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terça-feira, maio 05, 2020

Histórias do Planeta da Bola (25)... Claude Bez, o homem que sonhou fazer do Bordéus o primeiro galático do futebol francês

O excêntrico Claude Bez

Quem hoje em dia olha para o futebol francês, e para o campeonato gaulês em concreto, facilmente percebe o abismal desnível entre o Paris Saint-Germain (PSG) e o resto do pelotão futebolístico. Vestindo e pele de novos ricos não só em França como igualmente na Europa do futebol, os parisienses dominam sem grande esforço o panorama nacional enquanto ambicionam época após época ascender ao patamar da glória internacional na sequência da sonhada conquista da Liga dos Campeões Europeus. Mas será que vai lá chegar? Será que o infindável dinheiro catari que abunda nos cofres do PSG vai levar o emblema da capital francesa à glória internacional? Estas são perguntas que até hoje ainda não tiveram uma resposta.
E são igualmente questões que nos levam à (longa) viagem ao passado que hoje damos início, à história do primeiro novo rico do futebol francês que sonhou e... falhou por muito pouco a conquista da glória continental.
E essa história leva-nos até ao sudoeste de França, até à nova Paris, à capital do famoso vinho francês onde na década de oitenta nasceu uma das melhores colheitas do futebol gaulês pelas mãos de um polémico visionário que transformou não só o clube da sua cidade natal como o próprio futebol gaulês. A história de hoje centra-se em Claude Bez e no seu Girondins de Bordeux, ou Bordéus no idioma de Camões.

O megalómano gordo de bigode farfalhudo

Gordo, de bigode farfalhudo, Claude Bez - um revisor oficial de contas nascido a 4 de novembro de 1940, em Bordéus - chegou ao clube da sua cidade na década de 70, numa década em que Les Verts do Saint-Étienne e o Nantes dominavam o futebol francês.
França vivia o início de uma era verdadeiramente dourada do seu futebol, a qual era liderada pelo genial Michel Platini, o craque do Saint-Étienne que em 1982 iria dar o salto para a poderosa Juventus.
Quatro anos antes desta transferência o então tesoureiro do Bordéus dá um passo de gigante ao assumir a presidência do clube com o sonho - megalómano - de o levar ao topo do futebol europeu. Essa figura era o excêntrico Claude Bez.

Girondinos que até aquela altura não ostentavam no seu palmarés mais do que um par de títulos, nomeadamente um campeonato nacional (1950) e uma Taça de França (1941). Com a chegada de Bez ao poder tudo mudou. Antes da sua chegada à cadeira da presidência - facto ocorrido a 1 de agosto de 1978 após a renúncia do então presidente Jean Roureau - o Bordéus arrastava-se penosamente na Ligue 1 (1.ª Divisão gaulesa) com performances modestas e classificações condizentes com a sua (má) prestação nos relvados franceses. A título de exemplo, na década de 70 a melhor classificação dos girondinos foi um 5.º lugar, em 70/71, sendo que entre 1972 e 1975 nem sequer superou o 10.º lugar da tabela e em 1977/78 acabou em 16.º lugar a apenas um ponto da despromoção.
Seria, precisamente, no final desta péssima temporada que o então vice-presidente e tesoureiro do clube, Claude Bez, assumiu a presidência.

A chegada de Bez ao leme não trouxe porém os resultados positivos imediatos que o mítico dirigente tinha já em mente para o clube. A sua ambição em fazer do Bordéus o melhor clube de França e um dos melhores da Europa ainda teve de esperar uma boa mão cheia de anos, pese embora desde a sua chegada ele tudo fez para que essa meta fosse atingida o mais rápido possível. E como o fez? Contratando alguns dos melhores jogadores franceses de então e treinadores de renome internacional.

Parada de estrelas chegam a Bordéus para fazer companhia a Alan Giresse


O lendário capitão do Bordéus Alan Giresse
De frisar que a equipa antes da chegada de Bez não era orfã de craques da bola, muito pelo contrário, pois no seu plantel figurava desde 1971 um dos melhores jogadores gauleses da célebre geração de Platini que em 84 guiou a França ao título continental de seleções e a brilhantes presentes nos Mundiais de 82 e 86 - onde em ambos atingiu as meias-finais. Alan Giresse, o seu nome. O pequeno pensador, ou o motorzinho, alcunhas pelas quais ficou conhecido quer ao serviço do Bordéus , quer ao serviço da seleção nacional, pelas ideias mágicas que impunha no relvado e pela forma talentosa como conduzia o jogo das suas equipas, este gigante de 1,62m formou com Michel Platini, Jean Tigana e Luis Fernández um dos meios campos mais sublimes e encantadores da História do futebol planetário.
Mas voltemos a Bordéus, onde ao longo da década de 70 a equipa era constituída por Giresse e mais 10. Faltava claramente ajuda ao pequeno mosqueteiro francês para catapultar os girondinos para patamares mais altos. E ainda como Bez na qualidade de tesoureiro - embora já fosse o homem do dinheiro dentro do clube - chega a Bordéus o possante e sonante defesa central alemão Gernot Rohr, campeão europeu pelo Bayern nos anos 70, e em fim de contrato com os bávaros, pois ainda não havia grande liquidez financeira nos cofres do Bordéus para passos mais arrojados.
Rohr chegava para liderar o setor recuado onde já pontificava desde 1976 o jovem Jean-François Domergue, que viria igualmente a fazer parte da mítica seleção gaulesa de 84.  

Partida em falso...

A primeira época de Bez como presidente não foi famosa, longe disso, embora o número de contratações tivesse sido elevado para servir o conceituado e vitorioso treinador argentino Luis Antonio Carniglia. Este antigo jogador que despontou para o Mundo da Bola no Boca Juniors e que na Europa fez carreira em França, sobretudo ao serviço do Nice onde esteve quatro épocas nos anos 50, ficou célebre por levar (na condição de treinador) o Real Madrid à conquista de duas Taças dos Clubes Campeões Europeus (1958 e 1959).
Quando aterrou em Bordéus, Carniglia tinha já passado a barreira dos 60 anos, mas na bagagem trazia uma vasta experiência (de treinador) obtida em países como Espanha, Itália e Argentina.
Em 78/79 o Bordéus de Carniglia não foi além de um modesto 10.º lugar numa liga conquistada pelo modesto e surpreendente Estrasburgo. Esta péssima classificação fez com que Bez despedisse o técnico argentino, e para o seu lugar foi buscar outro peso pesado das táticas, o belga Raymond Goethals, cujo currículo dispensava apresentações. Era um dos melhores treinadores do planeta, tendo guiado a seleção belga no Europeu de 1972 e no Mundial do México dois anos antes. Seria, porém, ao serviço de clubes que mais se iria distinguir, com conquistas de vários títulos nacionais ao serviço do Anderlecht e do Standard de Liège, clubes estes que guiou até duas finais europeias - da Taça das Taças - tendo mesmo vencido uma delas ao serviço do emblema da capital belga. Ironia das ironias, seria com Goethals que a Taça dos Campeões Europeus viajou pela única vez - até aos dias de hoje - para França. Foi em 1993, quando ao serviço do Marselha o belga surpreendeu o super Milan dos anos 90 numa final disputada em Munique. Mas a ironia desta conquista está no facto de que esse Marselha era presidido pelo grande rival, ou melhor, pelo maior inimigo, de Claude Bez no que toca ao controle do futebol francês: Bernard Tapie.

Um visionário desde que haja dinheiro no bolso

Aimé Jacquet, o mestre da tática que deu vida
a parte do sonho de Bez
Mas voltemos a 79/80, onde a Bordéus chegam reforços como Jean-Christophe Thouvenel, Daniel Tallineau. Felix Lacuesta, Omar Sahnoun, o argentino Juan Domingo Cabrera e os internacionais franceses Bernard Lacombe, Albert Gemmerich e Gerard Soler. Porém, nada disto foi suficiente para devolver o título nacional aos girondinos, como comprova um modesto - face à ambição de Bez - 6.º lugar, a 17 pontos do campeão Nantes.
Bez era tudo menos um homem paciente, e a prova disso é que nem o célebre  Goethals conseguiu segurar o seu lugar no banco do Bordéus para a época seguinte.
Bez percebia para chegar ao topo precisava de mais, sobretudo mais dinheiro, e na entrada dos anos 80 tenta convencer a Câmara de Bordéus a investir no clube da cidade, com o argumento de levar o nome da terra pelos quatro cantos do Mundo. Repare-se, que já na altura Claude Bez era um visionário, um homem à frente do seu tempo, pois já na altura percebia que sem dinheiro, sem um forte investimento, dificilmente o seu clube dominaria o futebol. No fundo, o que clubes como o PSG, Manchester City, Barcelona, Real Madrid, ou Bayern fazem hoje: investem fortunas para estar no topo.

Tigana, Battiston e Giresse
O Município atendeu ao pedido de Bez e injetou 6 milhões de francos no clube, que assim pôde fazer contratações ainda mais sonantes para o seu plantel, casos dos internacionais gauleses Marius Tresor e François Bracci.
Mas mais importante do que estas contratações foi a chegada do jovem técnico de 39 anos - vindo do Lyon - Aimé Jacquet. O seu nome, hoje, dispensa apresentações, estando nós perante o homem que revolucionou o futebol francês nas décadas de 80 e 90, primeiro ao serviço do Bordéus e depois ao serviço da seleção francesa.
Na primeira temporada de Jacquet os girondinos terminaram em 3.º lugar, que lhes valeu a qualificação para a Taça UEFA da época seguinte e mais do que isso devolveu Alan Giresse à seleção gaulesa, fruto das suas inolvidáveis exibições na temporada de 80/81.
Na época seguinte a fasquia financeira subiu, e a Câmara de Bordéus investiu mais 4 milhões de francos no clube para que este se pudesse reforçar ainda mais. E essa verba ajudou a trazer para Bordéus outra mega estrela do então futebol gaulês: Jean Tigana. O médio fazia a viagem de Lyon para o sudoeste de França onde iria reencontrar o seu antigo treinador no Olympique.
Para a baliza chegou o internacional jugoslavo Dragan Pantelic, que havia estado em bom plano no Mundial de Espanha; enquanto que para a defesa aterrava em Bordéus o argelino Nourdine Kourichi, também com excelentes prestações ao serviço da sua seleção no Mundial de 82.
Nessa temporada o Bordéus lutou até final pelo título, mas claudicou na reta final perante um super Mónaco, acabando por ficar na 4.ª posição.

Bordéus foi preponderante no êxito da França em 84

Apesar de esta aposta ainda não dar os seus frutos, o Bordéus era já um dos principais fornecedores de jogadores à seleção de França. Na brilhante campanha do Mundial de 82 Les Blues levaram para Espanha seis jogadores do Bordéus (Tigana, Giresse, Trésor, Girard, Soler e Lacombe).
Com o poderoso Saint-Étienne envolvido num escândalo financeiro e obrigado a vender a sua mega estrela Michel Platini para a Juventus, o caminho do Bordéus para o título ficou mais facilitado, digamos assim.
O Município de Bordéus voltou a puxar os cordões à bolsa, e passou para os girondinos mais 6 milhões de francos, que seriam gastos em jogadores como o guarda-redes Richard Ruffier, ex-Nimes, que substituiu o castigado Pantelic, que após na temporada anterior ter agredido um adversário foi suspenso durante vários meses; e ainda os defesas internacionais Leonard Specht e Raymond Domenech, e a mega estrela alemã Dieter Muller. Contratado ao Estugarda, este avançado era um dos mais talentosos e mortíferos do futebol europeu de então.
Em 82/83 a equipa de sonho do Bordéus fez jus ao nome e foi a melhor equipa do campeonato em futebol praticado. Apenas um senão: não foi campeão, esse foi o Nantes do goleador Vahid Halilhodzic.

Finalmente a glória

Bez estava cada vez mais perto do seu sonho. E para 83/84 contrata mais um internacional gaulês de peso: Patrick Battiston, que havia deixado um Saint-Étienne que ainda estava em chamas fruto da crise que atingiu o mítico clube.
O Bordéus estava cada vez mais forte dentro de campo, e essa temporada foi mesmo a da sonhada glória interna. Porém, a caminhada gloriosa teve um osso duro de roer, o Mónaco, que ao longo da época não largou por uma única vez os girondinos nos lugares cimeiros da Ligue 1. Ambos chegaram ao fim com os mesmos pontos conquistados: 54, mas com o Bordéus a levar a melhor na diferença entre golos marcados e golos sofridos.
50 anos depois o Bordéus era de novo campeão de França. O país já estava conquistado, e o próximo passo seria agora a Europa.
1984 foi, como já vimos, um ano de ouro para o futebol francês, já que pela primeira vez a seleção nacional conquistou um grande título internacional, neste caso o Europeu. Estava assim superada a mítica seleção de 1958 que no Mundial da Suécia deslumbrou o Planeta da Bola com o seu futebol champanhe. E nesse grupo de 84, liderado pelo mago Platini, o Bordéus era a par do Mónaco o clube mais representativo, com cinco jogadores (Tigana, Battiston, Giresse, Tusseau e Lacombe), sendo que quatro deles atuaram na final contra a Espanha realizada em Paris. Significava isto que o projeto de Bez estava a atingir o ponto, e mesmo com apenas um título nacional no bolso o Bordéus era já por esta altura o emblema Número 1 de França.
E agora empunha-se não só manter o estatuto de potência (interna) do futebol gaulês mas acima de tudo conquistar a Europa. E Claude Bez não olhava a cifrões na hora de continuar a alimentar o seu sonho.

Chalanix para dar asas ao sonho europeu...

Chalana
No Euro gaulês brilhou um pequeno (grande) jogador português, de farta cabeleira e de bigode, que mais fazia lembrar a personagem Astérix. A sua rapidez estonteante e o seu drible mirabolante valeram-lhe a entrada no 11 ideal desse Campeonato da Europa. Fernando Chalana, era o seu nome. Ou Chalanix, como passou a ser conhecido em França após a magia que transpôs para os relvados gauleses. Bez ficou louco com Chalana, tão louco que no verão de 84 pagou 220 mil contos ao Benfica pelo passe do "pequeno genial" como também era conhecido o atleta. Foi, aliás, o dinheiro desta transferência que permitiu ai Benfica concluir as obras do terceiro anel do antigo Estádio da Luz.
1984/85 marcava a estreia do Bordéus na mais importante prova de clubes do Mundo a nível de clubes, a Taça dos Campeões Europeus, e o excêntrico presidente do clube francês não fazia a coisa por menos: ganhar.
Além de Chalana, chegava igualmente a Bordéus o guarda-redes Dominique Dropsy, vindo do Estrasburgo, para agarrar a baliza que até então era de Delachet.
E se a nível interno o percurso dos girondinos foi feito quase em ritmo de passeio, e quase, por que o Nantes teimou em certas alturas da temporada em não facilitar a vida aos bordaleses, e que culminou com a conquista do bi-campeonato nacional, na Europa o sonho... morreu na praia e às mãos do compatriota Michel Platini.

O Athletic Bilbao (campeão de Espanha então treinado por Javier Clemente e onde pontificavam nomes como Zubizarreta, Andrínua, Sarabia, ou Julio Salinas) foi a primeira vítima a cair aos pés dos galáticos do Bordéus na primeira eliminatória. Muller, Battiston e Lacombe marcaram os golos da vitória por 3-2 na 1.ª mão, ao que se seguiu um empate a zero em San Mamés.
Na ronda seguinte novo osso duro de roer, desta feita o campeão romeno, o Dínamo de Bucareste, a quem o Bordéus venceu de forma sofrida por 1-0 na 1.ª mão realizada no Parc Lescure graças a um golo do alemão Muller. Por esta altura já Chalana se via a braços com as lesões que impediram de se tornar numa pedra chave deste dream team de Aimé Jacquet.
Chalana pouco ou nada jogava. Na segunda mão, em Bucareste, foi preciso prolongamento para apurar o Bordéus para os quartos-de-final, já que ao fim dos 90 minutos o Dínamo vencia por 1-0, tendo aos 113 minutos do tempo extra Lacombe marcado o 1-1 final que carimbou a passagem à ronda seguinte. O sonho de Claude Bez estava cada vez mais perto mas ao mesmo tempo sofrido, e nos quartos-de-final o opositor foi o então campeão soviético, o Dnipro, que impôs duas igualdades a uma bola aos franceses, facto que teve de decidir a eliminatória nas grandes penalidades, com o Bordéus a ser mais feliz. O Heysel (local da final) estava cada vez perto. Mas para lá chegar era preciso ser-se pouco cavalheiro e derrubar uma Velha Senhora do futebol planetário, a Juventus.

... que foi curto graças ao compatriota Platini

Juve desfez o sonho europeu do Bordéus
Já com Chalana no 11, recuperado de lesão, o Bordéus foi trucidado em Turim por uma Juve endiabrada sob a batuta do melhor jogador europeu de então: Michel Platini. 3-0 no Estádio Olímpico de Turim. Poucos acreditavam que no Parc Lescure o Bordéus pudesse dar a volta e seguir viagem rumo ao sonho europeu. Lotado, o estádio bordalês viu a sua equipa realizar uma exibição épica que quase derrubou a Juventus. 2-0 a favor dos girondinos, com golos de Muller e Battiston, foi insuficiente para Claude Bez colocar a cereja no topo do bolo.
Nas duas temporadas seguintes o Bordéus continuou a dominar o futebol francês. Com uma equipa que ia sendo rejuvenescida face à veterania que começava a ditar leis em jogadores como Lacombe, Giresse, ou Tigana, enquanto que Dieter Muller já tinha partido para o seu país após três épocas fantásticas nos girondinos, e Chalana continuava a dar sinais de fragilidades físicas, o Bordéus venceu a Taça de França de 1985/86 ao bater na final e após prolongamento o Marselha por 2-1, com golos das lendas Tigana e Giresse já em claro fim de linha.

Bez versus Tapie: inimigos de morte

Bez versus Tapie
Mais do que dois clubes em confronto esta final opôs dois homens que se odiaram de morte, se gladiaram pelo poder no futebol francês: Claude Bez e Bernard Tapie. Ambos, transformaram o futebol profissional francês. Para melhor ou para pior? As opiniões dividem-se. Por esta altura, já Bez há muito que via o futebol como um negócio de milhões, tendo sido o primeiro dirigente a envolver-se numa guerra com as televisões para extrair o dinheiro das transmissões de jogos pela TV. Ou seja, garantir para o seu clube os direitos televisivos, tão comuns nos dias de hoje. Tapie, um empresário de Marselha, entrou anos depois também em cena e com Bez desenvolveu a partir de então um braço de ferro titânico ao nível do setor dos direitos televisivos e não só no sentido de dominar o futebol francês... dentro e fora do campo.
Mas voltando ao futebol jogado, em 85/86 só o Championnat escapou ao Bordéus, já que o adolescente Paris Saint-Germain - com apenas 16 anos de vida - levou a melhor sobre a concorrência, deixando os girondinos em 3.º.
A juventude de Alan Roche e Jean-Marc Ferreri, a par da veterania de Tigana, Rohr, Battiston, Girard e Lacombe ajudou a alcançar uma época de ouro no plano interno na época seguinte, conquistado a famosa dobradinha (campeonato e taça) pela primeira vez na história do clube.
Esta temporada ficou igualmente marcada por mais uma batalha entre Bez e Tapie, com este último a dar uma machadada no excêntrico presidente do Bordéus quando levou para o sul de França o veterano Giresse, capitão de equipa e ídolo dos bordaleses durante anos a fio. Começava aqui a mudar o paradigma do futebol francês, com a passagem de testemunho de Bez para Tapie.
Porém, naquela temporada, e no retângulo de jogo, Bez levou a melhor sobre Tapie, já que além do campeonato arrebatou a Taça de França após bater na final... o Marselha, por 2-0. A temporada de 86/87 esteve perto de ser perfeita para os girondinos, já que na Taça das Taças, na altura a segunda competição mais importante da UEFA, estes caíram nas meias-finais aos pés do Lokomotiv de Lieipzig... no desempate por grandes penalidades.
Em 87/88 muitos jogadores até então fundamentais partiram de Bordéus, casos de Patrick Battiston, Specht, Chalana, ou Bernard Lacombe e caras novas chegaram ao plantel de Jacquet, que não conseguiu impedir que o Mónaco treinador por um jovem Arsène Wenger fosse campeão.
88/89 foi quase como o fim do sonho megalómano de Claude Bez, e apesar de o clube se reforçar com jovens promessas do futebol internacional, como o belga Enzo Scifo, ou os franceses Eric Cantona e Christophe Dugarry, para além de ter contratado o veterano avançado Yannick Stopyra ao Toulouse, que fez furor no Mundial de 86, o Bordéus não foi além de um impensável 12.º lugar de um campeonato onde Tapie e o seu l' OM levaram a melhor.

Escândalos, corrupção, declínio, prisão e morte

Envolvido numa série de escândalos nos tempos seguintes, desde logo por querer tomar de assalto os destinos do futebol francês, a nível federativo, onde fez uma campanha com o intuito de demitir o técnico Henri Michel. Intento que teve algum êxito, já que foi ele o responsável por levar Michel Platini para o cargo de selecionador francês após o fracasso da não qualificação para o Europeu de 88 onde a França iria defender o seu título de campeã.
Internamente, e após o fracasso de 88/89, Bez demite Aimé Jacquet, chamando de novo para o comando da sua equipa o belga Raymond Goethals, que na época seguinte por apenas dois pontos não tirou o título de campeão ao Marselha de Tapie. Esta boa temporada foi da responsabilidade de jogadores que haviam chegado nessa temporada, como o guardião camaronês Bell, o defesa alemão Manfred Kaltz,o dinamarquês Jasper Olsen, ou o avançado alemão Klaus Allofs.
A temporada seguinte começou com Goethals, que para reconquistar o ceptro de campeão havia ido buscar o avançado holandês Wim Kief, ao PSV, e quiçá, a aquisição mais saborosa dessa época, Didier Deschamps, roubado ao rival Marselha. Lembram-se de Giresse? Pois bem, Bez pagava agora na mesma moeda a Tapie, levando para o Parc Lescure um dos mais promissores futebolistas do l' OM. Só que Goethals apenas aguentou meia dúzia de jornadas no comando do Bordéus, cujos resultados em campo eram péssimos. O ex-central Gernot Rohr assumiu a equipa interinamente até Bez dar uma nova facada pelas costas a Tapie ao ir buscar o treinador do Marselha, Gérard Gili. Nada disto resultou, já que o Marselha com o campeão do Mundo de seleções Franz Beckenbauer no banco foi campeão e relegou o Bordéus para um penoso 10.º lugar.
Ultrapassado dentro das quatro linhas pelo inimigo Tapie, Bez via-se obrigado a golpes sujos para vencer. E em 1990 admite pela primeira vez ter contratado prostitutas para oferecer a árbitros. Foi precisamente neste ano que Claude Bez anuncia que deixa de ser o presidente do Bordéus, facto que não fez que deixasse de andar nas bocas do Mundo, muito pelo contrário, e sempre pelas piores razões. Nos anos seguintes é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, e em 1994 é condenado a dois anos de prisão. Cinco anos tarde teve um ataque cardíaco fatal. Morria a 26 de janeiro de 99 com 58 anos. Escandaloso, megalómano, sonhador, trapaceiro, o que é certo é que ele revolucionou o futebol francês e em particular o seu Bordéus, que desde a sua morte somente alcançou mais dois títulos de campeão nacional, uma Taça de França, e três Taças da Liga. Ainda hoje, todos os anos, um grupo de adeptos mais fanáticos dos girondinos coloca uma coroa de flores na campa de Claude Bez em sinal de respeito, agradecimento... e saudade.

terça-feira, outubro 08, 2019

Histórias do Planeta da Bola (24)... Elizabeth Robbie: a primeira big boss no Planeta da Bola


O desaparecimento recente de Marlene Matheus (24 de setembro de 1936 - 2 de julho de 2019) abre caminho para esta nossa viagem ao passado. Uma incursão ao Mundo das mulheres que ousaram pisar um terreno dominado pelo sexo masculino. Não no campo de batalha, isto é, no terreno de jogo, onde de há (largos) anos a esta parte o sexo feminino dá cartas, quer na condição de atletas, quer enquanto treinadoras ou árbitras, mas sim na condução dos destinos de um clube de futebol, enquanto proprietárias, presidentes, ou até mesmo diretoras desportivas. Olhando para o mapa futebolístico global verificamos que são (ou foram) ainda poucas as senhoras que vestem, ou vestiram, o fato de big boss, ou chairman, neste caso, de chairwoman, ou como agora está em voga, CEO, de um clube de futebol.
Abrindo o Atlas do Futebol Mundial encontrámos alguns nomes que fizeram história, caso da já referida Marlene Matheus, a brasileira que ficou mundialmente conhecida por ter sido a primeira e única mulher que foi presidente do Corinthians. Um cargo que ocupou entre 1991 e 1993, tendo sucedido ao seu marido, o folclórico Vicente Matheus, que presidiu o clube paulista em mandatos não consecutivos entre os anos 50 e 90.

Porém, o nome mais sonante à frente de um clube é talvez o da espanhola Teresa Rivero, conhecida como a Dama de Ferro do futebol espanhol. A empresária que nada sabia de futebol, ou pelo menos assim pensava, quando em 1994 assumiu a presidência do Rayo Vallecano, o clube ió-ió como era conhecido antes da sua chegada à liderança, pelo sobe e desce constante entre as divisões secundárias de Espanha, revolucionou o pequeno emblema de Vallecas. Um clube financeiramente débil e sem perspetivas de futuro. Teresa Rivero alterou por completo este cenário, e fez do Rayo um clube estável e saudável sob o ponto de vista financeiro, e acima de tudo um emblema de primeira divisão, e que em finais do século passado atingiu as competições europeias. Com Teresa Rivero ao leme o Rayo Vallecano viveu os melhores anos da sua existência. A Dama de Ferro aposentou-se das lides futebolísticas em 2011.

Ainda no ativo está Ann Budge, the Queen of Hearts, traduzido na língua de Camões: a rainha do Hearts. Esta escocesa, nascida em Edimburgo, em 1948, é além de uma notável e reconhecida mulher de negócios e dona de uma das maiores fortunas da Escócia, a proprietária do Hearts of Midlothian Football Club. Budge comprou o clube em 2014 e desde logo procedeu a várias mudanças no seio do emblema de Edimburgo, tornando-o na terceira potência do futebol escocês, logo a seguir aos gigantes de Glasgow: Celtic e Rangers. Pela forma como tem administrado o Hearts, Budge recebeu em novembro de 2016 o prémio "CEO do Ano", no âmbito do Football Business Awards.  
Plantel dos Strikers em 1977, onde pontificava o campeão mundial Gondon Banks (Elizabeth Robbie encontra-se em segundo lugar na fila do meio, a contar da esquerda para a direita)
Estas três mulheres podem ter em comum o facto de terem transformado para melhor os seus clubes do coração, mas nenhuma delas foi pioneira na condução dos destinos de um clube. Esse estatuto pertence a Elizabeth Robbie. Esta cidadã norte-americana tornou-se no início da década de 70 na primeira mulher a presidir um clube de futebol. Ela e o seu marido fundaram em 1972 os Miami Toros, guiando, um ano mais tarde, este emblema até à principal liga do soccer norte-americano, a NASL. Em 1977 rebatizou o clube da Florida, passando este a denominar-se de Fort Lauderdale Strikers. Foi sob esta designação que o emblema atingiu a fama no futebol estado-unidense, numa liga que durante mais de uma década atraiu algumas das principais estrelas planetárias, como Pelé, Cruyff, Eusébio, Beckenbauer, entre muitos outros. 
Elizabeth Robbie, na fila de baixo ao meio, comanda os Strikers em 1981,
com Cubillas e Gerd Muller como estrelas da companhia
Os Strikers liderados por Robbie contribuíram para que a NASL (North American Soccer League) se tornasse talvez na competição mais galática do futebol mundial nos anos 70 e 80, pelo menos no que concerne à agregação na mesma liga de nomes tão sonantes. Sob a sua presidência o emblema de Miami falhou por muito pouco a glória - em 1974, ainda como Miami Toros, foram derrotados na final pelos Los Angeles Aztecs e em 1980 foram vergados na final do campeonato pelo galático Cosmos de Nova Iorque, que tinha nas suas fileiras nomes como Carlos Alberto, Seninho, Romerito, Frankie Van Der Elst, ou Neeskens. Contudo, construiu ao longo da sua presidência (até 1984) alguns dos melhores plantéis da velha NASL. Nomes como Gordon Banks, Gerd Muller, ou Teófilo Cubillas vestiram a camisola dos Strikers nesse período dourado do soccer dos Estados Unidos da América.

A sua preponderância não só no clube de Miami como no próprio futebol daquele país foi de tal forma importante que em 2003 ela passou a fazer parte do National Soccer Hall of Fame.

sexta-feira, março 08, 2019

Histórias do Planeta da Bola (23)... Nita Carmona: o exemplo de coragem e paixão que ousou derrubar a barreira do preconceito e do machismo

Nita Carmona

Tal como em tantos outros setores da sociedade global o futebol ainda é visto no presente como um Mundo exclusivamente masculina! Por incrível que aparece assim é.  
Esta constatação vem a propósito do Dia Mundial da Mulher, que hoje se comemora em todo o planeta. E leva-nos numa viagem ao passado de quase um século de distância para recordar a história de uma mulher que teve a coragem de entrar num Mundo que lhe era proibido para dar azo à sua paixão: jogar futebol.
Nita Carmona, o nome da heroína que para derrubar a barreira da masculinidade no futebol teve de... se disfarçar de homem!
Nascida em Málaga (Espanha) a 16 de maio de 1908, Anita Carmona Ruiz desde criança, nas calles do Bairro de Capuchinos, onde vivia, contornou as rígidas regras sociais, digamos assim, da época para viver a sua grande paixão: jugar la pelota.
Filha mais nova de um estivador do Porto de Málaga, Nita apaixonou-se pelo Belo Jogo precisamente ali, onde marinheiros ingleses praticavam o football nos tempos livres. Desde criança que lutou contra o preconceito de ser mulher num Mundo a quem só era permitida a entrada a homens. Luta que começava no seu próprio lar, com os castigos impostos pelos seus pais, que ao ver a sua menina mais nova chegar a casa com os joelhos esfolados e arranhões por todo o corpo após longos e duros (por certo) duelos futebolísticos travados com os chicos de Málaga, decretavam de pronto a prisão domiciliária com o intuito de a impedir de voltar a correr atrás da sua paixão: a bola.

Nita, ao meio, disfarçada de Veleta!
O preconceito familiar chegou a determinada altura a ser estendido ao tio de Nita, médico de profissão, que alegava que a força física, o suor e a competitividade que eram características da prática do futebol estavam restritas aos homens, e que tal esforço iria ser prejudicial ao desenvolvimento corporal da sua sobrinha. Nesse sentido, pediu aos pais de Nita para a enviarem temporariamente para a localidade isolada de Vélez-Málaga para a afastar da tentação de jogar futebol.
Porém, nem todos pactuavam com o preconceito de apoiar e acima de tudo incentivar uma mulher a brilhar num Mundo de homens. Em 1921, chega ao Bairro de Capuchinos um padre... liberal. O padre Miguez. Oriundo de Ourense (Galiza) também ele se havia deixado enfeitiçar pela bola, e no âmbito da igreja fundou o Sporting de Málaga, que acabaria por ser uma das sementes para a criação anos mais tarde do atual Málaga Club de Fútbol.
Nita entrou para um clube cuja missão passava acima de tudo por angariar fundos para adquirir roupas e comida para os menino(a)s mais desfavorecidos do bairro, como colaboradora do massagista da equipa de futebol.
Terá sido esta a forma de o padre Miguez ajudar Nita a contornar a proibição dos seus progenitores em dar azo à sua paixão de menina. Paixão essa que ganhava vida nos jogos que o Sporting de Málaga realizava fora de portas, nos quais tinha um reforço de peso: Nita Carmona. Isto acontecia porque nos jogos caseiros corria o risco de ser reconhecida pela vizinhança!
Corpulenta, de feições rudes, cabelo curto, a jovem durante algum tempo conseguiu esconder em campo os seus traços femininos, usando calças cumpridas, camisas largas e cabelo curto. Após ter sido descoberta por uma qualquer equipa adversária, Nita foi mesmo enviada de castigo para Vélez-Málaga, para casa de familiares. Ali, continuou a lutar pela sua paixão, tendo então feito amizade com a irmã do capitão da equipa do Vélez, Juan Barranquero, o qual viria a convencer a deixá-la atuar pelo combinado local sob o nome (masculino) de... Veleta, para que não fosse descoberta nem por adversários nem pelos próprios colegas de equipa.

E sob este disfarce, Nita jogou vezes sem conta ao serviço do Vélez. Foi assim até meados da década de 30, quando teve início a Guerra Civil espanhola, altura em que Nita Carmona não conseguiu mais ludibriar a barreira do preconceito, acabando por ser descoberta e detida pelas autoridades em várias ocasiões, sendo que a sua condenação nunca foi mais longe sempre devido à influência (Divina) do padre Miguez.
Nita Carmona morreu jovem, com apenas 32 anos, mas para a História mais do que ter sido a primeira mulher-futebolista em Espanha foi um exemplo de coragem e paixão ousou derrubar a barreira do preconceito e do machismo numa sociedade tão desigual (entre homens e mulheres).

quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Histórias do Planeta da Bola (22)... A primeira conquista viking no plano internacional... que na verdade não o foi!


A seleção dinamarquesa... ou o XI de Copenhaga
que venceu os Jogos Olímpicos Intercalados de 1906
Dinamarca. Quando o nome da nação escandinava vem ao de cima numa qualquer tertúlia da bola a primeira ideia que de nós se apodera é a inesquecível epopeia viking no Euro 92.
Disputado nesse ano em solo sueco, o torneio continental da UEFA foi contra todas as espetativas ganho pela repescada... Dinamarca! Chamados à última da hora - há quem diga que grande parte dos jogadores dinamarqueses estavam já estendidos nas tórridas areias do sul da Europa a gozar as merecidas férias de verão - para substituir uma Jugoslávia em guerra e que vivia os seus últimos dias enquanto nação, os vikings chegaram, viram e venceram!
Nomes como Brian Laudrup, Peter Schmeichel, Henrik Larsen, Kim Vilfort, ou John Jensen ascenderam ao patamar dos Imortais do Desporto Rei, após terem ajudado a criar o Momento de Glória do futebol do seu país.
No instante em que o capitão Lars Olsen erguia a Taça Henri Delaunay nos céus de Gotemburgo, muitos daqueles (novos) campeões europeus provavelmente desconheciam que aquela não era uma coroação inédita do futebol dinamarquês a nível internacional. Cerca de nove décadas antes - 86 anos para sermos mais exatos - um punhado de bravos vikings conquistou o Olimpo - no que ao Belo Jogo concerte. Ainda que essa seja uma conquista... oficialmente não reconhecida! E não o é por duas razões.
Primeiro, foi alcançado no seio de um evento exibicional, órfão de cariz oficial; e em segundo porque o futebol ainda não integrava o programa oficial de uma grande competição desportiva planetária, como era o caso dos Jogos Olímpicos (JO), na altura o único evento desportivo com selo global.

A Atenas o que é de... Atenas

Na primeira década do século XX a importância e dimensão das Olimpíadas da Era Moderna não eram ainda semelhantes ao panorama atual.
Exemplo dessa "medíocre" popularidade terão sido os Jogos de Paris (1900) e de Saint Louis (1904), que mais não terão sido do que meros apontamentos paralelos das Exposições Universais organizadas nessas duas cidades.
No entanto, se havia povo que estava ciente do relevo dos Jogos eram os gregos, eles que em 1896 organizaram em Atenas a primeira edição das Olimpíadas da Era Moderna sob a batuta do francês Pierre de Coubertin.
E precisamente para assinalar o sucesso dessa edição inaugural dos JO, a Grécia resolve em 1906 organizar uma nova edição olímpica. Para os gregos aquela seria uma forma de recuperar um evento que entediam ser exclusivamente seu, ganhando assim corpo a ideia do rei Jorge I de que Atenas deveria ser a sede permanente dos Jogos.

Porém, parte do Comité Olímpico Internacional (COI) encarava este evento como uma mera comemoração do 10.º aniversário do início dos JO da Era Moderna, sem qualquer cariz oficial, até porque havia ficado definido que as Olimpíadas seriam realizadas de quatro em quatro anos, e aquele não era um ano olímpico. De tal forma que o Coubertin denominou o evento de Jogos Olímpicos Intercalados. O que é certo é que após duas edições (oficiais) fracassadas havia divisões no seio do próprio COI. Muitos dos seus membros partilhavam da ideia do rei dos helénicos, de que Atenas deveria sediar de forma permanente os Jogos, e a prova disso é que tanto em Paris como em Saint Louis os ideais olímpicos haviam sido abalados, ou abafados, pelas duas Exposições Universais.

O Estádio Panatenaico
Foi inclusive sugerido por alguns elementos do COI realizar os JO de dois em dois anos, alternando entre Atenas e uma cidade noutro país, para minimizar um eventual desprezo em torno do evento semelhante ao que foi verificado em 1900 e 1904. Porém, o barão Pierre de Coubertin não concordou e manteve a ideia de as Olimpíadas serem realizadas de quatro em quatro anos de forma rotativa, isto é, em cidades diferentes.
Mesmo com estas diferentes visões o que é certo é que Atenas se engalanou para receber aquela que era encarada por muitos como a quarta edição dos Jogos.
O circo olímpico foi montado no mítico Estádio Panatenaico onde 10 anos antes a viagem olímpica havia começado. Os atenienses introduziram neste ano algumas novidades aos Jogos que perduram até aos dias de hoje, mais concretamente a ocorrência de uma cerimónia de abertura em que todos os atletas desfilaram em redor do estádio, e o facto de pela primeira vez os atletas terem recebido medalhas.

Vikings no meio de uma família franco-britânica e não só!

Os artistas do Omilos Filomouson Thessalonike
Vinte países competiram num evento realizado entre 22 de abril e 2 de maio de 1906, num total de 903 atletas que se dividiram por 14 modalidades.
Entre elas estava o futebol. Modalidade que, recorde-se, só viria a fazer parte do cartaz oficial dos JO em 1908, em Londres, embora tenha feito a sua primeira aparição no evento desportivo planetário em Paris (1900) e repetido essa presença quatro anos depois em Saint Louis (1904). Aparições essas (das quais já aqui falamos noutras viagens ao passado) que como já foi referido não tiveram a bênção nem do COI, nem (mais tarde) da FIFA, sendo encarados apenas como meros torneios exibicionais, em que os grosso dos participantes nem seleções nacionais eram!
Algo semelhante ocorreu em 1906. A exceção foi mesmo a Dinamarca, que assim se tornava na primeira seleção nacional a competir nos Jogos... mesmo sendo estes de cariz não oficial. Outro argumento que nos dias de hoje pode desconsiderar a participação dinamarquesa naquele torneio prende-se com o facto de a equipa nacional não ter sido escolhida pela DBU (Dansk Boldspil Union) - a federação de futebol daquele país -, mas sim pelo professor Carl Andersen,  o qual formou uma equipa de jogadores oriundos de Copenhaga para viajar até Atenas. De tal maneira que muitos historiadores desportivos denominam a equipa viking de... Kobenhavn XI - o 11 de Copenhaga - e não de seleção da Dinamarca.

Giorgos Kalafatis
Juntamente com os nórdicos fizeram parte do mini-torneio olímpico - se assim o podemos denominar à luz da verdade - uma equipa de Atenas, formada por jogadores do Ethnikos Gymnastikos Syllogos e do Panellinios Gymnastikos Syllogos, dois dos mais antigos clubes do futebol grego e por alguns... ginastas que haviam competido nas Olimpíadas de 1896! Na frente de ataque do excêntrico combinado ateniense estava além do filho do presidente da Câmara de Atenas, Giorgios Merkouris, aquele que era por aqueles dias considerado o Deus do futebol helénico: Giorgos Kalafatis, um dos pioneiros na dinamização do futebol na Grécia.
Do então Império Otomano vieram as outras duas equipas participantes no torneio, o Omilos Filomouson Thessalonike (Salónica) e o Smyrna.
O combinado de Salónica era composto por membros da Associação Amigos da Arte Moderna (!), que mais tarde seria o berço do Iraklis de Salónica. Já o Smyrna era digamos que uma equipa cosmopolita, formada por filhos de comerciantes ingleses e francesas radicados na então cidade de Esmirna (atualmente Izmir), na costa turca do Mar Negro, então parte integrante do Império Otomano. Este grupo tinha a particularidade de sete dos seus elementos serem parentes! A família inglesa dos Whittall, fez-se representar naquele combinado pelos irmãos Edward, Godfrey e Alfred, juntamente com os seus primos Donald (que nesses JO Intercalares também participou na competição de remo) e Herbert. Do lado francês os irmãos Edmund e Jim Giraud compunham o ramalhete familiar. Aliás, o grau de parentesco não se ficava por aqui, já que apesar de terem nacionalidades diferentes os Whittall e os Giraud eram... primos!

Final só durou 45 minutos!

Curiosidades familiares à parte este acabou por ser um torneio cheio de peripécias. O velódromo Podilatodromio, hoje denominado de Estádio Karaiskaki, acolheu todas as partidas, tendo a primeira acontecido no dia 23 de abril, colocando lado a lado dinamarqueses e o Smyrna. Sob arbitragem do sueco Goster Drake e perante 3000 pessoas, o encontro chegou ao intervalo empatado a um golo. Porém, na segunda parte - e a julgar pelo volume do resultado - os vikings arrasaram com as famílias Whittall e Giraud, vencendo por 5-1 e garantindo assim a presença na final.
Na verdade, quer deste, quer dos restantes jogos poucos ou nenhuns registos existem, desconhecendo-se, entre outros factos, quais os autores dos golos ou como jogaram as equipas, sabendo-se apenas que todas elas se apresentaram num rudimentar esquema tático de 2-3-5! Tão usual naquela época.

A "família" do Smyrna
Na outra meia final, também ocorrida nesse mesmo dia, a rivalidade entre gregos e otomanos não se deve ter feito sentir por aí além... atendendo ao volumoso triunfo da equipa de Atenas sobre a de Salónica por 5-0. Este duelo teve a particularidade de ser arbitrado pelo treinador e responsável pelo grupo dinamarquês, o professor Carl Andersen.
Estavam assim encontrados os finalistas do torneio, os quais iriam medir forças num jogo que haveria de ficar para a História não pelos melhores motivos!
Sob arbitragem do sueco Goster Drake, o jogo do título foi disputado um dia após as semi-finais! Na verdade não foi um jogo, foi só meio jogo! Isto é, durou somente 45 minutos, porque ao intervalo o conjunto do professor Carl Andersen vencia por 9-0 a equipa da capital helénica.
Quiçá temendo uma dose igual no segundo tempo, os gregos não compareceram no segundo tempo, numa atitude que ia contra as regras do desportivismo ou do espírito olímpico, se preferirem. Esta postura causou indignação na organização, que de pronto desclassificaria os atenienses e agendaria para o dia seguinte um jogo entre os dois derrotados nas meias-finais no sentido de apurar os 2.º e 3.º classificados, isto é, para atribuir a prata e o bronze, já que o ouro havia sido arrebatado com estrondo pelos vikings.
A união familiar acabou por fazer toda a diferença nesse jogo de luta pela prata, já que Smyrna esmagou por 12-0 os artistas de Salónica, que mesmo sem terem marcado qualquer golo e sofrido 17 (!) em dois jogos ainda levaram para casa o bronze.

Mesmo não sendo uma vitória oficial, esta não deixou de ser o início de uma caminhada que haveria de confirmar a Dinamarca como uma das nações mais potentes do futebol continental dos anos seguintes. Isto, a julgar pelo facto de nos dois torneios olímpicos posteriores, em 1908 (Londres) e 1912 (Estocolmo), ter arrecadado em ambos a medalha de prata, sendo apenas superada pelos inventores do football: os ingleses. Ou, por outras palavras, a seleção da Grã-Bretanha, que venceu os dois primeiros torneios olímpicos oficiais (considerados quer pela FIFA, quer pelo COI).
Alguns dos campeões dos JO Intercalados de 1906 fariam parte das seleções dinamarquesas dos torneios de 1908 e 1912, casos de Oskar Norland, Charles Buchwald (ambos competiram quer em Londres, quer em Estocolmo) e August Lindgren.
A valer ou não, o que é certo é que estes três homens juntamente com Viggo Andersen, Peter Petersen, Parmo Ferslev, Stefan Rasmussen, Aage Andersen, Holger Frederiksen, Henry Rambusch e Hjalmar Heerup deram a primeira grande vitória internacional do futebol dinamarquês, muito antes de Brian Laudrup, Schmeichel, Larsen, Olsen, ou Vilfort terem conquistado a Europa após uma épica vitória sobre a Alemanha no relvado do Ullevi Stadium, naquela inesquecível tarde de verão de 1992.