sexta-feira, abril 06, 2018

Histórias do Futebol em Portugal (18)... Académica versus... Académica

A 4 de junho de 1980 era escrito no templo Santiago Bernabéu um capítulo muito peculiar da História do Futebol: o Real Madrid enfrentava na final da Copa del Rey o… Real Madrid! Para tornar a “coisa” um pouco mais confusa para o leitor menos familiarizado com as efemérides do Planeta da Bola, digamos que o colosso da capital espanhola se defrontou a si mesmo na final da Taça de Espanha da temporada 1979/80! E não, não foi num jogo de treino entre os jogadores do então plantel merengue, foi mesmo um jogo oficial! Passamos a decifrar este enigma.

A equipa principal do Real Madrid defrontou nessa mítica e inédita final a sua congénere B, na altura denominada de Real Madrid Castilla. Para nos enquadrarmos melhor com este cenário, isto seria a mesma coisa que ver um dos chamados “três grandes” do nosso futebol defrontar a sua equipa B numa partida oficial.

Cenário que hoje é impensável à luz dos regulamentos, tanto em Portugal como além fronteiras, mas que naquela altura foi uma realidade.

Não vamos falar hoje (de forma esmiuçada) da caminhada de glória dos niños do Castilla até à final da Copa, onde seriam derrotados (outra coisa não seria de esperar) pelo progenitor merengue por 6-1, mas vamos sim recordar um episódio passado em Portugal com algumas semelhanças com esta fábula castelhana.

A equipa da Académica/SF na temporada de 2014/15


E esta história leva-nos a Coimbra, a cidade dos estudantes e de outros encantos, que num passado muito recente – em 2014 – assistiu a um duelo de… Académicas! Académica só há uma, pensarão por esta altura alguns leitores, mas na realidade, hoje, a cidade beijada pelo Mondego é berço de duas Associações Académica de Coimbra. Por palavras mais objetivas, a Académica/Secção de Futebol (SF) e a Académica/Organismo Autónomo de Futebol (OAF).

Sem dúvida que a existência de dois clubes sob a essência, digamos assim, de apenas um emblema é um tema polémico em Coimbra e que tem dividido a cidade. Não vamos abordar minuciosamente este dilema, rodeado da tal polémica e motivo de acesas discussões em terra dos doutores, mas antes recorda um capítulo desportivo destes dois clubes... ou simplesmente deste clube, porque para muitos opinadores a Académica é só uma.



Tal episódio aconteceu na temporada desportiva de 2014/15, quando quis o destino que a SF da Académica defrontasse na 1ª jornada do Campeonato da Divisão de Honra da Associação de Futebol de Coimbra (AFC) a equipa B do OAF da Académica. Um duelo entre duas Briosas com ideologias distintas. A SF guarda em si a mística do clube constituído apenas e só por jogadores estudantes (da velha e lendária Universidade de Coimbra), atletas que entram em campo de capa aos ombros por entre gritos de F-R-A como nos velhos tempos da Briosa. À boa maneira estudantil coimbrã, portanto.

A SF foi reativada em 1977 após três anos antes o clube ter sido dissolvido e dado lugar ao então Clube Académico de Coimbra. Por sua vez, este deu origem ao Organismo Autónomo de Futebol, criado em 1984, sendo este o lado da Académica profissional, digamos assim, da Académica que hoje milita na II Liga do futebol português. 
 

Dois clubes, duas realidades distintas na defesa do mesmo emblema. Na SF joga-se única e exclusivamente por amor à Briosa, não há salários, é o verdadeiro clube dos estudantes (dizem em Coimbra); ao passo que no OAF o profissionalismo é há mais de 30 anos uma realidade, não existe a obrigatoriedade dos jogadores virem – ou frequentarem - da academia. No entanto, há igualmente quem defenda que o amor à Briosa é comum, e que de certa forma foi estranho ver as duas Académicas defrontarem-se pela primeira vez num jogo oficial de seniores naquela tarde de 28 de setembro de 2014, no Estádio Universitário de Coimbra diante de três centenas de adeptos. Uns confessavam o seu apoio à OAF, outros a sua paixão e admiração pela SF, outros apresentavam-se ainda de coração dividido, mas em comum todos tinham o amor pela Académica. O resultado final deste jogo será possivelmente o que menos importará neste confronto histórico: 3-1 para a SF que nessa temporada iria vencer a Divisão de Honra da AFC e ascender ao Campeonato Nacional de Seniores, ao passo que a equipa B do OAF quedou-se pelo 5º lugar da classificação final – recorde-se que a equipa principal do OAF disputava nessa época a I Liga. 
 

As duas Académicas iriam voltar a encontra-se na segunda volta dessa Divisão de Honra 14/15, desta feita no Campo Ramos de Carvalho, tendo a SF voltado a levar a melhor sobre o seu clone – pelo menos na designação –, desta feita por 4-3.

No entanto, para a história fica mesmo o primeiro confronto, até então inédito no escalão sénior, jogo esse que o Jornal de Notícias deu destaque na sua edição de 29 de setembro de 2014, num texto assinado pelo jornalista João Pedro Campos, que aqui postamos para a eternidade.



Secção de Futebol da Académica leva a melhor sobre o Organismo Autónomo num duelo entre amigos



JOGO A DOER PARA A HISTÓRIA DA BRIOSA



A primeira vez na história que a Secção de Futebol (SF) e Organismo Autónomo de Futebol (OAF) da Académica se defrontaram, em jogo a contar para a primeira jornada da Divisão de Honra da Associação de Futebol de Coimbra, teve de tudo, no Estádio Universitário de Coimbra. Desde o tradicional “canelão” – cerimónia de batismo dos novos jogadores – feito pelas duas equipas, a uma roda e um F-R-A conjunto, e um ambiente de grande desportivismo e amizade entre todos os intervenientes, numa atmosfera rara para um encontro em que havia três pontos em disputa.



Os três pontos, esses, foram para a Académica/SF, que venceu por 3-1. Sérgio Garcês (14), Dany Marques (82) e Eduardo Seixas (84) entraram para a história da Secção, ao marcar os primeiros golos de sempre à formação com quem partilham o emblema, a casa-mãe e a história. Rui Pereira, aos 90+4, reduziu para a equipa sub-23 (ou B) da Académica. Um resultado justo, para a equipa que mais procurou a baliza adversária. Mas, no final, os espectadores aplaudiram as duas equipas, sem ligar muito a vencedores e vencidos.



Cinco golos gritados



Na primeira parte estou por uma equipa, na segunda parte estou pela outra”. A frase foi dita por uma jovem presente na bancada antes do início da partida. Entre as cerca de três centenas de espectadores que marcaram presença no Estádio Universitário, algumas caras conhecidas, com o presidente da Académica, José Eduardo Simões, à cabeça. Nuno Oliveira, candidato derrotado nas últimas eleições do clube, em maio, também não faltou, bem como o presidente da Direção-Geral da Associação Académica de Coimbra, Bruno Matias.



As bancadas mostraram-se divididas, mas com algum ascendente da Secção de Futebol – neste jogo a atuar de branco -, cujos lances eram acompanhados de maior entusiasmo por parte de quem se deslocou ao estádio. O extremo Sérgio Garcês protagonizou a primeira explosão de alegria no encontro, aproveitando a atrapalhação da defesa do OAF. Mas o momento de maior euforia vivida dentro e fora do campo, surgiu ao minuto 82, quando Dany Marques – um dos muitos ex-Académica/OAF que representam a equipa universitária –, ampliou a vantagem, com jogadores e treinadores da SF abraçados.



O dado mais curioso vindo da bancada foi, num jogo com quatro golos, se terem gritado cinco. Tudo porque, ao mesmo tempo, também a Académica (equipa principal da OAF) jogava, e marcava em Arouca, conquistando a primeira vitória na I Liga.



ENTREVISTA A EDUARDO SEIXAS (autor de um dos golos da SF nesse dia)



28 homens (os 22 titulares mais os seis suplentes utilizados no decorrer da partida) entraram em campo nesse dia 28 de setembro de 2014 para defender as cores da... Académica. Um deles foi Eduardo Seixas, jovem atleta que atuou pela Académica/SF e que até marcou um dos golos do triunfo da equipa que naquele dia equipou de branco. Seixas, então estudante de Ciências do Desporto em Coimbra, esteve no Museu Virtual do Futebol, onde numa breve conversa recordou as emoções daquele histórico dia.



Museu Virtual do Futebol (MVF): O Seixas subiu ao relvado do Estádio Universitário de Coimbra na condição de titular da equipa da SF para enfrentar o OAF. Que sentimentos carregava consigo naquele dia histórico ao defrontar a Académica pela... Académica?

Eduardo Seixas (ES): No meu caso específico, e de alguns outros colegas, que como eu já tinham jogado no lado contrário (no OAF), o sentimento foi de responsabilidade tremenda. Não só por termos a necessidade de provar que no OAF estavam errados quando não apostaram na nossa continuidade, mas igualmente pela conotação negativa que era dada à nossa equipa. Quisemos provar que não havia uma Académica 'boa' e uma Académica 'má'. E que apesar da falta de financiamento e de condições, quando comparado com os nossos “adversários”, tínhamos condições de fazer algo muito positivo. E como é óbvio, queríamos dignificar o símbolo que carregávamos ao peito.



MVF: Como foram vividos aqueles dias que antecederam o jogo, isto é, como é que a cidade de Coimbra estava a encarar aquela partida?

ES: Havia muita divisão de opiniões. A discussão principal era qual seria a “verdadeira” Académica, mas também se levantavam questões quanto à lógica deste jogo. Pois a Académica devia estar unida numa só.



MVF: Pegando nesta sua resposta, qual era a opinião quer do Seixas e de outros colegas seus da SF em redor deste encontro. Fazia sentido duas “Académicas” defrontarem-se no terreno de jogo?

ES: Mesmo no nosso balneário havia alguma divisão de opiniões. Este é um tema de ampla discussão, devido às origens de cada uma das equipas. Mas nessas semanas o nosso foco foi a vitória no jogo , e não tanto responder à questão se fazia ou não sentido a realização deste jogo...



MVF: ...Certo, mas o Seixas além de representar a SF também fez formação no OAF. Nesse sentido conhece bem os dois lados. E pergunto-lhe, qual é a verdadeira Académica?

ES: Não acho que haja uma “verdadeira” Académica. Nos primórdios da sua história a Académica só podia ser constituída por estudantes, e para se competir a um nível superior essa restrição dificulta o processo. Por aí procurou-se profissionalizar a Académica, formou-se então a Académica/OAF, mas acredito que ambas (as equipas) partilham os mesmos valores e ideologias. Uma num contexto profissional, e outra num contexto amador.



MVF: Mas faz sentido na sua opinião esta divisão? Ou por outro lado, acha que o profissionalismo (do futebol) e a academia (estudantes) podiam conviver perfeitamente num só clube?

ES: Penso que estas duas vertentes podem encaixar perfeitamente uma na outra, desde que haja coordenação entre ideologias.



MVF: Voltando ao jogo, ao histórico jogo entre as duas Académicas. O Seixas marcou um golo, que significado teve para si esse golo?

ES: Foi um golo especial, um turbilhão de emoções. Era um jogo que por si só gerava imensa expectativa, e eu sentia que tinha algo a provar por já ter estado do “lado de lá”. Mas também muito feliz por saber que estávamos a iniciar a nossa caminhada rumo a um objetivo (subida de divisão) nunca antes conseguido.



MVF: E o público, como estava nesse dia? Vocês sentiam divisões (no apoio) na bancada?

ES: Aqueles que estiveram presentes nesse dia foram os mesmos que nos acompanharam em toda a caminhada, por isso a única coisa que sentimos foi apoio.



MVF: Foi um jogo especial para Coimbra e ao mesmo tempo estranho (?)...

ES: Acho que foi um misto desses dois sentimentos!


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