quarta-feira, janeiro 02, 2008

Emblemas Históricos (6)... SC Salgueiros

Ora aí está 2008! Desde já aproveitamos para dirigir aos senhores visitantes um ano novo pleno de alegria, saúde, paz, sucessos, amor, e sobretudo muito e bom futebol.
E na primeira visita ao Museu neste novo ano os ilustres visitantes terão a oportunidade de conhecer um pouco da história de um clube que me diz muito. Um glorioso e histórico emblema do futebol português que comecei a amar desde os meus 12/13 anos, paixão que se mantém até aos dias de hoje. Falo do Sport Comércio e Salgueiros, o popular Salgueiral.
Nascido na mui nobre cidade do Porto, mais concretamente na freguesia de Paranhos, no dia 8 de Dezembro de 1911, o Salgueiros tornou-se ao longo dos anos num dos mais populares e queridos clubes do nosso país.
Clube humilde, das classes operárias, o Salgueiral surgiu numa época em que o futebol era praticado nas ruas pelos miúdos de pé descalço, com bolas de trapos feitas a partir de meias velhas. No já referido ano de 1991 um grupo de pequenos amigos, mais precisamente o Joaninha (de seu nome completo João da Silva Almeida), o Aníbal Jacinto e o Antenor depois de assistirem a um FC Porto-Benfica, no Campo da Rainha, reuniram-se e resolveram fundar um clube de futebol.
«Embora parecendo um impulso de euforia após um escaldante FCPorto-Benfica, de facto, junto do candeeiro 1047, entre as ruas da Constituição e Particular de Salgueiros, nasceu o sonho de um grupo de rapazes, e que começou a ganhar forma e daí nasceu o Sport Grupo e Salgueiros. Embora já houvesse nome, era necessário dar forma à equipa! Com muita carolice, todas as noites após o trabalho e o jantar, os "rapazes" reuniam-se debaixo do candeeiro 1047 para debater e acertar ideias, e começar a construir o clube.
O clube oficializa-se com os primeiros jogos, mas era necessário arranjar dinheiro para comprar camisolas e umas botas para os jogadores. Estava-se próximo do Natal de 1911 e os rapazes lembraram-se de organizar um grupo de boas festas e foram cantar as janeiras aos vizinhos de porta em porta, estendendo o boné! Angariaram a modesta quantia de 2.800 reis, o que lhes permitiu comprar a primeira bola de futebol. Bola já havia, mas faltavam as camisolas. Ficou decidido que estas seriam vermelhas, tal como as do Benfica, distanciando assim do futuro rival que vestia de azul e branco, o FC Porto. Seria então de vermelho, vermelho cor de sangue e paixão que seriam as camisolas do Sport Grupo e Salgueiros até aos dias de hoje! O primeiro terreno seria na Arca D´Água, onde o clube teve como primeiros adversários o Sport Progresso, o Carvalhido Football Clube entre outros. A partir daí o Sport Grupo e Salgueiros começou a sua longa caminhada no futebol nacional. Na época de 1916/17 o clube ostentava a designação de Sport Porto e Salgueiros, esta mudança de nome deve-se a uma questão de orgulho. Em 1920 após uma profunda crise do Sport Porto e Salgueiros, o clube decidiu fundir-se com o Sport Comércio, outro clube da cidade, e surgiu então o Sport Comércio e Salgueiros como hoje conhecemos», é assim desta forma que são relatados os primeiros anos de vida do Salgueiral.



Amor à primeira vista!

Certo domingo, após de um belo repasto em família, e sem nada para fazer da parte da tarde eis que depois de muito pensar em diversas tarefas para ocupar o tempo o meu pai disse a seguinte frase: «E se fossemos ver o Salgueiral?» Teria eu os meus 12/13 anos nessa altura. Nem se pensou duas vezes perante tal convite. Então, eu, o meu pai, e o meu tio, saímos em direcção ao velhinho Estádio Engenheiro Vidal Pinheiro, a casa do popular clube, onde aí assistimos a um Salgueiros – Estrela da Amadora, referente à temporada 1990/91.
Recordo esse dia como se fosse hoje. As bancadas cheias, a emoção e a paixão vermelha estavam bem vivas aos olhos de todos. Adeptos apaixonados e ferrenhos pelo seu clube. Uma atmosfera única e cativante.
De imediato fui contagiado por aquele ambiente. De tal maneira que comecei a vibrar com cada jogada que aquela grande equipa do Salgueiros fazia. Ainda me lembro da frase que o meu tio disse quando me viu emocionado e empolgado com...o Salgueiros: «Ui, temos aqui um novo salgueirista!». Tinha razão, foi amor à primeira vista. Fiquei louco com aquele ambiente, com aquele clube, com aqueles adeptos, com aqueles jogadores.
Desde logo fixei os nomes dos craques do Salgueiral. O meu preferido de imediato foi o Nikolic, ou Niko como carinhosamente era tratado pela massa associativa do clube, um jugoslavo que jogava com o número 10, um verdadeiro artista com a bola nos pés. Na baliza actuava o grande Madureira, tendo à sua frente uma defesa onde pontificavam nomes como Pedro Reis (um salgueirista de coração), ou o “barbas” Djoncevic. No meio campo o capitão Rui França comandava as tropas, tendo ao seu lado nomes como Álvaro Gregório e Leão. Na frente de ataque estava um dos meus ídolos de infância, de seu nome Vinha, um calmeirão cabo-verdiano, algo desengonçado, mas com um coração e uma alma enorme. Homens treinados por um grande senhor do futebol internacional, Zoran Filipovic.
Nesse dia eu senti e percebi o que era a ALMA SALGUEIRISTA, o espírito, a mística, deste grande clube.
Na semana seguinte a este jogo entrei para a grande família salgueirista ao fazer-me sócio do clube. De lá para cá vivi muitas alegrias e tristezas no meu apoio incondicional ao Salgueiros, se bem que nos últimos anos foram mais as tristezas do que as alegrias.


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Vídeo do resumo do encontro Salgueiros - Estrela da Amadora referente à temporada 90/91, o jogo que despoletou a minha paixão pelo clube de Paranhos 

O rico palmarés

São muitos os feitos que o Salgueiros vem coleccionando desde a sua fundação. No futebol, a modalidade rainha do clube, são de destacar as 21 presenças no escalão maior do futebol português, sendo que a melhor classificação foi alcançada precisamente na época em que começou a minha paixão pelo clube, 90/91, um fantástico 5º lugar, que deu acesso à Taça UEFA da temporada seguinte. Nesta competição o Salgueiros defrontaria o Cannes, de França, que na altura tinha nos seus quadros um jovem que anos mais tarde se haveria de tornar num dos maiores jogadores de todos os tempos do futebol mundial, de seu nome Zidane. O primeiro jogo europeu do Salgueiros foi realizado em casa emprestada, no vizinho Estádio do Bessa, tendo o resultado cifrado-se em 1-0 a favor dos locais, com Jorge Plácido a fazer esse golo histórico. Quinze dias mais tarde, em Cannes, o resultado iria repetir-se, só que a favor dos franceses, tendo a eliminatória decidido-se na marcação de grandes penalidades onde o conjunto do sul de França seria mais feliz.
Na Taça de Portugal o Salgueiros participou em 44 ocasiões, tendo como melhor resultado a presença nos quartos-de-final da prova em 51/52.
Em 37 presenças no campeonato da 2ª divisão alcançou por duas vezes o título de campeão, em 56/57 e 89/90. Participou ainda por duas vezes no nacional da 3ª divisão.
O maior número de vitórias na 1ª divisão (14) foi alcançado nas épocas de 93/93 e 96/97. Neste escalão a vitória mais expressiva foi obtida em 94/95, ante o Estrela da Amadora por 6-0, em Vidal Pinheiro.
O jogador que mais vezes actuou com a camisola do Salgueiral na 1ª divisão foi o defesa-central Pedro Reis, com 340 jogos. Abílio, foi o melhor marcador do clube nesta divisão, com 30 tentos.
Jogadores históricos

Foram muitos os jogadores que passaram pelo clube, muitos dos quais deixaram o seu nome escrito a letras de ouro na história do emblema de Paranhos. Já aqui falei de Nikolic, Vinha, Rui França, Pedro Reis, Madureira e Abílio, mas outros houveram que atingiram o patamar da fama do futebol internacional, casos de Deco (actualmente no FC Barcelona), Sá Pinto (representou o Sporting e a selecção nacional com distinção), ou Silvino (um dos melhores guarda-redes da história do futebol português). Chico Fonseca, Pedro Espinha, Chao, Jorginho, Mike Walsh, Edmilson, Miklós Féher, Santana (bi-campeão europeu pelo Benfica na década de 60), e os treinadores Zoran Filipovic, Octávio Machado, Mário Reis, e Carlos Manuel têm também um lugar na história do clube.

O triste presente...

Actualmente o Salgueiros vive dias de tristeza, e de angústia. O clube está moribundo, praticamente morto. Com a extinção do futebol profissional há cerca de três anos atrás, na sequência de uma grave crise financeira, o clube hoje em dia apenas comporta, no futebol, os escalões de formação. O polo aquático tem sido a modalidade rainha nos últimos tempos, com a obtenção de vários títulos nacionais.
O futuro é uma incógnita para a família salgueirista, que vivem na incerteza se o clube irá ou não fechar as portas a curto prazo. No entanto, a esperança é a última coisa a morrer, e tal como eu são muitos os verdadeiros salgueiristas que sonham ver de novo as camisolas vermelhas a fazer furor nos relvados portugueses ao nível do futebol profissional.
Legenda das fotografias:
1- Emblema do SC Salgueiros
2- Uma imagem do museu do clube
3- A equipa de 56/57 que se sagrou campeã nacional da 2ª divisão
4- Um "onze" dos anos 80
5- Um dos últimos plantéis profissionais do Salgueiros, o da temporada 96/97
6- O luso-brasileiro Deco, um mágico que já vestiu as cores do Salgueiros
7- O já extinto Estádio Eng.Vidal Pinheiro

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