Cinco Violinos.
Apesar da fama desportiva a presença em dois anos consecutivos na 1ª Divisão trouxe sérias dificuldades ao SL Elvas. As constantes deslocações para outras cidades, com o intuito de disputar os jogos "fora" da competição, fez mossa nas modestas finanças do clube alentejano. Foi solicitada a ajuda à casa mãe, isto é, ao Benfica, o qual de imediato negou qualquer tipo de auxílio. Com o mesmo problema se debatia o Sporting Clube Elvense, sendo que após amistosas conversações entre os dirigentes dos dois clubes decidiu-se pela fusão dos dois emblemas, e assim em 15 de agosto de 1947 nascia O Elvas - Clube Alentejano de Desportos. O novo emblema ocuparia a vaga deixada pelo SL Elvas na 1ª Divisão, sendo que Patalino continuava a ser o principal abono de família elvense. Episódio famoso na época de estreia de O Elvas na 1ª Divisão foi o jogo no Campo Grande, ante o poderoso Benfica, clube este que precisava urgentemente de vencer os alentejanos para não ver fugir o título de campeão para o rival Sporting. E eis como que de uma vingança se tratasse - pela recusa dos encarnados de Lisboa em ajudar financeiramente o SL Elvas num passado recente - Patalino mata o sonho benfiquista, e com dois golos oferece o título ao Sporting.

Perante tamanha qualidade os responsáveis pela seleção nacional abriram em 1949 as portas da equipa das quinas a Patalino. A estreia deu-se na catedral do futebol luso, o Estádio Nacional, a 15 de maio desse ano, ante o País de Gales, tendo os lusos vencido por 3-2... com um golo da autoria de Patalino. Que estreia! Vestiria a camisola de Portugal em mais duas ocasiões - numa altura em que os jogos internacionais não eram realizados com tanta frequência como são hoje - e apontaria mais um golo.
A classe do astro alentejano ultrapassava agora as fronteiras nacionais, e do estrangeiro chegavam a Elvas propostas milionárias pelo concurso do seu valioso atleta. As primeiras ofertas chegaram dois anos antes da estreia de Patalino pela seleção nacional. O Bordéus foi o primeiro a lançar o canto da sereia, com o talentoso goleador a responder no seu estilo humilde e amável que Elvas estava no seu coração, que amava a terra como bom alentejano que era, e como tal declinou o convite. Nesse mesmo ano seria a vez do Atlético de Madrid passar a fronteira e acenar com 300 mil pesetas, metade para o clube, e a outra metade para o jogador, valor ao qual juntava a cedência de três jogadores ao clube alentejano e ainda a realização de um jogo em casa de O Elvas. Em Madrid, Patalino iria usufruir de um ordenado de 2500 pesetas, acrescido de prémios de jogo. A resposta? Não! O amor ao clube e à terra voltou a falar mais alto.
O Badajoz, o Sevilla, e o colosso Real Madrid também tentaram aliciar o jogador com propostas milionárias, sendo que o clube madrileno chegou a oferecer 400 mil pesetas pela transferência e um ordenado de 35 mil pesetas. A cobiça não era restrita a Espanha. Em Portugal, Benfica, Belenenses, e Sporting (que via no alentejano o homem ideal para substituir Peyroteo), também tentavam seduzir a estrela do futebol alentejano, e na época uma das maiores de todo o país, mas o seu amor a Elvas e ao clube local falou sempre mais alto. Reza a lenda que tudo o que Patalino queria era amealhar algum dinheiro para poder comprar um táxi de modo a garantir o sustento para o resto da vida.

Diz quem com ele de perto privou que era um homem simples, ingénuo, até, bem diferente do rápido, fogoso, e viril jogador que assombrava as balizas adversárias. Na pacatez de Elvas ele era feliz, despindo a glória e a fama angariadas nos muitos campos de futebol por onde passeava a sua classe. O terror dos guarda-redes, como alguém um dia o chamou defendeu com paixão a camisola de O Elvas até 51/52, altura em que o clube andava já pela 2ª Divisão. Altura também em que vicissitudes o levariam a deixar a sua amada Elvas, a terra que em inúmeras entrevistas ele dizia não trocar por nada desta vida. Mudou de terra, mas não deixou o seu Alentejo, fazendo a viagem até Évora para defender as cores do Lusitano, popular emblema que na época atuava entre os grandes do futebol lusitano. E também aqui o rei do futebol do Alentejo fez história nas quatro épocas - entre 52/53 e 55/56 - em que vestiu a camisola verde-e-branca do Lusitano, sendo que entre muitas tardes de glórias, e dezenas de golos marcados, destaca-se uma eliminação do gigante FC Porto em pleno Estádio das Antas. Pelo Alentejo continuou a balançar as redes por mais alguns anos, mais concretamente no FC Serpa, clube que ajudou a conquistar o título de campeão nacional da 3ª Divisão em 56/57, precisamente a temporada em que vestiu pela primeira vez a camisola deste emblema, pelo qual jogaria até 59/60.
Com a carreira de futebolista a caminhar para o fim Patalino queria arranjar um emprego que lhe garantisse um bom resto de vida, e talvez por isso, traiu finalmente o seu Alentejo. Saiu para o Barreiro, onde em 1960/61 representou a equipa do Luso nos campeonatos distritais! Despediu-se de uma brilhante carreira no modesto Arrentela - também nos distritais - onde jogaria até 1963, ao mesmo tempo em que era empregado da Siderurgia Nacional.

Patalino regressou à sua amada Elvas nos últimos anos da sua vida, localidade onde viveu os melhores momentos de uma carreira que poderia ter contornos bem mais gloriosos, caso tivesse aceite propostas milionárias de clubes como o Real Madrid, o Atlético de Madrid, ou os franceses do Bordéus. Mas será que se Patalino tivesse dito que sim a esses tentadores - e irrecusáveis nos dias de hoje - convites poderia considerar-se um homem feliz? Se calhar não. A fama e o dinheiro não significavam tudo na Era do Futebol Romântico. Este é um bom exemplo disso.
Domingos Carrilho Demétrio faleceu em Elvas a 28 de junho de 1989. Ainda hoje, quem chega a Elvas vive a lenda de Patalino, não só pela boca dos poucos elvenses ainda vivos que em crianças o viram jogar, mas também porque o estádio municipal tem o seu nome, e onde está implantado um busto seu que assim perpétua a lenda daquele que é não só o mais famoso desportista elvense de todos os tempos, como também o mais afamado de todos os futebolistas nascidos no Alentejo.

Legenda das fotografias:
1-Patalino, com a camisola do seu amado O Elvas
2-Defendendo as cores do Sport Lisboa e Elvas
3-Uma equipa do SL Elvas na 1ª Divisão Nacional (Patalino é o jogador da fila de baixo que tem a bola)
4-Equipa de O Elvas na época de estreia na 1ª Divisão
5-Patalino com as cores da seleção nacional
6-Representando o Lusitano de Évora. Patalino efetuou um total de 189 jogos na 1ª Divisão, tendo marcado 118 golos!
7-O FC Serpa de Patalino, campeão nacional da 3ª Divisão
8-Busto de Patalino à entrada do Estádio Municipal Domingos Carrilho Demétrio "Patalino"

quarta-feira, outubro 16, 2013

Estrelas cintilantes (35)... Ben David

Não fosse o seu excesso de humildade e o facto de a estrela da sorte ter deixado de iluminar cedo de mais o seu caminho, quiçá hoje não estaríamos aqui a recordar uma das lendas dos futebol internacional da década de 50! Diz quem o viu jogar que talento para subir ao Olimpo dos Deuses do Futebol era coisa que não lhe faltava, e a provar isso - uma de muitas provas, aliás - o facto de os mestres ingleses o terem rotulado como o melhor avançado centro que até então tinham visto jogar!!!
Henrique Ben David, assim se chama a nossa estrela cintilante de hoje, considerado o primeiro grande diamante futebolístico extraído de Cabo Verde, onde nasceu a 5 de dezembro de 1926, mais concretamente na cidade do Mindelo, na ilha de São Vicente. Como tantos outros filhos de famílias pobres foi de pé descalço que nas artérias de terra batida conduzia com arte as bolas de trapos que com ele se cruzavam. Figura alta, esguia, com uma impulsão invulgar, detentor de um remate poderoso, e um cavalheiro a tratar o esférico, Ben David despertou de imediato a cobiça dos clubes locais, iniciando aquela que se adivinhava como uma promissora carreira no Clube Sportivo Mindelense, onde ingressou no escalão de infantis, ali permanecendo até aos 18 anos de idade, altura em que o seu talento era já gigante demais para continuar a figurar entre as idílicas paisagens do arquipélago de Cabo Verde.

Estávamos em 1946, e o seu destino seria a metrópole, o mesmo é dizer Portugal, e a sua capital, Lisboa. E desde logo vincou a sua faceta modesta, de moço adverso a ser o centro das atenções em grandes palcos - ou clubes neste caso - pelo que na hora de traçar o seu caminho na sede do Império Colonial escolheu o Unidos de Lisboa, ao invés dos gigantes Sporting, Benfica, e Belenenses, afamados emblemas da capital que tendo travado conhecimento com as qualidades do moço cabo-verdiano logo trataram de o agarrar para as suas fileiras. A razão pela escolha do modesto Unidos era simples, Ben David queria um emprego que lhe garantisse um futuro desafogado, porque o futebol, e parece que já pressentia a sua sina, era sol de pouca dura.
Porém, a empresa que suportava o Unidos de Lisboa deixou de o fazer, e o humilde cabo-verdiano teve de procurar outras paragens, outros portos de abrigo, longe das por vezes sinuosas estradas do estrelato futebolístico. A CUF acenou-lhe com um lugar cativo na sua equipa de futebol, e mais do que isso, muito mais importante para Ben David, um emprego como mecânico de automóveis na sua fábrica.
Mecânico de automóveis, este sim, o grande sonho daquele diamante cabo-verdiano.

No emblema do Barreiro andou pelos frios pelados dos escalões secundários durante duas épocas (45/46, e 46/47), tendo na primeira delas partilhado o ataque dos operários com dois homens que anos mais tarde - não muitos mais - haveriam de ascender ao tal Olimpo dos Deuses do Futebol. Eram eles Manuel Vasques, e José Travassos, que no Sporting se juntaram a Jesus Correia, Albano, e Fernando Peyroteo, edificando aquela que seria a orquestra mais virtuosa da história do futebol luso, os Cinco Violinos. Mas poderiam muito bem ter sido seis os violinos do clube lisboeta, caso Ben David não tivesse resistido a uma nova investida sportinguista ja em 1951, quando representou os leões - a convite destes - numa digressão que estes fizeram pelo Brasil. Em Terras de Vera Cruz David encantou, e pasmou os ocupantes do colossal Maracanã, o maior templo de futebol do Mundo daquela época, com os seus dotes de temível goleador.

Amor eterno ao Atlético

Na altura em que Ben David brilhou com a camisola leonina no Maracanã o seu coração era já do Atlético Clube de Portugal, popular emblema lisboeta que em 1947 apareceu na vida do talentoso cabo-verdiano. As enormes exibições ao serviço da CUF mais uma vez aguçaram o apetite dos grandes da capital, mas de novo Ben David fugiu dos holofotes mediáticos do futebol nacional, preferindo atravessar o (rio) Tejo em direção ao bairro de Alcântara, berço do pequeno Atlético. Ben David continuava assim fiel à humildade que caracterizava a sua personalidade.
Atlético que lhe ofereceu 500 escudos por mês, não se sabendo no entanto se o diamante africano terá continuado a exercer a sua amada profissão de mecânico na fábrica da CUF. Certo e sabido é que Ben David fez do emblema de Alcântara uma sombra dos grandes do desporto rei lusitano no que toca a lutar por galardões coletivos, isto é, títulos. Por outras palavras, Henrique Ben David colocou o Atlético Clube de Portugal no mapa do futebol português.
Demorou no entanto a afirmar-se na modesta coletividade, que por aqueles dias ocupava um lugar quase despercebido no primeiro plano nacional, isto é, a 1ª Divisão. Fez a estreia com a camisola do Atlético a 5 de outubro de 1947, num encontro ante o Belenenses.
Apesar de marcar muitos golos e de traçar nos retângulos nacionais ótimas exibições, Ben David só explodiu verdadeiramente na época de 1949/50, altura em que guiou o Atlético até um impensável 3º lugar na classificação final - ficando à frente dos grandes FC Porto, e Belenenses - de um campeonato ganho pelo Benfica, dos génios Julinho, Espírito Santo, Arsénio, ou Rogério Pipi.
Porém, uma temporada antes, os seus golos ajudaram o pequeno emblema a pisar pela segunda vez na história a relva sagrada do Estádio nacional, para discutir a final da Taça de Portugal. No duelo com o Benfica os rapazes de Alcântara venderam muito cara a derrota por 1-2.
Nesta célebre temporada de 49/50 os guarda-redes contrários foram vítimas do reconhecido poder de fogo do cabo-verdiano em 21 ocasiões, número apenas superado pelo benfiquista Julinho, o melhor marcador da prova, com 28 tentos.

Ingleses rendidos ao talento do diamante de Alcântara

As boas exibições do diamante daquela que era já a estrela cintilante dos rapazes de Alcântara fizeram com que em 1950 fosse chamado a representar a seleção nacional para o jogo com a poderosa Inglaterra, seleção esta então de má memória para o futebol luso, já que três anos antes havia vergado Portugal por uns humilhantes 10-0! O palco deste novo amigável era o mesmo da concludente derrota de 1947, o Estádio Nacional, cujas bancadas se apresentavam repletas de uma massa adepta que encarava este novo duelo com alguma expetativa e... receio. Estariam Sir Stanley Matthews - a estrela da seleção da rosa - e companhia a preparar outro massacre ao combinado luso? Era a questão que circulava nas graníticas bancadas do Jamor. A resposta chegou pelos pés do génio Ben David, que com uma exibição soberba fez passar quase por despercebidas as diferenças abismais que naquele tempo separavam o modesto futebol lusitano do evoluído football britânico. Apesar da derrota por 3-5 a seleção portuguesa mereceu rasgados elogios, que no plano individual se estenderam a Ben David, autor de dois golos. Reza a lenda que no final do jogo os mestres ingleses teceram rasgados elogios ao jogador do Atlético, classificando-o de tecnicamente muito evoluído, acrescentando que aquele rapaz era tão só o melhor avançado centro que até então tinham visto jogar! Ele que com aquela primeira internacionalização se havia tornado no primeiro nativo de Cabo Verde a vestir a camisola das quinas.

No plano interno, isto é, o campeonato nacional, a chama de Ben David continuava bem acesa, e nas temporadas de 50/51 e 51/52 ele continuou a liderar o seu Atlético no assalto aos lugares cimeiros da 1ª Divisão. Em 50/51 o clube de Alcântara foi 4º colocado, sendo apenas superado pelo campeão Sporting, Benfica, e FC Porto, sendo que plano individual a estrela do Atlético fez o gosto ao pé em 26 ocasiões, o seu melhor registo no escalão principal, ficando somente a três golos do seu ex-companheiro da CUF, o violino Vasques. 

Por aqueles dias o seu natural talento era já sobejamente conhecido no plano nacional e... internacional. De França chegou a Alcântara uma proposta de um afamado clube daquele país mostrando interesse em adquirir o diamante de Cabo Verde. Era o Stade Français, clube milionário parisiense que propôs a Ben David um luxuoso ordenado de seis mil escudos por mês, acrescido de mil e oitocentos escudos por vitórias obtidas fora de casa, mil por cada triunfo caseiro, e oitocentos escudos por empate. Para além desta tentação financeira, e sabendo da paixão de Ben David pela mecânica, o clube da capital gaulesa oferecia-lhe ainda uma espécie de estágio de especialização em mecânica numa fábrica à sua escolha entre as famosas marcas Citroen, Renault, e Peugeot. Perante estas ímpares condições Ben David não podia recusar a mudança para a majestosa capital francesa. Não recusou Ben David mas fê-lo o Atlético, que para libertar a sua joia pedia 300 contos ao Stade Français, verba essa desde logo recusada por estes, que assim desistiam do sucessor de... Peyroteo!

Sucessor de Peyroteo depara-se com o azar

Para muitos dos especialistas do fenómeno futebolístico daquele tempo Ben David reunia todas as condições para ser o maior avançado centro do país. Muitos diziam mesmo que o sucessor do lendário e feroz - na hora de rematar à baliza - leão Fernando Peyroteo - o maior avançado centro do futebol luso da primeira metade do século XX - estava encontrado. Faltava-lhe quiçá apenas dar o salto definitivo para um grande de Portugal, para poder traduzir em títulos a arte do seu jogo.
Mas Ben David era leal à sua humildade e modéstia, e sobretudo ao seu Atlético, e por Alcântara continuou, tendo em 51/52 realizado mais uma soberba temporada no plano individual ao apontar 24 golos, ficando a apenas quatro do então emergente homem golo do Benfica, José Águas, o melhor marcador do campeonato. Em termos coletivos 1951/52 não correu tão bem a Ben David, que viu o Atlético quedar-se por um modesto 12º lugar!
Em 1952/53 chegou à Tapadinha - o nome do estádio do Atlético - o lendário treinador Joseph Szabo, que tantos títulos havia somado ao serviço do FC Porto e do Sporting. E o que até aqui tinham sido rosas para o talentoso Ben David transformou-se num penoso calvário durante as três épocas que se seguiram. Uma grave lesão no menisco fez com que a sua carreira entrasse prematuramente na reta final. A magia que Ben David trouxera de África eclipsou-se, e até 1954/55, a sua derradeira época como futebolista, ele foi uma sombra de si mesmo! Não tinha sequer 30 anos quando pendurou as chuteiras! Em oito temporadas ao serviço do Atlético o rapaz do Mindelo apontou quase uma centena de golos (98 para sermos mais precisos) em 119 jogos oficiais, e mais do que isso perpetuou-se como o jogador mais lendário da história do popular clube de Alcântara.

Pela seleção nacional atuou em seis ocasiões, sendo que para além do histórico embate com a Inglaterra em 1950, defrontou ainda o País de Gales - a quem marcou um golo, em Cardiff, a 12 de maio de 1951 -, a Bélgica - que a 17 de junho de 1951 também conheceu a veia goleadora de David -, novamente a Inglaterra, e por fim a França, em Paris, a 20 de abril de 1952.
Aquele que outrora fora respeitado, admirado, e sobretudo temido, por adversários de vários quadrantes futebolísticos deixou cedo demais os campos de batalha, mas não o futebol.
Em 55 viaja para os Açores onde inicia uma carreira de treinador ao serviço do Santa Clara. Naquele arquipélago orienta ainda os conjuntos do União Sportiva, do Marítimo (da ilha Graciosa), e do União Micaelense. Posteriormente, e depois de deixar de vez o belo jogo, trabalhou na RTP Açores, sendo o responsável pelo programa Teledesporto.
Curioso, é que nasceu e morreu num arquipélago. Foi pois nos Açores - em Ponta Delgada - que no dia 5 de dezembro de 1978 - precisamente o dia em que completava 52 anos de vida - que o primeiro grande artista nascido em Cabo Verde deixou o mundo terrestre.

Legenda das fotografias:
1-Henrique Ben David com a camisola do seu Atlético
2-Um aspeto aéreo da fábrica da CUF nos anos 40
3-A entrada em campo de uma equipa do Atlético (Ben David surge em terceiro lugar a contar da esquerda para a direita)
4-Com a camisola da seleção nacional
5-Novamente envergando o manto sagrado do clube de Alcântara
6-A equipa do Atlético treinada por Joseph Szabo em 52/53
7-Uma das últimas imagens do homem nascido em Cabo Verde

terça-feira, maio 28, 2013

Estrelas cintilantes (34)... Magnar Isaksen


Com o avançar dos anos - desde a sua (re)criação - os Jogos Olímpicos tornaram-se num acontecimento mediático à escala mundial. A industrialização – as vias de comunicação, o telégrafo, a imprensa, a rádio, e mais tarde a televisão – ajudou a que as Olimpíadas da Era Moderna adquirissem o estatuto de maior espetáculo desportivo do planeta durante a primeira metade do século XX. De quatro em quatro anos olhares provenientes dos mais diversos pontos do Mundo centravam-se nas demonstrações da mestria atlética de homens das mais variadas raças, credos e religiões. Na qualidade de grande evento global os Jogos Olímpicos tornaram-se alvo de interesses políticos, adquirindo o papel de importante veículo de promoção de ideologias políticas. Olhando para as Olimpíadas como um instrumento para conquistar o poder, regimes políticos serviram-se do mediatismo do evento para vangloriar o seu nacionalismo e mostrar a superioridade da raça em relação às demais. O significado de uma medalha de ouro foi alterado, o que dantes premiava a excecionalidade de um atleta era visto pelos regimes políticos como um meio para mostrar ao Mundo a superioridade da sua nação em relação às suas congéneres. O atleta tornava-se assim num objeto do seu Estado de origem com a finalidade de evidenciar a supremacia de uma raça, enquanto que o mediatismo global do evento olímpico era visto como uma vitrine para que regimes políticos e/ou sociedades pudessem vincar no plano externo as suas ideologias políticas e/ou sociais. 


O ano de 1936 é um bom exemplo de como os meios políticos procuraram usar a popularidade dos Jogos Olímpicos para evidenciar ao Mundo as suas ideologias. Berlim acolheu nesse referido ano aquela que era já inequivocamente a maior manifestação desportiva do planeta. A Alemanha de então vivia sob o regime nazista comandado por Adolf Hitler. Vendo nos Jogos a ferramenta ideal para mostrar ao Mundo a superioridade da raça ariana o líder nazi não se pouparia a esforços para fazer destas as Olimpíadas mais espetaculares da história. 

Hitler montou uma autêntica máquina de propaganda política através dos Jogos. Com um orçamento ilimitado não deixou ao acaso o mínimo detalhe que pudesse colocar em perigo a sua estratégia de assalto ao poder através do mega evento desportivo. Um estádio olímpico foi construído propositadamente, e aos atletas alemães tudo era dado e permitido para que se pudessem preparar conveniente para o evento e desta forma conquistar o máximo número de medalhas de ouro que traduzissem a superioridade da raça ariana. 


O mediatismo dos Jogos atingia o ponto mais alto da sua história até então. 49 países marcavam presença em Berlim representados por cerca de 4000 atletas. Um recorde para a altura. Pela primeira vez a televisão associava-se ao evento, difundindo imagens do populismo nazi que tomou conta de Berlim para todo o Mundo. O maior evento desportivo do planeta estava transformado numa gigantesca manifestação de índole nazi perante o olhar do Mundo. Tudo parecia correr de feição a Hitler até ao momento em que surge um descendente de escravos que com a mestria da sua performance atlética desmoronou a máquina de propaganda nazi edificada por Hitler. Jesse Owens, era o nome deste norte americano que logo nas primeiras provas (de atletismo) dos Jogos de 1936 arrecadou quatro medalhas de ouro para espanto do planeta que seguia com atenção os desenlaces de Berlim.

A proeza do negro Owens desde logo se tornou numa epopeia que deitou por terra as aspirações de Hitler em transformar um evento desportivo de cariz global numa manifestação do regime nazista por si liderado. A saga de Owens fez com saísse de Berlim endeusado por todos, inclusive pelo próprio público alemão, com exceção de Adolf Hitler, por motivos óbvios, claro está.
Bom, esta pequena sinopse retrata não só um pouco a essência dos Jogos (re)criados pelo Barão Pierre de Coubertin nos finais do século XIX como também uma das edições mais mediáticas da história deste mega evento desportivo global. Mas o que ainda hoje muita gente desconhece é que não foi apenas Owens o causador dos planos de Hitler terem ido por água abaixo em 1936. E é aqui que se inicia esta nossa viagem ao passado... 

Jesse Owens pode até ter sido o elemento mais mediático a desencadear a revolta - diria mesmo o ódio - de Adolf Hitler pelo facto de os seus discípulos terem sido humilhados, mas um outro homem, cujo foco da carreira desportiva praticamente se resumiu à efeméride que hoje vamos recordar, o facto que o tornou imortal na história do futebol, teve igualmente uma grande parte da responsabilidade por deixar furioso o... fuhrer. O seu nome é Magnar Isaksen, futebolista norueguês que integrou a lendária seleção nórdica que participou no torneio olímpico de futebol em 1936. Futebol que apesar da sua (já) vincada popularidade por aqueles dias até esteve para nem figurar no cartaz olímpico de Berlim! Ao que parece Hitler detestava o belo jogo (!), mas como este era tão só a modalidade rainha do planeta o fuhrer não teve dúvidas em inclui-lo no programa olímpico, e assim tirar partido da popularidade do jogo. Para a sua seleção nada faltou, tratando os seus futebolistas como verdadeiros membros da realeza, com o intuito de agarrar o ouro olímpico e assim atrair até si as luzes da ribalta
E as coisas até nem começaram nada mal para os germânicos, que na primeira ronda do torneio esmagaram o Luxemburgo por 9-0, para contentamento dos pares de Hitler, os quais após a pomposa vitória correram de imediato a avisar o fuhrer do massacre que haviam infringido aos frágeis luxemburgueses. Talvez devido a esse entusiasmo, o líder nazi fez questão de aparecer no encontro seguinte, a contar para os quartos-de-final, cujo adversário era a Noruega, que na eliminatória inicial se havia desenvencilhado da Turquia por 4-0. 

Reza a lenda que até então Adolf Hitler nunca havia presenciado uma partida de futebol (!), mas convencido pelos seus pares decide marcar presença no pomposo Estádio Olímpico de Berlim para ver a sua Alemanha ganhar e desta forma subir mais um degrau rumo ao ouro olímpico. Sim, ganhar, pois não lhe passava pela cabeça que depois dos nove golos aplicados aos luxemburgueses a sua equipa pudesse cair aos pés daqueles desconhecidos noruegueses. Aliás, os seus pares haviam-lhe garantido que a Alemanha não iria perder!!! Como estavas enganados. 

Não só caíram, como caíram com estrondo, graças a uma tarde inspirada do até então desconhecido avançado Magnar Isaksen. Atleta este nascido a 13 de outubro de 1910, na cidade costeira de Kristiansund, iniciando a sua - praticamente enigmática - carreira no clube da sua terra. Seria no entanto ao serviço do gigante norueguês Lyn (da capital Oslo) que Isaksen percorreu a maior parte do seu trajeto futebolístico. 1936 é na realidade um ano inesquecível na vida da nossa estrela cintilante de hoje, já que a 26 de julho faz o seu debute com a seleção nacional norueguesa, num encontro particular ante os vizinhos da Suécia. Uma estreia que não poderia ter corrido melhor, já que além da vitória (4-3) Magnar, que então contava com 26 anos, fez um dos golos da sua equipa. Se dúvidas existissem esta performance do avançado do Lyn convenceu o selecionador nacional Asbjorn Halvorsen a dar-lhe o cartão de embarque para Berlim, onde a Noruega iria escrever a página mais bela da sua história futebolística. Depois da já referida robusta vitória sobre a Turquia os noruegueses enfrentavam a turma da casa. 

Sem se intimidar com a presença de Adolf Hitler na tribuna de honra Magnar Isaksen silenciou por completo o estádio olímpico logo aos 7 minutos, quando pela primeira vez na tarde bateu o guardião Hans Jakob. Hitler terá gelado por esta altura, mas será que este não era mais do que um mero golpe de sorte de um duelo que ainda nem sequer tinha aquecido? Não, já que a Noruega controlou a contenda a seu bel prazer, e confirmaria essa superioridade já muito perto do fim - 83 minutos - e de novo pela estrela da tarde, Magnar Isaksen. 2-0, resultado final. Hitler, de cara fechada, de pronto abandonou o estádio olímpico, furioso, ao passo que Isaksen passava a ser inimigo eterno do fuhrer, tal como Jesse Owens, enquanto que para o seu povo ascendia à categoria de herói nacional.
A Noruega avançada para as meias-finais contra todas previsões, fase esta onde iria cair aos pés da futura campeã olímpica, a Itália. O prémio para a inolvidável façanha norueguesa viria com a conquista da medalha de bronze, após um trunfo sobre a Polónia por 3-2. Para sempre esta seleção nórdica ficaria conhecida como a equipa de bronze

Esta geração de futebolistas de um país que raramente marcou presença em grandes eventos futebolísticos viveu ainda um segundo momento inesquecível, dois anos após a epopeia de Berlim, em França, país que acolheria a fase final do Campeonato do Mundo. Noruega que era um dos 15 participantes, sendo que os caprichos do sorteio ditaram que a Itália - campeã do Mundo e olímpica em título - seria o adversário na primeira eliminatória. Na tórrida tarde de 5 de junho de 1938 Magnar Isaksen fazia parte do onze nórdico que subiu ao relvado do Stade Velodrome para enfrentar Giuseppe Meazza e companhia. E o que se assistiu foi a mais uma magnífica exibição norueguesa, obrigando a squadra azzurra a horas extras - isto é, prolongamento - para passar à eliminatória seguinte. 2-1 a favor dos italianos - que viriam a consagrar-se neste campeonato de novo senhores do Mundo - mas a Noruega saiu de cena debaixo de fortes aplausos. 

Entre 1936 e 1938 Magnar Isaksen vestiu em 14 ocasiões a camisola da sua seleção, ao serviço da qual apontou cinco golos, sendo que dois deles - os de Berlim - fizeram dele uma lenda. Uma figura lendária não por ter sido um atleta extraordinário, nada disso, até porque a Noruega teve futebolistas de maior craveira, mas lendário porque foi graças ao seu instinto matador que Adolf Hitler ficou a detestar ainda mais o futebol no único jogo a que assistiu na sua vida! Magnar Isaksen faleceu a 8 de junho de 1979.

Legenda das fotografias:
1-Magnar Isaksen 
2-Imagem do histórico jogo que colocou frente a frente a Alemanha e a Noruega nos Jogos de Berlim, em 1936
3-O imortal onze norueguês que enfrentou os germânicos, com Isaksen na fila de cima (identificado com um círculo)
4-Noruega enfrenta a Itália no Mundial de 1938.