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terça-feira, março 03, 2020

Grandes Mestres do Jornalismo Desportivo (16)... Fernando Marques "O Formidável"


"Há imagens que valem mais do que mil palavras!". Um cliché para muitos, enquanto que para outros ajuda a caracterizar os génios da arte de fotografar, os prodígios da arte de captar e eternizar um momento numa simples imagem.
O desporto, e o futebol em particular, devem muito aos homens que de máquina fotográfica na mão eternizaram momentos que ajudaram a escrever a História. E sem imagens provavelmente essa História não seria tão nítida e bela como é. É pois de elementar justiça incluir nesta vitrina virtual dedicada aos jornalistas desportivos aqueles que os ajudaram (aos ilustres homens da pena) a complementar (através da imagem) as prosas jornalísticas que legaram ao Mundo. Falamos dos fotojornalistas, neste caso em concreto, nos criadores de "bonecos da bola". E Portugal ao longo da sua História teve grandes vultos do fotojornalismo desportivo. Caso de Fernando Marques, um fotojornalista... Formidável.

Pois, assim era popularmente conhecido este cidadão nascido em Coimbra a 20 de setembro de 1911 e cuja objetiva captou não só inúmeros momentos históricos do nosso futebol como também deixou à cidade que o viu nascer - e morrer, em 1996 - um manancial de fotografias que mostram esta bela localidade ao longo de mais de meio século.
Em Coimbra não só nasceu e morreu, mas também trabalhou, como vendedor de lotaria, profissão que desempenhou a par da atividade que o tornou célebre: a de um fotojornalista genial.

Em Coimbra residia uma das suas grandes paixões no que ao desporto dizia respeito, a Académica. As outras duas eram o Benfica e a seleção Nacional. À boleia destas duas últimas "instituições" percorreu o Mundo, sempre com a sua máquina fotográfica na mão para captar o momentos, ou os momentos que marcaram a História do Benfica e da seleção. Talvez ao "serviço" desta viveu o momento alto da sua longínqua carreira. Estávamos em 1966 e Portugal participava pela primeira vez num Campeonato do Mundo. O Formidável partiu nesta aventura juntamente com os Magriços, sozinho, como tantas vezes o fez ao longo de décadas por esse Mundo fora. Em Inglaterra captou e eternizou com a sua objetiva a saga de Eusébio e companhia, e quem não se lembra da mítica imagem do Pantera Negra a deixar o relvado do Wembley em lágrimas após a eliminação da Seleção de Todos Nós aos pés dos ingleses enquanto era confortado pelo admirável Formidável? Essa fotografia, célebre, foi tirada por outro ícone do fotojornalismo desportivo nacional, de seu nome Nuno Ferrari. Uma imagem que captou não só a tristeza profunda daquele que talvez era o jogador mais virtuoso daquela lendária seleção de 66, mas igualmente o ser humano excecional que era o Formidável.

Com a seleção esteve ainda noutros dois grandes momentos, o Euro 84 e o Mundial de 86. Os seus trabalhos estão perpetuados nas páginas de jornais como a "A Bola", "Record", "Diário de Notícias", "Jornal de Notícias" e "Diário de Coimbra", entre outros com os quais colaborou. Figura mítica de Coimbra ele é ainda hoje o único cidadão que não tendo sido nem jogador de futebol, nem treinador, nem dirigente desportivo, é sócio de mérito da Associação de Futebol de Coimbra. Formidável era a sua alcunha desde novo pelo facto de rotular qualquer coisa à qual se referia como "formidável", mas também pelo legado fotográfico que nos deixou e pela pessoa que era.
A ele, Manuel Alegre escreveu e dedicou este poema:

Foi visto em Wembley a consolar Eusébio.
Também a nós muitas vezes nos consolou
Viu-nos nascer viu-nos partir viu-nos voltar
Muitas vezes até nos viu morrer
Marcou connosco os nossos golos
Chorou connosco as nossas lágrimas
Meteu o coração dentro da máquina
Trabalha sem rolo.
Quem sabe o que retrata?
Há uma cidade que só ele vê
E é mais certo que só ele capta
O insondável.
Fotógrafo de Coimbra ele é
O Formidável.

terça-feira, maio 28, 2019

Grandes Mestres do Jornalismo Desportivo (15)... Vítor Cândido


Poucos serão os jornalistas desportivos a quem se lhes perdoa – ou perdoou, no caso daqueles que já nos deixaram – o facto de não esconderem a sua fervorosa paixão por determinado clube que não aquele pelo qual o nosso coração bate. Por outras palavras, poucos serão os mestres da pena que ao longo da sua carreira recolheram aplausos e sobretudo são – ou foram – merecedores da admiração de adeptos de todos os clubes pelo profissionalismo exibido ao longo da sua carreira. Poucos serão ainda os que exibiram valores como honestidade, justiça, imparcialidade, rigor, e claro está, talento para a criação de verdadeiras prosas jornalísticas desportivas que serão lidas e relidas eternamente tal e qual as grandes obras de vultos da História literária de Portugal.
Em suma, nomes que serão eternos quando o tema de conversa for: “grandes jornalistas desportivos”, ou “verdadeiros jornalistas”. Uma “espécie” em vias de extinção na atualidade no que ao jornalismo desportivo diz respeito, há que dizê-lo.

Mas a nossa figura de hoje apesar de pertencer a uma geração passada de grandes vulto da comunicação social desportiva, continua no ativo, a brindar todos aqueles que gostam de bom jornalismo com as suas histórias e talento para fazer bailar as palavras.
Essa ilustre figura é Vítor Cândido, notável jornalista que sobressaiu sobretudo ao serviço de A Bola… e adepto confesso do Sporting Clube de Portugal.
Natural do Concelho de Arganil, Vítor Cândido foi não só um notável jornalista do jornal da Travessa da Queimada como também um dedicado colaborador e dirigente do clube de Alvalade.

Foi precisamente o seu amor pelo Sporting que o introduziu no mundo do jornalismo desportivo, quando ainda jovem acompanhava religiosamente algumas modalidades ditas amadoras na toca do leão, o mesmo será dizer, Alvalade.
Os combates de boxe travados pelos pugilistas do seu amado clube a que assistia, levaram elementos desta secção a convidar o então jovem Vítor Cândido a colaborar mais de perto com esta. Depois do boxe seguiram-se as lutas amadoras e o halterofilismo, secções que constatando in loco a dedicação e competência daquele jovem em prol do Sporting também o “requisitaram” para dar uma ajuda… nas “catacumbas” de Alvalade, como o próprio Vítor Cândido ainda hoje se refere, com carinho e saudade, aos locais (sombrios) onde estas modalidades então se desenvolviam/eram praticadas no reino do leão. Cenário bem diferente daquele que é oferecido hoje no moderno e confortável Pavilhão João Rocha, a casa das modalidades do Sporting. Outros tempos.

A sua dedicação, sempre a custo zero, ao Sporting valeu-lhe em meados dos anos 80 um convite da Direção presidida por Amado de Freitas para integrar os quadros diretivos leoninos. Mas muito antes deste convite um outro convite haveria de mudar a vida do jovem Vítor. Enquanto acompanhante atento das modalidades do clube foi convidado pelo Jornal Sporting (então o único órgão de oficial dos leões) para escrever uns textinhos sobre as competições em que muitas dessas secções do clube participavam. Era o pontapé de saída de uma brilhante carreira de jornalista.
Os seus atributos não demoraram a sair das fronteiras de Alvalade e eis que certo dia recebe um telefonema do chefe de redação da Rádio Comercial, Fernando Correia, que sabendo que Vítor Cândido acompanhava muitas competições dessas modalidades lhe acenou com um convite de colaborador da rádio – que consistia em transmitir à estação de rádio os resultados das várias competições, atendendo a que esta não tinha então colaboradores em muitas das chamadas modalidades amadoras.
Uma semana depois deste convite recebe outro telefonema. Era A Bola. Nomes históricos deste jornal, como Carlos Pinhão e Homero Serpa convidam o jovem Vítor Cândido – que na altura, em termos profissionais, era técnico de vendas – para colaborador.
Em inícios dos anos 80 fixa-se no jornal da Travessa da Queimada, em cujas páginas, nas décadas seguintes, cravou largas centenas – porque não dizer milhares – de peças jornalísticas que fizeram a delícia dos verdadeiros amantes do desporto, em particular do futebol. Fossem eles sportinguistas, benfiquistas, portistas, ou de qualquer outro emblema.
Aliada à sua mestria jornalística exibia com simplicidade à sua figura simpática e amigo do seu amigo, traços de uma personalidade que lhe valeram não só a admiração mas acima de tudo a amizade de centenas de figuras ligadas ao desporto, independentemente da camisola que defendiam ou amavam. Quantos jornalistas poderão gabar-se de terem cultivado amizade com “gentes” de inúmeros clubes? Só os grandes, sem dúvida.

Paralelamente à carreira de jornalista Vítor Cândido continuou ligado ao seu Sporting na condição de dirigente, ora coordenando algumas modalidades amadoras, ora como dirigente do futebol juvenil leonino. A sua dedicação extrema ao clube seria por diversas vezes reconhecida, como por exemplo em 1981, altura em que foi distinguido (na qualidade de dirigente do ano) com o Prémio Stromp, tão só o mais alto galardão do Sporting.
No jornalismo foi também por diversas vezes galardoado, destacando-se entre os muitos prémios o de “Jornalista do Ano”, atribuído pela Associação Nacional de Treinadores de Futebol, bem como o prestigiado Prémio Cândido de Oliveira.
Na atualidade, Vítor Cândido tem exibido os seus créditos de exímio contador de histórias na Sporting TV (televisão oficial do seu clube), dando vida a inúmeros programas onde o passado se cruza com o presente. 

quinta-feira, outubro 08, 2015

Grandes Mestres do Jornalismo Desportivo (14)... Rui Tovar

Mais do que um brilhante jornalista ele era uma verdadeira enciclopédia do futebol, um profundo conhecedor da história de A a Z do desporto rei nacional e internacional, facto que o transformou numa autêntica lenda do jornalismo desportivo. Falamos hoje de Rui Tovar, um mito que nasceu na Lourinhã a 16 de fevereiro de 1948 e que começou a trilhar uma magnífica carreira profissional de quatro décadas no Diário de Notícias, onde viria a ser um dos 24 jornalistas saneados pelo então diretor-adjunto daquele órgão de comunicação, José Saramago. Posteriormente, seria um dos fundadores do jornal O Dia, ingressando em finais dos anos 70 na RTP, a casa onde atingiu um estatuto de lenda. Ali, destacou-se ao longo de quase três décadas como uma autêntica enciclopédia do futebol, tendo sido um dos principais rostos da estação pública na área do jornalismo desportivo. Afável e profissional, Rui Tovar foi durante anos o rosto do Domingo Desportivo, célebre programa que nas noites domingueiras prendeu milhares de entusiastas pelo fenómeno futebolístico ao grande ecrã. A sua vasta e ímpar cultura futebolística fizerem de si - igualmente - um virtuoso comentador de jogos de futebol, função desempenhada com uma mestria invulgar, quer na linguagem que usava quer nos referidos conhecimentos que detinha sobre o jogo. Escreveu diversos livros sobre futebol, destacando-se aqui a obra Grandes Equipas Portuguesas de Futebol, um dos primeiros livros sobre a modalidade a ver a luz do dia em Portugal. O Correio da Manhã foi uma das últimas etapas da sua carreira, órgão este onde assinava uma crónica na qual era vincada a sua veia de filósofo da bola. Problemas cardíacos estiveram na origem do seu desaparecimento, em 3 de julho de 2014, dia em que o jornalismo desportivo luso ficou de luto e sobretudo mais pobre, muito mais, já que uma das suas maiores estrelas deixava assim o mundo terrestre.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

Grandes Mestres do Jornalismo Desportivo (13)... Fernando Correia

Detentor de uma voz eloquente e de conhecimento(s) futebolístico(s) profundo Fernando Correia é por estes dias um dos grandes Senhores do jornalismo desportivo português. Uma figura que enquanto profissional de uma área que muito me diz, é - para mim - um icone, um ídolo se preferirem, um digno representante da velha guarda da comunicação social desportiva, a velha guarda que durante décadas edificou uma escola de notáveis jornalistas que hoje em dia se contam - infelizmente - pelos dedos de uma só mão!
Como em tudo na vida a imprensa desportiva em Portugal parece caminhar atualmente para um buraco sem fundo, pela mão de profissionais indignos de vestir camisolas outrora de grande prestígio. Fernando Correia é um dos poucos resistentes a esta queda livre, dos poucos profissionais de mão cheia que vai informando - e formando - com classe, imparcialidade, e sabedoria os entusiastas do belo jogo.

Fernando Lopes Adão Correia nasceu em Lisboa, a 16 de julho de 1935, tendo a sua notável carreira de prestigiado comunicador começado aos 19 anos, na (rádio) Emissora Nacional (EN). Ali apresentou noticiários, reportagens políticas, entre outros programas, durante uma década, até ao dia em que outro ícone da comunicação portuguesa, Artur Agostinho, o convidou para fazer relatos de futebol. Foi digamos que uma paixão à primeira vista, uma paixão que ainda hoje dura, a tal paixão que faz de Fernando Correia uma lenda do jornalismo desportivo do nosso país. Entre 1958 e 1990 desenvolveu a sua invejada carreira de locutor/relator na EN, onde desempenhou funções de coordenador da área desportiva. O mesmo fez igualmente na Rádio Comercial, até à época em que se transfere para a TSF e atinge, digamos que, o ponto mais alto da sua ímpar carreira. Com o mítico programa Bancada Central - do qual eu sempre fui um assíduo ouvinte - entrou definitivamente para a galeria dos mestres do jornalismo desportivo de Portugal. Um programa - dedicado ao desporto de uma forma geral, embora com o futebol em plano de destaque - que cativou ao longo de vários anos milhares de ouvintes - diários - que não perdiam as entrevistas, os comentários, as informações, proferidas pelo mestre Fernando Correia.

A aventura chegou ao fim já no novo milénio, altura em que o jornalista foi despedido (!) da TSF após assumir a Direção do primeiro e único jornal desportivo gratuito português, intitulado de Diário Desportivo, do qual foi um dos fundadores. Porém, a permanência na cadeira de Diretor do citado jornal foi curta, já que as saudades da rádio falaram mais alto, pelo que posteriormente passou a envergar a camisola do Rádio Clube Português (RCP), onde criou o programa Lugar Cativo, uma espécie de sucessor da célebre Bancada Central. O sucesso do programa foi imediato - outra coisa não seria de esperar -, pelo que com a abertura das emissões do canal de televisão TVI24 a Lugar Cativo passou a ter... lugar cativo nas emissões diárias do referido canal de TV.

De forma um pouco surpreendente Lugar Cativo saiu do ar - quer da TVI24, quer do RCP - e Fernando Correia abraçou um novo projeto na sua brilhante carreira na estação de rádio NFM. Formando uma dupla imparável com o também jornalista Carlos Dolbeth apresenta os programas Conversas de Café, e Bancada Nova, todos eles no seguimento de Bancada Central e Lugar Cativo. Paralamente continua na TVI24, onde exerce funções de principal comentador desportivo da estação de televisão.

O reinado de Fernando Correia no mundo do jornalismo desportivo também conheceu memoráveis episódios na imprensa. Durante vários anos foi colaborador de jornais como o Record, Gazeta dos Desportos, A Capital, ou o Jornal de Notícias. Foi igualmente Diretor do jornal do seu Sporting. Tem-se ainda notabilizado na elaboração de biografias de vários nomes do desporto nacional e internacional. Entre os seus livros mais lidos encontram-se: Os Cinco Violinos; Matateu, a Oitava Maravilha; Joaquim Agostinho; Memórias de um Campeão; ou Simply the Best (alusivo ao antigo jogador George Best).

Como seria de esperar o talento que vem exibindo ao longo de uma carreira de quase 60 anos (!) tem-lhe valido inúmeras - e para lá de merecidas - distinções, como foram os casos do Prémio de Imprensa, do Prémio da Casa de Imprensa, do Prémio de Melhor Locutor do Ano, do Prémio de Melhor Relator do Ano,... entre muitos outros.

sexta-feira, outubro 19, 2012

Grandes Mestres do Jornalismo Desportivo (12)... Carlos Arsénio

O seu nome integra de forma indiscutível o dream team dos mestres do jornalismo desportivo português, consequência natural de uma notável carreira edificada ao longo cerca de meio século. Talentoso homem das letras e profundo conhecedor dos caminhos futebolísticos ele fez - e continuará a fazê-lo para a eternidade - parte da geração de ouro dos jornalistas desportivos lusitanos, colocando a sua estrela ao lado da de lendas como Artur Agostinho, Homero Serpa, Aurélio Márcio, Vítor Santos, ou Cruz dos Santos. Hoje, o Museu Virtual do Futebol abre as suas portas para evocar o nome de Carlos Arsénio, reconhecido ícone da comunicação social desportiva notabilizado ao serviço - sobretudo - do jornal Record.
Carlos Matias Arsénio, de seu nome completo, veio ao mundo a 25 de maio de 1936, tendo como berço a Golegã. Com o nascimento da década de 60 do século passado deu o tiro de partida na sua briosa e ímpar carreira profissional, entrando em 1961 para o jornal que o haveria de tornar célebre, e que ele - o próprio Carlos Arsénio - ajudou a tornar igualmente célebre.
Record, jornal que aquando da chegada do mestre do jornalismo desportivo que hoje visitamos era um menino de apenas 12 anos, guarda nas suas páginas largas dezenas - ou centenas para sermos justos - de brilhantes trabalhos assinados por este vulto, trabalhos onde a clareza e simplicidade das palavras articuladas com uma objetividade imperial foram tidos como exemplos a seguir pelas gerações seguintes de jornalistas ligados ao desporto. Não são de estranhar pois os inúmeros galardões com que foi brindado ao longo da sua carreira, com destaque para a Medalha de Mérito Desportivo, prémio que lhe seria atríbuido pelo Governo português em 2005. As questões da arbitragem no futebol sempre mereceram da sua parte uma atenção muito especial, tendo ao longo da sua carreira deslumbrado os leitores com um vasto naipe de trabalhos de cariz pedagógico alusivos à temática, dedicação e interesse este que em 2009 levou a Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol a atribuír-lhe o título de sócio honorário desta associação.
E porque um artesão das palavras nunca as deixa de trabalhar, mesmo quando já afastado das grandes lides profissionais, Carlos Arsénio tem-se dedicado nos últimos anos à publicação de livros - alusivos ao desporto, claro está -, sendo uma das suas obras de maior craveira e renome o manuscrito intitulado "Ribatejo, Terra de Campeões", editado em 2008. O seu livro mais recente foi editado em 2009, e dá pelo nome de "Campo de Ourique, Bairro de Campeões", e contou com apoio da Câmara Municipal de Lisboa.
(Nota: Carlos Arsénio faleceu no dia 10 de novembro de 2012)

sexta-feira, março 09, 2012

Grandes Mestres do Jornalismo Desportivo (11)... Ricardo Ornelas

Evocar o seu nome remete-nos para a lembrança de um dos mais cultos e talentosos jornalistas portugueses da primeira metade do século XX. O seu profundo conhecimento do desporto aliado a um apurado – e imparcial – sentido crítico fizeram dele um modelo a seguir por gerações e gerações de jornalistas ligados ao fenómeno desportivo. Também o futebol português – e muito em particular a seleção nacional – deve-lhe grande parte da essência que hoje em dia o caracteriza.
Sem mais demoras recordaremos nas linhas que se seguem o imortal Ricardo Ornelas.
Nascido em Lisboa na reta final do século XIX, mais precisamente a 31 de dezembro de 1899, cedo demonstrou a sua reconhecida apetidão para trabalhar as palavras, começando aquela que viria a ser uma brilhante carreira jornalística ao serviço do popular jornal desportivo “Os Sports”.
As suas “prosas jornalísticas” logo se destacaram na imprensa portuguesa da época e em 1942 passa para o Diário Popular, onde é selecionado para o exercício das funções de chefe da secção de desporto, cargo que desempenha com notoriadade até ao encerramento do célebre órgão de comunicação.
Um dos expoentes máximos do jornalismo desportivo português, o jornal A Bola, também testemunhou o talento de Ricardo Ornelas que sob o pseudónimo de Renato de Castro assinou diversos textos para o (agora) diário da Travessa da Queimada. O seu talento e paixão pela escrita não se restringem apenas aos jornais, já que escreveu inúmeros livros sobre futebol e/ou sobre o desporto de uma forma geral. Uma das publicações mais notáveis da literatura desportiva portuguesa, “História dos Desportos em Portugal” tem o seu carimbo, em parceria com outras duas lendas das letras – e do futebol igualmente –, Tavares da Silva e Ribeiro dos Reis.
Como amante do belo jogo que era não se limitou a passar para o papel os – variados – conhecimentos que possuia sobre a modalidade, contribuindo muito para o crescimento futebolístico português. Foi um dos artesãos da ideia de criar uma seleção nacional, por alturas da segunda década do século XX, ideia essa que viria a ser concretizada na década seguinte tendo inclusive Ricardo Ornelas desempenhado funções de selecionador nacional. Aliás, a célebre denominação de “equipa de todos nós” alusiva ao combinado nacional é da sua autoria.
Ex-aluno da Casa Pia fez parte do grupo de 18 elementos que em 1920 fundou o histórico Casa Pia Atlético Clube, emblema do qual seria também treinador. Defendeu ao longo de anos várias ideias que na sua estratégica visão impulsionariam o futebol em Portugal, como é o exemplo da criação de um Campeonato Nacional que reunisse as melhores equipas do país.
Empregado de escritório numa companhia de navegação - profissão desempenhada em paralelo com a de jornalista – foi em 1966 agraciado pelo Governo português com a medalha de bons Serviços Desportivos, precisamente um anos antes de falecer (1967).

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Grandes Mestres do Jornalismo Desportivo (10)... Artur Agostinho

Ano novo... hábitos antigos, o mesmo é dizer que o Museu irá continuar a sua missão de desfiar o novelo da história da bola. E nestes primeiros momentos de 2011 vamos permanecer na vitrina das lendas do jornalismo desportivo, um dos meus cantinhos favoritos – por razões óbvias – neste humilde espaço virtual. E depois de há poucos dias termos evocado o mito Aurélio Márcio vamos hoje prestar uma profunda homenagem a outro astro das letras: Artur Agostinho. Um nome que a bem dizer dispensa qualquer tipo de apresentações, já que ele é sinónimo de uma carreira ímpar e invejável – no bom sentido, pois claro – ao serviço da comunicação social.
Nascido no dia de Natal de 1920, em Lisboa, Artur Fernandes Agostinho desde cedo começou a reservar o seu lugar no “Olimpo” dos Deuses do jornalismo desportivo nacional quando aos 17 anos a sua inconfundível voz iniciava uma caminhada triunfal pelos microfones da rádio. Uma união – homem/rádio – que teve o seu casamento (oficial) em 1945, ano em que Artur Agostinho se torna profissional da Emissora Nacional. O resto é pura lenda, como diriam alguns, pois ao longo das quatro décadas seguintes este homem tornou-se na companhia diária de muitos amantes da rádio, em especial daqueles que tinham um gosto especial pelo fenómeno desportivo.
Neste aspecto Agostinho fez a cobertura de três edições dos Jogos Olímpicos (!), nomeadamente os de Helsínqia (1952), Roma (1960), e Tóquio (1964), de dezenas de edições da Volta a Portugal em Bicicleta, e claro está dos grandes acontecimentos futebolísticos do planeta. Aqui destaca-se a presença no Mundial de 1966, onde narrou para a RTP – casa que entretanto o havia acolhido em 1956, precisamente o ano de estreia da televisão em Portugal – com mestria os feitos de Eusébio e companhia.
Pela sua voz os microfones da RTP guardam também os melhores momentos das equipas portuguesas nas competições europeias de futebol, entre outros as duas vitórias do Benfica na Taça dos Campeões Europeus, e o triunfo do Sporting na Taça dos Vencedores das Taças.
Sporting Clube de Portugal que era um dos grandes amores de Artur Agostinho. Assumidamente sportinguista de alma e coração o mestre foi director do Jornal do Sporting durante vários anos. A sua ligação aos jornais não se ficou no entanto por aqui, muito longe disso, tendo assumido igualmente a direcção do Record entre 1969 e 1974. A Bola, o Norte Desportivo, o Diário Popular, e o Diário de Lisboa têm também o privilégio de guardar nos seus arquivos inúmeras prosas futebolísticas do mestre Artur Agostinho. A sua veia de comunicador não se restringe apenas ao jornalismo desportivo, já que o cinema sempre foi outra das suas paixões. Neste campo estreou-se em 1947 no filme Capas Negras, sendo que neste mesmo ano ajudou a imortalizar outro clássico da “sétima arte” lusitana: O Leão da Estrela. Ao nível da TV participou ainda em diversas séries de ficção nacional, como, por exemplo, Ganância, Inspector Max, Ana e os Sete, ou Pai à Força.
Artur Agostinho foi um dos grandes mestres da escola de – bem fazer – jornalismo, não sendo de estranhar que após ter completado a bonita idade de 90 anos – no passado dia 25 de Dezembro de 2010 – tenha sido condecorado pelo Presidente da República, Cavaco Silva, com a Comenda da Ordem Militar de Sant'Tiago da Espada. Uma homenagem mais do que merecida a este imortal vulto da comunicação lusitana.
(Nota: Morreu a 22 de Março de 2011, aos 90 anos de idade).

Legenda das fotografias:
1- A simpática figura de Artur Agostinho
2- O mestre visivelmente emocionado ao lado de Cavaco Silva no dia em que este último o condecorou com a Comenda da Ordem Militar de Sant'Tiago de Espada

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Grandes Mestres do Jornalismo Desportivo (9)... Aurélio Márcio

O mundo do jornalismo desportivo lusitano ficou muito mais pobre neste final de 2010 com o desaparecimento de um dos seus maiores astros... Aurélio Márcio. Se de uma lendária equipa de futebol se tratasse então poderíamos dizer que este vulto da pena fez parte do maior “dream team” lusitano de todos os tempos. Um combinado composto por lendas como Vítor Santos, Carlos Pinhão, Homero Serpa, ou Alfredo Farinha, todos com a camisola de “A Bola” vestida. Aurélio Márcio era um dos elementos mais destacados dessa famosa equipa. O encanto e sabedoria da sua escrita fizeram dele um dos grandes mestres do jornalismo desportivo. Na sua veia literária corria o sangue crítico de Santos Neves, de quem se dizia grande admirador, ou o estilo único e belo do mestre Cândido de Oliveira.
Aurélio Márcio nasceu no norte, mais concretamente em Fafe, a 12 de Julho de 1919, tendo iniciado a sua ímpar carreira no “Diário Popular”, em 1943, onde começou a coleccionar prémios de cariz individual alusivos à mestria do seu notável trabalho. Espalhou ainda o seu perfume literário pelas páginas de “O Século”, “Record”, ou a “Gazeta dos Desportos”. Também os microfones de algumas rádios nacionais foram testemunhas da melodia da sua inigualável sabedoria desportiva, tais como a “Emissora Nacional”, a “TSF”, ou a “Rádio Renascença”.
Mas seria “A Bola” que guardaria alguns dos maiores tesouros literários de um vulto que viajou pelos cinco continentes, sempre com a bola como motivo principal. Neste aspecto Aurélio Márcio é um ícone a nível planetário, já que foi o jornalista da história que mais Campeonatos do Mundo e da Europa cobriu enquanto profissional. No que concerne aos primeiros esteve em 10 Mundiais, tendo a estreia ocorrido em 1966, no célebre Mundial de Inglaterra onde os “Magriços” de Eusébio e companhia brilharam a grande altura. Em termos de Europeus o seu vasto e rico currículo conta com oito presenças. Notável, e apetece mesmo dizer que muito dificilmente alguém irá derrubar este recorde pessoal que mereceu já uma distinção da parte da FIFA.
Distinções é coisa que aliás não falta no trajecto deste homem... que foi condecorado com a Medalha de Prata de Mérito Concelhio da Câmara Municipal de Fafe, a Medalha de Bons Serviços - Desporto do Ministério da Educação Nacional, a Medalha de 25 anos do CNID e da Comenda da Ordem de Mérito, agraciado pela Presidência da República Mário Soares. Palavras para quê?
O mito abandonou o Mundo terrestre no passado dia 20 de Dezembro, aos 91 anos, vítima de doença prolongada.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Grandes Mestres do Jornalismo Desportivo (8)... Cruz dos Santos

A poucos dias do Natal de 1960 chega a Lisboa um rapazinho africano de semblante tímido e olhar um pouco perdido. Prontamente de si abeirou-se um jovem e talentoso artesão das letras que lhe arrancaria – um pouco a ferros – as primeiras palavras em terras alfacinhas.
Mais tarde estes dois homens ascenderiam ao Olimpo dos Deuses... o primeiro no futebol, e o segundo no jornalismo desportivo. Por palavras mais exactas... Eusébio da Silva Ferreira, e Fernando Cruz dos Santos. É precisamente sobre este último o motivo pelo qual o Museu Virtual do Futebol abre hoje as suas portas, para recordar um dos maiores vultos da comunicação social (desportiva) lusitana. Nascido a 10 de dezembro de 1931, em Lisboa, Fernando Cruz dos Santos calcarreou um caminho ímpar com a pena na mão. Um trajeto que começou a ser trilhado bem cedo, quando ainda jovem num belo dia de 1954, na companhia de seu pai, se deslocou ao Estádio Nacional a fim de usufruir de uma empolgante e deslumbrante hora e meia de futebol protagonizada pelo Benfica do seu coração. Um Benfica cujo futebol começava a ganhar contornos de obra de arte graças às pinceladas de génios como José Águas ou Mário Coluna. 11-0, pesado score que o azarado Boavista sofreria às mãos do mágico Benfica naquela tarde no sagrado relvado da grande sala de visitas do futebol português. Maravilhado com a exibição da armada encarnada Cruz do Santos não perderia tempo a escrevinhar uma crónica alusiva ao festival de bola que o seu Benfica havia dado no Vale do Jamor horas antes. Com um misto de audacidade e atrevimento – no bom sentido, claro está – envia a crónica para as grandes publicações desportivas da época, vulgo, A Bola, Record, e o Mundo Desportivo. Dias mais tarde o chefe de redação do primeiro órgão de comunicação responde-lhe com um lugar de colaborador! E assim estava dado o empurrão para aquilo o que seria uma carreira brilhante ao serviço do mítico jornal da Travessa da Queimada (Lisboa). E sempre, sempre, defendendo as cores d' A Bola, a única camisola que veste desde o início da aventura. Em 1962 Cruz dos Santos passa a redator do jornal, tornando-se desde logo num dos grandes valores da célebre instituição de comunicação... e do próprio jornalismo desportivo português.
Hoje em dia Cruz dos Santos continua a ser uma lenda d' A Bola, digamos que um embaixador do jornal à semelhança do que representa Eusébio para o Benfica. Prestes a cumprir 80 primaveras Cruz dos Santos continua a deliciar leitores através das suas incomparáveis crónicas na coluna “Vivó Árbitro”.

Em seguida transcrevemos na integra a entrevista (acompanhada da foto que a ilustrou, onde se pode ver o jovem jornalista Cruz dos Santos a entrevistar o recém chegado Eusébio) da que mudou a vida de Fernando Cruz de Santos, as linhas que o tornaram célebre, a imortal entrevista ao então (quase) desconhecido Eusébio da Silva Ferreira, publicada no dia 17 de dezembro de 1960...
«De Lourenço Marques (Portugal de África) e com destino ao Benfica, chegou a Lisboa por via aérea. Eusébio da Silva Ferreira, de seu nome completo, tem uma aparência bastante robusta, com costas largas, boa altura e, pelo que o seu andar deixou perceber, flagrante ligeireza de movimentos. O que, em gíria, se pode chamar "boa pinta". É de cor, se bem que não negro retinto. Tipo Hilário, do Sporting, ou França, agora na Académica. 
Ao constar que o esperavam, mostrou-se naturalmente acanhado e pouco conversador. Ainda que os dois zelosos funcionários do seu novo clube se mostrassem um tanto preocupados com o cumprimento da ordem de silêncio que, desde logo, Eusébio deveria respeitar, sempre pudemos colher algumas informações do jovem futebolista:
-Qual o seu lugar habitual?
-Costumo jogar a interior-esquerdo, mas faço qualquer dos postos de ataque, menos o de avançado-centro.
-Porquê?
-Não sei porquê, mas é esse o de que menos gosto. Prefiro as zonas em que é mais fácil a desmarcação. Já tenho jogado a avançado-centro, mas prefiro jogar no interior ou extremo de qualquer dos lados...
-Remata com os dois pés?
-Sim, mais ao menos...
-Costuma marcar muitos golos?
-No último campeonato, que acabou há duas semanas e nós ganhámos com três pontos de avanço sobre o Desportivo e cinco sobre o Ferroviário, marquei 29 dos 54 golos da nossa equipa.
-Então, é bom rematador...
-Queria fazer mais golos sozinho do que todo o ataque do Desportivo, que foi segundo e só marcou 30, mas não consegui...
-Conhece alguns dos jogadores africanos que estão na Metrópole?
-Sim, conheço o Hilário e o Coluna, o Jambane, o Vicente, o Costa Pereira.
-Espera adaptar-se bem ao futebol da Metrópole?
-Venho com essas esperanças. Pelo menos, tenho a certeza de que vou trabalhar com afinco para isso no clube que, há 10 anos, vi jogar em Lourenço Marques e que, apesar de eu ser um garoto, logo me fez simpatizar com ele...

(Nota: Cruz dos Santos faleceu no dia 16 de maio de 2013)

Há dias descobri (desde já o meu muito obrigado aos "amigos" do http://uniaotomar.wordpress.com) neste "mar virtual" que é a internet alguns "tesouros literários" do mestre Cruz dos Santos eternizados nas páginas da "Bíblia Sagrada do Desporto", vulgo A Bola. Aqui ficam pois em honra ao grande mestre:

“EMPATE QUE PREMEIA A SUPERAÇÃO DOS LOCAIS”

Jogo sem golos sugere espectáculo de relativo interesse, mas não foi esse o caso verificado, ontem, no atraente Estádio Municipal de Tomar (onde nos disseram que não tarda a bem necessária cobertura dos camarotes – pelo menos), pois o encontro além da emoção que o seu desfecho reflecte, conheceu períodos de futebol de apreciável craveira técnica e foi caracterizado, sobretudo, por uma correcção que muito nos apraz assinalar – contribuindo tudo isso para que não possa ter ficado desapontada uma das maiores assistências ali registadas, nesta primeira e bem curiosa presença dos tomarenses entre os «maiores».

Boa parte do muito público presente foi constituída por setubalenses, que a bela carreira do Vitória e o bonito começo do dia levaram à formosa cidade do Nabão em muitos automóveis e em perto de setenta autocarros (porque não havia mais disponíveis – segundo nos informaram) e, se toda essa gente sadina regressou a Setúbal entristecida pelo resultado, ao invés dos tomarenses, que chegaram ao fim do jogo dando mostras de evidente satisfação, há que dizer que tal disparidade de sentimentos só pode atribuir-se à capacidade normal, ao prestígio e aos anseios das duas equipas em cotejo, já que nem os sadinos podem lamentar-se de não terem alcançado o triunfo, nem os tomarenses tiveram na igualdade um prémio que não mereciam.

Com efeito, se é certo que nunca esteve em dúvida – como não poderia estar – a superioridade individual da turma vitoriana, não é menos exacto que muito bem souberam os tomarenses compensar e, por vezes, até, superar essa sua mais do que legítima desvantagem, mercê de uma determinação e de um sentido de colectivismo que, superando a normal capacidade própria, frequentemente perturbou os categorizados adversários ou, pelo menos, os impediu de evidenciarem uma supremacia que, em jogo e em resultado, talvez, fosse de esperar.

Portanto, não se pense que, no empate de Tomar, houve menor inspiração do fortíssimo conjunto setubalense e nada mais. Ideia certa e justa será, sim, a de que o Vitória só não jogou mais e só não venceu porque a tanto se opôs, cremos que sensacionalmente, um União que realizou, apenas, a melhor de quantas exibições já lhe vimos fazer na temporada, e que foram, anteriormente, contra o mesmo Vitória, no Bonfim; contra a Cuf, em Tomar; contra o Atlético, na Tapadinha, e contra o Belenenses, em Tomar.

E mais: – não obstante o domínio territorial exercido pelos sadinos em quase todo o segundo tempo do encontro de ontem, os tomarenses estiveram longe de jogar «à defesa», antes formaram uma equipa que actuou de acordo com as circunstâncias de cada momento, isto é, defendendo e atacando conforme as possibilidades que o antagonista e o próprio jogo lhe ofereceram.

Sem dúvida de espécie alguma.

Menos credenciado, jogando em «casa» (e, para mais, em terreno pelado, que não pode deixar de oferecer maiores problemas para todos os actuais visitantes, por menos habituados) e sabendo que é no futebol raso e «trabalhado» que o Vitória tem o tipo de jogo com que se tem imposto e que melhor serve as características da quase totalidade dos seus magníficos jogadores, esperar-se-ia que os tomarenses se lançassem num futebol de pontapés largos e fortes, fazendo subir a bola e provocando, assim, um despique marcado por choques e cargas, com hipóteses de emperrarem o funcionamento normal da «máquina» setubalense.

Quem assim pensava (e nós confessamos, honestamente, que nos encontrávamos nesse número, com base no que havíamos visto aos nabantinos nos referidos jogos com a Cuf e com o Belenenses) cedo se certificou de que se enganara redondamente, pois o que se viu, logo desde o começo do encontro, foi os tomarenses enveredarem por processo de jogo semelhante ao dos sadinos, ou seja, fazerem baixar a bola e tentarem a progressão no terreno em passes tanto quanto possível curtos e frequentes.

Com isso, ganhou o espectáculo, evidentemente, e se bem que, aqui e acolá, fosse manifesta e natural a vantagem sadina, devido à reconhecida maior valia técnica das suas unidades, a verdade é que houve ataques alternados, com o perigo a registar-se numa e noutra balizas.

Ao longo de todo o primeiro tempo, pode o Vitória recordar e lamentar dois ou três lances em que faltou uma aragem de felicidade a remates de cabeça desferidos, de muito perto, pelos seus dianteiros – especialmente, aquele em que Arcanjo, após bom trabalho de Figueiredo, executou um centro alto e largo e, sem ninguém a estorvar-lhe os movimentos, Guerreiro cabeceou ao lado do poste esquerdo.

Mas, em contrapartida, pertenceu a Vital a mais difícil das intervenções dos guarda-redes, em todo o desafio, quando teve de se lançar aos pés de Alberto, logo aos 3 minutos, e uma outra grande oportunidade de golo esteve ao alcance do mesmo Alberto, aos 25 minutos, quando se isolou, a passe de cabeça de Leitão, e visou o canto raso mais distante (o esquerdo), ficando Vital batido, mas saindo a bola a rasar a base de poste.

O Vitória, nos períodos de tempo em que dominou, fê-lo com mais insistência e maior autoridade, realmente, mas não conseguiu, ao contrário do que lhe é habitual, firmar vincada supremacia a meio do terreno, porque se Wagner esteve «em grande» e Vítor Baptista o acompanhou bem, já Jacinto João se mostrou infeliz (e, por isso, demasiado insistente) nos lances individuais em que costuma ser «mestre» e, do lado tomarense, o saber e a experiência de Ferreira Pinto e a actividade de Totoi puderam ir compensando e disfarçando o menor rendimento de Cláudio, a acusar certa debilitação resultante da gripe que o reteve no leito até sexta-feira e, a partir de determinada altura, também afectado pelo que nos pareceu ser uma rotura muscular, na coxa esquerda.

Por tudo isso e, ainda, porque toda a sua defensiva se revelou muito decidida e coesa, os tomarenses não só nunca se inferiorizaram, verdadeiramente, como até conseguiram ser algo superiores ao rondar da meia hora, chegando, pois, ao intervalo com muito mérito e justiça na igualdade e deixando a pairar a dúvida, apenas, sobre o ponto a que chegaria a sua resistência física, no segundo tempo.

…Segundo tempo que – já se disse – foi caracterizado por um muito maior domínio territorial dos sadinos, que apenas permitiram espaçados movimentos atacantes dos tomarenses e tiveram o seu ascendente reflectido num elevado número de «cantos» – por vezes, cedidos em momentos de grande apuro, pela defensiva de Tomar.

Mas, com Santos no lugar de Cláudio e, mais tarde, Vicente no de Lecas, puderam os nabantinos ir «segurando» o ascendente do Vitória, continuando a neutralizar, em boa dose, a sua acção a meio do campo e, sobretudo, «espartilhando-lhe» o ataque, onde Tomé (que rendera Figueiredo) e Guerreiro se mantiveram, até por isso, em dia de menor inspiração – do que se foi ressentindo, naturalmente, aos poucos Arcanjo (que tivera uma excelente primeira parte) e onde o perigo só se viu, de vez em quando, nos lances criados por Jacinto João, a entrar bem mais pela esquerda do que na metade inicial do jogo.

Mas, mesmo nesses lances, faltou sempre «qualquer coisa» ao «J J» dos grandes dias e o União de Tomar, mantendo-se muito firme na defesa, nunca enjeitou os ensejos que se lhe depararam para contra-atacar – não conseguindo, é certo, mais do que uma ocasião de «golo à vista»», em bola cruzada da esquerda e aliviada já perto da linha fatal, com Vital ultrapassado, mas também não permitindo que os dianteiros sadinos criassem uma única oportunidade flagrantemente desperdiçada.

No último quarto de hora, choveu com bastante intensidade, o que tornou o piso do terreno um tanto difícil. Ficou por se saber, no entanto, qual das equipas foi mais prejudicada pelo facto – ainda que a lógica leve a pensar que foi a dos setubalenses, porque era aquela que, então, mais buscava a vitória que, na verdade, correspondia a imerecida derrota do União.

Há que repetir a afirmação já feita: – foi esta a melhor das exibições que vimos fazer aos tomarenses.

Muita serenidade, muito discernimento, nada da fogosidade e do «descontrole» de outros dias. Calma semelhante, só a que lhe registámos e elogiámos, com inteira justificação, no jogo que lhe deu vitória na Tapadinha.

Desta vez, colectivismo foi a nota mais saliente da equipa, onde apenas Lecas e Cláudio (pelas razões expostas) estiveram um tanto abaixo dos companheiros.

Sem um único deslize, Arsénio igualou Caló, Faustino e Barnabé, numa defensiva que teve o mérito, nada acessível, de «segurar» um ataque da categoria do de Setúbal e onde Kiki só baixou um pouco, no segundo tempo, quando Jacinto João se adiantou mais.

Ferreira Pinto foi outro esteio da equipa, com especial relevo no primeiro tempo, mas o esforço de Totoi e de Alberto e a boa execução de Leitão (se bem que um pouco distante da «zona da verdade») também merecem referência – tal como foi vantajosa a entrada de Vicente e Santos.

Desilusão, talvez, para boa parte do público de Tomar, o Vitória não foi, para nós, mais do que vítima da inspiração do antagonista – um «pequeno pormenor» que muita gente nem sempre considera.

Foi um daqueles jogos em que tudo pode depender, apenas, de um golo que se marca. E, se os sadinos o conseguem, é bem possível que até acabassem em vencedores folgados.

Mas… e se o golo aparece ao contrário, como muito bem podia ter acontecido na primeira parte?…

De uma coisa há que não acusar a turma sadina: falta de combatividade. De modo algum. Lutou muito e sempre bem. Pode ter acontecido apenas, que essa necessidade de lutar, aliada às nada favoráveis características do terreno a impediram de jogar tanto quanto sabe.

Embora com pouco trabalho, Vital esteve firme e arrojado naquele lance aos pés de Alberto, assim assim como Conceição e Carriço foram «laterais» mais seguros do que os «centrais». Cardoso e Herculano – este, com a enorme atenuante de ter sido fustigado, recentemente, por rude golpe familiar, pelo qual jogou de braçadeira preta.

A meio do campo, tornou-se clara a ausência de José Maria, sendo Wagner o «maior», em nova manifestação de muita classe, enquanto Vítor Baptista apenas teve lampejos do seu grande valor, tal como «J J.».

Na frente, Arcanjo realizou uma bola primeira parte mas acabou por ser «arrastado» pela menor inspiração dos seus companheiros de sector, Guerreiro, Figueiredo e, depois, Tomé.

Mesmo as grandes equipas, como é o caso do Vitória, estão sujeitas a estes percalços – se é que pode chamar-se percalço a um empate num campo em que já perderam o Sporting, o Vitória de Guimarães e a Académica.

Em jogo sem problemas de maior, duas só palavras para a arbitragem do «trio» chefiado por Ilídio Cacho: – muito bem.»

(“A Bola”, 17.02.1969 – Crónica de Cruz dos Santos)



“GUARDA-REDES «AMÁVEIS» E EXPULSÃO INCRÍVEL”

O Farense foi o primeiro a marcar, por Farias, aos 14 minutos. Numa das suas frequentes descidas pela direita, Pena centrou por alto e, perante a pouca decisão dos defesas-centrais contrários, Farias elevou-se bem e cabeceou melhor – para a esquerda de Nascimento, que se lançou mal, (na direcção das próprias balizas) e, por isso mesmo, a bola seguiu-lhe das mãos para as malhas.

1-1 por Raul Águas, aos 35 minutos. De posse da bola, o guarda-redes Rui Paulino exagerou em batê-la no terreno, quer porque este tinha o piso irregular, quer porque Raul Águas o ameaçava de perto. Numa das vezes que o esférico foi ao solo, aconteceu o insólito: a bola a saltar para um lado e Rui Paulino a desequilibrar-se e a cair para o outro sem dificuldade. Raul Águas tomou conta do esférico, afastou-se mais do guarda-redes contrário e atirou para as balizas desertas.

No segundo tempo: 2-0.

2-1 por Raul Águas, aos 17 minutos. Tal como sucedeu várias vezes, Pavão fugiu bem pela direita e centrou. No meio da grande área do Farense, Almeida cortou, mas – talvez devido a irregular ressalto do esférico no terreno – bateu mal a bola, que foi ao corpo de Raul Águas (que lhe dificultava a acção) e ficou mesmo ali, mesmo à mercê do pé direito do «n.º 9» de Tomar – rápido e poderoso no disparo, rasteiro e cruzado.

Aos 20 minutos, Adilson (que acabara de substituir Jorge Félix) foi expulso – nas circunstâncias de que falaremos adiante.

3-1 por Caetano, aos 37 minutos. Novo excelente lance de Pavão, pela direita, de onde centrou, a meia-altura. A bola passou por dois ou três jogadores do Farense, Rui Paulino ficou à espera do corte de Almeida e, atrás de ambos, quem não vacilou foi Caetano, que desviou o esférico para as balizas, com o corpo.

Resultado: 3-1.

———-

Nada a obstar à vitória do União de Tomar, pois conseguiu-a com três golos «limpos» e justificou-a com o domínio territorial que exerceu quase sempre e, até, com as outras oportunidades que criou e não converteu (por isto ou aquilo e de que pode destacar-se um «tiro» de Pedro à barra, no último minuto) e que, a serem concretizadas, teriam dado ao encontro um desfecho bem mais desnivelado.

Isto é o que importa dizer, antes de tudo o mais, para que não se criem dúvidas ou ideias erradas, para que não se confunda aquela indicutível verdade com o que vamos afirmar àcerca de outros aspectos que o jogo conheceu.

Um golo que tudo transforma

Pouca gente, piso mau (escorregadio, pegajoso, lama sob a relva), uma tarde magnífica e uma meia-hora inicial interessante, já com o União a descer mais vezes ao meio-campo do Farense (em regra, por Pavão, a jogar muito bem), mas os algarvios mais serenos e mais objectivos – com o seu «líbero» (Atraca) a garantir uma certa tranquilidade na defensiva e os lances de contra-ataque a perturbarem com frequência, a defesa de Tomar.

Razão fulcral da superioridade (em calma, em ligação e em intencionalidade) dos algarvios: – desequilíbrio no meio do terreno, onde Jorge Félix, Sério e, em especial, Sobral se impunham, claramente, a Manuel José (sem «chama»), Pedro (lento e pouco codicioso) e Fernando (o melhor do «trio», pelo seu irrequietismo e espírito de luta).

Não houve, assim, surpresa no facto de ser do Farense o primeiro golo do desafio. Já aos 10 minutos, o golo só não aparecera nas redes de Nascimento (que saíu mal dos postes) porque a «cabeça» de Pena (a adiantar-se sempre muito bem, pelo lado direito) levou a bola a sair ao lado.
O União dominava, mas não «engrenava» em nenhum dos seus sectores – levando o público a excitar-se e a protestar, menos contra a sua equipa favorita, mais contra o árbitro (chegando a ouvir-se, na bancada, algumas alusões às tristes ocorrências acabadas de registar em Alvalade e que a Rádio levara até Tomar).

O escape de sempre, quando as coisas não correm bem. Mas se é verdade que Ismael Baltasar já naquela altura vinha tendo as suas «fífias» (por culpa própria ou do seu auxiliar António Rodrigues), não é menos certo que nem sempre os lapsos da arbitragem estavam a prejudicar a equipa tomarense – como fora, por exemplo, o caso de um lance em que Camolas puxou Caneira pela camisola (que até ficou rasgada) e aquele «bandeirinha» assinalou prontamente a falta, mas logo concordou (também sem vacilar) com a decisão do árbitro, que mandou marcar falta ao contrário.

Não se perturbou, no entanto, o Farense. De tal modo, que aos 28 minutos, até esteve à beira de fazer 2-0, quando Farias de adiantou a João Carlos e a Fernandes e atirou à rede lateral, talvez por ter rematado em desequilíbrio. E só já depois da meia-hora o União criou a sua primeira ocasião de «golo à vista», em belo remate (de cabeça) de Camolas, que saiu rasando o poste esquerdo das balizas de Rui Paulino.

…Rui Paulino que não teria hipóteses de deter aquele remate e que, pouco depois, pagou bem a «amabilidade» de Nascimento (e dos seus defesas centrais!) no golo de Farias, ao permitir a igualdade do modo (quase incrível) que deixámos descrito na abertura desta crónica.

Grandes responsabilidades do estado do terreno? Cremos que sim – tal como pensamos que só o Sol (de frente) terá levado Nascimento a mergulhar mal e a ser batido. De qualquer modo, é incontroverso que o 1-1 modificou tudo – dali em diante, não mais houve Farense, como equipa tranquila, organizada e esclarecida.

Até ao intervalo, ainda o União não foi capaz de tirar partido da manifesta quebra (psicológica e, reflexamente, de rendimento) da equipa de Faro – pelo que, dentro dos 45 minutos de abertura, apenas houve a assinalar um «cartão amarelo» para Pedro, por chutar a bola para longe, depois do jogo interrompido, em manifestação (deselegante) de discordância com uma decisão do árbitro.

Mas, depois do descanso, foi tudo quase só dos tomarenses, que quase não mais sairam do meio-campo antagonista e que podiam ter passado a vencedores muito mais cedo –tal como podiam ter ficado totalmente tranquilos antes do minuto 37 e vencedores mais folgados depois do 3-1.

Nem a «colaboração» dos homens de Faro (guarda-redes e defesas) nos lances do segundo e terceiro golos, é bastante para macular, portanto, o mérito do triunfo do União – que não precisava disso, realmente, para o conseguir, desde o momento em que a igualdade se registou. Isto, note-se, apesar de a turma de Faro continuar animosa até ao fim e, mesmo quase sobre a hora, ter podido fazer 2-3, quando Farias se atrasou no remate, a poucos metros das balizas.

Mas, sem embargo de nada do que fica escrito, outra verdade é que a definitiva machadada foi vibrada nos algarvios por quem menos se esperaria, por se tratar de um internacional: – o árbitro.

Dia para esquecer

Deixámos dito que já na primeira meia-hora Ismael Baltasar tivera alguns deslizes. E acrescentaremos (só nós sabemos com que mágoa) que, para além disso, o árbitro já impressionara e surpreendera, fundamentalmente, pela sua brandura, pela sua como que disposição de não criar problemas complicados – apesar de os jogadores nunca lhe terem criado (nem nunca virem a criar) dificuldades de maior, tal a inexcedível e louvável correcção com que sempre se bateram.

Mas foi no segundo tempo que Ismael Baltasar ainda mais se tornou na figura central do desafio. A mesma sensação de «distante» (sobranceria incompreensível e injustificada?), a mesma relutância em mostrar a sempre necessária «presença do árbitro» e uma série de lapsos (uns, indiscutíveis; outros, talvez só aparentes) que passamos a enunciar:

1. Exageradas demoras na marcação dos «livres», por «macieza» para com os jogadores que formavam a «barreira» e que não se colocavam (e acabaram por não se colocar, na maioria das vezes) à distância regulamentar);

2. Aos 8 minutos, empurrão de Almeida (pelas costas) a Raul Águas, junto às balizas do Farense («penalty» incontroverso) – para, logo a seguir, assinalar um muito discutível (quanto a ilegalidade) derrube do mesmo Almeida a Camolas, já fora da área de rigor dos algarvios;

3. Dúvidas (nossas) na forma como Farias foi derrubado, em desarme, perto da linha de cabeceira e dentro da grande área do União, aos 13 minutos («penalty» aparente – pelo menos);

4. Fernando foi derrubado (pelas costas e por três adversários) dentro da grande área do Farense («penalty» indiscutível);

5. A dois minutos do fim, «cartão amarelo» para Almeida, por ter feito, apenas, obstrução a Fernando – depois de, ao rondar do primeiro quarto de hora, o árbitro se ter limitado a conversar (duas vezes) com o «capitão» João Carlos, que discordou (por palavras e gestos) com uma decisão sua e lhe voltou, por fim, as costas deliberadamente;

6. A expulsão de Adilson, que foi uma autêntica «barbaridade», porque o jogador nada fez que justificasse, sequer, «cartão amarelo» – podemos garanti-lo, porque o lance desenrolou-se mesmo na nossa frente e a curta distância da linha lateral.

…Foi assim: Fernando entrou em falta (não maldosa) sobre Adilson, o árbitro apitou (e bem) e Fernando, talvez por admitir que o adversário reagisse (embora nós não lhe percebessemos tal intenção), pôs-lhe as mãos nos ombros, como que para evitar que ele se aproximasse, como que para o acalmar; a reacção de Adilson foi, única e exclusivamente, a de afastar as mãos de Fernando – e nem o fez com modos bruscos. Mas foi expulso, para surpresa geral.

Uma expulsão de bradar aos céus. E, para mais, imposta por um árbitro que, até ali, tão «macio» se mostrara. Que terá visto, no lance, Ismael Baltasar, que mais ninguém conseguiu ver?

Se acrescentarmos a tudo isto o facto de o jogo ter começado com três minutos de atraso, porque a equipa de arbitragem só quando ia a entrar em campo se apercebeu de que as camisolas dos jogadores do União eram iguais às suas (pretas), pelo que houve que voltar à cabina e envergar camisolas cinzentas – (só o árbitro e o «bandeirinha» António Rodrigues, porque José António vestiu uma camisola amarela, cremos de guarda-redes, porque tinha a gola e punhos encarnados, tal como se de um desafio de «solteiros e casados» se tratasse) – se acrescentarmos este facto, dizíamos nós, teremos de concluir que, realmente, «no melhor pano cai a nódoa» ou que «há dias em que não se deve sair de casa».

…Só que foi demais para a I Divisão e, sobretudo, para um árbitro internacional.

Poucas evidências

Voltando ao jogo, propriamente dito, temos que o União não jogou bem (embora ganhando bem) e só se «encontrou» (um bocadinho) consigo próprio quando fez o empate e o Farense perdeu a serenidade e o equilíbrio iniciais.

Ainda que a consideremos indiscutível, não percebemos a entrada de Bolota para o lugar de Raul Águas, que acabara de fazer o seu segundo golo consecutivo e vinha sendo (sobretudo por isso) um dos elementos mais em destaque na sua equipa – cuja defesa teve Kiki e Fernandes melhor do que João Carlos e Cardoso (pouco firmes, em posições tão importantes), enquanto que, no meio-campo, a «genica» de Fernando superou a «frieza» de Pedro e a falta de inspiração de Manuel José.

O melhor jogador dos tomarenses, porém foi Pavão, um extremo que [deu] seguimento adequado a quase todo o jogo que lhe chegou – ao contrário de Nascimento, que foi muito mal batido no golo e, no resto, ou não teve ensejos para se redimir ou evidenciou certa intranquilidade, pelo que o «1» que lhe atribuímos só se deve ao facto de a sua equipa ter ganho.

No que [se] refere ao Farense, gostámos francamente da sua actuação até ao tal grande primeiro lapso de Rui Paulino (também com largas culpas no terceiro golo) e só um estado psicológico menos forte pode justificar a acentuada quebra que veio depois.

Para o «capitão» Atraca, as honras da tarde (na função de «libero», desfeita após o 1-2, em que passou para defesa esquerdo, adiantando-se Pena para o meio terreno) – Pena que foi, depois de Atraca e a par de Caneira (este, baixando, a partir de certa altura) o melhor defesa (até pelas suas firmes incursões à frente), já que Assis (com aquele Pavão por adversário directo…) e, sobretudo, Almeida oscilaram bastante.

A meio do terreno, Sobral (grande intuição) foi o único que manteve quase sempre o ritmo da meia hora inicial (ao contrário de Jorge Félix e de Sério, que só continuaram a bater-se bem) e, no ataque, Farias fez um golo vistoso e evidenciou noutros lances o seu valor e o seu espírito de luta – extensivo a António Luís.

E – já analisada, de sobejo, a actuação do árbitro – é tudo.»

(“A Bola”, 30.10.1972 – Crónica de Cruz dos Santos)



“UM «SENHOR CAMOLAS» É MEIA-EXPLICAÇÃO”

Está na hora! – gritou alguém, nas bancadas, quando ainda só estavam jogados 22 minutos da segunda parte. O União vencia, então, por 2-1 e aquele brado (que provocou risos naturais) espelhou bem o que a vitória representava para os tomarenses.

Está na hora! – foi o grito que saiu das gargantas de muitos unionistas, ao longo dos três últimos minutos do desafio. O árbitro procedia, então, àquilo a que (incorrectamente) se chama «descontos» e aqueles brados já não tinham só o significado do tal mesmo grito de um só tomarense quando ainda faltavam 23 minutos para jogar, pois também já correspondiam a um estado de angústia compreensível, dada a forma como o Belenenses «pressionava» as balizas contrárias e punha no ar a perspectiva de um empate – pelo menos.

Nesses minutos finais, ninguém podia prever, realmente, o que viria a acontecer. Ninguém podia lembrar-se, nessa altura, daquilo que, afinal, faz o encanto do futebol – a sua permanente e maravilhosa incerteza: – num ápice, de novo a bola no fundo das balizas do Belenenses.

Um triunfo avolumado, os dois pontos assegurados, nos derradeiros instantes, quando a igualdade e a fuga de um ponto eram ameaças flagrantes.

Juntou-se a isso a beleza do golo da confirmação. E, daí, toda a festa que se lhe seguiu com responsáveis, jogadores (efectivos e suplentes) e público abraçados, dentro do campo.

Ganhou bem o União de Tomar? Pensamos, abertamente, que sim. Porque, embora podendo considerar-se feliz no momento em que passou de 1-1 para 2-1, teve duas «armas» que faltaram aos «azuis»: – uma defesa que não cometeu erros de vulto e um ataque que soube ser objectivo.

Emoção e bastante mais

Talvez, até, porque foi disputado sob chuva miúda, o jogo teve uma assistência apenas razoável, mas foi um espectáculo com interesse do primeiro ao último minuto. Interesse pela qualidade que o futebol chegou a atingir (pese ao estado do terreno, mui escorregadio), interesse pela forma como todos os jogadores se bateram (generosa e correctamente, apesar da inevitável frequência dos choques), interesse pela incerteza do resultado (como o ilustra, por si só, o que ficou descrito da sua parte final) e interesse, ainda, pelas várias mutações por que se passou, quanto à previsão do resultado.

Neste último aspecto, a hora e meia pode, na verdade, dividir-se em quatro períodos distintos e bem díspares: – o primeiro, englobando toda a primeira parte, com um manifesto equilíbrio no desenrolar das operações e com os tomarenses a chegarem ao intervalo numa posição de vencedores que tanto podia ter outros números como verificar-se ao contrário; no reatamento, o Belenenses no seu melhor período, a firmar grande supremacia, a atingir o empate com inteira justiça e a dar a sensação de que iria chamar a si a vitória; depois, o União a alcançar o 2-1, que «acalmou» o adversário e restituiu aos tomarenses as energias que haviam parecido faltarem-lhe; nos últimos dez minutos, o Belenenses a «carregar» com uma insistência igual (se bem que já menos lúcida, logicamente) à que se vira logo após o intervalo e a ver o seu «forcing» contrariado por uma defensiva «heróica» – até o ver desfeito pelo tal golo da tranquilidade nabantina.

Ainda que não tivesse havido tudo o mais que ficou apontado, apenas isto bastaria para dar ao espectáculo expressão e força futebolísticas.

Quatro golos foram poucos

Marcaram-se quatro golos e não houve golos a mais. Logo no primeiro minuto, só por acaso não apareceram dois, um para cada lado (desperdiçados por Ramalho e por Pavão) e, pelo tempo adiante, algumas outras ocasiões foram sendo «enjeitadas»: – Gonzalez, pouco antes do golo inicial dos tomarenses (cremos que por «falta» de pé direito); Caetano a rematar rente a um poste, de cabeça, mesmo em «cima» do intervalo (e junto a Quaresma e a Freitas, «colados» ao terreno); lances quase «de lotaria» junto das balizas dos tomarenses, nos dois períodos de «massacre» imposto pelos «azuis» – já que não há que incluir no «grupo» a espectacular forma como Silva Morais desviou por cima da barra um remate (em «voley») de Freitas, porque os guarda-redes estão no seu posto para isso, precisamente.

Não se esquece, tão claro está, que o desfecho de lances do tal tipo «de lotaria» depende, apenas do pé que aparece para chutar a bola. E o Belenenses talvez tenha razões para se lamentar de em nenhum daqueles momentos ter sido de um dos seus jogadores o pé que chutou o esférico. Há, porém, outros dois factos bem mais concretos do que esse: – mesmo incluída a «aflição» própria daquele instante, a defensiva de Tomar nunca transmitiu a sensação de tão perturbada e oscilante quanto a dos lisboetas; até por lógica influência desse factor e sem embargo de meia-dúzia de excelentes intervenções de Silva Morais, o perigo esteve quase sempre mais desenhado nas ofensivas dos tomarenses do que na dos lisboetas.

A defesa de Tomar jogou, em regra, na verdade, bastante bem. Com um guarda-redes arrojado e seguríssimo de mãos e com Kiki, Florival, Faustino e Zeca a formarem um «quarteto» decidido e coeso. Ao invés, há já muito tempo que não víamos tão mal a defesa belenense. Melo à parte (porque não teve culpas nos golos e esteve bem em tudo o resto), apenas Esmoriz se «salvou» de um «desastre» cujos «salpicos» atingiram Cardoso (em dificuldades diante de Pavão) e que teve o seu ponto máximo nos dois «centrais», Quaresma e Freitas, um e outro muito ligados aos golos [e] a algo mais do que eles – o que acontece a qualquer, mas foi para nós surpresa, sobretudo, no caso de Freitas, pela soberba «forma» que vem evidenciando.

Dali para a frente, houve as consequências até certo ponto naturais e com o maior contraste a registar-se entre os elementos mais fixos como «pontas-de-lança», porque Ramalho nada de positivo conseguiu (bem pelo contrário), Ernesto em pouco o superou e Camolas esteve, apenas, sensacional e não somente pelo magnífico golo que obteve e pelo outro que, com tanta visão, proporcionou a Caetano – que bem mereceu esse belo tento, ao situar-se a par de Pavão e dos quatro defesas.

A classe de Gonzalez, a progressiva melhoria de Leitão e o valor que Isidro e Vasques possuem não bastaram para evitar, mais do que a derrota, a desluzida imagem de um Belenenses que só no tal período inicial da segunda parte «explicou» a boa época que está fazendo.

Muito bem

Apesar das dificuldades oferecidas pelo terreno, o árbitro, Américo Borges (com bons auxiliares), teve uma actuação de muito mérito, mostrando serenidade, discernimento, segurança e (quando foi necessário) autoridade – caso do «cartão amarelo» bem exibido a Florival.

Assinalável a forma como «resistiu» aos pedidos do público e dos jogadores locais, quando entrou em linha de conta o tempo perdido, para só dar o jogo por findo quando estavam expirados, exactamente, os segundos 45 minutos de jogo autêntico. Aqui, um exemplo.»

(“A Bola”, 02.02.1976 – Crónica de Cruz dos Santos)