Mostrando postagens com marcador Histórias do Planeta da Bola. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Histórias do Planeta da Bola. Mostrar todas as postagens

terça-feira, outubro 08, 2019

Histórias do Planeta da Bola (24)... Elizabeth Robbie: a primeira big boss no Planeta da Bola


O desaparecimento recente de Marlene Matheus (24 de setembro de 1936 - 2 de julho de 2019) abre caminho para esta nossa viagem ao passado. Uma incursão ao Mundo das mulheres que ousaram pisar um terreno dominado pelo sexo masculino. Não no campo de batalha, isto é, no terreno de jogo, onde de há (largos) anos a esta parte o sexo feminino dá cartas, quer na condição de atletas, quer enquanto treinadoras ou árbitras, mas sim na condução dos destinos de um clube de futebol, enquanto proprietárias, presidentes, ou até mesmo diretoras desportivas. Olhando para o mapa futebolístico global verificamos que são (ou foram) ainda poucas as senhoras que vestem, ou vestiram, o fato de big boss, ou chairman, neste caso, de chairwoman, ou como agora está em voga, CEO, de um clube de futebol.
Abrindo o Atlas do Futebol Mundial encontrámos alguns nomes que fizeram história, caso da já referida Marlene Matheus, a brasileira que ficou mundialmente conhecida por ter sido a primeira e única mulher que foi presidente do Corinthians. Um cargo que ocupou entre 1991 e 1993, tendo sucedido ao seu marido, o folclórico Vicente Matheus, que presidiu o clube paulista em mandatos não consecutivos entre os anos 50 e 90.

Porém, o nome mais sonante à frente de um clube é talvez o da espanhola Teresa Rivero, conhecida como a Dama de Ferro do futebol espanhol. A empresária que nada sabia de futebol, ou pelo menos assim pensava, quando em 1994 assumiu a presidência do Rayo Vallecano, o clube ió-ió como era conhecido antes da sua chegada à liderança, pelo sobe e desce constante entre as divisões secundárias de Espanha, revolucionou o pequeno emblema de Vallecas. Um clube financeiramente débil e sem perspetivas de futuro. Teresa Rivero alterou por completo este cenário, e fez do Rayo um clube estável e saudável sob o ponto de vista financeiro, e acima de tudo um emblema de primeira divisão, e que em finais do século passado atingiu as competições europeias. Com Teresa Rivero ao leme o Rayo Vallecano viveu os melhores anos da sua existência. A Dama de Ferro aposentou-se das lides futebolísticas em 2011.

Ainda no ativo está Ann Budge, the Queen of Hearts, traduzido na língua de Camões: a rainha do Hearts. Esta escocesa, nascida em Edimburgo, em 1948, é além de uma notável e reconhecida mulher de negócios e dona de uma das maiores fortunas da Escócia, a proprietária do Hearts of Midlothian Football Club. Budge comprou o clube em 2014 e desde logo procedeu a várias mudanças no seio do emblema de Edimburgo, tornando-o na terceira potência do futebol escocês, logo a seguir aos gigantes de Glasgow: Celtic e Rangers. Pela forma como tem administrado o Hearts, Budge recebeu em novembro de 2016 o prémio "CEO do Ano", no âmbito do Football Business Awards.  
Plantel dos Strikers em 1977, onde pontificava o campeão mundial Gondon Banks (Elizabeth Robbie encontra-se em segundo lugar na fila do meio, a contar da esquerda para a direita)
Estas três mulheres podem ter em comum o facto de terem transformado para melhor os seus clubes do coração, mas nenhuma delas foi pioneira na condução dos destinos de um clube. Esse estatuto pertence a Elizabeth Robbie. Esta cidadã norte-americana tornou-se no início da década de 70 na primeira mulher a presidir um clube de futebol. Ela e o seu marido fundaram em 1972 os Miami Toros, guiando, um ano mais tarde, este emblema até à principal liga do soccer norte-americano, a NASL. Em 1977 rebatizou o clube da Florida, passando este a denominar-se de Fort Lauderdale Strikers. Foi sob esta designação que o emblema atingiu a fama no futebol estado-unidense, numa liga que durante mais de uma década atraiu algumas das principais estrelas planetárias, como Pelé, Cruyff, Eusébio, Beckenbauer, entre muitos outros. 
Elizabeth Robbie, na fila de baixo ao meio, comanda os Strikers em 1981,
com Cubillas e Gerd Muller como estrelas da companhia
Os Strikers liderados por Robbie contribuíram para que a NASL (North American Soccer League) se tornasse talvez na competição mais galática do futebol mundial nos anos 70 e 80, pelo menos no que concerne à agregação na mesma liga de nomes tão sonantes. Sob a sua presidência o emblema de Miami falhou por muito pouco a glória - em 1974, ainda como Miami Toros, foram derrotados na final pelos Los Angeles Aztecs e em 1980 foram vergados na final do campeonato pelo galático Cosmos de Nova Iorque, que tinha nas suas fileiras nomes como Carlos Alberto, Seninho, Romerito, Frankie Van Der Elst, ou Neeskens. Contudo, construiu ao longo da sua presidência (até 1984) alguns dos melhores plantéis da velha NASL. Nomes como Gordon Banks, Gerd Muller, ou Teófilo Cubillas vestiram a camisola dos Strikers nesse período dourado do soccer dos Estados Unidos da América.

A sua preponderância não só no clube de Miami como no próprio futebol daquele país foi de tal forma importante que em 2003 ela passou a fazer parte do National Soccer Hall of Fame.

sexta-feira, março 08, 2019

Histórias do Planeta da Bola (23)... Nita Carmona: o exemplo de coragem e paixão que ousou derrubar a barreira do preconceito e do machismo

Nita Carmona

Tal como em tantos outros setores da sociedade global o futebol ainda é visto no presente como um Mundo exclusivamente masculina! Por incrível que aparece assim é.  
Esta constatação vem a propósito do Dia Mundial da Mulher, que hoje se comemora em todo o planeta. E leva-nos numa viagem ao passado de quase um século de distância para recordar a história de uma mulher que teve a coragem de entrar num Mundo que lhe era proibido para dar azo à sua paixão: jogar futebol.
Nita Carmona, o nome da heroína que para derrubar a barreira da masculinidade no futebol teve de... se disfarçar de homem!
Nascida em Málaga (Espanha) a 16 de maio de 1908, Anita Carmona Ruiz desde criança, nas calles do Bairro de Capuchinos, onde vivia, contornou as rígidas regras sociais, digamos assim, da época para viver a sua grande paixão: jugar la pelota.
Filha mais nova de um estivador do Porto de Málaga, Nita apaixonou-se pelo Belo Jogo precisamente ali, onde marinheiros ingleses praticavam o football nos tempos livres. Desde criança que lutou contra o preconceito de ser mulher num Mundo a quem só era permitida a entrada a homens. Luta que começava no seu próprio lar, com os castigos impostos pelos seus pais, que ao ver a sua menina mais nova chegar a casa com os joelhos esfolados e arranhões por todo o corpo após longos e duros (por certo) duelos futebolísticos travados com os chicos de Málaga, decretavam de pronto a prisão domiciliária com o intuito de a impedir de voltar a correr atrás da sua paixão: a bola.

Nita, ao meio, disfarçada de Veleta!
O preconceito familiar chegou a determinada altura a ser estendido ao tio de Nita, médico de profissão, que alegava que a força física, o suor e a competitividade que eram características da prática do futebol estavam restritas aos homens, e que tal esforço iria ser prejudicial ao desenvolvimento corporal da sua sobrinha. Nesse sentido, pediu aos pais de Nita para a enviarem temporariamente para a localidade isolada de Vélez-Málaga para a afastar da tentação de jogar futebol.
Porém, nem todos pactuavam com o preconceito de apoiar e acima de tudo incentivar uma mulher a brilhar num Mundo de homens. Em 1921, chega ao Bairro de Capuchinos um padre... liberal. O padre Miguez. Oriundo de Ourense (Galiza) também ele se havia deixado enfeitiçar pela bola, e no âmbito da igreja fundou o Sporting de Málaga, que acabaria por ser uma das sementes para a criação anos mais tarde do atual Málaga Club de Fútbol.
Nita entrou para um clube cuja missão passava acima de tudo por angariar fundos para adquirir roupas e comida para os menino(a)s mais desfavorecidos do bairro, como colaboradora do massagista da equipa de futebol.
Terá sido esta a forma de o padre Miguez ajudar Nita a contornar a proibição dos seus progenitores em dar azo à sua paixão de menina. Paixão essa que ganhava vida nos jogos que o Sporting de Málaga realizava fora de portas, nos quais tinha um reforço de peso: Nita Carmona. Isto acontecia porque nos jogos caseiros corria o risco de ser reconhecida pela vizinhança!
Corpulenta, de feições rudes, cabelo curto, a jovem durante algum tempo conseguiu esconder em campo os seus traços femininos, usando calças cumpridas, camisas largas e cabelo curto. Após ter sido descoberta por uma qualquer equipa adversária, Nita foi mesmo enviada de castigo para Vélez-Málaga, para casa de familiares. Ali, continuou a lutar pela sua paixão, tendo então feito amizade com a irmã do capitão da equipa do Vélez, Juan Barranquero, o qual viria a convencer a deixá-la atuar pelo combinado local sob o nome (masculino) de... Veleta, para que não fosse descoberta nem por adversários nem pelos próprios colegas de equipa.

E sob este disfarce, Nita jogou vezes sem conta ao serviço do Vélez. Foi assim até meados da década de 30, quando teve início a Guerra Civil espanhola, altura em que Nita Carmona não conseguiu mais ludibriar a barreira do preconceito, acabando por ser descoberta e detida pelas autoridades em várias ocasiões, sendo que a sua condenação nunca foi mais longe sempre devido à influência (Divina) do padre Miguez.
Nita Carmona morreu jovem, com apenas 32 anos, mas para a História mais do que ter sido a primeira mulher-futebolista em Espanha foi um exemplo de coragem e paixão ousou derrubar a barreira do preconceito e do machismo numa sociedade tão desigual (entre homens e mulheres).

quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Histórias do Planeta da Bola (22)... A primeira conquista viking no plano internacional... que na verdade não o foi!


A seleção dinamarquesa... ou o XI de Copenhaga
que venceu os Jogos Olímpicos Intercalados de 1906
Dinamarca. Quando o nome da nação escandinava vem ao de cima numa qualquer tertúlia da bola a primeira ideia que de nós se apodera é a inesquecível epopeia viking no Euro 92.
Disputado nesse ano em solo sueco, o torneio continental da UEFA foi contra todas as espetativas ganho pela repescada... Dinamarca! Chamados à última da hora - há quem diga que grande parte dos jogadores dinamarqueses estavam já estendidos nas tórridas areias do sul da Europa a gozar as merecidas férias de verão - para substituir uma Jugoslávia em guerra e que vivia os seus últimos dias enquanto nação, os vikings chegaram, viram e venceram!
Nomes como Brian Laudrup, Peter Schmeichel, Henrik Larsen, Kim Vilfort, ou John Jensen ascenderam ao patamar dos Imortais do Desporto Rei, após terem ajudado a criar o Momento de Glória do futebol do seu país.
No instante em que o capitão Lars Olsen erguia a Taça Henri Delaunay nos céus de Gotemburgo, muitos daqueles (novos) campeões europeus provavelmente desconheciam que aquela não era uma coroação inédita do futebol dinamarquês a nível internacional. Cerca de nove décadas antes - 86 anos para sermos mais exatos - um punhado de bravos vikings conquistou o Olimpo - no que ao Belo Jogo concerte. Ainda que essa seja uma conquista... oficialmente não reconhecida! E não o é por duas razões.
Primeiro, foi alcançado no seio de um evento exibicional, órfão de cariz oficial; e em segundo porque o futebol ainda não integrava o programa oficial de uma grande competição desportiva planetária, como era o caso dos Jogos Olímpicos (JO), na altura o único evento desportivo com selo global.

A Atenas o que é de... Atenas

Na primeira década do século XX a importância e dimensão das Olimpíadas da Era Moderna não eram ainda semelhantes ao panorama atual.
Exemplo dessa "medíocre" popularidade terão sido os Jogos de Paris (1900) e de Saint Louis (1904), que mais não terão sido do que meros apontamentos paralelos das Exposições Universais organizadas nessas duas cidades.
No entanto, se havia povo que estava ciente do relevo dos Jogos eram os gregos, eles que em 1896 organizaram em Atenas a primeira edição das Olimpíadas da Era Moderna sob a batuta do francês Pierre de Coubertin.
E precisamente para assinalar o sucesso dessa edição inaugural dos JO, a Grécia resolve em 1906 organizar uma nova edição olímpica. Para os gregos aquela seria uma forma de recuperar um evento que entediam ser exclusivamente seu, ganhando assim corpo a ideia do rei Jorge I de que Atenas deveria ser a sede permanente dos Jogos.

Porém, parte do Comité Olímpico Internacional (COI) encarava este evento como uma mera comemoração do 10.º aniversário do início dos JO da Era Moderna, sem qualquer cariz oficial, até porque havia ficado definido que as Olimpíadas seriam realizadas de quatro em quatro anos, e aquele não era um ano olímpico. De tal forma que o Coubertin denominou o evento de Jogos Olímpicos Intercalados. O que é certo é que após duas edições (oficiais) fracassadas havia divisões no seio do próprio COI. Muitos dos seus membros partilhavam da ideia do rei dos helénicos, de que Atenas deveria sediar de forma permanente os Jogos, e a prova disso é que tanto em Paris como em Saint Louis os ideais olímpicos haviam sido abalados, ou abafados, pelas duas Exposições Universais.

O Estádio Panatenaico
Foi inclusive sugerido por alguns elementos do COI realizar os JO de dois em dois anos, alternando entre Atenas e uma cidade noutro país, para minimizar um eventual desprezo em torno do evento semelhante ao que foi verificado em 1900 e 1904. Porém, o barão Pierre de Coubertin não concordou e manteve a ideia de as Olimpíadas serem realizadas de quatro em quatro anos de forma rotativa, isto é, em cidades diferentes.
Mesmo com estas diferentes visões o que é certo é que Atenas se engalanou para receber aquela que era encarada por muitos como a quarta edição dos Jogos.
O circo olímpico foi montado no mítico Estádio Panatenaico onde 10 anos antes a viagem olímpica havia começado. Os atenienses introduziram neste ano algumas novidades aos Jogos que perduram até aos dias de hoje, mais concretamente a ocorrência de uma cerimónia de abertura em que todos os atletas desfilaram em redor do estádio, e o facto de pela primeira vez os atletas terem recebido medalhas.

Vikings no meio de uma família franco-britânica e não só!

Os artistas do Omilos Filomouson Thessalonike
Vinte países competiram num evento realizado entre 22 de abril e 2 de maio de 1906, num total de 903 atletas que se dividiram por 14 modalidades.
Entre elas estava o futebol. Modalidade que, recorde-se, só viria a fazer parte do cartaz oficial dos JO em 1908, em Londres, embora tenha feito a sua primeira aparição no evento desportivo planetário em Paris (1900) e repetido essa presença quatro anos depois em Saint Louis (1904). Aparições essas (das quais já aqui falamos noutras viagens ao passado) que como já foi referido não tiveram a bênção nem do COI, nem (mais tarde) da FIFA, sendo encarados apenas como meros torneios exibicionais, em que os grosso dos participantes nem seleções nacionais eram!
Algo semelhante ocorreu em 1906. A exceção foi mesmo a Dinamarca, que assim se tornava na primeira seleção nacional a competir nos Jogos... mesmo sendo estes de cariz não oficial. Outro argumento que nos dias de hoje pode desconsiderar a participação dinamarquesa naquele torneio prende-se com o facto de a equipa nacional não ter sido escolhida pela DBU (Dansk Boldspil Union) - a federação de futebol daquele país -, mas sim pelo professor Carl Andersen,  o qual formou uma equipa de jogadores oriundos de Copenhaga para viajar até Atenas. De tal maneira que muitos historiadores desportivos denominam a equipa viking de... Kobenhavn XI - o 11 de Copenhaga - e não de seleção da Dinamarca.

Giorgos Kalafatis
Juntamente com os nórdicos fizeram parte do mini-torneio olímpico - se assim o podemos denominar à luz da verdade - uma equipa de Atenas, formada por jogadores do Ethnikos Gymnastikos Syllogos e do Panellinios Gymnastikos Syllogos, dois dos mais antigos clubes do futebol grego e por alguns... ginastas que haviam competido nas Olimpíadas de 1896! Na frente de ataque do excêntrico combinado ateniense estava além do filho do presidente da Câmara de Atenas, Giorgios Merkouris, aquele que era por aqueles dias considerado o Deus do futebol helénico: Giorgos Kalafatis, um dos pioneiros na dinamização do futebol na Grécia.
Do então Império Otomano vieram as outras duas equipas participantes no torneio, o Omilos Filomouson Thessalonike (Salónica) e o Smyrna.
O combinado de Salónica era composto por membros da Associação Amigos da Arte Moderna (!), que mais tarde seria o berço do Iraklis de Salónica. Já o Smyrna era digamos que uma equipa cosmopolita, formada por filhos de comerciantes ingleses e francesas radicados na então cidade de Esmirna (atualmente Izmir), na costa turca do Mar Negro, então parte integrante do Império Otomano. Este grupo tinha a particularidade de sete dos seus elementos serem parentes! A família inglesa dos Whittall, fez-se representar naquele combinado pelos irmãos Edward, Godfrey e Alfred, juntamente com os seus primos Donald (que nesses JO Intercalares também participou na competição de remo) e Herbert. Do lado francês os irmãos Edmund e Jim Giraud compunham o ramalhete familiar. Aliás, o grau de parentesco não se ficava por aqui, já que apesar de terem nacionalidades diferentes os Whittall e os Giraud eram... primos!

Final só durou 45 minutos!

Curiosidades familiares à parte este acabou por ser um torneio cheio de peripécias. O velódromo Podilatodromio, hoje denominado de Estádio Karaiskaki, acolheu todas as partidas, tendo a primeira acontecido no dia 23 de abril, colocando lado a lado dinamarqueses e o Smyrna. Sob arbitragem do sueco Goster Drake e perante 3000 pessoas, o encontro chegou ao intervalo empatado a um golo. Porém, na segunda parte - e a julgar pelo volume do resultado - os vikings arrasaram com as famílias Whittall e Giraud, vencendo por 5-1 e garantindo assim a presença na final.
Na verdade, quer deste, quer dos restantes jogos poucos ou nenhuns registos existem, desconhecendo-se, entre outros factos, quais os autores dos golos ou como jogaram as equipas, sabendo-se apenas que todas elas se apresentaram num rudimentar esquema tático de 2-3-5! Tão usual naquela época.

A "família" do Smyrna
Na outra meia final, também ocorrida nesse mesmo dia, a rivalidade entre gregos e otomanos não se deve ter feito sentir por aí além... atendendo ao volumoso triunfo da equipa de Atenas sobre a de Salónica por 5-0. Este duelo teve a particularidade de ser arbitrado pelo treinador e responsável pelo grupo dinamarquês, o professor Carl Andersen.
Estavam assim encontrados os finalistas do torneio, os quais iriam medir forças num jogo que haveria de ficar para a História não pelos melhores motivos!
Sob arbitragem do sueco Goster Drake, o jogo do título foi disputado um dia após as semi-finais! Na verdade não foi um jogo, foi só meio jogo! Isto é, durou somente 45 minutos, porque ao intervalo o conjunto do professor Carl Andersen vencia por 9-0 a equipa da capital helénica.
Quiçá temendo uma dose igual no segundo tempo, os gregos não compareceram no segundo tempo, numa atitude que ia contra as regras do desportivismo ou do espírito olímpico, se preferirem. Esta postura causou indignação na organização, que de pronto desclassificaria os atenienses e agendaria para o dia seguinte um jogo entre os dois derrotados nas meias-finais no sentido de apurar os 2.º e 3.º classificados, isto é, para atribuir a prata e o bronze, já que o ouro havia sido arrebatado com estrondo pelos vikings.
A união familiar acabou por fazer toda a diferença nesse jogo de luta pela prata, já que Smyrna esmagou por 12-0 os artistas de Salónica, que mesmo sem terem marcado qualquer golo e sofrido 17 (!) em dois jogos ainda levaram para casa o bronze.

Mesmo não sendo uma vitória oficial, esta não deixou de ser o início de uma caminhada que haveria de confirmar a Dinamarca como uma das nações mais potentes do futebol continental dos anos seguintes. Isto, a julgar pelo facto de nos dois torneios olímpicos posteriores, em 1908 (Londres) e 1912 (Estocolmo), ter arrecadado em ambos a medalha de prata, sendo apenas superada pelos inventores do football: os ingleses. Ou, por outras palavras, a seleção da Grã-Bretanha, que venceu os dois primeiros torneios olímpicos oficiais (considerados quer pela FIFA, quer pelo COI).
Alguns dos campeões dos JO Intercalados de 1906 fariam parte das seleções dinamarquesas dos torneios de 1908 e 1912, casos de Oskar Norland, Charles Buchwald (ambos competiram quer em Londres, quer em Estocolmo) e August Lindgren.
A valer ou não, o que é certo é que estes três homens juntamente com Viggo Andersen, Peter Petersen, Parmo Ferslev, Stefan Rasmussen, Aage Andersen, Holger Frederiksen, Henry Rambusch e Hjalmar Heerup deram a primeira grande vitória internacional do futebol dinamarquês, muito antes de Brian Laudrup, Schmeichel, Larsen, Olsen, ou Vilfort terem conquistado a Europa após uma épica vitória sobre a Alemanha no relvado do Ullevi Stadium, naquela inesquecível tarde de verão de 1992.