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sexta-feira, janeiro 26, 2007

Estrelas cintilantes (4)... Adelino "Billy" Gonsalves - O Babe Ruth do soccer com sangue lusitano

De volta ao corredor das “estrelas cintilantes”, vamos hoje conhecer um homem que muitodos críticos do futebol a nível internacional consideram como o melhor jogador norte-americano de todos os tempos. Estamos a falar de Adelino Gonsalves, ou melhor, Billy Gonsalves, o “nome de guerra” que o tornou célebre nas décadas de 20 e 30 do século passado, não só no futebol norte-americano como também no futebol internacional.
Descendente de portugueses (como o próprio nome indica) Adelino “Billy” Gonsalves nasceu a 10 de Agosto de 1908, em Portsmouth (Rhode Island, Estados Unidos da América) dois anos depois de os seus pais se terem mudado da ilha da Madeira para os Estados Unidos da América (EUA). Poucos anos depois de Billy ter nascido a família mudou-se para o estado de Massachusetts, mais precisamente para Fall River. Um local povoado por muitos emigrantes ingleses e escoceses que trabalhavam nas fábricas de têxteis lá existentes e que faziam do futebol o seu principal “divertimento”. Esta era também a cidade do poderoso clube Fall River Rovers, uma super-potência futebolística dos EUA dos princípios do século XX. Foi este o clube que captou Billy, que antes de tornar futebolista foi não só um talentoso pugilista como também um excelente jogador de basebol. Billy, alcunha dada ao jovem Adelino Gonsalves pelos jogadores escoceses e ingleses do Fall River Rovers, rapidamente ficou conhecido pelo seu poderoso remate e inúmeros clubes tentaram contrata-lo para os seus quadros. Com 1,88m de altura (um gigante para a época), ele igualmente um jogador muito bom no jogo aéreo e possuía uma magnífico controle de bola. Apesar de ter as características ideais para um 'matador', ele era mais conhecido pelas suas assistências. Prova disso é que seus companheiros de ataque eram frequentemente os melhores marcadores dos campeonatos onde competiam. Com Bert Patenaude formaria uma dupla “letal” no Fall River Rovers, ajudando o clube a vencer a US Open Cup (o título mais importante dos EUA) por duas ocasiões (1930 e 1931).
Ele venceria esta prova por mais seis vezes - em representação de outros emblemas norte-americanos - , um recorde que perdura até aos dias de hoje.
Depois do Fall River Rovers actuaria, ao longo de 14 anos de carreira, em mais nove equipas, entre outras o Lusitania Recreation, Brooklyn Hispano, The Boston Wonder Workers, New Bedford Whalers, New York Yankees, St. Louis Central Breweries ou o St. Louis Shamrocks, sendo que nestes dois últimos clubes actuou na Major Soccer Leage (MSL), o principal campeonato norte-americano. Em todas estas equipas Billy coleccionou diversos títulos, quer nacionais quer distritais.
Numa altura em que a MSL atraia alguns dos melhores jogadores ingleses e escoceses, não foi pois de estranhar que a selecção nacional dos EUA que disputou o Campeonato do Mundo de 1930 (no Uruguai) fosse composta na sua maioria por atletas oriundos destes dois países.
Selecção esta que brilharia a grande altura nesse Mundial - o primeiro da história -, tendo conquistado um brilhante e surpreendente 3º lugar, a melhor classificação de sempre de uma selecção dos EUA em fases finais de Campeonatos do Mundo. A boa participação dos “yankees” deveu-se, pois, ao facto de a equipa contar com muitos jogadores britânicos naturalizados, mas a grande estrela da companhia era nada mais nada menos do que Adelino “Billy” Gonsalves. Apesar de não ter feito nenhum golo nesse Mundial, ele chamaria à atenção dos grandes especialistas em matéria de futebol (jornalistas, treinadores, dirigentes, jogadores e adeptos).
Após o Mundial, o seleccionado norte-americano fez uma série de jogos amigáveis no Brasil, e o desempenho de Gonsalves foi tão bom que o Botafogo chegou a oferecer-lhe um contrato, mas o americano preferiu voltar para seu país. Quatro anos mais tarde (1934), Billy jogaria novamente uma fase final de um Mundial ao serviço dos EUA, desta feita em Itália, onde mais uma vez deixou uma excelente impressão, tendo recebido propostas de várias equipas transalpinas, que seriam recusadas, pois ele preferiu – mais uma vez – voltar para os “states”, onde jogaria até aos 38 anos de idade. É considerado por muitos como o maior e melhor jogador norte-americano de todos os tempos, tendo sido apelidado de o “Babe Ruth (o maior jogador de basebol dos EUA da história) do soccer (futebol) norte-americano”. Dele disse um dia outro célebre jogador norte-americano - de nome Jack Hynes -,... «Pelé foi um fenomenal jogador, mas não era nada comparado com Billy Gonsalves...»! E esta, hein?
Esta lenda do futebol norte-americano e internacional morreu em Nova Jersey, a 17 de Julho de 1977, com 69 anos de idade. O seu nome e memória continuam bem vivos no “National Soccer Hall of Fame” (Museu do Futebol dos EUA, em Oneonta, Estado de Nova Iorque), inaugurado em 1950, tendo Billy sido um dos primeiros nomes a integrar um museu que hoje em dia agrega inúmeras lendas que passaram pelo “soccer das terras do Tio Sam”, tais como Pelé, Beckenbauer, Carlos Alberto, Eusébio, entre outros...



Legendas das fotografias:

1- Adelino "Billy" Gonsalves
2- Equipa dos EUA que consquistou o 3º lugar no Mundial de 1930 (no Uruguai)
3- Medalha (de Billy) do 3º lugar no Mundial de 1930
4- O "cantinho" de Gonsalves no Museu do Futebol dos EUA
5- A camisola que Billy envergou nos Lusitania Recreation, a qual se encontra exposta no Museu do Futebol dos EUA
6- Várias medalhas (consequentes dos muitois títulos arrecadados) conquistadas por Gonsalves, também expostas no Museu do Futebol dos EUA)

segunda-feira, dezembro 23, 2013

Momentos altos da vida... da seleção nacional dos Estados Unidos da América

Decorrem (ainda) neste ano de 2013 os festejos do centenário da United States Soccer Federation (Federação de Futebol dos Estados Unidos da América). 100 anos de uma instituição que tem ao longo da sua existência travado uma luta feroz contra a impopularidade, por assim dizer, da qual o soccer (futebol) foi, num passado não muito distante, vítima num país onde outras modalidades - como o basquetebol, o basebol, o hóquei no gelo, ou o futebol americano - sempre foram amadas de uma forma desmedida e têm gerado ao longo de décadas verdadeiras lendas do desporto planetário. No entanto, e ainda para alguns, o soccer ainda é, de forma incompreensível, o parente pobre do desporto da Terra do Tio Sam. Contudo, o país que ainda - e volto a sublinhar outro "ainda" - é olhado - sobretudo na Europa - como tosco na arte de manusear a redondinha teve os seus momentos brilhantes na história do futebol mundial. Recordemo-los pois então...
New York Astor Hotel House em 1913
Quis o destino que a cintilante Nova Iorque fosse o berço da United States Soccer Federation. No New York Astor Hotel House, situado nas proximidades da mundialmente famosa Times Square, um grupo de figuras ligadas à modalidade importada para a América pela mão de imigrantes europeus em meados do século XIX fundou a 5 de abril de 1913 a United States of America Football Association (USFA), a primeira designação do organismo máximo do soccer norte-americano, que só a partir da segunda metade do século XX se iria denominar United States Soccer Federation. Randolph Manning seria eleito o primeiro presidente do recém criado organismo, que no ano seguinte era aceite pela FIFA como membro da entidade que tutela o futebol a nível global.
A primeira seleção nacional dos EUA, que em Estocolmo efetuou o primeiro jogo da sua centenária história
A partir de então a USFA desenvolveu algumas competições nacionais para coroar os clubes que iam surgindo aqui e ali um pouco por todo o extenso território norte-americano, com destaque para a US Open Cup (a taça nacional), cuja primeira edição ocorreu precisamente em 1914. Seria no entanto preciso esperar até 1916 para ver o primeiro onze nacional - vulgo, seleção nacional - entrar em campo. Facto histórico ocorrido a 20 de agosto do citado ano, altura em que o combinado yankee enfrentou a Suécia, em Estocolmo, no primeiro de cinco encontros amigáveis de uma digressão feita por terras suecas e norueguesas com vista à preparação para o torneio olímpico de 1916, o qual viria a ser posteriormente cancelado devido à I Guerra Mundial. E na capital sueca a US National Team teve uma estreia feliz, vencendo os nórdicos por 3-2. Capitaneada por um dos grandes ícones do soccer norte-americano da época, Thomas Swords, lendário avançado que atuava no Fall River Rovers, os soccer boys enfrentavam uma experiente Suécia no plano internacional - os nórdicos já haviam disputado anteriormente, e desde 1890, 31 jogos. Diante de 21 000 espetadores - onde entre os quais se destacava o rei da Suécia, Gustavo V - os Estados Unidos da América (EUA) apresentaram-se muito bem organizados sobre o terreno de jogo, surpreendendo então os suecos com um triunfo por 3-2. Tommy Swords entrou para a história, pois foi dos seus pés que nasceu o primeiro golo oficial da US National Team. Harry Cooper, e Charles Ellis fizeram os restantes golos dos estreantes norte-americanos.
Seleção norte-americana que esteve presente em Paris nos Jogos Olímpicos de 1924
A bela cidade de Paris acolhe em 1924 a sétima edição dos Jogos Olímpicos. No cartaz do evento surge o torneio de futebol, na época considerada a prova mais importante do calendário internacional, já que vencer as Olimpíadas no retângulo de jogo era o equivalente a ser coroado de... rei (campeão) do Mundo. Entre as 22 equipas nacionais presentes figurava a dos EUA, que faziam desta forma a sua estreia numa competição de âmbito internacional. E logo no maior palco de todos. Para a capital gaulesa o selecionador nacional George Burford levou alguns dos melhores intérpretes do soccer americano da altura, caso dos guarda-redes Jimmy Douglas, ou do avançado Andrew Stradan. E seria este último atleta a entrar para a história, já que foi dele o único golo com que os yankees derrotaram a Estónia em jogo alusivo à 1ª eliminatória da competição, realizado em Pershing Park, e no qual o lendário guardião Jimmy Douglas foi eleito o melhor em campo, garças a uma soberba exibição que segurou a magra mas saborosa vitória. O sonho americano terminou na eliminatória seguinte, fase onde encontraram a mágica seleção do Uruguai, liderada desde o setor recuado pelo homem que haveria de sair de Paris endeusado, com a alcunha de Maravilha Negra, Falamos de José Leandro Andrade, claro. 3-0 para os uruguaios, que mais tarde haveriam de se consagrar como campeões olímpicos, ou do Mundo, como na época eram rotulados.
Quatro anos mais tarde foi a vez de Amesterdão receber os Jogos Olímpicos, e mais uma vez o Uruguai voltaria a provar que era de facto a maior potência do futebol internacional ao nível de seleções, abraçando mais uma vez o título olímpico. Na cidade holandesa também estiveram os yankees, que assim continuavam a figurar entre a elite do futebol internacional. George Burford voltou a ser o selecionador dos EUA, o qual pela frente teve uma tarefa árdua para fazer boa figura em solo europeu. E na verdade os EUA foram vítimas de si próprios nesta sua segunda aparição internacional, ou melhor vítimas da má organização da USFA, que ignorou por completo os apelos de George Burford para que não fosse reunida uma equipa à última da hora antes do embarque para a Europa. O que é certo é que nas vésperas da partida para Amesterdão foram realizadas à pressa duas sessões de treinos de captação com diversos jogadores, sendo 16 deles escolhidos para vestir a camisola nacional nas Olimpíadas. Conclusão, em Amesterdão os EUA sairam cedo de cena no seguimento de uma tremenda goleada imposta pela Argentina: 11-2. Para esquecer.
A lendária seleção yankee que em 1930 conquistou, em Montevideu, a sua melhor classificação de sempre num Campeonato do Mundo
Apesar da má imagem deixada em Amesterdão os EUA foram uma das seleções convidadas pela FIFA para em 1930 marcar presença na primeira edição do Campeonato do Mundo. O Uruguai, e a sua capital Montevideu, tiveram o privilégio de presenciar o primeiro capítulo da história da maior competição futebolística do planeta. 13 seleções estiveram na América do Sul, entre elas uns EUA muito... europeus. E assim o eram pois o selecionado do técnico Bob Miller era composto na sua esmagadora maioria por imigrantes ingleses e escoceses, embora a grande maioria deles vivesse em solo americano desde a adolescência. Foi pois com um estilo muito britânico que a seleção norte-americana se apresentou em Montevideu, estilo esse ao qual seria acrescentada uma pitada do futebol mais técnico do sul da Europa, graças à arte futebolística de um tal de Billy Gonsalves. Sobre este luso descendente o Museu Virtual do Futebol já dedicou longas linhas noutras viagens ao passado, pelo que há apenas a repetir o facto de que para muitos ele foi o melhor jogador de todos os tempos a vestir a camisola dos EUA. Billy Gonsalves, filho de pais madeirenses, era a estrela do combinado de Bob Miller, e um dos responsáveis pela magnífica campanha que os yankees fizeram em solo uruguaio. Gonsalves podia até ser o maestro da orquestra montada por Miller, mas outros músicos de inegável gabarito faziam parte daquele lendário grupo, casos do regressado guardião Jimmy Douglas, Bart McGhee, Bert Patenaude, ou Tom Florie. Integrados no grupo 4 os States deram uma lição à Bélgica no primeiro encontro da chave, disputado no Parque Central, diante de pouco mais de 18 000 pessoas. 3-0 a favor de Billy Gonsalves e companhia, pertencendo a McGhee (aos 23m), Florie (aos 45m), e Patenaude (69m) a autoria dos remates certeiros.
No encontro seguinte, diante do Paraguai, de novo a chapa 3 foi aplicada pelos yankees aos seus opositores, neste caso com o destaque individual a ir inteiramente para Bert Patenaude, autor dos três tentos, atleta que se tornava desta forma no primeiro futebolista a alcançar um hattrick em fases finais de Campeonatos do Mundo. Com estas duas vitórias os EUA estavam desde logo apurados para as meias-finais do torneio! Quem diria, ainda para mais depois da pobre imagem deixada em Amesterdão dois anos antes. A aventura acabaria no majestoso Estádio Centenário, diante da Argentina, que derrotou os norte-americanos por 6-1, mas com uma pequena ajuda extra do árbitro belga John Langenus, que na voz dos yankees fez vista grossa ao jogo violento dos argentinos que dias mais tarde iriam perder o título mundial para o Uruguai. No final da festa o terceiro lugar do pódio seria ocupado em ex-aequo pela Jugoslávia e pelos EUA, que desta forma arrecadavam a sua melhor classificação numa fase final de um Mundial.
A boa imagem deixada em Montevideu contrastou com a pálida performance patenteada quatro anos mais tarde em Roma, na fase final do Mundial de 34. Diante da poderosa seleção da casa, orientada pelo mestre da tática Vittorio Pozzo, os estado-unidenses - orientados pelo técnico David Gould - foram atropelados por 7-1 (!), cabendo a um descendente de italianos, de seu nome Aldo Donelli, apontar o tento de honra dos EUA, que no seu grupo tinham ainda as lendas Billy Gonsalves, e Tom Florie, os únicos que restavam da seleção de 1930.
Os homens que em 1950 escandalizaram o planeta do futebol
Depois de mais uma pobre prestação olímpica em 1948, onde os EUA voltaram a ser goleados pela Itália de Pozzo, desta feita por 9-0, na 1ª eliminatória dos Jogos de Londres, eis que a história do soccer estado-unidense escreve o seu capítulo mais famoso. Capítulo esse traçado no decorrer da fase final do Campeonato do Mundo de 1950, que nesse ano foi realizado no Brasil, onde os amadores yankees provocaram o maior escândalo da história do belo jogo. Sobre ele já traçámos diversas linhas aqui no Museu, recuperando pois agora para esta viagem ao passado algumas dessas linhas que relatam a impensável vitória do modesto selecionado dos EUA sobre a poderosa Inglaterra.
Belo Horizonte, e o Estádio da Independência, fazem parte do cenário desse célebre encontro - referente à 1ª fase do Mundial - ocorrido na tarde de 29 de Junho. Inglaterra que era considerada uma das seleções favoritas para vencer o torneio, juntamente com Brasil, a Suécia e a Itália. Mas, desde o início, a realidade foi bem diferente das previsões. Lutando contra um intenso calor, a seleção inglesa sofreu a bom sofrer para vencer o Chile por 2-0 na sua estreia na Copa, no Estádio do Maracanã. Ingleses que, refira-se, participavam pela primeira vez numa fase final de um Mundial. E como favorita que era à conquista do caneco poucos duvidavam que a Inglaterra não iria no segundo jogo do certame massacrar os amadores dos EUA.
Seleção norte-americana que tinha apenas um jogador profissional, Ed McIlvenny, de seu nome. A crença na vitória fácil era tanta que o técnico inglês Arthur Drewry decidiu dar folga a vários dos seus principais jogadores, entre eles Stanley Matthews, jogador do qual reza a lenda que havia ficado em Copacabana a apanhar sol!
As equipas entraram em campo, e aos 39 minutos do primeiro tempo um estudante, que trabalhava em part-time como lavador de pratos num restaurante em Nova Iorque, produziu um dos resultados mais inesperados da história do futebol internacional. Joe Gaetjens, assim se chamava, recebeu um passe de Walter Bahr e marcou o único golo da partida, garantindo a vitória dos States.
O resultado era considerado tão improvável pelos ingleses que uma casa de apostas de Londres ofereceu 500 para 1 às pessoas que apostassem nos americanos antes do jogo. História curiosa é, aliás, o facto de que quando o resultado foi conhecido em Inglaterra os súbitos de Sua Majestade pensarem de imediato que se trataria de um erro, e que o resultado não era de 0-1 mas sim de 10-1! Como estavam enganados...
48 anos depois desse jogo, o criador da jogada do golo, Walter Bahr, voltaria ao local do crime, por assim dizer, ao Estádio da Independência, onde confessou que «se a Inglaterra jogasse 10 vezes contra nós, naquela época, teria vencido nove vezes. Mas aquele jogo era nosso. O destino ficou do nosso lado. Os ingleses deveriam ter vencido, mas não marcaram nenhum golo, e à medida que o tempo passava, o nosso futebol foi melhorando. Os ingleses foram ficando em pânico... ».
Este resultado ainda hoje é considerado como a maior surpresa de todos os tempos no planeta da bola!
Porém, a impensável vitória sobre a Inglaterra foi recebida com indiferença nos EUA. Os americanos praticamente ignoravam que haviam vencido aquele jogo até a década de 70, altura em que Gaetjens já havia morrido.
Há poucos anos atrás, foi realizado um filme que retrata precisamente este momento histórico do futebol estado-unidense, intituldado de The Game of Their Lives. E seria mesmo o jogo da vida de até então simples desconhecidos como Joe Gaetjens, Frank Borghi, Harry Keough, Joe Maca, Ed McIlvenny, Charlie Colombo, Walter Bahr, Frank Wallace, Gino Pariani, Joe Gaetjens, John Souza, Ed Souza, e o treinador Bill Jeffrey
Apesar da vitória sobre a Inglaterra, os EUA terminaram em último no seu grupo na Copa de 50, sendo eliminados do torneio juntamente com a Inglaterra e o Chile.
Depois da participação no Mundial do Brasil, os americanos demorariam 40 anos para voltar participar numa fase final de um Mundial, o que só viria a ocorrer em 1990, no Campeonato do Mundo de Itália.
Os EUA em 1990, ano em que regressaram à alta roda do futebol internacional
Nem mesmo o fenómeno da National American Soccer League (NASL) dos anos 60 e 70 conseguiu fazer regressar a seleção yankee à montra do futebol planetário. Como já vimos só em 1990 os EUA voltaram a uma fase final de um Campeonato do Mundo. Facto ocorrido em Itália, e sem grande pompa e circunstância, já que os norte-americanos, pouco ou nada conhecidos na alta roda internacional da época, rapidamente regressaram a casa após três derrotas na fase de grupos, ante a Checoslováquia (1-5), Itália (0-1), e Áustria (1-2). Mais do que fazer saber ao Mundo que os States queriam voltar a ocupar o seu lugar nos grandes palcos do futebol planetário, e de revelar nomes como Tony Meola, Eric Winalda, Tab Ramos, Marcelo Balboa, ou Paul Caligiuri, esta presença em Itália serviu essencialmente para iniciar o renascimento do soccer em Terras do Tio Sam, em fazer da seleção norte-americana uma equipa vencedora, habituada a marcar presença - de lá para cá - em todos os grandes eventos futebolísticos do planeta, com destaque para o Campeonato do Mundo, certame que desde 1990 até aos dias de hoje os EUA não falharam uma única edição.
O primeiro título internacional: a Gold Cup de 1991
A primeira grande conquista do futebol norte-americano ao nível de seleções aconteceu em 1991, ano em que foi disputada a primeira edição da Gold Cup, prova continental organizada pela CONCACAF (Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe). O certame foi realizado em solo norte-americano, e serviu igualmente de teste ao que iria ocorrer três anos mais tarde, altura em que pela primeira vez o país iria receber a organização de um Mundial. Na final da Gold Cup os EUA, dirigidos pelo lendário treinador Bora Milutinovic, derrotaram no Memorial Coliseum, de Los Angeles, as Honduras na marcação de grandes penalidades, por 4-3, após um empate sem golos no final dos 120 minutos.
A esta Gold Cup seguiram-se mais quatro, até aos dias de hoje, perfazendo um total de cinco títulos na prova da CONCACAF, historial que faz com os EUA sejam a par do México a grande potência do futebol daquela zona do globo.
A lenda brasileira Pelé posa ao lado das campeãs do Mundo de 1991
Se no plano masculino os EUA estão ainda um pouco longe de serem considerados uma potência ao lado de países como Brasil, Espanha, Itália, Alemanha, Argentina, Holanda, ou Inglaterra, na vertente feminina eles são indiscutivelmente a maior potência mundial! Não deixa de ser de certo modo estranho como uma modalidade pode ser interpretada de uma maneira tão distinta pelos sexos feminino e masculino. O que é certo é que a meninas norte-americanas têm somado títulos atrás de títulos, fazendo deste o país mais laureado na vitrina dos campeões. O primeiro grande ceptro foi conquistado em 1991, na China, nação que recebeu o primeiro Mundial feminino, tendo os EUA vencido na final a Noruega por 2-1. Ainda que de forma algo tímida o planeta da bola, dominado por homens, fez então uma vénia a jogadoras como Michelle Akers, ou Mia Hamm, duas das maiores jogadores de todos os tempos. Em 1999 as soccer girls voltariam a conquistar o Mundo, desta feita em casa, tendo na final - disputada no Rose Bowl, de Pasadena, cheio como um ovo! - batido nas grandes penalidades a China por 5-4. A popularidade da seleção feminina norte-americana rapidamente se alastrou a todo o país, sendo hoje o soccer a modalidade mais praticada pelo público feminino. Ainda no que toca a palmarés os EUA somam quatro títulos olímpicos, e ainda três ceptros mundiais de sub-20. Dominadoras... claramente.
Voltando ao futebol masculino para recordar em poucas linhas aquele que foi sem margem para dúvidas o grande acontecimento futebolístico realizado em terras norte-americanas: o Campeonato do Mundo de 1994. Com o intuito de enraizar definitivamente o soccer no seu território nacional os responsáveis da United States Soccer Federation convenceram a FIFA a atribuir-lhes a organização do Mundial de 94. O resto do planeta torceu o nariz, perguntando-se como podia um país onde a modalidade é praticamente marginalizada acolher um certame daquele nível? A resposta foi dada no verão de 1994, com uma organização estupenda e grandiosa, como só os EUA conseguem fazer sempre que de grandes eventos se trata. Estádios gigantescos, sempre cheios de público, e acima de tudo de futebol de alto nível praticado pelas seleções presentes fizeram deste - quiçá - o último grande Mundial - a todos os níveis - da história recente da competição. Infundadas foram igualmente as suspeitas de que a seleção da casa dificilmente passaria da primeira fase, e que se iria tornar na primeira anfitriã a não passar a fase de grupos, já que com muita classe nomes - hoje lendas - como Meola, Balboa, Tab Ramos, Eric Winalda, Cobi Jones, e o excêntrico Alexi Lalas não só avançaram a fase de grupos - bateram por 2-1 a Colômbia, empataram a um ante a Suíça, e foram derrotados por 0-1 pela Roménia - como fizeram a vida negra ao futuro campeão Brasil nos oitavos-de-final (brasileiros venceram apenas por 1-0).
O Mundial dos States serviu para que o soccer subisse mais uns degraus na escada da popularidade de um povo que sempre olhou a modalidade com indiferença. Hoje em dia o futebol é o terceiro desporto mais praticado no país (no plano masculino, e o primeiro na vertente feminina, como já vimos), sendo para muitos impensável que a seleção nacional não seja uma presença garantida nas grandes competições internacionais. 

quinta-feira, março 08, 2018

Emblemas históricos (14)... Bethlehem Steel Football Club



A histórica equipa do Bethlehem Steel que logrou vencer o seu primeiro título nacional em 1915

Não é possível caminhar no presente rumo ao futuro sem olhar para o passado, sem recordar o que nos trouxe até aqui e que irá nos transportar até mais além. A História - seja ela feita de boas ou de más memórias - é por demais importante para dizermos hoje quem somos e onde queremos estar amanhã. Ninguém é o que é no presente sem ter feito um percurso para ali chegar, e é aqui, neste ponto, que o passado ganha vida ao ser evocado. Bom, esta visão (pessoal) confere vida à nossa história de hoje, à história do Bethlehem Steel Football Club, ou recorrendo a linguagem metafórica, a raíz da popularidade do soccer norte-americano. Contrariamente ao que muitos historiadores, jornalistas ou simples entusiastas do belo jogo pensam, o futebol em Terras do Tio Sam não nasceu com a contratação de Pelé por parte do New York Cosmos na década de 70, nem com a atual projeção internacional da Major League Soccer, nem mesmo com a escandalosa vitória da modesta (e amadora) seleção yankee no Mundial de 50 às custas da então super-potência planetária Inglaterra, ou com o histórico terceiro lugar obtido pelo combinado norte-americano no primeiro Campeonato do Mundo da FIFA, realizado em 1930 no Uruguai.



A fábrica Bethlehem Steel
que construiu a América!
O soccer notabilizou-se muito antes de tudo isto, e muito por influência do Bethlehem Steel Football Club, considerado como a primeira potência clubística do futebol estado-unidense. Falar deste emblema implica abordar temas como a industrialização e a imigração, e é aqui que entra o nome da Bethlehem Steel, outrora, e também ela, uma super-potência da indústria norte-americana, e um símbolo do poderio industrial da nação yankee a nível internacional. Situada em Bethlehem esta empresa transformou por completo a pequena cidade do Estado da Pensilvânia, que sensivelmente a meio do século XIX deixou de lado a sua pacatez para passar a ser uma movimentada urbe, quadriplicando nas décadas seguintes a sua população. Com o seu vincado crescimento e consequente importância na economia norte-americana, a Bethlehem Steel passou a ser vista por cidadãos de vários pontos do globo como o passaporte para o sonho americano, como o veículo rumo à conquista de uma vida melhor numa nação que abria as suas portas ao Mundo. Fundada em 1857 esta empresa tornou-se simultaneamente num curto espaço de tempo no maior construtor naval e no segundo maior produtor de aço do país. Não é à toa que inúmeros historiadores se referem aos milhares de operários que passaram pela Bethlehem Steel como "o povo que ajudou a construir a América". Esta frase é sintomática da importância da fábrica que durante décadas foi a responsável pela produção dos rails para a construção das linhas de caminho de ferro de todo o país; pela construção de navios e aviões usados, respetivamente, pela Marinha e Força Aérea norte-americanas nas duas Grandes Guerras, ou pelo fabrico do ferro usado na construção de tantos e tantos arranhas céus hoje tão comuns em qualquer grande cidade norte-americana. O tal "povo que ajudou a construir a América" era composto por cidadãos forasteiros, imigrantes à procura de um futuro risonho, provenientes na sua maioria da Europa, e das ilhas britânicas muito em particular. Durante a semana o trabalho era duro, muito duro, mas ao fim de semana tempo havia para a diversão, para o convívio, e aí... entrava em ação o soccer! Entre a classe operária sobressaiam, nos tempos livres, os cidadãos de origem britânica, que entre si matavam saudades das suas terras natais dando vida àquele objeto mágico que com eles havia feito a longa travessia no Atlântico: a bola de futebol. Os animados duelos futebolísticos sucediam-se fim-de-semana após fim-de-semana na capital do ferro, não sendo de causar estranheza que em 1907 os operários da fábrica tivessem fundado o Bethlehem Football Club. 



O símbolo dos progenitores
do futebol nos EUA
Estes homens defenderam o recém criado emblema de forma totalmente amadora nos primeiros anos de atividade oficial, por assim dizer, disputando acesos duelos contra outras equipas amadoras locais. Será imperativo dizer que naqueles dias o profissionalismo ainda não havia visto a luz do dia no universo do soccer norte-americano. O grande ponto de viragem na história do clube acontece em 1914, quando a Bethlehem Steel Corporation decide tomar as rédeas da sua equipa, sobretudo ao nível financeiro, injetando nesta capital suficiente para a tornar no primeiro grande nome do futebol da América do Norte. O clube passa então a chamar-se Bethlehem Steel Football Club. Muitos dos imigrantes que tentaram naqueles dias a sua sorte no norte do continente americano eram igualmente grandes artistas da bola, sobretudo os que viajavam de Inglaterra, a pátria do futebol moderno, tendo a Bethlehem Steel Corporation iniciado a partir de então um recrutamento minucioso no sentido de captar os melhores futebolistas para a sua equipa. Aos atletas eram-lhes oferecidos bons empregos na fábrica, na qual trabalhavam de segunda a sexta-feira, deixando o fim-de-semana para fazer aquilo para o qual haviam sido contratados: jogar o melhor futebol que sabiam. 



O primeiro estádio construído na América
única e exclusivamente para o soccer
A paixão em torno do soccer crescia a olhos vistos na nação yankee nos anos 10, de tal forma que a modalidade ascende à elite do desporto norte-americano a par do baseball ou do american football. Esse aumento de popularidade do belo jogo entre o povo, fez com que Bethlehem Steel Corporation construísse o primeiro estádio destinado única e exclusivamente à prática do futebol: o Bethlehem Steel Athletic Field, com capacidade para cerca de 2400 pessoas - hoje em dia propriedade do Moravian College, que o destina para os jogos da sua equipa de futebol americano. A glória desportiva não tardou a chegar à cidade de Bethlehem, que na temporada de 1914/15 vê a sua equipa vencer a American League of Philadelphia, uma espécie de liga regional. Mas o ponto alto dessa temporada aconteceu na então competição rainha do soccer estado unidense, a U.S. National Challenge Cup - atual US Open Cup, ou Taça dos Estados Unidos da América. Foi a primeira grande competição futebolística da nação norte-americana, e vencê-la era o equivalente a conquistar a América! Na final, o Bethlehem Steel derrotou os Brooklyn Celtic por 3-1, numa partida realizada no Taylor Stadium, na Pensilvânia. Nesse encontro brilharam algumas das primeiras grandes estrelas da história do Bethlehem Steel FC, cidadãos de origem britânica que haviam chegado aos Estados Unidos com a missão de colocar o clube no topo da América, no que a futebol diz respeito. Tommy Fleming, autor de um golo nessa final e um dos jogadores mais preponderantes na conquista desse primeiro êxito, foi uma dessas primeiras estrelas. Nascido na Escócia, Fleming havia tido uma primeira incursão no futebol dos States na primeira década do século XX, ao serviço do Fore River, de Massachusetts, antes de regressar ao seu país para representar o Morton. Ele foi uma das primeiras contratações da Bethlehem Steel Corporation para defender as cores da sua equipa, tendo-o feito até 1924. É considerado pelos historiadores do futebol estado unidense como um dos primeiros grandes extremos daquele país. Ao lado de Fleming no campo de batalha estavam ainda nomes como John "Jock" Ferguson, Robert Millar e Robert Morrison, também eles escoceses de berço e contratados especificamente para ajudar o clube a encontrar o caminho da glória. Ferguson, por exemplo, era um experiente lateral esquerdo que havia atuado no Leeds City - a semente do atual Leeds United -, ao passo que Millar – um avançado - chegou à América proveniente do St. Mirren em 1911, tendo em 1915 apontado uns impressionantes 54 golos em 33 jogos ao serviço do clube de Bethlehem. Quinze anos mais tarde, e já na qualidade de treinador, Robert Millar liderou a seleção dos Estados Unidos da América no primeiro Mundial FIFA, realizado no Uruguai, onde aí conquistou um brilhante terceiro lugar, a melhor classificação obtida até hoje pela nação yankee em Mundiais. No centro do terreno atuava Robert Morrison, outro craque proveniente das Highlands, e que antes de chegar ao continente americano havia defendido por uma ocasião as cores da Escócia numa partida internacional contra a vizinha e inimiga Inglaterra.
O cortejo pelas ruas da cidade após a conquista da American Cup
Estes foram alguns dos craques que iniciaram o percurso vitorioso do Bethlehem Steel FC ao longo da década de 10, e que culminou com mais três triunfos na U.S. National Challenge Cup – nos anos de 1916 (vitória por 1-0 sobre o Fall River Rover), de 1918 (triunfo novamente alcançado diante do Fall River Rover, por 3-1) e de 1919 (vitória sobre o Paterson, por 2-0). Paralelamente a estas conquistas o conjunto de Bethlehem somou ainda os títulos da American Cup – em 1916, 1917, 1918 e 1919 –, outra competição de nível elevado no plano nacional do emergente soccer norte-americano. Encontramos aqui muitas “dobradinhas”, ou seja, o clube dominou em diversos anos as duas maiores competições do país. Por estes dias o Bethlehem Steel FC era indiscutivelmente a maior potência do futebol da América, fruto do grande investimento financeiro que a empresa que lhe dava o nome fazia ano após ano, recrutando no Reino Unido matéria prima de qualidade que acabaria por ter um papel preponderante não só no incremento da popularidade do futebol em Terras do Tio Sam como também, e sobretudo, na abertura dos caminhos do profissionalismo. Prova da grandiosidade do clube é o facto de 15 jogadores que integraram a equipa ao longo da década de 10 foram nomeados para o Hall of Fame do futebol dos EUA, a maior distinção que um atleta pode ter na sua carreira.


Reconhecimento internacional



A equipa que esteve em digressão pela Suécia e Dinamarca em 1919
Dentro de portas o prestígio do Bethlehem Steel FC brilhava com uma intensidade crescente. Brilho esse que no final da década começava a transpor as fronteiras do continente americano rumo à Europa. Em 1919 o clube escreve mais uma página histórica, não só da sua existência como do próprio soccer dos EUA, ao tornar-se na primeira equipa profissional daquele país a atuar no Velho Continente. Quando a federação sueca enviou o convite à United Soccer Football Association para esta enviar a terras nórdicas uma equipa, a escolha do organismo norte-americano foi unânime: o Bethlehem Steel FC. Em Gotemburgo, Helsinburgo, Estocolmo e Copenhaga (na Dinamarca) a equipa efetuou vários jogas contra combinados locais, tendo vencido sete, empatado dois e perdido cinco. Os grandes campeões dos EUA, como foram anunciados aos quatro ventos pela Suécia e Dinamarca, jogaram para estádios repletos de curiosos entusiastas em ver em ação o popular clube de Bethlehem. Mais um facto que atesta a grandeza deste clube.

Archie Stark: o bombardeiro do soccer estado-unidense

Archie Stark
Já aqui foi dito que o crescimento do Bethlehem Steel FC foi concretizado graças ao dinheiro da Bethlehem Steel Corporation, que contratou em Inglaterra e Escócia – sobretudo neste último país – jogadores de elevada qualidade que conduziram este emblema à glória e fama internacional. Glória e fama que continuaram, de certa forma, a pairar sobre os céus de Bethlehem na década de 20, embora com menos intensidade do que nos anos 10. A explicação alude ao facto de a Bethlehem Steel Corporation ter começado a enfrentar alguns problemas financeiros no que ao investimento da sua equipa de futebol dizia respeito. Embora também, e há que frisá-lo, este abrandamento do clube no trilho das grandes conquistas nacionais tenha acontecido porque outros emblemas um pouco por toda a América começavam também eles a abraçar o profissionalismo e a contratar jogadores de referência que os conduzisse ao patamar da glória e fama que era habitado pelo Bethlehem Steel FC. Um desses emblemas, e principal rival do clube de Bethlehem na luta pela glória e fama a nível nacional era o Fall River Marksmen, do Estado de Massachusetts, e onde pontificavam alguns dos mais notáveis futebolistas estado-unidenses dessa segunda década do Século XX, entre outros, Jimmy Douglas – guarda-redes titular da seleção norte-americana no Mundial de 1930 –, o criativo médio escocês Jimmy Gallagher, Bert Patenaude – autor do primeiro hattrick num Campeonato do Mundo, precisamente em 1930 –, ou o luso descendente Billy Gonsalves, considerado por muitos como o maior jogador de todos os tempos do soccer da América. Se o domínio a nível estatal, ou regional, continuava a ser avassalador, no plano nacional o Bethlehem Steel FC apenas voltou a chegar à glória em 1924, na American Cup – após derrotar na final o grande rival de Fall River por 1-0 –, e em 1926 na U.S. National Challange Cup, na sequência de uma esmagadora vitória em Brooklyn (Nova Iorque) ante o Bem Millers por 7-2. Nesse triunfo o destaque maior vai para aquele que é considerado como o avançado mais mortífero da história do soccer nos EUA: Archie Stark. Nasceu em Glasgow (Escócia) nos finais do século XIX – mais concretamente em 1897. Archibald, o seu nome próprio, nunca defendeu qualquer emblema do seu país natal, já que muito cedo, com 14 anos, emigrou com os seus pais para New Jersey, tendo ali mesmo iniciado a sua aventura no soccer. Antes de ser contratado pelo Bethlehem Steel em 1924, Stark atuou em diversos clubes, alguns de menor dimensão, como o Kearny Scots (New Jersey), ou o Babcock & Wilcox, e noutros de maior nomeada, casos do New York Field Club e do Paterson. O escocês chega a Bethlehem numa altura em que a fábrica que gere o clube tem que vender algumas das suas principais pérolas futebolísticas para fazer face às dívidas acumuladas em torno do soccer. Abra-se um parênteses para dizer que Archie Stark era um velho sonho dos responsáveis do Bethlehem Steel FC, que em 1919, na digressão efetuada à Suécia e à Dinamarca, integraram o avançado escocês como jogador convidado nessa famosa digressão. A passagem de Stark por Bethlehem resume-se aos golos, às centenas de remates certeiros que fizeram dele o maior “bombardeiro” da história do futebol dos Estados Unidos da América (EUA). Senão vejamos. Na temporada de estreia (1924/25) ele faz o gosto ao pé por 70 ocasiões em 46 disputados (!), sendo que em termos percentuais isto equivale dizer que sozinho ele fez 52,75% dos golos da sua equipa. Este é um recorde que até hoje ninguém sequer ousou bater. Na época seguinte, a máquina de golos de Bethlehem voltou a fazer-se notar: 59 golos em 47 jogos. A veia goleadora de Stark foi decisiva para a conquista da quinta U.S. National Challenge Cup por parte Bethlehem Steel FC, que na grande final derrotaria o Bem Millers por 7-2 e com um poker do goleador escocês. Na temporada seguinte a inspiração goleadora da então grande referência de Bethlehem foi menos notada, mas ainda assim digna de registo: 25 golos em 33 jogos. Em 1927/28 ele fez 34 golos em 52 encontros, e na derradeira temporada ao serviço do clube a fasquia subiu para 49 golos em 42 encontros disputados.


Archie Stark, com as cores
do Bethlehem Steel durante
a digressão escandinava
No total, Archie Stark fez 275 golos em 252 jogos disputados pelo Bethlehem Steel FC. Foi internacional pelos EUA em duas ocasiões, contra os vizinhos do Canadá, e a sua lenda só não é equiparável à de Billy Gonsalves por causa de uma simples digressão à Europa. Passamos a explicar esta curiosidade. Durante décadas a dúvida sobre quem teria sido o primeiro grande jogador do soccer norte-amerciano da História persistiu entre historiadores e simples apaixonados pelo belo jogo. Billy Gonsalves ou Archie Stark. Ambos rivalizaram entre si por esse estatuto, mas o luso descendente leva para muitos a melhor, não só divido à sua apurada técnica – Stark era mais um finalizador do que um mago dos dribles, como era Gonsalves – mas igualmente por o facto de ter declinado o convite para defender as cores dos EUA no primeiro Mundial de futebol. Stark preferiu aceitar o convite do Fall River Marksmen para realizar alguns jogos de exibição na Checoslováquia, Hungria e Áustria. Stark terá alegado que preferia viajar pela Europa do que ir a Montevideu jogar contra seleções de segunda linha do futebol planetário de então. No entanto, quem brilhou a grande altura foi a seleção yankee nesse primeiro Mundial, alcançando o já referido terceiro lugar, muito por influências das exibições de Billy Gonsalves que a partir de então passou a ostentar o estatuto de lenda maior do soccer. Historiadores desportivos norte-americanos ainda hoje opinam que se Stark tivesse integrado a comitiva dos EUA rumo ao Uruguai talvez a sua seleção tivesse regressado a casa com a… a taça na mão (!), caso o ataque da equipa nacional estivesse entregue à dupla Stark/Gonsalves. Suposições, apenas! No entanto, Archie ainda hoje detém um recorde na seleção nacional que apenas outros três jogadores (no caso, Aldo Donelli, Landon Donovan e Joe Max Moore) igualaram, isto é, o facto de ter apontado quatro golos num jogo, algo que aconteceu num dos duelos com o Canadá em novembro de 1925. 1930 foi precisamente o ano em que Stark deixou Bethlehem, tendo terminado a sua carreira no ponto de partida, isto é, em Kearny.



Voltando ao início desta nossa longa viagem para chegar ao fim de linha do grandioso Bethlehem Steel FC. Nos finais dos anos 20 o soccer dos EUA vivia dias conturbados, fruto das guerras entre a American Soccer League e a United States Football Association pelo controlo da modalidade em termos nacionais. Os clubes entraram na guerra, juntando-se a uma ou à outra entidade. Competições como a American Cup, foram extintas, o que levou a que alguns emblemas deixassem de competir. Outros como o Bethlehem Steel FC ignoraram boicotes, como o de 1928, ordenado pela American Soccer League, que face a isto decide expulsar o clube da U.S. National Challange Cup. A juntar aos problemas financeiros este seria o passo final do Bethlehem Steel FC rumo ao abismo, à extinção, algo que viria a acontecer em 1930. Em 2015 uma espécie de nostalgia veio ao de cima em Bethlehem quando foi anunciada a fundação de um nome soccer club na cidade, batizado de: Bethlehem Steel Football Club. Filial dos Philadelphia Union (clube da Major Soccer League), este novo emblema atua hoje nos terceiro escalão do futebol estado-unidense, na United Soccer League, e é não mais do que uma homenagem ao seu progenitor e pioneiro da história do futebol profissional dos EUA. Como sustentam inúmeros historiados norte-americanos, a história do Bethlehem Steel FC (original) é a história do futebol na América.

domingo, junho 10, 2018

Histórias do Planeta da Bola (21)... O inglês que “furou” o boicote da Inglaterra aos três primeiros Mundiais da história


O inglês George Moorhouse
O estatuto de inventores do futebol (moderno) auto-conferiu aos ingleses durante anos a fio um misto de superioridade e arrogância face ao resto do Mundo – no que a futebol diz respeito. A convicção de que “não só fomos nós que inventámos o futebol como também o ensinámos a jogar ao resto do Mundo” fez com que os súbitos de Sua Majestade tivessem vivido fechados no seu casulo ao longo de cerca de três décadas em relação ao que se passava no restante globo futebolístico em termos organizacionais. E quando falamos em termos organizacionais referimo-nos à participação inglesa em grandes competições inter-continentais, organizadas sob a égide de uma entidade internacional que chamasse a si a missão de tutelar o futebol a nível planetário. 
Para os ingleses, isso seria uma estocada no seu orgulho e vaidade autoritária de donos e senhores do belo jogo
Esta posição fez com que ignorassem por completo a ideia de Robert Guérin, jornalista (francês) do Le Matin, de Paris, e secretário do Departamento de Futebol da União Francesa de Desportos, que em 1902 iniciou contactos com algumas associações (ou federações) nacionais de países como a Espanha, a Holanda, a Suécia e a Dinamarca no sentido de criar uma organização internacional que tutelasse o futebol a nível mundial.

Robert Guérin
Reza a história que Guérin terá ido a Londres apresentar – e propor – a ideia a Lord Kinnard, o então presidente da Football Association – Federação Inglesa de Futebol. Os ingleses ignoraram por completo esse movimento, que a 24 de maio de 1904 ganhou contornos de realidade com a fundação da FIFA.
Reunidos em Paris, na Rue Saint Honoré, nº 229, representantes das associações nacionais de França, Bélgica, Dinamarca, Holanda, Espanha, Suécia e Suíça fundaram nesse dia a FIFA.
De pronto foram encetados convites a outras associações/federações nacionais para integrar o recém-criado organismo internacional – para o qual Robert Guérin foi nomeado presidente –, entre eles a Inglaterra, que além de (continuar a) recusar a integração nesta nova entidade, não a reconhecia oficialmente. Inclusive, e já depois de a FIFA ter visto a “luz do dia”, a Football Association (FA) reuniu em Londres várias associações nacionais com o intuito de mostrar “quem continuava a conduzir os destinos do futebol planetário”.
A FA tinha por estes dias associadas a si federações dos Estados Unidos da América, Chile, ou Argentina, criando assim um autêntico braço de ferro com a FIFA. A renitência por parte dos ingleses em reconhecer esta federação como a entidade máxima do futebol internacional durou até 1906, quando em Berna o inglês Daniel Burley Woolfall foi nomeado presidente do organismo, sucedendo no cargo a Guérin.

A primeira sede da FIFA, em Paris
Este facto, fez com que a Inglaterra recuasse na sua resistência em aderir à FIFA, algo que efetivamente aconteceu nesse ano de 1906. 
Com Woolfall no poder os ingleses sentiam-se novamente senhores do futebol planetário. 
O então presidente da FIFA teve um papel decisivo não só na internacionalização das leis do jogo, como também na criação daquela que é talvez a primeira grande competição internacional de futebol e que esteve na génese da idealização do atual Campeonato do Mundo da FIFA: o torneio olímpico de futebol. 
Competição que foi inserida nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1908, e que até à criação do Mundial FIFA foi a prova mais importante do futebol planetário ao nível de seleções – pese embora a FA tenha controlado as operações do primeiro torneio olímpico de futebol oficial, denotando aqui uma autoridade arrogante sobre a FIFA.
Com a morte de Woolfall, em 1918, a Inglaterra voltou a afastar-se da FIFA, numa altura em que o organismo internacional passava por uma fase conturbada da sua curta existência, como consequência dos “estilhaços” provocados pela I Guerra Mundial.

Jules Rimet: o pai do Campeonato do Mundo
O braço de ferro entre Inglaterra e FIFA voltava a ser uma realidade, um divórcio que desta feita iria durar um pouco mais no tempo: 28 anos! Durante este período (desde 1921) , um visionário surgiu na liderança da FIFA. O seu nome era Jules Rimet. Este francês revolucionou o Mundo do futebol em vários aspetos, sendo o mais sonante, quiçá, a criação do Campeonato do Mundo. O sonho de Rimet tornou-se realidade em 1930, quando o Uruguai acolheu a primeira edição daquele que é hoje o maior evento desportivo planetário. Os índices de popularidade (crescente) da competição ficaram bem patentes nas três primeiras edições, de tal forma que em 1946, finalmente, os ingleses saíram do seu “casulo”, percebendo – e admitindo – que perante o crescimento da FIFA e da importância e dimensão que o seu Campeonato do Mundo já havia atingido, o melhor seria mesmo voltar a juntar-se à entidade que tutelava o futebol planetário. Até porque, chegaram à conclusão que para provar a sua condição de mestres do jogo teriam de enfrentar as suas congéneres mundiais na competição idealizada e criada pela FIFA.

O cromo de Moorhouse nos
tempos do Tranmere Rovers
Esta (longa) introdução leva-nos à nossa paragem histórica de hoje, no sentido de recordar o inglês que “furou” o boicote da Inglaterra aos três primeiros Mundiais da história. George Moorhouse, o seu nome. Quando em 1950 a seleção inglesa aterrou no Brasil para ali disputar o seu primeiro Mundial, já Moorhouse o havia feito 20 anos antes no Uruguai, ao serviço da seleção norte-americana. Este cidadão nascido em Liverpool a 4 de abril de 1901 tem assim pois um lugar reservado na História por ter sido o primeiro inglês a competir num Campeonato do Mundo muito antes de a sua pátria natal o ter feito!
Combatente na I Guerra Mundial, Moorhouse começou por defender – enquanto profissional – a camisola do Tranmere Rovers, pese embora o tenha feito sobretudo ao serviço das reservas do clube de Merseyside, entre 1921 e 1923. Com poucas oportunidades para mostrar o seu valor, George Moorhouse – que no terreno de jogo atuava como lateral-esquerdo – atravessou o Atlântico, rumo ao Canadá, com o intuito de encontrar uma vida melhor num continente (americano) que aos olhos dos europeus se afigurava como a “terra prometida”, bem diferente de uma Europa que por estes dias tentava curar as feridas provocadas pelo primeiro grande confronto bélico da História.

Moorhouse chegou ao Canadá em 1923, tendo ali representado – ainda que de forma amadora – os Pacific Railway, uma equipa constituída por elementos ligados aos caminhos de ferro da região do Quebec. E se em Inglaterra o talento do nativo de Liverpool havia passado praticamente despercebido, na América do Norte tal não viria a acontecer. Após um par de jogos ao serviço dos Pacific Railway, o jogador inglês impressionou um dos grandes impulsionadores do soccer norte-americano dos anos 20, Nat Agar, também ele um inglês de berço que enquanto futebolista viveu os primeiros passos da modalidade em Terras do Tio Sam, sendo que enquanto dirigente esteve na génese da fundação da United States Football Association, em 1913.
Além de figura influente do soccer, Agar era igualmente o proprietário dos Brooklyn Wanderers, tendo de pronto convidado Moorhouse para se juntar à sua equipa. Assim foi. A aventura do cidadão de Liverpool no clube de Agar duraria somente um par de meses, pois ao fim de quatro soberbas exibições, George Moorhouse tinha Nova Iorque a seus pés. Foi então que aquele que era para muitos o maior emblema da Big Apple – e um dos maiores de toda a América – de então seduziu o habilidoso full-back para os seus quadros. Corria o (final de) ano de 1923 quando os New York Giants contrataram Moorhouse. Nos Giants, o inglês tocou a fama, tornando-se num dos mais reputados futebolistas da América nos anos 20, precisamente na chamada Golden Era (Era Dourada) do soccer estado-unidense. Defendeu o clube ao longo de sete temporadas ao mais alto nível, o mesmo é dizer na American Soccer League, a principal competição nacional dos States de então, tendo disputado por este emblema um total de 241 jogos e apontado 46 golos, registo impressionante para um lateral-esquerdo.

A "cortina de aço" yankee:
Wood, Douglas e Moorhouse
Em 1930, Moorhouse deixou os Giants, tendo atuado nos sete anos seguintes noutros emblemas nova-iorquinos, como os Yankees – equipa sem qualquer ligação aos New York Yankees do basebol – ou nos New York Soccer Club. Mas foi precisamente em 1930 que a história de Moorhouse conheceu o seu capítulo mais sonante. 
Ele foi um dos 16 selecionados de Bob Millar (treinador) para efetuar a viagem pelas águas do Atlântico rumo à América do Sul, no sentido de defender as cores da bandeira da América na primeira edição do Campeonato do Mundo da FIFA.
A estreia de Moorhouse pelo combinado nacional havia-se dado quatro anos antes, tendo o Canadá sido atropelado por concludentes 6-1 num encontro particular. Julho de 1930 entra na história do desporto planetário como o mês em que em Montevideu foi dado o pontapé de saída do sonho de Jules Rimet: o Campeonato do Mundo. Moorhouse estava lá, e juntamente com outros extraordinários futebolistas como Bart McGhee, Bert Patenaude, Jimmy Douglas, Tom Florie ou o luso-americano Billy Gonsalves conduziu a seleção yankee à melhor performance de sempre num Mundial FIFA: o 3.º lugar. Goerge Moorhouse, o guarda-redes Douglas e o defesa Alexander Wood foram apelidados pela imprensa sul-americana (presente no evento) como a “cortina de aço”, pela solidez com que fechavam os caminhos da sua baliza, enquanto que lá na frente Florie, Patenaude, McGhee e Gonsalves tratavam de atormentar os defesas adversários.
Seleção norte-americana que participou no Mundial de 1930
Mas, a aventura yankee começou com vincadas desconfianças e aguerridos protestos por parte dos adversários. Cerca de uma semana após a chegada a Montevideu, ocorrida no dia 1 de julho, os norte-americanos foram obrigados a dar uma conferência de imprensa na sequência de uma denúncia da delegação belga – precisamente o primeiro opositor da seleção de Bom Millar no torneio –, a qual apontava ilegalidades sobre a nacionalidade de alguns jogadores yankees. Os belgas acusavam os norte-americanos de incluírem no seu grupo atletas de vários países europeus, acusação refutada pelos responsáveis yankees, que explicaram – na dita conferência de imprensa – que apesar de seis dos seus 16 jogadores terem nascido na Europa haviam já adquirido nacionalidade norte-americana. Como senão bastasse o ataque belga também a imprensa brasileira lançou alguma lenha para fogueira, ao dizer que o principal craque dos States era… português! Tratava-se de Billy Gonsalves, filho de portugueses – nascidos na Madeira – mas que na verdade havia nascido em Portsmouth (Rhode Island) dois anos após a chegada dos seus progenitores a Terras do Tio Sam. Tal como Gonsalves, outros jogadores tinham descendência europeia, embora tenham nascido nos Estados Unidos da América, casos de Tom Florie (filho de italianos) e Bert Patenaude (filho de emigrantes franceses). Estrangeiros naturalizados a seleção norte-americano tinha seis atletas, todos eles nascidos na Grã-Bretanha, nomeadamente os escoceses Alexander Wood, Bart MacGhee, Jimmy Gallagher, Andy Auld, James Brown e o inglês George Moorhouse.

Alguns historiadores apontam que esta desconfiança e suspeita sobre a seleção yankee remonta ao facto de que o poderio (monetário) do soccer daquele país nos anos 20 fez atrair grandes estrelas do futebol europeu, que não só procuravam na América um nível de vida melhor, mas sobretudo tentavam fugir da Guerra que assolava o Velho Continente. Atletas provenientes da Inglaterra, Escócia, Áustria, Hungria, Itália, ou Alemanha emergiram em vários clubes norte-americanos durante a referida década de 20 – a Golden Era do soccer estado-unidense –, fazendo inúmeras digressões não só pelo continente americano como também pela Europa.
Ora, terá sido esta multiculturalidade que vigorou durante anos no futebol dos States que levou outros países a desconfiarem da “originalidade” da seleção estado-unidense no primeiro grande torneio da FIFA. Certo é que no dia 13 de julho os Estados Unidos da América tinham a honra de dar o pontapé de saída do primeiro Campeonato do Mundo da história, quando no Parque Central de Montevideu enfrentaram a Bélgica – no mesmo dia e na mesma hora, também jogaram as seleções de França e México no Estádio de Pocitos.

Fase do jogo entre EUA e Paraguai
Moorhouse estava lá, na line-up inicial dos States, que iriam vergar os belgas a uma derrota por 3-0. Quatro dias mais tarde voltou a ser titular em mais um momento de glória da nação que o acolheu em 1923, ao ajudar a derrotar o Paraguai também por concludentes 3-0 – com a particularidade dos três golos serem da autoria de Patenaude, que assim se tornava no primeiro jogador da história a fazer um hattrick em Mundiais. Com isto, os Estados Unidos da América seguiam para as meias-finais, onde viriam a cair com estrondo aos pés da poderosa Argentina, por 6-1, diante de 112,000 espectadores no majestoso e recém-construído Estádio Centenário.
O facto de a Jugoslávia – derrotada na outra semi-final ante os futuros campeões mundiais, do Uruguai – se ter recusado a disputar o encontro de atribuição dos 3.º e 4.º lugares conferiu aos norte-americanos a medalha de bronze, o que ainda hoje constitui o melhor resultado numa fase final de um Mundial de uma nação que sonha um dia vir a ser a número 1, como em tantas outras modalidades.

Porém, a aventura de Moorhouse com a seleção prolongar-se-ia até ao Mundial seguinte, realizado em Itália, em 1934, tendo o inglês (naturalizado) sido novamente selecionado e nomeado – desta feita – como capitão de equipa. Apesar de o combinado agora às ordens do escocês David Gould incluir algumas lendas do Mundial anterior, como Gonsalves, Florie, Jimmy Gallagher e o próprio Moorhouse, o que é certo é que os States cedo saíram da competição, após serem esmagados por 7-1 pela equipa da casa, na primeira ronda de eliminatórias.
Após a saída do futebol, George Moorhouse continuou a viver no país que lhe abriu as portas do belo jogo ao mais alto nível, a nação que o tirou do anonimato das reservas do Tranmere Rovers e que lhe concedeu a honra de figurar no National Soccer Hall of Fame, privilégio só concedido aos grandes ícones do soccer.
Faleceu a 13 de julho de 1982, curiosamente o mesmo em que meio século antes havia entrado na história ao “antecipar-se” à sua pátria natal na participação num Mundial FIFA.