O excêntrico Claude Bez |
Quem
hoje em dia olha para o futebol francês, e para o campeonato gaulês em
concreto, facilmente percebe o abismal desnível entre o Paris Saint-Germain
(PSG) e o resto do pelotão futebolístico. Vestindo e pele de novos ricos não só
em França como igualmente na Europa do futebol, os parisienses dominam sem
grande esforço o panorama nacional enquanto ambicionam época após época
ascender ao patamar da glória internacional na sequência da sonhada conquista
da Liga dos Campeões Europeus. Mas será que vai lá chegar? Será que o
infindável dinheiro catari que abunda nos cofres do PSG vai levar o emblema da
capital francesa à glória internacional? Estas são perguntas que até hoje ainda
não tiveram uma resposta.
E
são igualmente questões que nos levam à (longa) viagem ao passado que hoje
damos início, à história do primeiro novo rico do futebol francês que sonhou
e... falhou por muito pouco a conquista da glória continental.
E
essa história leva-nos até ao sudoeste de França, até à nova Paris, à capital
do famoso vinho francês onde na década de oitenta nasceu uma das melhores
colheitas do futebol gaulês pelas mãos de um polémico visionário que
transformou não só o clube da sua cidade natal como o próprio futebol gaulês. A
história de hoje centra-se em Claude Bez e no seu Girondins de Bordeux, ou
Bordéus no idioma de Camões.
O megalómano gordo de
bigode farfalhudo
Gordo,
de bigode farfalhudo, Claude Bez - um revisor oficial de contas nascido a 4 de
novembro de 1940, em Bordéus - chegou ao clube da sua cidade na década de 70,
numa década em que Les Verts do
Saint-Étienne e o Nantes dominavam o futebol francês.
França
vivia o início de uma era verdadeiramente dourada do seu futebol, a qual era
liderada pelo genial Michel Platini, o craque do Saint-Étienne que em 1982 iria
dar o salto para a poderosa Juventus.
Quatro
anos antes desta transferência o então tesoureiro do Bordéus dá um passo de
gigante ao assumir a presidência do clube com o sonho - megalómano - de o levar
ao topo do futebol europeu. Essa figura era o excêntrico Claude Bez.
Girondinos
que até aquela altura não ostentavam no seu palmarés mais do que um par de
títulos, nomeadamente um campeonato nacional (1950) e uma Taça de França
(1941). Com a chegada de Bez ao poder tudo mudou. Antes da sua chegada à
cadeira da presidência - facto ocorrido a 1 de agosto de 1978 após a renúncia
do então presidente Jean Roureau - o Bordéus arrastava-se penosamente na Ligue
1 (1.ª Divisão gaulesa) com performances modestas e classificações condizentes
com a sua (má) prestação nos relvados franceses. A título de exemplo, na década
de 70 a melhor classificação dos girondinos foi um 5.º lugar, em 70/71, sendo
que entre 1972 e 1975 nem sequer superou o 10.º lugar da tabela e em 1977/78
acabou em 16.º lugar a apenas um ponto da despromoção.
Seria,
precisamente, no final desta péssima temporada que o então vice-presidente e
tesoureiro do clube, Claude Bez, assumiu a presidência.
A
chegada de Bez ao leme não trouxe porém os resultados positivos imediatos que o
mítico dirigente tinha já em mente para o clube. A sua ambição em fazer do
Bordéus o melhor clube de França e um dos melhores da Europa ainda teve de
esperar uma boa mão cheia de anos, pese embora desde a sua chegada ele tudo fez
para que essa meta fosse atingida o mais rápido possível. E como o fez?
Contratando alguns dos melhores jogadores franceses de então e treinadores de
renome internacional.
Parada de estrelas
chegam a Bordéus para fazer companhia a Alan Giresse
O lendário capitão do Bordéus Alan Giresse |
De
frisar que a equipa antes da chegada de Bez não era orfã de craques da bola,
muito pelo contrário, pois no seu plantel figurava desde 1971 um dos melhores
jogadores gauleses da célebre geração de Platini que em 84 guiou a França ao título
continental de seleções e a brilhantes presentes nos Mundiais de 82 e 86 - onde
em ambos atingiu as meias-finais. Alan Giresse, o seu nome. O pequeno pensador,
ou o motorzinho, alcunhas pelas quais ficou conhecido quer ao serviço do Bordéus
, quer ao serviço da seleção nacional, pelas ideias mágicas que impunha no
relvado e pela forma talentosa como conduzia o jogo das suas equipas, este
gigante de 1,62m formou com Michel Platini, Jean Tigana e Luis Fernández um dos
meios campos mais sublimes e encantadores da História do futebol planetário.
Mas
voltemos a Bordéus, onde ao longo da década de 70 a equipa era constituída por
Giresse e mais 10. Faltava claramente ajuda ao pequeno mosqueteiro francês para
catapultar os girondinos para patamares mais altos. E ainda como Bez na
qualidade de tesoureiro - embora já fosse o homem do dinheiro dentro do clube -
chega a Bordéus o possante e sonante defesa central alemão Gernot Rohr, campeão
europeu pelo Bayern nos anos 70, e em fim de contrato com os bávaros, pois
ainda não havia grande liquidez financeira nos cofres do Bordéus para passos mais
arrojados.
Rohr
chegava para liderar o setor recuado onde já pontificava desde 1976 o jovem Jean-François
Domergue, que viria igualmente a fazer parte da mítica seleção gaulesa de 84.
Partida em falso...
A
primeira época de Bez como presidente não foi famosa, longe disso, embora o
número de contratações tivesse sido elevado para servir o conceituado e
vitorioso treinador argentino Luis Antonio Carniglia. Este antigo jogador que
despontou para o Mundo da Bola no Boca Juniors e que na Europa fez carreira em
França, sobretudo ao serviço do Nice onde esteve quatro épocas nos anos 50, ficou
célebre por levar (na condição de treinador) o Real Madrid à conquista de duas
Taças dos Clubes Campeões Europeus (1958 e 1959).
Quando
aterrou em Bordéus, Carniglia tinha já passado a barreira dos 60 anos, mas na
bagagem trazia uma vasta experiência (de treinador) obtida em países como
Espanha, Itália e Argentina.
Em
78/79 o Bordéus de Carniglia não foi além de um modesto 10.º lugar numa liga
conquistada pelo modesto e surpreendente Estrasburgo. Esta péssima classificação
fez com que Bez despedisse o técnico argentino, e para o seu lugar foi buscar
outro peso pesado das táticas, o belga Raymond Goethals, cujo currículo
dispensava apresentações. Era um dos melhores treinadores do planeta, tendo guiado
a seleção belga no Europeu de 1972 e no Mundial do México dois anos antes.
Seria, porém, ao serviço de clubes que mais se iria distinguir, com conquistas
de vários títulos nacionais ao serviço do Anderlecht e do Standard de Liège,
clubes estes que guiou até duas finais europeias - da Taça das Taças - tendo
mesmo vencido uma delas ao serviço do emblema da capital belga. Ironia das
ironias, seria com Goethals que a Taça dos Campeões Europeus viajou pela única
vez - até aos dias de hoje - para França. Foi em 1993, quando ao serviço do
Marselha o belga surpreendeu o super Milan dos anos 90 numa final disputada em
Munique. Mas a ironia desta conquista está no facto de que esse Marselha era
presidido pelo grande rival, ou melhor, pelo maior inimigo, de Claude Bez no
que toca ao controle do futebol francês: Bernard Tapie.
Um visionário desde
que haja dinheiro no bolso
Aimé Jacquet, o mestre da tática que deu vida a parte do sonho de Bez |
Mas
voltemos a 79/80, onde a Bordéus chegam reforços como Jean-Christophe Thouvenel,
Daniel Tallineau. Felix Lacuesta, Omar Sahnoun, o argentino Juan Domingo
Cabrera e os internacionais franceses Bernard Lacombe, Albert Gemmerich e
Gerard Soler. Porém, nada disto foi suficiente para devolver o título nacional
aos girondinos, como comprova um modesto - face à ambição de Bez - 6.º lugar, a
17 pontos do campeão Nantes.
Bez
era tudo menos um homem paciente, e a prova disso é que nem o célebre Goethals conseguiu segurar o seu lugar no
banco do Bordéus para a época seguinte.
Bez
percebia para chegar ao topo precisava de mais, sobretudo mais dinheiro, e na
entrada dos anos 80 tenta convencer a Câmara de Bordéus a investir no clube da
cidade, com o argumento de levar o nome da terra pelos quatro cantos do Mundo.
Repare-se, que já na altura Claude Bez era um visionário, um homem à frente do
seu tempo, pois já na altura percebia que sem dinheiro, sem um forte
investimento, dificilmente o seu clube dominaria o futebol. No fundo, o que
clubes como o PSG, Manchester City, Barcelona, Real Madrid, ou Bayern fazem
hoje: investem fortunas para estar no topo.
Tigana, Battiston e Giresse |
O
Município atendeu ao pedido de Bez e injetou 6 milhões de francos no clube, que
assim pôde fazer contratações ainda mais sonantes para o seu plantel, casos dos
internacionais gauleses Marius Tresor e François Bracci.
Mas
mais importante do que estas contratações foi a chegada do jovem técnico de 39
anos - vindo do Lyon - Aimé Jacquet. O seu nome, hoje, dispensa apresentações,
estando nós perante o homem que revolucionou o futebol francês nas décadas de
80 e 90, primeiro ao serviço do Bordéus e depois ao serviço da seleção
francesa.
Na
primeira temporada de Jacquet os girondinos terminaram em 3.º lugar, que lhes
valeu a qualificação para a Taça UEFA da época seguinte e mais do que isso
devolveu Alan Giresse à seleção gaulesa, fruto das suas inolvidáveis exibições
na temporada de 80/81.
Na
época seguinte a fasquia financeira subiu, e a Câmara de Bordéus investiu mais
4 milhões de francos no clube para que este se pudesse reforçar ainda mais. E
essa verba ajudou a trazer para Bordéus outra mega estrela do então futebol
gaulês: Jean Tigana. O médio fazia a viagem de Lyon para o sudoeste de França
onde iria reencontrar o seu antigo treinador no Olympique.
Para
a baliza chegou o internacional jugoslavo Dragan Pantelic, que havia estado em
bom plano no Mundial de Espanha; enquanto que para a defesa aterrava em Bordéus
o argelino Nourdine Kourichi, também com excelentes prestações ao serviço da
sua seleção no Mundial de 82.
Nessa
temporada o Bordéus lutou até final pelo título, mas claudicou na reta final
perante um super Mónaco, acabando por ficar na 4.ª posição.
Bordéus foi preponderante
no êxito da França em 84
Apesar
de esta aposta ainda não dar os seus frutos, o Bordéus era já um dos principais
fornecedores de jogadores à seleção de França. Na brilhante campanha do Mundial
de 82 Les Blues levaram para Espanha
seis jogadores do Bordéus (Tigana, Giresse, Trésor, Girard, Soler e Lacombe).
Com
o poderoso Saint-Étienne envolvido num escândalo financeiro e obrigado a vender
a sua mega estrela Michel Platini para a Juventus, o caminho do Bordéus para o
título ficou mais facilitado, digamos assim.
O
Município de Bordéus voltou a puxar os cordões à bolsa, e passou para os
girondinos mais 6 milhões de francos, que seriam gastos em jogadores como o
guarda-redes Richard Ruffier, ex-Nimes, que substituiu o castigado Pantelic,
que após na temporada anterior ter agredido um adversário foi suspenso durante
vários meses; e ainda os defesas internacionais Leonard Specht e Raymond
Domenech, e a mega estrela alemã Dieter Muller. Contratado ao Estugarda, este
avançado era um dos mais talentosos e mortíferos do futebol europeu de então.
Em
82/83 a equipa de sonho do Bordéus fez jus ao nome e foi a melhor equipa do
campeonato em futebol praticado. Apenas um senão: não foi campeão, esse foi o
Nantes do goleador Vahid Halilhodzic.
Finalmente a glória
Bez
estava cada vez mais perto do seu sonho. E para 83/84 contrata mais um
internacional gaulês de peso: Patrick Battiston, que havia deixado um Saint-Étienne
que ainda estava em chamas fruto da crise que atingiu o mítico clube.
O
Bordéus estava cada vez mais forte dentro de campo, e essa temporada foi mesmo
a da sonhada glória interna. Porém, a caminhada gloriosa teve um osso duro de
roer, o Mónaco, que ao longo da época não largou por uma única vez os
girondinos nos lugares cimeiros da Ligue 1. Ambos chegaram ao fim com os mesmos
pontos conquistados: 54, mas com o Bordéus a levar a melhor na diferença entre
golos marcados e golos sofridos.
50
anos depois o Bordéus era de novo campeão de França. O país já estava
conquistado, e o próximo passo seria agora a Europa.
1984
foi, como já vimos, um ano de ouro para o futebol francês, já que pela primeira
vez a seleção nacional conquistou um grande título internacional, neste caso o Europeu.
Estava assim superada a mítica seleção de 1958 que no Mundial da Suécia
deslumbrou o Planeta da Bola com o
seu futebol champanhe. E nesse grupo
de 84, liderado pelo mago Platini, o
Bordéus era a par do Mónaco o clube mais representativo, com cinco jogadores
(Tigana, Battiston, Giresse, Tusseau e Lacombe), sendo que quatro deles atuaram
na final contra a Espanha realizada em Paris. Significava isto que o projeto de
Bez estava a atingir o ponto, e mesmo com apenas um título nacional no bolso o
Bordéus era já por esta altura o emblema Número 1 de França.
E
agora empunha-se não só manter o estatuto de potência (interna) do futebol
gaulês mas acima de tudo conquistar a Europa. E Claude Bez não olhava a cifrões
na hora de continuar a alimentar o seu sonho.
Chalanix para dar
asas ao sonho europeu...
Chalana |
No
Euro gaulês brilhou um pequeno (grande) jogador português, de farta cabeleira e
de bigode, que mais fazia lembrar a personagem Astérix. A sua rapidez
estonteante e o seu drible mirabolante valeram-lhe a entrada no 11 ideal desse Campeonato da Europa.
Fernando Chalana, era o seu nome. Ou Chalanix, como passou a ser conhecido em
França após a magia que transpôs para os relvados gauleses. Bez ficou louco com
Chalana, tão louco que no verão de 84 pagou 220 mil contos ao Benfica pelo
passe do "pequeno genial" como também era conhecido o atleta. Foi,
aliás, o dinheiro desta transferência que permitiu ai Benfica concluir as obras
do terceiro anel do antigo Estádio da Luz.
1984/85
marcava a estreia do Bordéus na mais importante prova de clubes do Mundo a
nível de clubes, a Taça dos Campeões Europeus, e o excêntrico presidente do
clube francês não fazia a coisa por menos: ganhar.
Além
de Chalana, chegava igualmente a Bordéus o guarda-redes Dominique Dropsy, vindo
do Estrasburgo, para agarrar a baliza que até então era de Delachet.
E
se a nível interno o percurso dos girondinos foi feito quase em ritmo de
passeio, e quase, por que o Nantes teimou em certas alturas da temporada em não
facilitar a vida aos bordaleses, e que culminou com a conquista do
bi-campeonato nacional, na Europa o sonho... morreu na praia e às mãos do
compatriota Michel Platini.
O
Athletic Bilbao (campeão de Espanha então treinado por Javier Clemente e onde
pontificavam nomes como Zubizarreta, Andrínua, Sarabia, ou Julio Salinas) foi a
primeira vítima a cair aos pés dos galáticos do Bordéus na primeira
eliminatória. Muller, Battiston e Lacombe marcaram os golos da vitória por 3-2
na 1.ª mão, ao que se seguiu um empate a zero em San Mamés.
Na
ronda seguinte novo osso duro de roer, desta feita o campeão romeno, o Dínamo
de Bucareste, a quem o Bordéus venceu de forma sofrida por 1-0 na 1.ª mão
realizada no Parc Lescure graças a um golo do alemão Muller. Por esta altura já
Chalana se via a braços com as lesões que impediram de se tornar numa pedra
chave deste dream team de Aimé
Jacquet.
Chalana
pouco ou nada jogava. Na segunda mão, em Bucareste, foi preciso prolongamento
para apurar o Bordéus para os quartos-de-final, já que ao fim dos 90 minutos o
Dínamo vencia por 1-0, tendo aos 113 minutos do tempo extra Lacombe marcado o
1-1 final que carimbou a passagem à ronda seguinte. O sonho de Claude Bez
estava cada vez mais perto mas ao mesmo tempo sofrido, e nos quartos-de-final o
opositor foi o então campeão soviético, o Dnipro, que impôs duas igualdades a
uma bola aos franceses, facto que teve de decidir a eliminatória nas grandes
penalidades, com o Bordéus a ser mais feliz. O Heysel (local da final) estava
cada vez perto. Mas para lá chegar era preciso ser-se pouco cavalheiro e
derrubar uma Velha Senhora do futebol planetário, a Juventus.
... que foi curto
graças ao compatriota Platini
Juve desfez o sonho europeu do Bordéus |
Já
com Chalana no 11, recuperado de lesão, o Bordéus foi trucidado em Turim por
uma Juve endiabrada sob a batuta do melhor jogador europeu de então: Michel
Platini. 3-0 no Estádio Olímpico de Turim. Poucos acreditavam que no Parc
Lescure o Bordéus pudesse dar a volta e seguir viagem rumo ao sonho europeu.
Lotado, o estádio bordalês viu a sua equipa realizar uma exibição épica que
quase derrubou a Juventus. 2-0 a favor dos girondinos, com golos de Muller e
Battiston, foi insuficiente para Claude Bez colocar a cereja no topo do bolo.
Nas
duas temporadas seguintes o Bordéus continuou a dominar o futebol francês. Com
uma equipa que ia sendo rejuvenescida face à veterania que começava a ditar
leis em jogadores como Lacombe, Giresse, ou Tigana, enquanto que Dieter Muller
já tinha partido para o seu país após três épocas fantásticas nos girondinos, e
Chalana continuava a dar sinais de fragilidades físicas, o Bordéus venceu a
Taça de França de 1985/86 ao bater na final e após prolongamento o Marselha por
2-1, com golos das lendas Tigana e Giresse já em claro fim de linha.
Bez versus Tapie: inimigos de morte
Bez versus Tapie |
Mais
do que dois clubes em confronto esta final opôs dois homens que se odiaram de
morte, se gladiaram pelo poder no futebol francês: Claude Bez e Bernard Tapie. Ambos,
transformaram o futebol profissional francês. Para melhor ou para pior? As
opiniões dividem-se. Por esta altura, já Bez há muito que via o futebol como um
negócio de milhões, tendo sido o primeiro dirigente a envolver-se numa guerra
com as televisões para extrair o dinheiro das transmissões de jogos pela TV. Ou
seja, garantir para o seu clube os direitos televisivos, tão comuns nos dias de
hoje. Tapie, um empresário de Marselha, entrou anos depois também em cena e com
Bez desenvolveu a partir de então um braço de ferro titânico ao nível do setor
dos direitos televisivos e não só no sentido de dominar o futebol francês...
dentro e fora do campo.
Mas
voltando ao futebol jogado, em 85/86 só o Championnat
escapou ao Bordéus, já que o adolescente Paris Saint-Germain - com apenas 16
anos de vida - levou a melhor sobre a concorrência, deixando os girondinos em
3.º.
A
juventude de Alan Roche e Jean-Marc Ferreri, a par da veterania de Tigana,
Rohr, Battiston, Girard e Lacombe ajudou a alcançar uma época de ouro no plano
interno na época seguinte, conquistado a famosa dobradinha (campeonato e taça)
pela primeira vez na história do clube.
Esta
temporada ficou igualmente marcada por mais uma batalha entre Bez e Tapie, com
este último a dar uma machadada no excêntrico presidente do Bordéus quando levou
para o sul de França o veterano Giresse, capitão de equipa e ídolo dos bordaleses
durante anos a fio. Começava aqui a mudar o paradigma do futebol francês, com a
passagem de testemunho de Bez para Tapie.
Porém,
naquela temporada, e no retângulo de jogo, Bez levou a melhor sobre Tapie, já
que além do campeonato arrebatou a Taça de França após bater na final... o Marselha,
por 2-0. A temporada de 86/87 esteve perto de ser perfeita para os girondinos,
já que na Taça das Taças, na altura a segunda competição mais importante da
UEFA, estes caíram nas meias-finais aos pés do Lokomotiv de Lieipzig... no
desempate por grandes penalidades.
Em
87/88 muitos jogadores até então fundamentais partiram de Bordéus, casos de Patrick
Battiston, Specht, Chalana, ou Bernard Lacombe e caras novas chegaram ao
plantel de Jacquet, que não conseguiu impedir que o Mónaco treinador por um
jovem Arsène Wenger fosse campeão.
88/89
foi quase como o fim do sonho megalómano de Claude Bez, e apesar de o clube se
reforçar com jovens promessas do futebol internacional, como o belga Enzo
Scifo, ou os franceses Eric Cantona e Christophe Dugarry, para além de ter
contratado o veterano avançado Yannick Stopyra ao Toulouse, que fez furor no
Mundial de 86, o Bordéus não foi além de um impensável 12.º lugar de um
campeonato onde Tapie e o seu l' OM levaram a melhor.
Escândalos, corrupção,
declínio, prisão e morte
Envolvido
numa série de escândalos nos tempos seguintes, desde logo por querer tomar de
assalto os destinos do futebol francês, a nível federativo, onde fez uma
campanha com o intuito de demitir o técnico Henri Michel. Intento que teve
algum êxito, já que foi ele o responsável por levar Michel Platini para o cargo
de selecionador francês após o fracasso da não qualificação para o Europeu de
88 onde a França iria defender o seu título de campeã.
Internamente,
e após o fracasso de 88/89, Bez demite Aimé Jacquet, chamando de novo para o
comando da sua equipa o belga Raymond Goethals, que na época seguinte por
apenas dois pontos não tirou o título de campeão ao Marselha de Tapie. Esta boa
temporada foi da responsabilidade de jogadores que haviam chegado nessa
temporada, como o guardião camaronês Bell, o defesa alemão Manfred Kaltz,o
dinamarquês Jasper Olsen, ou o avançado alemão Klaus Allofs.
A
temporada seguinte começou com Goethals, que para reconquistar o ceptro de
campeão havia ido buscar o avançado holandês Wim Kief, ao PSV, e quiçá, a
aquisição mais saborosa dessa época, Didier Deschamps, roubado ao rival
Marselha. Lembram-se de Giresse? Pois bem, Bez pagava agora na mesma moeda a
Tapie, levando para o Parc Lescure um dos mais promissores futebolistas do l'
OM. Só que Goethals apenas aguentou meia dúzia de jornadas no comando do
Bordéus, cujos resultados em campo eram péssimos. O ex-central Gernot Rohr
assumiu a equipa interinamente até Bez dar uma nova facada pelas costas a Tapie
ao ir buscar o treinador do Marselha, Gérard Gili. Nada disto resultou, já que
o Marselha com o campeão do Mundo de seleções Franz Beckenbauer no banco foi
campeão e relegou o Bordéus para um penoso 10.º lugar.
Ultrapassado
dentro das quatro linhas pelo inimigo Tapie, Bez via-se obrigado a golpes sujos
para vencer. E em 1990 admite pela primeira vez ter contratado prostitutas para
oferecer a árbitros. Foi precisamente neste ano que Claude Bez anuncia que
deixa de ser o presidente do Bordéus, facto que não fez que deixasse de andar
nas bocas do Mundo, muito pelo contrário, e sempre pelas piores razões. Nos
anos seguintes é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, e em 1994 é
condenado a dois anos de prisão. Cinco anos tarde teve um ataque cardíaco
fatal. Morria a 26 de janeiro de 99 com 58 anos. Escandaloso, megalómano,
sonhador, trapaceiro, o que é certo é que ele revolucionou o futebol francês e
em particular o seu Bordéus, que desde a sua morte somente alcançou mais dois
títulos de campeão nacional, uma Taça de França, e três Taças da Liga. Ainda
hoje, todos os anos, um grupo de adeptos mais fanáticos dos girondinos coloca
uma coroa de flores na campa de Claude Bez em sinal de respeito, agradecimento...
e saudade.